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Sunday, 1 June 2025

Rua da Boavista

A origem do nome do sítio é projecção toponímica do Alto da Boa Vista, ou seja, ou Alto do Belver ou Belveder actual Alto de Santa Catarina. Não quero deixar de observar-te — recorda o ilustre Norberto de Araújo — que as edificações desta artéria da Boa Vista, do lado Sul, não levam cem anos (c. 1840). O edifício da Companhia do Gás sucedeu ao antigo Quartel da Brigada Real de Marinha. Foi aqui a primeira Fábrica do Gás, cujo privilégio concedido a Claudio Adriano da Costa e ao francês José Detry, datava de 3 de Maio de 1846

Rua da Boavista |ant. 1914|
O edifício do lado esq., até à esquina com o Boqueirão dos Ferreiros pertencia à «Companhia Lisbonense de Iluminação a Gaz»; em ampliando a foto observam-se, ao fundo, os sete arcos do do prédio nº 67 erguido pelo industrial Ferreira Pinto em meados do séc. XIX para «palacete de família, e constitui ainda a única nota decorativa urbana da Rua da Boa Vista.» [Araújo, 1939]
Alberto Carlos Lima, in Lisboa de Antigamente
Nota(s): o local da foto não está identificado no abandalhado amL

De facto, foi junto ao rio, meio de transporte privilegiado, que a «Companhia Lisbonense de Iluminação a Gaz» instalou, em 1846, a sua primeira fábrica de Gás; e, dois anos depois, em 1848, já Lisboa inaugurava a iluminação a gás, com 28 candeeiros, nas ruas da Baixa (Rua dos Capelistas, Rua do Ouro e Rua da Prata), no Chiado, na Rua do Alecrim, no Cais do Sodré, em S. Paulo e na Boavista.

Rua da Boavista |1940|
Companhias Reunidas de Gás e Electricidade: fachadas Norte e OesteBoqueirão dos Ferreiros.
Kurl Pinto, in Lisboa de Antigamente

Em 1914 deu-se na fábrica a formidável explosão que originou dezanove mortes, e o fabrico do gás passou então, inteiramente, para o Bom Sucesso — vizinhança da Torre de Belém — , onde ase manteve até 1949.

Rua da Boavista |1914|
Topónimo anterior ao terramoto de 1755, como vem mencionado nas Memórias Paroquiais.
Incêndio no edifício da Companhia de Gás.
Anselmo Franco, in Lisboa de Antigamente

Sunday, 15 December 2024

Rua do Alecrim que foi «do Conde»

Do fundo N. da Praça do Duque da Terceira sobe em declive violento a Rua do Alecrim, antiga Rua do Conde (de Vimioso), que, para ganhar o desnível, passa sobre dois arcos, um na R. Nova de Carvalho e outro na de S. Paulo.

Ora agora podemos ver a interessante perspectiva desta Rua do Alecrim — diz Norberto de Araújo — , com seus estabelecimentos de bric-à-brac, as fachadas dos seus prédios com recorte nas cantarias e sacadas bem desenhadas, e ao fundo um retalho do Tejo, alegria de Lisboa.
E «do Alecrim» ― porquê ? Que originou a modificação no tradicional dístico de Rua do Conde?
 
Rua do Alecrim que foi «do Conde» |1965|
Tinha um traçado pré-pombalino, sendo «uma das artérias mais características destes sítios, muito lisboeta, com o seu delicioso enfiamento até S. Roque, direita como um fuso e em dois terços da sua extensão corresponde à seiscentista Rua do Conde». [Araújo: 1939]

Armando Serôdio, in Lisboa de Antigamente

No quarteirão ao alto da Rua do Alecrim, entre esta e a Rua das Flores, uns trinta metros abaixo de onde está a Farmácia Andrade [vd. 3ª imagem], fazendo esquina para uma rua de Brás da Costa, desaparecida, existiu uma Ermida, integrada numa propriedade, fundada por D. Ana de Vilhena entre 1628 e 1641, e cuja Imagem de Nossa Senhora, que viera de S. Miguel de onde D. Ana era natural, foi chamada «do Alecrim» por inspiração de uma criança, filho da fundadora da Ermida, muito tempo antes de esta ser erigida.=

Rua do Alecrim que foi «do Conde» |Início séc. XX|
Antes de ser rua, «era o torcicolo do Cata-que-farás que serpeava, na subida, tocando,
à direita, uma confusão de casas encostadas às muralhas trecentistas de D. Fernando» [França: 1994]
Alexandre Cunha, in Lisboa de Antigamente

Uma curta paragem no Largo do Barão de Quintela onde, numa madrugada de 1866, vamos encontrar Hans Christian Andersen. Acabava de chegar a Lisboa e tinha pedido ao cocheiro que o «conduzisse ao Hotel Durand na praça perto da Rua das Flores». Num outro prédio, num «segundo andar, por trás de uma janela iluminada», está Alípio Abranhos «a olhar, desesperadamente, para a tenebrosa pacatez do Largo». O palácio Quintela, que dá o nome ao largo, possui a sua fachada principal virada para o largo e ocupa um vasto terreno entre as ruas do Alecrim e António Maria Cardoso. Foi comprado, em 1777, por Luís Rebelo (irmão de Inácio Pedro Quintela). Nesse terreno, esteve um outro Palácio, o dos condes de Vimioso, que ardeu em 1726. O largo foi terraplenado em 1788 e a estátua de Eça de Queirós, obra do escultor António Teixeira Lopes (1866-1942), que nele se encontra, foi inaugurada no dia 9 de Novembro de 1918.

Rua do Alecrim que foi «do Conde» |1965|
Palácio do Barão de Quintela e Conde de Farrobo (esq.); Farmácia Andrade
Armando Serôdio, in Lisboa de Antigamente

No primeiro lanço da rua, vindos  da Praça do Duque da Terceira, que assenta sobre dois arcos mandados construir pelo marquês de Pombal, situava-se o Hotel Bragança (no n.º 12, à direita), fundado em 1912, então como pensão, e só anos mais tarde tornado hotel, para cujo nome foi necessário obter autorização da Casa de Bragança. Foi neste hotel que Saramago hospedou Ricardo Reis, quando este regressa do Brasil, em 1935: «(...) quando o automóvel já está a dar a volta ao largo, e o motorista avisa. O hotel é aquele, à entrada da rua. Parou em frente de um café, acrescentou, O melhor será ir ver primeiro se há quartos, não posso esperar mesmo à porta por causa dos eléctricos».

Rua do Alecrim que foi «do Conde» |190-|
Não deve ser confundido este «Hotel (Pensão) Bragança (1912)» da Rua do Alecrim, 12, fundado por Manuel Miguez Simas, como simples Pensão, com o «Hotel Bragança» (ou Braganza), citado em «Os Maias» de Eça de Queirós, sito na Rua Vítor Cordon (antiga rua do Ferragial de Cima), 45.
Paulo Guedes, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
JANEIRO, Maria João , Lisboa: histórias e memórias, 2006.
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIII, p. 51, 1939.
PROENÇA, Raul, Guia de Portugal, Generalidades: Lisboa e arredores, 1924.

Sunday, 25 February 2024

Hotel Central

Estamos de volta ao velhinho Sitio dos Remolares, e ao afamado Hotel Central, desta vez na companhia de Marina T. Dias e de Eça de Queiroz.  Delineada pelos engenheiros do Marquês de Pombal, a futura Praça do Duque da Terceira permaneceu quase deserta até ao início do século XIX, constituindo então apenas parte dos vastos areais que delimitavam sul de Lisboa. Mesmo após a construção dos primeiros quarteirões a nascente e a poente, o rio chegava até ao extremo sul do largo, formando uma pequena praia no local onde mais tarde seria construída a estação de caminho de ferro da linha de Cascais. Contígua à praia, a Praça dos Remolares tinha já sido ampliada pelas obras de construção do Aterro, mantendo na tradição oral o nome do antigo cais: Sodré.
Falar do Cais do Sodré é também falar da Lisboa queirosiana — e do seu Hotel Central, Eça refere-o em Os Maias, A Capital, O Primo Basílio e A Correspondência de Fradique Mendes. A primeira hospedaria que ocupou o quarteirão com os números 20-27 do Largo (antigos números 3 a 11) chamava-se Estrella Branca (c. 1835). Em 1838 fora já trespassada à francesa Madame Lenglet que lhe deu o título de Hotel de France

(Grand) Hotel Central |c. 1875|
A oitocentista praça dos Remolares ainda sem a estátua do Duque da Terceira (1877) vendo-se ao fundo a primeira ponte de acesso aos barcos; no local onde se vê um candeeiro existiu, até 1874, um relógio de sol, conhecido por Meridiana dos Remolares. 
Rua Bernardino Costa antiga do Corpo Santo; à esq. nota-se a embocadura da Rua do Alecrim com o Alfaiate Rego (Rego Tailor) no gaveto leste.
J.. Laurent, in Lisboa de Antigamente

Sobre o rio, a tarde morria numa paz elísia. O peristilo do Hotel Central alargava-se, claro ainda. Um preto grisalho vinha, com uma cadelinha no colo. Uma mulher passava, alta, com uma carnação ebúrnea, bela como uma deusa, num casaco de veludo branco de Génova. O Craft dizia ao seu lado: Très chic. E ele sorria, no encanto que lhe davam estas imagens, tomando o relevo, a linha ondeante, e a coloração de coisas vivas.
(Eça de Queiroz, ln Os Maias, 1888)

Com uma sólida fama e um excelente serviço de mesa, o hotel recebeu hóspedes ilustres, entre eles o compositor Franz Liszt, na temporada de 1844-1845. Novamente trespassado (c. 1855), transforma-se no Hotel Central, supra-sumo da possível opulência lisboeta, com as suas ceias elegantes e as suas belas janelas então viradas para o Tejo.
O Central foi,  na Lisboa da segunda metade de Oitocentos, aquilo que o Avenida Palace viria a ser na Belle-Époque, ou o Aviz no tempo da Segunda Grande Guerra. Recebeu reis e diplomatas famosos, figuras mundanas e celebridades do universo das artes. Foi também num dos seus quartos que o próprio Eça de Queiroz terá pedido ao conde de Resende a mão da irmã deste, Emília de Castro Pamplona, sua futura mulher. O episódio é narrado por Luís Pastor de Macedo. 

Hotel Central |c. 1904|
Praça Duque da Terceira: Cais do Sodré. Ao fundo observa-se o extinto Arsenal de Marinha que deu lugar à Av. Ribeira das Naus.
Postal ilustrado, edição da Casa Gonçalves, in Lisboa de Antigamente
Hotel Central, depois das adaptações sofridas por volta de 1920 |c. 1936|
Praça Duque da Terceira
No gaveto norte deste edifício estiveram vários botequins célebres. À O primeiro foi o «jacobino» Café do Grego; o último foi o Café Londres, encerrado em 1935.
Mário Novais, in Lisboa de Antigamente

«Numa das suas vindas a Portugal, informado que o conde, vindo do Porto, se hospedara em Lisboa no Hotel Central, e apreciando em extremo a convivência daquele seu grande amigo, [Eça] mandou também as suas malas para o mesmo hotel e ali ficou durante largos dias.
Certa manhã, quando [...] se encontrava no quarto do seu amigo, justamente na ocasião em que este, de cara ensaboada, se dispunha, com a navalha na mão, a barbear-se, o criado, pedindo licença, entrou e entregou uma carta que viera pelo correio. 
   — Vê lá, menino, o que aí vem -—- diz o conde a Eça de Queiroz.
   — É uma cartada tua irmã.
   — Faze favor, abre-a e vê o que diz essa teimosa.
   O grande escritor obedeceu e ao terminar a sua leitura, depois de a dobrar vagarosamente, diz a Rezende:
   — Peço-te mão de tua irmão».
(Luís Pastor de Macedo notas em A Ribeira de Lisboa por Júlio de Castilho, vol. 4)

Hotel Central, depois das adaptações sofridas por volta de 1920 |c. 1936|
Praça Duque da Terceira; Cais do Sodré
Mário Novais, in Lisboa de Antigamente

O Hotel Central encerrou em 1919, após um breve período de crise económica, distantes que iam já os hábitos de convívio da Lisboa queirosiana. A Sociedade Estoril, nova arrendatária, mandou então proceder a obras de vulto na fachada e interiores do edifício, cujas características gerais pouco têm agora a ver com a da casa que albergou Eça, Ramalho ou Guerra Junqueiro. O próprio Cais do Sodré sofrera enormes alterações ao longo do meio século de existência do Hotel Central. Por volta de 1880 a praia chegava ainda sé ao larguinho posteriormente ajardinado (Jardim Rogue Gameiro, plantado entre 1912 e 1915), e alguns quartos do Central estavam, como era uso dizer-se, «sobre o no». Perderam esse privilégio em 1907, vendo erguer-se-lhes à frente o edifício da Administração do Porto de Lisboa (onde está o célebre relógio com a «Hora Legal»). O terreno era tão incerto (basicamente areia da praia, movimentada pelas marés) que foi necessário fazer assentar todas as paredes desse prédio sobre estacaria. Ao centro da praça esteve, até 1874,um relógio de sol muito célebre e muito troçado: a «Meridiana dos Remolares», apeada para que desse lugar ao monumento em homenagem ao Duque da Terceira.

Hotel Central, depois das adaptações sofridas por volta de 1920 |c. 1936|
Fachada S. sobre o Cais do Sodré e Travessa do Corpo Santo; Praça Duque da Terceira.
Mário Novais, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
MARINA, Tavares Dias, Lisboa Desaparecida, vol. 6, pp. 179-184, 1989.

Sunday, 26 March 2023

Praça de Luís de Camões com a Rua da Horta Seca

A Rua das Flores já existia antes do Terramoto, no troco até à Rua do Ataíde, ambas seiscentistas. E de igual modo existia a Rua da Horta Seca, designação, que, tal a das Flores, e a das Parreiras (sobre a qual assentou a Rua da Emenda) evocam os tempos de quinhentos em que por aqui eram quintas e chãos rústicos da herdade de Santa Catarina.==
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIII, p. 51, 1939)

Praça de Luís de Camões com a Rua da Horta Seca |1959|
Realce para o espectacular "espada" Buick Super "The Black Beauty" (1949–1953)
Arnaldo Madureira, in Lisboa de Antigamente

Encontramos no Arquivo Histórico Português, Vol . VIII, pág. 421, no estudo do dr. António Baião, acerca da Inquisição uma referência a este sítio, datada de 1583. É a primeira à direita na rua do Alecrim vindo do Loreto e termina na rua das Chagas, ensina o Itinerário Lisbonense, de 1818. Fora das portas de Santa Catarina. [Brito: 1935]
 
Rua da Horta Seca |1922-07-21|
Rua da Emenda;  ao fundo nota-se o Palácio do Manteigueiro; Rua e Palacete das Chagas
Legenda no arquivo: «Bodo aos pobres promovido pelo sr. governador civil»
Arnaldo Madureira, in Lisboa de Antigamente
Nota(s): o local da foto não está «identificado no arquivo

Sunday, 11 December 2022

Travessa do Alecrim que foi do «Cataquefarás»

E o enigmático Cata-que-farás, de que já nos fala Fernão Lopes, que ficava não longe do actual Cais do Sodré, e que uma das nossas municipalidades ineptamente transformou em Travessa do Alecrim? Cata-que-farás seria porventura um prolóquio, uma sentença, um velho rifão equivalente a: Procura que hás de acharProssegue que hás de conseguir — Trabalha que hás de vencer: conselho dado talvez aos mareantes e navegadores, que por ali embarcavam durante toda a época áurea das navegações, dos descobrimentos e das conquistas? Cata-que-farás era decerto na sua ingenuidade rude um enérgico repelão, uma sacudidela salutar na mandrieira nacional... E os marinheiros que partiam iriam dali cantando:

«Partimos de Portugal
Catar cura a nosso mal»
.
(in Embrechados por António Maria José de Melo César e Meneses Sabugosa)

 

Travessa do Alecrim, perspectiva tomada da  R. das Flores para a R. do Alecrim [1945]
O topónimo Travessa do Alecrim foi atribuído pela CML, através do Edital de 31/12/1885, à antiga Travessa do Cata-que-farás, a qual fora denominada até 1882 Travessa do Catefaraz. 
Fernando Martinez Pozal, in Lisboa de Antigamente

Como curiosidade transcreve-se um anúncio publicado, em 1820, na velha Gazeta de Lisboa, o primeiro jornal oficial português: 
«Carlos Baker annuncia ao Publico que elle he o unico Agente no meado por Day e Martins de Londres, para vender em Lisboa, a verdadeira graxa para çapatos e botas, descoberta feita por elles; para venda e fabrico da qual se lhe concedeo Privilegio Privativo, e que daqui em diante quem a quizer comprar genuina e livre de duvida, ha de achalla no seu Escriptorio na travessa de Cátefaraz N.° 3, tendo eada botija hum bilhete na rolha com o letreiro seguinte, Charles Baker, travessa de Catefaraz N.º 3 entre a rua das Flores e a rua do Alecrim».

Travessa do Alecrim [1947]
Frades de pedra junto à Rua do Alecrim
Fernando Martinez Pozal, in Lisboa de Antigamente

Friday, 15 April 2022

Semana Santa em Lisboa

Na quarta-feira de Cinzas, os católicos, arrependidos por tantos disparates que teriam cometido durante o Entrudo, iam penitenciar-se às igrejas e saíam à rua, refeitos, com cinza na testa, aplicada pelos sacerdotes. Os agnósticos, ou os mais esquecidos das obrigações, partiam para «fora de portas» a deglutir famosas ementas que faziam parte das cozinhas das casas de pasto dos arredores e onde, naturalmente, havia vinho afamado.

Semana Santa em Lisboa |1907|
Igreja de Nossa Senhora do Loreto no Largo do Chiado
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente
Semana Santa, à saída da Igreja do Loreto |1907|
Largo do Chiado
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

As tipóias carreavam, por estradas hoje desaparecidas debaixo dos arranha-céus, toda uma malta de pândegos que ia afundar em bebedeiras os restos histriónicos dos dias do Carnaval. No António das Caldeiradas, em Belém; no Ferro-de-Engomar e nas Pedralvas, por Benfica, no Perna-de-Pau, ao Areeiro, o Caliça, o Quebra-Bilhas e outros que não nos ocorre, fazia-se o rescaldo da paródia! Acabaria a estúrdia noite alta com fados cantados por gargantas privilegiadas.
Depois do Carnaval, a Quaresma. São cinco semanas de encontro com Deus. Depois a Semana Santa!
Para a canalha miúda eram mais uns dias de férias. Depois da licença, as amêndoas e o folar cheio de ovos. Mas a Semana Santa era algo de solene. Podia-se não ser crente, que família católica impunha já na quarta-feira de Endoenças a gravata preta. Não se discutia. Havia sermões nas igrejas e vasta audiência aos pregadores de maior fama. — Que belo sermão ouvimos hoje! — Os padres, Governo, Farinha e Fernandes de Castro, entre outros, atraíam um público de qualidade. la-se de igreja em igreja para os ouvir!

Semana Santa, à saída da Igreja da Encarnação |1912|
Largo do Chiado
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente
Semana Santa, à saída da Igreja da Encarnação [|22-4-1922|
Largo do Chiado
 Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente
Senhoras durante a Semana Santa |1912|
Rua António Maria Cardoso; ao fundo, o Largo do Chiado
Pela Páscoa, na altura da Semana Santa, era tradição o luto carregado, as pessoas vestiam-se de escuro e com discrição.
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Quinta-feira Santa era o dia de maior respeito, havia silêncio nas ruas, apesar da multidão que, de luto, visitava as sete igrejas da obrigação. O ar cheirava a rosmaninho que atapetava as entradas dos templos, onde mulheres vendiam raminhos com alfazema e alecrim. Nas pastelarias, cheias de gente, os caixeiros não tinham mãos a medir para aviar as guloseimas.
Naquele tempo, o sábado de Aleluia era uma festa! Desapareciam dos altares os reposteiros roxos, reboavam os sinos no entusiasmo da vida nova! Colaborando no festival de Deus, bandos de pombos eram libertos nas naves das igrejas.
Depois do Concílio foram alteradas algumas normas, mas o Domingo de Páscoa continua a ser a alvorada cheia de luz que a todos enternece e enche de alegria. É o grande dia litúrgico; desapareceram os lutos, desejam-se reciprocamente as Boas-Festas!


Largo do Chiado
Venda do rosmaninho em Quinta-feira Maior [22-4-1922]


Largo do Chiado
Venda do rosmaninho em Quinta-feira Maior
 [18-04-1935]
in Lisboa de Antigamente



Bibliografia
DINIS, Calderon, Tipos e factos da Lisboa do meu tempo: 1970-1974, 1986.

Sunday, 30 August 2020

Galgou a Calçada do Alecrim

A chuva recomeçara; e ao fundo da Calçada do Alecrim separaram-se, quando soavam devagar as onze horas na torre da igreja de S. Paulo.

Artur galgou a calçada do Alecrim, impressionado, exaltado. Decidia-se agora a abandonar todos os hábitos de sociedade, as esperanças vãs em amores fictícios, a literatura puramente lírica; [...]

(QUEIROZ, Eça de, A Capital, 1877)


Rua do Alecrim [ant. 1900]
Largo do Chiado, vulgarmente conhecido pela denominação de Largo das Duas Igrejas ou Praça do
Loreto, sendo constituído pelo troço da Rua Garrett que findava na Praça Luís de Camões (entre 1880
e 1925). Nofim do século XV era a estrada que vai ter a Cata-que-farás, segundo o olisipógrafo Luís
Pastor de Macedo.
Estúdio Horácio Novais.  in Lisboa de Antigamente

O nome de rua do Alecrim — lê-se no Archivo Pittorescoproveio de uma ermida dedicada a Nossa Senhora do Alecrim, que ahi fundou, em 1641, uma senhora viúva e de nobre família, chamada D. Anna de Vilhena.
Estava situada esta ermida junto da porta de Santa Catharina, e esta porta occupava o fundo de um largo pouco espaçoso, ao presente denominado das Duas Egrejas, no sitio onde começa a descer a rua das Portas de Santa Catharina. O largo era então guarnecido, da parte do norte e do sul, por dois lanços da muralha, que iam formar dois angulos: o do norte, proximo da egreja do Loreto, que ficava de fora, e do qual proseguia o muro ao largo de S. Roque: e o do sul no lugar em que vemos o predio contiguo à egreja de Nossa Senhora da Encarnação, d'onde o muro continuava, separando as ditas ruas do Alecrim e da Cordoaria Nova, depois Thesouro Velho [actual Rua António Maria Cardoso].==
(in Archivo Pittoresco, 1862, vol. 5, p. 398)

Rua do Alecrim [ant. 1900]
Perspectiva tomada da Rua da Misericórdia (antiga de S. Roque)
José Artur Bárcia, in Lisboa de Antigamente

Friday, 12 July 2019

Hotel Bragança ou Braganza Hotel

E numa luminosa e macia manhã de Janeiro de 1887, os dois amigos, enfim juntos, almoçavam num salão do Hotel Bragança, com as duas janelas abertas para o rio.

— QUEIROZ, Eça de, Os Maias, 1888


O Hotel Bragança ficava perto do Chiado, à esquina da Rua Vitor Cordon (outrora Ferragial de Cima) com a Rua dos Duques de Bragança (veio a chamar-se Rua da Luta, para de novo voltar a ser dos Duques de Bragança), não distante da Baixa. Era o Hotel Bragança o mais belo hotel lisboeta da época. Nele hoje funciona uma dependência da Universidade Livre. Pertence o edifício à Fundação D. Manuel II.

Hotel Bragança visto do Largo do Corpo Santo [1856]
No cimo vê-se a fachada que deitava para este Largo; situado na Rua Vítor Cordon (antiga rua do Ferragial), 45 — no local onde se situaria o Edifício do Tesouro dos Duques de Bragança — não deve ser confundido com o «Hotel Bragança» da Rua do Alecrim, 12, que lhe fica próximo. Do lado esq. vê-se o Convento do Corpo Santo.
C. P. Symonds, in Lisboa de Antigamente

O edifício do Hotel Bragança — diz o eng.º Vieira da Silva — , primeiramente denominado Hospedaria de Bragança, e depois, talvez por soar mal esta castiça designação portuguesa, chamado Braganza Hotel, alugado actualmente [1943] às Companhias Reunidas Gás e Electricidade, tem lojas na frente oriental e em parte da frente norte, rés-do-chão, 1.° e 2.° andares e sótão habitável; 11 janelas na fachada do norte e 12 na do sul; e 5 na frente do nascente e 4 na do poente. Não conseguimos averiguar em que ano foi construído o edifício (talvez depois do grande incêndio de 1841).

– Escreve para Lisboa, para o Hotel Bragança... Os lençóis ao menos são frescos, cheiram bem, a sadio!
— QUEIROZ, Eça de, A Cidade e as Serras, 1901

Hotel Bragança [196-]
Rua Vítor Cordon (antiga do Ferragial), 45

Armando Serôdio, in Lisboa de Antigamente

Pelo Braganza Hotel passaram alguns hóspedes ilustres vindos dos quatro cantos do mundo: imperadores, reis, príncipes, diplomatas, artistas e escritores, todos se hospedaram neste Braganza Hotel durante o século XIX. «(..) D. Fernando, o senhor infante D. Luiz (já então rei), o senhor infante D. João, etc. A rainha da Suécia, irmã de sua magestade imperial a duquesa de Bragança, também habitou este hotel, nos mesmos quartos dos imperadores do Brasil. Também esteve aqui residindo alguns dias S. A. o sultão de Zanzibar, Said-Bargash. (...) a célebre e estravagantíssima actriz francesa Sarah Bernhardt (Abril de 1882), e a viúva de Rattazzi,; o rei Kalakawa [Havai] (Agosto de 1881) e tôda a sua comitiva; os embaixadores do Japão ; o músico espanhol D. Guido Remigio Barbieri; sua alteza a princesa imperial do Brasil, seu marido o senhor conde de Eu, e o seu séquito;(...)»

Hotel Bragança visto do Arsenal de Marinha [c. 1870]
Rua Vítor Cordon (antiga do Ferragial), 45
Francesco
Rocchini, in Lisboa de Antigamente
___________________
Bibliografia
SILVA, Vieira da, Os Paços dos Duques de Bragança em Lisboa, in Olisipo: boletim do Grupo Amigos de Lisboa, 1943.

Sunday, 8 July 2018

Largo do Barão de Quintela

Chegamos ao Largo Barão de Quintela — diz Norberto de Araújo —, no qual se eleva o belo Palácio que foi dos Quintelas-Farrobos, que fez parte da história política e social de Lisboa da primeira metade do século passado.  


Este Largo do Barão de Quintela foi mandado terraplanar e construir por Joaquim Pedro Quintela em 1788, que para tal comprou uns casebres aqui existentes, entre as Ruas das Flores e do Conde [hoje Rua do Alecrim].
É discreto êste Largo, com o seu relvado e as suas palmeiras decorativas, ao centro da qual se ergue a estátua a Eça de Queiroz, devida à iniciativa de alguns homens de letras.

Largo do Barão de Quintela  |c. 1965|
Monumento a Eça de Queiroz; Rua das Flores
Armando Serôdio, in Lisboa de Antigamente

Joaquim Pedro Quintela (1748-1817), Barão de Quintelapróspero negociante e abastado proprietárioera um dos lisboetas que no século XIX promovia concertos privados em sua casa reunindo profissionais e amadores e, como o Conde de Burnay e o Conde Farrobo (2º Barão de Quintela e também chamado Joaquim Pedro Quintela) era um dos que detinham o monopólio da indústria dos tabacos.
Em 29 de Novembro de 1807 quando a Família Real parte para o Brasil, Junot instalou-se no Palácio do Barão de Quintela, erguido desde 1782.

Largo do Barão de Quintela  |1952|
Palácio que foi dos Quintelas-Farrobos
Horácio Novais,in Lisboa de Antigamente

Uma curta paragem no Largo do Barão de Quintela onde, numa madrugada de 1866, vamos encontrar Hans Christian Andersen. Acabava de chegar a Lisboa e tinha pedido ao cocheiro que o «conduzisse ao Hotel Durand na praça perto da Rua das Flores». Num outro prédio, num «segundo andar, por trás de uma janela iluminada está Alípio Abranhos a olhar, desesperadamente, para a tenebrosa pacatez do Largo do Quintela. O Palácio do Largo do Quintela, onde se hospedou Junot». [Queiroz; 1879]

Largo do Barão de Quintela, 1 |1933|
Edifício que albergou, em tempos, o consultório de Egas Moniz e
onde está instalada a Associação a Associação Humanitária
de Bombeiros Voluntários de Lisboa.

Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente
 
Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIII, pp. 49-50, 1939.
cm-lisboa.pt.

Wednesday, 2 May 2018

Instituto Rainha Dona Amélia (Assistência Nacional aos Tuberculosos)

A Assistência Nacional aos Tuberculosos  — recorda-nos o ilustre olisipógrafo  Norberto de Araújo — que principiou por ser uma Associação de Beneficência — e prestimosa ela foi sempre, hoje [1939 ] extraordinàriamente desenvolvida — foi fundação da Rainha D. Amélia de Orleans e Bragança. Data de Junho de 1899 e foi enorme o movimento de adesões que provocou. Hospitais, Sanatórios, Dispensários, espalhados por todo o país, são os frutos dessa obra.


Instituto Rainha Dona Amélia [c. 1908]
Instituto Nacional de Assistência aos Tuberculosos
 Avenida 24 de Julho
Alberto Carlos Lima,  in Lisboa de Antigamente

O primeiro Dispensário de Lisboa foi na Rua do Alecrim, inaugurado em Maio de 1901. Este edifício foi inaugurado em 1906. O dispensário contíguo data de 1931. 
Uma das personalidades mais devotadas a esta causa, o braço direito da Rainha, foi o Dr. António de Lencastre, cujo nome convém fixar. 
O edifício da Assistência, do risco do arquitecto Rosendo Carvalheira, tem, como vês, neste sítio movimentado, de vizinhança e semblante marítimo, uma certa altanaria.

Instituto Rainha Dona Amélia [c. 1907]
Instituto Nacional de Assistência aos Tuberculosos
 Avenida 24 de Julho
Artur Bárcia, in Lisboa de Antigamente
Instituto Rainha Dona Amélia [c. 1906]
Instituto Nacional de Assistência aos Tuberculosos
 Avenida 24 de Julho
Chaves Cruz, in Lisboa de Antigamente
Instituto Rainha Dona Amélia [1960]
Instituto Nacional de Assistência aos Tuberculosos, anexo inaugurado em 1931.
 Rua dos Remolares
Fernando de Jesus Matias, in Lisboa de Antigamente

N.B. A Rainha Dona Amélia cedo se interessou pelo combate ao terrível flagelo da Tuberculose – o mal do século – promovendo em 1893 a criação do primeiro dispensário em Alcântara, destinado a crianças, que foi dirigido pelo Prof. Augusto da Silva Carvalho.
Seguiu-se, em 3 de Julho de 1899, a criação da Assistência Nacional aos Tuberculosos, que muito ficou a dever à iniciativa e persistência da Rainha Dona Amélia. Entre as obras que patrocinou contam-se, ainda, a fundação do Instituto de Socorros a Náufragos e o Instituto Pasteur em Portugal, em 1892, e do Museu Nacional dos Coches, em 1905.

Instituto Rainha Dona Amélia [c. 1908]
 A Rainha Dona Amélia e o infante Dom Afonso à entrada do edifício da Assistência Nacional aos Tuberculosos.
 Avenida 24 de Julho
Alberto Carlos Lima,  in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIII, p. 56, 1939.

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