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Friday, 5 June 2026

Rua do Instituto Dona Amélia

Antigo "arruamento sem nome que começa na Avenida 24 de Julho e finda na Rua da Ribeira Nova, entre o Mercado 24 de Julho e o edifício da A.N.T." fundada pela Rainha Dona Amélia de Orleães e Bragança em Junho de 1899.

A Comissão de Toponímia, no dia 22 de Maio de 1946, realizou uma visita a alguns arruamentos da cidade, a fim de estudar a respectiva nomenclatura, no decurso da qual foi resolvido propor “que o arruamento sem nome que começa na Avenida Vinte e Quatro de Julho e finda na Rua da Ribeira Nova, entre o Mercado vinte e quatro de Julho e o edifício da Assistência Nacional aos Tuberculosos, tenha a denominação de Rua do Instituto Dona Amélia”.

Rua do Instituto Dona Amélia |post. 1910|
À esq. notam-se os prédios na Rua e Praça da Ribeira Nova e na R. dos Remolares com parte do edifício da Assistência Nacional aos Tuberculosos à dir..
Alberto Carlos Lima, in Lisboa de Antigamente

O topónimo Rua do Instituto Dona Amélia foi oficializado pela Câmara Municipal de Lisboa através de Edital de 18/12/1947. [1943-1974 - Actas da Comissão Municipal de Toponímia de Lisboa]

Rua do Instituto Dona Amélia |1960|
Perspectiva tirada da Rua da Ribeira Nova observando-se à dir. o actual Mercado 24 de
Julho rendo defronte o antigo edifício da extinta A.N.T..

Artur Goulart, in Lisboa de Antigamente

Thursday, 5 February 2026

Avenida 24 de Julho: o «Aterro»

O Aterro da Boa Vista iniciou-se em 1855 e foi uma das maiores obras públicas portuguesas desse século. Consistiu na ligação do Cais do Sodré a Alcântara através da Av. 24 de Julho, conquistando, para isso, terrenos ao rio. A zona era uma enseada de atracação de embarcações delimitada por um caminho à beira-rio, onde é actualmente a Rua da Boavista.

Avenida 24 de Julho |c. 1900|
Carro de bois na zona do Aterro da Boa Vista — na zona da Ribeira Nova — carregando carvão.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

N.B. Situava-se o Aterro, que corresponde à actual Avenida 24 de Julho, perto do Ramalhete dos Maias de Eça de Queiros, Aterro porque era a parte aterrada do rio Tejo por volta de 1858. Foi aqui que Carlos da Maia salvou de um garrotilho a ilha de um brasileiro, ganhando «a sua primeira libra, a primeira que pelo seu trabalho ganhava um homem da sua família».

Avenida 24 de Julho |c. 192-|
Greve dos carroceiro junto a Santos.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Friday, 4 October 2024

Ruas da Alfândega e dos Bacalhoeiros

As Rua Nova da Alfândega e a Rua da Ribeira Velha [actual Rua do Instituto Virgílio Machado] passaram a constituir um único arruamento, com a denominação de Rua da Alfândega, por edital do Governador Civil de Lisboa de 1 de Setembro de 1859, em razão do edifício da Alfândega que ocupa todo o lado sul desta Rua, uma construção pombalina posterior ao terramoto de 1755 que veio substituir a alfândega quinhentista que se situava aproximadamente onde hoje confluem as Ruas do Comércio e da Madalena.
De acordo com o olisipógrafo Pastor de Macedo, a partir de 1755 a parte oriental da rua era a Ribeira Velha que só em 1836 aparece como Rua da Ribeira Velha, enquanto a parte compreendida entre o Terreiro do Paço e a Rua dos Arameiros foi denominada como Rua Direita da Misericórdia (1766), Rua da Misericórdia de Baixo (1780), Rua dos Freires da parte de baixo (1787), Rua da Conceição dos Freires da parte do mar (1799) e Rua Nova da Alfândega (1806).

Rua da Alfândega |Início séc. XX|
À esquerda, a Rua dos Arameiros e à dir. o edifício da antiga Alfândega [hoje Min. Finanças].
Paulo Guedes, in Lisboa de Antigamente

De acordo com Gomes de Brito, pelo mesmo Edital do Governador Civil de 1 de Setembro de 1859, as Ruas dos Bacalhoeiros e dos Confeiteiros foram mandadas reunir em uma só, sob a designação de «Bacalhoeiros». A dos Confeiteiros, que anteriormente a 1755 se denominava «Rua de Cima da Misericórdia» principiava no Arco Escuro (Campo das Cebolas) e findava na rua da Madalena. [Brito: 1935]

Ruas da Alfândega e dos Bacalhoeiros (dir.) | c. 1900|
Ao centro vê-se o antigo Terreirinho das Farinhas composto por um renque de seis
pequenos núcleos de casas sito entre a Rua dos Arameiros e o Campo das Cebolas e demolido na década de 1940.

Autor desconhecido, in Lisboa de Antigamente

Friday, 7 June 2024

Sítio de São Paulo

Segundo o olisipógrafo Norberto de Araújo, o sítio de São Paulo «Foi de seu princípio ribeirinho, sítio mercadejador, piedoso e turbulento. É coevo do Cata-que-farás e dos Remolares, vizinho actual da Ribeira Nova. (...) Remonta ao quinhentismo, extramuros. Em 1550 não contava como freguesia; existia como formigueiro de mareantes. (...)» [Araújo: 1939]

Rua de São Paulo |1963-07|
Junto à Calçada da Bica Grande
Augusto Fernandes, in Lisboa de Antigamente

freguesia de S. Paulo foi fundada em 1412 reedificada em 1512 e arruinada pelo terremoto do 1755 foi novamente reedificada em 1757.

Paulo (praça de S.) fica entre as ruas de S. Paulo, nova do Carvalho, travessas do boqueirão da Ribeira Nova, de S. Paulo e beco do Carvalho, freguezia de S. Paulo 1 a 22.
Paulo (rua de S.) principia na rua do largo do Corpo Santo e finda na calçada de S. João Nepomuceno e rua da Boa-Vista, freguezia de S. Paulo 36 à 260 e 21 a 129, Martyres 2 a 34 e 1 a 19.
Paulo (travessa de S.) segunda á esquerda no largo de S. Paulo, indo da rua nova do Carvalho e finda na rua da Ribeira Nova, freguesia de S. Paulo 2 a 14 e 1 a 13. [Velloso: 1869]

Praça de São Paulo (lado S.) |c. 1930|
Esquina com a Tv. de S. Paulo
Ferreira da Cunha, in Lisboa de Antigamente

No meio da Praça está um pequeno chafariz mandado fazer pela Camara Municipal e concluído no ano de 1849. A igreja (arq-º Remígio Abreu) tem na fachada as imagens de S. Pedro e S. Paulo feitas pelo insigne escultor António Machado. 

Rua e Praça de São Paulo (lado S.) |c. 1911|
Igreja de São Paulo
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Sunday, 3 March 2024

Profissões de Antanho: vendedores de melancias

 — Quem a quer da  várzea, melancia á faca!

Era assim o pregão saloio, que os saloios sempre ganharam a vida com a barriga de Lisboa — recorda Calderon Dinis. Escarafunchando a terra magnífica que Deus lhes deu, sabiamente a têm aproveitado tirando partido de tudo o que ela lhes dá. Sempre assim foi e noutros tempos eram eles mesmo que, de rua em rua, apregoavam e vendiam as suas couves e alfaces, como as favas e as ervilhas.
Com a saborosa melancia vermelha e fresca que era uma beleza, os saloios corriam meia Lisboa com as suas carroças, a malta a comprar e eles mesmo a parti-las em grossas talhadas, refrescando-se os lisboetas nas tardes quentes, que aquilo foi sempre fruto de Verão.
Estamos a lembrar-nos que, no largo de Cacilhas, onde hoje é parque e estação de autocarros, se fazia o grande mercado da melancia, amontoadas em pirâmides, tal era a quantidade do magnífico fruto!

Vendedeira de melancias no cais da Ribeira Nova |1912|
As saborosas e frescas talhadas.
J
oshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Vem das várzeas nos grandes catraios — lê-se na Illustração portugueza, 1910 —, nos barcos d'agua à riba e nos cais, da Ribeira Velha a Belém, é ver os homens atirando-as com metódica precisão, dos botes para terra como grandes bolas num torneio. Raramente uma cai para gaudio, regalo e refresco da garotada que d'olho alerta espera sempre ganhar alguma coisa nos espectáculos que presenceia.
Neste tempo a melancia, nascida nas Várzeas de Alcochete e Ribatejo além, bem regada e linda na sua cama de folhas largas é manjar de todas as mesas; cai na cidade como um chuveiro de balas: expõe-se nas portas dos estabelecimentos frutas onde os ricos vão e aparece aos montões nos mercados. As portas das vendas e dos pequenos Jugares lá estão duas ou três; nas mercearias mostram-se com a designação do preço por quilo como se em vez daquela casca verdenegra, que tanas promessas de frescura contem, tivessem os exteriores vermelhos de queijos flamengos.
Mas onde ela tem todo o seu carácter, onde aparece como o anuncio de um grande consolo é na cidade, para os que a não deixam; anunciada no pregão cantarolado:

 — Quem a quer da várzea, melancia á faca!

Profissões de Antanho: descarga melancias no cais da Ribeira Nova |1912|
Uma melancia a voar do barco para o cais.
J
oshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

O pregão atroa Lisboa por este tempo de calor ardente e as mulheres com as suas gigas a cabeça, tostadas pela soalheira, vão vendendo a mais fresca das frutas, a melancia de coração rubro, que é um alarme e é uma delicia.

 — Quem a quer da várzea, melancia á faca!
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Bibliografia
DINIS, Calderon, Tipos e factos da Lisboa do meu tempo: 1970-1974, 1986.
Illustração portugueza, 1910.

Sunday, 25 February 2024

Hotel Central

Estamos de volta ao velhinho Sitio dos Remolares, e ao afamado Hotel Central, desta vez na companhia de Marina T. Dias e de Eça de Queiroz.  Delineada pelos engenheiros do Marquês de Pombal, a futura Praça do Duque da Terceira permaneceu quase deserta até ao início do século XIX, constituindo então apenas parte dos vastos areais que delimitavam sul de Lisboa. Mesmo após a construção dos primeiros quarteirões a nascente e a poente, o rio chegava até ao extremo sul do largo, formando uma pequena praia no local onde mais tarde seria construída a estação de caminho de ferro da linha de Cascais. Contígua à praia, a Praça dos Remolares tinha já sido ampliada pelas obras de construção do Aterro, mantendo na tradição oral o nome do antigo cais: Sodré.
Falar do Cais do Sodré é também falar da Lisboa queirosiana — e do seu Hotel Central, Eça refere-o em Os Maias, A Capital, O Primo Basílio e A Correspondência de Fradique Mendes. A primeira hospedaria que ocupou o quarteirão com os números 20-27 do Largo (antigos números 3 a 11) chamava-se Estrella Branca (c. 1835). Em 1838 fora já trespassada à francesa Madame Lenglet que lhe deu o título de Hotel de France

(Grand) Hotel Central |c. 1875|
A oitocentista praça dos Remolares ainda sem a estátua do Duque da Terceira (1877) vendo-se ao fundo a primeira ponte de acesso aos barcos; no local onde se vê um candeeiro existiu, até 1874, um relógio de sol, conhecido por Meridiana dos Remolares. 
Rua Bernardino Costa antiga do Corpo Santo; à esq. nota-se a embocadura da Rua do Alecrim com o Alfaiate Rego (Rego Tailor) no gaveto leste.
J.. Laurent, in Lisboa de Antigamente

Sobre o rio, a tarde morria numa paz elísia. O peristilo do Hotel Central alargava-se, claro ainda. Um preto grisalho vinha, com uma cadelinha no colo. Uma mulher passava, alta, com uma carnação ebúrnea, bela como uma deusa, num casaco de veludo branco de Génova. O Craft dizia ao seu lado: Très chic. E ele sorria, no encanto que lhe davam estas imagens, tomando o relevo, a linha ondeante, e a coloração de coisas vivas.
(Eça de Queiroz, ln Os Maias, 1888)

Com uma sólida fama e um excelente serviço de mesa, o hotel recebeu hóspedes ilustres, entre eles o compositor Franz Liszt, na temporada de 1844-1845. Novamente trespassado (c. 1855), transforma-se no Hotel Central, supra-sumo da possível opulência lisboeta, com as suas ceias elegantes e as suas belas janelas então viradas para o Tejo.
O Central foi,  na Lisboa da segunda metade de Oitocentos, aquilo que o Avenida Palace viria a ser na Belle-Époque, ou o Aviz no tempo da Segunda Grande Guerra. Recebeu reis e diplomatas famosos, figuras mundanas e celebridades do universo das artes. Foi também num dos seus quartos que o próprio Eça de Queiroz terá pedido ao conde de Resende a mão da irmã deste, Emília de Castro Pamplona, sua futura mulher. O episódio é narrado por Luís Pastor de Macedo. 

Hotel Central |c. 1904|
Praça Duque da Terceira: Cais do Sodré. Ao fundo observa-se o extinto Arsenal de Marinha que deu lugar à Av. Ribeira das Naus.
Postal ilustrado, edição da Casa Gonçalves, in Lisboa de Antigamente
Hotel Central, depois das adaptações sofridas por volta de 1920 |c. 1936|
Praça Duque da Terceira
No gaveto norte deste edifício estiveram vários botequins célebres. À O primeiro foi o «jacobino» Café do Grego; o último foi o Café Londres, encerrado em 1935.
Mário Novais, in Lisboa de Antigamente

«Numa das suas vindas a Portugal, informado que o conde, vindo do Porto, se hospedara em Lisboa no Hotel Central, e apreciando em extremo a convivência daquele seu grande amigo, [Eça] mandou também as suas malas para o mesmo hotel e ali ficou durante largos dias.
Certa manhã, quando [...] se encontrava no quarto do seu amigo, justamente na ocasião em que este, de cara ensaboada, se dispunha, com a navalha na mão, a barbear-se, o criado, pedindo licença, entrou e entregou uma carta que viera pelo correio. 
   — Vê lá, menino, o que aí vem -—- diz o conde a Eça de Queiroz.
   — É uma cartada tua irmã.
   — Faze favor, abre-a e vê o que diz essa teimosa.
   O grande escritor obedeceu e ao terminar a sua leitura, depois de a dobrar vagarosamente, diz a Rezende:
   — Peço-te mão de tua irmão».
(Luís Pastor de Macedo notas em A Ribeira de Lisboa por Júlio de Castilho, vol. 4)

Hotel Central, depois das adaptações sofridas por volta de 1920 |c. 1936|
Praça Duque da Terceira; Cais do Sodré
Mário Novais, in Lisboa de Antigamente

O Hotel Central encerrou em 1919, após um breve período de crise económica, distantes que iam já os hábitos de convívio da Lisboa queirosiana. A Sociedade Estoril, nova arrendatária, mandou então proceder a obras de vulto na fachada e interiores do edifício, cujas características gerais pouco têm agora a ver com a da casa que albergou Eça, Ramalho ou Guerra Junqueiro. O próprio Cais do Sodré sofrera enormes alterações ao longo do meio século de existência do Hotel Central. Por volta de 1880 a praia chegava ainda sé ao larguinho posteriormente ajardinado (Jardim Rogue Gameiro, plantado entre 1912 e 1915), e alguns quartos do Central estavam, como era uso dizer-se, «sobre o no». Perderam esse privilégio em 1907, vendo erguer-se-lhes à frente o edifício da Administração do Porto de Lisboa (onde está o célebre relógio com a «Hora Legal»). O terreno era tão incerto (basicamente areia da praia, movimentada pelas marés) que foi necessário fazer assentar todas as paredes desse prédio sobre estacaria. Ao centro da praça esteve, até 1874,um relógio de sol muito célebre e muito troçado: a «Meridiana dos Remolares», apeada para que desse lugar ao monumento em homenagem ao Duque da Terceira.

Hotel Central, depois das adaptações sofridas por volta de 1920 |c. 1936|
Fachada S. sobre o Cais do Sodré e Travessa do Corpo Santo; Praça Duque da Terceira.
Mário Novais, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
MARINA, Tavares Dias, Lisboa Desaparecida, vol. 6, pp. 179-184, 1989.

Sunday, 14 January 2024

Avenida Vinte e Quatro de Julho: velhas inundações, novíssimo Mercado

O novo Mercado da Avenida 24 de Julho ou Mercado da Ribeira Nova, como também ficou conhecido, foi projectado pelo engº Ressano Garcia. Tinha 10 mil metros quadrados de área coberta e foi inaugurado em 1 de Janeiro de 1882. Em 1893 foi parcialmente destruído por um incêndio e acabou por ser demolido em 1926.
A reconstrução, ficou a cargo do arqº João Piloto e ficou concluída em 1930, com a instalação da cúpula com um lanternim.
Os lisboetas ficaram tão espantados ao verem uma cúpula num mercado decorado com frescos com motivos hortícolas pintados pelo italiano Gabriel Constanti que lhe chamavam a «Mesquita do Nabo».

Avenida Vinte e Quatro de Julho |1929-12-05|
Antiga Rua 24 de Julho e antes Aterro da Boavist
a
|Praça Dom Luís I; Mercado da Ribeira
.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente
Avenida Vinte e Quatro de Julho |1932-12-09|
Antiga Rua 24 de Julho e antes Aterro da Boavist
a
Mercado da Ribeira em fase final de construç
ão.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Na sessão da C.M.L. de 10/02/1862 foi apresentada uma proposta no sentido de que no Aterro da Boavista no terreno confinante, pelo norte com a Casa da Moeda, pelo sul com o Tejo, pelo nascente com o Forte de São Paulo e pelo poente com a Rua 24 de Julho, se formasse uma Praça e que a mesma tivesse a denominação de Praça Dom Luís I. O topónimo Praça de Dom Luís I foi atribuído pela Câmara Municipal de Lisboa após Deliberação Camarária de 10/02/1862.
A Comissão Consultiva Municipal de Toponímia, na sua reunião de 19/01/1950, propôs alterar os nomes da Praça Dom Luís I e da Rua Dom Luís I, para Praça e Rua Marquês de Sá da Bandeira, em virtude de existir na praça um monumento ao ilustre fidalgo. Esta alteração nunca se efectivou e o marquês foi homenageado na toponímia, mas nas freguesias de Nossa Senhora de Fátima e São Sebastião da Pedreira.

Avenida Vinte e Quatro de Julho |1932-09-21|
Antiga Rua 24 de Julho e antes Aterro da Boavist
a
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente
Avenida Vinte e Quatro de Julho |1929-12-05|
Antiga Rua 24 de Julho e antes Aterro da Boavist
a
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Sunday, 4 December 2022

Praça de São Paulo

Segundo o olisipógrafo Norberto de Araújo, o sítio de São Paulo «Foi de seu princípio ribeirinho, sítio mercadejador, piedoso e turbulento. É coevo do Cata-que-farás e dos Remolares, vizinho actual da Ribeira Nova. [...] Remonta ao quinhentismo, extramuros. Em 1550 não contava como freguesia; existia como formigueiro de mareantes. [...]


Em 1742 começa a designação de Bairro dos Remolares, e nele estão S. Paulo e Mártires; em 1820 subsiste o bairro dos Remolares com a freguesia de S . Paulo. E faz agora [em 1939] aproximadamente um século que S. Paulo pertencia ao bairro do Rossio, para em 1852 pertencer a Alcântara.

Praça de São Paulo, poente [entre 1901 e 1910]
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

As voltas que a divisão administrativa dá! Finalmente, em 1867, é freguesia civil independente, com três paróquias eclesiásticas: S. Paulo, Mercês e Santa Catarina, para em 1885 deixar de ser a sede civil, que passou para Santa Catarina. Hoje é a freguesia civil do Marquês de Pombal [actualmente pertence à freg. da Misericórdia], qualificação post-República, por ter sido o Marquês quem reconstruiu o bairro, e nele foi importante senhorio. [Araújo; XIII, 1939]

Praça de São Paulo, sul [1935-03-13]
Chafariz de São Paulo
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente 

Sunday, 28 August 2022

Praça do Príncipe Real: a Patriarcal e a Praça do Rio de Janeiro

Estamos numa das praças mais lindas, e mais «alfacinhas» de Lisboa  — a Praça do Rio de Janeiro [e de novo, desde 1948, do Príncipe Real]. Deves ter no ouvido algumas das designações deste largo terreiro  e eu, — diz Norberto de Araújo —  sempre por curiosidade, tas relembro pela ordem das idades: «Chãos da Ferrôa» no século XVI, a mais antiga que se lhe conhece; «Alto da Cotovia», denominação que perdurou mesmo através de outros dísticos posteriores, municipais e populares; sítio das «Casas do Conde de Tarouca», cerca de 1755; «Patriarcal Queimada», depois de 1769; sítio das «Obras do Erário Novo», em 1810-1815; «Praça do Príncipe Real», em 1855; «Praça do Rio de Janeiro» depois de 1911.

Em boa verdade esta Praça é das mais modernas da capital, no seu aspecto urbano e paisagista; data assim de 1879. A sua regularidade é contudo notável, e respira um ar sadio, gozando desafogo, uma relativa tranquilidade, e oferecendo curiosos aspectos: pousio de «reformados» à sombra do velho cedro copado, com sessenta anos idade, brinco de crianças, jardim «de estar» dos nostálgicos e desocupados inocentes.
Pois, Dilecto, sentemo-nos também à sombra do cedro, ouvindo cantar o repuxo do lago, que mal se distingue no murmúrio afogado do conjunto entre o espesso arvoredo que tem resistido às devastações do tempo.

Praça do Príncipe Real |1940|
Antiga Praça do Rio de Janeiro
A praça foi traçada em 1853 e o jardim, plantado em 1869, projecto do jardineiro João Francisco da Silva. Em termos urbanísticos é um exemplo do Romantismo das últimas décadas do século XIX.
«O Príncipe Real é um largo deliciosamente arborizado. Do seu harmonioso conjunto, destacam-se o majestoso cedro, considerado de interesse público, a deliciosa araucária e os formosos ulmeiros, também como tal distinguidos e as decorativas palmeiras. A «araucária columnaris» (araucária colunar — Nova Caledónia), de aspecto altaneiro e delgado, forma com o corpulento «cupressus», uma estranha parelha, que aos espirituosos frequentadores do recinto não passou despercebida, e por isso atribuem esse local de recreio o dito popular de Jardim do Bucha e do Estica». [Lisboa em quatro horas e Lisboa em quatro dias, 1895]
Judah Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Um pouco antes de 1755, neste alto cômoro da Cotovia, sobranceiro sobre a ponta do Salitre e portas de Valverde — mais largo para norte do que é hoje [em 1938], depois de urbanizado — existia apenas o Palácio dos Penalvas, à esquina das actuais Escadinhas da Mãe d'Água, e ao fundo do curto Arco do Evaristo. No centro da actual Praça andava o Conde de Tarouca construindo um Palácio, e ao local, por isso, chamava o povo «Casas do Conde de Tarouca», e o povo crisma a seu bel-prazer os sítios e as coisas, de modo que as denominações acabam por entrar na linguagem oficial e, quando as Câmaras as alteram ou corrompem, levam lustros, levam até séculos a apagar-se.
O Terramoto abalou inteiramente o edifício Tarouca soerguido, resignando-se o fidalgo no infortúnio, e compondo versos sobre os destroços.
Como a Patriarcal, que estava assente na Capela Real do Paço da Ribeira, tivesse ardido no dia do horroroso cataclismo, deliberou-se, após hesitações, transferir a Basílica para os restos, de pé, do palácio Tarouca, na «Cotovia»; a bênção foi dada em 26 de Junho de 1756, e logo nesse ano se realizou uma procissão, depois repetida, que deu o nome à Rua da «Procissão» (desde há poucos anos denominada de «Cecílio de Sousa»). 

Praça do Príncipe Real |c. 1869|
Lago octogonal com repuxo; ao fundo notam-se as torres e zimbório da Basílica da Estrela. 
Ао repuxo dedicou Júlio de Castilho um hino de ternura, mais próprio de poeta, como o Mestre se mostrava muitas vezes: «Quando ele arroja, metros ao alto, as suas pérolas fluídas, decompondo a luz, sussurrando frescura, e espadanando-se todo vaidoso no azul da atmosfera, está, muito de industria, repassando as águas nos gazes aéreos que as vivificam e as tornam potáveis; pensa em nós; prepara para nós a melhor das bebidas; colabora na higiene da Cidade. Aquele tanque é um sábio: reconhece as leis da física; sabe que os líquidos, vindo de longe, impregnando-se do calcário dos canos, e morando lá em baixo às escuras, se tornam pesados; quer aligeirá-los , banhá-los de sol e de oxigénio. Aquele tanque é um poeta utilitário: mistura habilmente o Belo e o Bom. Olhemos pois com gratidão para esse pequenino Oceano de puríssimas linfas, que abastecem as cozinhas, e amanhã brilharão aos poucos nas nossas taças de cristal. [Lisboa Antiga: 1904]
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

E a Igreja [armada em madeira] foi-se construindo, no edifício adaptado; era imponente: três naves, largo cruzeiro, quinze capelas, um zimbório oitavado, e anexos esplêndidos. Treze anos perdurou: a Patriarcal foi devastada por um terrível incêndio em 10 de Maio de 1769, obra criminosa de um empregado da Igreja, que pelo fogo queria ocultar seus sacrílegos roubos; foi justiçado, depois de lhe cortarem as mãos no próprio local onde os escombros fumegavam ainda. E aí está a origem da designação de «Patriarcal Queimada».[...]
As ruínas e montes de pedregulho ficaram por aqui durante dezenas de anos, ninho de valhacoutos. Em 1807 pensou-se em levantar no sítio o novo Erário Régio, a casa do Tesouro (pois ardera o do Rossio) mas o projecto, que era do Visconde de Vila Nova da Cerveira, não teve seguimento, embora se chegasse a começar a obra, e nela se gastassem alguns milhões de cruzados.
Em 1841 ainda o sítio continuava a ser vazadouro público e albergue de patifes. Só em 1856 se começou a terraplanar o local, que pouco depois recebeu iluminação. Já chamada «Praça do Príncipe Real», em 1859, começou então a estudar-se o seu aformoseamento, com a construção dum lago, por acordo entre a Câmara e a Companhia das Águas; os restos da «Patriarcal Queimada» foram então destruídos a tiros de pólvora.

Praça do Príncipe Real |1945|
Antiga Praça do Rio de Janeiro
 Localizado no subsolo da Praça, existe o Reservatório da Patriarcalprojectado em 1856 pelo eng. francês Mary. Construído entre 1860 e 1864 para servir a rede de distribuição de água da zona baixa da cidade. 
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente
Praça do Príncipe Real |1945|
Antiga Praça do Rio de Janeiro
 No centro da praça está o monumento-memória a França Borges, o jornalista fundador de «O Mundo», foi erigido em 1924; é obra de Maximiano Alves; à dir. observa-se destaca-se o Cedro-do-Buçaço, árvore secular com mais de 20 metros de diâmetro.
Ferreira da Cunha, in Lisboa de Antigamente

Em 1864 regularizou-se a disposição da Praça, tornando-a quadrada, e alinhando algumas edificações que entretanto se tinham erguido, o que tudo se concluiu em 1863. Construiu-se então a muralha sobre a Rua da Procissão e plantou-se este magnífico jardim, que estamos contemplando.
O «Príncipe Real» começou a existir, pequeno parque e logradoiro, com a sua ingenuidade, o seu repuxo e a sua «memória esquecida» de anteriores desgraças. E assim até hoje…==

Muralha da Praça do Príncipe Real sobre a Rua Cecílio de Sousa, antiga da Procissão |1960|
Terraço, com varanda, assente sobre muralha, que se ergueu em substituição da velha ribanceira, que por longos tempos existiu. Esta obra faz parte do arranjo geral da praça, foi concluída em 1864 e custou 3.208$400 réis. Numa lápida elucidativa, lê-se: «A Câmara Municipal mandou construir no ano de 1863». Por dois caminhos laterais, conduz à Rua da Procissão, que começou por chamar-se do Corpo de Deus e Cotovia ou simplesmente do Corpo de Deus. É hoje Cecílio de Sousa (desde 1926) a rua onde morou em 1869 o paciente bibliófilo Inocêncio Francisco da Silva, e se chamou desde 1756, ano em que, da nova Basílica Patriarcal, já implantada nas «Casas do Conde de Tarouca», saiu o grande cortejo religioso comemorativo do solene dia do Corpo de Deus.
Armando Serôdio,, in Lisboa de Antigamente

N.B. A Praça tem este nome em homenagem ao filho primogénito da Rainha D. Maria II, o futuro rei D. Pedro V — nasceu no Palácio das Necessidades, a 16 de Setembro de 1837, recebendo o nome de Pedro de Alcântara Maria Fernando Miguel Rafael Gonzaga Xavier João António Leopoldo Vítor Francisco de Assis Júlio Amélio; morrendo no mesmo local, a 11 de Novembro de 1861.
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Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. V, pp. 65-68, 1938.

Friday, 26 August 2022

Varinas na Ribeira Nova

Poucas horas depois começam as varinas a aparecer, os pés descalços, as pernas nuas, roxas de frio, apregoando o carapau, a pescada marmota, a «salpicadinha da costa».
Que bellos corpos de varinas, alguns! E tão mal tratados pela intempérie, ao passo que outros muitos, bem menos esculpturaes por certo, dormem ainda afofados em brandos colchões de sumaúma...
(PIMENTEL, Alberto, Vida de Lisboa, p. 53, 1900)

Varinas na Ribeira Nova (Cais do Sodré) |1928|
...os pés descalços, as pernas nuas, roxas de frio...
Estúdio Mário Novais, in Lisboa de Antigamente

Sunday, 17 July 2022

Atêrro da Bôa-Vista

Remolares, Cata-que-farás, Ribeira Nova, S. Paulo, Boa Vista, foram tudo praias ribeirinhas que acabaram por dar - na conquista do rio - o que principiou por se chamar genericamente o Aterro, designação extensiva que depois se formalizou em Avenida 24 de Julho». (Araújo: 1993)


Despediu-se da senhora Marquesa e dos netos, pôs o chapéu na cabeça e desceu a escada, irresoluto na direcção a dar à passeata. Ainda bem longe de decidido, chegou à porta na ocasião em que, puxado por muitas mulas, começava um americano a subir vagarosamente a rampa de Santos. Saiu o Marquês para a rua. Foi logo muito cumprimentado pelos cocheiros e moços do Pingalho, que no fronteiro pátio do Visconde de Asseca tinha carruagens de aluguer. Correspondeu civilmente à cortesia e, tomando à esquerda, dirigiu-se para o Atêrro, pensando que ainda havia gente bem criada e que o dia realmente estava muito ameno. Avista o americano; veio-lhe logo à ideia um passeio de carro. Era barato, e não fazia frio mesmo nenhum.
— Para onde irá êle?... .Ah! lá parou... j Olha! vai para Belêm...
Apeiam-se umas senhoras; tenho lugar.
(Braamcamp Freire: 1927)

Atêrro da Bôa Vista |c. 1895|
Actual Av. 24 de Julho, antiga Rua 24 de Julho: Rampa de Santos, actual Calçada Ribeiro Santos e Palácio Abrantes (dir.); carro americano.
Francesco Rocchini, in Lisboa de Antigamente

Informa o autor das Peregrinações que se pode datar o Atêrro, com o possível rigor, a 1867, tendo-se as obras iniciado em 1858. A designação de Rua 24 de Julho é anterior à conclusão do Atêrro e o topónimo "24 de Julho" evoca a entrada em Lisboa das tropas do Duque da Terceira em 24 de Julho de 1833.

Atêrro da Bôa Vista |post. 1867 e ant. a 1872!
Actual Av. 24 de Julho, antes Rua 24 de Julho junto da Ribeira Nova.
Francesco Rocchiniin Lisboa de Antigamente

Júlio de Castilho, que se faz acompanhar do fotógrafo Francesco Rocchini [vd. imagem acima], comunica-nos que «Lisboa toda, desde 1867, se acostumara com gosto ao desafogado terreiro marginal», o «mais belo dos passeios públicos», recordando que «a sociedade concorria ali, àquele salão enorme, a ver o Tejo, que é o amigo de nós todos, e a contemplar as magnificências da grande orquestra de tons luminosos com que o sol se despedia» até que, «anos depois, abriu-se a Avenida da Liberdade; e o Aterro... nem mais sequer lembrou.»
(JANEIRO, Maria João, Lisboa: histórias e memórias, pp. 130-132)
 
Atêrro da Bôa Vista |c. 1895|
Actual Av. 24 de Julho, antes Rua 24 de Julho; carros americanos.
Fotógrafo não identificadoin Lisboa de Antigamente

Sunday, 10 October 2021

Palácio ou Paço das Necessidades

O Palácio ou Paço das Necessidades, com seus corpos de edifícios na parte Norte, e com sua fachada elegante e discreta, e da qual olhando o Tejo, avança a frontaria da Igreja, é, Dilecto, como observas, de um conjunto gracioso, e, como expressão arquitectónica, muito equilibrado.


Dilecto: o Palácio das Necessidades, como o de Belém constitui uma página viva da história política e realenga dos últimos cem anos. Escuso de te reavivar a memória. Não é indiferentemente que nos quedamos a olhar a sua fachada. Glórias e tragédias, alegrias e dores, confiança e certeza, fausto e penumbra — passaram por ele.
Não temos que o olhar com saudade, mas com um certo respeito comovido: não será do seu tempo aquele que for insensível às cousas do passado.

Palácio das Necessidades, pórtico da Capela, vendo-se o pináculo de Torre |c. 1900|
Largo das Necessidades
A Frontaria, sobre o Largo das Necessidades, em três corpos de edifício,  contínuos, adornados de vinte e quatro janelas de sacada, coroadas de ática; e  nela, como parte integrante, a frontaria da Capela.
Fotógrafo não identificadoin Lisboa de Antigamente

Deve-se a D. João V o Paço das Necessidades, hoje Palácio Nacional, e sede do Ministério dos Negócios Estrangeiros. Desde 1607 que existia neste sitio do Alto de Alcântara uma ermidinha da invocação de N.ª Senhora das Necessidades, cuja irmandade foi constituída por marítimos da carreira da Índia. Meio século depois (1659) Pedro Castilho, servidor de D. João IV, comprou umas casas contiguas à Ermida, ampliando o piedoso sacelo [pequeno templo ou santuário] das Necessidades; no meado do século XVIII a Ermida e um largo prazo de terreno da Lapa (ou Cova) da Moura e da Ribeira de Alcântara pertenciam a um descendente daquele Pedro Castilho, Gaspar (ou Baltasar) Pereira Lago de Castilho. Foi a este que o Rei D. João V, que atribuiu a intercessão da Senhora das Necessidades à cura de uma grave doença (1742), comprou terrenos e casas com o tríplice objectivo de erguer uma nova igreja condigna, de edificar um paço real e de construir uma grande casa para os padres da Congregação do Oratório. O arquitecto Caetano Tomás de Sousa traçou o projecto, ficando a Igreja de N.ª Senhora das Necessidades integrada no Paço, e este contiguo ao convento e à sua larga quinta. As obras principiaram logo em 1748 e estariam concluídas em 1750.

Palácio das Necessidades |post. 1910|
Largo das Necessidades
O p6rtico da Capela, aberto por três arcos laterais entre quatro colunas, e por dois arcos laterais, e, nele, um vestíbulo ou galilé.
Paulo Guedes, in Lisboa de Antigamente
Palácio das Necessidades |1908|
Largo das Necessidades
A Guarda no Palácio das Necessidades após o Regicídio.
Alberto Carlos Limain Lisboa de Antigamente

O irmão de D. João V, infante D. Manuel, aventureiro militar da Europa, dado camo pretendente ao trono da Polónia, e que regressara à Pátria em 1784, foi o primeiro morador do novo Paço, ainda que por pouco tempo, e depois o seu irmão D. António. Até D. Maria, porém, os soberanos não residiram senão eventualmente nas Necessidades, servindo este Paço para hospedar príncipes estrangeiros (o príncipe de Gales, depois Jorge I V, por exemplo, e seus irmãos) ou algum infante da Casa de Bragança. D. Maria II é que fez das Necessidades residência habitual, assim como D. Pedro V e D. Estefânia (que nele morreram), D. Manuel II, que no Paço residia quando da revolução de 8 de Outubro de 1910.
Proclamada a República, o Palácio das Necessidades, como outros paços reais, entrou no património da Nação; esteve alguns anos encerrado até que em 1916 para ele se transferiu da ala Nascente da Praça do Comércio o Ministério dos Negócios Estrangeiros.

Palácio das Necessidades |c. 1870|
Largo das Necessidades
A varanda superior da Capela, e nela, as estátuas de S. Felipe Nery e de S. Francisco de Şales, obra de Alexandre Giusti, e ainda a estátua de S. Pedro, a um lado da porta, do mesmo escultor italiano, e a de S. Paulo, do outro lado, trabalho do escultor português António de Almeida.
Francesco Rocchini, 
in Lisboa de Antigamente

Interiormente, nas salas e mesmo nos pátios, foi, em várias épocas, o Palácio beneficiado, restaurado e transformado, nomeadamente em 1836 quando do casamento de D. Maria II com D. Fernando, cujas iniciais subsistiam entrelaçadas em muitos motivos decorativos, e em 1886 quando do casamento de D. Carlos com D. Maria Amélia de Orleans. Pode afirmar-se, porém, que a estrutura do Palácio é a original, pois o Terremoto de 1755 nenhuns danos lhe causou. De 1910 até à data variaram, porém, quási totalmente, as utilizações das salas e câmaras, adaptadas a repartições e gabinetes, sendo o recheio substituído e realizadas algumas transformações decorativas. A capela não tem culto desde 1910 e muitas das suas alfaias e imagens encontram-se no Palácio da Ajuda, em depósito. A antiga «Casa Forte das Necessidades» onde se guardava o «Tesouro», está vazia, havendo sido transferidas as suas preciosidades de ourivesaria para o Museu de Arte Antiga.

Fotografia aérea da zona de Alcântara, vendo-se na esquerda alta, o Palácio e a Tapada das Necessidades |1971|
Armando Serôdio, in Lisboa de Antigamente

Do antigo Convento da Congregação do Oratório apenas restam silhares de azulejos. Quanto ao Palácio, cujo recheio quási inteiramente desapareceu daqui para outros palácios nacionais, conserva ainda o seu ar palaciano, um certo ambiente austero de beleza fria, e salas que mal fazem lembrar a opulência antiga.
Nota, Dilecto, a torre da antiga Igreja, recuada à esquerda da frontaria do edifício. Parece uma sentinela de Nossa Senhora das Necessidades.
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Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Inventário de Lisboa: Paços e  palácios nacionais, 1946.
idem, Peregrinações em Lisboa, vol. IX, p. 18-19, 1939.
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