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Sunday, 12 July 2026

Rua Cidade de Manchester

Há em Lisboa o bairro dos Açores, o das Colónias [vd. ultimq imagem dir.], e, passeando dentro da cidade por longes terras da estranja, o de Inglaterra com as ruas de Manchester, Liverpool, Cardiff, etc., recantos da Suíça, na Avenida de Berna, evocações da América na Praça do Chile, na Rua de Buenos Aires, na Praça do Brasil [actual Largo do Rato] e na do Rio de Janeiro [actual Principe Real]. [Ocidente: 1939]


O topónimo Cidade de Manchester foi atribuído juntamente com os topónimos Cidade de Liverpool, Cidade de Cardiff, Poeta Milton e Newton, por edital de 29 de Agosto de 1916. Na sessão de 17 do mesmo mês, a câmara havia inicialmente homenageado Lord Byron, substituído no edital por Isaac Newton. Este conjunto de arruamentos ficou conhecido como Bairro de Inglaterra. Eram arruamentos particulares que formavam o Bairro de Braz Simões, denominado em homenagem ao seu proprietário, José Braz Simões de Sousa, um grande comerciante de Lisboa, que o entregou à C.M.L. por escritura em 13 de Outubro de 1913.

Rua Cidade de Manchester |1966-03|
Antiga Rua Isabel Leal do Bairro de Inglaterra ou de Braz Simões. 
O Bairro de Inglaterra foi construído depois do Bairro Andrade e antes do Bairro das Colónias, e abrange as abrange as encostas da Penha.
Escadinhas na esquina com a Rua Cidade de Cardiff, observando-se em cima a Rua da Penha de França.
Artur Goulart, in Lisboa de Antigamente

Curiosamente, à semelhança do que aconteceu no Bairro Andrade, Braz Simões deu aos arruamentos nomes de familiares ou amigos. Assim, a Rua Cidade de Manchester chamava-se anteriormente Rua Isabel Leal, a Rua Cidade de Liverpool era a Rua José de Sousa, a Rua Cidade de Cardiff [vd. 1ª imagem] correspondia à Rua Maria Gouveia, a Rua Lord Byron (mais tarde Rua Newton) era a Rua Aurora e, por fim, a Rua Poeta Milton era a Rua Margarida.
[1943-1974 - Actas da Comissão Municipal de Toponímia de Lisboa]

Rua Cidade de Manchester, 9 |1964|
Notam-se as Ruas Ilha do Príncipe e Poeta Mílton dir.
Augusto Fernandes, in Lisboa de Antigamente
Rua Cidade de Manchester [c. 1945]
Vista tomada da R. da Ilha do Príncipe
Fernando M. Pozal, in Lisboa de Antigamente

Sunday, 1 December 2024

Rua Marques da Silva que foi Travessa do Caracol da Penha

De Arroios se subia à Penha de França por uma tortuosa ladeira — à qual minha avó teimava em chamar ainda Travessa do Caracol da Penha — e que é, hoje, a Rua Marques da Silva.


Em 1891, para o alargamento paralelo da Travessa do Caracol da Penha, compreendido entre a projectada Avenida dos Anjos — hoje Av. Almirante Reis — e a velhinha Rua de Arroios, foi cedido à Câmara gratuitamente, quase na totalidade por João Marques da Silva, o terreno de sua propriedade denominado Quinta da Imagem. Perguntemos agora: Marques da Silva porquê? quem foi aquele senhor? que fez ele? — Saiba mais aqui.

Rua Marques da Silva que foi Travessa do Caracol da Penha |c. 1900|
Perspectiva tomada da Rua de Arroios
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente
Nota(s): o local da foto não está identificado no abandalhado amL.

O próprio Caracol da Penha, (que parece tão calado) — recorda Mestre Castilho — se o interrogarmos, dir-nos-á que ainda em 1857 não era mais que uma estreita e pitoresca azinhaga, com foros de caminho de pé posto. Passar aí de noite, só Amadis de Gaula ou Ferrabraz da Alexandria; todo o resto dos mortais eram exterminados.
Em sessão de 2 de Abril desse ano de 57 (nos dirá o Caracol) recebeu a câmara de Lisboa participação de haver sido aprovada pelo conselho de distrito a deliberação tomada em 2 de Março antecedente, para a expropriação de certo terreno a fim de se começarem ali alguns melhoramentos projectados. Foi aprovado o orçamento, no valor de 669$870.
Em sessão de 10 de Dezembro autoriza a câmara o alargamento do Caracol segundo a planta do engenheiro.
Finalmente em 11 de Julho de 1859 determinou-se que se anunciasse a arrematação da obra da muralha, na estrada que hoje trepa elegantemente aquela encosta a pino. [Castilho: 1889]

Rua Marques da Silva que foi Travessa do Caracol da Penha |1959|
Troço da rua no topo da colina com a Igreja de Nossa Senhora da Penha de França
Arnaldo Madureira, in Lisboa de Antigamente

Friday, 17 May 2024

Drogaria Progresso, à Polytechnica com a Rua da Penha de Fança

Penha de França (rua da) quarta á direita na rua da Escola Polytechnica, indo do largo do Rato e finda na travessa de Nossa Senhora da Conceição, freguezias de S. Mamede 1 a 61 e 28 a 82, Santa Izabel 2 a 26. [Velloso: 1869]

Drogaria Progresso |c. 1911|
Rua da Escola Politécnica, 109-113, com a Calçada Engenheiro Miguel Pais — dístico de 1948.
Antiga Calçada de João do Rio, antes Calçada da Penha de França e antes Rua da Penha de França.
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Correia Pais (1825-1888) foi um engenheiro militar que alcançou a patente de Tenente- Coronel em 6 de Junho de 1868.
Trabalhou nas linhas do Caminho de Ferro do Sul e Sueste Em 1876 apresentou um projecto de uma ponte entre o sítio do Grilo - no Beato - e o Montijo, com um tabuleiro duplo para circulação ferroviária e rodoviária e na sua obra «Melhoramentos de Lisboa e Seu Porto» (1883-84) defendeu projectos como um túnel entre o Largo do Município e o Largo do Corpo Santo, um viaduto metálico entre o Largo do Caldas e o Chiado, uma avenida de 800 m entre a Rua da Misericórdia e o Palácio de S. Bento, um grande viaduto metálico entre o Monte da Graça e o Monte da Estrela ou uma linha de túneis entre o Largo do Intendente a Rua de S. Bento.

Drogaria Progresso (s/d) |c. 1905|
Fachada sobre a  Calçada Engenheiro Miguel Pais — dístico de 1948.
Antiga Calçada de João do Rio, antes Calçada da Penha de França e antes Rua da Penha de França.
"Especialidade de artigos para Photographia, Analyses e Embalsamamentos"
Arquivo MTD

Friday, 10 May 2024

Rua da Penha de França com a Rua Heliodoro Salgado

Penha de França (Estrada da) — Em sessão de 23 de Março de 1874, propôs o vereador Dr. Joaquim José Alves que a Câmara representasse ao governador civil do distrito, para a Estrada da Penha de França passar a de- nominar-se: Rua Direita da Penha de França. A Câmara aprovou.
(BRITO, Gomes de) Ruas de Lisboa. Notas para a história das vias públicas, 1935)

A Rua da Penha de França (1916) — recorda-nos Norberto de Araújo — antiga Estrada, mantém ainda a linha levemente sinuosa do século XVII; sua rectificação, aqui e ali iniciada, não se fará demorar. [Araújo: 1939]

Rua da Penha de França |1951|
Junto a Rua Heliodoro Salgado (esq.) e a Praça António Sardinha
Antiga Estrada da Penha de França. A origem do topónimo advém da imagem de N. S. da Penha de França (uma invocação
de um santuário de Salamanca) criada por António Simões (c. 1600)

Garcia Nunes, in Lisboa de Antigamente

A Rua Heliodoro Salgado foi atribuída por deliberação camarária de 21 de Outubro de 1909, com a legenda «Escritor e Jornalista/1864–1908», na artéria designada até então por Calçada do Monte Agudo, artéria nascida da rectificação de um caminho aberto entre o Forno do Tijolo e o Monte Agudo para serventia das quintas da zona.

Heliodoro Salgado (1861–1906) começou a sua carreira profissional como professor primário para rapidamente a trocar pela de jornalista, colaborando em vários títulos. Começou por escrever no jornal socialista portuense O Protesto e também n’ O Operário, já que nessa altura estava inscrito no Partido dos Operários Socialistas.

Rua da Penha de França |1953-06|
Junto a Rua Heliodoro Salgado (esq.)
Antiga Estr. da Penha de França. A origem do topónimo advém da imagem de N. S. da Penha de França (uma invocação de um santuário de Salamanca) criada por António Simões (c. 1600)
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Sunday, 6 June 2021

Rua Tomás da Anunciação, 153

O pintor Tomás da Anunciação, que se destacou sobretudo pela pintura paisagista e de animais, está desde o ano seguinte à sua morte perpetuado numa rua de Campo de Ourique, até aí denominada Rua nº 3 dos terrenos da antiga parada de Campo de Ourique.

Tomás José da Anunciação (1818–1879) nasceu na Ajuda e, iniciou a sua carreira como desenhador de estampas no Museu de História Natural do Palácio da Ajuda para, a partir dos 19 anos, frequentar a Real Academia de Belas-Artes de Lisboa, instalada no Convento de S. Francisco, onde a partir de 1852 se tornou professor da nova cadeira de Pintura de Paisagem, Animais e Produtos Naturais. Em 1857, com o seu quadro Vista de Penha de França, assumiu as funções de professor catedrático e, a partir de 1878, tornou-se Director da Academia. Distinguiu-se como pintor paisagista e animalista, sendo de realçar na sua obra de mais de 500 quadros, alguns títulos como O sendeiro (1856), Vitelo (1873), Perdidos do Rebanho, Ovelhas e Borregos e Rebanho Passando Um Riacho. Refira-se ainda que foram seus alunos José Malhoa e Silva Porto, bem como que deu aulas de pintura à Rainha D. Maria Pia. [cm-lisboa.pt]

Rua Tomás da Anunciação, 153 [191-]
Junto à Rua de Campo de Ourique
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente
Nota(s): o local da foto não está identificado no abandalhado amL

Wednesday, 18 September 2019

Colégio Valsassina / Palácio Lousã

À época — por volta dos anos 30 do século passado — existiam em Lisboa vários locais onde os filhos de gente abastada estudavam: o Colégio Vasco da Gama, que viria da Travessa das Freiras a Arroios à actual Alameda; a Escola Académica, situada na quinta de S. João de Monte Agudo, à Penha de França, cuja publicidade elogiava os seus vastos jardins e os campos de jogos escolares e desportivos; a Escola Valsassina, instalada no antigo Palácio Lousã.

Colégio Valsassina / Palácio Lousã [1934]
Avenida António Augusto de Aguiar, 148
Palácio Lousã; à dir. a Casa José Joaquim Miguéis, projectada pelo arq. Miguel Ventura Terra (1902).
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente
 
As origens do Colégio remontam a 1898, altura em que a Professora Susana Duarte fundou uma pequena escola primária na Rua de Santa Marinha, na parte antiga da cidade de Lisboa. Tendo casado com o Professor Frederico César de Valsassina em 12/12/1907, a então Escola Primária foi alargada ao Ensino Liceal para a preparação individual de alguns alunos.
Em Outubro de 1934 a então "Escola Valsassina", transferiu-se para o Palácio Lousã sito na Avenida António Augusto de Aguiar, 148, onde começou a verdadeira existência do Colégio Valsassina. Dispondo de magníficas instalações para a altura, permitiu o lançamento de um projecto educativo inovador, com todos os tipos de Ensino - Infantil, Primário e Liceal – para cerca de 300 alunos e com regime de internato para cerca de 80 alunos a partir dos finais dos anos 40 e até Setembro de 1959.
O Palácio Lousã foi demolido na década de 1960.

Palácio Lousã [1960]
Avenida António Augusto de Aguiar, 148
Augusto de Jesus Fernandes, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
MADUREIRA, Arnaldo, Salazar e a Igreja (1928-1932), 2008.

cvalsassina.pt.

Wednesday, 27 March 2019

Miradouro de São Pedro de Alcântara

Varanda dos amores românticos, do tempo em que era alameda — S. Pedro de Alcântara é um dos mais ternos miradouros naturais da cidade. Bem avisada andou a vereação que há pouco mais de um século fez deste cômoro, que fora de olivais, rústico e arrabaldino, — uma esplanada de crianças, um eirado, um jardim, uma alameda.

Sobre as Taipas e o Passeio Público, depois sobre a Avenida — S. Pedro de Alcântara é também um «passeio», suspenso, balouçante entre S. Roque, já sem padres, o Convento do Marialva, já sem arrábidos, e a Patriarcal, que nunca o chegou a ser.

Varanda do Bairro Alto, este Jardim — olha a direito. Que panorama!


Lisboa vista do Jardim de São Pedro de Alcântara [post. 1932]
S. Pedro de Alcântara teve o seu período de moda. Era o «Passeio», a «Alameda», o «Jardim» de S. Pedro de Alcântara, com a sua ingenuidade alfacinha, e o seu traço espiritual de romantismo. Não dava espectáculo, como o Passeio Público, mas era aprazível na sua posição de miradouro.
Estúdio Horácio Novais, in Lisboa de Antigamente

Para nascente e sul, o Castelo, recortado sobre a peanha pintalgada da cidade velha; as torres alvíssimas de S. Vicente espreitando da linha do horizonte, acima do casario; a Graça, generosa, entregando-se toda; S. Gens, minúsculo, pousado no outeiro que cai sobra as Olarias; a , flanqueada de torres, morena, muito severa... Para norte, os altos de Campolide, os retalhos verdes do Parque, ainda rústico aqui e ali, a confusão indistinta das avenidas modernas, e logo a cumeeira de Santana. É uma ondulação cenográfica de encantamento, sobretudo a certas horas de luz dourada, quando o sol se rende, e se despede nas vidraças de mil casas e tugúrios, embrechados nas colinas sagradas de Lisboa do oriente. [...]¹

Miradouro Jardim de São Pedro de Alcântara [entre 1926 e 1932]
Tanque do jardim  de São Pedro de Alcântara, no plano superior da Alameda (que data de 1840), peça elegante que fez parte do Paço da Bemposta ou Paço da Rainha.
António Passaporte, in Lisboa de Antigamente

Tinham entrado em São Pedro de Alcântara — escreve o imortal Eça no seu Primo Basílio; um ar doce circulava entre as árvores mais verdes; o chão compacto, sem pó, tinha ainda uma ligeira humidade; e, apesar do sol vivo, o céu azul parecia leve e muito remoto.[...]
Convidou-a mesmo a dar uma volta em baixo no jardim. [...]
Foram encostar-se às grades. Através dos varões viam, descendo num declive, telhados escuros, intervalos de pátios, cantos de muro com uma ou outra magra verdura de quintal ressequido; depois, no fundo do vale, o Passeio [Público], estendia a sua massa de folhagem prolongada e oblonga, onde a espaços branquejavam pedaços da rua areada.

Miradouro de São Pedro de Alcântara [c. 1920]
No tabuleiro inferior — verdadeiro jardim de crianças, contemplativo e sereno — foram colocados os bustos de mármore que ainda lá se vêem, e que representam homens notáveis de Portugal — o Infante
D. Henrique D. João de Castro, Afonso de Albuquerque, Vasco da Gama, Pedro Alvares Cabral — de mistura com figuras de mitologia e da lenda: Ulisses, Minerva, Vénus [entre outros]
.

Mário Novais,in Lisboa de Antigamente

 

Do lado de lá erguiam-se logo as fachadas inexpressivas da Rua Oriental [do Passeio Público], recebendo uma luz forte que fazia faiscar as vidraças; por trás iam-se elevando no mesmo plano terrenos de um verde crestado fechados por fortes muros sombrios; a cantaria da Encarnação de um amarelo triste; outras construções separadas, até ao alto da Graça coberta de edifícios eclesiásticos, com renques de janelinhas conventuais e torres de igrejas, muito brancas sobre o azul; e a Penha de França, mais para além, punha em relevo o vivo do muro caiado, de onde sobressaia uma tira verde-negra de arvoredo. À direita, sobre o monte pelado, o castelo assentava, atarracado, ignobilmente sujo; e a linha muito quebrada de telhados, de esquinas de casas da Mouraria e de Alfama descia com ângulos bruscos até às duas pesadas torres da , de um aspecto abacial e secular. Depois viam um pedaço do rio, batido da luz; duas velas brancas passavam devagar; e na outra banda, à base de uma colina baixa que o ar distante azulava, estendia-se a correnteza de casarias de uma povoaçãozinha de um branco de cré luzidio

Miradouro Jardim de São Pedro de Alcântara [ant. 1938]
O tabuleiro inferior era um «Queluz» em miniatura, delícia das nossas avós pequeninas; lá existiram um labirinto de buxo, os bancos voltados à cidade, os balouços e brinquedos infantis, os velhos do Asilo da Mendicidade e alugando cadeiras ao domingo, e, cá em cima, uma Banda regimental.
Mário Novais, in Lisboa de Antigamente

Da cidade um rumor grosso e lento subia, onde se misturavam o rolar dos trens, o pesado rodar dos carros de bois, a vibração metálica das carretas que levam ferraria, e algum grito agudo de pregão.
— Grande panorama! — disse o Conselheiro com ênfase. — E encetou logo o elogio da cidade. Era uma das mais belas da Europa, decerto, e como entrada, só Constantinopla! Os estrangeiros invejavam-na imenso. Fora outrora um grande empório, e era uma pena que a canalização fosse tão má, e a edilidade tão negligente!
— Isto devia estar na mão dos ingleses, minha rica senhora! — exclamou.
Mas arrependeu-se logo daquela frase impatriótica. Jurou que era uma maneira de dizer. Queria a independência do seu país; morreria por ela, se fosse necessário; nem ingleses nem castelhanos!... Só nós, minha senhora! — E acrescentou com uma voz respeitosa: — E Deus! 
— Que bonito está o rio! — disse Luísa.
Acácio afirmou-se, e murmurou em tom cavo:
— O Tejo!

Miradouro de São Pedro de Alcântara [1967]
Ao fundo, antes das escadas de pedra que dão acesso à Alameda, vê-se o  groto embutido no muro de suporte e o respectivo tanque, também visível na 2ª foto.
Em meados do século XIX, segundo Norberto de Araújo, todo este sítio era «um monturo de pedregulhos e de imundícies, vala de despejo de animais mortos, a contrastar com a bonita e verdejante encosta que caía mais para o lado de S. Roque, sobre o fundo de Valverde, depois Passeio Público, justamente a Quinta do Marques de
Castelo Melhor».

Artur Inácio Bastos, in Lisboa de Antigamente

Quis então dar uma volta pelo jardim. Sobre os canteiros borboletas brancas, amarelas, esvoaçavam; um gotejar de água fazia no tanque um ritmozinho de jardim  burguês;  um aroma  de  baunilha  predominava; sobre  a  cabeça  dos bustos  de  mármore, que se elevam dentre os maciços e as  moitas de dálias, pássaros pousavam. 
Luísa gostava daquele jardinzinho, mas embirrava com as grades tão altas...
— Por  causa  dos  suicídios! — acudiu  logo  o  Conselheiro. [...]
— Se fôssemos andando?... — lembrou Luísa.
O  Conselheiro  curvou-se,  mas  vendo-a,  a  ir  colher  uma  flor,  reteve-lhe vivamente o braço:
— Ah,  minha  rica  senhora,  por  quem  é!  Os regulamentos  são  muito explícitos!  Não  os  infrinjamos,  não  os  infrinjamos! — E acrescentou: — O exemplo deve vir de cima.²

Miradouro de São Pedro de Alcântara [entre 1918 e 1922]
O gradeamento, que ainda hoje ali se encontra, veio do Palácio da Inquisição do Rossio, ou dos Estaus, actual Teatro D. Maria..
João Penha Lopes, in Lisboa de Antigamente

Apenas no tabuleiro inferior — remata Norberto de Araújo — , quando se cala o alarido saudável do dia infantil, e as sombras se alongam — S. Pedro de Alcântara se pode entregar ao recolhimento, que amacia as almas. Mas com o seu arvoredo ralo, com os seus canteiros de miosótis, com a sua cascata romântica, com o seu tanque, que pertenceu ao Paço da Bemposta, com o seu ardina de bronze a apregoar a liberdade — é um enternecedor eirado do Ocidente, senhor de Lisboa.¹
______________________________________
Bibliografia
¹ ARAÚJO, Norberto de, Legendas de Lisboa, p. 114-115, 1943. 
² QUEIROZ, Eça de, O Primo Basílio, 1878.

Wednesday, 27 February 2019

Sítio de São Roque: Palácio Niza

Estamos no cérebro do Bairro Alto — diz Norberto de Araújo. Temos andado à roda do Bairro, sem penetrarmos no seu íntimo: em verdade só tenho querido evitar atropelos, em matéria de si tão entroncada de assuntos, tão xadrezada de motivos ornamentais da sua história.

Neste Largo de S. Roque-que desde 8 de Outubro de 1913 se passou a chamar «de Trindade Coelho» — é lugar de discorrermos — sem perdermos dez minutos — acerca [...] do edifício moderno, anexo da Misericórdia, com face para o Largo, e que se continua nos três primeiros lanços da Calçada do Duque.


Foi D. Francisco da Gama, 2." Conde da Vidigueira, quem aqui fez erguer o desaparecido Palácio Niza, em 1543, sobre chãos que a Câmara Municipal lhe aforou. O palácio era mais avançado do que hoje é.
A Casa solarenga foi dos descendentes de Vasco da Gama até 1631, ano em que, assoberbados de dividas, a venderam a Gaspar Freire, fidalgo da Casa Real. Mas logo quatro anos depois D. Vasco Luiz da Gama, 5.º Conde da Vidigueira, 1.º Marquês de Niza, voltou a adquirir o Palácio, que recebeu obras e beneficiações em 1672, para o que aquele fidalgo, que foi diplomata e Secretário de Estado de D. Pedro II, enquanto Regente — e não era opulento — precisou de vender umas casas que tinha na Rua Nova (dos Mercadores).
Em 1689 os Nizas não habitavam o seu Palácio de S. Roque, e nele residia o Embaixador de Franga Robert. Le Roux. Quando do Terramoto, o Palácio era a habitação faustosa do 1.º Patriarca de Lisboa. D. Tomaz de Almeida (que nele morreu); a permanência do famoso Prelado de Lisboa foi grande no Solar Niza, de S. Roque, e ao pátio chamava o povo «o Pátio do Patriarca».
O Terramoto .arruinou o edifício, e os fidalgos Gamas não estiveram dispostos — como aliás quási todos os propriet6rios de palácios em Lisboa — à reedificação, muito dispendiosa, sobretudo pela falta de braços.
Em 1814, num antigo palheiro da Casa, começou a funcionar um curioso «Teatro Pitoresco», no qual se representou, por amadores, o «Catão» de Almeida Garrett, e se deu o primeiro baile de máscaras público da capital. 

Sítio de São Roque: Palácio Niza [c. 1895]
Largo Trindade Coelho (Jurisconsulto e Escritor, 1861-1908); antes Largo de São Roque
À esq. a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, fundada em 1498 e. ao centro, antiga Companhia de Carruagens Lisbonenses; ao centro vê-se Coluna mandada erguer pela colónia italiana, comemorando o casamento do 
Rei Dom Luís I com Dona Maria Pia de Sabóia em 1862.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

O edifício, cada vez mais arruinado, ameaçava desmoronar-se; entrou a ser pardieiro, como tantos. Em 1835 a Câmara Municipal intimou a Marquesa, D. Eugénia da Gama, à demolição urgente. Mas a nobre dama vendeu, por comodidade, tudo quanto possuía neste sitio a Francisco Caldas Aulette, dicionarista, contador da Relação, pessoa culta e de bom gosto; a transferência de propriedade fez-se a 17 de Maio de 1837. Recompôs-se então o Palácio na parte de seu fundo, encostando à Calçada do Duque, com entrada no pequeno Largo defronte da Rua da Condessa. Em 1863, Ant6nio Florêncio dos Santos adquiriu a Aulette, para a sua Escola Académica, de bom nome alfacinha, a parte do edifício sobre o Largo da Rua da Condessa, e a extinta Companhia de Carruagens [Lisbonenses] comprou o edifício, com seu pátio sobre S. Roque.
Quando em Lisboa os trens entraram em desuso, a Companhia meteu em S. Roque — onde alardearam coches principescos e episcopais — os automóveis de «remise». Foram de há vinte anos [c. 1918]. No primeiro andar do prédio, com frente para o Largo, instalou-se em 1917 um jornal, de nomeada em Lisboa pelo seu feitio literário e noticioso, «A Manhã», de que foi principal fundador e animador o distinto jornalista Luiz Derouet, embora a direcção estivesse a cargo de Mayer Garção; êste jornal acabou em 1922. Por essa época liquidou também a Companhia de Carruagens, e o prédio foi adquirido por Deniz M. de Almeida que tomou o activo e passivo da Companhia. Foi êste capitalista quem em 1926 vendeu à Misericórdia de Lisboa o que restava, desfigurado em absoluto, do antigo Palácio Niza.
E logo em 1927 a Companhia Portuguesa de Caminhos de Ferro adquiriu o edifício da Escola Académica, transferida para o Monte Agudo, à Penha de França, onde ainda se mantém.
As obras de adaptação aos serviços da Misericórdia sabre fundamentos antigos, e aproveitando as paredes do Largo e da Calçada, foram dirigidas pelo construtor Touzé, sob o risco do arquitecto Tertuliano Marques.

Sítio de São Roque: Palácio Niza [1920]
Largo Trindade Coelho (Jurisconsulto e Escritor, 1861-1908); antes Largo de São Roque
Legenda foto arquivo: «Lotaria do Natal no largo de São Roque, actualmente Largo Trindade Coelho»
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

E sabre o Palácio Niza — de que tanto havia a dizer da época em que foi residência prelatícia, e do tempo em que foi sede de um dos mais interessantes jornais que tem havido em Portugal — nem mais palavra.
No muro que divide, actualmente, o edifício da Misericórdia daquela sede de escritórios da C. P. — no qual corria um lanço da muralha de D. Fernando, cuja relíquia está de pé-ainda existe uma lápide, que não se vê da rua, e que diz: «Êste lanço do muro que El-Rei D. Fernando acabou em 1413 foi conservado e reparado por Francisco José Caldas Aulete em 1840». 1413 — é a era, e que corresponde ao ano de 1375. Ainda há semanas vi a lápide, que chegou, a andar perdida durante obras no edifício

N.B. Da Misericórdia de Lisboa, falaremos numa próxima peregrinação.
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Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. V, pp. 81-87, 1938.

Wednesday, 25 July 2018

Palácio dos Copeiros-Mores

O antigo Palácio dos copeiros-mores, dito Palácio Coimbra (e melhor estaria a denominação de Palácio do «Braço de Prata»), situa-se na Rua de Santa Apolónia, onde o portal nobre tem o n.º 53, e constitui um quadrilátero, cuja fachada principal está orientada a Poente. 

Há um século e pouco [c. 1850] as águas do rio chegavam ao jardim a Nascente do palácio, e do lado Sul havia um embarcadouro.


O antigo palácio, ou palacete, da Rua de Santa Apolónia  — a que chamam o Palácio Coimbra — já existia no terceiro quartel do século XVII, pois em 1688 foi incluído num morgado instituído por António de Sousa de Meneses, denodado militar que foi capitão-mor das naus da Índia, governa­dor e capitão general do Brasil, onde perdera um braço em combate com os holandeses, em 1688. Era este homem filho de Francisco de Sousa de Meneses, 1.º copeiro-mor em tempos do Cardeal D. Henrique, e de seu pai lhe chegaram às mãos o palácio de Santa Apolónia e a quinta dos Olivais. que veio a chamar-se do «Braço de Prata», e deu nome ao sítio. [...]

Palácio dos Copeiros-Mores, portal e andar nobre da fachada |1941|
Rua de Santa Apolónia, 53
Eduardo Portugal
in Lisboa de Antigamente

Transmitia-se o morgado depois para a descendência de outra irmã do fundador, D. Maria Henriques, filha do primeiro casamento do 1.º copeiro-mor, e irmão do 2.º, Jorge de Sousa de Meneses, senhora casada com D. João Carcomo Figueiroa; depois ainda morgado e palácio transitaram para a descendência daquele 2.º copeiro-mor, Jorge de Sousa de Meneses, vindo a cair, em 1806, e após uma demanda com a 2.• Marquesa de Belas, D. Constança Manuel de Meneses (a qual- se arrogava direito à sucessão no morgado) em D. António José de Sousa Manuel de Meneses Severim de Noronha, 9.• copeiro-mor, 7.º Conde e 1.º Marquês de Vila Flor, mais tarde Duque da Terceira, e que ao tempo contava 2 anos de idade. Este fidalgo e célebre político vendeu o palácio, em meados do século passado [XIX], a um abastado negociante de Lisboa, João Pedro da Costa Coimbra, morador ao tempo na Rua da Penha de França.
Foi a este Coimbra que, em 1862, adquiriu a propriedade por 19 contos, e ainda 6 contos de desvinculação, a Real Companhia dos Caminhos de Ferro Portugueses, que do edifício e jardins tomou posse em 10 de Fevereiro daquele ano. A denominação de «Palácio Coimbra», que é do século passado, manteve.se, e ainda hoje [1950] perdura nas referências da Companhia. [...]

Palácio dos Copeiros-Mores, jardins, cocheiras |1858|
Rua de Santa Apolónia, 53

Há um século e pouco as águas do rio chegavam ao jardim a Nascente do palácio, e do lado Sul havia um embarcadouro. [Araújo: 1950]
Levantamento topográfico de 1858, autor: Folque, Filipe [pormenor], in Lisboa de Antigamente

O palácio, que pouco sofreu pelo Terramoto — era então do dr. Luís Diogo Lobo da Silva — , beneficiou de restauros no decorrer dos séculos XVIII e XIX; com as obras de adaptação promovidas pela Real Companhia de Caminhos de Ferro Portugueses, e que nos últimos anos tem continuado, ficou interiormente muito desfigurado, perdendo o seu velho carácter. É ocupado por escritórios da C. P. e, em parte dele, residem funcionários da Companhia.==

Palácio dos Copeiros-Mores, portal e andar nobre da fachada |1968|
Rua de Santa Apolónia, 53
Nota(s): ou do Capoeiro-Mor como o designam os incompetentes do abandalhado arquivo camarário.  
Armando 
Serôdio, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Inventário de Lisboa, 1950.

Friday, 1 June 2018

Igreja de Santo Estêvão

A igreja de Santo Estêvão — considerada «monumento nacional» (27/8/1917) — é uma reedificação do segundo quartel do século XVIII. por sua vez objecto de largo restauro depois do Terramoto (1778). na frontaria e em parte do interior. Está situada numa elevação, na qual se construiu um vasto adro amparado a uma muralha.


A paróquia de Santo Estêvão, das mais antigas e representativas de Lisboa, remonta, por noticia de um documento, a 1188; existia seguramente o templo neste lugar em 1279, possivelmente mesmo na primeira metade do século, reinado de D. Afonso II. A primitiva igreja, certamente modesta, foi reedificada em 1316 e em 1548, por efeito dos danos causados por sismos nos século XIV e XVI, e teria então sido ampliada e revestida de grandeza, pois sabe-se que ostentou cinco naves — por ventura apenas divisões teóricas demarcadas por colunas de apoio, mas que representariam largueza na traça arquitectónica.

Igreja de Santo Estêvão, frontaria |c. 1900|
 Num terreiro sobre o Tejo, Santo Estêvão.
Panorâmica tirada do miradouro de Santa Luzia
José A. Bárcia, 
in Lisboa de Antigamente

Esta traça desapareceu completamente numa reedificação radical de 1788-1740, que deu ao templo outra planta, fazendo recuar a capela-mor sobre o troço da Rua, a Sul, ainda hoje incluído na Largo de Santo Estêvão. Além da reconstrução posterior ao Terramoto, concluída em 1775, a qual não lhe alterou a área nem a configuração, Santo Estêvão beneficiou de restauros de 1888 a 1848, e de reparos já no actual século [XX].



Igreja de Santo Estêvão, fachada |1898|
Largo de Santo Estêvão
Machado & Souza, in Lisboa de Antigamente


Igreja de Santo Estêvão, fachada |1939|
Largo de
Santo Estêvão
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente



Ora contempla a fachada, fria, mas expressiva — convida-nos Norberto de Araújo. Abre por três pórticos, dos quais o central, sobrepujado da data da reconstrução: 1773, é o mais largo e alto, todos coroados de áticas. O corpo central, onde se eleva um. frontão simples, com um óculo iluminante, avança um pouco da fachada, deixando assim os dois .curtos corpos extremos — sabre um dos quais, do lado nascente, assenta a torre — um pouco recuados. Três altos janelões e outras tantas janelas quadradas abrem-se no corpo central, e duas por lado nos corpos subsidiários.


Igreja de Santo Estêvão |1944|
 

A traseira da capela-mor, saliente do corpo do edifício, apoiada sobre grossa cachorrada, construída em 1733-1740, e na qual, ladeando a passagem do Largo de Santo Estêvão, ao alto das escadinhas, se vê um painel de azulejo com a representação da Eucaristia, legenda latina, tirada dos Salmos, e uma data, 1723.
J. C. Alvarez, 
in Lisboa de Antigamente


No Interior, a igreja é de forma octogonal, como as do Menino Deus, Santo Amaro, Penha de França, Santo Amaro). Assinala-se:
O Corpo da igreja, revestido de materiais nobres, cujas faces do octógono são divididas por pilastras caneladas, e nele:  
O tecto, pintado a claro-escuro, sobre estuque, simulando nervuras de artesão rematadas por fecho;  
O coro, apoiado em pilastras de quatro faces;
Seis capelas (três por cada lado) correspondendo a outras tantas faces do octógono (as outras duas faces correspondem ao sub-coro e ao arco da capela-mor.

Igreja de Santo Estêvão, interior |1963|
Na
Capela-mor destaca-se a coroação ou remate, sobre o trono, composição escultórica, em mármore alvíssimo, que representa um Cristo crucificado ladeado por dois serafins, obra de José de Almeida.
Armando Serôdio, 
in Lisboa de Antigamente

A Capela-mor, sector nobre do templo, toda de mármore, fazendo lembrar a da Igreja de S. Domingos, salvas as dimensões, e nela: a abóbada de aresta, em cujas faces se vêem os Evangelistas, e ao centro o símbolo da Eucaristia (factura posterior à dos Evangelistas, ou mal restaurada); o altar-mor, ostentoso, e, nele, o frontal e banqueta em embutidos florentinos; a guarnição, de duplas colunas salomónicas de mármore rosa da Arrábida, apoiadas em bases ricamente lavradas; a coroação ou remate, sobre o trono, composição escultórica, em mármore alvíssimo, que representa um Cristo crucificado ladeado por dois serafins, obra de arte pura de José de Almeida, com colaboração de Jerónimo da Costa, e que foi executada — parece — para o mosteiro de Mafra, onde chegou a estar colocada, e transferida depois para esta igreja; uma imagem de Santo Estêvão, escultura de Nicolau Pinto.

Igreja de Santo Estêvão |c. 1900|
 Cruzeiro de Santo Estêvão junto da igreja com o mesmo nome.
José A. Bárcia, in Lisboa de Antigamente

No adro da igreja eleva-se um Cruzeiro, seiscentista (que deve ter substituído um muito mais antigo), com uma legenda no soco: «Este sinal de redenção, que um de voto aqui fez pôr, pede com devoção se louve o Redentor. Pelas Almas um Padre. Nosso e uma Avé-Maria. 1669». A cruz, ao alto, não é da época; partida a antiga há uns trinta anos foi depois substituída pela que alveja agora sobre a muralha.
 
Igreja de Santo Estêvão |1963|
 Cruzeiro de Santo Estêvão junto da igreja com o mesmo nome.
Armando Serôdio, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. X, pp. 85-87, 1939.
id., Inventário de Lisboa, 1955.

Wednesday, 9 May 2018

O Caracol da Penha

O olisipógrafo Norberto de Araújo caracteriza da seguinte forma este curioso e sinuoso arruamento que liga o alto da Penha — a encosta na colina mais alta de Lisboa  — ao velhinho sítio de Arroios:

Ora aqui chegamos ao desejado ponto final dêste passo de jornada: o antigo Caracol da Penha que conduzia à Cabeça de Alperche.
Esta Cabeça — ou Cabeço — é desde há muito o alto da Penha de França; o Caracol tomou desde 1891 o dístico de Rua Marques da Silva.
Enveredemos por ela. E vamos devagarinho, pois bem íngreme é. À direita, quási no alto, ai temos um desenho de povoamento modesto, que foi o primeiro neste sitio, sob o amparo da Igreja, e hoje quási despercebido a quem passa. 

O Caracol da Penha [190-]
Actual Rua Marques da Silva
Em primeiro plano vê-se a Rua Passos Manuel, de seguida a Rua de Arroios, e paralela a estas, o troço da Av. Almirante Reis, compreendido entre a as ruas Marques da Silva (antigo Caracol da Penha) e a futura Rua Pascoal de Melo, que será rasgada, por volta de 1910, nos terrenos que se vêem do lado esq. da foto; altaneira, a Igreja e antigo Convento de Nossa Senhora da Penha de França.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

 Logo a seguir olha-me esta espécie de castelo, de cimento armado [logo abaixo da torre sineira], e que de quási tôda a Lisboa se vê: é um depósito da Companhia das Águas, começado a construir em 1929, e terminado em 1932, com a capacidade de seiscentos metros cúbicos e que tem a particularidade de manter a pressão para a elevação das águas aos sitios mais altos da cidade.
Ora, Dilecto, neste ponto descansemos. Aqui temos mais um miradouro de Lisboa. Cousa bela, a cidade surpreendida dêste lado!

Panorâmica sobre a Penha de França [190-]
Actual Rua Marques da Silva
Igreja e antigo Convento de Nossa Senhora da Penha de França
Fotógrafo não identificado, in in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. VIII, p. 16, 1938.

Sunday, 6 May 2018

Alto da Penha de França: a Cabeça de Alperche

Esta Cabeça — ou Cabeço  — diz Norberto de Araújo, é desde há muito o alto da Penha de França [...]

O Alto da Penha de França, nem por estar afastado da cidade central, e em absoluto fora do trânsito normal, deixa de ser um sítio lisboeta puro, com ressonância evocativa, e sempre presente aos olhos da Lisboa debruçada para lá do vale natural da Avenida de Almirante Reis. Aí temos o edifício da Igreja.

 

Não te posso poupar às duas palavras da nossa costumada regressão histórica. A primitiva Ermida da Penha de França, neste lugar, data de 1597, e foi seu fundador um escultor de imagens António Simões, que julgando-se perdido nas plagas de Alcácer Quibir fez voto de fabricar umas tantas imagens de Nossa Senhora e de lhes dar condigno destino se voltasse à Pátria. À última imagem saída da sua oficina chamou «Senhora da Penha de França»invocação castelhana de um santuário em Salamanca, imagem que esteve primeiramente na Ermida da Vitória, na Caldeiraria (Igreja da Vitória, na Baixa actual). 

Alto da Penha de França — a Cabeça de Alperche [c. 1900]
Ermida da Penha de França
Artur Bárcia, in Lisboa de Antigamente
  
Depois, alcançando neste sitio — a Cabeça de AIperche — a cedência de uns terrenos que eram de Afonso Tôrres de Magalhãis, aqui fez construir a Ermida (e nasceu a lenda do lagarto da Penha), sendo a imagem transferida para o seu santuário naquele ano de 1597, ainda o pequenino templo não estava concluído, o que só sucedeu em 1598. A primeira Irmandade foi a dos «Fidalgos Marítimos»; a devoção cresceu rapidamente, passando esta Cabeça de Alperche a ser uma atracção devota de Lisboa, com seu aspecto de romarias domingueiras, pois o sitio a isso se prestava.

Alto da Penha de França — a Cabeça de Alperche [c. 1900]
Ermida da Penha de França; Caracol da Penha, actual Rua Marques da Silva. Do lado do O., mostra o monte a sua maior altura, com um declive muito íngreme, por onde antigamente subia o tortuoso caminho, denominado Caracol da Penha de França, que hoje está substituído por uma sofrível estrada orlada de árvores e iluminada a gás. [Leal: 1876]
Artur Bárcia, in Lisboa de Antigamente

 

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. VIII, pp. 16-17, 1938.
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