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Sunday, 10 October 2021

Palácio ou Paço das Necessidades

O Palácio ou Paço das Necessidades, com seus corpos de edifícios na parte Norte, e com sua fachada elegante e discreta, e da qual olhando o Tejo, avança a frontaria da Igreja, é, Dilecto, como observas, de um conjunto gracioso, e, como expressão arquitectónica, muito equilibrado.


Dilecto: o Palácio das Necessidades, como o de Belém constitui uma página viva da história política e realenga dos últimos cem anos. Escuso de te reavivar a memória. Não é indiferentemente que nos quedamos a olhar a sua fachada. Glórias e tragédias, alegrias e dores, confiança e certeza, fausto e penumbra — passaram por ele.
Não temos que o olhar com saudade, mas com um certo respeito comovido: não será do seu tempo aquele que for insensível às cousas do passado.

Palácio das Necessidades, pórtico da Capela, vendo-se o pináculo de Torre |c. 1900|
Largo das Necessidades
A Frontaria, sobre o Largo das Necessidades, em três corpos de edifício,  contínuos, adornados de vinte e quatro janelas de sacada, coroadas de ática; e  nela, como parte integrante, a frontaria da Capela.
Fotógrafo não identificadoin Lisboa de Antigamente

Deve-se a D. João V o Paço das Necessidades, hoje Palácio Nacional, e sede do Ministério dos Negócios Estrangeiros. Desde 1607 que existia neste sitio do Alto de Alcântara uma ermidinha da invocação de N.ª Senhora das Necessidades, cuja irmandade foi constituída por marítimos da carreira da Índia. Meio século depois (1659) Pedro Castilho, servidor de D. João IV, comprou umas casas contiguas à Ermida, ampliando o piedoso sacelo [pequeno templo ou santuário] das Necessidades; no meado do século XVIII a Ermida e um largo prazo de terreno da Lapa (ou Cova) da Moura e da Ribeira de Alcântara pertenciam a um descendente daquele Pedro Castilho, Gaspar (ou Baltasar) Pereira Lago de Castilho. Foi a este que o Rei D. João V, que atribuiu a intercessão da Senhora das Necessidades à cura de uma grave doença (1742), comprou terrenos e casas com o tríplice objectivo de erguer uma nova igreja condigna, de edificar um paço real e de construir uma grande casa para os padres da Congregação do Oratório. O arquitecto Caetano Tomás de Sousa traçou o projecto, ficando a Igreja de N.ª Senhora das Necessidades integrada no Paço, e este contiguo ao convento e à sua larga quinta. As obras principiaram logo em 1748 e estariam concluídas em 1750.

Palácio das Necessidades |post. 1910|
Largo das Necessidades
O p6rtico da Capela, aberto por três arcos laterais entre quatro colunas, e por dois arcos laterais, e, nele, um vestíbulo ou galilé.
Paulo Guedes, in Lisboa de Antigamente
Palácio das Necessidades |1908|
Largo das Necessidades
A Guarda no Palácio das Necessidades após o Regicídio.
Alberto Carlos Limain Lisboa de Antigamente

O irmão de D. João V, infante D. Manuel, aventureiro militar da Europa, dado camo pretendente ao trono da Polónia, e que regressara à Pátria em 1784, foi o primeiro morador do novo Paço, ainda que por pouco tempo, e depois o seu irmão D. António. Até D. Maria, porém, os soberanos não residiram senão eventualmente nas Necessidades, servindo este Paço para hospedar príncipes estrangeiros (o príncipe de Gales, depois Jorge I V, por exemplo, e seus irmãos) ou algum infante da Casa de Bragança. D. Maria II é que fez das Necessidades residência habitual, assim como D. Pedro V e D. Estefânia (que nele morreram), D. Manuel II, que no Paço residia quando da revolução de 8 de Outubro de 1910.
Proclamada a República, o Palácio das Necessidades, como outros paços reais, entrou no património da Nação; esteve alguns anos encerrado até que em 1916 para ele se transferiu da ala Nascente da Praça do Comércio o Ministério dos Negócios Estrangeiros.

Palácio das Necessidades |c. 1870|
Largo das Necessidades
A varanda superior da Capela, e nela, as estátuas de S. Felipe Nery e de S. Francisco de Şales, obra de Alexandre Giusti, e ainda a estátua de S. Pedro, a um lado da porta, do mesmo escultor italiano, e a de S. Paulo, do outro lado, trabalho do escultor português António de Almeida.
Francesco Rocchini, 
in Lisboa de Antigamente

Interiormente, nas salas e mesmo nos pátios, foi, em várias épocas, o Palácio beneficiado, restaurado e transformado, nomeadamente em 1836 quando do casamento de D. Maria II com D. Fernando, cujas iniciais subsistiam entrelaçadas em muitos motivos decorativos, e em 1886 quando do casamento de D. Carlos com D. Maria Amélia de Orleans. Pode afirmar-se, porém, que a estrutura do Palácio é a original, pois o Terremoto de 1755 nenhuns danos lhe causou. De 1910 até à data variaram, porém, quási totalmente, as utilizações das salas e câmaras, adaptadas a repartições e gabinetes, sendo o recheio substituído e realizadas algumas transformações decorativas. A capela não tem culto desde 1910 e muitas das suas alfaias e imagens encontram-se no Palácio da Ajuda, em depósito. A antiga «Casa Forte das Necessidades» onde se guardava o «Tesouro», está vazia, havendo sido transferidas as suas preciosidades de ourivesaria para o Museu de Arte Antiga.

Fotografia aérea da zona de Alcântara, vendo-se na esquerda alta, o Palácio e a Tapada das Necessidades |1971|
Armando Serôdio, in Lisboa de Antigamente

Do antigo Convento da Congregação do Oratório apenas restam silhares de azulejos. Quanto ao Palácio, cujo recheio quási inteiramente desapareceu daqui para outros palácios nacionais, conserva ainda o seu ar palaciano, um certo ambiente austero de beleza fria, e salas que mal fazem lembrar a opulência antiga.
Nota, Dilecto, a torre da antiga Igreja, recuada à esquerda da frontaria do edifício. Parece uma sentinela de Nossa Senhora das Necessidades.
______________________________________________________
Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Inventário de Lisboa: Paços e  palácios nacionais, 1946.
idem, Peregrinações em Lisboa, vol. IX, p. 18-19, 1939.

Sunday, 28 August 2016

Chafariz das Necessidades

Já agora observaremos neste pequeno Jardim das Necessidades, sobranceiro a Alcântara, o obelisco de mármore rosa, encimado por uma cruz de bronze, sobre esfera de espinhos, e que se eleva dum chafariz gracioso, num conjunto que se ajusta ao local, tendo por fundo a fachada da Igreja. Data de 1747 — recorda Norberto de Araújo — e é também obra de mandado de D. João V; as magníficas carrancas de pedra completam a singela decoração do chafariz e de seu tanque, muito século XVIII.1

Chafariz das Necessidades [1928]
Largo das Necessidades, Jardim Olavo Bilac
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Localizado no Largo das Necessidades no Jardim Olavo Bilac, fronteiro à Capela de Nossa Senhora das Necessidades, integra o conjunto do Palácio das Necessidades, classificado como Imóvel de Interesse Público. Este equipamento, datado de 1747, não foi construído com o objectivo de abastecer de água a população do local, mas sim, como resultado de um voto de D. João V, que em 1747 o consagrou à Virgem. A sua autoria tem sido atribuída a Caetano Tomás de Sousa, um dos mestres que acompanhou de forma continuada a construção do conjunto do Palácio das Necessidades.

Chafariz das Necessidades [1967]
Largo das Necessidades, Jardim Olavo Bilac; Capela de Nossa Senhora das Necessidades; pormenor das carrancas e golfinhos em pedra lioz.
Artur Inácio Bastos, in Lisboa de Antigamente

Entre 1772 e 1791 foi objecto de transformações, possivelmente sob a orientação do arq.º Reinaldo Manuel dos Santos, que lhe conferiram a utilidade de fonte pública. O elemento central deste conjunto é um obelisco aquático, de mármore, assente num pedestal quadrangular e rematado por uma custódia de espinhos e uma cruz de bronze, evidenciando o sentido religioso da obra. Obelisco este, que se eleva do centro de um tanque quadrilobado, assente sobre três degraus, o qual recebe a água que jorra de quatro elementos escultóricos, de inspiração barroca, compostos por carrancas exteriores e por golfinhos em pedra lioz no verso, colocados por cada lóbulo do tanque, entre a borda deste e cada uma das faces do pedestal do obelisco. [cm-lisboa.pt]

Chafariz das Necessidades [1959]
Largo das Necessidades, Jardim Olavo Bilac
Arnaldo Madureira, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. IX, p. 20, 1939.

Friday, 24 November 2017

Panorâmica sobre o Vale da Lapa da Moura: Chafariz das Terras (ou de Buenos Ayres)

No século XVIrecorda-nos Norberto de Araújoo lado poente do actual bairro [da Lapa], que cai sobre a Pampulha, era de campos matizados de casas e arvoredos, onde aqui e ali afloravam pedreiras. Uma lapa, numa dessas rochas deu origem à «Lapa da Moura», designação oral, e documentada, que precedeu a de «Cova da Moura» ainda existente. A “«lapa» – à Pampulha, sítio mais antigo – subiu para Norte e Nascente até ao Mocambo e, deslocando a designação, firmou a Lapa de setecentos.


Em fundo, paredes meias com a Tapada das as Necessidades, espalmada entre muros, sobe a Calçada do mesmo nome, vendo-se, ao cimo desta, o palacete da Casa de Bragança no gaveto para a Rua do Borja; logo abaixo, entre a Calçada e o ramal do Aqueduto ou Galeria das Necessidades, o Vale da Cova da Mourasímbolos do passado que se foram para dar lugar a novos arruamento, por onde corre actualmente a Avenida Infante Santo, construída na década de 1940 e que implicou a demolição parcial do referido aqueduto; na 1.ª imagem, em baixo à esquerda, na Travessa do Chafariz das Terras, junto à «Casa das Iscas» e adossado ao troço do Aqueduto das Águas Livres, vislumbra-se o Chafariz das Terras e o movimento de aguadeiros; do lado direito do ramal, encontramos a Rua do Pau da Bandeira, «dístico antigo e pitoresco» diz Norberto de Araújo —, «cuja origem me escapa» e que comunica com a referida Travessa através de um dos arcos do aqueduto contíguo ao chafariz. (vd. 2ª foto).

Panorâmica sobre o Vale da Cova da Moura [s.d.] [prov. início séc. XX]
Travessa do Chafariz das Terras e Chafariz das Terras; Rua do Pau da Bandeira; Calçada das Necessidades
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Localizado na Tv. do Chafariz das Terras, à Cova da Moura, o Chafariz das Terras surge encostado ao Aqueduto das Águas Livres, sendo abastecido pela água proveniente da Galeria das Necessidades. De construção mais tardia, 1867, e por iniciativa camarária, tal como atesta a inscrição patente numa tabela quadrangular, de vértices chanfrados, existente na frontaria do chafariz, traduz uma solução mais simples e funcional em relação aos imponentes modelos de chafarizes abastecidos nos primeiros tempos de funcionamento do Aqueduto. Chafariz de planta rectangular, com um largo espaldar, cujo pano frontal surge delimitado lateralmente por cunhais coroados por pequenos coruchéus em pirâmide. A meio da cimalha ostenta as armas da cidade inscritas numa moldura circular e na base possui 2 tanques de recepção de águas diferenciados assentes sobre degraus. Uma porta lateral dá acesso ao interior da arca de água.

Chafariz das Terras (ou de Buenos Ayres) [1970]
Travessa do Chafariz das Terras e o arco que liga com as Ruas do Arco do Chafariz das Terras e do Pau da Bandeira
Assim como a Rua do Arco do Chafariz das Terras este é um topónimo fixado na memória da cidade em data que se desconhece mas que será seguramente do final do século XVIII já que a denominação deriva do primitivo Chafariz das Terras, construído em 1791, mais acima daquele em que está hoje; neste sítio tem a data de 1867.
Artur I. Bastos, in Lisboa de Antigamente
 
Sofreu melhoramentos em 1812, tinha em meados do século XIX, 2 bicas, 2 Companhias de Aguadeiros, 2 capatazes e cabos, 66 aguadeiros e 1 ligeiro.

Chafariz das Terras (ou de Buenos Ayres) [1947]
Travessa do Chafariz das Terras
Fernando Martinez Pozal, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. VII-IX. 
VELOSO DE ANDRADE, José Sérgio , Memória sobre Chafarizes, Bicas, Fontes e Poços Públicos de Lisboa, Belém e muitos lugares do Termo., 1851.
monumentos.pt; cm-lisboa.pt.

Sunday, 19 April 2026

O Sítio de Alcântara

Dizer Alcântara na toponímia lisboeta é, só por si, compor um quadro de movimento e de febril agitação bairrista — recorda Norberto de Araújo, o grande enamorado de Lisboa. Alcântara foi um lugar, um sítio; é um bairro, uma zona com individualidade e consciência. Tudo gira em Alcântara: fábricas, oficinas, linhas, ruas — vidas.
O que em Alfama é estático é, em Alcântara dinâmico. Este bairro tem azougue.
O seu pitoresco é de cosmograma. Não existe neste rincão da Cidade nada de contemplativo. Apenas nas Necessidades, com seu jardim, com seu obelisco, com o seu palácio e na sua tapada — mora o repouso. Persiste ali um pedaço de beleza e gracilidade de miradouro. É a mancha aristocrática e requintada do bairro. 

Praça General Domingos de Oliveira |1965|
Antigo Largo de Alcântara 
À dir. destaca-se o prédio setecentista — pombalino e altaneiro — referido mais à frente por Norberto Araújo,   
Artur I. Bastos, in Lisboa de Antigamente
Praça General Domingos de Oliveira |1965|
Remodelação da Rotunda de Alcântara, devido à construção do acesso à ponte sobre o Rio Tejo; à dir. observa-se o antigo Eden Cinema
Artur I. Bastos, in Lisboa de Antigamente

Alcântara urbanizada não leva duzentos anos: de arrabalde fez-se cidade em fins de setecentos. Mas é lisboeta de casco e sumo. Rescende alguma coisa de um passado evocativo. Já lá não está a ponte de Alcântara com S. João Nepomuceno. Mas o Prior do Crato resiste no letreiro da artéria principal do bairro. Do tempo velho ficaram e falam deliciosas legendas: Baluarte, Trabuqueta, o Arco, as Fontainhas, a Triste-Feia; a Horta Navia — saudade de Alcântara quinhentista, o Fiúza — reminiscência de Alcântara palaciana, o Sacramento — evocação de Alcântara conventual.
Foram-se os marinheiros rude golpe no coração do bairro! — ; ficou a Praça da Armada com seu Neptuno de tridente no Chafariz. O risonho vale de Alcântara vai-se sumindo, mas nas lombas do Alvito e da Cruz das Oliveiras demora-se a expressão popular campesina que ficou do rústico antigo.
O prédio setecentista cor-de-rosa da quina poente-sul do Largo — pombalino e altaneiro — é com a sua famosa adega do «Sete-e-Sete» — o padrão bairrista de Alcântara [vd. 1.º imagem à dir.]: cinco gerações o contemplaram — sequiosas.
Pequeno mundo alfacinha, vizinho do Calvário, da Pampulha, da Avenida da India — desentranha-se em vida. É o pregão cantante do trabalho. Contido entre a Serra e Tejo, possui a índole atávica de um poeta, a alma rude, nostálgica de um mareante.==

Praça General Domingos de Oliveira |1966|
Vista tomada da R. da Quinta do Jacinto — onde brincam os ganapos. Ao fundo nota-se o pináculo da torre sineira do Palácio das Necessidades.
Artur I. Bastos, in Lisboa de Antigamente
Praça General Domingos de Oliveira |1966|
Rua de Alcântara (esq-) e acesso à ponte sobre o Rio Tejo.
Artur I. Bastos, in Lisboa de Antigamente

N.B. A edilidade lisboeta, através  edital de 18/08/1966, presta homenagem ao General Domingos de Oliveira atribuindo o seu nome a um arruamento da cidade. [1943-1974 - Actas da Comissão Municipal de Toponímia de Lisboa]
Domingos Augusto Alves da Costa Oliveira (1873–1957) foi presidente do Conselho de Ministros em 1920, ministro interino da Justiça, membro vitalício do Conselho de Estado (1949) e oficial-general do Exército. A sua carreira reúne inúmeros louvores e condecorações, incluindo a Grã-Cruz da Ordem Militar de Avis e a da Ordem Militar da Torre e Espada.

Fotografia aérea da zona industrial de Alcântara |1950-04|
Caminho de ferro; Palácio das Necessidades; Estação de Alcântara-Terra e Mercado de AlcântaraVale de Alcântara...
Garcia Nunes, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Legendas de Lisboa, pp. 142-143, 1943.
idem, Peregrinações em Lisboa, vol. IX, 1939.

Tuesday, 7 June 2016

Rua de Santo António à Estrela: demolição de um arco do Aqueduto das Águas Livres

Este arco sito na do Rua de Santo António à Estrela era parte do Aqueduto do Convento da Estrela, ramal subsidiário do Aqueduto das Águas Livres ou Galeria das Necessidades, que conduzia a água para os chafarizes de Campo de Ourique, da Estrela, da Praça da Armada e das Terras

Convento do Santíssimo Coração de Jesus e Arco do Aqueduto sobre a Rua de Santo António à Estrela [ant. 1885]
Em 1885, as dependências conventuais são entregues à Fazenda Nacional, para instalação dos Serviços Geodésicos, depois Instituto Geográfico e Cadastral.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente


Partia do Arco do Carvalhão terminando na Tapada das Necessidades, onde nascia outro ramal à superfície, que atravessava o Vale da Cova da Moura, actualmente a Avenida Infante Santo, até às Janelas Verdes, abastecendo o respectivo chafariz; a abertura da Avenida implicou a sua demolição. 

Rua de Santo António à Estrela: demolição de um arco do Aqueduto [10 de Abril de 1897]
O último prédio alto à esquerda [vd. 3ª imagem], com portal abobadado, era o edifício
utilizado para recolha dos ascensores Estrela-Camões; à direita, a antiga Cerca do
Convento da Estrela (ou Sagrado Coração de Jesus, hoje pavilhão do Hospital Militar);
ao fundo, a Igreja e Antigo Convento de Nossa Senhora da Estrela (Hospital Militar Principal).

Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Foto, inscrição no original: «Demolição do Arco Grande do Aqueduto, na Rua de Santo António à Estrela, arriado em 10 de Abril de 1897 pelos operários da secção de obras da Exma Câmara Municipal de Lisboa, foram entregues no depósito do Edificio da Estrela em 10 de Agosto do mesmo anno duas torneiras de bronze que pezavam a 1.ª 117,0 Kilos e a 2.ª 115,0 Kilos no total de 232,0 kilos.»

Levantamento topográfico de Francisco Goullard (1882)]: n.º 163
Planta referente ao estado da Rua de Santo António à Estrela, em Outubro de 1890. Localização do Arco Grande do Aqueduto do Convento da Estrela
(Clicar para ampliar)

Recolha dos elevadores Estrela-Camões, demolido em finais de 1941
Praça da Estrela; a esq., a Rua Domingos Sequeira e, à dir., a Rua da Estrela

(Este prédio é aquele que se pode observar do lado esquerdo na 2.ª imagem). 
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Sunday, 2 February 2025

Avenida Almirante Reis: obras do Metropolitano

Nos primeiros anos do século XX, paralela à antiga Estr. de Sacavém e prolongando para Norte a Rua da Palma, é aberta a Av. Almirante Reis que, na sua primeira fase, terminará junto ao hospital de Arroios, na actual actual Praça do Chile. Rasgada no último período da monarquia. Quantos lisboetas saberão hoje quem foi este Almirante Reis que deu o nome a uma das mais importantes artérias citadinas? Chamava-se Carlos Cândido dos Reis (1852-1910), foi vice-almirante da marinha de marinha de guerra e um dos grandes instigadores e organizadores da revolução de 5 de Outubro de 1910. Construída sobretudo com prédios de rendimento, destinada a uma classe média de cariz republicano, o nome caiu-lhe bem. E ficou.

Avenida Almirante Reis: obras do Metropolitano (Intendente) |1966|
Junto à Tv. Cidadão João Gonçalves com o Castelo encimando a imagem.
Armando Serôdio, in Lisboa de Antigamente

A Avenida tem sofrido alterações diversas. Começou por ser ladeada de árvores, ao gosto da época; só que as necessidades de época (e de todas as épocas afinal; só que as necessidades de trânsito se tornam prioritárias), para ser depois alargada e «modernizada» no início da década de quarenta. No meado do seculo8 XX dá-se inicio à construção do Metropolitano.

Avenida Almirante Reis: obras do Metropolitano |1965-05|
Junto ao antigo Cinema Lys (Roxy) no cruzamento com a Rua dos Anjos.
Artur J. Goulart, in Lisboa de Antigamente

A sociedade Metropolitano de Lisboa, é constituída a 26 de Janeiro de 1948 e tinha como objectivo o estudo técnico e económico, em regime de exclusivo, de um sistema de transportes colectivos fundado no aproveitamento do subsolo da cidade. A concessão para a instalação e exploração do respectivo Serviço Público veio a ser outorgada em 1 de Julho de 1949.
Os trabalhos de construção iniciaram-se em 7 de Agosto de 1955 e, quatro anos depois, em 29 de Dezembro de 1959, o novo sistema de transporte foi inaugurado.
O 1º escalão de construção da rede foi concretizado em fases sucessivas. Assim, em 1963 entra em exploração o troço Restauradores/Rossio, em 1966, o troço Rossio/Anjos e, por último, é completado em 1972 com a ligação Anjos/Alvalade.

Avenida Almirante Reis: obras do Metropolitano (Anjos) |1966|
Junto ao eixo Rua de Angola/Rua Febo Moniz
Armando Serôdio, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ADRAGÃO, José Victor & PINTO, Natália, RASQUILHO, Rui, Lisboa, vol. 2, 1985.
metrolisboa.pt

Saturday, 3 September 2016

Avenida Infante Santo

Conforme o Edital de 13 de Maio de 1949 «o arruamento em construção, que ligará a Avenida 24 de Julho à Estrela, compreende parte da Rua Tenente Valadim, desde o término da curva do prédio do Estado (Instituto Maternal); parte da Travessa dos Brunos prédios nºs 22 e 24 e, ainda, a Rua da Torre da Pólvora» passou a ser a Avenida Infante Santo. [1]

Início dos trabalhos de demolição do troço do Aqueduto para a abertura da Avenida Infante Santo [1949]
Este troço do Aqueduto abastecia, desde 1778, o Palácio das Necessidades, a Cova da Moura, a Fábrica Ratton
e a Fábrica da Pólvora em Alcântara. A abertura da Avenida Infante Santo vai implicar a sua destruição
em finais da década de 1940; Basílica da Estrela

Judah Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Dom Fernando, o Infante Santo, oitavo filho de D. João I e de Dona Filipa de Lencastre, nasceu em Santarém, a 24 de Setembro de 1402, vindo a morrer em Fez, no ano de 1443.
Aparece ligado ao movimento defensor da presença portuguesa em Marrocos, perspectivando esta presença num misto de alargamento político da presença portuguesa e de alastramento da fé cristã. Sendo um defensor da conquista marroquina, é perfeitamente natural que pretendesse tomar parte na expedição, organizada já no reinado de D. Duarte, contra Tânger, e comandada pelo seu irmão Infante D. Henrique. Com o fracasso desta expedição e com a sua captura e abandono nos cárceres de Arzila e Fez, tornou-se num meio de pressão dos mouros junto dos portugueses para a sua troca pela cidade de Ceuta. No entanto, a importância de que Ceuta se revestia junto dos defensores da conservação daquela praça, leva a que o Infante D. Fernando seja sacrificado a este interesse, o que ele não entendia, dado o teor de uma carta que enviou da prisão ao seu irmão Infante D. Pedro, na qual se mostrava esperançado na sua libertação.
Com a sua morte, nascia a figura do Infante Santo, designação por que passou a ser conhecido. [2]

Avenida Infante Santo [1949]
Abertura da Avenida Infante Santo no local da antiga praceta do Aqueduto das Necessidades;
obras de urbanização e pavimentação

Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
[1] cm-lisboa.pt.
[2] CAMPOS, Nuno/CARNEIRO, Isabel: O Padrão dos Descobrimentos – roteiro para visita de estudo, 1994.

Sunday, 5 June 2016

Chafariz da Armada (ou de Alcântara)

Este chafariz era o chafariz das Necessidades construído em 1845-46, estando previsto a sua transferência para a Calçada do Livramento, mas acabou por ficar em Alcântara, em frente ao Quartel do Marinheiros. A sua construção, em cantaria de calcário lioz, iniciou-se em Julho de 1845, sendo encanado no canto do muro da Quinta das Necessidades, prosseguindo pela frente do Palácio, descendo até à Praça da Armada.

Chafariz da Armada (ou Chafariz de Alcântara) |c. 1930 (esq) e c. 1950|
Praça da Armada 
A Praça da Armada foi denominada Largo de Alcântara,
Praça de Armas e da Marinha, e vulgarmente Largo dos Marinheiros;
não oficialmente, era conhecido por Praça do Baluarte.

António Passaporte, in Lisboa de Antigamente

Crê-se que as carrancas que ostenta pertenciam ao Chafariz do Campo de Sant'Ana. Foi concluído em 28 de Março de 1846 e orçou em 3:115$961 réis. O chafariz tem planta circular, ladeado por dois tanques para o gado e por quatro bacias com as respectivas bicas para o povo no nível superior para o qual se sobe uma escada de três degraus. No topo tem uma estátua de Neptuno que se diz pertencer ao demolido Chafariz do Campo Grande após a sua demolição em 1850.

Chafariz da Armada  ou Chafariz de Alcântara |1968|
Praça da Armada 
A Praça da Armada foi denominada Largo de Alcântara,
Praça de Armas e da Marinha, e vulgarmente Largo dos Marinheiros;
não oficialmente, era conhecido por Praça do Baluarte.

Armando Serôdio, in Lisboa de Antigamente

Os apainelados da face frontal possuem, no painel superior, as armas da cidade, surgindo, no inferior, uma inscrição pintada a preto: N.º 10. CAMARA MUNICIPAL 1845
Em 1851 tinha ao serviço 2 companhias de aguadeiros, 66 aguadeiros e 1 ligeiro..

Chafariz da Armada  |entre 1908 e 1914|
Praça da Armada
A Praça da Armada foi denominada Largo de Alcântara,
Praça de Armas e da Marinha, e vulgarmente Largo dos Marinheiros;
não oficialmente, era conhecido por Praça do Baluarte.

Charles Chusseau-Flaviens, in Lisboa de Antigamente
* O local não se encontra identificado pelo fotógrafo

Sunday, 7 October 2018

Quartel de Marinheiros

Ora aí tens o quartel dos Marinheiros, de tanto renome bairrista — recorda-nos Norberto de Araújo.
O Corpo de Marinheiros foi criado cm Agosto de 1854, começando poucos anos depois a erguer-se éste edifício, só concluído em 1865. Os terreiros para o seu Quartel não pertenciam ao Estado — segundo creio —, e teriam sido cedidos a titulo de doação perpétua, não podendo ter outro destino que não fõsse o de servir a aquartelamento da Armada. É, como se vê, urna coustrução trivial com dois andares, com corpos laterais que envolvem a parada norte, e um outro corpdcentral — em cujcs baixos foi a prisão dos marinheíros até o ano passado — , e que entesta a parada sul, debruçada sôbre o alto muro corrido da Avenida 24 de Julho e Rua do Tenente Valadim, que liga aquela avenida à Pampulha.
Quartel de Marinheiros (ao centro) [1932]
Praça da Armada, antiga Rua do Arco a Alcântara (1888)
Fotógrafo não identificado,
in Lisboa de Antigamente

No terreno da parada do actual Quartel se erguia no século XVII, sôbre chão que pertencera ao Conde de Cantanhede, o Baluarte de Alcântara, começado a construir em 1650, e que obedecia a um plano de novas fortificações da cidade, que compreendia 32 dêsses fortins, e que não prosseguiu na execução. O Terramoto destruiu quási por completo êste Baluarte, que ocupava uma larga área sôbre o rio e sob Alcântara.
O Corpo dos Marinheiros foi afastado dêste edifício em 1918, e nunca mais para aqui voltou. No antigo quartel estão hoje [1939] instalados o Tribunal de Marinha, o Arquivo do Ministério da Marinha, a Secção de Reformados, a Assistência aos Tuberculosos da Armada, e a Banda da Marinha.

Quartel de Marinheiros (ao centro) [c. 1940]
Panorâmica sobre a Avenida 24 de Julho, ao fundo vê-se o Palácio das Necessidades.
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. IX, p. 15, 1939.

Thursday, 20 August 2015

Imprensa Nacional, descendente da Impressão Régia

Criada por Alvará de 24 de Dezembro de 1768, a Impressão Régia, também chamada Régia Oficina Tipográfica, só a partir de 1833 passou a ser designada Imprensa Nacional [vd. N.B.].
Para dar início à sua laboração, foi adquirida a oficina tipográfica de Miguel Manescal da Costa e o palácio de D. Fernando Soares de Noronha, à Cotovia, na então Rua Direita da Fábrica das Sedas, quase defronte do Colégio dos Nobres [actual Escola Politécnica], mas com entrada pela Travessa do Pombal, actual Rua da Imprensa Nacional. O palácio foi comprado em 1816, pelo preço de 18 contos de réis. Em 1895, o velho edifício, considerado inadequado para as necessidades de um estabelecimento fabril em contínuo desenvolvimento, começou a ser demolido, para dar lugar ao actual. A obra, que decorreu por fases, ficou concluída em 1913.

Imprensa Nacional em construção, não existindo ainda a fachada principal virada à Rua da Escola Politécnica, como se pode ver nesta foto de 1911.
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

À Impressão Régia foi, nos termos do Alvará de 1768, «unida a fabrica dos caractéres que até agora esteve a cargo da Junta do Commercio», fundada em 1732 por Jean de Villeneuve. Este francês viera para Portugal chamado por D. João V para ensinar a sua arte. Foi-lhe cometida a «continuação do ensino de aprendizes da mesma fabrica de letra, para que não faltem no reino os professores desta utilissima arte».
[...]
Mais tarde, entre 1802 e 1815, teve este cargo o célebre gravador Francesco Bartolozzi, chamado a Lisboa pelo então presidente do Real Erário, D. Rodrigo de Sousa Coutinho. [in incm.pt]

Imprensa Nacional [post. 1913]
Rua da Escola Politécnica, 135-137; Rua do Noronha; Rua da Imprensa Nacional
Joshua Benoliel, 
in Lisboa de Antigamente

N.B. A Imprensa Nacional edita obras essenciais da cultura nacional e universal. Preserva e amplia o património bibliográfico da língua portuguesa, assegurando-o assim às gerações futuras. Promove e incentiva a criação literária, em língua portuguesa, com a atribuição de quatro prémios literários.

Monday, 20 July 2015

Convento do Santo Crucifixo das Capuchinhas Francesas

Sobre a ruína do mosteiro do Santo Crucifixo paira ainda hoje a aza (sic) negra da fatalidade; e, daqui a pouco, razoirado o terreno, modificado o aspecto da rua, erguidos no seu local novos edifícios, ruirá também a própria lembrança das pobres freiras francesinhas. 
Paz às suas almas! [Sequeira: 1924]

Nesta historia verá Vossa Magestade hum edificio por todas as circunstancias Real, porque lhe deu princípio a Augustissima Rainha D. Maria Francisca Isabel de Saboya. [Barbosa: 17484]

O Convento do Santo Crucifixo das Capuchinhas Francesas, conhecido como das «Francesinhas» foi fundado em 1667 pela Rainha de Portugal Maria Francisca de Sabóia, esposa de D. Afonso VI e, em segundas núpcias, de D. Pedro II. Quando morreu, a rainha foi sepultada no convento que fundou. Em 1911, o corpo foi trasladado para o Mosteiro de São Vicente de Fora, dando-se então início à demolição do convento [vd. 3ª imagem].

Esquina da Calçada da Estrela e do Caminho Novo, hoje Rua das Francesinhas [1910]
Joshua Benoliel,
in Lisboa de Antigamente

A denominação de Capuchinhas Francesas ficou definitivamente associada ao Convento do Santo Crucifixo (denominação oficial do cenóbio) e adveio unicamente da origem das freiras fundadoras — quatro freiras clarissas que a tinham acompanhado de França D. Maria Francisca de Sabóia — , não constituindo qualquer ramo ou variação do instituto de religiosas denominado Capuchinhas, fundado em 1535 pela espanhola Maria Lorenza Longo, em Nápoles, ao qual pertenciam as monjas do convento.
O convento do Santo Crucifixo constitui um importante exemplo do que foi a arquitectura monástica no feminino, com as suas particulares exigências e necessidades. O conjunto formado pela parte edificada, cuja centralidade era marcada pelo claustro, a cerca conventual (com a sua importância no contacto com a natureza), a distinção funcional e predefinida entre os diferentes espaços e as relações entre eles (quer se destinem a meditação e oração, ao trabalho diário, ao lazer ou ao contacto com o exterior) fazem do espaço conventual uma unidade autónoma que se pretendia auto-suficiente.

Esquina da Calçada da Estrela e do Caminho Novo, hoje Rua das Francesinhas [1910]
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Na Igreja destacava-se segundo a descrição do autor anónimo, numa data em que ainda não estava concluída a capela-mor, um grande nicho sobre o arco triunfal:

[]  e sobre ele [arco] assenta hum nicho grande com columnas de talha dourada, e dentro do nicho se deyxa ver a fermosa imagem de um crucifixo, em estatura natural de um homem, e ao pé da cruz fazem assistência à sagrada imagem do Senhor, a de sua Mãy Sanctissima e do Discipulo amado e da penitente Magdalena. Esta imagem do Sancto Crucifixo dá o titulo ao mosteyro, que he o padroeyro da casa debayxo de cuja proteccção vivem as Religiosas, que à capella mor dam o titulo das Chagas de Christo
[História dos Mosteiros, Conventos e Casas Religiosas de Lisboa, 1972] 

Este nicho terá sido posteriormente fechado e as imagens colocadas em outro altar, possivelmente no compartimento que Matos Sequeira identificou como casa mortuária, no sobre claustro, e que possuía uma capela com essa invocação. O mesmo autor, refere-se à imagem de Cristo de grandes dimensões “ (…) um madeiro enorme, com a imagem do Crucificado”, na época, já retirado do seu local e colocado na sacristia junto à capela-mor. [Tição: 2007] 

Demolição do Convento das Francesinhas [1911]  
Em baixo, onde se vê o gradeamento, observa-se a Rua Miguel Lupi.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Nos jardins do Convento encontra-se actualmente o Instituto Superior de Economia e Gestão. Só em 1949 se desenhou o jardim na sua forma actual. Com uma homenagem à Família numa escultura de Leopoldo de Almeida que ornamenta um chafariz de 8 bicas. Posteriormente, foi inaugurado um monumento em homenagem a Bento de Jesus Caraça.
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