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Sunday, 16 June 2024

Rua do Salitre, ao Rato

Rua do Salitre, artéria que em muitos anos precedeu o Terramoto, a qual como sabes, foi chamada Rua da Palmeira no troço que ainda subsiste, pois já disse que ela chegava a S. José. 


Até ao séc. XIX a Calçada do Salitre ainda guardava muito do seu passado rural — recorda o ilustre Norberto de Araújo — , logo a começar pelo seu topónimo derivado das nitreiras das hortas dos frades Cartuxos e será após a construção da Avenida da Liberdade que, gradualmente, passará a ter antes a categoria de Rua. Este topónimo nasceu das nitreiras ou salitrais que os frades de São Bruno – conhecidos como Cartuxos ou Brunos – tinham nas suas hortas, nos terrenos que detinham nesta artéria, já que salitre é o nome vulgar do nitrato de potássio, um adubo. O Salitre ganhou ao topónimo anterior, do séc. XVI, que era Horta da Palmeira. 

Rua do Salitre, ao Rato |1908-05|
Prédio — já demolido — para abertura do troço final da Rua Alexandre Herculano (c. 1910)
e que fazia gaveto com a Rua São Filipe Neri. A linha do eléctrico seguia para a Rua da Escola Politécnica.
Machado & Souza, in Lisboa de Antigamente

A Rua do Salitre cujo lado esquerdo constituía a orla exterior do fundo da cerca do Noviciado da Companhia de Jesus, depois Colégio dos Nobres, que vendeu os terrenos para edificações — foi sítio onde habitaram muitos lisboetas de destaque, entre eles Garrett.
Em cima corria o Vale Pereiro, do qual existe, em reminiscência, uma parcela da Rua com aquele dístico, e que leva do Salitre a Alexandre Herculano. No alto da Rua do Salitre, n.º 148 residiu de 1816 para 1817 o general Gomes Freire de Andrade, ali preso em 26 de Maio daquele último ano; uma lápide foi colocada na fachada em 20 de Outubro de 1917.
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIV, 1939)

Largo do Rato e Rua do Salitre |c. 1900|
Salitre (  direita ) principia no Largo do Rato, e termina na Av. da Liberdade.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

N.B. Durante o séc. XIX, em diversos documentos municipais, plantas, requerimentos ou licenças para construção ou obras em prédios esta artéria tanto é assinalada quer como Calçada quer como Rua, mesmo que na 2ª metade do século seja mais usado Rua, sendo exemplo maior dessa dupla grafia um processo de expropriação de 1881- para a abertura da Avenida da Liberdade- em que a planta do local de Ressano Garcia refere Calçada e no texto do Presidente José Gregório Rosa Araújo se menciona Rua. [cml]

Sunday, 7 April 2019

Circo Price

Do lado ocidental da actual Avenida da Liberdade — situado na esquina da antiga Travessa da Vacas (hoje «do Salitre») com a Rua do Salitre (antes «Calçada do») — erguia-se o antigo Circo Price [vd. mapa], fundado em 1860 pelo inglês Thomas Price e que teve grande aura como um dos divertimentos predilectos de Lisboa. Dele contaram histórias autores afamados. Aqui damos nota de alguns deles.

E o Circo Price  — interrogarás tu, Dilecto, que tanto tens ouvido falar dele? Ora eu te digo, em poucas palavras. 
 O Circo Price foi vizinho da velha Praça taurina [do Salitre], mas muito posterior. Assentava no eixo da Avenida [da Liberdade] de hoje, pouco mais ou menos onde está o monumento aos Mortos da Guerra.
Em parte do terreno da horta dos frades capuchos, e que êles em seu tempo traziam de renda, fêz erguer o inglês Tomás Price o seu Circo, inaugurado em 11 de Novembro de 1860, o que contribuiu para liquidar o Circo velho do Salitre. Deu espectáculos de «cavalinhos» [nome pelo qual o povo conhecia esta casa de espectáculos], de exposição de feras, e até deliciou o público com zarzuela, e da melhor de Espanha. Em 1875 o Circo Price foi hipotecado, e desapareceu, mas o simpático inglês não desanimou e instalou-se no abandonado Circo vizinho, o «do Salitre», que, assim, reviveu um tempo.
E em 1880 já não havia nada disto; teatros, praças, circos, sumiram-se.¹

Circo Price [ant. 1880]
Calçado do Salitre, esquina da  , foi demolido para abertura da Avenida da Liberdade em 1880

«Era mais amplo que o actual Colyseo dos Recreios, e a sua enorme cupula assentava sobre grossas vigas de madeira, que resistiram a todo o tempo e maus tratos que lhes deram. (I.P. 1885)
Desenho de Domingos Cazellas, gravura de Caetano Alberto

Era em 1867. Frente a frente, as Variedades [Theatro das] e o Circo Price alinhavam os seus bicos de gás festeiros, a que as vergastadas do noroeste impunham um tremelilhar inquieto. Quinta-feira — noite de cabriolas com sobrescrito à fina sociedade. Enchente certa no Circo. De cada lado do portal da entrada, um semicírculo compacto de gente se agitava, tendo por centro cada um seu postigo de bilheteiro, e ambos por igual colados, premidos sofregamente contra a parede verdoenga do barracão, e arredondando pela rua fora, numa irregularidade gritada e confusa, a toda a largura do macadame. Tudo queria bilhete. Havia chapeus tombados, ombros que penetravam á cunha, braços arpoando vigorosamente os alizares castanhos dos postigos, mãos retirando triunfantes, muito erguidas, com um papelinho azul ao vento.²

Circo Price [ant. 1880]
Calçado do Salitre, esquina da Travessa das Vacas, foi demolido para abertura da Avenida da Liberdade em 1880
Número de equilibrismo

«O espectaculo compunha-se quasi todo de trabalhos sobre cavallos, saltos de bandeiras, arcos e fitas, e intermedios comicos pelos tres clowns Whyttoine, Secchi e Alfano. O valor da companhia aquilatava-se pelo numero de cavallos que a mesma trazia. Era parte obrigada do espectador visitar as cavallariças no intervallo do espectaculo.». (I.P. 1885)
Desenho da época, reproduzido fotograficamente por José Artur Barcia

Tinham chegado ao Price. Uma multidão de domingo, alegre e pasmada, apinhava-se até ás ultimas bancadas onde havia rapazes, em mangas de camisa, com litros de vinho; e eram grossas, fartas risadas, com os requebros do palhaço [vd. N.B.], rebocado de caio e vermelhão, que tocava nos pésinhos duma voltigeuse e lambia os dedos, de olhos em alvo, num gosto de mel... Descansando na sela larga de xairel dourado, a criatura, magrinha e séria, com flores nas tranças, dava a volta devagar, ao passo dum cavalo branco, que mordia o freio, levado à mão por um estribeiro; e pela arena o palhaço lambão e néscio acompanhava-a, com as mãos ambas apertadas ao coração, numa suplica babosa, rebolando languidamente os quadris dentro das vastas pantalonas, picadas de lantejoulas. Um dos escudeiros, de calça listrada de ouro, empurrava-o, num arremedo de ciúmes; e o palhaço caia, estatelado, com um estoiro de nádegas, entre os risos das crianças e os rantantans da charanga. O calor sufocava; e as fumaraças de charuto, subindo sem cessar, faziam uma neva onde tremiam as chamas largas do gás. Carlos, incomodado, abalou.
— Espera ao menos para ver a mulher dos crocodilos! gritou ainda o Taveira.
— Não posso, cheira mal, morro!³
     [...]
— Então de onde vem, de onde vem?
Vinha do Price. Rira muito com os palhaços. Houvera a brincadeira da pipa.
— A pipa tem muita graça! Muita graça!

[Leopoldina] Procurou na algibeira do vestido: tirou o lenço, uma carteirinha, chaves, uma caixinha de pó-de-arroz; mas encontrou apenas um programa do Price.

Programa do Circo Price [1867]
Calçado do Salitre, esquina da Travesso das Vacas, foi demolido para
abertura da Avenida da Liberdade em 1880

Do circo do Price lembro-me muito bem — diz Matos Sequeira — , como da figura do Price, sentado de chapeu alto, no pequeno salão precedido do estreito corredor de entrada, distribuindo programas do alto do seu estrado.

Levantamento topográfico de Lisboa, extracto [1878]
Legenda: a
azul o Circo Price; a azul claro a antiga Travesso das Vacas (actual «do Salitre»; a vermelho, a Avenida da Liberdade; a verde, a Praça/Circo do Salitre e o Theatro das Variedades;
a laranja, a Rua do Salitre, antiga «Calçada do»

César Goullard, in Lisboa de Antigamente

N.B. O palhaço a que Eça se refere em «Os Maias» e na «brincadeira da pipa» em «O Primo Basílo»(³,), era, com grande probabilidade, o famoso Whyttoine, um dos mais aclamados clowns do panorama artístico do séc. XIX, largamente elogiado n'A Illustração portugueza de 1885:
«No Circo Price existia porém uma individualidade unica, especial, sui generis, que todos conheciam, applaudiam, estimavam e respeitavam — o velho Whyttoine, esse clown que chegou até nossos dias como um symbolo de bondade, trabalho e honradez, e como uma mimosa recordação da nossa descuidada infancia.
Whyttoine era a nota alegre do Circo Price. Perante a sua veia comica abatiam-se humilhadas as mais austeras gravidades e sorumbaticos caracteres. A scena da pipa e o morto e o viro não tornaram a ter outro interprete que melhor as desempenhasse.»
______________________________________________________
Bibliografia
¹ ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIV, p. 34. 
² Abel Botelho. O Barão de Lavos, 1908.
³ QUEIROZ, Eça de, Os Maias,1888.
³ idem, O Primo Basílio, 1878.
MATOS SEQUEIRA, Gustavo de, Depois do terramoto: subsídios para a história dos bairros ocidentais de Lisboa, 1967.

Friday, 12 April 2019

Palácio Mayer

Neste local exacto do Palácio Mayer — recorda-nos Norberto de Araújo — existia no princípio de seiscentos uma Quinta da Legacia, ao fundo da Cerca arborizada dos Padres do Noviciado (Jardim Botânico). Estiveram nela (1639) num pequeno Hospício, os frades dominicanos irlandeses, que mais tarde, depois de correrem vários pousos de empréstimo, se instalaram no Corpo Santo. O Colégio dos Nobres (depois Escola Politécnica), como herdeiro dos bens da Companhia de Jesus, vendeu os terrenos e casas ao Arcebispo da Lacedemónia, que certamente os restaurou; um herdeiro do Arcebispo alugou sucessivamente o já então palácio ao 7.º Conde de Valadares (1822), e depois à famosa Marquesa de Aloma, D. Leonor de Almeida Lorena e Lencastre, a «Alcipe» da história da literatura, que logo aos oito anos fora feita prisioneira no Convento de Chelas, onde permaneceu até aos 26 anos de idade. A Marquesa de Aloma morreu aqui em 11 de Outubro de 1839, à beira dos 90 anos.

Palácio Mayer |190-|
Rua do Salitre, 1-3; Travessa do Salitre, 37
De planta rectangular e volumetria paralelepipédica encontra-se implantado em gaveto cujo pano murário no ângulo se apresenta curvo.
Paulo Guedes, 
in Lisboa de Antigamente

O Palacete que aqui vês foi edificado em 1900 por Adolfo Mayer [o arqº. foi Nicola Bigaglia (1841-1908), italiano radicado em Portugal], que adquiriu o velho palácio creio que aos descendentes da família Krus, a sua possuidora no tempo da Marquesa de Alorna.
Em 1920, por motivo de partilhas entre a família Mayer, herdeiros, o Palácio foi à Praça, adquirindo-o, com todos os seus jardins e dependências, Artur Brandão, que, pouco depois, o vendeu a uma. sociedade «Avenida Parque», como já veremos [vd. N.B.].
Entre 1918 e 1920 funcionou no Palácio um «Club Mayer», ao tipo dos clubes nocturnos de recreio e jogo dos da Rua de Santo Antão (Palace, Monumental, Bristol).

Palácio Mayer |c. 1920|
Rua do Salitre, 1-3; Travessa do Salitre, 37
Desenvolve-se em dois pisos sobrepujados por cornija suportada por mísulas ornamentadas com folhas de acanto, que precede remate em platibanda simples articulada com balaustrada, evidenciando-se, ainda, plintos com bola nos eixos correspondentes às pilastras de compartimentação da fachada
Chaves Cruz, in Lisboa de Antigamente

Finalmente em Março de 1930 o Govemo de Espanha (Primo de Rivera), comprou, com dispensa de pagamento de sisa, e por intermédio de Mateo Benito Garcia (que fez o seu negócio, muito discutido, o que o levou ao «carcel», em Espanha), o Palácio Mayer, era então Embaixador em Lisboa D. Cris tobal de Valin. Funcionam na Casa de Espanha o Consulado Geral, a Câmara do Comércio, e outros serviços.
Sem desfigurar a arquitectura exterior fêz-se depois uma ampliação no edifício, aproveitando a antiga garagem, hoje entrada para o Consulado.

Palácio Mayer |1929|
Rua do Salitre, 1-3; Travessa do Salitre, 37
 Propriedade do Estado Espanhol, funcionando aí serviços da respectiva E
mbaixada/Consulado
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

N.B. Contrariando a legislação do Prémio Valmor, por não haver outro que justificasse a atribuição do Prémio no ano de 1902, este foi atribuído ao edifício em questão construído no ano anterior, tendo sido um dos melhores exemplares de arquitectura revivalista em Portugal, A propriedade incluía, para além do edifício, um extenso jardim, que, tendo sido vendido em 1921, veio a dar origem ao Parque Mayer, recinto de diversões, inaugurado em 15 de Junho de 1922.

Palácio Mayer |1937|
Rua do Salitre, 1-3; Travessa do Salitre, 37; Av. da Liberdade e Monumento aos Mortos da Grande Guerra
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIV, p. 35, 1939.
cm-lisboa.pt.

Friday, 20 September 2024

Cruzamento formado pelas Ruas Nova de São Mamede, Salitre, Barata Salgueiro e Rodrigo da Fonseca

No final do século XII, e sob a autoridade do Bispado de Lisboa, surgem na capital as dez primeiras freguesias (terreno delimitado, na cidade ou no campo, em que habitavam indivíduos que seguiam o mesmo culto, tendo como ponto principal o templo ou a igreja matriz). Em 1247, nasce São Mamede, famosa por albergar o Jardim Botânico de Lisboa e o Edifício da Imprensa Nacional. É a mais antiga das freguesias que hoje formam a de Santo António.

A Rua Nova de São Mamede é assim designada por se encontrar nas proximidades da Igreja Paroquial de São Mamede. Esta paróquia remonta ao século XIV (1312), Anteriormente designada Travessa de São Mamede, este arruamento foi renomeado  pelo Edital do Governo Civil de 5 de Abril de 1945, tendo o seu início no Largo de São Mamede e término na Rua do Salitre.

Salitre. O local em que se encontra foi mencionado pela primeira vez em 1665 nos Livros dos Óbitos da freguesia de São José: “Pátio do Salitre”, designação que se manteve até 1746. Este topónimo nasceu das nitreiras ou salitrais que os frades de São Bruno – conhecidos como Cartuxos ou Brunos – tinham nas suas hortas, nos terrenos que detinham nesta artéria, já que salitre é o nome vulgar do nitrato de potássio, um adubo. Este arruamento inicia-se na Avenida da Liberdade, terminando na Rua Rodrigo da Fonseca.

Cruzamento formado pelas Ruas Nova de São Mamede, Salitre, Barata Salgueiro e Rodrigo da Fonseca |ant. 1928|
Autor desconhecido, in Lisboa de Antigamente

A Rua Barata Salgueiro homenageia o Dr. Adriano Antão Barata Salgueiro (1814-1895) que cedeu gratuitamente e a preços reduzidos terrenos para a o projecto de urbanização da Avenida da Liberdade. Denominação atribuída por Deliberação Camarária de 6 de Maio de 1882. Este arruamento tem início na Rua de Santa Marta e termina Rua Rodrigo da Fonseca.

A Rua Rodrigo da Fonseca — anteriormente designada Azinhaga do Vale do Pereiro — foi renomeada pela Deliberação Camarária de 28 de Fevereiro de 1884 e respectivo Edital do Governo Civil de 4 de Março do mesmo ano, iniciando-se na Rua do Salitre e terminando na Rua Marquês de Fronteira. 
______________________________________________________________________
Bibliografia
jfsantoantonio.pt

Wednesday, 3 February 2016

Rua do Salitre

É uma via antiga cuja data de fixação na memória da cidade se desconhece com precisão. Sobre a história do sítio refere o olisipógrafo Norberto de Araújo o seguinte:
«No século XVI estes sítios por aqui, acima de Valverde [Av. da Liberdade], eram dos Ataídes, Condes da Castanheira, em prazos que se prolongavam do Sul (e já te disse que os Castelo Melhor adquiriram aos Castanheiras chãos e casas na zona actual dos Restauradores); uma dessas terras era chamada Horta da Palmeira, terreno que um Ataíde, D. Jorge, que foi bispo de Viseu e capelão-mór do Cardeal D. Henrique doou, antes de morrer (1611), aos frades brunos ou cartuxos do Convento de Laveiras, para neste sítio fazerem um hospício.

Rua do Salitre [1968] 
Avenida da Liberdade; à esq. o Palacete Lima Mayer
Artur Inácio Bastos, in Lisboa de Antigamente

Este Hospício foi chamado dos Cartuxos (nome porque eram conhecidos os frades de S. Bruno), ou da Palmeira; «da Palmeira» foi mesmo a designação da Rua do Salitre no troço que ainda existe. «Salitre» é toponímia que só apareceu em 1665, e que acompanhou, e venceu, a «de Palmeira» quando esta desapareceu da oralidade, aí por 1760.
Quanto a «Salitre» é uma denominação que derivou da circunstância de na Horta dos brunos existirem nitreiras que foram exploradas.»
(ARAÚJO, Norberto de , Peregrinações em Lisboa, vol. XIV, p. 32)

Rua do Salitre [1943] 
Ao fundo, o Largo do Rato e o Convento das Trinas do Rato
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Friday, 4 January 2019

Travessa da Horta da Cera

Ainda existe o nome de travessa da Horta-da-cera —  recorda-nos mestre Castilho — ; era ha poucos annos uma viella quasi deserta, tortuosa, que levava desde a calçada [hoje Rua] do Salitre até á rua de S. José [vd. carta topográfica]. A Avenida [da Liberdade] cortou-a ao meio, como se corta uma cobra, por fórma que o principio occidental d'essa antiga serventia é a 5.ª travessa á esquerda no Salitre, para quem vai do Rato, e finda na Avenida; e o outro troço oriental da cobra é a 3.ª travessa á esquerda, na rua de S. José, indo da rua das Pretas, e finda na mesma Avenida.¹

Travessa da Horta da Cêra [1944]
Ao fundo, a Avenida da Liberdade.
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Espreita-me, à direita, em desnível o que resta da antiga Travessa da Horta da Cera —  diz, por seu lado, Norberto de Araújo. Olha quanto é curioso esse prédio, n.ºˢ 3 a 13 [à esq. na 1ª foto e à dir. na 2ª], do lado norte da serventia quási a entrar na Avenida; é em toda esta larga zona moderna o mais vetusto espécime urbano do tempo velho.²

Travessa da Horta da Cêra [1944]
Ao fundo, a Rua do Salitre.

Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

N.B. Este topónimo deve a sua existência a um conjunto de hortas - denominadas «da Cera» no séc. XVIII - localizadas entre as antigas Rua de Santa Marta/Rua de S.José e a Calçada do Salitre, as quais resistiram no local até à abertura da Avenida da Liberdade em 1880-1886.

Travessa da Horta da Cera, extracto da Carta topográfica de Filipe Folque, 1857
Legenda: a Vermelho a antiga Travessa da Horta da Cera (antes de ser cortada pela Av. da Liberdade); a Verde a antiga Calçada do Salitre (hoje Rua); a Azul, a Rua de S. José.
in Lisboa de Antigamente
(clicar para ampliar)

Bibliografia
¹ CASTILHO, Júlio de, Amores de Vieira Lusitano: apontamentos biographicos, p 215, 1901.
² ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. VII, p. 38, 1938.

Sunday, 17 December 2017

Chafariz da Praia de Alfama

Do chafariz dos Cavallos de Alfama [Chafariz de Dentro] — diz Mestre Castilho — saia agua que ia para a praia, onde a Camara entendeu, e muito bem, estabelecer outro chafariz, [...] e a que o povo chamou «da Praia».


Deste desaparecido Chafariz «N.º 20», dito «da Praia» ou «novo», já só nos restam imagens da sua primitiva localização, uma ou outra gravura [vd. 2ª imagem], cartas topográficas [vd, 3ª imagem] as memórias em livro e descrições dos estudiosos.  Aqui damos noticia dele.
Situado a poucos metros do Chafariz de Dentro, para o lado do mar,  visto a antiga muralha oriental de Lisboa passar pelo Largo, separando os dois chafarizes, um tinha que ficar, necessariamente, do lado de dentro — dai o seu nome — e o outro exteriormente à muralha, perto das águas do Tejo, ficava quase na praia., daí o povo se referir ao sítio como Largo do Chafariz da Praia,

Local do antigo Chafariz do Praia [1951]
O local deste chafariz corresponde actualmente ao recinto onde se ergue o Museu do Fado. sito no Largo Chafariz de Dentro, edifício construido em 1888 como antiga Estação Elevatória do Chafariz de Dentro ou de Águas de Alfama.
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente
  
Já agora te digo — recorda-nos Norberto de Araújo — que era tal a abundância de água neste lugar que em 1640 1625 [Velloso de Andrade: 1851], pouco mais ou menos, se construiu ali defronte, ao lado do pátio referido da Companhia das Águas [actual Museu do Fado], no fundo da reentrância que serve agora de depósito do serviço de limpeza da Câmara, um «Chafariz da Praia», que deu nome ao sítio, e cujos restos desapareceram em 1923. ==

Chafariz da Praia, nº- 20
Na placa superior lê-se na inscrição: À custa do foral do povo, 1625.
 Gravura, in Lisboa de Antigamente

Este Chafariz foi feito á custa do real do Povo, em 1625 — diz o douto  Velloso de Andrade — e melhorado [acrescentou-se-lhe mais uma bica], e afformoseado em 1836, dando-se de empreitada o acabamento da Obra por 170$000 réis. Recebe a agua do Chafariz N.° 19 [Chafariz de Dentro], e os sobejos correm para o mar. Faz frente ao Norte.
Este chafariz tinha 4 bicas [em 1850 mandou a Câmara construir uma nova bica na parede por traz do dito], 5 Companhias de Aguadeiros, 5 capatazes e cabos, 165 aguadeiros e 1 ligeiro.

Quanto às características especificas e qualidades da água que nele corria, diz-nos a Memória de Velloso de Andrade (bom livro, e bem feito),   que a fundo examinou o assunto:
Fica este Chafariz visinho dos mays em que temos fallado; corre na praia do Tejo por cinco bicas de agoa mays quente [c. 23º Celsius], que a dos outros; e he mays bem reputada, que todas ellas. Os seus mineraes são enxofre, e salitre, como os das outras agoas ; mas tem a differença de que as excede no enxofre e tem menos salitre que ellas. O excesso do enxofre, conhece-se no mayor calor com que nace. A diminuição do salitre: por que não passa tanto os cântaros de barro; nem assentão no fundo delles tantas impuridades, com que parece que he esta agoa mays delgada, e melhor, que as outras, ainda que todas constem dos mesmos mineraes. A que mays se parece com esta, he a do Chafariz dos páos. Todas cozem muyto bem os legumes; e lavão bem com sabão; mas para tudo isto prefere o povo sempre a deste Chafariz. Tem as mesmas virtudes, que a do Chafariz del-Rey; e pode ter os mesmos uzos, que he supérfluo repetir. ==

Levantamento topográfico de Lisboa fragmento [1856]
Legenda: a vermelho, o antigo Chafariz da Praia; a verde, o Chafariz de Dentro e as linhas de água que abasteciam o Chafariz da Praia e o tanque das lavadeiras (a azul) no actual Cais da Lingueta; a laranja, o local onde se ergue o Museu do Fado
Levantamento topográfico de Lisboa, sob direcção do Eng.º Filipe Folque, in Lisboa de Antigamente

N.B. Como curiosidade — e à laia de adenda ao verbete do Chafariz de Dentro — referir que este, além de fornecer água ao Chafariz da Praia, abastecia com os seus sobejos, o tanque das lavadeiras que foi feito em 1837. sito no actual Cais da Lingueta, antigo Boqueirão do Tanque das Lavadeiras [vd, 3ª imagem].
____________________________________________________
Bibliografia
¹ ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. X, pp. 67-68, 1939.
² VELOSO DE ANDRADE, José Sérgio , Memória sobre Chafarizes, Bicas, Fontes e Poços Públicos de Lisboa, Belém e muitos lugares do Termo., 1851.

Sunday, 19 January 2025

Avenida da Liberdade esquina com a Rua do Salitre

Até ao fim do Século XVIII, Lisboa, a pouco e pouco, segundo um plano de larga visão, ressurge, mais bela, mais ampla, mais moderna. E desde então, com breves intervalos de espera, que as vicissitudes da Nação impõem, é uma marcha constante, um aumento sucessivo na população e na superfície urbanizada. As invasões francesas, a saída da Corte e, depois, as lutas civis da primeira metade do Século XIX já se desenrolam numa Lisboa bem diferente da que o Terramoto fizera desabar.
 
Avenida da Liberdade |post. 1935|
Esquina com a Rua do Salitre; sanitários públicos vulgo «Chalet Xixi».
Horácio Novais, in Lisboa de Antigamente

E logo que, com a Regeneração, o liberalismo entra numa fase construtiva de fomento, a capital beneficia também do impulso renovador, que tem Fontes Pereira de Melo por arauto e animador. Rosa Araújo faz romper a Avenida da Liberdade (1885), novos bairros se rasgam, as portas da cidade deslocam-se mais para o norte. No início deste século as Avenidas Novas são uma realidade, o porto de Lisboa cresce em movimento e importância.
(CAVALHEIRO, António Rodrigues, Lisboa, 1953)

Avenida da Liberdade |post. 1950|
Esquina com a Rua do Salitre; Palácio Mayer
Para os leitores menos informados, a casa de pasto "Ribadouro - Vinhos e Azeites" instalou-se na Avenida em 1921. A cervejaria com o mesmo nome foi inaugurada em 1947.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Sunday, 12 April 2026

Divertimentos no Parque Mayer

Parque Mayer foi inaugurado em 15/6/1922, substituindo e incorporando a função lúdica da Feira de Agosto (criada em 1908, na Rotunda), uma das últimas "feiras típicas" da capital, com petiscos, comércio e diversões. Inicialmente, apresentou-se em instalações precárias de madeira (“barracas”), mas situava-se numa zona mais central e frequentada. Com o tempo, transformar-se-ia num moderno e popular recinto de diversões ao ar livre, pretendendo emular o que se fazia em Paris (Luna-Park, Magic-City), Madrid (Retiro), Barcelona (Grande Parque), Sevilha, etc. (...). Mais tarde, esta componente seria ampliada e aperfeiçoada pela Feira Popular de Lisboa (1943).

— Não deixem de ver a célebre Cadeira Eléctrica: Uma grande atracção internacional!..

Divertimentos no Parque Mayer |1943-05-02|
Começou por funcionar com  atracções várias, como a "Cadeira Eléctrica", o circo do El Dorado, e combates de boxe e luta-livre.”,
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Situado junto à Avenida da Liberdade, do lado ocidental — num espaço que pertenceu aos jardins e espaços adjacentes do Palácio Mayer — entre a Rua do Salitre e a Praça da Alegria, este recinto viveu o seu apogeu entre as décadas de 30 e de 70 do séc. XX.
Sobre o novel Avenida Parque, ou feira do Parque Mayer como também era designado, lia-se no Diário de Notícias: “Quando ontem entrámos na feira, lembraram-nos imediatamente alguns detalhes pitorescos das antigas feiras do Campo Grande e das Amoreiras, dos nossos melhores bons tempos. E lembrou-nos isso no meio daquele ruído moderno e caprichoso, num recinto onde as barracas têm todas, pelo menos, limpeza, algumas bom-gosto e muitas, se não a totalidade, um ar de sedução irresistível.” (15/6/1922)
 
Divertimentos no Parque Mayer |1943-05-02|
 Os cavalinhos ou carrossel.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente
Divertimentos no Parque Mayer |194-|
Tômbola dos cigarros, onde o objectivo era atirar argolas para que caíssem sobre os maços de cigarros expostos. À esq., ao fundo, ficava o chamado Estádio Mayer[Dias; 2007]
Judah Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Entre as diversões que passaram no Parque Mayer, destacam-se as "barracas dos tirinhos", os bailes (de fim-de-semana, ou de carnaval), os circos Royal, El Dorado e Luftman, as "barracas” do "Porto de Lisboa" (miniatura animada da Ribeira) ou de "fenómenos” como a "mulher transparente” e a "mulher-sereia" e as pulgas amestradas, o labirinto e a roleta diabólica, a laranjinha, a "Cadeira Eléctrica", as “variedades”, o jogo do quino, o jogo clandestino (para os mais aventureiros), os carrosséis e os fantoches, o Pavilhão Infantil, os "carrinhos de choque", a patinagem, os combates de boxe (Belarmino engraxava sapatos na Rua do Salitre), a luta greco-romana e a luta livre. 
[Expressões Artísticas Urbanas.Ferro,Lígia, ‎Raposo,Otávio, ‎Sá Gonçalves,Renata de, 2017]

Divertimentos no Parque Mayer |1943-05-02|
 Engenho de experimentar forças.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Sunday, 12 April 2020

Chafariz do Rato

É curioso este Chafariz do Rato — recorda-nos Norberto de Araújo — , com fundo natural do muro dos jardins Palmela, e cujo nicho decorativo foi mutilado numa revolução, o célebre 7 de Fevereiro de 1927. No estado em que ainda sobrevive, o Chafariz data de 1794, embora desde meio século antes aqui perto, corresse água.


Chafariz localizado  na esquina entre a Rua da Escola Politécnica e a Rua de Salitre foi edificado em Março de 1794, de acordo com os planos de Carlos Mardel. Durante o dia era proibido por decreto real, os carreiros encherem pipas de água para as obras e regas das hortas, caso o fizessem pagariam uma multa de 4$000 réis na cadeia.

Chafariz do Rato e aguadeiros |Início séc. XX|
Largo do Rato; Ruas do Salitre e da Escola Politécnica

No início do século a maioria da população para se abastecer de água tinha de o fazer nos chafarizes, bicas ou fontes, pois eram poucos os edifícios particulares que a tinham canalizada.
José A. Bárcia, in Lisboa de Antigamente

Este foi o primeiro chafariz a ser construído, integrado nos planos do Aqueduto das Águas Livres. Era abastecido pela Mãe de Água das Amoreiras. Os seus sobejos eram para o arquitecto Manuel Caetano de Sousa e depois passaram a ser para o conde da Póvoa, sucedendo-se o marquês do Faial.

Chafariz do Rato e aguadeiros |1907|
Largo do Rato

Tanque e bica do lado esquerdo destinados a particulares e aguadeiros.
 Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente
Chafariz do Rato e aguadeiros |post. 1901|
Largo do Rato

Tanque ao nível térreo com um bebedouro destinado a animais..
  Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente
 
É um chafariz de espaldar em estilo barroco, construído em pedra lioz, encimado por arco de volta perfeita, formando um nicho, gradeado a ferro e integrado na balaustrada do Palácio dos Duques de Palmela.
A água corre em 2 níveis, um mais elevado, onde dois tanques semicirculares, de perfil galbado e bordo boleado, chapeado a ferro recebe água de 2 bicas destinadas a particulares e aguadeiros, e um tanque rectangular, com os ângulos exteriores côncavos, de bordo saliente e chapeado a ferro de proporções menores, ao nível térreo, utilizado para bebedouro dos animais. Este chafariz era alimentado por um encanamento especial, que saía directamente da Mãe de Água das Amoreiras.
Tinha em meados do século XIX (1851) 3 bicas, 3 Companhias de Aguadeiros, 3 capatazes e 99 aguadeiros e 1 ligeiro.

Chafariz do Rato |c. 1952|
Largo do Rato; Palácio dos Duques de Palmela

Salvador de Almeida Fernandes,in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XI, pp. 34, 1939.
VELOSO DE ANDRADE, José Sérgio , Memória sobre Chafarizes, Bicas, Fontes e Poços Públicos de Lisboa, Belém e muitos lugares do Termo., 1851.
OLIVEIRA, Eduardo Freire de, Elementos para a História do Município de Lisboa, Vol. XV, 1882.

Wednesday, 8 July 2015

Pavilhão Portuguez, Parque Mayer

A casa de espectáculos Pavilhão Portuguez,  de Artur Aires, foi fundada cerca de 1922, idealizado por Luíz Galhardo (Teatro Variedades, 1924/, mentor da sociedade que edificou este recinto no início dos “loucos anos 20”. Tinha a particularidade de oferecer cinema ao ar livre (Cinema Parque) a preços populares. 

Pavilhão Portuguez, Parque Mayer, 1925
Travessa do Salitre
Estúdio de fotografia Lusitan, in Lisboa de Antigamente

PAVILHÃO PORTUGUEZ
PARQUE MAYER
 
O melhor espectáculo de cinema e variedades ao ar livre Hoje — Exibição do filme sensacional «Uma aventura em Paris», e a super produção «Uma família ambulante». — No palco numeros sensacionaes de bailados . Amanhã A comedia de aventuras «Por causa de uma menina»

Pavilhão Portuguez, Parque Mayer, cinema ao ar livre (Cinema Parque) 1927
Travessa do Salitre
Mário Novais, in Lisboa de Antigamente

Sunday, 5 February 2023

Sítio do Vale de Pereiro

Em cima — refere Norberto de Araújo — corria o Vale Pereiro, do qual existe, em reminiscência, uma parcela da Rua com aquele dístico, e que leva do Salitre a Alexandre Herculano.
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIV, p. 38, 1939)

A primitiva Rua  do abarracamento de Vale de Pereiro (1859) que hoje liga as Ruas Alexandre Herculano e do Salitre, passava a S. do Parque do Parque Eduardo VII (onde hoje se encontra a Praça Marquês de Pombal), e findava no Largo de Andaluz/São Sebastião da Pedreira (vd. mapa abaixo). 

Rua do Vale de Pereiro |c. 1903|
Demolição do muro do antigo Quartel do Vale de Pereiro (Caçadores 2); o troço que se vê na imagem corresponde actualmente à Rua Braamcamp (1887) rasgada na viragem do séc. XX; ao fundo, à direita, a «Casa Ventura Terra, Prémio Valmor de 1903» sita na Rua Alexandre Herculano, 57.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Nesta rua que foi "do abarracamento" de Vale do Pereiro — diz o olisipógrafo Matos Sequeira — , em frente do quartel, ficava em 1819 a afamada Casa de Pasto do Freixo, uma das hortas mais concorridas pela boémia popular desse tempo e, é de crer, pela tropa que transbordava do quartel.

Carta topográfica de 1888 [fragmento]
Legenda:
A vermelho a Rua do Vale de Pereiro
A amarelo a Rua Braamcamp
A verde a Rua Alexandre Herculano
A azul Quartel do Vale de Pereiro (Caçadores 2)
in Lisboa de Antigamente

Wednesday, 24 June 2015

Parque Mayer: — Vai um tirinho, freguês?!

Barraca de tiro ao alvo no Parque Mayer


Situado junto à Avenida da Liberdade, do lado ocidental, entre a Rua do Salitre e a Praça da Alegria, este recinto viveu o seu apogeu entre as décadas de 30 e de 70 do séc. XX. Começou por funcionar com divertimentos como barracas «dos tirinhos», carrinhos de choque, carrosséis de feira, “roleta diabólica” e a "cadeira eléctrica", atracções várias, como o circo do El Dorado, e combates de boxe e luta-livre.
Deste modo, o Parque Mayer rapidamente se tornou um recinto de convívio e de feira ao ar livre, onde não faltavam restaurantes, bares, cabarets, retiros e tascas, atraindo um público aficionado. 

Barraca de tiro ao alvo no Parque Mayer |c. 1940|
Ferreira da Cunha, 
in Lisboa de Antigamente

Uma noite encontram-se na Avenida e foram ate ao Parque Mayer em amena conversa. Deambularam pelo recinto. Pararam junto das barracas de tiro ao alvo, distraídos com a exuberância de gestos e de palavras com que as empregadas disputavam umas às outras a atenção dos possíveis atiradores, dos frequentadores ociosos, em busca de emoções baratas. [Crespo: 1971]

Barraca de tiro ao alvo no Parque Mayer |1943-05|
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Em 1932, por sugestão de Leitão de Barros, realizou-se aí o primeiro desfile de grupos representantes dos bairros lisboetas que, posteriormente, dará origem às Marchas Populares.

Barraca de tiro ao alvo no Parque Mayer |1930-05|
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

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