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sexta-feira, 7 de agosto de 2026

Avenida da Liberdade: Monumento a Pinheiro Chagas e à Morgadinha de Vale Flor

O monumento é composto pelo busto do escritor, Manuel Pinheiro Chagas, de semblante romântico e simplicidade na composição, acompanhado, na sua base, por uma figura, suas obras mais conhecidas, a Morgadinha de Val-Flor, ambos esculpidos em bronze. 

Avenida da Liberdade |1944|
Monumento a Pinheiro Chagas e à Morgadinha de Vale Flor
Fernando Martinez Pozal, in Lisboa de Antigamente

Do cinzel de Costa Mota (tio), o monumento foi erigido através de subscrição, por iniciativa do Jornal Mala da Europa, em Portugal e no Brasil, e inaugurado em 13 de Novembro de 1908, na alameda do meio da Av. da Liberdade. [lisboa.pt]

Monumento a Pinheiro Chagas e à Morgadinha de Vale Flor |1983|
Avenida da Liberdade, calçada portuguesa.
Karin Monteiro, in Lisboa de Antigamente

sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

Avenida Fontes Pereira de Melo

Esta artéria, que homenageia António Maria Fontes (1818-1887), estava integrada no Plano das Avenidas Novas, do Eng.º Ressano Garcia, aprovado em 1888 pela Câmara Municipal de Lisboa, seguia as ideias urbanísticas do séc. XIX, aplicando os princípios higienistas de combate à insalubridade das densas vilas da industrialização, definindo um traço regular formado por quarteirões uniformes, numa sequência de eixos estruturantes articulados por rotundas. 

Avenida Fontes Pereira de Melo |1969|
O Mercado 31 de Janeiro no sítio das Picoas data de 1924. Neste local funcionou até meado da década de 1950 o Matadouro Municipal de Lisboa depois edifício-sede da Portugal Telecom — «Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades».
Artur I. Bastos, in Lisboa de Antigamente

Neste plano, a Avenida Fontes Pereira de Melo constituía o elemento de ligação do conjunto das ruas adjacentes ao Parque da Liberdade (hoje Parque Eduardo VII) com o núcleo Picoas – Campo Grande.

Avenida Fontes Pereira de Melo |1959|
Antiga Rua Fontes, junto a Av. António Augusto de Aguiar (esq.); obras do metropolitano.
Judah Benoliel, in Lisboa de Antigamente

domingo, 28 de setembro de 2025

Rua dos Condes

O topónimo "Rua dos Condes" radica nos diversos palácios de vários condes existentes naquela zona:
«Começará o Destricto desta Paroquia no Palacio do Excellentissimo Conde de Povolide; [...] e voltando sobre o lado esquerdo, entrará na Rua dos Condes de Povolide, onde principiou; pertencendo-lhe todas as mais Ruas, Travessas, e Becos comprehendidos neste destricto. [Collecção da legislação Portugueza: 1835]

O local, ainda no século XVI, era fora de portas e, a Rua dos Condes, mais não era que uma viela, prolongamento da actual Calçada da Glória. A norte, no quarteirão que parte do actual Largo da Anunciada, edificou-se o palácio dos Condes da Ericeira, cujos jardins e hortas se estendiam até à Rua dos Condes; a sul, existiu o antigo solar dos Condes de Castelo Melhor; e, ao fundo, na Rua das Portas de Santo Antão, a casa dos Condes Povolide, o que justifica plenamente, o nome da rua.
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIV, pp. 23-24)

Rua dos Condes |1929-07-30|
Cinemas Olympia (esq.) e Odeon (dir.); ao fundo nota-se o Palácio Foz e a Pç. dos Restauradores. 
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

O primeiro espaço a que se poderá designar como efetivo teatro, foi o Teatro da Rua dos Condes, construído em 1738. O novo recinto de espectáculos ficava situado, no século XVIII, nos limites da cidade, em terrenos pertencentes ao palácio da Anunciada, dos condes da Ericeira (daí derivando o nome «Condes›», no espaço onde anteriormente existira um picadeiro. Foi o primeiro, naquela localização, de uma longa série de edifícios dedicados a funções teatrais, que mantiveram sempre o nome embora fossem evoluções ou mesmo edifícios diferentes: o segundo Teatro da Rua dos Condes (1888), o Cinema Condes (1915) e o novo Cinema Condes (1952).
Em boa parte do século XVIII e até à abertura do Teatro de S. Carlos (em 1793), o Condes foi o mais importante espaço de ópera italiana em Lisboa, passando depois a Teatro Nacional de declamação até à inauguração do Teatro Nacional de D. Maria II (em 1846). Terminou a sua existência em 1882, depois de nas suas décadas finais ter sido utilizado como teatro popular. 
 (CARNEIRO, Luís Soares, Theatre Spaces for Music in 18th-Century Europe, pt. I, 2020)

Rua dos Condes |1949|
O primitivo Cinema Condes (1915); Avenida da Liberdade; Ateneu Comercial de Lisboa.
O prédio na esquina oposta ao cinema data de 1912 pelo risco do arq. Francisco Vilaça e substitui este outro.
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente


sexta-feira, 19 de setembro de 2025

Avenida da Liberdade: posto avisador de incêndios

A acção do B.S.B. dependia em grande parte da actuação rápida no inicio dos fogos; para isso mantinha, em 1940, um serviço de comunicações próprio, constituído por 153 avisadores de incêndio na via pública, e 200 telefones em edifícios do Estado e do Município (139), casas de espectáculos (44) armazéns è estabelecimentos (17). [RML: 1940]

Avenida da Liberdade: posto avisador de incêndios |1927-11-13|
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

domingo, 24 de agosto de 2025

Trapeiros: da Avenida 24 de Julho à Alameda D. Afonso Henriques

No geral os trapeiros são indivíduos sem história, marginais à maneira antiga, embora suas vidas pudessem fornecer material para romancear. Vivendo com a indiferença de todos, farrapos humanos nostalgicamente envolvidos em farrapos, acomodam-se em qualquer vão de escada, esquecidos do mundo. 

Trapeiros na Avenida 24 de Julho |1921-1925|
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente
Legenda da foto no arquivo: "Estado em que se encontra Lisboa. Lixo"

Incapazes de reagir contra o destino que lhes fora adverso, o trapeiro é um indivíduo imune contra a doença e o vício da cidade, uma vez que revolvendo-lhe o lixo continua satisfeito por lá encontrar os argumentos do seu próprio destino. Repousa tranquilamente em qualquer banco de jardim, pedindo apenas que o deixem em paz, porque a sua liberdade vale mais do que todas as obrigações da lei.
(DINIS, Calderon, Tipos e Factos da Lisboa do meu tempo (1900-1974), p. 270, 1986).

Aldeia dos Trapeiros, nas proximidades da Alameda D. Afonso Henriques |1945-03-29|
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

quinta-feira, 22 de maio de 2025

Panorâmica tirada do Parque sobre a Avenida da Liberdade

O Parque — no seu início e no primitivo sonho paisagista, assim podemos dizer — data da penúltima década do século passado (1885), e seu primeiro nome, caído em esquecimento, foi o de Parque da Liberdade.

Era então tudo isto por aqui terreno de mau cultivo, ou nenhum, terras que ocupavam a poente za zona de Vale Pereiro — recorda Mestre Araújo, a quem vamos sempre seguindo — , quási todas pertencentes no século XVIII aos padres da Congregação do Oratório (de S. Felipe Nery), e a ocidente e a norte restos de quintas das Lages, de Galvão Castelo Branco, dos Pachecos Malheiros, e do Poceiro. Estes tratos de terrenos há muito que se haviam desmembrado das designações e possuidores setecentistas; a mais importante zona, vastíssima, era a do Casal do Monte Almeida, de Carlos Maria Eugénio de Almeida, com o qual a Câmara manteve demoradas demandas, que duraram de 1894 a 1930.
 
Panorâmica tirada do Parque sobre a Avenida da Liberdade |c. 1900|
Rio Tejo
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Municipalizados, em parte, os terrenos destinados ao Parque, começou a Câmara (1888) a pensar a sério no ajardinamento e aformoseamento paisagista do seu Parque, abrindo um concurso internacional entre arquitectos especializados, cujos três prémios foram ganhos por franceses; o projecto classificado em primeiro lugar (Henry Lusseau) não pôde ter execução, como não a pode ter o projecto Forestier, de 1926, nem sabemos se o terá o de Luiz Cristino da Silva, de 1932, que inclui uma entrada monumental.

O Parque — denominado de Eduardo VII depois da visita que este Rei de Inglaterra fez a Lisboa em 1903 — logo que foi proclamada a República mereceu às vereações cuidados especiais, em bons propósitos que a carência de um plano definido, ou a falta de verbas, nunca deixaram coroar de êxito.

Panorâmica tirada do Parque sobre a Avenida da Liberdade |c. 1954|
Castelo de S. Jorge; Monumento ao Marquês de Pombal (1934); Rio Tejo
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

sexta-feira, 25 de abril de 2025

Da Revolução dos Cravos de 1974 à Constituição da República Portuguesa de 1976

O 25 de Abril de 1974, marco fundamental na história recente de Portugal, implantou o Estado de Direito, a Liberdade e a Democracia no país, que se passaria a reger-se pela Constituição da República publicada em 1976. A constituição é um conjunto de normas que regem um Estado (país) que pode ser ou não codificado como um documento escrito, que enumera e limita os poderes e funções de uma entidade política. 
Essas regras formam, ou seja, constituem o que a entidade política é. (...) A Constituição da República Portuguesa de 1976 é aquela que ainda hoje se mantém em vigência. Foi redigida pela Assembleia Constituinte eleita na sequência das primeiras eleições gerais livres no país, a 25 de Abril de 1975, no primeiro aniversário da Revolução dos Cravos. Entro em vigor no dia 25 de Abril de 1976. [Cunha: 20221

Rua Garrett esquina com a Rua Serpa Pinto |25 de Abril de 1974|
Revolução de 25 de Abril de 1974
Viatura Blindada de Reconhecimento Panhard EBR 75 17 Ton. 7,5cm 8X8 M/1959. Todas as 50 adquiridas por Portugal em 1959 vinham com a torre FL 10. Além da peça dispunha de 3 metralhadoras 7,5mm. Guarnição de 4 militares, motor a gasolina e autonomia entre os 650 e os 700 km. Blindagem entre 10 e 40mm (EBR- Engin Blindé de Reconnaissance). 
Simbologia relativa a antiga Região Militar Tomar, quando a viatura estava adstrita à Escola Prática Cavalaria em Santarém.
Gouveia, in Lisboa de Antigamente

05H00 - Apesar da a esta hora já vários responsáveis militares e governamentais estarem ao corrente do Movimento militar é Silva Pais (Director da PIDE/DGS) que telefona ao Presidente do Conselho Marcelo Caetano informando: “Senhor Presidente, a Revolução está na rua! O caso é muito grave. Os revoltosos ocuparam já as principais emissoras de rádio e a Televisão e tomaram o Quartel General da Região Militar de Lisboa. Caçadores 5 está com eles” Pouco depois em novo telefonema Silva Pais recomenda: “É indispensável que V.Exa. saia de casa com a maior urgência. Vá para o quartel do Carmo que a GNR está fixe”.
15H10 - Seguindo as instruções do Posto de Comando da Pontinha, as forças lideradas pelo Capitão Salgueiro Maia dirigem-se para o Quartel-General da Guarda Nacional Republicana, no Largo do Carmo, onde se encontram refugiados o ditador Marcelo Caetano e alguns dos seus ministros. As ruas que conduzem àquele Largo são bloqueadas por viaturas militares.

15H25 - Esgotado o tempo concedido para a rendição do Quartel do Carmo, o Cap. Salgueiro Maia dá ordem ao Ten. Santos Silva para com as metralhadoras da torre da sua Chaimite, abrir fogo sobre a parte superior da frontaria do quartel. São disparadas várias rajadas estoirando vidraças da frontaria do edifício. [a25abril]


Avenida da Liberdade |25 de Abril de 1976|
Da Revolução dos Cravos de 1974 à Constituição da República Portuguesa de 1976.
Chalber, in Lisboa de Antigamente

Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo
                          Sophia de Mello Andresen
                          in O Nome das Coisas, 1974

sexta-feira, 4 de abril de 2025

Estação do Rocio que foi «da Avenida»

Acordei um pouco antes do meio-dia, quase a chegar a Lisboa. Era impossível pensar em almoçar e mal tive tempo de me aproveitar rapidamente do meu gabinete de toilette e do belo equipamento da minha mala de crocodilo. Não voltei a ver o professor Kuckuck na confusão da descida, nem na praça em frente do edifício da estação, de inspiração mourisca, onde segui o carregador até uma tipoia descoberta. [Thomas Mann (1875-1955). As Confissões de Félix Krull. 1895]

Estação do Rossio que foi «da Avenida» ou «de Cintra» |c. 1889|
A Estação Central da C. P. do Rossio — traço do arq.º Luiz Monteiro — começada a construir em 1887 é inaugurada em 11 de Junho de 1890, mas já em 8 de Abril de 1889 pelas 6 da tarde chegava ao Rocio a primeira máquina com um vagão, vindo de Campolide.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Na noite de 7 de Março de 1914 Fernando Pessoa, poeta e fingidor sonhou que acordava. Tomou o café no seu pequeno quarto alugado, fez a barba e vestiu-se com esmero. Enfiou a gabardine, porque lá fora chovia. Quando saiu faltavam vinte minutos para as oito, e às oito em ponto estava na Estação do Rossio, na plataforma do comboio com destino Santarém.
[António Tabucchi. «Sonho de Fernando Pessoa, poeta e fingidor» Sonho de Sonhos, 1914]

Estação do Rocio que foi «da Avenida» |1899|
Em frente do edifício da estação de inspiração mourisca.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente
Estação do Rocio que foi «da Avenida» |194-|
Cais de Orsay-Rossio» é que ele devia chamar-se...
Estúdio Horácio Novais, in Lisboa de Antigamente

Neste comboio toda a gente vai a Paris ou para lá regressa e, mais que Sud-Express ou Paris-Lisboa, «Cais de Orsay-Rossio» é que ele devia chamar-se como comboio que é, o belo comboio-cama que tomamos nas imediações do Palácio da Legião de Honra e deixamos à entrada do Rossio, a grande praça central de Lisboa a dois passos da Avenida da Liberdade, a dez minutos do Terreiro do Paço cujas escadarias descem à água do Tejo. 
[Valery Larbaud. «Escrito numa carruagem do sud-express». in Portugal de fora para dentro, 1927]

Estação do Rossio |c. 1950|
Praça Dom João da Câmara, antigo Largo de Camões.
Os autocarros AEC Regal III da Carris começaram a circular em 1948-49.
Estúdio Horácio Novais, in Lisboa de Antigamente

domingo, 2 de março de 2025

Do Passeio à Avenida

Decidiu casar. Conheceu Luísa, no verão, à noite, no Passeio, apaixonando-se pelos seus cabelos louros, pela sua maneira de andar, pelos seus olhos castanhos muito grandes. No inverno seguinte foi despachado e casou. (Eça de Queiroz, ln O Primo Basílio, 1878)

 
Demolido o Passeio Público em 1886 para dar lugar à abertura da Avenida da Liberdade, esta foi durante algum tempo o espaço de passeio da pequena burguesia lisboeta e da “gente operária endomingada". 

Em 1910, André Brun descreve desdenhosamente a frequência da Avenida nestes termos: “Ao domingo a Avenida é a montra de um bazar de quinquilharias baratas. Todo o alfacinha de meia-tigela que não tem vintém para ir aos divertimentos caros que a cidade oferece {...] aflui à Avenida”. Uns vão para o pavilhão da música, outros para o quiosque dos refrescos. Quem tem “um vintenzinho para a cadeira fica de um lado; a pelintragem bravia, do outro. Quando acaba o fungagá, a gente das cadeiras desce a Avenida com toda a coragem. A outra, que está de pé em volta do coreto, se a desce é pelas ruas laterais. Pelo meio não se atreve. Imaginem: gente operária endomingada, muita soldadesca que vem atrás da banda, caixeirada de meia tigela...". Apenas num talhão correspondente ao Teatro Avenida se pode encontrar alguém do “Carnet Mondain - registo azul” (Brun, 1999, p. 66-73). Se a pequena e média burguesia — homens e mulheres — passeava na Avenida, os trabalhadores e operários dos bairros populares optavam pelas hortas, como acima se referiu, ficavam em casa, ou iam aos espectáculos populares como a tourada, mas sozinhos, sem as mulheres. 

Avenida da Liberdade (N-S )em terra batida |1905|
João Ribeiro Cristino da Silva, litografia colorida,
Suplemento ao o° 488 da Mala da Europa Museu de Lisboa, in Lisboa de Antigamente

Ramalho Ortigão retratou assim essa diferença no uso da cidade e dos seus diverti mentos entre os grupos sociais: “Ide à Baixa ao domingo à tarde. Encontrareis os prédios fechados e desertos: as mulheres dos lojistas foram passear com os maridos. Ide aos bairros de Alcântara ou à Mouraria nos mesmos dias: todas as mulheres estão nas suas pequenas casas, às janelas ou às portas, numa inação desconsolada e abatida. E não encontrareis um homem. Vede pelo contrário os divertimentos populares a trincheira do lado sol na praça de touros: não há uma mulher.” (Ortigão, 1992, p. 143-144). É também na segunda metade do século XIX, ainda que com raízes no século anterior, que um outro tipo de passeio associado à vida de café, aos teatros públicos e ao novo comércio de lojas se instala. Ia-se apanhar o fresco do entardecer ou da noite, e admiravam-se as fachadas, as luzes e o movimento dos cafés e teatros, as montras das lojas com as suas mercadorias (Lousada, 2004, p. 104-5).

 

Avenida da liberdade (S-N) |post. 1886|
Robert Kãmmere,, in Lisboa de Antigamente

N'um claro espaço rasgado, onde Carlos deixara o Passeio Público pacato e frondoso —  um obelisco, com borrões de bronze no pedestal, erguia um traço côr d'assucar na vibração fina da luz de Inverno: e os largos globos dos candieiros que o cercavam, batidos do sol, brilhavam, transparentes e rutilantes, como grandes bolas de sabão suspensas no ar. Dos dois lados seguiam, em alturas desiguaes, os pesados prédios, lisos e aprumados, repintados de fresco, com vasos nas cornijas onde negrejavam piteiras de zinco, e pateos de pedra, quadrilhados a branco e preto, onde guarda-portões chupavam o cigarro: e aquelles dois hirtos renques de casas ajanotadas lembravam a Carlos as familias que outr'ora se immobilisavam em filas, dos dois lados do Passeio, depois da missa «da uma», ouvindo a Banda, com casimiras e sêdas, no catitismo domingueiro.==
(Eça de Queiroz, ln Os Maias, 1888)

 

O Passeio Público de Lisboa (entrada S.) |c. 1843|
Com o início da construção em 1764, o Passeio foi traço do arq. Reinaldo Manuel e conheceu durante os seus cento e dezoito anos de vida duas épocas claramente distintas. até 1836, o Passeio era unicamente um bosque, ladeado de altos muros revestidos pela parte interior de buxo e de louro, com quinze janelas de grade de cada lado, que lhe davam o resguardo necessário e de tradição.
Litografia colorida de Legrand, (Lith. de M.el Luiz),, in Lisboa de Antigamente

domingo, 23 de fevereiro de 2025

Avenida António Augusto de Aguiar, 144: Casa Júlio de Andrade

No contexto do grande plano de desenvolvimento camarário da cidade de Lisboa em direcção a norte, entre 1897 e 1898 foi rasgada a Av. António Augusto de Aguiar que, contando com pouco mais de um quilómetro de extensão, finalmente concretizava (embora de forma enviesada) a ligação há muito pretendida entre a Avenida da Liberdade e a Estr. da Circunvalação (actual Rua Marquês da Fronteira). Apenas em 1903 foram disponibilizados os talhões do quarteirão triangular formado pela Av. António Augusto de Aguiar, Rua Marquês da Fronteira) e Estr. da Palhavã (actual Rua Nicolau Bettencourt), junto do local onde a primeira terminava.
Em Junho de 1903, Júlio de Andrade (1838-1906), acrescentaria ao seu pecúlio o lote nº 34 (também com frente para a estrada da Palhavã), no aludido quarteirão triangular no extremo norte da avenida. Para este último contratou Raul Lino para projectar o que terá sido outra casa de rendimento.
A 29 de Fevereiro de 1904, «foi celebrado o contrato para a construção da casa entre o proprietário e o construtor civil Manuel Joaquim de Oliveira, tendo o arq.º Raul Lino e Inocêncio Madeira como testemunhas. A empreitada foi dada por 18:100$000 a pagar em sete prestações, devendo a obra estar concluída num prazo máximo de 12 meses.

Avenida António Augusto de Aguiar, 144 |post. 1903|
Casa de Júlio de Andrade
; atrás e a dir. notam-se as antigas torres do Parque José Maria Eugénio sobre a Rua Dr. Nicolau Bettencourt.
Paulo Guedes, in Lisboa de Antigamente

A fachada principal é definida pela configuração das coberturas, muito inclinadas e com beirado em madeira, à imagem dos chalets centro-europeus. Esta fachada era composta por volumes discretamente desencontrados, num jogo de vãos e varandas, cujas guardas de ferro apresentavam um intrincado desenho plenamente imbuído do estilo Arte Nova.
A casa de Júlio de Andrade não sobreviveu às alterações do tempo, tendo sido demolida em 2003, em vésperas de cumprir o primeiro centenário. [DGPC]

Avenida António Augusto de Aguiar, 144 |1966-04|
Casa de Júlio de Andrade; atrás e a dir. notam-se as antigas torres do Parque José Maria Eugénio sobre a Rua Dr. Nicolau Bettencourt.
Augusto de Jesus Fernandes, in Lisboa de Antigamente

N.B. Júlio de Andrade, (?-1906), apaixonado zoófilo, não foi só um ilustre membro da abastada burguesia lisboeta do final do séc. XIX. A sua acção destaca-se pelo seu papel enquanto membro fundador da Sociedade Protectora dos Animais em 1875.Em 1882 Júlio de Andrade teve a ideia de oferecer à cidade de Lisboa em nome da S.P.A. fontanários-bebedouro para animais. Foi director do Banco de Portugal (fundado a 19 Nov. 1846) e do Banco Lisboa & Açores (fundado a 22 Mar. 1875), tendo-se no entanto destacado pelos seus actos de benemerência.
Através de edital de 12/05/1910 a Câmara Municipal de Lisboa  homenageou-o com atribuição do seu nome à rua entre o Campo dos Mártires da Pátria e a Travessa da Cruz do Torel.  

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2025

Ruas das Taipas e da Conceição da Glória

A Rua da Conceição da Glória, na Freguesia de São José, foi atribuída na que até aí era designada por Rua da Conceição, Edital do Governo Civil de Lisboa de 05/08/1867: “ (...) tendo em consideração as representações que me foram presentes, ácerca de serem por outras substituídas as denominações actuais de algumas ruas, travessas e becos da capital, a fim de se evitar a confusão e irregularidades que resultam da identidade das mesmas denominações em diferentes locaes, e atendendo a outras razões alegadas por diversos proprietários de prédios, e moradores de algumas localidades, mostrando-se por tudo a necessidade de ampliar as providencias já estabelecidas a similhante respeito pelo edital d’este Governo Civil do 1º de Setembro de 1859".

Ruas das Taipas e da Conceição da Glória |1955|
Antigas de São Sebastião (designada pelo vulgo Rua de São Sebastião das Taipas) e da Conceição, respectivamente.
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

N.B. Sabe-se ainda que esta artéria – Rua da Conceição – Freguezia de S. Jozeph já existia com esta designação em 1770 pois aparece referida nas plantas e descrições das freguesias da remodelação paroquial de 1770.
Sebastião (rua de S.) (vulgo das Taipas) primeira á esquerda na calçada da Gloria, indo da rua de S. Pedro de Alcantara, e finda nas travessas da Conceição de Cima e Rozario, freguezia de S. José 2 a 70 e 1 a 109. [Velloso:1869]

Rua da Conceição da Glória |c. 1900|
Inicio do arruamento junto à Avenida da Liberdade.
Machado & Souza, in Lisboa de Antigamente

domingo, 19 de janeiro de 2025

Avenida da Liberdade esquina com a Rua do Salitre

Até ao fim do Século XVIII, Lisboa, a pouco e pouco, segundo um plano de larga visão, ressurge, mais bela, mais ampla, mais moderna. E desde então, com breves intervalos de espera, que as vicissitudes da Nação impõem, é uma marcha constante, um aumento sucessivo na população e na superfície urbanizada. As invasões francesas, a saída da Corte e, depois, as lutas civis da primeira metade do Século XIX já se desenrolam numa Lisboa bem diferente da que o Terramoto fizera desabar.
 
Avenida da Liberdade |post. 1935|
Esquina com a Rua do Salitre; sanitários públicos vulgo «Chalet Xixi».
Horácio Novais, in Lisboa de Antigamente

E logo que, com a Regeneração, o liberalismo entra numa fase construtiva de fomento, a capital beneficia também do impulso renovador, que tem Fontes Pereira de Melo por arauto e animador. Rosa Araújo faz romper a Avenida da Liberdade (1885), novos bairros se rasgam, as portas da cidade deslocam-se mais para o norte. No início deste século as Avenidas Novas são uma realidade, o porto de Lisboa cresce em movimento e importância.
(CAVALHEIRO, António Rodrigues, Lisboa, 1953)

Avenida da Liberdade |post. 1950|
Esquina com a Rua do Salitre; Palácio Mayer
Para os leitores menos informados, a casa de pasto "Ribadouro - Vinhos e Azeites" instalou-se na Avenida em 1921. A cervejaria com o mesmo nome foi inaugurada em 1947.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

sexta-feira, 20 de setembro de 2024

Cruzamento formado pelas Ruas Nova de São Mamede, Salitre, Barata Salgueiro e Rodrigo da Fonseca

No final do século XII, e sob a autoridade do Bispado de Lisboa, surgem na capital as dez primeiras freguesias (terreno delimitado, na cidade ou no campo, em que habitavam indivíduos que seguiam o mesmo culto, tendo como ponto principal o templo ou a igreja matriz). Em 1247, nasce São Mamede, famosa por albergar o Jardim Botânico de Lisboa e o Edifício da Imprensa Nacional. É a mais antiga das freguesias que hoje formam a de Santo António.

A Rua Nova de São Mamede é assim designada por se encontrar nas proximidades da Igreja Paroquial de São Mamede. Esta paróquia remonta ao século XIV (1312), Anteriormente designada Travessa de São Mamede, este arruamento foi renomeado  pelo Edital do Governo Civil de 5 de Abril de 1945, tendo o seu início no Largo de São Mamede e término na Rua do Salitre.

Salitre. O local em que se encontra foi mencionado pela primeira vez em 1665 nos Livros dos Óbitos da freguesia de São José: “Pátio do Salitre”, designação que se manteve até 1746. Este topónimo nasceu das nitreiras ou salitrais que os frades de São Bruno – conhecidos como Cartuxos ou Brunos – tinham nas suas hortas, nos terrenos que detinham nesta artéria, já que salitre é o nome vulgar do nitrato de potássio, um adubo. Este arruamento inicia-se na Avenida da Liberdade, terminando na Rua Rodrigo da Fonseca.

Cruzamento formado pelas Ruas Nova de São Mamede, Salitre, Barata Salgueiro e Rodrigo da Fonseca |ant. 1928|
Autor desconhecido, in Lisboa de Antigamente

A Rua Barata Salgueiro homenageia o Dr. Adriano Antão Barata Salgueiro (1814-1895) que cedeu gratuitamente e a preços reduzidos terrenos para a o projecto de urbanização da Avenida da Liberdade. Denominação atribuída por Deliberação Camarária de 6 de Maio de 1882. Este arruamento tem início na Rua de Santa Marta e termina Rua Rodrigo da Fonseca.

A Rua Rodrigo da Fonseca — anteriormente designada Azinhaga do Vale do Pereiro — foi renomeada pela Deliberação Camarária de 28 de Fevereiro de 1884 e respectivo Edital do Governo Civil de 4 de Março do mesmo ano, iniciando-se na Rua do Salitre e terminando na Rua Marquês de Fronteira. 
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Bibliografia
jfsantoantonio.pt

domingo, 28 de julho de 2024

Monumento aos Restauradores

Não há em Lisboa quem não pergunte o que significa o obelisco no centro da Praça dos Restauradores, além do seu significado imediato como monumento patriótico inaugurado em 28 de Abril de 1886 como projecto do arquitecto António Tomás da Fonseca. Terá algum significado esotérico ou escondido este monumento? Será obra secreta da Maçonaria Portuguesa? Afinal, o que significa este obelisco e porque está aqui?
Descubra o segredo que esconde o obelisco aqui.
 
Monumento aos Restauradores, manutenção |1945|
Praça dos Restauradores; antigo Largo do Passeio Público.
O pedestal é encimado, na face sul, pela estátua da Victoria, de Simões de Almeida.
Mário Tavares Chicó, in Lisboa de Antigamente

O Monumento aos Restauradores que se eleva ao meio da praça do mesmo nome e consagra a revolução de 1640, foi erguido por subscrição pública promovida por uma comissão parlamentar, inaugurou-se em 28 de Abril de 1886, como acima se disse, sendo o projecto de António Tomás da Fonseca e a construção de Sérgio Augusto de Barros. Compõe-se de envasamento, pedestal e obelisco , numa altura total de 30 m.
 
Monumento aos Restauradores |1947|
Praça dos Restauradores; antigo Largo do Passeio Público. Vista nocturna da Avenida da Liberdade e do Castelo de São Jorge.
O pedestal é encimado, na face norte, pela estátua do Génio da Independência de Alberto Nunes.
Estúdio Mário Novais, in Lisboa de Antigamente

domingo, 16 de junho de 2024

Rua do Salitre, ao Rato

Rua do Salitre, artéria que em muitos anos precedeu o Terramoto, a qual como sabes, foi chamada Rua da Palmeira no troço que ainda subsiste, pois já disse que ela chegava a S. José. 


Até ao séc. XIX a Calçada do Salitre ainda guardava muito do seu passado rural — recorda o ilustre Norberto de Araújo — , logo a começar pelo seu topónimo derivado das nitreiras das hortas dos frades Cartuxos e será após a construção da Avenida da Liberdade que, gradualmente, passará a ter antes a categoria de Rua. Este topónimo nasceu das nitreiras ou salitrais que os frades de São Bruno – conhecidos como Cartuxos ou Brunos – tinham nas suas hortas, nos terrenos que detinham nesta artéria, já que salitre é o nome vulgar do nitrato de potássio, um adubo. O Salitre ganhou ao topónimo anterior, do séc. XVI, que era Horta da Palmeira. 

Rua do Salitre, ao Rato |1908-05|
Prédio — já demolido — para abertura do troço final da Rua Alexandre Herculano (c. 1910)
e que fazia gaveto com a Rua São Filipe Neri. A linha do eléctrico seguia para a Rua da Escola Politécnica.
Machado & Souza, in Lisboa de Antigamente

A Rua do Salitre cujo lado esquerdo constituía a orla exterior do fundo da cerca do Noviciado da Companhia de Jesus, depois Colégio dos Nobres, que vendeu os terrenos para edificações — foi sítio onde habitaram muitos lisboetas de destaque, entre eles Garrett.
Em cima corria o Vale Pereiro, do qual existe, em reminiscência, uma parcela da Rua com aquele dístico, e que leva do Salitre a Alexandre Herculano. No alto da Rua do Salitre, n.º 148 residiu de 1816 para 1817 o general Gomes Freire de Andrade, ali preso em 26 de Maio daquele último ano; uma lápide foi colocada na fachada em 20 de Outubro de 1917.
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIV, 1939)

Largo do Rato e Rua do Salitre |c. 1900|
Salitre (  direita ) principia no Largo do Rato, e termina na Av. da Liberdade.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

N.B. Durante o séc. XIX, em diversos documentos municipais, plantas, requerimentos ou licenças para construção ou obras em prédios esta artéria tanto é assinalada quer como Calçada quer como Rua, mesmo que na 2ª metade do século seja mais usado Rua, sendo exemplo maior dessa dupla grafia um processo de expropriação de 1881- para a abertura da Avenida da Liberdade- em que a planta do local de Ressano Garcia refere Calçada e no texto do Presidente José Gregório Rosa Araújo se menciona Rua. [cml]

domingo, 31 de março de 2024

Café Palladium: quiosque-esplanada

Os novos cafés da Avenida da Liberdade começam a impor presença importante a partir de 1920 — recorda Marina T. Dias. O Café Palladium, projectado por Raul Tojal, ocupou em 1932, o piso térreo de um dos mais interessantes exemplos arquitectónicos do primeiro número da Avenida (edifício de Norte Júnior construído em 1909), antigas instalações da clínica de Henrique Basto. Foi louvado como expoente máximo de modernidade, levando proprietários de casas congéneres (como o Nicola e o Chave d' Ouro) a encomendar projectos de alteração do interior dos seus estabelecimentos ao mesmo arquitecto.
Mário Dionísio refere o Palladium como centro de tertúlia desde final dos anos 30. Seria, ao longo das décadas seguintes, local muito procurado por estudantes e intelectuais da oposição, surrealistas incluídos. [...] 
 
Café Palladium |196-|
Avenida da Liberdade
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente
 
Alguns elementos da decoração interior (incluindo baixos-relevos e pormenores do varandim) foram aproveitados pelo centro comercial que lhe sucedeu.
Apesar de ter beneficiado de grandes obras em 1972, encerrou poucos anos mais tarde, dando lugar a um centro comercial. [Dias: 1999]

Café Palladium: quiosque-esplanada |1935-07-28|
Avenida da Liberdade
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

No ano de 1933, o arq.° Cassiano Branco projecta um quiosque-esplanada para o Café Palladium, inaugurado no ano anterior, localizado a cimo do Restauradores, onde se inicia a avenida da Liberdade. Este equipamento, infelizmente já demolido, desenvolvia-se em torno de um pilar redondo, envolvido por uma estrutura de ferro e vidro e era composto por dois pisos. Aproxima-se esteticamente à cultura internacional, integrando-se no desejo de Cassiano Branco de transformar Lisboa, e particularmente esta artéria, para a qual projectou a esmagadora maioria dos seus trabalhos, numa grande metrópole moderna, plena de edifícios modernos, salas de espectáculos, cafés e outros espaços de ócio, luz e movimento, à imagem das principais cidades europeias. [Mártires Batista: 2015]

Quiosque-esplanada para o Café Palladium |1933|
Avenida da Liberdade

Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

domingo, 4 de fevereiro de 2024

Café Cristal

Localizado em plena Avenida da Liberdade, 131-137, nas proximidades do Monumento aos Mortos da Grande Guerra, o Cristal começou por ser um simples café. A sua criação terá ocorrido por volta de 1940, data em que o célebre arquitecto Cassiano Branco submeteu um primeiro projecto de decoração revelador de uma enorme influencia do estilo Art-Déco.


A importância do estabelecimento como centro de espectáculos emergiu a partir de Novembro de 1941, com a inauguração do Bar Cristal. O passo seguinte foi a abertura, em Janeiro de 1942, do dancing, faceta que acrescentou ao Cristal a valência de cabaré com animação nocturna entre as 23.00 e as 5.00 horas. Para esta última etapa contribuiu o encerramento do Maxim's, ocorrido em 1940, como se depreende de um anúncio publicado no Diário de Lisboa: «Não há nenhum português de categoria e cremos, até, dos estrangeiros nossos hóspedes, anos atrás, que não sintam o desaparecimento do Maxim's [...]. 

Café Cristal |1941|
Avenida da Liberdade, 131-137 (edifício demolido em 1989)
Estúdio Mário Novais,in Lisboa de Antigamente
Café Cristal |1941|
Avenida da Liberdade, 131-137 (edifício demolido em 1989)
Estúdio Mário Novais,in Lisboa de Antigamente
Café Cristal |1941|
Avenida da Liberdade, 131-137 (edifício demolido em 1989)
Estúdio Mário Novais, in Lisboa de Antigamente

A direcção do Bar Cristal Dancing, sentindo também essa falta e dentro das suas possibilidades, pretende, em parte, proporcionar ao público o ambiente, luxo e conforto que ali se desfrutavam».
Pelo Cristal, situado ao lado do Café Lisboa e junto ao Parque Mayer, passaram ao longo dos anos várias orquestras e agrupamentos nacionais e estrangeiros ligados aos primórdios do jazz. A primeira foi a Orquestra Caravana, contratada para inaugurar o estabelecimento, que ali actuou nos seus primeiros três meses de actividade. Sucederam-lhe, entre outras, a orquestra Sousa Pinto e Manolo Bel (1945) e, já nos anos 50, a orquestra de Tavares Belo com o vocalista Moniz Trindade, Harlem Jazz, com o cantor Ernâni Ribeiro, Night and Day e Blue Skies. As pequenas formações foram também contempladas, nomeadamente com a cantora espanhola Mari Merche, acompanhada pelo Quarteto Swing (1943), o Quinteto Murilo, com o pianista espanhol Pedro Masmitja (1944), e os Five Swings (1944).

Café Cristal |1941|
Avenida da Liberdade, 131-137 (edifício demolido em 1989)
Estúdio Mário Novais, in Lisboa de Antigamente

O Cristal terá entrado em crise a partir de 1954, ano em que a sua publicidade na imprensa da época começou a escassear, num total contraste com a profusão anunciadora dos anteriores 12 anos. Não surpreende, pois, que em Fevereiro de 1958 tenha sido substituído pelo Pasapoga, que já não teve, porém, qualquer relevância no panorama do jazz nacional, uma vez que optou por uma programação que privilegiava sobretudo as artistas espanholas de variedades, não obstante a actuação pontual da orquestra de Almeida Cruz.

Café Cristal (1941-1958)
Avenida da Liberdade, 131-137

Bibliografia
SANTOS,  João Moreira dos, Roteiro do Jazz na Lisboa dos anos 20-50 : guia ilustrado de 40 espaços históricos dos primórdios do Jazz em Portugal 2012.
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