Tuesday, 23 June 2015

O «lagarto» da Penha de França

Ermida da Penha de França


A tradição olisiponense teima em afirmar, em sua lenda, que foi neste lugar alto da Penha de França que Ulisses deu-se de amores com a “deusa-serpente”, Ofiússa, que não era “serpente” mas rainha de uma sociedade mítica de mulheres guerreiras, religiosas e sibilas ou profetisas. A verdade é que nesta igreja de Nossa Senhora da Penha ainda se presta culto à serpente, talvez memória do primitivo culto romano ao deus Esculápio, entrando tardiamente o onomástico Penha de França em lembrança de um monge francês ter descoberto uma imagem da Virgem escondida aqui numa penha, durante o período árabe da ocupação da Península Ibérica.

Ermida da Penha de França, [c. 1910]
Fachada principal, virada ao Largo da Penha de França (
Cabeça de Alperche)
Paulo Guedes, in Arquivo Municipal de Lisboa

   Este templo é dos que mais testemunham em Lisboa a intervenção do sobrenatural, não lhe faltando uma “casa dos milagres” onde se expõe uma curiosa colecção de ex-votos. Sem dúvida que de todas as lendas a principal deste sítio é a do lagarto da Penha. Se uma versão diz que um cansado peregrino, dormindo na encosta do monte, prestes a ser atacado por um lagarto enorme, foi acordado pela Senhora, salvando-se milagrosamente dele, uma outra relata que ele foi acordado por um lagarto por intervenção de Nossa Senhora, livrando-se do ataque de uma cobra. Até 1739 conservou-se na igreja um grande lagarto embalsamado, substituído por um outro de madeira que desapareceu no terramoto. Como a segunda versão da lenda é que vingou, pode-se ainda ver sobre as portas da sacristia um lagarto (mais se parecendo a um crocodilo) e uma cobra de madeira. Repete-se novamente a Senhora da Penha e a lenda do lagarto no painel de azulejos na fachada posterior da igreja. Crê-se que a serpente simboliza a antiga religião “pagã” dos árabes, e o lagarto sendo o dragão dos lusos cristãos miraculosamente salvos daquela, graças a esta Virgem da Vitória.


Mas tanto o dragão como a serpente em paridade, aquele estará para a Sabedoria desvelada e o Sol expressivo da Energia Celeste que a Tradição Iniciática chama de Fohat, enquanto a serpente é a sinalética da Sabedroia ocultada e da Lua expressiva da Energia Terrestre chamada Kundalini pela mesma Tradição Iniciática. Sol e Lua ligados pelo Prana promanado do Coração da Mãe Divina, a Energia Vital que a tudo e a todos alenta, e nisto tudo se resumem as figuras das Armas Episcopais da Senhora da Penha, com a águia dupla sobre o Sol e a Lua tendo o Coração Sangrento ao centro, atravessado pela flecha martirial fazendo jorrar o Sangue Real de Cristo, mas também a de sua Santa Mãe Maria (Cordo Maris), a que está no cimo do Gólgota, no alto da Penha de França, Coração da Europa.
(in Vitor Manuel Adrião, Guia de Lisboa Insólita e Secreta. Editorial Jonglez, Versailles, Abril de 2010)

4 comments:

  1. Eu e uma amiga minha vimos o lagarto dos painéis de azulejos a mexer há uns anos. Ficamos tão assustadas que desatámos a correr.

    ReplyDelete
  2. Eu devia estar a dormir há horas mas agora que encontrei este seu blog, não consigo desligar o computador e bebo cada palavra, cada história, cada fotografia... obrigada!

    ReplyDelete

Web Analytics