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Friday, 22 August 2025

Travessa dos Inglesinhos com a Rua da Atalaia

Esta artéria do Bairro Alto que liga Rua da Atalaia à Rua dos Caetanos tem o seu topónimo – Travessa dos Inglesinhos – devido à existência no local do Colégio de São Paulo e São Pedro, conhecido como Convento dos Inglesinhos, que entre 1632 e 1644 foi erguido em terras doadas por D. Pedro Coutinho.
Após o Ultimatum inglês de 1890, a população alfacinha passou a apelidar esta artéria como “Travessa dos Ladrões”; o mesmo com a Rua da Estrela ou a devido a presença do Cemitério dos Ingleses[Machado: 1998]

Travessa dos Inglesinhos com a Rua da Atalaia |1923|
Sede da Associação de Classe das Empregadas Domésticas de Hotéis e Casas Particulares de Lisboa.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Nota(s): A Travessa do Enviado de Inglaterra, a Santa Marta, foi apelidada pelos populares como a “Travessa do Diabo que o Carregue”, por existir neste local um palacete onde habitou o Enviado Extraordinário e Ministro Plenipotenciário, Lorde Robert Stephen Fitzgerald (1765-1833), entre 1802 e 1806.
 
Travessa dos Inglesinhos |1902|
Quarteirao entre as Ruas Luz Soriano e da Rosa tendp ao fundo a Rua da Atalaia.
Machado & Souza, in Lisboa de Antigamente


Friday, 20 September 2024

Cruzamento formado pelas Ruas Nova de São Mamede, Salitre, Barata Salgueiro e Rodrigo da Fonseca

No final do século XII, e sob a autoridade do Bispado de Lisboa, surgem na capital as dez primeiras freguesias (terreno delimitado, na cidade ou no campo, em que habitavam indivíduos que seguiam o mesmo culto, tendo como ponto principal o templo ou a igreja matriz). Em 1247, nasce São Mamede, famosa por albergar o Jardim Botânico de Lisboa e o Edifício da Imprensa Nacional. É a mais antiga das freguesias que hoje formam a de Santo António.

A Rua Nova de São Mamede é assim designada por se encontrar nas proximidades da Igreja Paroquial de São Mamede. Esta paróquia remonta ao século XIV (1312), Anteriormente designada Travessa de São Mamede, este arruamento foi renomeado  pelo Edital do Governo Civil de 5 de Abril de 1945, tendo o seu início no Largo de São Mamede e término na Rua do Salitre.

Salitre. O local em que se encontra foi mencionado pela primeira vez em 1665 nos Livros dos Óbitos da freguesia de São José: “Pátio do Salitre”, designação que se manteve até 1746. Este topónimo nasceu das nitreiras ou salitrais que os frades de São Bruno – conhecidos como Cartuxos ou Brunos – tinham nas suas hortas, nos terrenos que detinham nesta artéria, já que salitre é o nome vulgar do nitrato de potássio, um adubo. Este arruamento inicia-se na Avenida da Liberdade, terminando na Rua Rodrigo da Fonseca.

Cruzamento formado pelas Ruas Nova de São Mamede, Salitre, Barata Salgueiro e Rodrigo da Fonseca |ant. 1928|
Autor desconhecido, in Lisboa de Antigamente

A Rua Barata Salgueiro homenageia o Dr. Adriano Antão Barata Salgueiro (1814-1895) que cedeu gratuitamente e a preços reduzidos terrenos para a o projecto de urbanização da Avenida da Liberdade. Denominação atribuída por Deliberação Camarária de 6 de Maio de 1882. Este arruamento tem início na Rua de Santa Marta e termina Rua Rodrigo da Fonseca.

A Rua Rodrigo da Fonseca — anteriormente designada Azinhaga do Vale do Pereiro — foi renomeada pela Deliberação Camarária de 28 de Fevereiro de 1884 e respectivo Edital do Governo Civil de 4 de Março do mesmo ano, iniciando-se na Rua do Salitre e terminando na Rua Marquês de Fronteira. 
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Bibliografia
jfsantoantonio.pt

Sunday, 6 August 2023

Chafariz do Largo de Andaluz

As aguas do Chafariz de Andaluz brotam no largo de Andaluz, do lado do norte do convento de Santa Joanna. São salobras e frias, marcando 22° quando a temperatura exterior é de 26°,5°. O snr. Agostinho Vicente Lourenço opina que, bem aproveitadas, estas aguas seriam uteis no tratamento de molestias cutaneas. [Otigão: 1875]

O Chafariz do Andaluz é apenas uma longa bacia rectangular, de pequena profundidade, com uma simples torneira de latão. Primitivamente era alimentado por nascente situada no logradouro de um prédio da Rua de São Sebastião da Pedreira. Encontra-se hoje escondido, no recanto formado pelo ângulo das Ruas de Santa Marta e do Actor Tasso, perto do Largo de Andaluz, à sombra de uma bela árvore. 

Chafariz do Largo de Andaluz |1965|
Em segundo plano, a Rua Actor Tasso (1909) antiga Travessa de Lázaro Verde.
Arnaldo Madureira, in Lisboa de Antigamente
Chafariz do Largo de Andaluz |1961|
Em segundo plano, a Rua Actor Tasso (1909) antiga Travessa de Lázaro Verde.
Armando Serôdio, in Lisboa de Antigamente

Apesar das apregoadas virtudes da sua água original e da longa idade que já conta, pois data de 1336 (Era de 1374), o Chafariz do Andaluz não chamaria a nossa atenção se não fora a existência, no seu espaldar, da pedra de armas de D. Afonso IV sobre uma lápide bipartida, tendo, à esquerda, a nau vicentina das armas do Brasão da Cidade e, à direita, a inscrição:
NA ERA DE 1374 (data corresponde ao ano de 1336 da Era Cristã), O CONCELHO DE LISBOA MANDOU FAZER ESTA FONTE A SERVIÇO DE DEUS E DO NOSSO SENHOR REI DOM AFONSO POR GIL ESTEVES, TESOUREIRO DA DITA CIDADE, E AFONSO SOARES, ESCRIVÃO. A DEUS GRAÇAS, segundo a leitura de Cordeiro de Sousa (M. A.).
(Monumentos e edifícios notáveis do distrito de Lisboa, Volume 5, 1962)

Chafariz do Largo de Andaluz |1939|
Destaque para Pedra de armas de D. Afonso IV sobre uma lápide bipartida, tendo, à esquerda, a nau vicentina das armas do brasão da Cidade e, à direita, a inscrição atrás referida.
Eduardo Portugal, 
in Lisboa de Antigamente

Friday, 7 January 2022

Rua Barata Salgueiro

A Rua Barata Salgueiro, sita nas freguesias de Coração de Jesus e São Mamede, foi atribuída por deliberação camarária de 06/05/1882 no arruamento perpendicular à Avenida da Liberdade, em direcção à antiga Azinhaga do Vale de Pereiro.
As ruas Barata Salgueiro e Castilho foram calcetadas e iluminadas em 1886, ano da inauguração oficial da Avenida da Liberdade. Do mesmo plano de urbanização faziam parte, os bairros Barata Salgueiro a ocidente e Bairro Camões, a leste. Barata Salgueiro cedeu gratuitamente e a preços reduzidos terrenos para a o projecto de urbanização da Avenida da Liberdade.

Rua Barata Salgueiro |1932|
Anterior ao alinhamento e rectificação da rua e à demolição dos prédios ao centro; ao fundo vêem-se os prédios da Rua de Santa Marta.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Nesta artéria perpendicular à Avenida da Liberdade foi homenageado o Dr. Adriano Antão Barata Salgueiro (1814-1895), advogado em Lisboa, por decisão unânime na 19ª Sessão Extraordinária da Câmara Municipal de Lisboa, em 6 de Maio de 1882, à qual presidia José Gregório da Rosa Araújo, o presidente responsável pela construção da Avenida da Liberdade entre 1879-1886.
Curiosamente, a Rua Rosa Araújo é paralela à Rua Barata Salgueiro. [cm-lisboa.pt]

Rua Barata Salgueiro |1939|
Alinhamento e rectificação depois da demolição dos antigos prédios; ao fundo vêem-se os prédios da Rua de Santa Marta.
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Friday, 22 October 2021

Largo de Andaluz

Desconhece-se a origem do nome do sítio. A mais simples — e. porventura, a mais razoável — é-nos revelada por João Sousa Moura em Vestigios da lingua arabica em Portugal: ou lexicon etymologico das palavras, e nomes Portuguezes, que tem origem arabica (1789):
ANDALUZ طر اندل Andalus. Nome de hum bairro, e de hum chafariz nos arrabaldes de Lisboa, Fregue2ia de S. Sebastião da Pedreira. He appellido de hum homem natural da Andalusia, de quem o lugar tomou o nome: e vem a ser o lugar de Andaluz.
 
Largo de Andaluz |c. 1940|
Esquina com o Largo das Palmeiras; à dir. o Chafariz de Andaluz; Rua de Santa Marta e o arco do viaduto da Avenida Duque de Loulé.
Eduardo Portugal, 
in Lisboa de Antigamente
Largo de Andaluz |c. 1949|
Esquina com o Largo das Palmeiras; Edifício foi Prémio Municipal de Arquitectura, 1949. Projecto dos arquitectos Dário Vieira e José Lima Franco.
Mário Novais, 
in Lisboa de Antigamente

Sunday, 2 August 2020

Profissões de antanho: o engraxador

Lisboa tem o privilégio de possuir os mais artistas engraxadores do mundo — escreve Maria Archer num artigo publicado em 1945 na Revista municipal de Lisboa. A fama duns sapatos lustrados em Lisboa dá que falar. Sei dum escritor espanhol que passa horas nas praças, a rondar Os nossos engraxadores ambulantes, de tal forma se extasia com a perfeição e o ardor do seu trabalho. Dir-se-ia que os estuda, que os admira. Um dia confidenciou-me o resultado das suas observações:
— Nada mas que esto... Les gusta, a ellos hacerlos luzir.

Profissões de antanho: o engraxador [1977]
Largo de S. Domingos
Abrigos destinados aos engraxadores, instalados por iniciativa da Câmara Municipal de Lisboa: ao fundo, observa-se o Palácio Almada.
Fernando Gonçalves, in Lisboa de Antigamente

That is the question... É que o engraxador de Lisboa gosta do seu trabalho e um trabalho de que se gosta faz-se com mira na obra prima. Ele gosta de ver o velho sapato enlameado, poeirento, desboto, retomar cor e lustro sob a aguada colorida de anilina e a untadela de pomada. Depois, com pano e escova, apura-se em realçar as graças do cabedal rejuvenescido. A escova e o pano macio, felpudo, giram lestos nas suas mãos e o sapato lustrado já reflecte a luz como um espelho, já se destaca, sabre o basalto escuro da calçada ou no mármore britado dos passeios, como coisa nova, bonita, agradável de ver e de usar.

Profissões de antanho: o engraxador [1926]
Rua de S. Marta junto ao Convento de Santa Joana (Princesa)
Pequenos engraxadores, à saída da Esquadra da Polícia Cívica de Lisboa (actual PSP), depois de assistirem a uma palestra sobre comportamento cívico dada pelo comandante Ferreira do Amaral.: ao fundo, o Palácio Almada.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

O engraxador ambulante, de Lisboa, é pobre. Vive mal da sua profissão mas mesmo assim, gosta dela porque ela o deixa viver na doçura da rua, em contacto directo com o grande teatro popular da rua. E gosta dela porque ela o deixa ser livre, viver sem patrão, sem horário de trabalho, sem regulamentos. Ordens, imposições, só as recebe da necessidade. A fantasia pode andar com o artista que ninguém a afugenta da sua beira. Vem o domingo... Domingo, dia de catitismo para o homem da rua, já se sabe que rende ao engraxador. Mas se há, nesse domingo, desafio de nomeada, quem é que pensa nos cobres? O engraxador gosta da «bola». Aperta um furo no cinto e compra o bilhete do «peão», que a vida são dois dias e o Benfica é merecedor, isso é que é...  ==

Profissões de antanho: o engraxador [1911]
Arcadas da Praça do Comércio
 Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARCHER , Maria, Revista municipal Lisboa, 1945.

Wednesday, 29 May 2019

Antiga Igreja do Coração de Jesus

Quási defronte do antigo Convento de Santa Marta temos a Igreja do Coração de Jesus — recorda-nos Norberto de Araújo — , cuja paroquial foi criada em 1770 com o orago de Santa Joana, na Igreja do vizinho Convento de Santa Joana, passando depois (1780) para o Hospício das Carmelitas, na Rua de Santa Marta.


O templo paroquial do Coração de Jesus só foi erguido neste local em 1790 a esforços, sobretudo, do Conde de Redondo; foi arquitecto Manuel Caetano de Sousa. A inauguração realizou-se a 30 de Maio. Entre 1877 e 1880 a Igreja recebeu restauros. 

Rua de Santa Marta |1944|
Ao fundo vê-se a antiga Igreja do Coração de Jesus, situava-se em frente ao Convento de Santa Marta, hoje Hospital de Santa Marta.
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

A paroquial do Coração de Jesus é pobre, embora simpática. Possue no corpo da Igreja duas capelas por lado; à direita as de N. Senhora de Fátima e da Sagrada Família, à esquerda de N. Senhora das Dores e de S. Miguel. No altar da Capela-mór vêem-se sobre o sacrário do SS. as imagens do Sagrado Coração de Jesus e o S. Coração de Maria; nela se ostenta um quadro do orago da freguesia devido a Cirilo Wolkmar  Machado. O teto é de Pedro Alexandrino.



Igreja do Coração de Jesus |195-|
Rua de Santa Marta
Mário de Oliveira, in Lisboa de Antigamente
 


Igreja do Coração de Jesus |1956|
Retábulo do capela-mor, de Volkmor Mochado
Fotografia anónima, in IL



A igreja foi demolida na década de 1960 e substituída de outra, com a mesma invocação, edificada na Rua Camilo Castelo Branco.

Igreja do Sagrado Coração de Jesus |195-|
Pormenor do tecto da autoria de Pedro Alexandrino
Armando Serôdio, in Lisboa de Antigamente

N.B. Esta zona da cidade era servida pela Carreira de eléctricos Nº 6 RESTAURADORES-PRAÇA DA FIGUEIRA. Foi inaugurada em 1905, com o percurso inicial entre o Rossio e a R. Gomes Freire. Foi suprimida em 1960.
Percurso: Praça dos Restauradores, Av. da Liberdade, Rua Barata Salgueiro, Rua de Santa Marta, Rua Conde Redondo, Rua Gomes Freire, Campo dos Mártires da Pátria, Rua de S. Lázaro, Rua da Palma (sentido inverso, Poço do Borratem), Largo Martim Moniz e Praça da Figueira.
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Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIV, pp. 90-91, 1939.

Wednesday, 23 January 2019

Ermida da Cruz das Almas

Pois estamos outra vez na Cruz das Almas
O sítio da Cruz das Almas — diz Gustavo de Matos Sequeira — aparece-nos pela primeira vez citado em 1719, no registo de óbito de uma Inez, filha de Manuel de Sequeira e de Catarina Maria, feito na freguesia de São José. Noutros, em 1730 e 1732, surge- nos a designação ao «Canto das Almas». A não ser que a referência seja a outro local — à «Cruz de Santa Marta» talvez — temos que assentar que esta denominação topográfica só se fixou muito mais tarde, tanto mais que a «cruz do Padrão» não pertencia à paróquia de São José. O que é certo, também, é que em 1731, o bispo de Lamego D. Nuno Alvares Pereira de Melo faleceu à «Cruz das Almas» em 8 de Março deste ano, e já se sabe que os Cadavais tinham aqui casa e propriedades rústicas e que foi um Cadaval o fundador da ermida de que já vamos falar. [...] ¹

Ermida da Cruz das Almas |c. 1940|
Rua de Campolide
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

A Ermida que aqui vês — recorda-nos, por seu turno, Norberto de Araújo — pequeno prédio que se segue, já na Rua de Campolide, à esquina da Rua das Amoreiras, foi fundada em 1756 por D. Nuno Álvares Pereira de Melo, 3º Duque do Cadaval, e um dos dezóito filhos ilegítimos que êste Duque teve. Os Cadavais tinham aqui perto uma casa sua, junto do Palácio Anadia, mas já na Rua do Portal de S. João dos Bemcasados, isto é: na, depois, das Amoreiras.
A Ermida foi dedicada à Imaculada Conceição Maria Santíssima, como estás lendo, em inscrição gravada na verga do portal. 

Ermida da Cruz das Almas |1945|
Rua de Campolide, à esquina da Rua das Amoreiras
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Esta Ermida da Cruz das Almas interiormente possue um belo silhar de azulejos do Rato, policromo, um teto estucado e pintado, e, no altar-mór, um Cristo, de marfim, e algumas imagens (S. Domingos e Santa Tereza) além de um retábulo de N. Senhora da Conceição.²

Sítio da Cruz das Almas |1857|
Vermelho: Ermida da Cruz das Almas
Azul: troço da antiga Rua das Amoreiras, que corresponde actualmente à Rua Prof. Sousa da Câmara
Laranja: Rua de Campolide (antiga Estr. de Campo Lide

Verde: Rua do Arco do Carvalhão
Levantamento da Planta de Lisboa (excerto), 1857 por  Filipe Folque, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
¹ SEQUEIRA, Gustavo de Matos, Depois do terramoto: subsídios para a história dos bairros ocidentais de Lisboa, Volumes 3-4, p. 489, 1967.
² ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XI, pp. 81-82, 1939.

Friday, 4 January 2019

Travessa da Horta da Cera

Ainda existe o nome de travessa da Horta-da-cera —  recorda-nos mestre Castilho — ; era ha poucos annos uma viella quasi deserta, tortuosa, que levava desde a calçada [hoje Rua] do Salitre até á rua de S. José [vd. carta topográfica]. A Avenida [da Liberdade] cortou-a ao meio, como se corta uma cobra, por fórma que o principio occidental d'essa antiga serventia é a 5.ª travessa á esquerda no Salitre, para quem vai do Rato, e finda na Avenida; e o outro troço oriental da cobra é a 3.ª travessa á esquerda, na rua de S. José, indo da rua das Pretas, e finda na mesma Avenida.¹

Travessa da Horta da Cêra [1944]
Ao fundo, a Avenida da Liberdade.
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Espreita-me, à direita, em desnível o que resta da antiga Travessa da Horta da Cera —  diz, por seu lado, Norberto de Araújo. Olha quanto é curioso esse prédio, n.ºˢ 3 a 13 [à esq. na 1ª foto e à dir. na 2ª], do lado norte da serventia quási a entrar na Avenida; é em toda esta larga zona moderna o mais vetusto espécime urbano do tempo velho.²

Travessa da Horta da Cêra [1944]
Ao fundo, a Rua do Salitre.

Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

N.B. Este topónimo deve a sua existência a um conjunto de hortas - denominadas «da Cera» no séc. XVIII - localizadas entre as antigas Rua de Santa Marta/Rua de S.José e a Calçada do Salitre, as quais resistiram no local até à abertura da Avenida da Liberdade em 1880-1886.

Travessa da Horta da Cera, extracto da Carta topográfica de Filipe Folque, 1857
Legenda: a Vermelho a antiga Travessa da Horta da Cera (antes de ser cortada pela Av. da Liberdade); a Verde a antiga Calçada do Salitre (hoje Rua); a Azul, a Rua de S. José.
in Lisboa de Antigamente
(clicar para ampliar)

Bibliografia
¹ CASTILHO, Júlio de, Amores de Vieira Lusitano: apontamentos biographicos, p 215, 1901.
² ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. VII, p. 38, 1938.

Friday, 28 September 2018

Travessa das Parreiras

Em suma — diz Mestre Júlio de Castilho — : a Rua do Carvalho, a Rua do Loureiro, a Rua dos Jasmins, a Rua da Era, a Travessa da Era (ou Hera), a Travessa das Chagas Velhas, a Travessa da Laranjeira, ou das Laranjeiras, como dantes se chamou, a Rua das Parreiras, a Rua das Flores, e talvez a Praça das Flores, são risonhas amostras de um quadro que se perdeu, um grande quadro variegado, painel muito florido, a que talvez se apegassem, aqui, ali, nalgum canteiro, nalgum alegrete, nalgum caramanchão, memórias desconhecidas das lindas mãos de Brites ou de Helena de Andrada; e digo lindas, porque Miguel Leitão lá confessa, com ar malicioso, que havia então parentas suas bem formosas.

Travessa das Parreiras [1908]
Perspectiva tomada da Calçada de Santo António na
direcção sa Rua de Santa Marta
Machado & Souza,
in Lisboa de Antigamente

Como refere Castilho, este topónimo de “parreiras” inscreve-se numa antiga tradição popular de designar topónimos indo buscar a sua identidade às disposições dos terrenos ou do local, às circunstâncias naturais, à fauna ou à flora.
Este arruamento — que era uma antiga zona rural — tem início na Calçada de Santo António e finda na Rua de Santa Marta.

Travessa das Parreiras [1908]
Ao fundo a Rua de Santa Marta
Machado & Souza,
in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
CASTILHO, Júlio de, Lisboa Antiga, vol. I, p.28.
cm-lisboa.pt.

Friday, 6 July 2018

Rua Alexandre Herculano (Palacete da Condessa de Edla)

Sobre esta zona da cidade relembra-nos o olisipógrafo Norberto de Araújo que «Aqui, no começo de Conde Redondo e Santa Marta, do lado poente, existiu, no fundo de um jardim, o Palacete da Condessa de Edla [vd. 2.ª foto], a esposa morganática de D. Fernando, marido de Maria II; foi tudo demolido para dar lugar (1938) ao prolongamento da Rua Alexandre Herculano, que ai tens, já terraplanada, inaugurada em 25 de Outubro deste ano de 1939».

Rua Alexandre Herculano [1940]
Observa-se  à dir. a Rua Camilo Castelo Branco e, à esq., a Rua Rodrigues Sampaio; em último plano a Avenida da Liberdade
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

N.B.: Alexandre Herculano de Carvalho Araújo (1810-1877) nasceu no Pátio do Gil, na Rua de São Bento. Foi poeta, romancista, historiador e ensaísta. Juntamente com Almeida Garrett, é considerado o introdutor do Romantismo em Portugal. Foi o renovador do estudo da História de Portugal. 

Rua Alexandre Herculano [1938]
Palacete da Condessa de Edla
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente
Palacetee (terrenos, a azul) da Condessa d'Edla (demolido em 1938)
Legenda:
Vermelho (cheio): Rua Alexandre Herculano; Vermelho (tracejado) Prolongamento da Rua Alexandre Herculano (1939); Amarelo: Rua de Santa Marta; Verde: Rua do Conde Redondo
Levantamento topográfico de 1910, autor: Pinto, Júlio António Vieira da Silva [pormenor], 
in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIV, pp. 88-89, 1939.

Sunday, 3 September 2017

O Colyseo dos Recreios e o Elevador de S. Sebastião

O Colyseo dos Recreios  —  no dizer de Alfredo Mesquita  —  é a maior casa de espectáculos que se tem construído em Lisboa. Está situado na Rua das Portas de Santo Antão, próximo da Igreja de S. Luiz Rei de França [refere-se à Igreja de São Luís dos Franceses]. Para a realização do projecto do architeto Goulard, foi necessário fazer naquelles terrenos um desaterro de 16 metros de altura, construindo-se muralhas de suporte que têm 6 metros de espessura
O circo apresenta um grandioso aspecto, podendo comportar 8.000 pessoas, em 110 camarotes, 1.500 cadeiras, duas enormes galerias, um vasto promenoir, e uma muito espaçosa geral em toda a volta do circo. Cobre o edifício uma formidável cúpula de ferro, construída por Hein Lehmann, de Berlim. O palco é de amplas dimensões, e presta-se a ser explorado com peças de grande espectáculo. Em parte do edifício, á frente, está instalada a Sociedade de Geographia de Lisboa, com o seu muito interessante museu colonial e a sua grande sala de conferencias. A inauguração do Coliseo dos Recreios foi no dia 14 de Agosto de 1890, com a opera cómica de SuppéBoccacio, cantada por uma companhia italiana.

Coliseu dos Recreios [entre 1899 e 1901]
 Rua das Portas de Santo Antão
Nesta imagem são visíveis as «calhas» do antigo «Elevador de S. Sebastião».
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Hoje — prossegue o mesmo autor em 1903 —. a grande afluência do povo converge para o Colyseo dos Recreios. De inverno, são os cavallinhos, os acrobatas, os clowns, os animaes sábios, os palhaços excêntricos, as pantomimas, as cantoras de café-concerto, que constituem os atrativos d’aquelle circo. No verão, são as companhias italianas e hespanholas de opera e de zarzuela que lhe proporcionam as enchentes. O alfacinha teve sempre uma viva sympathia pelos circos de cavallinhos, e pelos theatros de canto.

Coliseu dos Recreios, fachada e interior [c. 1890]
 Rua das Portas de Santo Antão
  in Lisboa de Antigamente
Coliseu dos Recreios, cúpula de ferro [c. 1890]
 Rua das Portas de Santo Antão
  in Lisboa de Antigamente

Vem a-propósito lembrar que, episodicamente, correu aqui há quarenta anos [c. 1900] uma linha dupla de viação por cabo subterrâneo» — escreve Norberto de Araújo nas suas Peregrinações — referindo que «Lisboa conheceu ainda uma «Companhia de Viação Funicular» que montou uma única linha — o «Elevador de S. Sebastião» [vd. 1ª foto].
Esta linha dupla de viação por cabo subterrâneo saía do Largo de S. Domingos, junto à caixa do Teatro D. Maria II, e seguia por Santo Antão, S. José, Santa Marta, Largo do Andaluz, Rua de S. Sebastião, até às «portas» de S. Sebastião da Pedreira. Esta iniciativa teve, porém, a duração das rosas: inaugurada a carreira em 15 de Janeiro de 1899, a companhia abria falência em 1901.

Coliseu dos Recreios [1960]
 Rua das Portas de Santo Antão
Arnaldo Madureira, i
in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
MESQUITA, Alfredo. Lisboa, p. 622, 1903.
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIV, p. 104, 1939.

Sunday, 6 August 2017

A Bemposta: o Paço da Rainha

Eis-nos, Dilecto, deante do Paço da Bemposta. Observa-me a fachada desta casa paçã e palaciana; tem um certo ar mais aristocrático que fidalgo, mas, no seu conjunto, oferece um indiscutível interesse de arquitectura civil, com indicações puras seiscentistas na frontaria.


   Duas noticias te dou já: o adro, com sua escadaria, nem sempre foi como agora se apresenta; era mais avançado, e a sua redução ao espaço e configuração actuais datam de 1860. Quanto ao sítio, onde estamos, êle constituía um pátio do Palácio, fechado nos topos, com muros, onde rasgavam arcos ou portões, mas por onde aliás se fazia passagem pública, e demolidos em 1849.
    Foi aqui que uma Rainha, fatigada de pousadas estranhas, se recolheu um belo dia do ano de 1702. D. Catarina de Bragança regressara ao seu país em 1693, trazendo havia já oito anos sobre a sua cabeça, cortida por desgostos e resignações, o véu da viuvez que Carlos II de Inglaterra lhe legara. Filha e irmã de reis — porque não ter na sua pátria casa sua? Um paço próprio?

Capela e Paço Real da Bemposta [c. 1910]
Paço da Rainha; ao fundo,
a Penha de França
 Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

    D. Catarina, fiiha de D. João IV, que casara com Carlos II de Inglaterra — a que levou aos ingleses Tânger e Bombaim — enviuvara em 1685 e aborrecida da côrte de Inglaterra, voltou a Portugal em 1693, habitando sucessivamente os Paços Reais do Calvário, o Palácio dos Condes do Redondo, em Santa Marta, os do Conde de Soure, no Bairro Alto, os dos Condes de Âveiras, em Be1ém. E acabou por resolver — construir casa sua.
   Achamos que fêz muito bem.
   Entrou a Rainha a comprar terrenos a quantos proprietários, que por aqui desfrutavam quintas, hortas e azinhagas, os punham à disposição real. Do Matadouro [actual Praça José Fontana], Estefânia, Gomes Freire, Santa Bárbara e Bemposta de hoje — tudo passou a D. Catarina, que começou a erguer a sua casa neste lugar do Campo da Bemposta em 1694, e já nela habitava em 1702, ainda o edifício não estava concluído. A Carreira dos Cavalos [actual Rua Gomes Freire], ficava-lhe a Norte, acompanhando cêrca e jardins. O Paço não seria sumptuoso, mas merecer cuidados à viúva de Carlos II, que conhecia castelos e palácios de Inglaterra; a Capela, sobretudo, foi enriquecida de obras de arte, algumas trazidas na sua bagagem de rainha-viúva.

Capela e Paço Real da Bemposta [c. 1900]
Paço da Rainha, 31; portas brasonadas com as armas da Rainha D. Catarina de Bragança; entre as duas ergue-se, desde 2002, um busto em bronze da Rainha assente sobre pedestal em pedra, obra da autoria do escultor britânico Tim Fargher, foi oferecida à cidade de Lisboa pela British Historical Society of Portugal, por ocasião da visita da rainha Isabel II a Portugal.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

   Morreu D. Catarina em 1705, e a propriedade passou a seu irmão D. Pedro II, que só lhe sobreviveu um ano. O Paço tornado bem da Corôa foi por D. João V, em1707, doado à Casa do Infantado, tomando dele posse o Infante D. Francisco, falecido em 1752, e passando então a Bemposta para D. Pedro, irmão daquele, depois D. Pedro III. Veio o Terramoto. O Paço da Rainha ou Paço da Bemposta, como indistintamente era conhecido, sofreu bastante; a Capela, que era da invocação de Jesus Maria José, foi quási completamente arruinada. A Casa do Infantado, muito rica, reedificou o Paço com certa largueza, modificando:se sensivelmente a sua aparência. A Bemposta, abandonada, em certos períodos, já antes vinha reclamando obras.

Capela e Paço Real da Bemposta [1863]
Largo do Paço da Rainha
Gravura, in Archivo pittoresco

   Beneficiado o Paço, pôde vir habitá-lo D. Joáo VI, quando regressou do Brasil (1821). Foi aqui que se desenrolou parte das cenas da famosa «Abrilada», em 30 de Abril de 1824, conjura à frente da qual se colocou o irrequieto Infante D. Miguel, e que se malogrou pela intervenção do corpo diplomático, animado pelo embaixador de Luiz XVIII, o Barão Hyde de Neuville.
   (Neuville foi distinguido, logo quinze dias depois, com o título de Conde da Bemposta; um sobrinho de Neuville, que serviu D. Pedro IV nas lutas liberais e casou com uma dama portuguesa, da Casa Subserra, foi, depois, por D. María II, feito Marquês da Bemposta, e o título perdurou em três vidas, extinguindo-se na Casa Rio Maior).
   Depois de D. João VI viveram aqui D. Miguel (1828) e D. Pedro IV (1833). Em 1834 a Casa do Infantado foi abolida, e a Bemposta passou para a Corôa, rras D. Maria II apressou-se a doá-la ao Estado, quere dizer: à Nação.
   Eis porque eu te dizia que por ter comprado e feito, a Bemposta, andou bem a rainha D. Catarina de Bragança. Os ermos povoararn-se, o sítio animou-se, e a Nação ficou com mais um palácio útil.

Capela e Paço Real da Bemposta [c. 1910]
Largo do Paço da Rainha, 31 

Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Não podíamos, Dilecto, fugir a esta divagação, e pena tenho eu — de que tu talvez comparticipes — de não te poder resumir certas cenas da «Abrilada» descritas para França pelo próprio Embaixador Barão de Neuville em relatórios ao seu Ministro dos Negócios Estrangeiros, que era, nem mais nem menos, o grande escritor René de Chateaubriand, e pela Embaixatriz, Maria Roger de Neuville, num diário íntimo. Mas dêsses papéis se apura, e eis o que nos interessa, que êste sítio há cem anos era descampado e, de noite, «lúgubre e medonho».

Ele — o Paço — era a testa coroada de Sant'Ana toda. Perto, campo de ciganos, a Carreira dos Cavalos, o solar dos Mitelos de Meneses, nascidos em Santo Estêvão de Alfama.

Hoje — e desde 1851, por mercê de D. Maria II — é a Escola do Exército [actual Academia Militar]. A frontaria, de linhas aristocráticas da arquitectura de setecentos — eis tudo. Tudo e a Bemposta, a mais linda designação de Lisboa de há duzentos anos.


E fez o Paço Real da Bemposta [risco do arq.º João Antunes], um dos mais lindos espaldares arquitectónicos de Lisboa.
É vê-lo no seu alçado setecentista, recomposto depois do Terramoto [arq. Manuel Caetano de Sousa]. Na sua varanda nobre, no seu pórtico de capela real, no seu duplo escadório decorativo, cortinado de acrotérios. 
É senti-lo na evocação opulenta da Casa do Infantado, nas sombras do Infante D. Francisco, de D. João VI, do irrequieto Infante D. Miguel, que chegou a ser por algumas horas dono de Lisboa, mas que não sabia bem o que queria. 

Capela do Paço Real da Bemposta [c. 1910] 
Paço da Rainha
Na fachada imponente destaca-se o coroamento de platibanda e balaústres, pelo
remate com frontão triangular, decorado no tímpano, encimado por cruz sobre plinto,
e pela varanda central, de balaustrada contracurvada, para a qual se abrem três janelões,
sendo o central rematado por frontão tripartido ostentando as armas reais.
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

No interior a Capela organiza-se dentro de um rectângulo de ângulos arredondados, a nave, com seis capelas laterais, constituindo a do Santíssimo Sacramento [vd. foto abaixo (dir)], pela sua profundidade, uma unidade espacial autónoma, à qual se justapõe a capela-mor. O programa decorativo é inspirado na obra prima do barroco joanino, a Capela de S. João Baptista, da Igreja de S. Roque, mas atribuindo-lhe já um certo gosto rococó tardio, que se abre a manifestações neoclássicas. Merecem, ainda, destaque as pinturas em «trompe l'oeil» de Pedro Alexandrino de Carvalho e a tela do altar-mor, figurando a padroeira (N. S. da Conceição, vd. foto abaixo à esq), atribuída ao pintor italiano José Troni, sob a qual foi colocado um friso de retratos de elementos da família real.
A Capela está classificada como Monumento Nacional. O Paço Real da Bemposta integra a classificação do Campo dos Mártires da Pátria como Imóvel de Interesse Público.

Capela do Paço Real da Bemposta, nave, capela e altar-mor (esq) e Capela do Santíssimo, retábulo [1790-95] (dir) [c. 1962] 
Paço da Rainha
Robert Chester Smith, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. IV, pp. 47-48, 1938.
id., Legendas de Lisboa, p. 87, 1943.
Archivo pittoresco: semanario illustrado - Vol. 6, 1863.

Tuesday, 31 May 2016

Palácio dos Condes de Redondo (Bairro Camões)

O antigo palácio dos Condes de Redondo. na Rua de Santa Marta — uma sombra do que foi, a viver apenas do seu exterior repousado — é uma fundação que não deve recuar mais que ao terceiro quartel do século XVII.

 
Fê-lo erguer ou reedificar, um dos Condes de Redondo, talvez D. Duarte de Castelo Branco. 7.º do título, vedor da Casa de D. João IV, ou seu irmão e sucessor, 8.º Conde., D. Francisco de Castelo Branco, falecido em 1686 sem descendência nem ascendência masculinas, vagando então para a Coroa a Casa e o Condado de Redondo. É esta a razão por que se viu a Rainha D. Catarina, viúva de Carlos II de Inglaterra, residir neste palácio, «cedido por seu irmão D. Pedro II», quando regressou ao Reino, e antes de a mesma senhora ir habitar o seu Paço da Bemposta. D. Pedro II, em 1693, fez mercê dos bens e título de Redondo a D. Manuel Coutinho, 9.º Conde, filho segundo do Marquês de Marialva, e quarto neto de D. Vasco Coutinho, Conde de Borba, e l.º Conde de Redondo. Este 9.º Conde morreu sem sucessão e a varonia passou para os Sousas, sendo 10.º Conde D. Fernão de Sousa Coutinho; o 18.º Conde D. Tomé Xavier de Sousa Coutinho de Castelo Branco e Meneses foi feito, em 1811, 1.º Marqu4s de Borba.

Palácio dos Condes de Redondo [1930]
Rua de Santa Marta, 56 a 56-E
A Fachada, em extensão, constituída por sete corpos contíguos,  divididos  por  pilastras, com duas ordens de vinte e duas janelas, sendo as do andar nobre de sacada, com varões seiscentistas, e coroadas de cornija.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente
 
O Palácio sofreu pouco pelo Terramoto, dada a sua sólida construção, dando então albergue a muita gente; foi, contudo, objecto de restauros levados a efeito pelo 12.º Conde, D. Fernando.
A grande quinta dos Redondos e Borbas, que se estendia a Nascente do palácio, e era uma das maiores de Lisboa, foi retalhada em 1878. depois de haver sido comprada por uma empresa urbanizadora do bairro Camões, cujo principal influente foi o Conde de Burnay, era então senhor da Casa, D. Fernando Luís de Sousa Coutinho, 8.º Marquês de Borba, mas continuando o palácio na família Sousa Coutinho. Pertence hoje [em 1949] este antigo palácio — dado a inquilinato — à Condessa de Arnoso, ocupando-o. além de famílias humildes, a Assistência Infantil e a Cantina Escolar da freguesia do Coração de Jesus, duas escolas primarias, uma agência funerária e vários estabelecimentos comerciais.

Palácio dos Condes de Redondo [193-]
Rua de Santa Marta, 56 a 56-E
O Portal, sobrepujado  de tímpano emoldurado de cantaria, que dá acesso, sobre
um  pequeno  passadiço, ao pátio interior.

Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

De planta rectangular composta por quatro alas em torno de um pátio também rectangular, apresenta volumetria paralelepipédica. A extensa fachada principal, desenvolvida em dois pisos, é constituída por sete corpos contíguos delimitados por pilastras toscanas, encontrando-se rasgada a um ritmo regular por duas ordens de 22 janelas, sendo as do andar nobre de sacada com guardas de ferro forjado e encimadas por cornija. O portal, emoldurado a cantaria e coroado por um friso com tríglifos, sobrepujado por frontão triangular interrompido no vértice, dá acesso ao pátio interior, no centro do qual existe uma cisterna seiscentista com guarda de cantaria. 

Palácio dos Condes de Redondo, jardins [9 de Junho de 1880]
O Bairro Camões foi inaugurado em 9 de Junho de 1880, (compreendia as Freguesias do Coração de Jesus e de São Jorge de Arroios) por ocasião do 3º centenário da morte de Luís de Camões. Para a ocasião foi armado um coreto pavilhão nos jardins do Palácio dos Condes do Redondo.
Rua de Santa Marta, 56 a 56-E
José A. Bárcia,
in Lisboa de Antigamente
 
No interior merecem destaque a escadaria desenvolvida a partir do átrio situado ao fundo do pátio, assim como algumas salas com tectos apainelados e estuques pintados. Está ocupado actualmente pela Universidade Autónoma de Lisboa, que aí funciona desde os anos 80 do séc. XX.
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Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Inventário de Lisboa, 1949.
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