Sunday, 14 August 2022

Igreja da Graça

A Igreja da Graça situa-se numa alta posição privilegiada de Lisboa. Orientada a Poente, o seu adro constitui um miradouro natural da cidade; o perfil da sua torre, com a extensão conventual, a Norte; a fachada do antigo Convento, contígua à da igreja com orientação a Sul.


A igreja da Graça, tal qual hoje se encontra, é uma reedificação da segunda metade do século XVIII, completada com reconstruções e restauros do final do século passado para os princípios do actual. integrou-se no convento dos religiosos eremitas descalços de Santo Agostinho, que para o sítio de Almofala vieram em 1271, transferidos do seu primitivo eremitério do Monte de S. Gens. A primeira igreja, certamente modesta, foi substituída por um majestoso templo, de três naves, dos maiores e mais ricos de Lisboa, pela diligência do vigário perpétuo da Ordem, o espanhol Frei Luís de Motoya, durando as obras nove anos (1556-1565). 
Logo de começo esta Casa religiosa teve relativa imponência na Igreja, e largueza no Convento que —  acomodava 1.600 pessoas — intitulado de Santo Agostinho até 1305; nesse ano todos os Conventos da Ordem passaram a ter a invocação de N. Senhora da Graça.

Igreja da Graça [c. 1900]
Panorâmica sobre a zona da Graça tirada do Castelo de São Jorge
Largo da Graça; Calçada da Graça
O conjunto constituído pelo convento e pela Igreja remonta ao início da nacionalidade, ganhando maior importância no século XVI.
Fotógrafo não identificado, in CPF
Igreja da Graça [c. 190-]
Panorâmica sobre a zona da Graça tirada do miradouro junto à Rua Damasceno Monteiro
Largo da Graça; Calçada da Graça; à dir. nota-se a Igreja de Santa Cruz do Castelo
Da ordem de Santo Agostinho, a Igreja da Graça situa-se no antigo local conhecido por Almofala, onde D. Afonso Henriques acampou com as suas tropas, durante o cerco a Lisboa em 1147.
Paulo Guedes, in AML

No segundo quartel do século XVIII a igreja beneficiou de restauros importantes, dirigidos pelo arquitecto Custódio Vieira; pouco tempo depois, pelo Terramoto a igreja foi quase totalmente arruinada, assim como o convento, começando em 1765 a reconstrução, que equivale a uma reedificação integral, sob o risco de Manuel Caetano de Sousa, e prolongando-se, numa primeira fase, até 1785. No final do século passado [XIX] tratou-se novamente de completar a igreja segundo o plano reedificador, aliás alterado, de Caetano de Sousa, e de a restaurar no que fora feito anteriormente; estas obras duraram de 1896 a 1905.

Igreja e convento da Graça [1960]
Panorâmica sobre a zona da Graça tirada do Castelo de São Jorge
Largo da Graça; Calçada da Graça
A Fachada Principal da igreja, (século XVIII) é composta de três corpos, unidos por frontão curvilíneo, continuados no mesmo alçado por um lateral a Sul. Destaca-se recuada, ao centro alto do corpo da fachada conventual, a torre setecentista (Manuel da Costa Negreiros).
Armando Serôdio, in AML
Convento da Graça, claustro nobre [1954]
Largo da Graça; Calçada da Graça
Este claustro, que se pode classificar como integrado no estilo toscano, é dos mais interessantes da Lisboa conventual desaparecida. Apresenta cinco arcadas de volta perfeita, assentes sobre colunas duplas de vão aberto. No segundo pavimento notam-se em cada lado do quadrado cinco elegantes janelas janelas, coroadas de ática, com placas de mármore rosa nos intervalos dessas janelas. No alto, corre uma balaustrada com adornos flamejantes.
Mário Novais, in AML

A igreja apareceu então, aparentemente ostentosa, mas com um merecimento artístico muito aquém do que tivera nos séculos anteriores.
A decorativa torre da igreja, assente sobre o corpo da fachada do convento, pertence à reedificação que de poucos anos precedeu o Terramoto, e deve-se a Manuel da Costa Negreiros, que morreu em 1750.
A igreja da Graça é, no seu interior, das mais vastas de Lisboa, com boa expressão arquitectónica, na qual predominam, porém, os materiais pobres (madeira e estuques).
De uma só nave, possui o corpo da Igreja quatro capelas por lado. Pela direita: S. Tomaz, N. Senhora de Fátima, Santa Rita e S. José, e Santo António com S. Sebastião; pela esquerda: N. Sr.ª do Rosário da Verónica, Santa Mónica e N. Sr.ª das Dores, Sagrado Coração e Santíssimo.
O tecto do corpo da Igreja é dividido em cinco secções e nelas podes ver pinturas de João Vaz (1903) , representando as cinco primeiras frases da «Avé-Maria»; trabalhou também nele o decorador Elói Ferreira do Amaral.
Igreja da Graça, nave e capela-mor [1962]
Largo da Graça; Calçada da Graça
De planta em cruz latina, composta por nave de cinco tramos, definidos por oito capelas
laterais profundas e anexos, transepto saliente, capela-mor, tendo, em eixo, os corpos de
duas capelas e os de acesso à tribuna; sacristia desenvolvida perpendicularmente ao lado
esquerdo da capela-mor e, no lado direito, as dependências da Irmandade do Senhor
dos Passos.
Armando Serôdio, in AML

A Sacristia — considerada «monumento nacional» (11-12-918) — , dependência de interesse na igreja, antiga Capela das Relíquias; e, nela:

O tecto, em pintura larga de perspectiva arquitectónica, representando a Assunção de Nossa Senhora, pintura identificada de Pedro Alexandrino, e tendo nos topos os retratos de Frei António Botado e do irmão deste, Mendo de Foios Pereira, custeadores das obras deste quadro; dois grandes altares, em mármore, um em cada topo, com coroamento arquitectónico, situando-se no altar do fundo um grande relicário de madeira dourada [esq. na imagem abaixo], e no do lado da entrada o túmulo, em rico sarcófago de mármore, com inscrição de Mendo de Foios Pereira, que foi secretário de estado de D. Pedro II; sete painéis de azulejos historiados, em silhares circundantes (princípio do século XVIII), representando passos da vida da Virgem.

Igreja da Graça, sacristia [1960]
Largo da Graça; Calçada da Graça
A Sacristia é monumento nacional por excelência. Os seus azulejos são de tradição de seiscentos. É hoje um documento frio e sombrio, com valor mas sem expressão. As suas riquezas  de significado histórico, estão hoje quási todas no Museu de Arte Antiga.
Armando Serôdio, in AML

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. III, p. 41, 1938.
idem, Inventário de Lisboa: Monumentos histórico, 1946.

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