Tuesday, 4 October 2016

A Avenida: O Vigia, o tasco do José Gordo, Diogo Alves e Companhia

Na taberna havia um garotinho azougado, d'olho perspicuo, um pangaio, encarregado de cocar quem ahi entrava, e de avisar para dentro, para a batolinha. se era pessoa estranha á casa. Pozeram-lhe a alcunha de O Vigia.


No quarteirão do lado sul, que esquina com a Rua das Pretas (isto é de ante-ontem) existiu «O Vigia», restaurante antigo da Avenida [lado oriental do antigo Passeio Público], muito lisboeta, e que merece uma evocação. Datava pouco mais ou menos de 1832. Fôra alindado em 1931, para ver se forçava a crise que atacou os restaurantes tradicionais de Lisboa. Não a venceu; deu a alma ao criador em 1934. Sucedeu-lhe, mas só em 1937, essa frutaria que ali vês, o «Grande Ponto›. (O nome não vai longe).

Avenida da Liberdade [1963]
Esquina com a Rua das Pretas

Armando Serôdio, in AML

Sobre a origem do nome  «Vigia» escreve Tinop na sua Lisboa d'outros tempos que «Na taberna havia um garotinho azougado, d'olho perspicuo, um pangaio, encarregado de cocar quem ahi entrava, e de avisar para dentro, para a batolinha. se era pessoa estranha á casa. Pozeram-lhe a alcunha de O Vigia. Succedeu ao José Gordo, fundando em 1832 a casa de Pasto chamada O Vigia, na rua Oriental do Passeio, (...)»

E quem era esee José Gordo, de que fala Tinop, e por que é para aqui chamadoperguntará o caro leitor? Pois bem, era nem mais nem menos que o proprietário de uma «baiuca pessimamente afamada», uma taberna situada na Praça da Alegria de Baixo defronte do antigo Passeio Publico (hoje Av. da Liberdade), e onde  «malfeitores realisavam conferencias, tertúlias, cochichavam misteriosamente, escabichavam a vida alheia». Acrescenta o autor que a taberna era frequentada por «uma cambada de tratantes» e que entre estes se encontrava o infame Diogo Alves — de alcunha "O Pancada" — o «serial killer do Aqueduto das Águas Livres» que foi condenado à morte e executado em 1841 
«Lá appareciam» — na taberna do José Gordo — «o Diogo Alves — ruim como as cobras—, o Beiço Rachado, seu collega, o Pé de Dança, — um que tinha immensa lábia —, João das Pedras, o Enterrador, aguadeiro do chafariz d'Alegria, e o António Martins, caixeiro do celleiro na rua Oriental do Passeio, e amigo do Diogo Alves. O desconhecido, que penetrasse n'essa caverna de Caco ficava com as algibeiras limpas, ou, ás duas por três, apanhava a sua facadita á chucha-calada.» 
E assim fica contada mais uma história de algumas dos tascos d'antanho da capital e dos figurões que as frequentavam.

Avenida da Liberdade [c. 1900]
Cruzamento com a Rua das Pretas

Autor desconhecido


Bibliografia:
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIV, p. 28, [1939])
 (Lisboa d'outros tempos: Os Cafés, pp. 193-194, 1899)

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