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Friday, 9 January 2026

Avenida Fontes Pereira de Melo

Esta artéria, que homenageia António Maria Fontes (1818-1887), estava integrada no Plano das Avenidas Novas, do Eng.º Ressano Garcia, aprovado em 1888 pela Câmara Municipal de Lisboa, seguia as ideias urbanísticas do séc. XIX, aplicando os princípios higienistas de combate à insalubridade das densas vilas da industrialização, definindo um traço regular formado por quarteirões uniformes, numa sequência de eixos estruturantes articulados por rotundas. 

Avenida Fontes Pereira de Melo |1969|
O Mercado 31 de Janeiro no sítio das Picoas data de 1924. Neste local funcionou até meado da década de 1950 o Matadouro Municipal de Lisboa depois edifício-sede da Portugal Telecom — «Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades».
Artur I. Bastos, in Lisboa de Antigamente

Neste plano, a Avenida Fontes Pereira de Melo constituía o elemento de ligação do conjunto das ruas adjacentes ao Parque da Liberdade (hoje Parque Eduardo VII) com o núcleo Picoas – Campo Grande.

Avenida Fontes Pereira de Melo |1959|
Antiga Rua Fontes, junto a Av. António Augusto de Aguiar (esq.); obras do metropolitano.
Judah Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Sunday, 21 December 2025

Monumento ao Marquês de Pombal

Em 1910, poucos anos depois das comemorações das comemorações do Centenário da Índia, a Praça Marquês de Pombal estava edificada como hoje [em 1939].
Quedemo-nos uns momentos diante do monumento ao Marquês de Pombal. 


A ideia de se erguer um monumento ao estadista, reedificador de Lisboa, é antiga, mas só lhe foi dada expressão pública em 1882, ano em que o Parlamento autorizou o Estado a ceder o bronze necessário. Em Abril daquele ano — recorda o ilustre olisipógrafo Norberto de Araújo — constituiu-se uma comissão encarregada de promover a subscrição nacional, presidida por Rodrigues Sampaio.
Os trabalhos não tiveram sequência, e só em 1905 se voltou a um plano prático, constituindo-se nova comissão, presidida pelo Conselheiro Veiga Beirão, havendo a subscrição pública sido iniciada a 6 de Maio. Contudo, ainda desta vez a iniciativa não foi coroada de êxito, talvez porque logo em 1906 começou a agitação política que dominava todos os pensamentos.
Proclamada a República, a ideia de dar realização séria à iniciativa de havia quarenta anos, ressurgiu. Em 1913 realizou-se o concurso para o monumento, sendo apresentados catorze projectos, e aprovados quatro; destes, acabou por ser preferido (5 de Abril de 1914) aquele que sob a legenda «Gloria Progressus - Delenda reactio» era assinado por Adães Bermudes, António Couto e Francisco Santos. A escolha, feita por um júri idóneo, ao qual presidia o professor e director da Escola de Belas Artes, José Luiz Monteiro, provocou enorme celeuma, havendo muitas personalidades de categoria artística e intelectual que preferiam o projecto do arquitecto José Marques da Silva e do escultor António Alves de Sousa (ambos artistas portuenses).
A primeira pedra para o Monumento foi colocada em 15 de Agosto de 1917, mas em 13 de Maio de 1926 a cerimónia repetiu-se, havendo discursado o Dr. Bernardino Machado, Presidente da República, e D. Tomaz de Vilhena, descendente do «Grande Marquês» qualificativo tradicional da família — , e ao tempo deputado monárquico.

Monumento ao Marquês de Pombal
Fundações da estátua |1927|
Fotógrafo não identificado, in LdA

Monumento ao Marquês de Pombal
Obras de desaterro |1924|
Fotógrafo não identificado, in LdA




















As obras vinham-se arrastando, por falta de verba, desde 1914. Em Março de 1924 foi nomeada uma nova comissão, à qual presidia o Dr. Magalhães Lima, estando na vice-presidência o general Vieira da Rocha; o rendimento dos selos emitidos em Dezembro de 1924 não satisfez, mas as obras de 1925 para diante entraram na fase definitiva da sua actividade. Em 13 de Maio de 1930 o Presidente da República, general Oscar Carmona, visitou as obras, já em vulto neste local. A grande estátua foi completamente assente sobre o alto fuste em 2 de Dezembro de 1933.
Finalmente em 13 de Maio de 1934 foi inaugurado o monumento, sem a solenidade que parecia de supor; assistiram o Ministro das Obras Públicas, engenheiro Duarte Pacheco, o presidente da Câmara Municipal, tenente-coronel Linhares de Lima, o governador civil, tenente-coronel João Luiz de Moura, e o presidente da Comissão, general Vieira da Rocha.
Estas anotações cronológicas, apesar de deficientes, reputo-as necessárias, pois andavam dispersas. Dêmos volta ao monumento.
Vejamos primeiramente o pedestal. Essa figura de mulher, constituída por dois blocos de pedra que pesam 17.250 quilos, na frente do monumento, representa «Lisboa reedificada»; tem cinco metros de altura — não o dirias. Sob o plinto em que ela assenta, vemos a proa de uma nau simbolizando a libertação da marinha mercante. Em baixo, dos lados, representa-se o cataclismo que assolou Lisboa na terra e no mar; destacam-se as esculturas de Plutão e Poseidon, este simbolizado num cavalo-marinho.

Monumento ao Marquês de Pombal
Ao fundo nota.se o estaleiro de obra |1934|
Tomada da Braamcamp para a Av. Fontes.
Fotógrafo não identificado, in LdA
Monumento ao Marquês de Pombal
Cabeça da figura do Marquês |1934|
Ao fundo ve-se a R. Braamcamp.
Ferreira da Cunha, in LdA



























Analisemos agora os grupos escultóricos laterais do pedestal, em seu conjunto admiráveis, apesar de algum senão que lhes possas notar. No grupo da esquerda, lado nascente, simboliza-se a agricultura, com o trabalho da lavoura, através de uma junta de bois, e de figuras bem tratadas escultoricamente, e das quais sobressaem o homem que sustenta o arado e a mulher que transporta o cabaz com uvas. O grupo do lado oposto simboliza a indústria e a pesca: um cavalo arrasta as redes, e um operário sopra o vidro; eis um conjunto também de merecimento, não apenas pela disposição mas pelo lavor das várias figuras.
Os escultores, professor Simões de Almeida e Leopoldo Neves de Almeida, que já eram colaboradores do ilustre Francisco Santos, falecido em Abril de 1930, foram os realizadores destes trabalhos, como aliás de outros que valorizam o monumento.
Na face norte (posterior) do monumento construiu-se uma alegoria objectiva à reforma da Universidade de Coimbra [vd. imagem seguinte]. Destaca-se — nota — essa figura de Minerva, em bronze, sentada, adiante do pórtico da «Universitas Conimbricensis».


Monumento ao Marquês de Pombal, face norte (posterior) |1953|
Destaca com a presença, na fachada, de um edifício clássico que simboliza a Universidade de Coimbra, à frente do qual está uma estátua de Minerva, sentada, em bronze.
Em primeiro plano nota-se o Lago do Parque Eduardo VII.
Kurl Pinto, in Lisboa de Antigamente

No fuste, de grande superfície, vêem-se nas suas quatro faces legendas que exaltam o estadista e reformador; na face principal lês, comigo: «Ao genial estadista Sebastião José de Carvalho e Melo, Marquês de Pombal — a Pátria reconhecida — MCMXXXIV».
O capitel do obelisco ostenta quatro medalhões, enlaçados nos cunhais por quatro águias; no medalhão da frente enquadra-se  a efigie de Machado de Castro, no do poente as de D. Luiz da Cunha, Eugénio dos Santos e Manuel da Maia, no posterior a de Ribeiro Sanches, e no do lado nascente as de Luiz Verney, Serra da Silva e Conde de Lipe. Foram estes os principais colaboradores de Pombal.
Finalmente, ao alto, está o grupo fulcro do monumento — que mede, de alto abaixo, 36 metros: o Marquês, de corpo inteiro, assenta o braço sobre o dorso de um leão, na simbólica da serenidade e da força. Este grupo, de grandes dimensões (basta dizer que tem a altura de cinco homens) é de realização primorosa, prejudicada contudo na visão perspectival à distância, quando tomada do Norte e do Poente.

Monumento ao Marquês de Pombal (em obra) |1934-04-05|
No topo do monumento, sobressaem quatro medalhões que retratam os principais colaboradores de Pombal, incluindo Manuel da Maia, Eugénio dos Santos e Machado de Castro.
Perspectiva tomada da Av. da Liberdade.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Também este grupo principal foi concluído por Simões de Almeida; a cabeça da figura do Marquês [vd. imagem acima], ainda em formação no barro, com 1,80 de altura , de enorme peso, ruíra no atelier de Francisco Santos no próprio dia em que o artista morrera (29 de Abril de 1930).
Quatro grandes colunas de mármore nobre , cada uma com quatro candelabros de braço, em bronze, decoradas com florões e laços — bom trabalho de «atelier» e de fábrica , mas de gosto discutível — guarnecem o monumento.
E aí tens num dos degraus da escadaria do sopé: «Autores: Adães Bermudes, arquitecto; António Couto, arquitecto; Francisco Santos, estatuário; colaboradores, Leopoldo de Almeida, estatuário; Simões de Almeida, estatuário».

 

Inauguração do monumento ao marquês de Pombal |1934-05-13|
 O Marquês, de corpo inteiro, assenta o braço sobre o dorso de um leão, na simbólica da serenidade e da força.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

E, Dilecto, com paz na consciência, e sem beliscadura de sectarismo, digamos adeus ao monumento a Pombal. Antes, porém, anota as legendas cronológicas da vida do Marquês, e que no empedrado à portuguesa ilustram as placas que compõem a Praça.

Monumento ao Marquês de Pombal |1938-10-06|
Na base, várias figuras alegóricas dão vida à cena, como uma figura feminina que simboliza Lisboa reconstruída e três grupos escultóricos que representam as reformas de Pombal na agricultura, indústria e ensino.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de Peregrinações em Lisboa», vol. XIV, pp. 44-48, 1939.
BRITO, Francisco Nogueira de, Roteiro ilustrado de Lisboa e arredores, 1935.

Sunday, 7 September 2025

Edifício da Ford Lusitana

A sede da “Ford Lusitana, SARL”, fundada em 11 de Janeiro de 1932, situava-se na Rua Castilho em Lisboa, e foi projectada pelo arquitecto Porfírio Pardal Monteiro em 1930. Foi demolido em 1974.

O edifício-sede da Ford Lusitana, situava-se no gaveto da Rua Castilho com a Rua Marquês de Subserra, no quarteirão seguinte aquele onde mais tarde o autor viria a projectar o Hotel Ritz.
Para além de escritórios, oficinas e venda de peças o edifício que se destinava a «expor e vender Automóveis, camiões e tractores, também exibia e vendia aviões».
O edifício adopta uma arquitectura de grande horizontalidade ao longo das duas ruas, sendo essa característica acentuada no 1º andar coberto por um terraço.

Edifício da Ford Lusitana, filial da Ford Motor Company U.S.A. |1937|
Rua Castilho, 149 com a Rua Marquês de Subserra, 2
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

No gaveto, fazendo charneira entre os volumes ao longo das ruas surge um grande corpo cilíndrico de vidro, luminoso onde a marca se destaca dia e noite [vd. última imagem].Este volume redondo, para além de uma forte componente publicitária que, com êxito imprimiu ao edifício, marca a entrada principal para clientes no edifício. Na altura da sua construção o edifício tinha grande exposição, sendo visível desde a Praça Marquês de Pombal, dominando o lago então existente no atualmente denominado Parque Eduardo VII.

Edifício da Ford Lusitana |c. 1940|
O Parque Eduardo VII foi ajardinado em 1929; a esq., sobe a Rua Joaquim António de Aguiar.
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente
Vista aérea sobre o Parque Eduardo VII |c. 1950|
Ao centro observa-se o edifício-sede da Ford Lusitana e, à esq. deste, os terrenos do futuro Hotel Ritz (1959). Atrás nota-se o Liceu Maria Amália Vaz de Carvalho.
Mário de Oliveira, in Lisboa de Antigamente

Concebido para ter grande presença na noite de Lisboa, apresentava rasgados vãos ao nível do R/C onde os modelos da marca se podiam facilmente observar por quem passava nas zonas circundantes.
Neste projecto o arquitecto escolhe as peças e desenha mesmo algum mobiliário, o que permite a concepção da obra como um todo.
(PACHECO, Ana Assis - Ob. cit., 1998)

Edifício da Ford Lusitana |c. 1940|
Gaveto da Rua Castilho, 149 com a Rua Marquês de Subserra, 2
Fachada com corpo cilíndrico de vidro, luminoso onde a marca se destaca dia e noite-
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

N.B. Porfírio Pardal Monteiro (1897-1957) foi um dos mais importantes arquitectos da primeira metade do Século XX em Portugal e principal responsável pela viragem modernista da arquitectura portuguesa. O legado do arquitecto Porfírio Pardal Monteiro conta com obras como as Gares Marítimas de Alcântara (1943) e da Rocha do Conde de Óbidos (1948), a Igreja de Nossa Senhora de Fátima (Prémio Valmor 1938), o edifício do Diário de Notícias (anos 1930, premiado em 1940), entre muitas outras.

Thursday, 22 May 2025

Panorâmica tirada do Parque sobre a Avenida da Liberdade

O Parque — no seu início e no primitivo sonho paisagista, assim podemos dizer — data da penúltima década do século passado (1885), e seu primeiro nome, caído em esquecimento, foi o de Parque da Liberdade.

Era então tudo isto por aqui terreno de mau cultivo, ou nenhum, terras que ocupavam a poente za zona de Vale Pereiro — recorda Mestre Araújo, a quem vamos sempre seguindo — , quási todas pertencentes no século XVIII aos padres da Congregação do Oratório (de S. Felipe Nery), e a ocidente e a norte restos de quintas das Lages, de Galvão Castelo Branco, dos Pachecos Malheiros, e do Poceiro. Estes tratos de terrenos há muito que se haviam desmembrado das designações e possuidores setecentistas; a mais importante zona, vastíssima, era a do Casal do Monte Almeida, de Carlos Maria Eugénio de Almeida, com o qual a Câmara manteve demoradas demandas, que duraram de 1894 a 1930.
 
Panorâmica tirada do Parque sobre a Avenida da Liberdade |c. 1900|
Rio Tejo
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Municipalizados, em parte, os terrenos destinados ao Parque, começou a Câmara (1888) a pensar a sério no ajardinamento e aformoseamento paisagista do seu Parque, abrindo um concurso internacional entre arquitectos especializados, cujos três prémios foram ganhos por franceses; o projecto classificado em primeiro lugar (Henry Lusseau) não pôde ter execução, como não a pode ter o projecto Forestier, de 1926, nem sabemos se o terá o de Luiz Cristino da Silva, de 1932, que inclui uma entrada monumental.

O Parque — denominado de Eduardo VII depois da visita que este Rei de Inglaterra fez a Lisboa em 1903 — logo que foi proclamada a República mereceu às vereações cuidados especiais, em bons propósitos que a carência de um plano definido, ou a falta de verbas, nunca deixaram coroar de êxito.

Panorâmica tirada do Parque sobre a Avenida da Liberdade |c. 1954|
Castelo de S. Jorge; Monumento ao Marquês de Pombal (1934); Rio Tejo
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Friday, 26 April 2024

Avenida da República, 87-97

As Avenidas Novas representam o desenvolvimento urbano que causou a expansão de Lisboa para norte em finais do século XIX e ao longo da primeira metade do século XX.
Pela designação de Avenidas Novas entende-se uma série de avenidas e ruas largas e arejadas que se recortam entre as antigas estradas do Arco do Cego e S. Sebastião da Pedreira, e ao N. do Parque Eduardo VII [antigo Vale do Pereiro ], Andaluz e Praça José Fontana [antigo Largo do Matadouro].
Em 1910 a maior parte dos arruamentos estava concluída, compondo uma malha ortogonal de ruas e avenidas largas com passeios e praças arborizadas segundo os mais modernos conceitos urbanísticos, naturalmente destinadas às classes sociais mais abastadas. 

Avenida da República, 87-97 |1965|
edifício localizado no número 93A-E situado no gaveto com a Av. António Serpa foi demolido.
Mário Novais, in Lisboa de Antigamente

Este novo percurso de ascensão da cidade, vindo da Baixa e desembocando no Campo Grande, foi desde logo habitado pela burguesia emergente, que aí começou a construir os seus palacetes e prédios elegantes, tão típicos Lisboa do primeiro quartel do século XX.

Avenida da República, 95-97 |1959|
Antiga Av. Ressano Garcia (1910)
Arnaldo Madureira, in Lisboa de Antigamente
Nota(s): imagem corrigida (invertida 
no abandalhado amL).

É disto exemplo o prédio situado na Avenida da República, 97-97-C. Este imóvel (ao fundo e à dir. na 2ª imagem), bem como os dois imediatamente anteriores, estavam em vias de classificação como conjunto desde 11/12/1981. Um deles foi entretanto demolido, e a classificação dos dois prédios restantes passou a correr de forma individual, de acordo com as distintas características de cada um.
(IGESPAR, IP, 2011)

Avenida da República, 87-97 |1962|
John F Bromley, in Lisboa de Antigamente

Friday, 24 February 2023

Avenida da Liberdade

Foi ainda no ano de 1888, em Junho, que se realizou na Avenida a grande Exposição Industrial Portugueza, com uma secção Agrícola, e que foi um certame notável pelo numero de pavilhões e de concorrentes.
No extremo norte, onde é hoje o Parque Eduardo VII, a exposição de pecuária, com grande número de edificações rústicas, de belíssimo efeito e de grande pitoresco.

Avenida da Liberdade |1888|
Ao fundo vê-se o Pavilhão de Entrada da Exposição Industrial Portuguesa (Exposição Pecuária, Industrial e Agrícola) 
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Foi a exposição inaugurada no dia 7 de Junho, de manhã, ás nove e meia, por Sua Majestade D. Luiz e toda a família real, damas da corte, fidalgos, lavradores, industriais, comerciantes e muito povo, sendo a de pecuária inaugurada a 10 e encerrada a 20.
(FREIRE, João Paulo, Lisboa do meu Tempo e do Passado. Do Rocio á Rotunda, 1931)

Avenida da Liberdade |1888|
Ao fundo vê-se o Pavilhão de Entrada da Exposição Industrial Portuguesa (Exposição Pecuária, Industrial e Agrícola) 
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Sunday, 5 February 2023

Sítio do Vale de Pereiro

Em cima — refere Norberto de Araújo — corria o Vale Pereiro, do qual existe, em reminiscência, uma parcela da Rua com aquele dístico, e que leva do Salitre a Alexandre Herculano.
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIV, p. 38, 1939)

A primitiva Rua  do abarracamento de Vale de Pereiro (1859) que hoje liga as Ruas Alexandre Herculano e do Salitre, passava a S. do Parque do Parque Eduardo VII (onde hoje se encontra a Praça Marquês de Pombal), e findava no Largo de Andaluz/São Sebastião da Pedreira (vd. mapa abaixo). 

Rua do Vale de Pereiro |c. 1903|
Demolição do muro do antigo Quartel do Vale de Pereiro (Caçadores 2); o troço que se vê na imagem corresponde actualmente à Rua Braamcamp (1887) rasgada na viragem do séc. XX; ao fundo, à direita, a «Casa Ventura Terra, Prémio Valmor de 1903» sita na Rua Alexandre Herculano, 57.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Nesta rua que foi "do abarracamento" de Vale do Pereiro — diz o olisipógrafo Matos Sequeira — , em frente do quartel, ficava em 1819 a afamada Casa de Pasto do Freixo, uma das hortas mais concorridas pela boémia popular desse tempo e, é de crer, pela tropa que transbordava do quartel.

Carta topográfica de 1888 [fragmento]
Legenda:
A vermelho a Rua do Vale de Pereiro
A amarelo a Rua Braamcamp
A verde a Rua Alexandre Herculano
A azul Quartel do Vale de Pereiro (Caçadores 2)
in Lisboa de Antigamente

Sunday, 25 September 2022

Panorâmica sobre o Parque Eduardo VII e Rua Engenheiro Canto Resende

Era a 2ª transversal do Parque Eduardo VII, que liga a Avenida António Augusto de Aguiar à Avenida Sidónio Pais. Este topónimo resultou da aceitação de um pedido do Sindicato Nacional dos Engenheiros-Geógrafos, formulado por ofício datado de 18.09.1953 para ser atribuído «o nome do engenheiro-geógrafo Artur do Canto Resende — mártir da Pátria durante a ocupação japonesa de Timor —, a um arruamento da capital».

Panorâmica sobre o Parque Eduardo VII e Rua Engenheiro Canto Resende [c. 1960] 
O arruamento situado a norte do Parque Eduardo VII, entre a Avenida Sidónio Pais e a
Rua Castilho. passou a ser designado Alameda Cardeal Cerejeira pelo edital de 14/04/1982.
Artur Pastor, in Lisboa de Antigamente
 
Artur do Canto e Castro Resende (1897-1945), licenciou-se em Matemática e em Engenharia Geográfica e foi para Timor em 1937 como membro da missão de estudos chefiada pelo coronel Jorge Castilho, local onde mais tarde veio a ser presidente da Câmara Municipal de Dili, pelo que quando os japoneses invadiram Timor foi deportado para Alor onde veio a falecer devido a grandes privações e foi assim considerado um das maiores figuras da resistência contra os japoneses.
Foi também adjunto da missão de demarcação da fronteira do sul de Angola com a União Sul-Africana (1930), da missão de revisão da fronteira entre os territórios da Companhia de Moçambique a Rodésia do Sul (1932). Foi condecorado com a Ordem Militar da Torre e Espada. [cm-lisboa.pt]

Alameda Cardeal Cerejeira [c. 1952] 
Ao fundo nota-se a Avenida Sidónio Pais com a Rua Engenheiro  Canto Resende
Em 1982, a Comissão Municipal de Toponímia de Lisboa deu parecer favorável à
consagração do Cardeal Cerejeira no arruamento situado a norte do Parque Eduardo VII,
por considerar «que mantém plena actualidade a ideia de se construir uma catedral
no alto do Parque Eduardo VII, a Comissão é de parecer que o nome do Cardeal Cerejeira 
– percursor dessa ideia – fique perpetuado num arruamento das imediações».
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Sunday, 3 April 2022

Avenida António Augusto de Aguiar: cigana com burros

Os ciganos representam a maior minoria da Europa. São cerca de 11 milhões — mais do que a população de Portugal — mas não possuem registos escritos da sua história nem tão-pouco das suas andanças pelo mundo. A diáspora dos ciganos começou há 1500 anos no Noroeste da Índia e, uma vez chegados à Europa via Balcãs (mais precisamente à Bulgária), os ciganos começaram a espalhar-se por todo o continente, até à Península Ibérica. A Portugal, os primeiros ciganos terão chegado em 1462.


A não ser um ou outro cigano abastado que se domicilia, geralmente os da sua raça levam a vida errante por feiras e excursões, marchas longas, a pé ou a cavalo, com galgos para a caça. Vagueando, recolhem de noite às tendas e palheiros e, ao encontrarem nova povoação, orientam-se passeando os arredores a ver onde há gado ou aves para roubarem. Comem carne, peixe e couves misturadas, toucinho cru, porco desenterrado; e alguns há que justificam plenamente a quadra que compuseram lá em Espanha:
Un gitano se murió
Y dejó em el testamento
Que le enterrasen en viña Para chupar los sarmientos.

Avenida António Augusto de Aguiar |1909|
Cigana com burros próximo da Rua Augusto Santos.
Joshua Benoliel, iin Lisboa de Antigamente

Cigano em Portugal, gitano em Espanha, boémio em França e zíngaro na Itália, o cigano tem conservado, através do tempo e do espaço, os traços étnicos mais característicos de um povo ao qual as emigrações, com o seu ar de uma penitência eterna a remir um pecado imperdoável, em pouco lograram alterar os fundamentos. Do seu país de origem nada explicam e nada sabem ; a língua vai-se-lhes alterando mais ou menos profundamente e a ponto de serem já relativamente numerosos os dialectos ou sub-dialectos que eles falam. Mas caldarari na Hungria, ursari os da Bulgária, contratadores de gado os de Portugal, há traços dominantes que distinguem este povo nómada e disperso, notável sequer por semelhante persistência, pelos seus processos industriais quase proto-históricos e pela maneira primitiva das suas relações internacionais.

Avenida António Augusto de Aguiar |1909|
Cigana com burros; à esq. nota-se a vegetação do Parque Eduardo VII.
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
F. Adolpho Coelho, Os ciganos de Portugal, 1892

Friday, 25 March 2022

Avenida António Augusto de Aguiar

Vamos, Dilecto — convida Norberto de Araújo — , dar volta pelo lado exterior nascente do Parque [Eduardo VII], subindo o primeiro lanço de Fontes Pereira de Melo, e tomando logo por António Augusto de Aguiar, Avenidas delineadas em 1899, que com lentidão se foram edificando por dez anos adiante.==
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIV, p. 51, 1939)

Avenida António Augusto de Aguiar [c. 1910]
O prédio de gaveto com a Av. Fontes Pereira de Melo já não existe [vd. imagem abaixo]; sublinhe-se que até 1 de Junho de 1928, a circulação de viaturas em Portugal fazia-se pela esquerda, como se pode constatar nesta imagem; à esquerda o Parque Eduardo VII (antes de ser rasgada a Av.  Sidónio Pais).

Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Avenida António Augusto de Aguiar, 2
O prédio de gaveto com a Av. Fontes Pereira de Melo foi demolido em 2014.
Postal ilustrado, in Lisboa de Antigamente

Friday, 30 October 2020

Praça do Marquês de Pombal, obras do Metropolitano de Lisboa

Obras de remodelação da Praça aquando da construção do Metropolitano de Lisboa. Ao fundo, a Avenida Fontes Pereira de Melo ainda pontuada pelos antigos palacetes erguidos no dealbar do século XX — Ramires e Sabrosa, hoje demolidos; Rua Camilo Castelo Branco; á esq., a Av Sidónio Pais (1945) e o Parque Eduardo VII.

Panorâmica da Praça do Marquês de Pombal |c. 1959|
Judah Benoliel, in Lisboa de Antigamente

O lançamento da primeira pedra do monumento ao Marquês de Pombal data de Maio de 1882, repetindo-se a 15 de Agosto de 1917 e a 13 de Maio de 1926. As obras arrastaram-se, por falta de verbas, e o monumento só seria inaugurado a 13 de Maio de 1934, numa cerimónia «sem a solenidade que parecia supor.» [Araújo: 1939]

Panorâmica da Praça do Marquês de Pombal |c. 1959|
Avenida Fontes Pereira de Melo em obra vendo.se na esq. baixa o Palacete Ramires
Judah Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Sunday, 26 April 2020

Lago do Parque Eduardo VII

A Avenida tinha os seus coretos onde aos domingos tocavam as bandas, a Rotunda tinha os tapumes de metro e meio para a futura estátua do Marquês e o Parque de Eduardo VII era um terreiro escalvado que servia para tudo, como os campos da feira das terras da província. Havia revoluções, o primeiro golpe estratégico era conseguir ocupar a Rotunda. Abriam-se trincheiras, colocavam-se peças e começavam a bombardear da Rotunda. Nos intervalos das escaramuças políticas, o alfacinha pegava no farnel e no garrafão e ia arejar para a Rotunda.

Lago do Parque Eduardo VII |1931|
Ao fundo destaca-se o monumento ao Marquês de Pombal em construção.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente
 
Aparecia uma companhia de circo com montanha russa e fantoches, acampava na Rotunda. (...). Quando o futebol ensaiou os primeiros passos, ainda não se adivinhava o futuro do empolgante e glorioso desporto, o campo de futebol instalou-se na Rotunda. Como se isto não chegasse, a Câmara resolveu um dia favorecer a cidade com um lago [1929] com barquinhos.. 

Lago do Parque Eduardo VII |1931|
Ao fundo destaca-se o monumento ao Marquês de Pombal em construção.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Na Rotunda caía Lisboa em pesoComia-se um petisco e dava-se um passeio nas águas mansas já que a ida até Cacilhas era um prazer muito experimentado.
(AMARO, José, Cartas de um moinho saloio, p. 161, 1974) 

Lago do Parque Eduardo VII |c. 1940|
Ao fundo destaca-se o monumento ao Marquês de Pombal inaugurado em 1934.
Álvaro Torres (postal fotográfico), in Lisboa de Antigamente

Wednesday, 19 June 2019

Uma montanha-russa no Parque Eduardo VII

A Avenida [da Liberdade] tinha os seus coretos onde aos domingos tocavam as bandas, a Rotunda tinha os tapumes de metro e meio para a futura estátua do Marquês e o Parque de Eduardo VII era um terreiro escalvado que servia para tudo, como os campos da feira das terras da província. 
Havia revoluções, o primeiro golpe estratégico era conseguir ocupar a Rotunda. Abriam-se trincheiras, colocavam-se peças e começavam a bombardear da Rotunda. Nos intervalos das escaramuças políticas, o alfacinha pegava no farnel e no garrafão e ia arejar para a Rotunda. Aparecia uma companhia de circo com montanha russa e fantoches, acampava na Rotunda. O grande Luna-Park foi a delícia dos lisboetas. [...] 
Na Rotunda caía Lisboa em peso. Comia-se um petisco e dava-se um passeio nas águas mansas já que a ida até Cacilhas era um prazer muito experimentado.

Parque Eduardo VII [193-]
A montanha-russa do Luna-Park — quando funcionou pela primeira vez — junto à Avenida António Augusto de Aguiar.
Judah Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
AMARO, José, Cartas de um moinho saloio, p. 161, 1974.

Sunday, 15 April 2018

Bairro Azul

Começou por escolher o bairro onde mais gostaria de morar. Pensou em vários, e às suas preferências nunca era alheia a recordação dos tempos, ainda tão próximos, em que fora criada de servir. Gostaria, por exemplo, de ir pôr casa no Bairro Azul, só para «fazer ver» [...]¹


Estando embora em presença de uma Arquitectura civil, o Bairro Azul — Ruas Fialho de Almeida, Ramalho Ortigão e Avenida Ressano Garcia — constitui um conjunto arquitectónico que se reveste de uma homogeneidade ímpar, datado da década de 30 do Século XX com prédios dotados de esquerdo-direito ao gosto Art Deco e burguês, destinado a servir uma classe média que culminaria a sua ascensão no período salazarista, e que se procurava rodear de algum luxo e dignidade.

Rua Marquês de Fronteira |1967|
Edifícios do Bairro Azul; esta designação devia-se à aparente  «mancha azul» formada pela cor das persianas, das portas e das caixilharias.
Artur Bastos, in Lisboa de Antigamente

O ângulo estranho do plano do bairro resultava do desenho de Cristino da Silva para uma vasta urbanização inicial que, cerca de 1930, deveria ter sido o remate do prolongamento da Avenida da Liberdade. Devia apresentar-se com arruamentos em simetria, nos dois lados do Parque Eduardo VII. Contudo, o bairro ficou isolado, pois o restante projecto não se realizou, repetindo-se a vocação lisboeta para os tecidos incompletos e para a justaposição de bairros de origens diversas, característicos do início do Séc. XX. Trata-se, ainda assim, de um projecto e de uma ideia subjacente de Cidade.

Panorâmica sobre o Bairro Azul e zonas circundantes |c. 1950|
Av. António Augusto de Aguiar
Edifícios do Bairro Azul; esta designação devia-se à aparente ‘mancha azul’ formada pela cor das persianas, das portas e das caixilharias.
Mário de Oliveira, in Lisboa de Antigamente

Apresenta-se com uma hierarquia estabelecida e está dotado de aparatosos pórticos de entrada no Bairro. O seu isolamento apenas lhe veio confirmar a sua integridade e a sua autenticidade, patente no grande enriquecimento formal de fachadas e átrios de entrada, ganhando simplicidade formal ou opulência consoante a categoria social dos espaços o ditava. Baixos-relevos em estuque ou cimento, painéis policromados de mosaico cerâmico, ornatos salientes, pilastras e frisos, balaustradas, frontões e alpendres são motivos que aparecem com abundância neste vocabulário decorativo, de leitura complexa.

Avenida Ressano Garcia |1935|
Ressano Garcia (1847–1911) que enquanto engenheiro da CML foi responsável pela expansão de Lisboa para norte, a partir do eixo da Avenida da Liberdade com o projecto das Avenidas Novas integrou a toponímia de Lisboa ainda em vida, no ano de 1897, na artéria que hoje conhecemos como Avenida da República e, depois, no ano de 1929, regressou para uma Avenida no Bairro Azul.
Eduardo Portugal, 
in Lisboa de Antigamente

Tratando-se de um conjunto particularmente notável quanto à sua Arquitectura e aos motivos decorativos nela integrados, faz sentido classificar o conjunto com estas características estilísticas, pois manteve uma relação de sentido com os seus moradores, uma relação de autenticidade e integridade, o que se veio a verificar até à actualidade. É de realçar a autenticidade que o conjunto manteve ao longo dos tempos, pois é o conjunto, patente nas suas íntimas relações estilísticas que se mantiveram intactas e podem ser observadas.²

Bairro Azul |194-|
Perspectiva tomada da Rua Marquês de Fronteira vendo-se Avenida Ressano Garcia, ao centro, e a Av. António Augusto de Aguiar à dir..
Amadeu Ferrari, 
in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
¹ ANÍBAL Nazaré, Maria, uma Sua Criada. capa e ilust. Stuart. Lisboa, 1958.
² Carlos Cabaço e João Reis, lisboapatrimoniocultural.pt
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