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Sunday, 26 July 2020

Estação do Rossio: rampa para o Largo do Duque do Cadaval

Na noite de sete de Março de 1914, Fernando Pessoa, poeta e fingidor, sonhou que acordava. Tomou o café no seu pequeno quarto alugado, fez a barba e vestiu-se com esmero. Enfiou a gabardina, porque lá fora chovia. Quando saiu faltavam vinte minutos para as oito, e às oito em ponto estava na estação do Rossio, na plataforma de comboios com destino a Santarém.
(Antonio Tabucchi. «Sonho de Fernando Pessoa, poeta e fingidor». Sonho de Sonhos, 1914)

Estação do Rossio:  rampa para o Largo do Duque do Cadaval  [c. 1900]
A Estação Central da C. P. do Rossio — traço do arq.º Luiz Monteiro — começada a construir em 1887 é inaugurada em 1888.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Palmilhei a rampa que leva à Estação. Por entre o tropel de passageiros golfados do último comboio, proveniente lá do calcanhar de Judas, enxerguei ao alto, para as Escadinhas do Duque, uma lanterna vermelha que me acenava com quartos de pernoitar.
(RIBEIRO, Aquilino, Lápidees Partidas, 1969)

Rampa da Estação do Rossio [c. 1940]
Calçada do Carmo; Calçada Duque
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Calçada Duque (de Cadaval) Esta via pública começou a chamar-se Calçada do Duque — recorda Vieira Silva— , até à Rua da Condessa, depois que o Duque de Cadaval tomou de aforamento em 1699 uma extensa propriedade, que descrevemos, cuja frente sul confinava com a calçada. Da Rua da Condessa para cima chamava-se Rua do Postigo de S. Roque, ou Calçada de S. Roque. Em 1780 ainda assim acontecia, como pode ver-se na planta da Freguesia do Sacramento que faz parte do Plano de Divisão e Translação das Parochias de Lisboa, aprovado pelo alvará régio de 19 de Abril desse ano. Actualmente o nome Calçada do Duque aplica-se à via pública em escadaria que começa na Calçada do Carmo, no alto da segunda rampa de acesso à estação de Caminho de Ferro do Rossio [vd. imagem abaixo], e termina no Largo Trindade Coelho antigo de S. Roque.
(VIEIRA DA SILVA, Augusto, A Cerca Fernandina de Lisboa, 1987)

Estação do Rossio: acesso superior virado ao Largo do Duque de Cadaval  [1928]
A Estação Central da C. P. do Rossio — traço do arq.º Luis Monteiro — começada a construir em 1887 é inaugurada em 1888.
Legenda da foto no arquivo: «Romenos vindos do Brasil, acampados na estação do Rossio»
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Wednesday, 24 December 2025

Praça de D. Pedro IV: Iluminações de Natal

O Rossio só me confrange uma vez por ano, justamente na época que atravessamos, quando em contraste com a sua toilette cada vez mais cuidada, ali tomba, em vésperas do Natal, a ronda soturna, o rosário deselegante e miserável dos vendedores de brinquedos «a dez tostões».

É já um lugar-comum chamar à Praça do Rossio a sala de visitas de Lisboa. Concedamos que todo o vasto recinto tem hoje, efectivamente, o caracter peculiar a uma capital. Mas é talvez o pombalino, beliscado aqui e ali por incómoda alteração, é o Arco do Bandeira, serão mesmo os dois «pastiches» do Teatro Nacional e da estátua de D. Pedro, que ao local dão uma presença, um estilo nitidamente lisboeta, como não é possível encontrar em outra parte. O Rossio, a Praça do Rossio, a que o povo, com instinto seguro, nunca chamou a Praça de D. Pedro, desprende da sua perspectiva, do recorte regular dos seus prédios e janelas, sobretudo quando se vem de fora, quando se vem do Norte, uma serena e cariciosa amabilidade, que eu só com paro ao conforto do lar, depois de um dia de trabalho.

 Praça de D. Pedro IV: Iluminações de Natal |1964-12|
Armando Serôdio, in Lisboa de Antigamente

A Praça do Rossio, nesses momentos, quando no ar tern seu quê de amigo, e nos trata por tu, e nos acolhe com sua graça alfacinha, - é o local de privilégio de Lisboa, o lugar-bruxo que nos sabe sempre bem atravessar, mesmo sem pretexto aparente, sem necessidade. 
Pincelada à noite, em suas mansardas, pelo vermelho, o azul, o verde luminoso dos tubos neon, dir-se-á que a Praça do Rossio, escovada e moderna, ganha outro caracter. Os novos estabelecimentos e cafés, decorados por uma publicidade bela, desenhados por luz sapiente, colorida e bem distribuída, como que surgem transformando o estilo, o caracter antigo, imprimindo a sua nota internacional.

 Praça de D. Pedro IV: Iluminações de Natal |1965-12|
Armando Serôdio, in Lisboa de Antigamente
 Praça de D. Pedro IV: Iluminações de Natal |1966-01|
Armando Serôdio, in Lisboa de Antigamente

Muito embora a instalação de todo esse cenário venha pintalgando lojas e telhados, o Rossio resiste, permanece pombalino, reserva-nos sempre a sua serenidade cariciosa. O seu estilo guarda sempre o segredo que nele adivinhamos, sem o desvendar.
Lisboa, a bela, não perdeu ainda, no pormenor do seu toucado, um certo desprendimento, um descuido peculiar que vive paredes meias com o desleixo. Um pouco mais e esta cidade constituiria o burgo mais aprazível da Europa do Sul. [Luíz Moita: 1939]

 Praça de D. Pedro IV: Iluminações de Natal |1959-12|
Lagos do Rossio
Armando Serôdio, in Lisboa de Antigamente

Nota(s): Imbuídos no espírito natalício decidimos inserir abaixo as mesmas imagens do fotógrafo Armando Serôdio mas coloridas e geradas por IA com a chamada «quebra de página». Caso queira continuar e visualizar clique em «ler mais [read more]»

Tuesday, 8 December 2015

Animatógrafo do Rossio

A 8 de Dezembro de 1907, o n.º 229 da Rua dos Sapateiros, velho prédio pombalino, entra no quotidiano dos lisboetas com o Animatógrafo do Rossio, único pela fachada com azulejos Arte Nova, semelhantes aos painéis decorativos comuns em padarias e leitarias. A sala tem capacidade para 226 espectadores, fora os que assistem de pé no promenoir.
 
Animatógrafo do Rossio [post. 1907]
Rua dos Sapateiros
Junto ao Arco do Bandeira funciona o Animatógrafo do Rossio, fundado em 1907, e que já foi um dia o Teatro Infantil do Rossio; é um pitoresco, hoje vulgar, salão de cinema popular para rapazes.[Araújo: 1939]
José A. Bárcia, in Lisboa de Antigamente

A sua construção orçou em dez contos de réis, o que para a época era um valor elevado. Foi considerado o primeiro cinema em Portugal com uma expressão arquitectónica qualificada incluída na chamada Arte Nova curvilínea  característica da escola franco-belga de Horta e Guimard. Apresenta três vãos destinados à bilheteira (ao centro) e duas entradas (portas laterais), todos com bandeira em vidro, onde na central, da bilheteira, pode ler-se a designação do estabelecimento: Animatógrafo do Rossio

Animatógrafo do Rossio [c. 1970] 
Rua dos Sapateiros
Armando Serôdio, in Lisboa de Antigamente

Emoldurando os três vãos existe uma rica decoração vegetalista em talha pintada de cor verde, bastante volumosa e sinuosa, à semelhança de caules de plantas. Dois painéis de azulejos polícromos de Q. Queriol, subordinados ao tema da luz eléctrica, representando duas figuras femininas que seguram candeeiros, simbolizando a iluminação do do mundo  com formas ondulantes, tons suaves e esbatidos, também eles com molduras entalhadas, separam os vãos, enquanto que dois espaços destinados aos cartazes cinematográficos surgem a ladear as portas. 

Animatógrafo do Rossio [1961] 
Rua dos Sapateiros
Artur Goulart, in Lisboa de Antigamente

Começou por ser o salão de cinema mais luxuoso da capital, apresentou, também, espectáculos de variedades e peças de teatro infantil, até que, a partir de 1994,passou a exibir espectáculos eróticos (peep show). O edifício onde o Animatógrafo está instalado surge inserido na Lisboa Pombalina, que está classificada como Conjunto de Interesse Público.

Animatógrafo do Rossio [1966] 
Rua dos Sapateiros
Garcia Nunes, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
FERNANDES, João Pedro, VILELA, Joana. Lx Joga: Lisboa Como Nunca Viu, 2019.
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XII, p. 53, 1939.
cinemasparaiso.blogspot.pt; artenova.no.sapo.pt.

Thursday, 15 December 2016

Estação do Rossio

Acordei um pouco antes do meio-dia, quase a chegar a Lisboa. Era impossível pensar em almoçar e mal tive tempo de me aproveitar rapidamente do meu gabinete de toilette e do belo equipamento da minha mala de crocodilo. Não voltei a ver o professor Kuckuck na confusão da descida, nem na praça em frente do edifício da estação, de inspiração mourisca, onde segui o carregador até uma tipóia descoberta.¹

Esta Estação Central da C. P. foi começada a construir em 1887, e assenta em terrenos que foram, do lado sul e poente, do Duque do Cadaval; derrubaram-se uns prédios que aqui existiam, com feitio lisboeta rudimentar, e pôs-se de pé o edifício decorativo que vemos.

Estação do Rossio, em construção [c. 1888]
Largo D. João da Câmara; Largo do Duque de Cadaval; Calçada do Carmo
Panorâmica tirada do Jardim de S. Pedro de Alcântara

Huber Vaffiert, in Lisboa de Antigamente
Estação do Rossio, em construção [c. 1889]
Largo D. João da Câmara; Largo do Duque de Cadaval; Calçada do Carmo

Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente
Um comboio saindo da estação do Rossio [1932]
Largo D. João da Câmara; Largo do Duque de Cadaval; Calçada do Carmo

Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

O arquitecto deste edifício — cuja fachada é um pastiche dos monumentos manuelinos, na variante dos pórticos em ferradura [vd. 4ª imagem] — foi José Luiz Monteiro [1848-1942], veneranda relíquia da arte, professor aposentado, e que conta hoje [em 1939] 83 anos; o engenheiro assistente foi Cândido Xavier Cordeiro.
No último pavimento superior abre-se o vestíbulo, que conduz à gare. pequena para o movimento de uma estação central, terminus de linha internacional. 
Enquanto se construía a Estação, ia-se perfurando o túnel, que tem 2.610 metros, trabalho de engenharia dirigido pelo francês Bartissol, e dado de arrematação, por troços, a vários engenheiros, e cuja obra começou em Abril de 1887; fizeram-se aberturas em vários pontos do trajecto, pelas quais a perfuração se fez em partes, verificando-se a junção das galerias em 24 de Maio de 1888

Estação do Rossio, em construção [c. 1889]
Largo D. João da Câmara; Largo do Duque de Cadaval; Calçada do Carmo

Fotografia anónima, in Lisboa de Antigamente

O túnel foi inaugurado em 11 de Junho de 1890, mas já em 8 de Abril de 1889 pelas 6 da tarde chegava ao Rossio a primeira máquina, com um vagon, vinda de Campolide, ou seja do sítio famoso da Rabicha.²

Estação do Rossio [1927]
Largo D. João da Câmara; Largo do Duque de Cadaval; Calçada do Carmo

Legenda: «Os operários procedendo a obras de reparação da estação do Rossio»,
Autor não mencionado, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
¹ MANN, Thomas (1875-1955). As Confissões de Félix Krull. 1895.
² ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XII, p. 84, 1939.

Friday, 4 May 2018

Brazileira do Rossio

Esta Brasileira, n.°' 51 a 53, foi fundada em 1911; antes existira aqui uma chapelaria, que datava de 1820. A Brasileira, cujas tradições são apenas aquelas ligadas à agitação política dos últimos trinta anos, foi restaurada em 1938 pelo arquitecto José Simões. O estabelecimento possue salas de bilhar no primeiro e segundo andar do prédio, com porta de entrada pelo n.° 43[?] [n.º 78 da Rua Primeiro de Dezembro].


Brasileira do Rossio [post. 1911]
Praça de D. Pedro IV, 51 a 53 
A fachada e interiores deste café, com inspiração «art-nouveau», eram um bom exemplo 
lisboeta da arquitectura do ferro e vidro
Fotografia anónima, in Lisboa de Antigamente

Ainda em 1911 — depois dos tumultos da noite de 26 de Novembro — a montra da Brasileira do Rossio foi atingida por tiros aquando da expulsão de duas curandeiras chinesas, Ajus e Joé, as «Chinezas Milagrosas», dizia-se, praticavam milagres que consistiam em extrair "uns bichos dos olhos"

Brazileira do Rossio [1911]
Praça de D. Pedro IV, 51 a 53 
A montra do café a Brasileira do Rossio depois dos tumultos da noite de 26 de Novembro, 
aquando da expulsão das «chinesas milagrosas».
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

A «Brasileira do Rossio» passaria por várias reparações mantendo-se contudo, o seu aspecto de 1900 da fachada e do salão principal. Em 1938 teve intervenção significativa, com a criação de uma sala de bilhares com entrada pela Rua Primeiro De Dezembro, 78 (antiga do Príncipe), sendo o projecto do Arquitecto José Simões. «A Brasileira do Rossio» (na altura propriedade da firma Cafés Reunidos), encerraria em 1960. Reabertura temporária, com o tecto original alterado, durante alguns meses de 1966.

Brasileira do Rossio [1944]
Praça de D. Pedro IV, 51 a 53
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XII, p. 71. 1939.

Sunday, 12 September 2021

Hospital Real de Todos-os-Santos

O Rossio era uma praça, irregular, mas já muito espaçosa. o Hospital de Todos-os-Santos com a sua esplendida fachada; os arcos do Rossio, onde se acomodavam as mais luxuosas lojas, que vendiam as fazendas da moda, tornavam aquela praça a mais importante da capital.


Neste Rossio — diz Norberto de Araújo —  do lado nascente, à nossa direita, erguia-se até pouco antes do Terramoto o imponente Hospital de Todos-os-Santos, fundação de D. João II, e cuja primeira pedra foi lançada a 15 de Maio de 1492. Os terrenos eram dependentes dos frades de S. Domingos.
Possuía um formoso pórtico gótico , de dupla entrada , para o qual se subia por uma escadaria de vinte e um degraus, e de um lado e do outro, ao nível do chão, corriam magníficas arcadas, em maior extensão do lado norte, e em cujo número não acertam os eruditos nem velhas estampas, mas que andaria por trinta.

Rossio antes do terramoto de 1755
Legenda: A
  Hospital de Todos-os-Santos;  B  Igreja de São Domingos e à esq. a Ermida da S.ª da Escada [hoje demolida];  C  Convento da Graça; D  Castelo de S. Jorge; E  Chafariz de Neptuno. À dir. observa-se um poste de forca com um homem preso pelos braços.
Água-tinta, desenho à pena a nanquim de Zuzarte, século XVIII (1787)
Rossio antes do terramoto de 1755
Legenda: A
  Hospital de Todos-os-Santos;  B  Igreja de São Domingos e à esq. a Ermida da S.ª da Escada [hoje demolida];  C  Convento da Graça; D  Castelo de S. Jorge; E  Chafariz de Neptuno. À dir. observa-se um cortejo fúnebre e um poste de forca com um homem preso pelos braços.
Pintura a óleo sobre gravura de Zuzarte, autor desconhecido (1787)

Estas arcarias do Hospital de El-Rei — como de começo se chamou – e que davam abrigo a muitas dezenas de tendas e bazares — constituíam um dos encantos panorâmicos do Rossio. A Igreja continuava-se do prolongamento do pórtico, isto é: na direcção poente-nascente.
Junto deste Hospital — que foi uma das mais nobres instituições de Lisboa de todos os tempos, servindo os pobres — funcionava a «Roda dos Engeitados», do lado da Rua da Betesga.
O Hospital de Todos-os-Santos dependia da Santa Casa da Misericórdia. Sofreu um incêndio em 27 de Outubro de 1601, facilmente reparável em seus estragos, outro, horroroso, em 10 de Agosto de 1750, que o reduziu a cinzas, fazendo muitas vítimas, salvando-se, porém, 730 doentes e centenas de crianças que foram recolhidas pelas janelas e portas contíguas a S. Domingos.

Hospital Real de Todos-os-Santos no séc. XVIII
Igreja do Hospital Real de Todos-os-Santos, portal manuelino, admirado por toda a Europa, não só pelo seu trabalho de escultura, mas também pela sua imponência.
Gravura da autoria de Jaime Martins Barata, Museu de Lisboa

O Hospital tinha a sua frente obliquamente recuada em relação ao alinhamento oriental do Rossio que temos à vista, de modo que só pelas alturas onde hoje estão os Armazéns e a Loja do Povo [Praça de D. Pedro IV, 87-92] a linha antiga coincidia com a actual [vd. planta topográfica]. No interior da Retrosaria «Botões de Ouro», n. 86 [hoje sapataria], situada entre aqueles dois estabelecimentos existem ainda abóbadas e um lanço de arcaria de volta perfeita — resto vivo das arcadas do Rossio — , e até Julho de 1933 estava à vista um capitel de coluna, singelamente ornamentado, um meio metro acima do nível actual da Praça, único, venerando vestígio que foi entaipado por ocasião de umas obras de limpeza. Tenho tentado conseguir que ele seja, de novo, posto à vista; acredito na boa vontade dos donos do estabelecimento.


Sítio do Hospital de Todos-os-Santos, convento de S. Domingos e Poço do Borratém antes do terremoto de 1755 (a preto), e na actualidade (1937) (a vermelho
Planta topographica exacta do Sitio que comprehende a Ilha em que estava edificado o Hospital Real de Todos os Santos. Desenhos de J. de Castilho

Bibliografia
MESQUITA, Alfredo, Lisboa, 1903.
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. V, pp. 22-26, 1938.
CASTILHO, Júlio de,  Lisboa antiga, vol. IV,  1885, 

Friday, 8 November 2019

O Rossio Velho

No século da tomada de Lisboa confluíam ainda nêste sítio os dois braços de água dos vales do Andaluz e de Arroios-Mouraria, correndo ao Tejo em regueiro. [...]
No século XIV o arrabalde do Rossio  — «Ressio› se dizia — fazia [já] parte da cidade. Rossio de S. Domingos, Rossio de Santa Justa, logo Rossio de Valverde — estava feito o Rossio de Lisboa, cujas orlas de edificação a Câmara e o Rei por vezes disputavam. [...]

Praça D. Pedro IV |séc. XIX|
Venda ambulante de refrescos; carro Chora
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Do final de setecentos até hoje, o Rossio — na sua fisionomia pombalina — limitou-se a enfeitar-se, arruar-se, arrumar uma zona a poente, rever a sua orientação, construir um teatro, erguer um monumento, pôr de pé uma estação terminal de linha férrea, empedrar o chão, recortá-lo depois — usar do seu direito de capital, praça titular de Lisboa.

Praça D. Pedro IV |séc. XIX|
Venda ambulante de bolos; carro Chora
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XII, pp. 61-62, 1939.

Friday, 4 April 2025

Estação do Rocio que foi «da Avenida»

Acordei um pouco antes do meio-dia, quase a chegar a Lisboa. Era impossível pensar em almoçar e mal tive tempo de me aproveitar rapidamente do meu gabinete de toilette e do belo equipamento da minha mala de crocodilo. Não voltei a ver o professor Kuckuck na confusão da descida, nem na praça em frente do edifício da estação, de inspiração mourisca, onde segui o carregador até uma tipoia descoberta. [Thomas Mann (1875-1955). As Confissões de Félix Krull. 1895]

Estação do Rossio que foi «da Avenida» ou «de Cintra» |c. 1889|
A Estação Central da C. P. do Rossio — traço do arq.º Luiz Monteiro — começada a construir em 1887 é inaugurada em 11 de Junho de 1890, mas já em 8 de Abril de 1889 pelas 6 da tarde chegava ao Rocio a primeira máquina com um vagão, vindo de Campolide.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Na noite de 7 de Março de 1914 Fernando Pessoa, poeta e fingidor sonhou que acordava. Tomou o café no seu pequeno quarto alugado, fez a barba e vestiu-se com esmero. Enfiou a gabardine, porque lá fora chovia. Quando saiu faltavam vinte minutos para as oito, e às oito em ponto estava na Estação do Rossio, na plataforma do comboio com destino Santarém.
[António Tabucchi. «Sonho de Fernando Pessoa, poeta e fingidor» Sonho de Sonhos, 1914]

Estação do Rocio que foi «da Avenida» |1899|
Em frente do edifício da estação de inspiração mourisca.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente
Estação do Rocio que foi «da Avenida» |194-|
Cais de Orsay-Rossio» é que ele devia chamar-se...
Estúdio Horácio Novais, in Lisboa de Antigamente

Neste comboio toda a gente vai a Paris ou para lá regressa e, mais que Sud-Express ou Paris-Lisboa, «Cais de Orsay-Rossio» é que ele devia chamar-se como comboio que é, o belo comboio-cama que tomamos nas imediações do Palácio da Legião de Honra e deixamos à entrada do Rossio, a grande praça central de Lisboa a dois passos da Avenida da Liberdade, a dez minutos do Terreiro do Paço cujas escadarias descem à água do Tejo. 
[Valery Larbaud. «Escrito numa carruagem do sud-express». in Portugal de fora para dentro, 1927]

Estação do Rossio |c. 1950|
Praça Dom João da Câmara, antigo Largo de Camões.
Os autocarros AEC Regal III da Carris começaram a circular em 1948-49.
Estúdio Horácio Novais, in Lisboa de Antigamente

Sunday, 8 February 2026

Rua Augusta com a Rua da Betesga — ou como “meter o Rossio na Betesga”

O prédio que faz gaveto para o velhinho rocio e fica entre as ruas Augusta e da Betesga ocupado pela «Camisaria Confiança», e pelo Hotel Internacional, não pertence ao Rossio, mas sim às ruas Augusta e da Betesga. No antigo edifício havia há cento e cinquenta anos (c. 1880) uma tabacaria que ficou celebre por ser o poiso certo de João de Deus e de alguns dos melhores espíritos d'essa época. [Castilho: 1935]

Rua Augusta com a Rua da Betesga: cena de rua |1922-08-20|
Confluência da Praça de D. Pedro IV com as Ruas da Betesga e Augusta).
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

A «Camisaria Confiança», sucursal da Fábrica Confiança, foi fundada em 1883, com sede na Rua de Santa Catarina, Porto. Actualmente é um hotel de charme, o Internacional Design Hotel, antes «Hotel Internacional» que sucedeu a um antigo «Hotel Camões», do qual aproveitou a belíssima fachada. Este edifício foi projectado pelo arq. J. C. P. Ferreira da Costa em 1909.

Rua Augusta com a Rua da Betesga: cena de rua |1932-03-28|
Na confluência da Praça de D. Pedro IV, vulgo Rossio, com as Ruas da Betesga e Augusta (da Figura do Rei), um sinaleiro tenta orientar o trânsito numa manhã de segunda-feira soalheira, alegre, barulhenta e de gente sempre agitada. 
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente
Nota(s): o local da foto está erradamente identificado no arquivo: «Na rua da Prata, os automóveis voltando para a rua da Conceição»

N.B. No que à «Betesga (rua)» diz respeito», sem se saber ao certo quando este topónimo se fixou na memória de Lisboa, a sua origem está ligada à configuração do arruamento, pois Betesga, palavra de origem obscura, designa uma rua muito estreita, uma ruela ou viela. Por isso surgiu a expressão popular “Meter o Rossio na Rua da Betesga” – aludindo ao contraste entre a amplitude da Praça de D. Padro IV, vulgo do Rossio, e a estreiteza da Rua da Betesga.

Rua Augusta com a Rua da Betesga: cena de rua |c. 1951|
 O ângulo E. do Rossio dá passagem para a R. da Betesga, antigamente muito estreita (de onde o prolóquio meter o Rossio na Betesga), mas alargada e regularizada após 1755, e a qual, limitando ao S. a Praça da Figueira, vai ter, pelo lado E., ao Poço de Borratém.
Horácio Novais, in Lisboa de Antigamente

Sunday, 22 October 2023

Praça D. Pedro IV: O Rossio de Lisboa

Eis aqui o pouco, e pouquíssimo, que pude apurar quanto à origem da palavra — diz mestre Castilho (NB. foi mantida a grafia original da época):

1.° — A palavra ressio, ou recio, (hoje rossio) era adjectivo, e significava baldio; terreno ressio;
2.° — Por abreviação, o povo supprimiu o substantivo, e entrou a dizer em vez de terreno ressio, apenas ressio; assim succedeu por exemplo ao vocábulo largo; campo largo, terreno largo, espaço largo, terreiro largo, simplificou-se em largo, subentendendo-se um substantivo qualquer.
3.° — Transformado em rocio, e applicado propriamente aos logradoiros junto de povoações, fixou-se esta palavra com o sentido restricto de terreiro apropriado a certos fins.
4.º — Em Lisboa (este é que é o nosso ponto) foi o ressio, ou rocio um terreno vasto, á margem do esteiro de aguas, e consagrado a logradoiro commum, a fornos de telha, a sementeiras de farragem, a corridas, etc.

Praça D. Pedro IV: O Rossio de Lisboa |c. 1960|
Café Nicola e  Hotel Metrópole
Estúdio Horácio Novais, in Lisboa de Antigamente
Praça D. Pedro IV: O Rossio de Lisboa |c. 1960|
Francfort Hotel, antigo Hotel dos Dois Irmãos Unidos
Estúdio Horácio Novais, in Lisboa de Antigamente

Tardou seculos, e muitos, a transformação d'esses mal aproveitados chãos em praça polida e ornamento urbano; mas é innegavel que, pelo volver dos annos, se tornou o Rocio de Lisboa uma praça magnifica, e desbancava pela grandeza e nobreza dos edificios a todas as demais praças da capital; a ponto, que affirmava no seu tempo Luiz Mendes de Vasconcellos, com aquella emphase commum a escriptores peninsulares, se não sabe em outra cidade outra tamanha, cercada de nobres casas e grandes templos'; e blazonava um cortesão antigo, morador no Rocio, que habitava no sitio melhor do mundo.==
(CASTILHO, Júlio de, isboa antiga,, Vol. 2, 1889)

Praça D. Pedro IV: O Rossio de Lisboa |c. 1940|
Francfort Hotel, Lagos do Rossio; Convento do Carmo
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente
Praça D. Pedro IV: O Rossio de Lisboa |c. 1940|
Arco do Bandeira; Monumento a D. Pedro IV
Estúdio Horácio Novais, in Lisboa de Antigamente

Tuesday, 1 April 2025

Café Chave d'Ouro: o maior café do Rossio (1916-1959)

O Chave d'Ouro foi não só o maior, mas também um dos mais emblemáticos cafés e salões de chá do século XX lisboeta, orgulhando - se na imprensa de fazer o chá e o café com água do Luso. Aberto ao público em 1916, tomou o espaço de uma antiga loja de ferragens, da qual reteve o respetivo nome comercial. Na segunda metade dos anos 30 foi totalmente remodelado pelo arquiteto Norte Júnior, autor da decoração original, na qual se destacara o enorme anjo que então decorava a fachada deste estabelecimento. O novo Chave d'Ouro abriu as suas portas em Fevereiro de 1936, tendo merecido uma página inteira no Diário de Lisboa, que realçou as suas «duas rentes — Rossio e Primeiro de Dezembro — sete andares, nove pavimentos, central — o grande café — galeria de café; salão de bilhares, salão de chá, restaurante, esplanada, cinco bares [...] » e até «11 400 lâmpadas».¹

Café Chave d'Ouro: o maior café do Rossio de 1916 a 1959 |1923-05-10|
Praça D. Pedro IV, 33-38
Nota(s): Esta fotografia integra a reportagem "A Festa da Flor" em Lisboa. Foi coroada do melhor êxito,
sendo importantes os donativos alcançados", publicada no jornal 'O Século' de 10 de Maio de 1923.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Eram 5 da tarde e o Café Chave d'Ouro, no Rossio, no topo superior da grelha da Baixa, o coração da cidade , estava cheio de gente. Ainda não fazia frio e as janelas estavam todas abertas. Laura van Lennep tinha-se sentado ao pé de uma dessas janelas e olhava repetidamente para a praça. Tinha diante dela a pequena chávena de café que pedira há hora e meia, quando chegara, mas os empregados não a incomodavam. Já estavam habituados.

Café Chave d'Ouro: o maior café do Rossio entre 1916 e 1959 |c. 1940-50|
Praça D. Pedro IV, 33-38
Anote-se o anjo esculpido em pedra de lioz e ferro, projecto de Fausto Fernandes. Á dir. observa-se a afamada Joalharia Lory. 
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Distraidamente, ia ouvindo a conversa duma mesa de refugiados que falavam francês com forte sotaque. Os dois homens tinham visto camiões do exército na Baixa, de manhã cedo, e desenvolviam uma fantástica teoria de invasão que não contribuiu nada para acalmar Laura. Não podia suportar a inércia daquela gente, que sabia vir de uma pensão a três prédios da sua, na rua de S. Paulo, por trás do Cais do Sodré. Tinha-os ouvido na rua, corrigindo-se mutuamente acerca de aristocratas que tinham conhecido em festas, como se isso tivesse sido na semana passada, e não noutro país e noutra década. Estava desesperada por não ter cigarros, e o homem que ia mudar a sua vida, que tinha prometido mudar a sua vida, não chegava.²

 

Café Chave d'Ouro: o maior café do Rossio de 1916 a 1959 |1959|
Praça D. Pedro IV, 33-38 
Frontaria estilo Art Déco após remodelação, em 1936. e onde se destacam as grandes chaves pintadas de ambos os lados da entrada no dia em que foi encerrado.
Judah Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
¹ WILSON, Robert W, Último Acto em Lisboa.1941
² SANTOS, João Moreira dos, Roteiro do Jazz na Lisboa dos anos 20-50 : guia ilustrado de 40 espaços históricos dos primórdios do Jazz em Portugal 2012.

Friday, 27 August 2021

O Rocio Velho

"Do Rocio, o ruido das carroças, os gritos errantes de pregões, o rolar dos americanos, subiam, n'uma vibração mais clara, por aquelle ar fino de Novembro: uma luz macia, escorregando docemente do azul-ferrete, vinha doirar as fachadas enxovalhadas, as copas mesquinhas das árvores do município, a gente vadiando pelos bancos: e essa sussurração lenta de cidade preguiçosa, esse ar avelludado de clima rico, pareciam ir penetrando pouco a pouco n'aquelle abafado gabinete e resvelando pelos velludos pesados, pelo verniz dos moveis, envolver Carlos n'uma indolência e n'uma dormência."
(in Eça de Queiroz, Os Maias, 1888)

O Rossio Velho |séc. XIX|
As «ondas» negras e brancas do Rossio datam de 19448-4948; Teatro Nacional Almeida Garrett, desde 1910 «de D. Maria II»; Convento da Encarnação; Monumento a Dom Pedro IV; Fonte Monumental do Rossio (1889); Fonte dos Anjinhos (1882); Americano, Tipóia; calçada portuguesa; Quiosque dos Libertários; Urinol; observe-se, como curiosidade, a lanterna do 1.º candeeiro à frente, pintada com publicidade ao Coliseu dos Recreios.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

"Maior e mais abrutada, talvez seja. Mas não é esta lindeza do nosso Rocio, o ladrilhinho, as árvores, a estátua, o teatro... Enfim, para meu gosto e para o regalinho de Verão, prefiro o Rossio... E já o disse aos turcos!"
(Eça de Queiroz, in A Relíquia, 1887)
O Rossio Velho |ant. 1887|
O Rossio foi empedrado, em xadrez, em 1837; note-se a ausência dos lagos — «fontanas» diriam os italianos — que só viriam a jorrar água em 1889; O Teatro Dona Maria foi inaugurado em 1846.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente
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