Friday, 21 July 2017

Cais do Sodré: Padrão da Hora Legal, edifício da Administração Geral do Porto de Lisboa

As designações «Cais do Sodré» e «Praça dos Remolares» foram comuns durante muito tempo, antes de se erguer a Estátua do Duque de Terceira, em 1877. Conhecida por «Remolares», por «ter havido em eras passadas lugares designados para os trabalhadores carpinteiros de remos, denominados remoladores» [1], esta área ribeirinha foi — e ainda hoje o é — de semblante muito marítimo.

Cais do Sodré [1939]
Ao centro, o edifício da Administração Geral do Porto de Lisboa e o  Posto do Relógio Padrão da Hora Legal
Eduardo Portugal, in AML

A Praça tem, como diz o autor das Peregrinações «um "tic" especial — único em Lisboa — marítimo e comercial, com a sua frequência parada de embarcadiços, homens do mar, arrais em descanso, capitães de bordo, e com a presença de escritórios, tabuletas longas, ao tipo das praças nas cidades portos de mar.». 
«Há sessenta anosconta Norberto de Araújo em 1939 o mar chegava sensivelmente aonde corre a linha do eléctrico; o edifício da esquina, da Administração Geral do Porto de Lisboa — onde está o relógio reguladorfoi construído entre 1906 e 1907, e houve de o assentar sobre estacaria.» [2]

Cais do Sodré [1913]
Edifício da Administração Geral do Porto de Lisboa construído entre 1906 e 1907
Joshua Benoliel, in AML

O Dec. Lei nº 1469, de 30 de Março de 1915, regulamenta o Serviço da Hora Legal «relativo ao novo relójio público (no Cais do Sodré) e outros meios de difusão da hora». Diz no seu ponto 1.º (primeiro): “Ao Observatório Astronómico de Lisboa compete enviar constantemente os sinais para a regulação do relójio público…“. Com o fim de emitir a Hora Legal para a cidade e, especialmente, para os navios ancorados no Tejo, foi construída em 1914 uma guarita na zona do Cais do Sodré, equipada de relógio mecânico ligado directamente por cabo eléctrico ao Observatório Astronómico de Lisboa (OAL), situado na Tapada da Ajuda. Da guarita partia um sistema semafórico, ao longo da costa, até Belém, para indicação luminosa da Hora a quem estava ancorado no rio.
A guarita do Cais do Sodré exibiu, até 2008, o título de «Hora Legal». No entanto, o Observatório pediu que esta designação fosse retirada, pois o relógio nunca tinha funcionado em condições. O local está sujeito a grandes amplitudes térmicas e nem a pala que foi acrescentada à estrutura impediu que o mecanismo sofresse com isso. Por outro lado, as trepidações cada vez mais fortes, fruto da passagem do trânsito rodoviário, também afectavam a marcha do mecanismo.

Cais do Sodré [1914]
Posto do Relógio Padrão da Hora Legal e o edifício da Administração Geral do Porto de Lisboa
Joshua Benoliel, in AML

Em 2009, a guarita do Cais do Sodré passou a estar equipada com um relógio de quartzo vulgar que está ligado em rede aos servidores da Hora Legal através de um sistema NTP (Network Time Protocol). O relógio do Cais do Sodré recebe sistematicamente a Hora Legal e processa um ajuste automático da hora interna, garantindo, assim, a sua exactidão. Esta interface tem um relógio electrónico próprio, com uma unidade de energia eléctrica independente. Deste modo, se houver um corte de energia na zona, os ponteiros param, mas reposicionam-se na hora correcta assim que seja restabelecido o fornecimento de energia. A única desvantagem é que o aparelho não tem ponteiros dos segundos. Se quiser acertar o seu relógio, terá que esperar atentamente pelo movimento do ponteiro dos minutos. [3]

Bibliografia
[1]
VIDAL, Angelina, Lisboa antiga e Lisboa moderna, p. 123-124
[2] ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIII, pp. 39-40
[3] História da Hora Legal, Observatório Astronómico de Lisboa

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