Saturday, 10 September 2016

Café Nicola

O actual Nicola, que sucedeu à Ourivesaria Xavier de Carvalho, foi fundado por Joaquim Fonseca e Albuquerque (que deixara o Chave d'Ouro) em 1929; o arquitecto foi Norte Júnior. O actual semblante, em remodelação radical, data de 1935, sendo arquitecto Raúl Tojal. [1]


Em 1909, a revista «Serões» publicava um extenso artigo assinado por Pinto de Carvalho (1858-1936) intitulado «Os cafés de Lisboa». João Pinto de Carvalho (jornalista, escritor, olisipógrafo), conhecido principalmente por Tinop escreveu uma «Lisboa d'outros tempos: Os Cafés)», pintando-nos, no seu estilo original e pitoresco, um pouco da história e das origens deste antigo e afamado café lisboeta:

"Os dois primeiros cafés litterarios de Lisboa foram o Nicola e o botequim das Parras.  Na vida lisbonense representaram um papel semelhante áquelle que os cafés Foy e Suiede  representaram na vida parisiense porque Musset ia procurar idéas no fundo dos calices de absintho do primeiro e Emilio de Girardin ia descobrir a sua idea diaria no fundo das chavenas de café do segundo. Também Bocage e o seu claro auditorio davam alôr á imaginativa, emborcando os calices de genebra, de cró, de champurrião e de philippina, nos dois celebérrimos cafés do Rocio. O café e bilhar do Nicola foi estabelecido pelo italiano Nicolau Vitaliano, o Nicola, em 1779, occupando duas lojas do predio de D. José da Silva Pessanha. sito no Rocio, n.ºs 22, 23, 24 e 25, sendo as primeiras duas portas destinadas ao bilhar. N'aquella época, os botequins enxameavam pelo Rocio. porque só no quarteirão dos frades de S. Domingos havia oito e no quarteirão dos Padres Vicentes (actual Francfort-Hotel) havia um e a loja de registos de Pedro Zanarte.

Café Nicola [1932]
Praça D. Pedro IV (Rossio)
A multidão em frente da sucursal de O Século, lendo as notícias sobre a 3ª Volta Ciclista a Portugal
Fotógrafo não identificado, in Arquivo do jornal O Seculo

Os preços das bebidas do Nicola em 1798 eram estes: almoço de café com torradas ou biscoitos, 200 réis; copo de ponche ou limonada, 30 réis; frasquinho de licôr 40 réis; copo de philippina ou de neve, 200 réis; bule de chá, 150 réis. No botequim da Opera estas bebidas duplicavam de preço. O Nicola foi trespassado a Joaquim Coelho de Athayde em 1801, conservando-se com o mesmo titulo que tambem serviu de alcunha ao novo proprietario. Este café archi-celebre acabou em 1834. Mas ainda hoje existem descendentes do segundo Nicola (o Athayde). Este ultimo teve uma filha, Rosa Nicola. depois Rosa Pinto, que foi actriz no theatro de D. Maria ll. estreiando-se na peça Um Par de Luvas." [2]

Café Nicola, fachada [1929]
Praça D. Pedro IV (Rossio)
Fotógrafo não identificado, in Arquivo do jornal O Seculo

Refere Tinop na sua divertida «Lisboa d'outros tempos» um episódio picaresco envolvendo a polícia e o poeta Bocage que regressando certa noite do café do Nicola a sua casa, foi detido por uma patrulha da policia, que «aponlando-lhe as pistolas aperradas, lhe perguntou quem era, d'onde vinha, e para onde ia. Outro, que não elle, sentiria passar á fllôr da pelle um frémito gelado, sentiria o terror de ser preso como suspeito, o que, n'esse tempo, não era brincadeira. Bocage, porém, respondeu imperturbável:
Eu sou o Bocage,
Venho do Nicola.
Vou pr'o outro mundo,
Se dispara a pistola.»
[3]

Café Nicola, interior [1935]
Praça D. Pedro IV (Rossio)
 Os quadros das paredes são do pincel de Fernando Santos, e representam passos anedóticos da vida literária e romântica do Poeta [Bocage]. A estátua  que se vê ao fundo da Sala, e que esteve primeiramente no exterior, é do escultor Marcelino Ncrte de Almeida (1929) [ARAÚJO, 1939]
Fotógrafo não identificado, in Arquivo do jornal O Seculo

Bibliografia:

[1] (Serões: revista mensal illustrada, 1909)

[2] (ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XII, p. 74)

[3] (Lisboa d'outros tempos: Os Cafés, p. 56-57, 1898)

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