D. Felicidade quis então saber as horas. Começava a enfastiar-se. Tinha
esperado encontrar o Conselheiro; por ele, para lhe parecer bem, fizera
o sacrifício de se apertar!
Acácio não vinha, os gases começavam a afrontá-la; e o despeito daquela ausência aumentava-lhe a tortura da digestão. Na sua cadeira, o
corpo mole, ia seguindo a multidão que girava incessantemente, numa
névoa empoeirada.
Mas a música, no coreto, bateu de repente, alto, a
grande ruído de cobres, os primeiros compassos impulsivos da marcha do
Fausto. Aquilo reanimou-a.
Era pot-pourri da ópera — e não havia música de que gostasse mais. (Queiroz, 1878)
No projecto da Avenida da Liberdade (após demolição do Passeio Público) estavam contemplados novos equipamentos para o jardim, incluindo um novo coreto, criado por José Luís Monteiro e cuja construção foi iniciada no lado oriental da Avenida, no talhão situado entre a Rua dos Condes e o Largo da Anunciada, mas uma petição de Dezembro de 1885, de vários moradores da zona pediu a suspensão da sua construção naquele local, o que foi aceite em Comissão Executiva, a 13 de Fevereiro de 1886, que decidiu suspender os trabalhos, remover os materiais e guardá-los até ser designado novo local para o coreto. Apesar de não haver coreto na Avenida, existem referências de bandas tocarem entre a Praça dos Restauradores e a Rua das Pretas.
Mais tarde, possivelmente no lugar onde actuavam as bandas foi construído um (primeiro) coreto fixo de materiais pouco duráveis a pedido da Sociedade Promotora das Creches para a realização de uma quermesse em Setembro de 1886, coreto esse que a pedido dos moradores, foi mantido nesse local até 1894, ano de inauguração do coreto fixo (segundo).
A necessidade de um novo coreto na Avenida da Liberdade, devido ao estado de degradação do coreto provisório e o pedido dos moradores lisboetas tendo em vista a necessidade de manter a música neste local, fez com que a 19 de Maio de 1892 fosse retomado o projecto de coreto de José Luís Monteiro, mas agora noutro local, para a parte mais alta da Avenida, no talhão em frente à Rua Rosa Araújo.
O coreto fixo, inaugurado a 15 de Agosto de 1894, foi aí mantido até 1935, quando foi desmanchado para ser novamente reconstruido noutro local, o Jardim da Estrela, onde se mantêm até aos dias de hoje. A decisão de mudar este coreto de local deveu-se ao aumento da quantidade de tráfego, comércio e escritórios na Avenida da Liberdade, factores pouco convidativos para o ambiente musical e para atrair pessoas até ao coreto.
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Avenida da Liberdade, coreto [c. 1894]
Este coreto situava-se defronte ao nº 232 no
lado nascente da avenida, no quarteirão entre as ruas Barata Salgueiro e
Alexandre Herculano. Foi transferido em 1935-36 para o Jardim da Estrela.
Chaves Cruz, in Lisboa de Antigamente |
Inaugurado em 15 de Agosto de 1894, tocando, à noite, das oito às dez
horas a banda de Infantaria 2, e sendo todo iluminado a luz eléctrica.
Porém, não deu o melhor resultado porque se apagou muitas vezes, o que
fez com que a música desse algumas fifias, por estar às escuras.
É
um coreto em mármore e ferro, do risco de José Luís Monteiro, com
sugestões indianas no desenho dos arcos e na cobertura. O interior desta
apresenta um invulgar trabalho decorativo em madeira com liras,
folhagem e monograma camarário. É o único coreto com duas escadas de
acesso, em ferradura, que pela simetria da planta lhe conferem um maior equilíbrio no desenho.
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Avenida da Liberdade, coreto [c. 1900]
Coreto da autoria de José Luís Monteiro, foi transferido em 1935 para o Jardim da Estrela.
José A. Bárcia, in Lisboa de Antigamente
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Na edição de 1831, do Dicionário da Língua Portuguesa de António de Morais Silva, a palavra coreto surge com o significado de «pequeno coro feito para alguma função». Enquanto em 1890 surge uma outra versão, emendada e acrescentada, que define o coreto da seguinte forma:
«Corèto», s. m. Côro pequeno. Especie de palanque, vistosamente ornamentado, destinado à música, e que se arma geralmente por occasião de festa publica, em arraiaes, etc..»
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Antigo coreto da Avenida da Liberdade [1960-06-11]
Coreto da autoria de José Luís Monteiro, foi transferido para este Jardim da Estrela em 1935.
Armando Serôdio, in Lisboa de Antigamente |
Bibliografia
QUEIROZ, Eça de, O Primo Basílio, 1878.
NUNES, Joana, O coreto na cidade de Lisboa, Faculdade de Belas Artes (FBA), Dissertações de Mestrado, 2012.
RELVAS, Eunice; BRAGA, Pedro Bebiano, Coretos em Lisboa: 1790-1990, p. 129, 1991.