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Wednesday, 10 July 2019

Convento do Corpo Santo

Falemos do Corpo Santo 
De acordo com o olisipógrafo Norberto de Araújo  «A origem deste nome está no culto de São Teimo, ou seja de S. Pedro Gonçalves Telmo, padroeiro dos pescadores, ao qual os devotos chamavam «Corpo Sant»; a imagem venerava-se numa ermidinha quinhentista de Nossa Senhora da Graça que ficava no princípio da Travessa do Cotovelo, já na proximidade do Largo actual, do lado norte. 
O nome de Corpo Santo passou ao sítio, ao Arco, ao Largo, e ao Convento dos dominicanos.

Igreja do Corpo Santo |191-|
Largo do Corpo Santo visto da Rua do Arsenal; Rua do Corpo Santo
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

O Convento, com sua Igreja, dos frades dominicanos irlandeses, data, neste sítio, de 1659, fundado por Fr. Domingos do Rosário, irlandês, que foi bispo eleito de Coimbra. O orago do Convento era de S. Domingos e de Nossa Senhora do Rosário, mas logo foi chamado do Corpo Santo — e até hoje. Existira antes (1629) à Cotovia, e desde 1633 no Pátio das Comédias das Fangas da Farinha, perto da Boa Hora. 
O Terramoto arruinou completamente o Mosteiro e Igreja dominicana no Corpo Santo, e foi depois erguida a Igreja que aí temos à vista, anexa à Casa religiosa, com entrada pela Rua de S. Paulo do Corpo Santo, e que não se distingue exteriormente.
A Igreja do Corpo Santo avulta neste Largo com sua fachada trivial, bem conjugada no conjunto muito pombalino do local; tem, como sabes, uma frequência escolhida, tocada de distinção, mas não tanto, ou tão ostensivamente, como a do Colégio dos Inglesinhos. 
Por dentro é original.

Igreja do Corpo Santo |191-|
Largo do Corpo Santo visto da Travessa do Cotovelo; Rua do Corpo Santo
Garcia Nunes, in Lisboa de Antigamente

A Igreja do Corpo Santo é das poucas de Lisboa de forma octogonal, uma face das quais corresponde à entrada, sob arco de volta abatida que sustenta o côro.
O teto é em cúpula, pintada de azul estrelado, e encimado por lanternim. [...]
Tem um ar discreto, a-pesar-de tudo muito português, esta Igreja dos dominieanos do Corpo Santo.
__________________
Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIII, pp. 35-36, 1939.

Tuesday, 29 March 2016

Palácio dos Côrte Reais, ao Corpo Santo

D’aqui nos dirigimos ao largo do Corpo Santo onde temos um templo digno de attenção. Sabem os nossos presados e esclarecidos leitores que este largo se chamou também — do Corte Real, por estar ali o enorme palacio de Cbristovam de Moura Corte Real, homem tristemente celebre pela sua traição á patria. [Vidal A.: 1900]

 
 «Falemos do Corpo Santo».   
   De acordo com o olisipógrafo Norberto de Araújo  «A origem deste nome está no culto de São Teimo, ou seja de S. Pedro Gonçalves Telmo, padroeiro dos pescadores, ao qual os devotos chamavam «Corpo Santo»; (...). O nome de Corpo Santo passou ao sítio, ao Arco, ao Largo, e ao Convento dos dominicanos. Mas chegamos ao Corpo Santo, Largo cuja situação não é precisamente, quer em área quer em orientação, a que foi antes de 1755; a Igreja era mais avançada do que hoje é, e o Convento, desaparecido, situava-se pelo lado sul, ocupando uma boa parte do largo.
Aqui perto teria existido um postigo (porta), ou simples serventia dos Côrtes Reais. Porta do Corpo Santo ou do Cata-que-farás, ou Arco dos Cobertos, localizava-se em frente do actual Largo, na Travessa do Cotovelo

A Ribeira das Naus e o antigo Paço da Ribeira (torreão de autoria de Filipe Terzi, por ordem de D. Filipe II) [c. 1750]
Ao fundo nota-se  o Palácio dos Côrte Reais, ao Corpo Santo
A view of the palace of the King of Portugal at Lisbone
gravura água-forte aguarelada
, Paris chez Maillet 
   
Aqui, na esquina da Rua do Arsenal, onde assenta ainda o casarão fabril abandonado, vazio e silencioso, depois que o Arsenal se foi para o Alfeite, existiu desde 1585, com seus quatro imponentes torreões o celebrado Palácio dos Côrte Reais, melhor diremos de Cristóvão de Moura, Marquês de Castelo Rodrigo, e que desapareceu pelo Terramoto.»
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIII, pp. 34-35, 1939)

Palácio dos Côrte Reais
«A residência do Marquês de Castel Rodrigo situada à beira-mar, é das mais magníficas, e possui quatro corpos, com belas Torres com galerias onde se pode passear & que se voltam para o Mar.»(Monconys, 1628)

Edificado em 1585 por Cristóvão Moura Corte-Real, Marquês de Castelo Rodrigo e partidário da Dinastia Filipina, situava-se na margem do rio Tejo junto ao Largo do Corpo Santo e comunicava com o Paço da Ribeira através de um passadiço. Após a Restauração da Independência em 1640, foi confiscado pela Coroa e tornou-se residência do Infante D. Pedro, futuro rei D. Pedro II, e também das rainhas consortes D. Francisca Isabel de Sabóia e de D. Sofia de Neubourg.
Mais tarde, D. Pedro II passou o palácio para a Casa do Infantado, pertencente ao seu segundo filho. Um incêndio destruiu o edifício em Julho de 1751, e o pouco que dela restava terá desaparecido com o terramoto de 1755.

Fragmento da Planta de Lisboa
O traçado e dizeres a preto correspondem à actualidade.
O traçado e dizeres a vermelho correspondem à Lisboa anterior ao Terramoto de 1755.
O traçado a azul corresponde ao Palácio dos Côrte Reais.

Sunday, 12 February 2023

Largo do Corpo Santo

De acordo com o olisipógrafo Norberto de Araújo «A origem deste nome está no culto de São Teimo, ou seja de S. Pedro Gonçalves Telmo, padroeiro dos pescadores, ao qual os devotos chamavam «Corpo Santo»; a imagem venerava-se numa ermidinha quinhentista de Nossa Senhora da Graça que ficava no princípio da Travessa do Cotovelo, já na proximidade do Largo actual, do lado norte.
O nome de Corpo Santo passou ao sítio, ao Arco, ao Largo, e ao Convento dos dominicanos. [Araújo: 1939]

Largo do Corpo Santo |entre 189- e 1901|
Perspectiva tomada da Rua Bernardino Costa, antiga do Corpo Santo (antes do Largo do Corpo Santo); alfaiataria A. P. Rego na esquina com a Rua do Arsenal, antiga do Arco dos Cobertos; ao fundo, a Tv. do Cotovelo.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Continuavam [as muralhas da Cerca Fernandina] depois para as Portas do Corpo Santo, primeiro chamadas Postigo do Cata-que-Farás. Logo adiante eram as Portas dos Cobertos, e as dos Cortes Reaes, contíguas ao Palácio Corte Real, que era no local das actuais oficinas do arsenal da marinha, largo do Corpo Santo e parte da rua do Arsenal, e que foi incorporado nos bens da corôa depois da Restauração. [Vidal: 1900]

Largo do Corpo Santo com a Rua do Arsenal |c. 189-|
Chaminé das oficinas do Arsenal de Marinha, carro do Chora e, à dir., o abrigo em ferro destinado a cavalos e trens de viação.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Wednesday, 29 March 2017

Panorâmica do Largo do Corpo Santo e do Cais do Sodré

Deste Largo do Corpo Santo fala-nos Norberto de Araújo nas suas Peregrinações: «A origem deste nome está no culto de São Telmo, padroeiro dos pescadores, ao qual os devotos chamavam "Corpo Santo"; a imagem venerava-se numa ermidinha quinhentista de Nossa Senhora da Graça que ficava no princípio da Travessa do Cotovelo, já na proximidade do Largo actual, do lado norte. O nome de Corpo Santo passou ao sítio, ao Arco, ao Largo, e ao Convento dos dominicanos.» [ARAÚJO:1939]


Panorâmica do Largo do Corpo Santo, do Cais do Sodré e do Aterro [post. 1895]
O 3º prédio a seguir ao Largo na direcção da Praça do Duque de Terceira (Cais do Sodré) é o do Hotel Central.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Conta Alfredo Mesquita que Trindade Coelho (1861-1908) «Farto de duas horas aborrecidas de intriga na Arcada, e de vêr os fatos de algibebe, entalando os pretendentes da província que por ali enxameiam, bocejando e lendo os cartazes, á espera do "Sr. Ministro"» mete pela Rua do Arsenal em direcção ao Cais do Sodré, passa o Largo do Corpo Santo «onde, sob um alpendrico de ferro, a Sociedade Protectora dos Animaes metteu ao abrigo do tempo os cavallos e os trens da viação, e entro afinal no Caes do Sodré, passando logo de entrada, em frente da filleira pitoresca das carroças de aluguer, cujas alimarias, cavalicagem de todo o feitio, atreladas, tasquinham á minha esquerda a palha dos ceirões, relinchando, ora um ora outro, ás vezes uns poucos, a alguma egua mais luzidia que passa, trotando, sob um calção de pampilho.»
 (MESQUITA, Alfredo, Lisboa, 1903)

Vista sobre o Largo do Corpo Santo [c. 189-]
À esquerda,  o Arsenal da Marinha
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Ficou célebre, na crónica lisboeta, o Hotel Central ao Cais do Sodré (edifício que se pode ver parcialmente na 1ª foto). Eça de Queiroz aí se hospedou e aí «hospedou» algumas das suas personagens. É o caso de Carlos da Maia, que assomando a uma janela do referido hotel num «dia d'inverno suave e luminosos», se depara com esta vista «sobre o rio, no céu largo, a tarde morria, sem uma aragem, n'uma paz elysea, com nuvenzinhas muito altas, paradas, tocadas de cor de rosa; as terras, os longes da outra banda já se iam afogando n'um vapor aveludado, do tom de violeta; a água jazia liza e luzidia como uma bela chapa d'aço novo; e aqui e alem, pelo vasto ancoradouro, grossos navios de carga, longos paquetes estrangeiros, dois couraçados ingleses, dormiam, com as mastreações imóveis, como tomados de preguiça, cedendo ao afago do clima doce...»
(QUEIROZ, Eça de, Os Maias, 1888)


Largo do Corpo Santo [1935/36 ou 1942/43]
À esquerda, junto ao Arsenal da Marinha, o abrigo para animais e carruagens da Sociedade Protectora dos Animais.
As datas prováveis para a imagem foram estabelecidas levando em conta os cartazes para a reeleição do General Carmona, afixados na parede do lado direito do edifício que faz esquina com a Rua Bernardino Costa.
Estúdio Horácio Novais, in Lisboa de Antigamente

Sunday, 12 July 2015

Igreja do Corpo Santo

A presente igreja de Corpo Santo não é a original, que foi destruída pelo terramoto de 1755. A presente igreja foi construída em 1770. Hoje, o Convento de Nossa Senhora do Rosário e a sua igreja do Corpo Santo encontram-se precisamente no Largo do mesmo nome, junto ao Cais do Sodré.

Largo do Corpo Santo [Início séc. XX]
Igreja do Corpo Santo
Paulo Guedes, in Lisboa de Antigamente

Foi no Séc. XVII que os dominicanos irlandeses, de baixo da liderança do padre Dominic O’Daly O.P., fundaram em Lisboa um colégio e uma igreja, cuja finalidade era a de receber, hospedar e formar jovens irlandeses que queriam ser ordenados sacerdotes, o que era impossível no seu país. Após a sua ordenação voltavam para a Irlanda clandestinamente. Nessa altura o seminário era conhecido como o Seminário dos Mártires porque muitos dos padres ordenados em Portugal vieram a enfrentar o martírio da Irlanda.

Igreja do Corpo Santo, altar-mor [Início séc. XX]
Paulo Guedes, in Lisboa de Antigamente

O conjunto da construção incluía o convento, a igreja e o colégio. Em 1856, havendo já na Irlanda um clima de paz com a Igreja Católica Romana, os frades irlandeses venderam o convento e parte do colégio para erguerem uma casa de estudos em Tallaght, perto de Dublin. E foi no Corpo Santo que, em 1916 e com grande pompa, a Ordem Dominicana, em Portugal, celebrou os 700 anos da sua fundação.
Com a redução e deslocação da comunidade inglesa, em 1989 os frades irlandeses foram residir para S. Pedro do Estoril, deixando este convento e igreja a uma comunidade dominicana portuguesa.

Friday, 1 June 2018

Igreja de Santo Estêvão

A igreja de Santo Estêvão — considerada «monumento nacional» (27/8/1917) — é uma reedificação do segundo quartel do século XVIII. por sua vez objecto de largo restauro depois do Terramoto (1778). na frontaria e em parte do interior. Está situada numa elevação, na qual se construiu um vasto adro amparado a uma muralha.


A paróquia de Santo Estêvão, das mais antigas e representativas de Lisboa, remonta, por noticia de um documento, a 1188; existia seguramente o templo neste lugar em 1279, possivelmente mesmo na primeira metade do século, reinado de D. Afonso II. A primitiva igreja, certamente modesta, foi reedificada em 1316 e em 1548, por efeito dos danos causados por sismos nos século XIV e XVI, e teria então sido ampliada e revestida de grandeza, pois sabe-se que ostentou cinco naves — por ventura apenas divisões teóricas demarcadas por colunas de apoio, mas que representariam largueza na traça arquitectónica.

Igreja de Santo Estêvão, frontaria |c. 1900|
 Num terreiro sobre o Tejo, Santo Estêvão.
Panorâmica tirada do miradouro de Santa Luzia
José A. Bárcia, 
in Lisboa de Antigamente

Esta traça desapareceu completamente numa reedificação radical de 1788-1740, que deu ao templo outra planta, fazendo recuar a capela-mor sobre o troço da Rua, a Sul, ainda hoje incluído na Largo de Santo Estêvão. Além da reconstrução posterior ao Terramoto, concluída em 1775, a qual não lhe alterou a área nem a configuração, Santo Estêvão beneficiou de restauros de 1888 a 1848, e de reparos já no actual século [XX].



Igreja de Santo Estêvão, fachada |1898|
Largo de Santo Estêvão
Machado & Souza, in Lisboa de Antigamente


Igreja de Santo Estêvão, fachada |1939|
Largo de
Santo Estêvão
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente



Ora contempla a fachada, fria, mas expressiva — convida-nos Norberto de Araújo. Abre por três pórticos, dos quais o central, sobrepujado da data da reconstrução: 1773, é o mais largo e alto, todos coroados de áticas. O corpo central, onde se eleva um. frontão simples, com um óculo iluminante, avança um pouco da fachada, deixando assim os dois .curtos corpos extremos — sabre um dos quais, do lado nascente, assenta a torre — um pouco recuados. Três altos janelões e outras tantas janelas quadradas abrem-se no corpo central, e duas por lado nos corpos subsidiários.


Igreja de Santo Estêvão |1944|
 

A traseira da capela-mor, saliente do corpo do edifício, apoiada sobre grossa cachorrada, construída em 1733-1740, e na qual, ladeando a passagem do Largo de Santo Estêvão, ao alto das escadinhas, se vê um painel de azulejo com a representação da Eucaristia, legenda latina, tirada dos Salmos, e uma data, 1723.
J. C. Alvarez, 
in Lisboa de Antigamente


No Interior, a igreja é de forma octogonal, como as do Menino Deus, Santo Amaro, Penha de França, Santo Amaro). Assinala-se:
O Corpo da igreja, revestido de materiais nobres, cujas faces do octógono são divididas por pilastras caneladas, e nele:  
O tecto, pintado a claro-escuro, sobre estuque, simulando nervuras de artesão rematadas por fecho;  
O coro, apoiado em pilastras de quatro faces;
Seis capelas (três por cada lado) correspondendo a outras tantas faces do octógono (as outras duas faces correspondem ao sub-coro e ao arco da capela-mor.

Igreja de Santo Estêvão, interior |1963|
Na
Capela-mor destaca-se a coroação ou remate, sobre o trono, composição escultórica, em mármore alvíssimo, que representa um Cristo crucificado ladeado por dois serafins, obra de José de Almeida.
Armando Serôdio, 
in Lisboa de Antigamente

A Capela-mor, sector nobre do templo, toda de mármore, fazendo lembrar a da Igreja de S. Domingos, salvas as dimensões, e nela: a abóbada de aresta, em cujas faces se vêem os Evangelistas, e ao centro o símbolo da Eucaristia (factura posterior à dos Evangelistas, ou mal restaurada); o altar-mor, ostentoso, e, nele, o frontal e banqueta em embutidos florentinos; a guarnição, de duplas colunas salomónicas de mármore rosa da Arrábida, apoiadas em bases ricamente lavradas; a coroação ou remate, sobre o trono, composição escultórica, em mármore alvíssimo, que representa um Cristo crucificado ladeado por dois serafins, obra de arte pura de José de Almeida, com colaboração de Jerónimo da Costa, e que foi executada — parece — para o mosteiro de Mafra, onde chegou a estar colocada, e transferida depois para esta igreja; uma imagem de Santo Estêvão, escultura de Nicolau Pinto.

Igreja de Santo Estêvão |c. 1900|
 Cruzeiro de Santo Estêvão junto da igreja com o mesmo nome.
José A. Bárcia, in Lisboa de Antigamente

No adro da igreja eleva-se um Cruzeiro, seiscentista (que deve ter substituído um muito mais antigo), com uma legenda no soco: «Este sinal de redenção, que um de voto aqui fez pôr, pede com devoção se louve o Redentor. Pelas Almas um Padre. Nosso e uma Avé-Maria. 1669». A cruz, ao alto, não é da época; partida a antiga há uns trinta anos foi depois substituída pela que alveja agora sobre a muralha.
 
Igreja de Santo Estêvão |1963|
 Cruzeiro de Santo Estêvão junto da igreja com o mesmo nome.
Armando Serôdio, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. X, pp. 85-87, 1939.
id., Inventário de Lisboa, 1955.

Sunday, 3 June 2018

Palácio dos Azevedos Coutinhos e o Arco do Chanceler

O Palácio dos Azevedos Coutinhos, ocupa uma área contida entre a Rua de Santo Estêvão, o Largo do mesmo nome (escadinhas de curiosa perspectiva), e o Largo do Chanceler, e assenta em parte sobre o Arco do Chanceler.


Não sei em Lisboa de cousa assim — diz-nos o ilustre Norberto de Araújo — como esta Alfama se multiplica de aspectos raros, em mistérios de germe urbanista, de imprevistos e de quadros locais que nunca se assemelham, mas de que nossos olhos se vão fatigando, acabamos, em saturação, por não fixar um apontamento. Fica-se entontecido. Não será assim, Dilecto?
O enquadramento é gracioso, seja qual for o conceito que nós possamos ter de beleza nestes quadrinhos bairristas, onde — e é o caso neste sítio — o pitoresco, o religioso, o fidalgo se dão mãos, para que Alfama se represente nos três Estados. 

O Palácio de Santo Estêvão, dos Azevedos Coutinhos é uma fundação seiscentista, de tipo nobre, modesto; envolto num pitoresco de cenário, único em Lisboa, e, a despeito da sua mediania arquitectónica, pode ser considerado um espécime curioso da cidade, como tal, merecedor de relevo nesta nota histórica.

Palácio Azevedo Coutinho [190-] 
Largo (Miradouro) Escadinhas de Santo Estêvão; Arco do Chanceler; Rua de Santo Estêvão
Ângulo do edifício sobre Santo Estêvão, distinguindo-se o terraço primitivo do andar nobre
com paredes ao fundo de azulejos historiados, de delicioso efeito tomado do Largo.
Alberto Carlos Lima, in Lisboa de Antigamente

Ainda no século XVII uma grande parte dos terrenos que rodeiam a primitiva igreja de Santo Estêvão era do domínio directo do priorado ou da irmandade da paróquia. No local onde se levantou o solar existiam na primeira metade do seiscentos umas atafonas e depois umas casas — o núcleo primitivo do solar — «por trás da capela-mor sobre o Arco», casas que pertenciam a um Domingos Preto, descendente, talvez filho, de «Simão Gonçalves Preto, chanceler-mor que foi destes reinos», segundo atestava em 1695 o cura de Santo Estêvão, Padre Cristóvão Prestes da Silveira, num documento traslado que lhe foi requerido, e no qual há referência a casas no local em 1647, o que não significa que não as houvesse antes, pois um documento existente no arquivo da Câmara Municipal demonstra que, em 1688, aquelas casas passaram a um Tomé de Mesquita. De admitir é que tivesse sido o chanceler Simão Gonçalves Preto o fundador da casa, e duvida parece já não subsistir de que fosse dele que derivou a denominação do «Arco do Chanceler».

Palácio Azevedo Coutinho [1899]
Largo de Santo Estêvão; Rua de Santo Estêvão
A Fachada, de duas faces do corpo Sul do edifício contíguo
inferiormente ao principal, fazendo esquina para as escadinhas
e Rua de Santo Estêvão, caracterizado por um sólido cunhal de
cantarias sobrepostas, com algumas janelas (de sacada) e portas de habitações
pobres; sobre este corpo assenta um terraço, com cortina de grades seiscentistas.

Machado & Souza, in Lisboa de Antigamente

O palácio, propriamente dito, recebeu dano pelo Terramoto, pois se vê que uma parte do edifício é de reconstrução posterior ao núcleo primitivo, este representado pela frontaria, pelo ângulo do terraço e por parte da face sobre a estreita Rua de Santo Estêvão. Data, pois, de 1847 o senhorio dos Azevedos Coutinhos no solar e casas de Santo Estêvão. 
Entre 1847 e 1867, período durante o qual a propriedade foi administrada por João António de Azevedo Coutinho, este fez «Obras reais» na casa, acrescentando-lhe em parte dois andares modestos, conservando o semblante seiscentista da fachada amesquinhada na estreita serventia denominada ali Largo do Santo Estêvão, mas desfigurando as salas, pela cobertura com estuque dos tectos apainelados, e pela supressão de bons panos de azulejo que revestiam as paredes em silhares.
Em 1911 lavrou incêndio na ala Sul do palácio, sobre a Rua de Santo Estêvão; as obras de restauro não lograram repor o interior dessa ala no seu aspecto primitivo.


Palácio dos Azevedo Coutinho [1939]
Arco do Chanceler, vista tomada do Largo de
Santo Estêvão
Eduardo Portugal, in LdA


Palácio dos Azevedo Coutinho [195-]
Arco do Chanceler, vista tomada o Largo de
Santo Estêvão
Almeida Fernandes, in LdA



O Arco do Chanceler, sob o Palácio ao qual dá passadiço, é de volta abatida. À direita abre-se o portal do velho solar servido por um átrio interior, do qual a escadaria de dois lanços se desenvolve, amparado a um corrimão, em balaustrada de mármore branco, transpirando de tudo um ar discreto, repousado, setecentista, só igualado em espírito no palácio dos Condes dos Arcos

Palácio Azevedo Coutinho [c. 1900]
Escadinhas e Largo de Santo EstêvãoRua de Santo Estêvão
O Palácio dos Azevedos Coutinhos, ocupa uma área contida entre a Rua de Santo
Estêvão, o Largo do mesmo nome (escadinhas de curiosa perspectiva), e assenta
em parte sobre o Arco do Chanceler.

José A. Bárcia, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. X, pp. 90-91, 1939.
id, Inventário de Lisboa, 1955.

Sunday, 10 January 2016

Rua Bernardino Costa

Ora vejamos esta Rua Bernardino Costa (1922) antiga Rua do Corpo Santo, e que foi de seu começo a Rua Larga da Ribeira das Naus. [...] dá-nos no troço contíguo à Praça a particularidade dos bars, de tipo inglês, que bem se casam com o semblante dos prédios [...] O «English Bar», nos nºs 42 e 44 data, neste aspecto actual, de 1937, pois havia desaparecido, como «bar» em 1921, quando José Tavares, que estava à frente da casa, foi fundar no nºs 52 e 54 o «British Bar»; o «English» era relativamente antigo.==
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol.XIII, p.38, 1939)
 
Rua Bernardino Costa  [1909]
«Valoroso Bombeiro Português (1836-1908)»
 Varinas na venda ambulante; 
Praça do Duque da Terceira
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Bernardino Costa, Patrão do Corpo de Bombeiros Municipais que em 20 de Julho de 1871 efectuou dois heróicos salvamentos, na Rua do Corpo Santo, ao subir pela empena do prédio em chamas e resgatar duas mulheres que se encontravam num dos andares superiores e, assim, lhe juntou a legenda «Valoroso Bombeiro Português 1836–1908», a qual foi suprimida da placa por parecer da Comissão Consultiva Municipal de Toponímia na sua reunião de 17/11/1947. {cm-lisboa.pt]

Rua Bernardino Costa [5 de Outubro de 1911]
«Valoroso Bombeiro Português (1836-1908)»
Vista tomada do Largo do Corpo Santo. 
 Ornamentações por ocasião da comemoração do 1º aniversário da República Portuguesa.
  António Novais, in Lisboa de Antigamente

Tuesday, 16 May 2017

Ermida do Espírito Santo ou dos Remédios de Alfama

Do Espírito Santo é a sua verdadeira e primitiva evocação, pois ao «Santo Espírito» foi dedicada quando da sua fundação em 1551, posto que haja quem o suponha mais antigo. [1]


Os navegantes e pescadores da Alfama, em irmandade, tinham neste sítio um pequeno hospital para os irmãos, com capela própria, que é aquela á que estamos fazendo referência. A Irmandade, porém, era mais antiga, havendo sido instituída na paroquial de S. Miguel, antes mesmo de se criar a Misericórdia; neste local foi erigida depois a Ermida privativa, porque os empertigados homens do mar, cujo juiz era o corregedor do crime no bairro, não se quiseram sujeitar ao prior de S. Miguel, proclamando deste modo a sua independência, e obtendo mesmo da cúria romana várias bulas de privilégios. [...]

Ermida do Espírito Santo ou dos Remédios de Alfama  [1899]
Rua dos Remédios; Rua da Regueira; Beco do Espírito Santo
Machado & Souza, in Lisboa de Antigamente

Agora cabe perguntar, e a curiosidade admite-se: como se transmudou o orago, de Espírito Santo, em Nossa Senhora dos Remédios? Parece que foi como passo a dizer; a lenda é um subsidio irresistível.
Nesta Ermida do Espírito Santo havia um poço, onde certo dia apareceu uma imagem de Nossa Senhora, a qual, a-pesar-de ser tirada da água, vinha enxuta em sua pintura e tecido. Milagre foi! E acorriam os pescadores e famílias a implorar à Virgem remédio a seus males, e Nossa Senhora os curava. Daí a receber a imagem a invocação de Nossa Senhora dos Remédios foi um salto de barca atracada ao cais da Ribeira.
E nunca mais se falou no Espírito Santo. Ninguém como os pescadores e mareantes para realizar estes milagres. [...]

Ermida do Espírito Santo ou dos Remédios de Alfama  [1899]
Rua dos Remédios; Rua da Regueira; Beco do Espírito Santo
Machado & Souza,
in Lisboa de Antigamente

O Pórtico desta Ermida [3ª foto], considerado monumento nacional, esculpiu-se em estilo manuelino, sobrepujado por cartel onde se vê a pomba simbólica do Espírito Santo. Sobre a porta travessa da Ermida aí tens uma data: 1757, a do restauro [foi quase totalmente destruída pelo Terramoto]. A Ermida dos Remédios é agora pobre, mas simpática; casa onde os pescadores iam orar de muito não precisava. De que precisará hoje? Uma vista de olhos nos basta.

Ermida do Espírito Santo ou dos Remédios de Alfama  [c. 1900]
Rua dos Remédios; Rua da Regueira; Beco do Espírito Santo
Portal manuelino, classificado como Monumento Nacional.
José A. Bárcia,
in Lisboa de Antigamente

O corpo da Ermida [4ª foto] ostenta dois altares apenas, o de Nossa Senhora da Conceição. com Santo António e S. José, e o de S. Joaquim, com Nossa Senhora da Piedade e S. Sebastião. No altar-mór vê-se Nossa Senhora dos Remédios, ingénua imagem de agradável semblante — pequenina, de andor de aldeia —, e ao lado S. Pedro e S. Pedro Gonçalo. A Capela-mór é de boa pedra, mas a sua modesta figuração não desdiz do abandono a que o pequeno templo tem sido votado, a-pesar-de nele, uma vez ou outra, se fazer o culto.

Ermida do Espírito Santo ou dos Remédios de Alfama, interior  [1963]
Rua dos Remédios; Rua da Regueira; Beco do Espírito Santo
Armando Serôdio,
in Lisboa de Antigamente

Bibliografia 
[1] ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. X, pp. 95 a 97, 1939.

Sunday, 12 November 2023

Igreja do Santo Condestável

A igreja paroquial do Santo Condestável, moderna mas com reminiscências de ogival, situa-se na encruzilhada das ruas Saraiva de Carvalho e Francisco Metrass, nos limites de Campo de Ourique, e é orientada sensivelmente a Nascente.


A Igreja do Santo Condestável, com traça em forma de cruz latina, cuja construção se concluiu em 1951 em terrenos vizinhos das ruas Saraiva de Carvalho e Francisco Metrass, inspira-se nos templos portugueses da fase final do gótico, o flamejante no seu período embrionário, expressivamente representados em Lisboa pela Igreja do Carmo e em Santarém pela da Graça. Mas à parte o fundamental e típico, a Igreja do Santo Condestável afasta-se nos pormenores mínimos dos seus modelos, de que conserva porém, e inteiramente, a espiritualidade. Todo o edifício se assinala pela simplicidade e pela alvura, onde sobressai num contraste feliz o granito de Sintra. Há um misto de nobreza e de humildade na aliança dos paramentos de simples reboco branco com as cantarias cinzentas, trabalhadas a pico fino. Templo erguido a um dos maiores de Portugal, recorreu-se para a execução da estrutura ao processo tão português da alvenaria de pedra e cal.

Igreja do Santo Condestável |1953|
Ruas Saraiva de Carvalho e Francisco Metrass; ao fundo nota-se o Mercado de Campo de Ourique erguido em 1933.
A Fachada, com um corpo central no qual se rasga o grande p6rtico de arco em ogiva, e duas torres simétricas.
António Passaportein Lisboa de Antigamente
Igreja do Santo Condestável |195-|
Ruas Saraiva de Carvalho e Francisco Metrass
O pórtico com adro sobrelevado ao nível da praça, ao qual se acede por quatro degraus, dando serventia à galilé. Gradeamento de ferro forjado em ponta de lança. Sobre o pórtico o brasão das Armas Reais de Portugal, tal como se usava no começo da 2ª Dinastia.
Salvador de Almeida Fernandesin Lisboa de Antigamente

A autoria da igreja pertence ao arq-º Vasco de Morais Palmeiro (Regaleira) que teve como colaboradores na parte ornamental os escultores Leopoldo de Almeida, Veloso da Costa e Soares Branco, e os pintores José de Almada Negreiros, Portela Júnior e Joaquim Rebocho, e na construção o eng.º Santos Fernandes e Mestre Cipriano. Os trabalhos de serralharia artística foram executados pela Serralharia Artística do Corvo.
Dirigiu administrativamente a erecção do edifício uma comissão designada pelo Patriarca de Lisboa e de que fizeram parte o falecido Prior P.• Francisco Maria da Silva, o Marquês de Abrantes, o arquitecto Regaleira e Alberto Portugal da Silveira. A Comissão de Honra pertenceram, entre outros, S. A. a Infanta D. Felipa de Bragança, e o Ministro da Defesa, coronel Santos Costa.
 
Campo de Ourique e a Igreja do Santo Condestável, fotografia aérea |1956|
Ruas Saraiva de Carvalho e Francisco Metrass
A Fachada posterior, tendo no centro da parede (onde se unem o Presbitério e Patronato) um apoio ou mísula, destinado à estátua de Nossa Senhora de Fátima. Aqueles anexos, nos topos exteriores, estão ligados por muro com janelões com grelhagem de tijolo à meia esquadria, e cancelo de ferro forjado, de acesso a pequeno pátio.
Mário de Oliveirain Lisboa de Antigamente

A inauguração do templo teve lugar em 14 de Agosto de 1951, aniversário de Aljubarrota, com a presença do Chefe do Estado, do Cardeal-Patriarca. A urna, com as relíquias de Nun'Alvares, foi então trazida num ·armão de artilharia, com escolta de honra, da capela da Venerável Ordem Terceira do Carmo (0onde se guardava desde 1834) para o novo templo, em aparatoso cortejo.

Igreja do Santo Condestável, inauguração  |1951-08-14|
Rua Saraiva de Carvalho; Rua Francisco Metrass
Duas torres de secção quadrada com encostos de granito de Sintra e silhares
que prolongadas verticalmente em forma de pilastras terminam fazendo
moldura às ventanas; cantoneiras nas esquinas, terminadas por coruchéus,
igualmente de granito; a cobertura em grimpa acoruchada, que assenta em sobre-beira
dupla de telha portuguesa, rematada airosamente por pára-raios decorativos (Cruz dos Pereiras).
Só a torre Norte (a da direita) tem ventanas sineiras.
Firmino M. Costain Lisboa de Antigamente


Por decreto patriarcal de 21 de Maio de 1984 foi criada a freguesia eclesiástica do Santo Condestável, começando as funções paroquiais em 8 de Junho imediato. A área da nova freguesia foi constituída à custa das de Alcântara e Santa Isabel. Até 1951 serviu de igreja paroquial a capela setecentista da Senhora das Dores (mais exactamente «do Amor da Virgem Senhora Nossa das Dores»)
na Rua do Patrocínio, construída com material sobejado da edificação da Basílica do Coração de Jesus (Estrela). 

Igreja do Santo Condestável, pórtico  |1956|
Rua Saraiva de Carvalho; Rua Francisco Metrass
O portal em ogiva chanfrada aberta em frontal de pedra, no estilo gótico flamejante
com o escudo de armas dos Pereiras a fazer remate. Cornija com legenda camoneana
sobre ela um grupo escultórico ornamental representando o beato frei Nuno de Santa
Maria entre dois Anjos orantes (S. Miguel e o («Anjo de Portugal») (Leopoldo de Almeida).
Mário de Oliveirain Lisboa de Antigamente

No Interior, assinala-se o Corpo da igreja, de três naves (a central sobrelevada) e transepto, e nele:
O tecto de dois tramos, de falsa abóbada de aresta estucada de branco.
As naves separadas por quatro grupos de pilares formando arcada em ogiva, a nave central ocupando toda a1tura, as laterais correndo por baixo do trifório. A iluminação das naves laterais é feita por duas frestas de cada lado, com caixilhos de chumbo e vidros de cor. A meio das naves portas laterais, cada qual com sobreporta, nicho e nele imagem de pedra.

 

Igreja do Santo Condestável, perspectiva, Altar-mor  |1956|
Rua Saraiva de Carvalho; Rua Francisco Metrass
A Capela-mor, prolongamento da nave central e cujo acesso se faz por um arco chanfrado
de ogiva deprimida, iluminada lateralmente por dois pares de janelas de arco de dupla curva,
com vidros de cor montados em armadura de chumbo. Todo o fundo é ocupado por grande
retábulo de pintura a fresco (Portela e Rebocho) representando a glorificação de Nun'Alvares).
Mário de Oliveirain Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Inventário de Lisboa: Monumentos histórico, 1956.

Sunday, 3 November 2019

Igreja de São Luiz, dos Franceses

Neste pedacinho [da Rua das Portas de Santo Antão] até à Anunciada do Convento das dominicanas, erigido sobre a casa dos agostinhos de Santo Antão de 1400 — e eis a razão do nome da rua — chegaram a contar-se sete palácios, desde o dos Condes de Almada, a par de S. Domingos, até ao dos Condes da Ericeira, passando pelo primeiro dos Castelo Melhor, pelo dos Pais do Amaral Barberini, pelos do Conde de Povolide e dos Morgados de Oliveira. Igrejas, só uma, a de S. Luiz, dos franceses, que recua a 1552, e ali está ela ainda, com as suas flores de lis e as armas dos Bourbons sobre o pórtico.


Eis-nos defronte da pequena Igreja de S. Luiz, dos franceses — diz Norberto de Araújo — , erecta extramuros, e que teve contíguo um Hospital, de certo modo no século passado [XIX] substituído pelo «Asyle de Saint-Louis» — Hospital de S. Luiz — na Rua Luz Soriano.

Rua das Portas de Santo Antão |1909|
Igreja de São Luiz, dos Franceses; Palácio Alverca (Casa do Alentejo)
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

É simples a fachada, na qual apenas o pórtico, com as armas dos Bourbons e o escudo da flor de lis, tem algum interesse arquitectónico.
Na sobreporta ali vês a legenda latina, que afirma, na tradução, que «a S. Luiz foi dedicado este templo pelos franceses habitantes nesta real cidade, no ano do Senhor de 1552. Conclui-se e acrescentou-se em 1622».
Parece, porém, que a inscrição não é de todo exacta ou suficientemente explicita. Eu julgo — talvez — mais acertada a versão de que a Confraria é que foi criada em 1552, instalada na Ermida de N. Senhora da Oliveira a S. Julião, onde estaria ainda em 1558, começando em 1563 a construir-se o templo neste lugar, concluído em 1572, na sua primeira fase. A reconstrução ampliada é que será de 1622.
Depois do Terramoto voltou esta Igreja a receber benefícios (1766), aliás repetidos sumariamente no século passado.

Igreja de São Luís dos Franceses |c. 1914|
Perspectiva tomada da Travessa  de Santo Antão
Beco de São Luís da Pena, 34-34A; Rua das Portas de Santo Antão
Por cima da inscrição da fachada atrás transcrita vêem-se as armas dos Bourbons;
o escudo da flor de liz, tendo por suporte dois anjos. O escudo é circundado por
dois colares dax ordens francesas, sendo o inferior o da ordem do Espírito Santo.
[Castilho: 1935]
Charles Chusseau-Flaviens, in Lisboa de Antigamente

Interiormente a Igreja de S. Luiz, muito ao tipo francês, pouco oferece de notável; não posso dela dar uma resumida descrição que seja — como o tenho feito de uma centena de igrejas e ermidas de Lisboa — porque, nos meus passos de ensaio, não me foi consentido tomar notas e colher informações directas, o que registo sem acrimónia embora com estranheza.
Posso dizer que o altar-mór e as capelas colaterais no corpo da igreja foram construídos em Genebra, por um artista italiano; são em mármore de Carrara [Pasquale Bocciardo (1705-1791)].
E pois que interessa à iconografia de Lisboa anotemos êste grande quadro, à esquerda da parede no corpo da Igreja. É uma «Vista de Lisboa», da primeira metade de seiscentos, muito deteriorada.
O terreno da cortina defronte de S. Luiz, sobre a Rua, pertence à Igreja; os seus três estabelecimentos são deste século.

Igreja de São Luís dos Franceses |c. 1914|
Perspectiva tomada da Rua do Jardim do Regedor
Beco de São Luís da Pena, 34-34A; Rua das Portas de Santo Antão
Tinha esta igreja uma cruz no adro; em Junho de 1887 oficiou a Câmara Municipal ao capelão
para ser removida a dita cruz. [Castilho: 1935]
Charles Chusseau-Flaviens, in Lisboa de Antigamente
 
N.B. No século XIX o imóvel passa para a posse do Estado Francês e em 1882 é instalado o órgão realizado em Paris por Aristide Cavaillé-Coll. No andar superior, em três salas, funcionava o hospital de São Luís, da Confraria do Bem-aventurado São Luís, que socorria todos os franceses pobres e necessitados de auxílio médico.
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Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Legendas de Lisboa, p. 207.
ibid, Peregrinações em Lisboa, vol. XIV, pp. 102-103, 1939.
SANTANA, Francisco e SUCENA, Eduardo. Dicionário da História de Lisboa, pp. 808-810, 1994.
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