Sunday, 1 November 2020

Avenida da Liberdade: uma família de ciganos nos seus burros

E elles tá vào passando sempre pela terra, sem responderem ou sem quererem dizer de onde vieram nem para onde vào, deixando, no entanto, nos logares onde acampam signaes estranhos nas arvorcs e pedras. coisas mysteriosas que só outros ciganos sabem lêr.

Já correram cinco seculos desde que os ciganos entraram na Europa, vindos sem saber ao certo de que região, nascidos sem se conhecer de quem, com o ar de um povo condemnado, d'uma raça de peregrinos que chegasse para expiar, pelas estradas de todo o mundo, uns velhos e tremendos peccados, não podendo ligar-se á mesma terra nem morrer na cama onde nascera , como se trouxesse um sello fatal. [MARTINS, Rocha: 1909].

Avenida da Liberdade, junto à Rotunda, actual Praça Marquês de Pombal [1909]
Em segundo plano, da direita para a esquerda: Palacete Seixas, hoje Instituto Camões; a seguir o edifício que ficou conhecido como «prédio da Federação Portuguesa de Futebol», demolido em 1974; segue-se o palacete que tornejava a Avenida Duque de Loulé, provável autoria do arq. Adães Bermudes; ao fundo, construção de apoio do palacete Sabrosa e que serviu — durante a revolta republicana do 5 de Outubro de 1910 — como hospital de sangue.
Joshua Benoliel, in AML

Um jumento no século XIX era relativamente barato: em 1890 um burro valia 10.000 réis e uma burra, meia moeda. Os burritos novos, com menos de um ano, davam-se.
A aparelhagem do burro consta do albardão, albarda e almantricha. O albardão para os serviços do campo, a albarda para a viagem, e a almantricha (com cadeirinha ou sem ela) para transporte de pessoas do sexo feminino.

Avenida da Liberdade [1909]
Uma família de ciganos nos seus burros
Joshua Benoliel, in AML


1 comment:

  1. Uma curiosidade: o desenho da calçada portuguesa da Av da Liberdade que Benoliel captou nestas imagens é idêntico ao que lá está actualmente, mais de um século depois.
    Cumprimentos.

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