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Sunday, 29 March 2026

A Kermesse de Paris no Avenida Palace Hotel

No Largo D. João da Câmara — antigo de Camões — cujo nome se refere, não ao poeta dos Lusíadas, mas ao dr .Caetano José da Silva Souto Maior, o Camões, corregedor do bairro do Rossio no reinado de D. João V (séc.. XVIII), destacam-se a Estação do Rossio (1890) e o o Avenida Palace Hotel (1892), elegante construção em estilo francês, ambas do risco do arquitecto José Luiz Monteiro e com uma «passagem» entre eles.

A Kermesse de Paris, considerada durante muitos anos a melhor e mais cara loja de brinquedos de Lisboa, foi fundada nos finais do século XIX por Thomaz J. Sá Dias. A loja sita na então Rua do Principie — depois 1º de Dezembro (1911) — estabeleceu-se no piso térreo do recém-inaugurado edifício do Hotel Avenida Palace.

Hotel Avenida Palace |c. 194-|
Praça D. João da Câmara, Estação do Rossio e Rua 1.º de Dezembro
Inaugurado em 1892 com o nome de Grande Hotel Internacional, só no ano seguinte se passou a chamar Avenida Palace Hotel.
Estúdio Mário Novais, in Lisboa de Antigamente

Algumas lojas imprescindíveis da minha infância, todas de brinquedos, eram a Biaggio Flora, na Rua Áurea, a Panchito na Av. Guerra Junqueiro, o Bazar do Parque, Arcadas do Estoril, o Pinóquio, nos Restauradores, que, no Natal, tinha um Pai Natal à porta com um cavalinho de peluche que se podia montar e tirar fotografias, e a Kermesse de Paris, que ficava na base do edifício do Hotel Avenida Palace, entre os Restauradores e o Teatro Nacional D. Maria II, com uma selecção incrível de marionetas. [Memória de uma Epifania e outras histórias, Maria João Vaz, 2023]

 

Kermesse de Paris |1912|
Praça D. João da Câmara
A loja de brinquedos funcionava nas arcadas do piso térreo do Avenida Palace Hotel.
Estúdio Mário Novais, in Lisboa de Antigamente

N.B. Por Edital municipal de 7 de agosto de 1911 a Rua do Príncipe e Largo da Rua do Príncipe passaram a denominar-se Rua Primeiro Dezembro, a data da Restauração em 1640.
Quanto ao Largo D. João da Câmara, até 1924, era o Largo de Camões, já assim denominado em 1858 no Atlas da Carta Topográfica de Lisboa de Filipe Folque.

Hotel Avenida Palace |1961|
Grupo de turistas junto à entrada S. do Hotel Avenida Palace e à Kermesse de Paris.
Garcia Nunes, in Lisboa de Antigamente

Friday, 20 February 2026

Rua Garrett que foi «do Chiado»

Saiamos da freguesia dos Mártires — sugere Mestre Castilho — , não sem deitar uma vista de olhos à célebre rua dos elegantes lisbonenses, ao nosso Boulevard de Gand, à nossa Regent Street, ao nosso velho e falador Chiado, hoje crismado (bem mal a propósito, quanto a mim, salvo melhor juízo) em Rua de Garrett.

Antigamente essa grande artéria, que seguia desde o convento do Espírito Santo (palácio Barcelinhos) até à frente do palácio do marquês de Marialva (praça de Luiz de Camões), tinha em cima o nome de rua das Portas de Santa Catarina, e só era Chiado para baixo da rua da Cordoaria Velha (a nossa rua de S. Francisco). Ultimamente chamava-se a tudo, em linguagem oficial, rua das Portas de Santa Catarina, mas a denominação de Chiado invadira, e dominava no uso. Os janotas da casa Havanesa estavam tanto no Chiado, como os fregueses da loja do José Alexandre. O edital do Governo Civil de Lisboa, de 1 de Setembro de 1859, incorporou nesse nome os dois nomes seguidos da mesma rua, passando a chamar-se em toda a sua extensão rua do Chiado.

Rua Garrett que foi «do Chiado» |c. 1950|
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente
Nota(s): imagem sem data; local da foto não está identificado no arquivo

Esse nome do Chiado, destronado pelo do imortal Garrett, pelo edital de 14 de Junho de 1880, também tinha os seus foros, e não muito mesquinhos; foi injustiça desconhecer-lhos. Garrett presou-se de bom companheiro em letras; ¿porque o obrigou a Câmara Municipal a ser mau companheiro depois de morto? Tenham a certeza disto: se o pudessem consultar, pediria ele que deixassem quieto no seu lugar o velho Chiado, o poeta António Ribeiro Chiado, seu predecessor, e seu colega (se bem que muito somenos, é claro) na carreira literária. [Castilho: 1879]

Rua Garrett que foi «do Chiado» |c. 193-|
O Chiado durante Quinta-feira Santa.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Sunday, 8 February 2026

Rua Augusta com a Rua da Betesga — ou como “meter o Rossio na Betesga”

O prédio que faz gaveto para o velhinho rocio e fica entre as ruas Augusta e da Betesga ocupado pela «Camisaria Confiança», e pelo Hotel Internacional, não pertence ao Rossio, mas sim às ruas Augusta e da Betesga. No antigo edifício havia há cento e cinquenta anos (c. 1880) uma tabacaria que ficou celebre por ser o poiso certo de João de Deus e de alguns dos melhores espíritos d'essa época. [Castilho: 1935]

Rua Augusta com a Rua da Betesga: cena de rua |1922-08-20|
Confluência da Praça de D. Pedro IV com as Ruas da Betesga e Augusta).
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

A «Camisaria Confiança», sucursal da Fábrica Confiança, foi fundada em 1883, com sede na Rua de Santa Catarina, Porto. Actualmente é um hotel de charme, o Internacional Design Hotel, antes «Hotel Internacional» que sucedeu a um antigo «Hotel Camões», do qual aproveitou a belíssima fachada. Este edifício foi projectado pelo arq. J. C. P. Ferreira da Costa em 1909.

Rua Augusta com a Rua da Betesga: cena de rua |1932-03-28|
Na confluência da Praça de D. Pedro IV, vulgo Rossio, com as Ruas da Betesga e Augusta (da Figura do Rei), um sinaleiro tenta orientar o trânsito numa manhã de segunda-feira soalheira, alegre, barulhenta e de gente sempre agitada. 
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente
Nota(s): o local da foto está erradamente identificado no arquivo: «Na rua da Prata, os automóveis voltando para a rua da Conceição»

N.B. No que à «Betesga (rua)» diz respeito», sem se saber ao certo quando este topónimo se fixou na memória de Lisboa, a sua origem está ligada à configuração do arruamento, pois Betesga, palavra de origem obscura, designa uma rua muito estreita, uma ruela ou viela. Por isso surgiu a expressão popular “Meter o Rossio na Rua da Betesga” – aludindo ao contraste entre a amplitude da Praça de D. Padro IV, vulgo do Rossio, e a estreiteza da Rua da Betesga.

Rua Augusta com a Rua da Betesga: cena de rua |c. 1951|
 O ângulo E. do Rossio dá passagem para a R. da Betesga, antigamente muito estreita (de onde o prolóquio meter o Rossio na Betesga), mas alargada e regularizada após 1755, e a qual, limitando ao S. a Praça da Figueira, vai ter, pelo lado E., ao Poço de Borratém.
Horácio Novais, in Lisboa de Antigamente

Wednesday, 31 December 2025

Ano Novo: a Moda em Lisboa

A moda feminina mudara radicalmente durante a Grande Guerra, perdendo os contornos ditados pelo espartilho.
Pilar da coesão social própria comunicação gestual, a roupa determinou completa a postura, o movimento e a atitude, sociabilizando o corpo. No jogo das aparências, qualquer requinte de uma toilette elegante foi, durante largos anos, mais rigoroso dos que os próprios preceitos da higiene íntima. Até à segunda metade deste século, e apesar do culto oitocentista de "mente sã em corpo são", era mais importante ostentar o último capricho da moda do que tomar banho diariamente. O gosto aristocrático e refinado podia coabitar com a falta de asseio, mas nunca com a ausência da representação social do trajo. 

Praça Dom João da Câmara que foi Largo de Camões |1921-12-29|
Elegantes da década de 20, de estola e chapéu, passeando no antigo Largo de Camões — hoje Praça D. João da Câmara — com o afamado Café Martinho e o luxuoso hotel Avenida Palace como pano de fundo.  
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

A linguagem da aparência vai até onde chegam os olhos alheios. Por isso se queixa o autor português Alfredo Gallis (1859-1910):
«Quantas, às nove da manhã, espera à janela, lindamente penteadas, o seu namorado, no entanto ainda não lavaram os pés nem tencionam levá-los?» (O Que as Noivas Devem Saber, 1910) 

N.B. Foi neste arruamento próximo do Teatro D. Maria II que a edilidade decidiu perpetuar como Praça, o nome do dramaturgo D. João da Câmara, com a legenda «Figura Gloriosa do Teatro Português, 1852–1908», embora o edital de 1924 tenha por lapso mencionado Largo e, durante décadas, se tenha mantido a duplicação de referências, ora como Largo ora como Praça.

Praça Dom João da Câmara que foi Largo de Camões |1921-12-31|
Depois de passar, provavelmente, pela Kermesse de Paris para fazer umas compras de
última hora. vamos lá preparar a passagem de ano. 
Ano Novo. Há concertos, fogos de artifício, inúmeras manifestações de alegria.
No convívio da família e  família e cumprindo tradições, também se vive a
passagem do ano, desejando saúde, dinheiro e realização
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Sunday, 28 December 2025

Cena de rua no antigo Largo de Camões

Há quem suponha que este Camões é o nosso épico Luiz de Camões. Errada suposição. João Paulo Freire — jornalista, poeta, ensaísta, novelista — esclarece o motivo das trocas e baldrocas com este topónimo:
O Camões do Rossio nada tem que ver com o Camões das Duas Igrejas [actual Praça de Luís de Camões]. Este é o épico. Aquele é apenas o seu homónimo por antonomásia — Caetano José da Silva Souto Mayor, poeta epigramático, muito espirituoso, e que foi corregedor da corte de D. João V, juiz do Crime do Bairro da Mouraria, e corregedor do Bairro do Rossio, onde morava, pois residiu sempre no prédio onde mais tarde se construiu o actual que é ocupado pela Brasileira.
(FREIRE, João Paulo, Lisboa do meu tempo e do passado, Lisboa, 1931-1939)

Praça Dom João da Câmara que foi Largo de Camões — cena de rua |1908|
Uns quantos eléctricos e carroças, um cavaleiro, os peões domingueiros e um dos raros automóveis existentes em Lisboa na época. 
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

N.B. Esta artéria, até 1924, era o Largo de Camões, já assim denominado em 1858 no Atlas da Carta Topográfica de Lisboa de Filipe Folque.

Praça Dom João da Câmara que foi Largo de Camões — cena de rua |c. 1920|
Encimando a imagem observa-se o Castelo ainda povoado por edifícios dos aquartelamentos militares.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Friday, 4 July 2025

Largo de Jesus

Foi o Largo de Jesus destinado, por edital municipal de 4 de Dezembro de 1863, para praça de venda de leite. [Castilho: 1903]

Tomando no Poço Novo [actual Lg. Dr. António de Sousa de Macedo], à esq., a travessa do Convento de Jesus, entra-se no largo de Jesus, onde se eleva a igreja do mesmo nome. O convento das Terceiras de Jesus foi fund. no séc. XVI, ficando a igr. arruinada em 1755 e sendo reconstruída pouco depois, seguido o risco do arquitecto Joaquim de Oliveira. [Guia de Portugal: 1924]

Largo de Jesus |1924-10-29|
Antigo dos Cardais; Convento de Jesus actual Igreja Paroquial das Mercês
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente
Nota(s): Legenda no arquivo: «A greve dos estudantes do liceu Passos Manuel»

Há três séculos e meio este sítio – Largo de Jesus – pouco mais era do que um deserto, com uma ou outra casa, e uma ermidinha destas muitas que se erguiam pelos subúrbios da Lisboa de D. Fernando, e que não se sabe quem as ergueu e como eram desenhadas — recorda Norberto de Araújo. [...]
No começo deste século, em terrenos que foram da antiga Cerca, elevou-se (1906), o magnífico Liceu de Passos Manuel, irmão dos de Camões e de Pedro Nunes, iniciativa de João Franco, e das mais estimáveis. [Araújo, V, 1938]

Sunday, 13 April 2025

Sítio de Alvalade: o Pequeno e o Grande

A Estr. de Jerabrigam ia, pois, ao Campo de Alvalade onde, à beira do caminho, surgiram duas povoações distintas, denominadas do Campo, sendo a maior o Campo Grande, e a menor o Campo Pequeno. Grande e Pequeno não são alusivos a campos distintos, mas a póvoas distintas em que uma era maior que a outra, e ambas no mesmo campo.

Quase todos os dicionários de Língua Portuguesa trazem o artigo «alvalade» a que dão o sentido de «campo ou pátio murado». A Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, além dessa acepção, que não sei onde se foi arranjar, dá ainda mais esta: «Estrado ou tablado erguido do chão e destinado a permitir que dele se veia (sic) solenidade ou espectáculo». Traz como abonação um passo do El-Rei Seleuco de Camões, que é, na íntegra, como segue: «Mas tornando ao que importa, vossas mercês he necessario que se cheguem hus para os outros, para darem lugar aos outros senhores que hào de vir, que doutra maneira, se todo o corro se ha de gastar em palanques, será bom mandar fazer outro alualade....» , p. 83 da admirável edição do prof. Marques Braga.¹

 

Fotografia aérea do bairro de Alvalade e jardim do Campo Grande |c. 1953|
O Campo Grande tem este topónimo fixado através da publicação do Edital municipal de 19 de Janeiro, de 1916, que assim juntou as Ruas Oriental e Ocidental num único topónimo.
Abreu Nunes, in Lisboa de Antigamente
Fotografia aérea do Campo Grande |1955|
Em 1869, durante o reinado de D. Luís I, arranca a construção do lago principal, para agradar às esposas e famílias dos amantes de cavalos. Nascem os passeios românticos de barco a remos, frequentados por nobres e realeza. 
Mário Oliveira, in Lisboa de Antigamente

Julgo que o passo é bem claro: Alvalade não quer dizer nada do que se lhe atribui na Enciclopédia! Naquelas palavras a que oferece tal acepção é palanque. Camões pretendeu muito simplesmente dizer na sua o seguinte: se porventura os espectadores não se apertassem, quando se verificasse a chegada dos retardatários, para que todos ali coubessem, seria necessário mandar lá construir outro Alvalade, mas o Alvalade topónimo, o Alvalade sítio correspondente ao actual Campo Grande, naquela época fora do perímetro da Capital. Como esta designação moderna ainda o indica, a superfície dos terrenos desse local era extensa, de tal maneira que por vezes até lá se reuniam tropas para manobras. Alvalade, portanto, no citado passo camoniano tem de ser entendido, repita--se, como nome de sítio e não como nome comum, embora, por comparação, Camões o utilizasse, dada a referida extensão do local, para exprimir as ideias de «espaço vasto», «terreno extenso». Trata-se de topónimo já atestável em 933, não o de Lisboa, mas outro «in territorio conimbriense» («...de uilla de albalat per suos terminos», idem, p . 25), etc. A sua origem está no árabe al-balâT«parte chata ou «plana», «prato chato»«chão», daí «terreno plano, planície».²


Campo Grande, antigo Campo 28 de Maio |séc. XIX|
O Lumiar tinha garantidas as suas carreiras, tomando os passageiros os veículos na Rua do Ouro, 265, por um tostão; pagavam-se quatro vinténs ate ao Campo Grande. (Martans, 1947)
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente
Campo Grande, antigo Campo 28 de Maio |1910|
Em 1816 alberga as primeiras corridas de cavalos, sendo que hoje em dia os concursos hípicos são realizados nas proximidades do jardim, por trás do Museu da Cidade (Palácio Pimenta).
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente
Campo Grande, antigo Campo 28 de Maio |1909-06-06|
Concurso de raça bovina no Campo Grande promovido pela Real Associação Central de Agricultura.
Nota(s): A Feira do Campo Grande (ou das Nozes, séc. XVI) remonta ao tempo de Dona Maria I. Foi transferida para o Lumiar em 1902, tendo estado posteriormente no Campo Pequeno e voltado novamente ao Campo Grande. Em 1932, regressa de novo ao Lumiar até à sua extinção.
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

No século XX, Alvalade, até então topónimo não oficial, foi oficializado pelo Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Álvaro Salvação Barreto ao determinar “[…] que o aglomerado habitacional que se está erguendo a sul da Avenida Alferes Malheiro [actual Av. Brasil], à beira do Campo 28 de Maio [hoje Campo Grande] tenha a denominação de Sítio de Alvalade.” (3 de Março de 1948). O moderno Bairro de Alvalade foi projectado por Faria da Costa, em 1940/1945, desenvolveu-se a partir da ideia de subunidades de vizinhança com espaços de comércio local, de educação, e de recreio, deixando as grandes vias para a circulação automóvel, que cruzava o bairro.

Praça de Alvalade |195-|
Cruzamento das Avenidas de Roma e da Igreja
Naqueles terrenos baldios, ao centro, encontra-se hoje o Centro Comercial de Alvalade.
Judah Benoliel, in Lisboa de Antigamente

A Praça de Alvalade foi criada aquando da construção do Bairro de Alvalade (c. 1950), tendo inicialmente adoptado a designação de Largo Frei Luís de Sousa. Contudo, quando foi erigida no seu centro a estátua de Santo António em 1972, evitaram-se as confusões, dando-lhe então a actual designação e alterando a designação do Largo de Alvalade para Largo Frei Luís de Sousa.³
_____________________________________________________
Bibliografia
¹ SAA, Mário, As Grandes Vias da Lusitania: O Itinerário de Antonino Pio. Lisboa, 1957-1967.
² JOSÉ PEDRO MACHADO - Factos, Pessoas e Livros: comentários através dos tempos, vol. V. Lisboa: Livraria Portugal, 2006.
³ jornaldapraceta.pt.

Friday, 4 April 2025

Estação do Rocio que foi «da Avenida»

Acordei um pouco antes do meio-dia, quase a chegar a Lisboa. Era impossível pensar em almoçar e mal tive tempo de me aproveitar rapidamente do meu gabinete de toilette e do belo equipamento da minha mala de crocodilo. Não voltei a ver o professor Kuckuck na confusão da descida, nem na praça em frente do edifício da estação, de inspiração mourisca, onde segui o carregador até uma tipoia descoberta. [Thomas Mann (1875-1955). As Confissões de Félix Krull. 1895]

Estação do Rossio que foi «da Avenida» ou «de Cintra» |c. 1889|
A Estação Central da C. P. do Rossio — traço do arq.º Luiz Monteiro — começada a construir em 1887 é inaugurada em 11 de Junho de 1890, mas já em 8 de Abril de 1889 pelas 6 da tarde chegava ao Rocio a primeira máquina com um vagão, vindo de Campolide.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Na noite de 7 de Março de 1914 Fernando Pessoa, poeta e fingidor sonhou que acordava. Tomou o café no seu pequeno quarto alugado, fez a barba e vestiu-se com esmero. Enfiou a gabardine, porque lá fora chovia. Quando saiu faltavam vinte minutos para as oito, e às oito em ponto estava na Estação do Rossio, na plataforma do comboio com destino Santarém.
[António Tabucchi. «Sonho de Fernando Pessoa, poeta e fingidor» Sonho de Sonhos, 1914]

Estação do Rocio que foi «da Avenida» |1899|
Em frente do edifício da estação de inspiração mourisca.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente
Estação do Rocio que foi «da Avenida» |194-|
Cais de Orsay-Rossio» é que ele devia chamar-se...
Estúdio Horácio Novais, in Lisboa de Antigamente

Neste comboio toda a gente vai a Paris ou para lá regressa e, mais que Sud-Express ou Paris-Lisboa, «Cais de Orsay-Rossio» é que ele devia chamar-se como comboio que é, o belo comboio-cama que tomamos nas imediações do Palácio da Legião de Honra e deixamos à entrada do Rossio, a grande praça central de Lisboa a dois passos da Avenida da Liberdade, a dez minutos do Terreiro do Paço cujas escadarias descem à água do Tejo. 
[Valery Larbaud. «Escrito numa carruagem do sud-express». in Portugal de fora para dentro, 1927]

Estação do Rossio |c. 1950|
Praça Dom João da Câmara, antigo Largo de Camões.
Os autocarros AEC Regal III da Carris começaram a circular em 1948-49.
Estúdio Horácio Novais, in Lisboa de Antigamente

Friday, 23 August 2024

Antigo Capilé do Camões

Dias de calor horrível, logo desde manhã abrasando — escrevia João da Camara em O Occidente nos idos de Agosto de 1898.  Não bole uma folha nas árvores; n'ellas se não ouve o pio d'um pássaro. O catavento imóvel aponta para leste. Todos ofegantes suspiram para que chegue a tarde. Calam-se todas as paixões, apaga-se nos cérebros o pensamento O capilé é rei, a cerveja imperatriz. Enquanto quase todos sofrem, folgam apenas os donos de cafés e as limonadeiras do Rocio.

Praça Luís de Camões, 41 |1929|
[Junto à Rua das Gáveas]
Antigo Capilé do Camões, uma verdadeira loja de conveniência: há lá coisa melhor
que um capilé, ou uma carapinhada, para 'empurrar' uns pastéis de Belém.

Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Fim de Agosto. Lisboa é como morta, dormindo a longa sesta. De quando em quando, abre um olho para ver um simulacro de toirada, move uma perna em direcção a um arraial; mas não são movimentos voluntários: apenas uns espreguiçamentos. 
E quem fala é só para queixar-se. A enfiada dos lugares comuns: Que tempo horrível! — Mil vezes o Inverno,  — Fins d'Agosto são sempre assim.  — Antes na África.==

Praça Luís de Camões, 41 |1934|
[Junto à Rua das Gáveas]
Antigo Capilé do Camões, uma verdadeira loja de conveniência: há lá coisa melhor
que um capilé, ou uma carapinhada, para 'empurrar' uns pastéis de Belém.

Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Sunday, 26 March 2023

Praça de Luís de Camões com a Rua da Horta Seca

A Rua das Flores já existia antes do Terramoto, no troco até à Rua do Ataíde, ambas seiscentistas. E de igual modo existia a Rua da Horta Seca, designação, que, tal a das Flores, e a das Parreiras (sobre a qual assentou a Rua da Emenda) evocam os tempos de quinhentos em que por aqui eram quintas e chãos rústicos da herdade de Santa Catarina.==
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIII, p. 51, 1939)

Praça de Luís de Camões com a Rua da Horta Seca |1959|
Realce para o espectacular "espada" Buick Super "The Black Beauty" (1949–1953)
Arnaldo Madureira, in Lisboa de Antigamente

Encontramos no Arquivo Histórico Português, Vol . VIII, pág. 421, no estudo do dr. António Baião, acerca da Inquisição uma referência a este sítio, datada de 1583. É a primeira à direita na rua do Alecrim vindo do Loreto e termina na rua das Chagas, ensina o Itinerário Lisbonense, de 1818. Fora das portas de Santa Catarina. [Brito: 1935]
 
Rua da Horta Seca |1922-07-21|
Rua da Emenda;  ao fundo nota-se o Palácio do Manteigueiro; Rua e Palacete das Chagas
Legenda no arquivo: «Bodo aos pobres promovido pelo sr. governador civil»
Arnaldo Madureira, in Lisboa de Antigamente
Nota(s): o local da foto não está «identificado no arquivo

Friday, 23 September 2022

Colocação da estátua de Camões

O monumento consagrado ao immortal poeta Luiz de Camões, está n'esta praça e foi inaugurado no dia 9 de Outubro de 1867. O risco, desenho e esculptura é de Victor Bastos. Tem este monumento desde o solo até ao pedestal 11,48 centimetros. A estatua de Camões tem quatro metros d'alto e foi fundida na fabrica Preseverança. O pedestal do monumento é um octógono de 7,48 centimetros de alto assente sobre quatro degraus. 

Colocação da estátua de Camões |1867|
A estátua, ainda envolta em panos, é parte do monumento erigido a memoria do insigne
poeta na Praça de Luiz de Camões (antigo Largo do Loreto até 1860) Camões (praça de Luiz
de) fica entre as ruas do Loreto, Norte, Gavias, Alecrim, larga de S. Roque, Flores e Horta
Secca; freguezia da Encarnação 1 a 48. [Velloso: 1869]
Colecção Alcídia e Luís Viegas Belchior, in Lisboa de Antigamente

Nos angulos do octogono tem oito plintos em que assentam oito estatuas feitas de pedra lioz, tendo cada figura 2,40 centimetros e são: Fernão Lopes, Corte Real, Pedro Nunes, Vasco Mouzinho, Gomes Eannes, Sá de Miranda, João de Barros e Cantanhede. A praça do nascente ao poente mede 66 metros e de norte a sul 36.
(in Roteiro das ruas de Lisboa e immediações, por Eduardo O. Pereiro Queiroz Velloso, 1869)

Monumento a Luiz de Camões |1867|
Observe-se o gradeamento em volta do monumento e que tanta celeuma causou à época.
Praça de Luís de Camões
Augusto Moreira, in Lisboa de Antigamente

Sunday, 19 December 2021

Liceu D. Filipa de Lencastre

No coração deste Bairro do Arco do Cego se construiu o novo Liceu D. Felipa de Lencastre. Vale uma visita.
O Liceu D. Felipa de Lencastre foi criado em 1928 — recorda o ilustre Norberto de Araújo — , e funcionou primeiramente no Palacete Corte Real (onde fora a Nunciatura) na Rua do Quelhas, 36, passando em 1936 para a Rua de S. Bernardo, 16, de onde para aqui foi transferido.
As primeiras aulas no edifício novo que temos à vista efectuaram-se em 14 de Novembro de 1938.

Liceu D. Filipa de Lencastre [1958]
Avenida Magalhães Lima, Arco do Cego
No ano lectivo 1940/1941 funcionou com 712 alunas.
Salvador de Almeida Fernandes, in Lisboa de Antigamente

O Liceu feminino de D. Felipa de Lencastre é, nas suas instalações, talvez o melhor do país, pois obedece já à arquitectura pedagógica, e satisfaz condições que em 1906, quando se levantaram os liceus modernos, por João Franco, não eram ainda exigidas. Foi arquitecto do edifício Jorge Segurado.
O Liceu, com dois pavimentos, é constituído, como vês, por um vasto quadrilátero, e compõe-se, pois, de quatro alas, servidas por um pátio ou claustro, em parte coberto. A Sul prolonga-se um corpo distinto, rectangular, no qual foram, instalados o ginásio e o balneário.

Liceu D. Filipa de Lencastre [1962-07]
Avenida Magalhães Lima, Arco do Cego
Artur Goulart,  in Lisboa de Antigamente

A fachada do Liceu oferece-se original e elegante, em rotunda e as fachadas laterais, largamente envidraçadas, dão um conjunto lavado desafogado, sem aspecto de casarão maciço. O átrio, todo de mármore, é muito belo.
Possui o Liceu 28 salas de aulas, duas das quais em anfiteatro, galerias, terraços, museu, laboratórios, biblioteca, refeitório, salas de conselho, de professores, e de secretarias.
   
Fotografia aérea do Bairro Social do Arco do Cego, Praça de Londres e Avenida de Roma [1953]
Na esq. baixa observa-se o Liceu D. Filipa de Lencastre.
Mário de Oliveira, in Lisboa de Antigamente

N.B. O Liceu D. Filipa de Lencastre, foi baptizado em sua honra. Esposa de D. João I e rainha de Portugal entre 1387 e 1415, nasceu em Inglaterra em 1360, filha de João de Gante, 1.º Duque de Lencastre.
Nada se sabe da sua vida até à altura do casamento com D. João I, que se efectuou no Porto, em 2 de Fevereiro de 1387, e que é considerado ilegítimo até 1391, altura em que uma bula papal autoriza o casamento do Mestre de Avis, que era eclesiástico. Dessa união nasceram oito filhos — a "Ínclita Geração", como lhe chamou Camões — , de entre os quais se destacam D. Duarte, futuro rei, o infante D. Pedro, o das "Sete Partidas", o infante D. Henrique, "o Navegador", e D. Fernando, o "Infante Santo". Ignora-se qual o papel que teve na educação dos filhos.
D. Filipa de Lencastre (Philippa of Lancaster) faleceu de peste bubónica em 18 de Julho de 1415, no Convento de Odivelas, na véspera da partida da expedição a Ceuta, estando sepultada no Mosteiro da Batalha. [infopedia]
____________________________________________
Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIV, pp, 74-75, 1939.

Friday, 5 November 2021

Rua do Loreto

Luís Pastor de Macedo refere que esta artéria «É uma parte do antigo caminho que ia das Portas de Santa Catarina (Largo do Chiado) para Santos e Alcântara. Brandão na sua "Estatística de 1552" dá-lhe já o nome de rua do Loreto, os sacadores da derrama de 1565 designam-na por rua dr.tª q vay do loreto pª calçada do congro, o cura da Sé, em 1605, por rua direita fora da porta de Sª Cª, e os registos paroquiais da freguesia da Encarnação dão-lhe geralmente a denominação simples de rua Direita, algumas vezes, poucas, a de rua Direita do Loreto e só por acaso rua do Loreto, a não ser em grande parte do século passado e no actual [XIX e XX], em que tanto uma como outra das últimas denominações citadas, foram as únicas empregadas. Depois do terremoto, isoladamente, deram-lhe também o nome de rua Larga do Loreto
Esta rua, antes da demolição dos célebres casebres do Loreto (ruínas do palacete dos Marialvas) e portanto antes de se ter feito a Praça Luís de Camões, chegava pelo nascente até à rua Larga de S. Roque, hoje rua da Misericórdia.»
(MACEDO, Luís Pastor de, Lisboa de Lés a Lés, vol. III, 1942)

Rua do Loreto [1950/60]
Junto à Praça de Luís de Camões
Estúdio Horácio Novais, 
in Lisboa de Antigamente
Nota(s): o local e a data da foto não estão identificados no arquivo (FCG).

Sunday, 7 March 2021

Da Praça de Luís de Camões ao Chiado, «capital de Lisboa»

Pode São Bento ter-se convertido no símbolo da Política; o Terreiro do Paço no símbolo da Burocracia; a Rua dos Capelistas no símbolo da Finança; o Chiado alcançou o privilégio de os superar a todos, porque se converteu no símbolo do Bom-Tom. Passando a pontificar na Literatura e na moda, consequentemente os homens de letras passaram a escrever para o Chiado, os janotas a apurar-se para o Chiado, as Senhoras a vestir-se para o Chiado. Mais do que uma rua, ainda que das mais afortunadas de Lisboa, o Chiado tornou-se uma verdadeira instituição nacional  quase que um autêntico Estado dentro do Estado, com o seu Governo, o seu Parlamento, a sua Academia, a sua Catedral. Eça de Queiroz não hesitou mesmo em afirmar: «o que um pequeno número de jornalistas, de políticos, de banqueiros, mundanos decide no Chiado que Portugal seja — é o que Portugal é.»¹


Quem está neste Largo do Chiado — relembra Mário Costa — , pode dar um saltinho até à Praça de Luís de Camões, e é justo que se atreva a essa pressuposta acrobacia, para trazer à lembrança os traços pitorescos que o progresso apagou, a começar na eliminação dos típicos quiosques com venda de refrescos, onde se bebia o melhor capilé de Lisboa. [vd. 3ª imagem]

Da Praça de Luís de Camões ao Chiado, «capital de Lisboa» [séc. XIX]
Largo do Chiado, que já foi Largo das Cavalariças Reais, Largo do Loreto e Largo das Duas Igrejas.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Ajudavam a compor o singelo friso, os esfuziantes vendedores das popularíssimas castanhas assadas no forno — quentes e boas, dé réis vinte! — ; o pictural homem do realejo, acompanhado do urso amestrado, que dançava ao som do toque de pandeireta; a sugestiva tela que conglobava as incomparáveis cenas interpretadas pelos inimitáveis pantomineiros de praça pública  empoleirados em pequena tripeça, fazendo uso do mais cómico palavreado, uma arenga às massas ingénuas — às vezes também desfrutadoras – propagandeando milagrosos produtos, tudo maravilhoso, elixires da longa vida, para fazer crescer o cabelo e extrair calos sem dor, os únicos para tirar as nódoas do fato.

Da Praça de Luís de Camões ao Chiado, «capital de Lisboa» [séc. XIX]
Largo do Chiado, que já foi Largo das Cavalariças Reais, Largo do Loreto e Largo das Duas Igrejas.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

 Foi-se toda essa colorida pintura, muito século XIX, quadros que enterneciam, pela ingenuidade do desenho. Também certo dia se arrancaram os utilíssimos bancos de duas tábuas, que foram o consolo de velhos reformados; e, em nome da civilização, se demoliu outro estilo de quiosque, todo de ferro e em forma cilíndrica, disfarçado por grande biombo, com entrada só para homens. [vd. 3ª imagem]

Da Praça de Luís de Camões ao Chiado, «capital de Lisboa» [1912]
Ao fundo notam-se os antigos bancos de duas tábuas e o desaparecido urinol
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente
 
Bibliografia
COSTA, Mário, O Chiado pitoresco e elegante, pp. 90-102, 1987.
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