Saturday, 5 March 2016

O Arco de Santo André, o Palácio dos Condes da Figueira e uma lenda

   «Estamos agora no local onde foi o Arco de Santo André, demolido em 1915 [5 de Junho 1913] [1], para dar passagem aos carros eléctricos, ou melhor: para a montagem dos fios aéreos. Era aqui a Porta de Santo André da «Cêrca Nova» de D. Fernando; as exigências do trânsito converteram a Porta, certamente de reduzidas linhas, em Arco, e êste acabou por se ir embora também.
 
Arco de Santo André,  visto do trecho final da Costa do Castelo, [ant. 1913]
Palácio dos Condes de Figueira, Antigo Largo de Santo André, hoje Largo Rodrigues de Freitas; 
Calçada da Graça
José Artur Bárcia, in A.M.L.
 
   Sôbre o Arco corria um Passadiço que ligava o edifício, hoje de esquina, ao Palácio dos Condes da Figueira, êsse grande prédio que aí estás vendo, na esquina oposta para a Calçada da Graça, com seu portal nobre de estilo barroco seiscentista, a sua rijeza de aspecto, uma indiscutível austeridade arquitectónica exterior.

Arco de Santo André,  visto do trecho final da Costa do Castelo, [ant. 1913]
Antigo Largo de Santo André, hoje Largo Rodrigues de Freitas; Calçada de Santo André
 À direita, casa senhorial que integra o Portal do 6º Passo da Procissão dos Passos da Graça mandado erigir em 1622
Fotógrafo não identificado, in A.M.L.
     
Já agora devo dizer-te que êste Palácio, antes de 1755, pertencia a Felix José Machado da Casa dos «Mendoças da Avé Maria», e o brazão que ostenta o portal ainda é dos Mendoças. Nos .Mendoças entroncaram os Figueiras, cujo primeiro Conde foi D. José Maria Rita Castelo Branco Correia e Cunha de Vasconcelos e Sousa, casado em primeiras núpcias com uma senhora do morgadio da Figueira, e em segundas, com uma senhora da família Mendoça. (...)
    Êste portal sacro, encostado ao cunhal do desaparecido Arco, de um vermelho de capa de confraria, foi o de um dos passos da procissão dos Passos da Graça, que endoidecia Lisboa da Mouraria ao Rossio e S. Roque. Esta procissão, que acabou pela República, e datava da Quaresma de 1587, teve origem numa lenda que..

Arco de Santo André,  Palácio dos Condes de Figueira [1907]
Antigo Largo de Santo André, hoje Largo Rodrigues de Freitas;
Calçada de Santo André
Fotógrafo não identificado, in A.M.L.

   Mas escuta em um minuto, um minuto só, a lenda. 
   Um peregrino foi certo dia bater à Casa dos Padres de S. Roque, a pedir pousada. Não o receberam. Foi depois bater ao Convento da Graça; ali foi acolhido. Entrou, mas quando foram por êle — sumira-se. Em seu lugar estava uma imagem do Santo Cristo. Houve uma demanda para se saber a qual das casas religiosas pertencia a imagem; ganharam os gracianos contra os jesuítas. Mas estes ficaram com o direito de possuir a imagem «um dia só», durante a roda do ano. Se demorasse mais um dia em S. Roque-a Graça perdia a posse. E assim em certa quinta-feira da Quaresma, à tarde, o Senhor dos Passos da Graça ia para S. Roque, e regressava na tarde de sexta-feira. 
    Metia tropa e as Majestades. Iam devotos descalços-pés em sangue-sob o andor, a cumprir promessas. Esta inocência piedosa acabou, por ordem real, em 1879; as promessas, porém, continuaram, e com elas a procissão lisboeta, uma das mais populares do século passado [séc. XIX].» [2]
Arco de Santo André,  [1907]
Calçada de Santo André;Costa do Castelo (esq.)Igreja e Igreja de Santa Cruz do Castelo
Fotógrafo não identificado, in A.M.L.


 [1]  (ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. III, pp. 12-14) 
 [2]   LISBOA revista municipal. ANO XLIV - 2.• SÉRIE - N.º 4 - 2.º TRIMESTRE DE 1983

3 comments:

  1. manifico! só um reparo, a igreja que se vê na ultima foto não é a da Graça mas a de Santa Maria do Castelo.

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  2. Tem razão, lapso meu. Grato pelo alerta. Vou alterar o verbete.

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  3. Um pequeno reparo. A procissão e a Irmandade não acabaram com a República. Ainda hoje se realiza anualmente (2016).

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