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sexta-feira, 8 de novembro de 2024

Panorâmica da Estrela tomada do zimbório da Basílica da Estrela

Do majestoso zimbório da Basílica da Estrela — a que se pode ascender depois de galgados mais de 200 degraus — o panorama de que ali se desfruta é dos mais belos de lisboa. 

Se da maioria dos pontos altos de lisboa se avista a parte antiga da cidade — recorda o Guia de Portugal (1924) —  o que aqui domina inteiramente no conjunto é a  cidade moderna. O espectáculo torna-se por isso mais claro e mais alegre, variado ainda pela abundância de pequenos bosques e jardins, desdobrados como numa grinalda. Logo a O. a tapada da Ajuda, hoje já muito rarefeita, e a mole enorme do palácio; mais para cá a mancha verde do parque das Necessidades, e a seguir a parada sombria dos ciprestes dos Prazeres. Ao longe desdobra-se o espinhaço de Monsanto, e mais além e a NO. as alturas de Sintra. Para o N. abrange-se a cidade nova, e logo em baixo repousa o olhar a frondosa espessura do Jardim da Estrela, continuada ao fundo com os belos ciprestes do cemitério dos Ingleses. A E. avista-se o Castelo, a torre de S. Vicente e mais abaixo as da Sé, um pouco perdidas na massa escura dos telhados. Ao S. abre-se enfim, maravilhosa de luz e de amplidão, a enseada do Tejo, a melo da qual se ergue o pontal de Cacilhas, avançando no rio como a proa duma nau.

Panorâmica da Estrela tomada do zimbório da Basílica da Estrela |entre 1926 e 1936|
Vêem-se os terrenos onde virá a ser rasgada a Avenida Infante Santo nas décadas de 1940/50, o Hospital da Estrela, antigo Convento do Sagrado Coração de Jesus, um trecho do Aqueduto das Aguas Livres [demolido], uma nesga do Tejo e a Outra Banda.
António Passaporte,  in Lisboa de Antigamente

Nota(s): Conforme o Edital de 13 de Maio de 1949 «o arruamento em construção, que ligará a Avenida 24 de Julho à Estrela, compreende parte da Rua Tenente Valadim, desde o término da curva do prédio do Estado (Instituto Maternal); parte da Travessa dos Brunos prédios nºs 22 e 24 e, ainda, a Rua da Torre da Pólvora» passou a ser a Avenida Infante Santo.

Obras para abertura da Avenida Infante Santo |1949|
Junto ao Hospital Militar Principal, à Estrela
Judah Benoliel, in Lisboa de Antigamente

sábado, 10 de dezembro de 2016

Jardim da Estrela

Ora eis-nos no Jardim da Estrela [ou Guerra Junqueiro], um dos maiores e mais formosos de Lisboa central, e seguramente — desaparecido que foi o velho Passeio Público — o de mais tradições alfacinhas, e que se envolve, pela sua característica infantil, numa atmosfera de ternura. 

   
Na segunda década do século passado [XIX] os chãos, onde veio a construir-se este Jardim, eram de cultivo, com alguns casebres, pertencentes a um António José Rodrigues. A ideia do Jardim neste lugar deve-se ao Marquês de Tomar e a sua realização a um donativo inicial de quatro. contos feito por um português do Brasil, Joaquim Manuel Monteiro. A obra começou em 1842, mas esteve interrompida, por motivo de lutas políticas, de 1844 a 1850. Finalmente a plantação começou naquele ano, sob a orientação dos jardineiros Bonard e João Francisco;  em Abril de 1852 foi aberto ao público.

Panorâmica da Estrela tirada do zimbório da Basílica da Estrela [1911]
Jardim da Estrela; Estufa do Jardim da Estrela; Igreja de Santa Isabel, à esq. em último plano.

Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente
Panorâmica da Estrela tirada do zimbório da Basílica da Estrela [194-]
Jardim da Estrela; Liceu Pedro Nunes; Av. Álvares Cabral

Judah Benoliel, in Lisboa de Antigamente
Panorâmica da Estrela tirada do zimbório da Basílica da Estrela [1911]
Jardim da Estrela; Igreja e Antigo Convento de Nossa Senhora da Estrela [Hospital Militar Principal

Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente
   
O Jardim da Estrela esteve na moda durante toda a metade do século passado: era então o «Passeio da Estrela» das nossas românticas avós, ainda meninas. Neste Jardim existiu, aí por 1876, o famoso «Leão da Estrêla», lindo animal que fora doado pelo colonial Paiva Raposo, e esteve exposto, em sua jaula própria, no alto do parque. Demos uma volta por este encantador recinto.
Como vês «está-se aqui bem». Devia haver nesta Lisboa, privada de parques centrais, meia dúzia de jardins como este.  

Jardim da Estrela, garden party [c. 1911]
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente
A rainha Dona Amélia no Jardim da Estrela [ant. 1908] 
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Frondosa vegetação, bem disposta em paisagem — dragoeiros, plátanos, álamos, tílias, araucárias, abundância de rosas na primavera e verão — , canteiros, cascatas, lagos onde vogam cisnes, grutas artificiais, estufas com exemplares raros, alameda, ondulações de terreno habilmente aproveitadas — o Jardim da Estrela honra a Câmara Municipal. 
Aqui temos a embelezar as placas de verdura, algumas peças de arte, que merecem citação: «A Filha do Rei Guardando Patos», por Costa Mota, sobrinho, o «Despertar» por Simões de Almeida, sobrinho, «O Cavador», por Costa Mota, tio, estes preciosos bichos, em faiança das Caldas, por Rafael Bordalo, «A Fonte» por Maria Glória Ribeiro da Cruz, ainda esse busto em bronze do Actor Taborda — ajudam a compor no ambiente paisagista um vinco de espírito puro, que sempre da obra de arte irradia. 

Jardim da Estrela [c. 1960]
«A Filha do Rei Guardando Patos»,Costa Mota, sobrinho
Artur Inácio Bastos, in LdA
Jardim da Estrela [post. 1911]
«Despertar», Simões de Almeida
Artur Benarus, in LdA

Lisboa foi sempre, Dilecto, uma cidade de eirados e miradouros. Não se poderá dizer que houvesse sido algum dia uma urbe ajardinada, na qual se rasgassem parques centrais. 
As quintas dos velhos palácios foram desaparecendo com eles, retalhadas e aforadas pelo improviso urbano. 
Daí o carinho que de mim transparece ao falar-te de um «Passeio» tão gracioso como o da Estrela.
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XI, pp. 47-48, 1939)

Jardim da Estrela [post. 1914]
«O Cavador», por Costa Mota, tio
Artur Bárcia, in LdA
Jardim da Estrela [post. 1912]
«Busto do Actor Taborda», Mota, sobrinho
Artur Bárcia, in LdA










   .

domingo, 19 de julho de 2015

Basílica do Sagrado Coração de Jesus (ou da Estrela)

A Basílica do Coração de Jesus, obra dos arquitectos da escola de Mafra, foi consagrada em 1789, já no Convento se haviam recolhido as freiras carmelitas de Santo Alberto. O Zimbório é o coroamento audacioso desta mole arquitectónica.

Na sua imponência alcandorada a Basílica é o frontal da mais alacre praça de Lisboa. [Araújo: 1943]

 
A Basílica da Estrela nasceu da devoção de D. Maria I, a Piedosa, ao culto do Sagrado Coração de Jesus. Em 1760, aquando do seu casamento com o Infante D. Pedro, a ainda princesa, fez um voto ao Santíssimo Coração, de lhe erguer uma igreja e convento para as religiosas da Regra de Santa Teresa, pedindo o nascimento de um filho varão. D. Pedro contribuiu para a causa, cedendo os terrenos do Casal da Estrela, na parte ocidental de Lisboa. No entanto, desde logo se depararam uma série de obstáculos à devota princesa, apenas ultrapassados aquando da sua subida ao trono: dificuldades técnicas e económicas (estava em curso a reconstrução da capital após o terramoto de 1755, para a qual o Marquês de Pombal havia disponibilizado todos os meios), bem como teológicas, já que o culto ao Sagrado Coração além de polémico não era aceite pela ortodoxia católica, porque "revalorizava a natureza humana de Cristo sobre a divina" o que implicava uma mudança quase radical na mentalidade e modo de encarar os dogmas da Igreja da época. De facto, só o Papa Pio VI, no final do século XVIII, o aprovará.

Real Basilica do S.mo Coração de Jesus = Royal Basilique du Sacré Coeur de Jesus [c. 1845]
Basílica da Estrela, iniciada em 1779 consagrada em 1789 e concluída em 1790.
A Fachada, principal, ao alto de um largo adro de dois planos servidos por escadarias, circundados por vinte e dois marcos de pedra lavrada, desenvolvida em dois planos no sentido horizontal, seccionada em três corpos, dos quais os laterais levemente recuados.
Desenho de Legrand, C., 1839-1847 e Litografia de Manuel Luís da Costa, in Lisboa de Antigamente

A obra é confiada a Mateus Vicente de Oliveira, arquitecto da Casa do Infantado que tinha participado em obras de vulto, nomeadamente no Palácio de Queluz. Entre 1778-79 realiza dois projectos de estilo Barroco, que atingira o desenvolvimento pleno em Portugal no reinado de D. João V, avô de D. Maria I. Tratava-se duma basílica de planta maneirista em cruz latina, onde no transepto existia uma cúpula que iluminava a parte central do espaço, deixando o restante na penumbra e que tinha uma nave única em vez das três habituais. 
A fachada tinha dois pisos, com o corpo central de três tramos saliente, onde foi usado o jogo entre pilastras e colunas para a divisão dos mesmos (empregou-se a ordem jónica, feminina, própria para conventos de freiras), sendo ladeada por duas torres sineiras e encimada por um frontão ondulado denunciando a influência do arquitecto italiano Borromini. Elementos típicos do vocabulário barroco são também as estátuas da oficina de Machado de Castro, que adornam a fachada e a imponente escadaria que projectando-se sobre o seu exterior, "promove o diálogo entre o edifício e a cidade". Esta monumentalidade e efeito cénico próprios dos edifícios do Barroco, eram usadas para cativar os fiéis, prolongando todo o espectáculo para fora.

Basílica do Sagrado Coração de Jesus (ou da Estrela) [1866]
Praça da Estrela
A Fachada principal, ou frontaria orientada a Norte, e nela, a colunata do corpo central; a decoração esrnlt6rica da sobreporta, do tímpano e do povoamento dos nichos nos dois entablamentos; o coroamento alteroso das torres sineiras.
Francesco Rocchini, in Lisboa de Antigamente

A partir de 1786, o arquitecto Reinaldo Manuel dos Santos é encarregado de terminar a basílica, elaborando um terceiro projecto, aquele que foi seguido, onde introduziu algumas alterações — segundo a tradição — a causa da morte de Mateus Vicente. Substituiu o frontão contracurvado por um triangular e adornou-o com uma profusão de estátuas e fogaréus ondulados, ao mesmo tempo que procedeu ao "alteamento da cúpula com zimbório e lanternim" e enfeitou as torres sineiras de ornatos e arrebiques, que apesar de tudo lhes conferiram uma certa elegância rococó, linguagem estilística que se estava a adoptar. Se há quem considere a Basílica da Estrela uma versão reduzida da de Mafra (obra anterior da época joanina), à intervenção de Reinaldo dos Santos se deve. A questão não é tanto qual o projecto de maior qualidade estética, mas antes o que melhor se adequava a uma igreja e convento de carmelitas, que na sua existência contemplativa prezam acima de tudo a pobreza material e a simplicidade.

Basílica da Estrela [s.d.]
Praça da Estrela
O Zimbório, acima do terraço das torres sobre o cruzeiro da Basílica, cintado, rasgados de janelões, coroado de cúpula grandiosa rematada por lanternim.
Estúdio Mário Novais, 
in Lisboa de Antigamente

Quanto ao interior, este prima pela harmonia da traça, pela nobreza dos materiais usados (pedra de lioz, mármores brancos de Pero Pinheiro, azuis de Sintra, rosas de Negrais, amarelos de Lousa e negros de Cascais) e pela qualidade da maior parte das pinturas, que o tornam num espaço duma sobriedade que prenuncia o Neoclássico.

A sagração da Basílica teve lugar em Novembro de 1789, numa cerimónia de pompa e circunstância, uma década após o lançamento da primeira pedra, resultado da firme vontade de D. Maria I, enquanto que o projecto de Pombal para a sua cidade iluminada se arrastaria até final do século XVIII. 
Como diz Nuno Saldanha no Livro de Lisboa, é uma obra sintomática de um final, do Antigo Regime e do Barroco mas reflecte o início de uma espiritualidade moderna.  
A Basílica foi a primeira igreja do Mundo a receber o título de lugar de culto ao Sagrado Coração sancionado por bula pontifícia, culto esse que se propagaria ao longo dos séculos seguintes.
 
Basílica da Estrela [195-]
Perspectiva tirada do Jardim da Estrela
A Basílica do Coração de Jesus, ou da Estrela, pode ser considerado uma miniatura da Basílica de Mafra, à parte as extensões co1iventuais, as proporções e o desenvolvimento das torres sineiras que se observam nesta última; notam-se analogias no trabalho dos artistas, em certos perfis e no semblante exterior.
Judah Benoliel, 
in Lisboa de Antigamente


N.B. O túmulo monumental de D. Maria I (falecida no Brasil em 1816), todo em mármores, com sarcófago alto e inscrição, obra de Faustino José Rodrigues, e colocado do lado esquerdo da Capela-Mor.

Basílica da Estrela [195-]
Túmulo monumental de Dona Maria I
Mário de Oliveira, 
in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
BORGES, Nelson Correia, " História da Arte em Portugal - Do Barroco ao Rococó ", Volume 9, Publicações Alfa, 1986, Lisboa.
SALDANHA, Nuno, " O livro de Lisboa - A Basílica da Estrela ", Capítulo VIII - Destaque I, Lisboa, 1994.
ARAÚJO, Norberto de, Inventário de Lisboa, 1944.

domingo, 30 de junho de 2019

Convento e Igreja do «Corpus Christi», aos Fanqueiros

Ora aqui chegamos ao antigo Largo dos Torneiros, — recorda-nos Norberto de Araújo —  que se sucedeu na designação oral de uma antiga Rua dos Torneiros ou da Tornoaria e que, antes do Terramoto, é claro, ia dar ao Largo de S. Nicolau. Vês êste edifício, bem curioso, da esquina, propriedade de rendimento, com lojas de comércio, de um exterior manifesto de antiga Igreja ou Casa Religiosa?

Pois foi aqui, com efeito, um Convento: o do Corpus Christi, ou dos frades torneiros, nome que a êles derivou do sítio onde se arruavam os homens dos tornos.

 

O Convento do Corpus Christi pertencia aos religiosos carmelitas descalços de Santo Alberto, e foi construído em 1648 a expensas da Rainha D. Luiza de Gusmão, em sinal de agradecimento per o Rei, seu marido, haver escapado de um atentado que — diz-se — neste sitio se projectou contra ele. O Terramoto destruiu-o; foi reedificado, mas em 1834 entrou nos próprios nacionais e foi vendido.

O episódio foi rapidamente aproveitado como instrumento de propaganda contra Castela, servindo igualmente para reforçar a tese da protecção divina do reino de Portugal, associada à devoção pelo Santíssimo Sacramento. A capela integrava-se assim num conjunto de obras régias de forte carga ideológica, apresentando-se como um dos primeiros monumentos de celebração do sucesso da Restauração. O convento anexo foi edificado posteriormente, e entregue aos Carmelitas Descalços em 1661, embora as obras se tenham prolongado pelo menos até à primeira década do século seguinte.

Convento e Igreja do «Corpus Christi» [1968]
Antigo Largo dos Torneiros
Rua dos Fanqueiros nº 113-117,Rua de São Nicolau nº 2-16,  Rua dos Douradores nº 50-62
Destruído em 1755 pelo Terramoto e pelo consequente incêndio, sobreviveram parte do corpo da igreja e alguns espaços conventuais, que foram adaptados à estrutura arquitectónica e às ordens impostas para a reconstrução da baixa da cidade e implementado pelos arquitectos da Casa do Risco.
Armando Serôdio, in Lisboa de Antigamente

Da campanha de obras inicial, concebida por Teodósio de Frias, conhecem-se algumas descrições. Segundo fontes coevas, o templo, de planta quadrada, erguia-se sobre um soco baixo, tendo torre sineira e fachada vazada por pórtico de arcada dupla dando acesso ao portal de feição clássica, enquadrado por duas janelas e encimado por frontão ornado com as armas reais e por um nicho. No interior destacavam-se os alçados marcados por grandes arcos redondos, rematados por cimalha e articulados com as trompas de apoio ao zimbório, as seis tribunas, uma de maiores dimensões, e ainda os mármores de revestimento.
Com o Terramoto de 1755 e o incêndio subsequente, o convento terá sofrido destruição quase total, ficando a igreja muito arruinada, embora possivelmente de pé. A sua reedificação no mesmo local não terá sido decidida de imediato, já que para aí esteve inicialmente prevista a vizinha Igreja de São Nicolau. Quando enfim tomou corpo, a reconstrução, a cargo do arquitecto Remígio Francisco de Abreu, integrou os edifícios na malha ordenada da Baixa Pombalina, e o novo convento, ocupando quase todo o quarteirão, foi parcialmente dividido em lojas e apartamentos para aluguer, destinadas a proporcionar rendimento aos frades.

Convento e Igreja do «Corpus Christi» [c. 1940]
Antigo Largo dos Torneiros
Rua dos Fanqueiros nº 113-117,Rua de São Nicolau nº 2-16,  Rua dos Douradores nº 50-62
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

A igreja oitocentista reproduzirá pelo menos os traços fundamentais do templo original, sendo mesmo possível que tenha incorporado parte da estrutura sobrevivente, suposição permitida pela análise da planta e da sua inserção urbanística, dos alçados internos, com cobertura em cúpula assente igualmente em quatro arcos com cimalha corrida, e de alguns revestimentos marmóreos de embutido largo, muito empregue na arquitectura portuguesa da primeira metade do século XVII. A planta centralizada (quadrado de cantos cortados), que constitui caso único na Baixa Pombalina, conserva o simbolismo de moimento, e até de martyrium, do edifício anterior, evocando o milagre da vitória régia sobre a morte, com uma conotação funerária que fora igualmente aproveitada aquando do sepultamento provisório de D. Luísa de Gusmão, em 1666. O espaço interior esteve dividido em sobrados, sendo hoje possível voltar a admirar a sua grande altura, bem como o esplendor dos mármores brancos, negros e rosa, iluminados pelas oito janelas da cobertura.
A actual frontaria é o resultado de uma série de alterações posteriores à extinção das ordens religiosas [1834] e à consequente venda e remodelação do templo e do convento para usos comerciais, nomeadamente o desaparecimento do portal de frontão curvo interrompido da igreja pombalina, de que resta um desenho do século XIX, substituído por três portas de verga recta no piso térreo e igual número de janelas de sacada no segundo andar. As janelas do terceiro andar mantiveram-se, embora com alterações, sendo ainda hoje encimadas pelo frontão contracurvado, único elemento da fachada a recordar a antiga função religiosa, apenas coadjuvado pelo zimbório octogonal que sobressai da regularidade dos telhados pombalinos.

Convento e Igreja do «Corpus Christi» [c. 1940]
Antigo Largo dos Torneiros
Rua dos Fanqueiros nº 113-117,Rua de São Nicolau nº 2-16,  Rua dos Douradores nº 50-62
A original igreja de planta circular com o zimbório octogonal encimado por um pináculo é
ainda visível actualmente, bem como o portal da entrada da igreja, hoje convertido em acesso
a um prédio típico da baixa.
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XII, p.39, 1939.
SOROMENHO, Miguel, SANTOS, Maria Helena Ribeiro dos, O Convento de Corpus Christi: um caso de estudo, Monumentos, n.º 21, pp. 116-131, DGPC, 2004.

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

As Torres da Estrela

As Torres fazem o encanto místico das cidades que se desentranharam em devoção. Elas, e as chaminés das fábricas, são as espigas altas da seara urbanista. Das chaminés sai fumo; das torres eleva-se o incenso do passado religioso, e, com ele, certa poesia que pelos bairros se dilui. 


As torres da Estrela vêem-se de toda a parte. As ruas convergentes à Praça são enfiamentos perspectivais que o acaso desenhou, ao fundo dos quais, sobre a ramaria dos jardins ou sobre a amálgama do casario da Lapa, se destaca em alvura a silhueta do Zimbório, coroado de lanternim, acolitado na cerebração visual pelas duas torres da frontaria, simétricas e finas, diáconos do bom abade, vestido de baroco.  
A Basílica do Coração de Jesus, obra dos arquitectos da escola de Mafra, foi consagrada em 1789, já no Convento se haviam recolhido as freiras carmelitas de Santo Alberto. O Zimbório é o coroamento audacioso desta mole arquitectónica. Em seu redor, por todos os quadrantes, Lisboa desdobra-se em quadros iluminados. Na sua imponência alcandorada a Basílica é o frontal da mais álacre praça de Lisboa.

Basílica do Sagrado Coração de Jesus (ou da Estrela) |ant. 1913|
Praça da Estrela
Em primeiro as carruagens do antigo Elevador Estrela.Camões extinto em 1913
Marcel Dieulafoy, in Lisboa de Antigamente

Cruz Alta erguida sobre o espelho verde-azul do Tejo, a lupa assestada sobre a grinalda dos parques aristocráticos, sobre o tumulto das docas e cais, sobre as humildes distâncias bairristas. 
Ave-Maria do Ocidente, chega-lhe ao alto a respiração cálida da cidade. 
O monumento, tal a Praça e o Jardim da Estrela, deve este nome — tão lindo como o da Graça e o da Alegria — à vizinhança fronteiriça do Hospital Militar, que fora desde 1571 a 1818 o Convento de Nossa Senhora da Estrela, dos frades de S. Bento, casinha erigida sob uma lomba de olivais. 
A Basílica leva cento e cinquenta anos. A Estrela é quinhentista na designação. 
 Pelo sítio amável deste bairro, hoje dilatado e formoso, passam ainda o capuz de um frade e a sombra do jumentinho que levava os cestos de azeitona dos olivais de S. Bento aos lagares da Horta Navia. 

Basílica do Sagrado Coração de Jesus (ou da Estrela) |ant. 1913|
Praça da Estrela

 M
arcel Dieulafoy, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de Araújo, Legendas de Lisboa, pp. 84-85, 1943.

domingo, 28 de agosto de 2022

Praça do Príncipe Real: a Patriarcal e a Praça do Rio de Janeiro

Estamos numa das praças mais lindas, e mais «alfacinhas» de Lisboa  — a Praça do Rio de Janeiro [e de novo, desde 1948, do Príncipe Real]. Deves ter no ouvido algumas das designações deste largo terreiro  e eu, — diz Norberto de Araújo —  sempre por curiosidade, tas relembro pela ordem das idades: «Chãos da Ferrôa» no século XVI, a mais antiga que se lhe conhece; «Alto da Cotovia», denominação que perdurou mesmo através de outros dísticos posteriores, municipais e populares; sítio das «Casas do Conde de Tarouca», cerca de 1755; «Patriarcal Queimada», depois de 1769; sítio das «Obras do Erário Novo», em 1810-1815; «Praça do Príncipe Real», em 1855; «Praça do Rio de Janeiro» depois de 1911.

Em boa verdade esta Praça é das mais modernas da capital, no seu aspecto urbano e paisagista; data assim de 1879. A sua regularidade é contudo notável, e respira um ar sadio, gozando desafogo, uma relativa tranquilidade, e oferecendo curiosos aspectos: pousio de «reformados» à sombra do velho cedro copado, com sessenta anos idade, brinco de crianças, jardim «de estar» dos nostálgicos e desocupados inocentes.
Pois, Dilecto, sentemo-nos também à sombra do cedro, ouvindo cantar o repuxo do lago, que mal se distingue no murmúrio afogado do conjunto entre o espesso arvoredo que tem resistido às devastações do tempo.

Praça do Príncipe Real |1940|
Antiga Praça do Rio de Janeiro
A praça foi traçada em 1853 e o jardim, plantado em 1869, projecto do jardineiro João Francisco da Silva. Em termos urbanísticos é um exemplo do Romantismo das últimas décadas do século XIX.
«O Príncipe Real é um largo deliciosamente arborizado. Do seu harmonioso conjunto, destacam-se o majestoso cedro, considerado de interesse público, a deliciosa araucária e os formosos ulmeiros, também como tal distinguidos e as decorativas palmeiras. A «araucária columnaris» (araucária colunar — Nova Caledónia), de aspecto altaneiro e delgado, forma com o corpulento «cupressus», uma estranha parelha, que aos espirituosos frequentadores do recinto não passou despercebida, e por isso atribuem esse local de recreio o dito popular de Jardim do Bucha e do Estica». [Lisboa em quatro horas e Lisboa em quatro dias, 1895]
Judah Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Um pouco antes de 1755, neste alto cômoro da Cotovia, sobranceiro sobre a ponta do Salitre e portas de Valverde — mais largo para norte do que é hoje [em 1938], depois de urbanizado — existia apenas o Palácio dos Penalvas, à esquina das actuais Escadinhas da Mãe d'Água, e ao fundo do curto Arco do Evaristo. No centro da actual Praça andava o Conde de Tarouca construindo um Palácio, e ao local, por isso, chamava o povo «Casas do Conde de Tarouca», e o povo crisma a seu bel-prazer os sítios e as coisas, de modo que as denominações acabam por entrar na linguagem oficial e, quando as Câmaras as alteram ou corrompem, levam lustros, levam até séculos a apagar-se.
O Terramoto abalou inteiramente o edifício Tarouca soerguido, resignando-se o fidalgo no infortúnio, e compondo versos sobre os destroços.
Como a Patriarcal, que estava assente na Capela Real do Paço da Ribeira, tivesse ardido no dia do horroroso cataclismo, deliberou-se, após hesitações, transferir a Basílica para os restos, de pé, do palácio Tarouca, na «Cotovia»; a bênção foi dada em 26 de Junho de 1756, e logo nesse ano se realizou uma procissão, depois repetida, que deu o nome à Rua da «Procissão» (desde há poucos anos denominada de «Cecílio de Sousa»). 

Praça do Príncipe Real |c. 1869|
Lago octogonal com repuxo; ao fundo notam-se as torres e zimbório da Basílica da Estrela. 
Ао repuxo dedicou Júlio de Castilho um hino de ternura, mais próprio de poeta, como o Mestre se mostrava muitas vezes: «Quando ele arroja, metros ao alto, as suas pérolas fluídas, decompondo a luz, sussurrando frescura, e espadanando-se todo vaidoso no azul da atmosfera, está, muito de industria, repassando as águas nos gazes aéreos que as vivificam e as tornam potáveis; pensa em nós; prepara para nós a melhor das bebidas; colabora na higiene da Cidade. Aquele tanque é um sábio: reconhece as leis da física; sabe que os líquidos, vindo de longe, impregnando-se do calcário dos canos, e morando lá em baixo às escuras, se tornam pesados; quer aligeirá-los , banhá-los de sol e de oxigénio. Aquele tanque é um poeta utilitário: mistura habilmente o Belo e o Bom. Olhemos pois com gratidão para esse pequenino Oceano de puríssimas linfas, que abastecem as cozinhas, e amanhã brilharão aos poucos nas nossas taças de cristal. [Lisboa Antiga: 1904]
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

E a Igreja [armada em madeira] foi-se construindo, no edifício adaptado; era imponente: três naves, largo cruzeiro, quinze capelas, um zimbório oitavado, e anexos esplêndidos. Treze anos perdurou: a Patriarcal foi devastada por um terrível incêndio em 10 de Maio de 1769, obra criminosa de um empregado da Igreja, que pelo fogo queria ocultar seus sacrílegos roubos; foi justiçado, depois de lhe cortarem as mãos no próprio local onde os escombros fumegavam ainda. E aí está a origem da designação de «Patriarcal Queimada».[...]
As ruínas e montes de pedregulho ficaram por aqui durante dezenas de anos, ninho de valhacoutos. Em 1807 pensou-se em levantar no sítio o novo Erário Régio, a casa do Tesouro (pois ardera o do Rossio) mas o projecto, que era do Visconde de Vila Nova da Cerveira, não teve seguimento, embora se chegasse a começar a obra, e nela se gastassem alguns milhões de cruzados.
Em 1841 ainda o sítio continuava a ser vazadouro público e albergue de patifes. Só em 1856 se começou a terraplanar o local, que pouco depois recebeu iluminação. Já chamada «Praça do Príncipe Real», em 1859, começou então a estudar-se o seu aformoseamento, com a construção dum lago, por acordo entre a Câmara e a Companhia das Águas; os restos da «Patriarcal Queimada» foram então destruídos a tiros de pólvora.

Praça do Príncipe Real |1945|
Antiga Praça do Rio de Janeiro
 Localizado no subsolo da Praça, existe o Reservatório da Patriarcal, projectado em 1856 pelo eng. francês Mary. Construído entre 1860 e 1864 para servir a rede de distribuição de água da zona baixa da cidade. 
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente
Praça do Príncipe Real |1945|
Antiga Praça do Rio de Janeiro
 No centro da praça está o monumento-memória a França Borges, o jornalista fundador de «O Mundo», foi erigido em 1924; é obra de Maximiano Alves; à dir. observa-se destaca-se o Cedro-do-Buçaço, árvore secular com mais de 20 metros de diâmetro.
Ferreira da Cunha, in Lisboa de Antigamente

Em 1864 regularizou-se a disposição da Praça, tornando-a quadrada, e alinhando algumas edificações que entretanto se tinham erguido, o que tudo se concluiu em 1863. Construiu-se então a muralha sobre a Rua da Procissão e plantou-se este magnífico jardim, que estamos contemplando.
O «Príncipe Real» começou a existir, pequeno parque e logradoiro, com a sua ingenuidade, o seu repuxo e a sua «memória esquecida» de anteriores desgraças. E assim até hoje…==

Muralha da Praça do Príncipe Real sobre a Rua Cecílio de Sousa, antiga da Procissão |1960|
Terraço, com varanda, assente sobre muralha, que se ergueu em substituição da velha ribanceira, que por longos tempos existiu. Esta obra faz parte do arranjo geral da praça, foi concluída em 1864 e custou 3.208$400 réis. Numa lápida elucidativa, lê-se: «A Câmara Municipal mandou construir no ano de 1863». Por dois caminhos laterais, conduz à Rua da Procissão, que começou por chamar-se do Corpo de Deus e Cotovia ou simplesmente do Corpo de Deus. É hoje Cecílio de Sousa (desde 1926) a rua onde morou em 1869 o paciente bibliófilo Inocêncio Francisco da Silva, e se chamou desde 1756, ano em que, da nova Basílica Patriarcal, já implantada nas «Casas do Conde de Tarouca», saiu o grande cortejo religioso comemorativo do solene dia do Corpo de Deus.
Armando Serôdio,, in Lisboa de Antigamente

N.B. A Praça tem este nome em homenagem ao filho primogénito da Rainha D. Maria II, o futuro rei D. Pedro V — nasceu no Palácio das Necessidades, a 16 de Setembro de 1837, recebendo o nome de Pedro de Alcântara Maria Fernando Miguel Rafael Gonzaga Xavier João António Leopoldo Vítor Francisco de Assis Júlio Amélio; morrendo no mesmo local, a 11 de Novembro de 1861.
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Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. V, pp. 65-68, 1938.

quarta-feira, 5 de abril de 2017

Palacete dos Navegantes, Casa de José Luciano de Castro

Nestas Ruas da Bela Vista e dos Navegantes, os prédios urbanos levam, em regra, 65 e 75 anos [o autor escreve em 1938]; alguns  remontarão  ao principio do século passado e só um outro, já desfigurado, ao final do século de setecentos. O magnifico palacete, construido pelo Conselheiro José Luciano de Castro na Rua dos Navegantes, com fundos de jardins, é do final do século passado.


Foi Aquilino Ribeiro a voz que mais se insurgiu, nos anos 50, contra a demolição (em 1956) deste palácio histórico, mandado edificar pelo Conselheiro José Luciano de Castro em 1890, no local onde se situara o antigo Palácio Sarmento, destruído por um incêndio em 1869. O palácio foi invadido pelo povo em 6 de Outubro de 1910. O velho político, apesar de muito doente, defrontou-se nobremente com os invasores.

Palácio dos Navegantes |ant. 1956|
Casa de José Luciano de Castro
Rua dos Navegantes
, 48; Rua de Buenos Aires
Judah Benoliel, in Lisboa de Antigamente
Panorâmica de Lisboa tomada do zimbório da Basílica da Estrela |1904|
Palácio dos Navegantes
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente
Legenda (clicar para ampliar):
 Edifícios/Monumentos:
1 — Palacete dos Navegantes; 2 — Igreja de Santos-o-Velho;  3 - Ermida do Senhor Jesus dos Navegantes
Arruamentos:
A — Travessa do . Pinheiro  B — Rua da Bela Vista à Lapa

José Luciano de Castro [1834-1914] foi um dos políticos mais representativos do liberalismo constitucional português. Estadista e jurisconsulto, chefe do partido progressista. Bacharel formado em Direito pela Universidade de Coimbra; advogado e jornalista. Antigo deputado da Nação, ministro de Estado honorário; do conselho de S. M.; par do reino; antigo presidente do Conselho de Ministros; conselheiro de Estado; ex-director geral dos Próprios Nacionais; vogal efectivo aposentado do Supremo Tribunal Administrativo; Governador da Companhia Geral de Crédito Predial Português, reeleito várias vezes.

Palácio dos Navegantes, 48 |ant. 1956|
Casa de José Luciano de Castro
Rua dos Navegantes; Rua de Buenos Aires
Judah Benoliel, in Lisboa de Antigamente
Palácio dos Navegantes, 48, fachada para os jardins [ant. 1956]
Casa de José Luciano de Castro
Rua dos Navegantes; Rua de Buenos Aires
Judah Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. VII, 1938.
arqnet.pt; Marina Tavares Dias.

domingo, 18 de janeiro de 2026

Cena de rua na Praça da Estrela

A Basílica leva duzentos e vinte anos {em 1939]. A Estrela é quinhentista na designação. Pelo sítio amável deste bairro, hoje dilatado e formoso, passam ainda o capuz de um frade e a sombra do jumentinho que levava os cestos de azeitona dos olivais de S. Bento aos lagares da Horta Navia.

Cena de rua na Praça da Estrela |c. 1900|
Enquanto os quatro muares puxam uma carroça de transporte, o burrico vai comendo a aveia do seu embornal.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente
Cena de rua na Praça da Estrela |c. 1900|
No lugar daquele urinol em ferro forjado irá surgir, em 1909, o quiosque do Jornal o Seculo.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

A Basílica do Coração de Jesus, obra dos arquitectos da escola de Mafra, foi consagrada em 1789, já no Convento se haviam recolhido as freiras carmelitas de Santo Alberto. O Zimbório é o coroamento audacioso desta mole arquitectónica.
Na sua imponência alcandorada a Basílica é o frontal da mais alacre praça de Lisboa. [Araújo: 1943]

domingo, 16 de janeiro de 2022

Rua Domingos Sequeira

Pois desçamos de novo a Rua da Estrela; estamos no começo da moderna Rua Domingos Sequeira — recorda Norberto de Araújo —, cujo lado oriental é moderno, em contraste com as casas e velhos pátios do lado poente. O edifício do Dispensário da Associação Nacional aos Tuberculosos data de 1932; adiante desta graciosa edificação vê-se ainda parte dos barracões, o pitoresco «car-barn» [ao fundo à esq.] dos ascensores da Estrela, os famosos «maxibombos» que precederam nesta linha, há cerca de trinta e cinco anos, a viação eléctrica.
O «Cinema Paris», edifício que segue, foi erguido em 1930, e dele é proprietário, Máximo Pinto. Não tem nada de notável.

Rua Domingos Sequeira [1932]
«Pintor 1768-1837»
Em 04/06/1957, foi acrescentada ao topónimo a legenda «Pintor 1768–1837». 
Basílica do Coração de Jesus ou da Estrela; Convento do Coração de Jesus, actual Instituto Geográfico e Cadastral. 
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

A Rua Domingos Sequeira foi traçada, pela CML em Fevereiro de 1887, dada a necessidade de ligar o bairro de Campo de Ourique às áreas vizinhas, e, consequentemente, ao centro da cidade. Apenas em Junho de 1905 estaria em funcionamento a linha eléctrica do tramway, concretizando-se a ligação entre o Largo do Rato e a Praça da Estrela, através da Rua Ferreira Borges. [Informação prestada pela n/leitora Susana Maia E Silva]

Panorâmica da Estrela tirada do zimbório da Basílica da Estrela, vendo-se a Rua Domingos de Sequeira [1941]
Nesta imagem, observa-se o antigo Dispensário da Associação Nacional aos Tuberculosos, hoje infantário. e o Cinema Paris. Na esq. baixa corre a Rua de Santo António, à Estrela.
O pintor Domingos Sequeira foi colocado há 129 anos na toponímia de Lisboa, por deliberação camarária de 4 de Novembro de 1887. 
Judah Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Nota(s): O topónimo homenageia Domingos António Sequeira, pintor que em 1802 foi nomeado pintor real e co-director da pintura do Palácio da Ajuda. Também em 1806 foi director da Aula de Desenho, no Porto. A Vilafrancada fê-lo emigrar para Paris e em 1826 fixou-se em Roma onde executou obras sacras. Foi também gravador e aquele que executou as primeiras litografias em Portugal. A sua obra está representada no Museu Nacional de Arte Antiga. [cm-lisboa-pt]
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Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XI, p. 54, 1939.

quarta-feira, 1 de julho de 2015

Avenida da Liberdade: Quiosque Tivoli

A vida da época, em Lisboa, por volta de 1870, processava-se predominantemente nas ruas, à custa dos estratos sociais mais baixos: o proletariado e a pequena burguesia.
A grande burguesia e os aristocratas pouca vida de rua faziam. Frequentavam antes os botequins, considerados muito caros já na altura. Foi, pois, com aqueles «alfacinhas» que os Quiosques começaram a proliferar aqui e além, nos pontos mais movimentados da cidade: no Rossio - como em todos os Rossios — , no Passeio Público — depois da Avenida da Liberdade — , na zona ribeirinha, nos jardins e noutros locais da Lisboa antiga, igualmente centrais, onde fervilhava a vida.
Era em redor do balcão destas casinhas que os Lisboetas conversavam e bebiam, amenizando um dia de trabalho, à ida ou à vinda do emprego, antes de irem para casa, ou aos domingos e dias festivos em descuidados passeios com a família. [Caeiro: 1987]

Quiosque Tivoli |c. 1940|
Avenida da Liberdade
Ferreira da Cunha, in Lisboa de Antigamente

Estrutura
Base quadrangular, com as faces decoradas. Balcão todo à volta. Corpo com janelas de taipais de correr, encimadas por um semicírculo envidraçado. Cúpula quadrangular aos gomos terminando com um pequeno zimbório, decorado com lâmpadas esféricas. Protecção com bordos trabalhados recortados para cima. Toldo de lona curto todo à volta.

Particularidades
Particular. Muito procurado pela lotaria e pelos jornais. Foi inaugurado em 1925 pelo Diário de Notícias. Deve o nome ao cinema inaugurado um ano depois.

Quiosque Tivoli |1981|
Avenida da Liberdade
José Neves Águas, in Lisboa de Antigamente

domingo, 9 de julho de 2017

Paço de Belém (Palácio Presidencial de Belém)

Ora temos diante de nós o Palácio de Belém, antigo Paço Real e, desde 1910, Palácio Presidencial. 

Este edifício, enriquecido de jardins e magnificamente situado, pertence à história política portuguesa dos últimos dois séculos. Não tendo grandeza arquitectónica é, contudo, simpático, paço arrabaldino ainda a denunciar-se através dos restauros, mesmo exteriores, de que tem beneficiado.

Umas casas que existiam aqui no século XVI, e os chãos largos que as circundavam, constituíam um prazo foreiro aos frades dos Jerónimos; D. Manuel de Portugal, comprou àqueles religiosos os terrenos, que se integraram no Morgadio dos Cortes Reais, o qual, havendo passado às mãos de D. Luiz de Portugal (1623) acabou per cair na posse da Condessa de Aveiras, D. Joana de Portugal, e desta na do 3.° Conde, seu filho, D. João da Silva Telo de Menezes.

Panorâmica de Lisboa abrangendo a Rua de Belém e o Palácio de Belém [Inicio séc. XX]
O Palácio é hoje monumento nacional e sede da Presidência da República Portuguesa. Chamado "das leoneiras" no século XVIII, parece ter como emblema o leão — símbolo solar que alia a Sabedoria ao Poder. Uma bandeira de cor verde com o escudo nacional — o estandarte presidencial.
Paulo Guedes, in Lisboa de Antigamente

Foi a este fidalgo, Presidente do Senado de Lisboa de 1702 a 1711, que o Rei D. João V comprou casa e quinta em 4 de Julho de 1726 por 200.000 cruzados. Ficou sendo a «Quinta de Baixo», para a distinguir da contígua «Quinta do Meio», que o mesmo soberano comprou pouco depois — para de tudo fazer uma única propriedade de granjeio — ao Conde de S. Lourenço. 
D. João V reedificou o Palácio, embelezou os jardins com plantações, estátuas, lagos, cascastes, vasos, fontes, pavilhões, ruas e curiosas escadarias, dos quais ainda existe uma boa parte, quer na reduzida área do Palácio Presidencial, quer naquela onde se instalou o Jardim Colonial.

Palácio Real de Belém
 Real Cais de Belém e Praça D. Fernando
Desenho de Cazelhas, gravura de A. Oliveira
Pertença do Gabinete de Estudos Olisiponenses, 
in Lisboa de Antigamente
Paço Real de Belém nos meados do século XIX
Litografia de Legrand, pertence à Biblioteca Nacional, 
in Lisboa de Antigamente

A história política e diplomática do Paço de Belém não se comporta, Dilecto, no nosso plano. Do mais notável quero lembrar-te que foi aqui, a 4 de Novembro de 1836, que o tribuno liberal Manuel da Silva Passos, por ocasião da célebre «Belemzada» — que do local tirou a designação — de D. Maria II conseguiu, após palavras firmes e sinceras, que a Soberana voltasse para o Palácio das Necessidades, anuindo às pretensões do povo.
Reis e príncipes, presidentes estrangeiros, instalaram-se neste Paço quer em visitas de dois dias quer em estadias demoradas; quási todos os Reis de Portugal de D. João V até D. Manuel aqui habitaram ou transitoriamente passaram dias, embora nos últimos vinte anos de monarquia o Palácio fosse mais de receber que de estar.
Na República alguns dos Chefes de Estado têm-no habitado com permanência, mais ou menos demorada, mas todos eles em Belém dão suas recepções, assistem nas solenidades diplomáticas e permanecem nas ocasiões graves de crises.

Palácio de Belém [c. 1903]
Praça Afonso de Albuquerque, antiga Praça D. Fernando (1910)
Rua da Junqueira; Palácio Nacional de Belém e - tornejando para a Calçada da Ajuda - o extinto Picadeiro Real depois Museu dos Coches (1905); em segundo plano a torre sineira da Igreja de Nossa Senhora das Dores (1787) sita na Rua do Embaixador; logo atrás o zimbório octogonal do Convento das Salésias.
 Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente
Palácio de Belém, Pátio dos Bichos e fachada nascente do palácio [c. 1945]
Foi para alojar os grandes felinos que no reinado de D. José foi construído um conjunto de jaulas no lado norte do pátio principal do palácio. A documentação da época refere a colocação de grades para «as casas dos bichos», e em 1772 é anotada a chegada de um leão, vindo de Angola, que terá motivado o espanto de muitos.
Horácio Novais, in Lisboa de Antigamente
 
O Palácio Presidencial de Belém, cujas Salas foram restauradas há nove anos [1930], quando da anunciada visita de Afonso XIII em retribuição à que lhe fizera o Sr. General Carmona em 1929, possui magníficas instalações palacianas, e entre elas a Sala dos Bichos, na ala poente, logo acima da escadaria que nasce do Pátio dos Bichos, este com ingresso por uma rampa, pela frente à Praça Afonso de Albuquerque.
As grandes obras de arte (pintura principalmente) do Paço antigo levou-as D. João VI quando foi para o Brasil; as peças de ourivesaria e outras obras primas estão hoje no Museu de Arte Antiga, mas as Salas ostentam ainda peças de relativo valor, mesmo em mobiliário, havendo sido no terceiro quartel do século passado e já no actual o Mácio objecto de restauro, e datando dessa época decorações e quadros de Columbano, Malhoa, João Vaz, Cotrim, Félix da Costa, e de outros artistas.
Como vês, o Palácio Presidencial de Belém, repousado, «oficial», discreto, conjuga-se admiravelmente nesta Praça, à qual faz o fundo natural norte, a toda a largura da área. Anexo ao Palácio, temos o Museu Nacional dos Coches [...].

Palácio de Belém [c. 1903]
Praça Afonso de Albuquerque
Observe-se, hasteada, a bandeira monárquica.
 Fotógrafo não identificado, 
in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. IX, pp. 69-71, 1939.
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