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terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Mercado da Ribeira: a «Mesquita do Nabo»

O Mercado da 24 de Julho foi erigido em terrenos do antigo Forte de S. Paulo, após a sua demolição em 1865, para construção do «Aterro da Bôa Vista», hoje Av. 24 de Julho. O novo Mercado da Avenida 24 de Julho ou Mercado da Ribeira Nova, como também ficou conhecido, foi projectado pelo engenheiro Ressano Garcia e a ele se devem alguns aspectos inovadores para a época: edifício de estrutura em ferro e no interior um amplo corredor central onde os vendedores dispunham de água em abundância, o que permitiu pela primeira vez em Portugal cuidados de higiene num mercado abastecedor. 

Tinha 10 mil metros quadrados de área coberta e foi inaugurado em 1 de Janeiro de 1882. O espaço era pontuado por mais de uma centena de telheiros, utilizados como bancas pelos vendedores de peixe, legumes e flores da cidade de Lisboa. Em 1893 foi parcialmente destruído por um incêndio e acabou por ser demolido em 1926. 

Mercado 24 de Julho (ou da Ribeira Nova) [post. 1901]
Avenida 24 de Julho, antes «Aterro da Bôa Vista»
Fotógrafo não identificado, 
in Lisboa de Antigamente
Mercado 24 de Julho (ou da Ribeira Nova) [post. 1901]
Avenida 24 de Julho, antes «Aterro da Bôa Vista»
Alberto Carlos Lima, 
in Lisboa de Antigamente

A reconstrução, ficou a cargo do arquitecto João Piloto e ficou concluída em 1930, com a instalação da cúpula com um lanternim. tal como ainda hoje existe (v. última foto).
Os lisboetas ficaram tão espantados ao verem uma cúpula num mercado decorado com frescos com motivos hortícolas pintados pelo italiano Gabriel Constanti que lhe chamavam a Mesquita do Nabo.

Mercado 24 de Julho (ou da Ribeira Nova), corpo central [entre 1882 e 1893]
Avenida 24 de Julho, antes «Aterro da Bôa Vista»
Fotógrafo não identificado, 
in Lisboa de Antigamente

Foi revestido a azulejo por fora e o tecto pintado por dentro; na entrada foram colocados silhares de azulejos do pintor Vitórai Pereira e outros painéis de Jorge Colaço, representando fainas marítimas.
 
Mercado 24 de Julho (ou da Ribeira Nova), interior [ant. 1893]
 Avenida 24 de Julho, antes «Aterro da Bôa Vista»
Fotógrafo não identificado, 
in Lisboa de Antigamente
Mercado 24 de Julho (ou da Ribeira Nova), interior [Inicio séc. XX]
 Avenida 24 de Julho, antes «Aterro da Bôa Vista»
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

No corpo central foi instalado um relógio fabricado em França, na empresa Horloges Bodet, considerado revolucionário para a época. Mas a sua importância não impediu que a máquina estivesse parada quase 20 anos. Só em 1998 a Câmara Municipal de Lisboa decidiu contratar um dos mais prestigiados relojoeiros portugueses. António Franco foi chamado para inspeccionar o relógio da torre. Em menos de um ano, o sistema mecânico foi restaurado e o mostrador teve de ser feito de novo. Um mostrador que guarda a assinatura do homem que permitiu que os cacilheiros voltassem a guiar-se pelo relógio da torre do mercado». (lisboanoguiness.blogs.sapo.pt)

Mercado da Ribeira: a «Mesquita do Nabo» [post. 1930]
 Avenida 24 de Julho, antes «Aterro da Bôa Vista»
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Nota(s): O Mercado voltou rapidamente a ser o centro do comércio grossista e retalhista. No ano de 2001 o espaço estreou um novo aspecto social, cultural e recreativo. Desde 2014 é gerido pela revista «Time Out Lisboa», que apresentou um projecto que inclui bancas dedicadas à restauração, juntamente com atracções culturais.

domingo, 14 de fevereiro de 2016

Avenida 24 de Julho: Mercado de peixe e hortaliças da Ribeira Nova

Junto ao Cais da Ribeira, onde desembarcava o pescado, existia, desde 1846, um mercado de peixe que, como refere Norberto de Araújo, passou, anos mais tarde, a 1 de Janeiro de 1882, para «local coberto [... ], ocupando os pavimentos ao nível da rua». O Mercado da Ribeira Nova — explica o mesmo autor — «há vinte anos era [c. 1918], quase exclusivamente, de peixe, e o das hortaliças e frutas arrumou-se até 1927 nuns barracões, entre a linha do caminho-de-ferro, à qual se encostava por lado de terra, e a Avenida 24 de Julho. Esse Mercado de frutas e verdes junto à linha férrea fora originado por uma greve de hortaliceiras na Praça da Figueira; as rebeldes foram - se instalar no Cais de Santarém cnde estiveram dois anos, até que, despejadas dali, se instalaram [1905] no sítio — hoje ajardinado onde fizeram o seu negócio... até 1927. Entretanto juntaram-se-lhe as hortaliceiras da Ribeira Nova. [Araújo, vol. XIII, 1939].

Mercado de peixe na praça da Ribeira Nova, 1771-1882, reprodução de gravura
 
Se do rio e do mar chegavam os principais produtos aqui vendidos, a posterior diversificação dos produtos — hortaliças e fruta, carnes e criações, e as flores — fizeram do mercado da Ribeira Nova, como dizia Norberto de Araújo, «o mais digno e pitoresco, em cor e movimento, de Lisboa do cabaz das compras».

Mercado da Ribeira Nova, o peixe antes da licitação [1906]
  Avenida 24 de Julho
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Um dia, ainda no tempo em que «não havia sombra de Aterro», uma «regatôa moça» a quem Bulhão Pato havia comprado ostras, entrava em aberta discussão com o nosso escritor. «Uma enxurrada de obscenidades! Bocage talvez corasse... de inveja!». Anos depois, é António Nobre que vem ao mercado da Ribeira Nova, «à procura do camarão da barra». Também Aquilino Ribeiro por aqui anda à procura, não de ostras nem de camarão, mas do que restava da «velha e camoniana Ribeira», «varrida da borda de água pela vaga sísmica de 1755», e que no Aterro se viera instalar. Da Ribeira velha, «só restava aquele cisco da vida babilónica e sabúrrica e do porto, empório do mundo?».

Mercado da Ribeira Nova [1933]
  Avenida 24 de Julho
Fotógrafo não identificado, in Arquivo do Jornal O Século
 
Posterior ao terramoto, e mandado erigir por determinação pombalina, o Mercado da Ribeira Nova é seguramente mais antigo, se o relacionarmos com a história do seu antecessor, o antigo mercado da Ribeira Velha, que se situou nos terrenos em frente à Casa dos Bicos. Este remonta, pelo menos, aos finais de quinhentos e, nas «Estatísticas de Lisboa de 1552» era apontado como um dos mercados de peixe mais bem abastecidos do mundo. Era «um dos mais movimentados e bem equipados da Europa, elogiado pela sua boa organização, abundância e variedade de produtos. Nele, ao lado dos produtos da terra, ou de importação europeia, como a manteiga de Flandres, apareciam espécies exóticas, as tâmaras, os cocos, especiarias diversas, e outros produtos que se começavam, então, a divulgar, como as laranjas da China» [Moita, 1983]. Foi este o primeiro grande mercado de Lisboa que posteriormente ao terramoto viria a ocupar, por determinação pombalina, os terrenos da Ribeira Nova, junto à Praia de S. Paulo. 

Vendedeira de figos no mercado da Ribeira Nova [1910]
  Avenida 24 de Julho
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente
 
Decorria o ano de 1771 quando, por alvará de 13 de Abril desse ano, o marquês de Pombal determinava a fixação da venda de peixe na Ribeira Nova. Com a designação de Mercado da Ribeira Nova dura até ao ano de 1882, data em que é demolido. Um novo mercado, o da 24 de Julho, abria então ao público, após a inauguração no primeiro dia do ano de 1882. O antigo, o da Ribeira Nova, estava condenado, por deliberação camarária de 5 de Janeiro desse ano, a ser arrasado.

Venda de legumes no mercado da Ribeira Nova [1910]
  Avenida 24 de Julho
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

N.B. Os mercados rapidamente são incorporados no cenário urbano e ganham, a partir de meados dos séculos XIX e início do XX, a característica de estarem directamente ligados às políticas públicas de fornecimento de mercadorias indispensáveis à sobrevivência quotidiana. O ganho chegava através de diferentes produtos — como hortaliças, cebolas, peixes, figos, castanhas, entre outros — comercializados não apenas nos mercados, mas também na venda ambulante pelas ruas e praças da cidade.

domingo, 14 de janeiro de 2024

Avenida Vinte e Quatro de Julho: velhas inundações, novíssimo Mercado

O novo Mercado da Avenida 24 de Julho ou Mercado da Ribeira Nova, como também ficou conhecido, foi projectado pelo engº Ressano Garcia. Tinha 10 mil metros quadrados de área coberta e foi inaugurado em 1 de Janeiro de 1882. Em 1893 foi parcialmente destruído por um incêndio e acabou por ser demolido em 1926.
A reconstrução, ficou a cargo do arqº João Piloto e ficou concluída em 1930, com a instalação da cúpula com um lanternim.
Os lisboetas ficaram tão espantados ao verem uma cúpula num mercado decorado com frescos com motivos hortícolas pintados pelo italiano Gabriel Constanti que lhe chamavam a «Mesquita do Nabo».

Avenida Vinte e Quatro de Julho |1929-12-05|
Antiga Rua 24 de Julho e antes Aterro da Boavist
a
|Praça Dom Luís I; Mercado da Ribeira
.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente
Avenida Vinte e Quatro de Julho |1932-12-09|
Antiga Rua 24 de Julho e antes Aterro da Boavist
a
Mercado da Ribeira em fase final de construç
ão.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Na sessão da C.M.L. de 10/02/1862 foi apresentada uma proposta no sentido de que no Aterro da Boavista no terreno confinante, pelo norte com a Casa da Moeda, pelo sul com o Tejo, pelo nascente com o Forte de São Paulo e pelo poente com a Rua 24 de Julho, se formasse uma Praça e que a mesma tivesse a denominação de Praça Dom Luís I. O topónimo Praça de Dom Luís I foi atribuído pela Câmara Municipal de Lisboa após Deliberação Camarária de 10/02/1862.
A Comissão Consultiva Municipal de Toponímia, na sua reunião de 19/01/1950, propôs alterar os nomes da Praça Dom Luís I e da Rua Dom Luís I, para Praça e Rua Marquês de Sá da Bandeira, em virtude de existir na praça um monumento ao ilustre fidalgo. Esta alteração nunca se efectivou e o marquês foi homenageado na toponímia, mas nas freguesias de Nossa Senhora de Fátima e São Sebastião da Pedreira.

Avenida Vinte e Quatro de Julho |1932-09-21|
Antiga Rua 24 de Julho e antes Aterro da Boavist
a
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente
Avenida Vinte e Quatro de Julho |1929-12-05|
Antiga Rua 24 de Julho e antes Aterro da Boavist
a
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Nova Companhia Nacional de Moagem

Teve eco na imprensa a inauguração de uma nova fábrica destinada à produção de todos os tipos de bolachas, biscoitos e massas alimentícias os quais «até aqui havia necessidade de importar». Pertencente à Nova Companhia Nacional de Moagem a nova Fábrica de Bolachas e Massas Alimentícias localizava-se, na Avenida 24 de Julho (antes Rua 24 de Julho e antes Aterro da Bôa Vista) e a sua construção esteve a cargo do construtor civil Zacarias Gomes de Lima.


Na cerimónia de inauguração, em 20 de ]unho de 1910, estiveram presentes o chefe de Estado, El-Rei D. Manuel, vários ministros, a imprensa, representantes das principais colectividades industriais, comerciais e agrícolas do País, e representantes de todas as classes sociais e do alto funcionalismo.

Edifício da Fábrica de Bolachas e Massas Alimentícias da Nova Companhia Nacional de Moagem |c. 1910|
Avenida 24 de Quatro do Julho, entre a Rocha do Conde de Óbidos e a Avenida Infante Santo
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

A Nova Companhia Nacional de Moagem, de acordo com a revista O Occidente — o primeiro estabelecimento fabril do País em 1910 — agrupava um conjunto de dezassete fábricas, de «capital social e nacional de 4 914 9005000 de réis» Esta revista considerou a abertura da nova fábrica uma grande manifestação de iniciativa particular, em benefício do progresso e da riqueza pública em Portugal, um «acontecimento de maior importância como tudo quanto é grande e belo, onde o capitalismo e a inteligência se completam realizando o verdadeiro progresso que resulta desta feliz combinação». 

Edifício da Fábrica de Moagem da Nova Companhia Nacional de Moagem |1910|
Avenida 24 de Quatro do Julho, entre a Avenida Infante Santo e a  Rocha do Conde de Óbidos
in O Occidente

A Nova Companhia Nacional de Moagem detinha o oitavo lugar (em capital) no complexo comercial e industrial da metrópole em 1910, e o quinto lugar sete anos mais tarde. Com a implantação da República, esta companhia estará na origem da criação, em 1919, do poderoso cartel da Companhia Industrial de Portugal e Colónias.

Enquadramento dos edifícios da Fábrica de Moagem (1) e da Fábrica de Bolachas e Massas Alimentícias (2) da Nova Companhia Nacional de Moagem |1934|
Avenida 24 de Quatro do Julho; ao centro, entre as duas fábricas, vislumbra-se a Igreja São Francisco de Paula
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

 Legenda no arquivo: «A esquadra inglesa, à sua chegada a Lisboa»

Bibliografia
O Século, 18 de Junho de 1910.
O Occidente, 30 de Julho de 1910.

domingo, 17 de julho de 2022

Atêrro da Bôa-Vista

Remolares, Cata-que-farás, Ribeira Nova, S. Paulo, Boa Vista, foram tudo praias ribeirinhas que acabaram por dar - na conquista do rio - o que principiou por se chamar genericamente o Aterro, designação extensiva que depois se formalizou em Avenida 24 de Julho». (Araújo: 1993)


Despediu-se da senhora Marquesa e dos netos, pôs o chapéu na cabeça e desceu a escada, irresoluto na direcção a dar à passeata. Ainda bem longe de decidido, chegou à porta na ocasião em que, puxado por muitas mulas, começava um americano a subir vagarosamente a rampa de Santos. Saiu o Marquês para a rua. Foi logo muito cumprimentado pelos cocheiros e moços do Pingalho, que no fronteiro pátio do Visconde de Asseca tinha carruagens de aluguer. Correspondeu civilmente à cortesia e, tomando à esquerda, dirigiu-se para o Atêrro, pensando que ainda havia gente bem criada e que o dia realmente estava muito ameno. Avista o americano; veio-lhe logo à ideia um passeio de carro. Era barato, e não fazia frio mesmo nenhum.
— Para onde irá êle?... .Ah! lá parou... j Olha! vai para Belêm...
Apeiam-se umas senhoras; tenho lugar.
(Braamcamp Freire: 1927)

Atêrro da Bôa Vista |c. 1895|
Actual Av. 24 de Julho, antiga Rua 24 de Julho: Rampa de Santos, actual Calçada Ribeiro Santos e Palácio Abrantes (dir.); carro americano.
Francesco Rocchini, in Lisboa de Antigamente

Informa o autor das Peregrinações que se pode datar o Atêrro, com o possível rigor, a 1867, tendo-se as obras iniciado em 1858. A designação de Rua 24 de Julho é anterior à conclusão do Atêrro e o topónimo "24 de Julho" evoca a entrada em Lisboa das tropas do Duque da Terceira em 24 de Julho de 1833.

Atêrro da Bôa Vista |post. 1867 e ant. a 1872!
Actual Av. 24 de Julho, antes Rua 24 de Julho junto da Ribeira Nova.
Francesco Rocchini, in Lisboa de Antigamente

Júlio de Castilho, que se faz acompanhar do fotógrafo Francesco Rocchini [vd. imagem acima], comunica-nos que «Lisboa toda, desde 1867, se acostumara com gosto ao desafogado terreiro marginal», o «mais belo dos passeios públicos», recordando que «a sociedade concorria ali, àquele salão enorme, a ver o Tejo, que é o amigo de nós todos, e a contemplar as magnificências da grande orquestra de tons luminosos com que o sol se despedia» até que, «anos depois, abriu-se a Avenida da Liberdade; e o Aterro... nem mais sequer lembrou.»
(JANEIRO, Maria João, Lisboa: histórias e memórias, pp. 130-132)
 
Atêrro da Bôa Vista |c. 1895|
Actual Av. 24 de Julho, antes Rua 24 de Julho; carros americanos.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Escadaria José António Marques, Palácio Óbidos-Sabugal e Museu Nacional de Arte Antiga

José António Marques (1822-1884), concluiu o curso na Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa aos 20 anos de idade e foi promovido a cirurgião ajudante do Exército, sendo colocado em Caçadores 30. Militar distinto, cientista e jornalista, a ele se deve a fundação da Cruz Vermelha Portuguesa.

O olisipógrafo Norberto de Araújo preconizava, em 1939, o desaparecimento da muralha da Rocha Conde de Óbidos, mas tal não veio a acontecer. A muralha, bem como a escadaria, ainda lá continuam.
«Tudo isto está condenado a desaparecer para dar lugar a uma nova muralha (a actual foi construída em 1880-1882) e que é desviada do seu local actual mais para nascente, na rectificação que se fará do Jardim 9 de Abril, antigo das Albertas, em cuja cêrca conventual foi construído.
A Rocha, ou Rochedo, era pertença da casa Sabugal-Óbidos (hoje da Cruz Vermelha) se debruça sobre a Avenida 24 de Julho.»
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIII, p. 91, 1939)

Escadaria José António Marques e Palácio Óbidos-Sabugal [Início séc. XX]
Avenida 24 de Julho 
Paulo Guedes, in Lisboa de Antigamente
Escadaria José António Marques e Palácio Óbidos-Sabugal e Museu Nacional de Arte Antiga [195-]
Avenida 24 de Julho 
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Localizado no Jardim Nove de Abril e Classificado como Imóvel de Interesse Público, este palácio do séc. XVII permaneceu na posse da família Óbidos-Sabugal até 1919, data em que foi adquirido pela Cruz Vermelha Portuguesa, que aí instalou a sua sede nacional. Objecto de profundas intervenções de restauro e conservação desde o Terramoto de 1755, da construção seiscentista subsiste, pouco alterada, a fachada Norte, destacando-se o portal nobre, de cantaria, encimado pelas armas da família proprietária. Painéis de azulejos azuis e brancos, datados da primeira metade do séc. XX e realizados por Gabriel Constante, imitando os painéis do séc. XVIII, formam um rodapé ao longo da fachada e ocupam os vãos entre as janelas. No interior é visível uma concepção romântica patente nos silhares de azulejos, nos tectos pintados e apainelados e nos revestimentos das paredes.(cm-lisboa.pt)

Palácio Óbidos-Sabugal [1930-39]
Avenida 24 de Julho
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente
Escadaria José António Marques, Palácio Óbidos-Sabugal [c. 1940]
Avenida 24 de Julho

Alvaro Torres, in Lisboa de Antigamente

O Museu Nacional de Arte Antiga, sito na Rua das Janelas Verdes, está instalado, desde a sua fundação, em 1884, no palácio mandado construir, em finais do século XVII, pelo 1º conde de Alvor, Francisco de Távora, após o seu regresso da Índia, onde fora vice-rei. Mantido na família até meados do século XVIII, veio depois a pertencer a um irmão do marquês de Pombal, Paulo de Carvalho, antes de passar a residência de um rico negociante de diamantes e cônsul da Holanda, Daniel Gildemeester, que patrocinou avultadas obras de qualificação dos interiores. A sua localização, erguida sobre o rio e a zona portuária, confere-lhe uma envolvência cenográfica invejável. (MNAA; DGPC)

 

Museu Nacional de Arte Antiga [195-]
Perspectiva tomada do Cais da Rocha
Fotografia anónima, in Lisboa de Antigamente
Museu Nacional de Arte Antiga [post. 1942]
Palácio de Alvor-Pombal; Rua das Janelas Verdes
Fotografia anónima, in Lisboa de Antigamente

quarta-feira, 2 de maio de 2018

Instituto Rainha Dona Amélia (Assistência Nacional aos Tuberculosos)

A Assistência Nacional aos Tuberculosos  — recorda-nos o ilustre olisipógrafo  Norberto de Araújo — que principiou por ser uma Associação de Beneficência — e prestimosa ela foi sempre, hoje [1939 ] extraordinàriamente desenvolvida — foi fundação da Rainha D. Amélia de Orleans e Bragança. Data de Junho de 1899 e foi enorme o movimento de adesões que provocou. Hospitais, Sanatórios, Dispensários, espalhados por todo o país, são os frutos dessa obra.


Instituto Rainha Dona Amélia [c. 1908]
Instituto Nacional de Assistência aos Tuberculosos
 Avenida 24 de Julho
Alberto Carlos Lima,  in Lisboa de Antigamente

O primeiro Dispensário de Lisboa foi na Rua do Alecrim, inaugurado em Maio de 1901. Este edifício foi inaugurado em 1906. O dispensário contíguo data de 1931. 
Uma das personalidades mais devotadas a esta causa, o braço direito da Rainha, foi o Dr. António de Lencastre, cujo nome convém fixar. 
O edifício da Assistência, do risco do arquitecto Rosendo Carvalheira, tem, como vês, neste sítio movimentado, de vizinhança e semblante marítimo, uma certa altanaria.

Instituto Rainha Dona Amélia [c. 1907]
Instituto Nacional de Assistência aos Tuberculosos
 Avenida 24 de Julho
Artur Bárcia, in Lisboa de Antigamente
Instituto Rainha Dona Amélia [c. 1906]
Instituto Nacional de Assistência aos Tuberculosos
 Avenida 24 de Julho
Chaves Cruz, in Lisboa de Antigamente
Instituto Rainha Dona Amélia [1960]
Instituto Nacional de Assistência aos Tuberculosos, anexo inaugurado em 1931.
 Rua dos Remolares
Fernando de Jesus Matias, in Lisboa de Antigamente

N.B. A Rainha Dona Amélia cedo se interessou pelo combate ao terrível flagelo da Tuberculose – o mal do século – promovendo em 1893 a criação do primeiro dispensário em Alcântara, destinado a crianças, que foi dirigido pelo Prof. Augusto da Silva Carvalho.
Seguiu-se, em 3 de Julho de 1899, a criação da Assistência Nacional aos Tuberculosos, que muito ficou a dever à iniciativa e persistência da Rainha Dona Amélia. Entre as obras que patrocinou contam-se, ainda, a fundação do Instituto de Socorros a Náufragos e o Instituto Pasteur em Portugal, em 1892, e do Museu Nacional dos Coches, em 1905.

Instituto Rainha Dona Amélia [c. 1908]
 A Rainha Dona Amélia e o infante Dom Afonso à entrada do edifício da Assistência Nacional aos Tuberculosos.
 Avenida 24 de Julho
Alberto Carlos Lima,  in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIII, p. 56, 1939.

sexta-feira, 10 de setembro de 2021

Avenida 24 de Julho: prédios de rendimento

Estes enormes prédios de rendimento, que se seguem, fazendo o quarteirão que se contém entre [a Avenida] 24 de Julho, [Avenida do] Presidente Wilson [hoje Avenida Dom Carlos I], [Rua] Vasco da Gama [hoje Largo Santos] e o Jardim de Santos datam da década de 1870 a 1880. [...] à sombra desse quarteirão urbano de que te falei, correm os cinquenta metros da Rua [Largo] Vitorino Damásio; José Vitorino Damásio, engenheiro, director do Instituto Industrial, foi quem dirigiu as obras do Aterro [hoje Av. 24 de Julho] desde S. Paulo a Santos (1858).
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XII, p. 88, 1939)

Avenida 24 Julho |1905|
À esquerda, o Largo de Santos, antiga Rua Vitorino Damásio
Legenda: «Ornamentações por ocasião da visita a Lisboa do Presidente francês Émile Loubet [vd. N.B.] »
Chaves Cruz, in Lisboa de Antigamente
 
N.B. "O dia de hoje há-de ficar memorável nos anais da História pátria", escrevia o DN na primeira página de 27 de Outubro de 1905. Nessa data, a monarquia portuguesa dava as boas-vindas a Émile Loubet, o presidente da República Francesa, a única da Europa, a par da Suíça. A verdade, no entanto, é que «a apoteose com que o saudou o Povo de Lisboa foi como que a proclamação da República na capital portuguesa." (in História do Regímen Republicano em Portugal)

Avenida 24 de Julho: prédios de rendimento |c. 1905|
Neste postal ilustrado destacamm-se os eléctricos «Sao Luis» pintados de encarnado, e que de acordo com alguns autores, seria cor original dos primeiros carros chegados a Lisboa em 1901.
in Lisboa de Antigamente

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Avenida 24 de Julho: o «Aterro»

O Aterro da Boa Vista iniciou-se em 1855 e foi uma das maiores obras públicas portuguesas desse século. Consistiu na ligação do Cais do Sodré a Alcântara através da Av. 24 de Julho, conquistando, para isso, terrenos ao rio. A zona era uma enseada de atracação de embarcações delimitada por um caminho à beira-rio, onde é actualmente a Rua da Boavista.

Avenida 24 de Julho |c. 1900|
Carro de bois na zona do Aterro da Boa Vista — na zona da Ribeira Nova — carregando carvão.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

N.B. Situava-se o Aterro, que corresponde à actual Avenida 24 de Julho, perto do Ramalhete dos Maias de Eça de Queiros, Aterro porque era a parte aterrada do rio Tejo por volta de 1858. Foi aqui que Carlos da Maia salvou de um garrotilho a ilha de um brasileiro, ganhando «a sua primeira libra, a primeira que pelo seu trabalho ganhava um homem da sua família».

Avenida 24 de Julho |c. 192-|
Greve dos carroceiro junto a Santos.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2021

Mercado de hortaliças da Ribeira Nova

O Mercado da Ribeira Nova há vinte anos [por  volta de 1919] — lembra Norberto de Araújo — era, quási exclusivamente, de peixe, e o das hortaliças e frutas arrumou-se até 1927 nuns barracões, entre a linha do caminho de ferro, à qual se encostava por lado de terra, e a Avenida 24 de Julho. 

Mercado de hortaliças da Ribeira Nova [Início do séc. XX]
Avenida 24 de Julho
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Esse Mercado de frutas e verdes junto à linha férrea fora originado por uma greve de hortaliceiras na Praça da Figueira; as rebeldes foram-se instalar no Cais de Santarém onde estiveram dois anos, até que, despejadas dali, se instalaram (1905) no sítio — hoje [1939] ajardinado — onde fizeram o seu negócio (quem se lembrava já da greve?) até 1927. Entretanto juntaram-se-lhe as hortaliceiras da Ribeira Nova.

Mercado de hortaliças da Ribeira Nova [Início do séc. XX]
Avenida 24 de Julho
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Lê-se no Novo guia do viajante em Lisboa de Francisco Bordalo publicado nos idos 1853:  Ribeira Nova - Mercado de peixe , mas onde se encontram também fructas e hortaliças. Está situado em uma boa praça junto ao caes de Sodré; tem logares cobertos como a Praça da Figueira. Na frente do mercado, junto ao rio, está a casa fiscal da administração do pescado.==

Mercado de hortaliças da Ribeira Nova [1919]
Avenida 24 de Julho
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIII, p. 57, 1939.
BORDALO, Francisco Maria, Novo guia do viajante em Lisboa e seus arredores, 1853.

sexta-feira, 8 de março de 2024

Avenida 24 de Julho com o Beco da Galharda

O Beco da Galharda — designação de toponímia não oficial — , perpendicular à Avenida 24 de Julho, tem início entre os seus n.ꟹ 68 e 74, dá acesso ao estacionamento existente no logradouro dos edifícios 74 a 76 e termina frente ao n.º 70, e estabelece a ligação com o Pátio do Pinzaleiro.

Paralelo a este  Beco da Galharda «corre o estreito Beco da Galheta (ou da Calheta) — quem dá por ele? — no qual se rasgam, para norte, umas escadinhas, sob passadiços, deixando uma nota pobre de pitoresco. Na segunda metade do século passado, tudo isto por aqui fora eram «tercenas», e que talvez, em rigor, não valessem aquela designação. Não admira, pois, que neste Beco da Galheta [e no da Galharda] se continuem, em série, armazéns encerrados, gradeados, negros — disto que já ninguém lembra o que foi um dia». [...]
É tudo a orla «marginal «velha» do começo do século passado, muito antes do aterramento do areal, quando o mar batia no paredão das tercenas, e por aqui cheirava a maresia, e a cereais quentes pelo repouso nos porões». [Araujo: 1939]

Avenida 24 de Julho (68 -74) com o Beco da Galharda |1912|
Cem anos depois, a fachada do edifício à esquerda — que faz gaveto com o Beco da Galharda — foi recuperada e ainda está de pé, assim como, a fachada do prédio ao centro e na imagem seguinte, por trás do gradeamento que se pode ver mais à direita.
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

As ovarinas (peixeiras) formam com seus pais, maridos e irmãos a mais curiosa população desta cidade, repara Maria Rattazzi (c. 179); população inteiramente à parte e com carácter e feição própria. São esses rudes operários do mar que fornecem peixe à capital do país; os homens embarcam para ir pescá-lo, as mulheres percorrem para vendê-lo as ruas da cidade, levando à cabeça uma canastra de fundo chato, equilibrada com graça e habilidade.
É original a sua maneira de trajar: na cabeça usam um chapéu redondo de feltro preto, de grandes abas reviradas; no peito um lenço de cor; acima da cintura uma larga faixa de lã, que dá várias voltas à roda do corpo; saias curtas só até ao meio da perna; pernas e pés descalços.
[Maria Rattazzi ( 1833-1902 ) . Portugal de Relance . [c . 1879)]

Vêm sacudindo as ancas opulentas!
Seus troncos varonis recordam-me pilastras;
E algumas, à cabeça, embalam nas canastras
Os filhos que depois naufragam nas tormentas.
{Cesário Verde (1855-1886, O sentimento dum ocidental, 1880]

Avenida 24 de Julho (68 -74) com o Beco da Galharda |c. 1930|
Ao fundo nota-se a fachada do edifício — que faz gaveto com o Beco da Galharda — aqui ocupado por uma fábrica de chocolates.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Companhias Reunidas de Gás e Electricidade e Fábrica de Gás da Boavista

Com armazéns arrendados na «Praia da Boavista» desde 1847, a «Companhia Lisbonense de Iluminação a Gaz» possuía, em 1852, cinco gasómetros e duas baterias de fornos. Entre 1875 e 1877 mandou construir a fachada neogótica que ocultava as instalações da fábrica do lado do Aterro da Boavista. 
 
A Companhia Lisbonense de Iluminação a Gaz (fábrica da Boavista) e a Companhia Gaz de Lisboa (fábrica em Belém) fundem-se, em 1891, passando a designar-se Companhias Reunidas de Gás e Electricidade - C.R.G.E., Inicia-se, assim, um ciclo de produção de gás de cidade, igualmente conhecido como gás iluminante, que vem beneficiar a população, melhorando as suas condições de vida em vários níveis.
 
Companhias Reunidas de Gás e Electricidade [193-]
Avenida 24 de Julho
Kurt Pinto, in Lisboa de Antigamente
Companhias Reunidas de Gás e Electricidade [Inicio séc. XX]
Avenida 24 de Julho

Fotógrafo não identificado, 
in Lisboa de Antigamente

A iluminação a gás inaugurou-se em Lisboa em Julho de 1848, com os primeiros 28 candeeiros, nas ruas da Baixa (Rua dos Capelistas [hoje do Comércio], Rua do Ouro e Rua da Prata), no Chiado, na Rua do Alecrim, no Cais do Sodré, em S. Paulo e na Boavista.  
[in Lisboa: histórias e memórias, Maria João Janeiro, 2006, p. 130]
 
Panorâmica sobre o rio Tejo, vê-se a fábrica de Gás da Boavista [1906]
Avenida 24 de Julho
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

No dia 10 de Outubro  de 1914 uma violenta explosão na casa das caldeiras da Fábrica do Gás, localizada na Rua da Boavista, provocou 18 mortos, cerca de 60 feridos e elevados danos materiais. Este trágico acontecimento deu origem a severas críticas acerca da localização de tão perigoso equipamento numa zona tão densamente povoada da cidade.
A cobertura que a revista Ilustração Portuguesa deu a este acontecimento pode ser aqui revisitada.

Rua da Boavista [1914]
Incêndio no edifício da Companhia de Gás e Electricidade.
Joshua Benoliel, 
in Lisboa de Antigamente
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