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Friday, 10 May 2024

Rua da Penha de França com a Rua Heliodoro Salgado

Penha de França (Estrada da) — Em sessão de 23 de Março de 1874, propôs o vereador Dr. Joaquim José Alves que a Câmara representasse ao governador civil do distrito, para a Estrada da Penha de França passar a de- nominar-se: Rua Direita da Penha de França. A Câmara aprovou.
(BRITO, Gomes de) Ruas de Lisboa. Notas para a história das vias públicas, 1935)

A Rua da Penha de França (1916) — recorda-nos Norberto de Araújo — antiga Estrada, mantém ainda a linha levemente sinuosa do século XVII; sua rectificação, aqui e ali iniciada, não se fará demorar. [Araújo: 1939]

Rua da Penha de França |1951|
Junto a Rua Heliodoro Salgado (esq.) e a Praça António Sardinha
Antiga Estrada da Penha de França. A origem do topónimo advém da imagem de N. S. da Penha de França (uma invocação
de um santuário de Salamanca) criada por António Simões (c. 1600)

Garcia Nunes, in Lisboa de Antigamente

A Rua Heliodoro Salgado foi atribuída por deliberação camarária de 21 de Outubro de 1909, com a legenda «Escritor e Jornalista/1864–1908», na artéria designada até então por Calçada do Monte Agudo, artéria nascida da rectificação de um caminho aberto entre o Forno do Tijolo e o Monte Agudo para serventia das quintas da zona.

Heliodoro Salgado (1861–1906) começou a sua carreira profissional como professor primário para rapidamente a trocar pela de jornalista, colaborando em vários títulos. Começou por escrever no jornal socialista portuense O Protesto e também n’ O Operário, já que nessa altura estava inscrito no Partido dos Operários Socialistas.

Rua da Penha de França |1953-06|
Junto a Rua Heliodoro Salgado (esq.)
Antiga Estr. da Penha de França. A origem do topónimo advém da imagem de N. S. da Penha de França (uma invocação de um santuário de Salamanca) criada por António Simões (c. 1600)
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Saturday, 22 October 2016

Ermida (do Palácio) do Conde de Soure à Estr. da Penha de França

Chegámos ao sitio que foi do Palácio dos Condes de Soure, com sua Ermida da invocação de N. Senhora do Monte Agudo, há poucos anos desaparecida. 

Neste sitio exacto existiam no tempo de D. Sebastião umas casas e uma Capela, ou Ermida (esta mais antiga do que a Casa) e que eram pertença de uns Carvalhos, gente boa e de haveres. A propriedade foi aumentada no século XVII, alargada com terrenos que até quási ao Bairro Andrade de hoje. Pelo casamento de uma dama desta família com o 3.º Conde de Soure, os bens dos Carvalhos. no Monte Agudo à Penha de França, passaram àqueles titulares. No meado do século passado [séc. XX] a Casa Soure precisou desfazer-se das suas propriedades, as daqui, as do Bairro Alto e de outras, e o Palácio e a Ermida transitaram a mãos alheias; em 1873 uma filha do directo comprador aos Soures, e casada com Jacinto Augusto de Paiva Andrade, herdou estas propriedades, já desfiguradas, reduzidas a habitações decrépitas  de gente pobre. Paiva de Andrade legou muitos dos seus bens à Misericórdia de Lisboa, e o que se chamou a herança Picaluga, as casas velhas e a antiga Ermida do Monte Agudo passaram àquela instituição, com a condição de a Misericórdia ali levantar casas de habitação gratuita para umas tantas famílias pobres. (No pardieiro, que fora Palácio Soure, moravam mais de cem famílias).
Em 1916-17, após um entendimento com a Câmara Municipal, e que se estudava desde 1883, a Misericórdia fez demolir os restos do solar, e a Ermida desapareceu também.

[Foto 1] Estr. (Rua) da Penha de França (Sul) |ant. 1916|
Ao fundo a Ermida do Conde de Soure
José Artur Leitão Bárcia, in Lisboa de Antigamente
Nota(s): Imagem catalogada no abandalhado AML como Palácio do Conde de Sôr sito na Rua da Vinha

Aí tens esse renque de casas [Foto 2], de tipo similar, de um único pavimento, a começar no n.º 173, e que se ergueram para satisfazer a vontade dos doadores. Onde está a carvoaria, n.ºˢ 173-175, era precisamente o local da Ermida.
Ao lado deste conjunto do que foi o Palácio Soure abriu há vinte anos [c. 1918] a Rua Heliodoro Salgado [antiga Calçada do Monte Agudo, vd. Foto 3], com uma pequena rectificação da rua, ao alto, na qual foi construída uma cortina.

[Foto 2] Rua da Penha de França (Norte) |1964|
Renque de casas, a começar no n.º 173, local da Ermida do Conde de Soure [que se vê na Foto 1]; Escola Secundária Dona Luísa de Gusmão (1958) 
Augusto de Jesus Fernandes, in Lisboa de Antigamente

A Rua da Penha de França, antiga Estrada [Foto 4], mantém ainda a linha levemente sinuosa do século XVII; sua rectificação, aqui e ali iniciada, não se fará demorar. Também por aqui alguns prédios modernos acotovelam outros, nobres de tipo de casa do campo, de há trezentos anos. (...) Há oitenta anos [c. 1880], nem talvez tanto, as edificações por esta Estrada eram poucas; foi depois de 1875 que se começaram a erguer esses prédios pelos quais vamos passando, indiferentemente. Olha: aqui temos um pedaço de Estrada antiga, com uma série de de casebres simpáticos, que já saem fora do alinhamento rectificado. Diz-lhes adeus...

[Foto 3] Planta com a localização da Ermida do Conde de Soure |1907|
Legenda:
Vermelho: Palácio Soure
Amarelo: Ermida do Conde de Soure
Verde: Rua da Penha de França (antiga Estr. da Penha de França)
Laranja: Rua Heliodoro Salgado (antiga Calçada do Monte Agudo) in
Lisboa de Antigamente
[Foto 4] Planta referente ao estado da Estr. da Penha de França |1891|
Inclui as casas do Conde de Soure

Levantamento topográfico de Francisco Goullard,
in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. VIII, pp. 22-24, 1938.

Wednesday, 11 April 2018

Rua da Penha de França

A Rua da Penha de França — recorda-nos  Norberto de Araújo — antiga Estrada, mantém ainda a linha levemente sinuosa do século XVII; sua rectificação, aqui e ali iniciada, não se fará demorar. 

Rua da Penha de França, norte |1952|
Junto aon.º 23 e ao  actual Mercado de Sapadores (dir.)
Antiga Estrada da Penha de França. A origem do topónimo advém da imagem de N. S. da Penha de França (uma invocação de um santuário de Salamanca) criada por António Simões (c. 1600).
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Também por aqui alguns prédios modernos acotovelam outros, nobres de tipo de casa do campo, de há trezentos anos. (...) Há oitenta anos [c. 1860], nem talvez tanto, as edificações por esta Estrada eram poucas; foi depois de 1875 que se começaram a erguer esses prédios pelos quais vamos passando, indiferentemente. Olha: aqui temos um pedaço de Estrada antiga, com uma série de de casebres simpáticos, que já saem fora do alinhamento rectificado. Diz-lhes adeus...¹

Rua da Penha de França, nascente |195-|
[Junto ao n.º 121 onde estaciona o automóvel]
Antiga Estrada da Penha de França. A origem do topónimo advém da imagem de N. S. da Penha de França (uma invocação de um santuário de Salamanca) criada por António Simões (c. 1600)
Judah Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
¹ ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa», vol. VII, pp. 22-24, 1938.

Sunday, 6 May 2018

Alto da Penha de França: a Cabeça de Alperche

Esta Cabeça — ou Cabeço  — diz Norberto de Araújo, é desde há muito o alto da Penha de França [...]

O Alto da Penha de França, nem por estar afastado da cidade central, e em absoluto fora do trânsito normal, deixa de ser um sítio lisboeta puro, com ressonância evocativa, e sempre presente aos olhos da Lisboa debruçada para lá do vale natural da Avenida de Almirante Reis. Aí temos o edifício da Igreja.

 

Não te posso poupar às duas palavras da nossa costumada regressão histórica. A primitiva Ermida da Penha de França, neste lugar, data de 1597, e foi seu fundador um escultor de imagens António Simões, que julgando-se perdido nas plagas de Alcácer Quibir fez voto de fabricar umas tantas imagens de Nossa Senhora e de lhes dar condigno destino se voltasse à Pátria. À última imagem saída da sua oficina chamou «Senhora da Penha de França»invocação castelhana de um santuário em Salamanca, imagem que esteve primeiramente na Ermida da Vitória, na Caldeiraria (Igreja da Vitória, na Baixa actual). 

Alto da Penha de França — a Cabeça de Alperche [c. 1900]
Ermida da Penha de França
Artur Bárcia, in Lisboa de Antigamente
  
Depois, alcançando neste sitio — a Cabeça de AIperche — a cedência de uns terrenos que eram de Afonso Tôrres de Magalhãis, aqui fez construir a Ermida (e nasceu a lenda do lagarto da Penha), sendo a imagem transferida para o seu santuário naquele ano de 1597, ainda o pequenino templo não estava concluído, o que só sucedeu em 1598. A primeira Irmandade foi a dos «Fidalgos Marítimos»; a devoção cresceu rapidamente, passando esta Cabeça de Alperche a ser uma atracção devota de Lisboa, com seu aspecto de romarias domingueiras, pois o sitio a isso se prestava.

Alto da Penha de França — a Cabeça de Alperche [c. 1900]
Ermida da Penha de França; Caracol da Penha, actual Rua Marques da Silva. Do lado do O., mostra o monte a sua maior altura, com um declive muito íngreme, por onde antigamente subia o tortuoso caminho, denominado Caracol da Penha de França, que hoje está substituído por uma sofrível estrada orlada de árvores e iluminada a gás. [Leal: 1876]
Artur Bárcia, in Lisboa de Antigamente

 

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. VIII, pp. 16-17, 1938.

Wednesday, 31 August 2016

Cine-Oriente: o Piolho da Penha

O Cine Oriente abriu portas ao público em 1931, no Caminho de Baixo da Penha (hoje Av. Gen. Roçadas). Uma sala "a preços populares", com "os melhores confortos e comodidades para o público".1


Em 1931, a revista «Cinéfilo» — suplemento semanal do jornal «O Século» — dedicava um artigo a uma nova sala de cinema da capital: o Cine-Oriente. Rezava assim:
Lisboa conta com uma nova sala de espectáculos cinematográficos, Cine-Oriente, assim se chama o cinema inaugurado. Fica situado na Penha de França.
É, quanto ao seu aspecto, um modesto salão, de construção simples mas alegre, comportando cerca de quinhentos lugares, cómodos e espaçosos e todos eles com excelentes condições de visibilidade, incluindo os do balcão. A cabina está apetrechada com uma máquina Pathé, o que garante uma boa projecção. A cabina está apetrechada com uma máquina Pathé, o que garante uma boa projecção.
Um quarteto musical, constituído por artistas de comprovado mérito, acompanhará todos os filmes que na sua tela forem apresentados.
Agora, que o populoso bairro da Penha de França possui um cinema para satisfazer as exigências dos admiradores da arte do silencio, é justo que eles avaliem os encargos provenientes da sua construção, que só podem ser compensa dos com uma assídua frequência. [2]

Cine-Oriente, Caminho de Baixo da Penha [c. 1950] 
Liga a Avenida General Roçadas à Rua da Penha de França; ao fundo, o Regimento de Transmissões à Rua dos Sapadores.
Judah Benoliel,in Lisboa de Antigamente

A história do Cine-Oriente começa em 1928 com António Joaquim Gonçalves, que pretendia adaptar para cinema um armazém que possuía no Caminho de Baixo da Penha. O projecto seria da responsabilidade do construtor civil João Tomás de Sousa. A obra ficaria concluída em 1930.
Era um típico cinema de bairro histórico, modesto mas bem construído, suportado por uma estrutura de aço e com o tecto forrado a chapa de ferro. As cadeiras eram de madeira e a sua  lotação era de 496 lugares distribuídos por 132 fauteuils, 168 nos balcões e 196 de geral.

Cine-Oriente, Caminho de Baixo da Penha [1963] 
Liga a Avenida General Roçadas à Rua da Penha de França
Artur João Goulart, in Lisboa de Antigamente

Em 1934, tendo Alfredo Bernardo Lucas como empresário e proprietário do terreno, seriam realizadas obras que tornariam este espaço mais acolhedor e mais cómodo para o seu novo público. No ano seguinte este cinema passou a ter como arrendatário António Ferrão Lopes, (empresário cinematográfico ligado à produção, distribuição e exibição de filmes), posição que ocupou até 1977, ano em que este espaço encerrou devido à falta de público originada pela febre dos centros comerciais.[3]

Cine-Oriente, Caminho de Baixo da Penha [c. 1970] 
Liga a Avenida General Roçadas à Rua da Penha de França
Artur Inácio Bastos, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
1 CRUZ, José de Matos, Cinema português: o dia do século, p. 14, 1998.

2 CINÉFILO, Vol. 4, Edições 124-149 p.25, 1931.

3 cinemasparaiso.blogspot.com.

Friday, 17 May 2024

Drogaria Progresso, à Polytechnica com a Rua da Penha de Fança

Penha de França (rua da) quarta á direita na rua da Escola Polytechnica, indo do largo do Rato e finda na travessa de Nossa Senhora da Conceição, freguezias de S. Mamede 1 a 61 e 28 a 82, Santa Izabel 2 a 26. [Velloso: 1869]

Drogaria Progresso |c. 1911|
Rua da Escola Politécnica, 109-113, com a Calçada Engenheiro Miguel Pais — dístico de 1948.
Antiga Calçada de João do Rio, antes Calçada da Penha de França e antes Rua da Penha de França.
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Correia Pais (1825-1888) foi um engenheiro militar que alcançou a patente de Tenente- Coronel em 6 de Junho de 1868.
Trabalhou nas linhas do Caminho de Ferro do Sul e Sueste Em 1876 apresentou um projecto de uma ponte entre o sítio do Grilo - no Beato - e o Montijo, com um tabuleiro duplo para circulação ferroviária e rodoviária e na sua obra «Melhoramentos de Lisboa e Seu Porto» (1883-84) defendeu projectos como um túnel entre o Largo do Município e o Largo do Corpo Santo, um viaduto metálico entre o Largo do Caldas e o Chiado, uma avenida de 800 m entre a Rua da Misericórdia e o Palácio de S. Bento, um grande viaduto metálico entre o Monte da Graça e o Monte da Estrela ou uma linha de túneis entre o Largo do Intendente a Rua de S. Bento.

Drogaria Progresso (s/d) |c. 1905|
Fachada sobre a  Calçada Engenheiro Miguel Pais — dístico de 1948.
Antiga Calçada de João do Rio, antes Calçada da Penha de França e antes Rua da Penha de França.
"Especialidade de artigos para Photographia, Analyses e Embalsamamentos"
Arquivo MTD

Wednesday, 9 May 2018

O Caracol da Penha

O olisipógrafo Norberto de Araújo caracteriza da seguinte forma este curioso e sinuoso arruamento que liga o alto da Penha — a encosta na colina mais alta de Lisboa  — ao velhinho sítio de Arroios:

Ora aqui chegamos ao desejado ponto final dêste passo de jornada: o antigo Caracol da Penha que conduzia à Cabeça de Alperche.
Esta Cabeça — ou Cabeço — é desde há muito o alto da Penha de França; o Caracol tomou desde 1891 o dístico de Rua Marques da Silva.
Enveredemos por ela. E vamos devagarinho, pois bem íngreme é. À direita, quási no alto, ai temos um desenho de povoamento modesto, que foi o primeiro neste sitio, sob o amparo da Igreja, e hoje quási despercebido a quem passa. 

O Caracol da Penha [190-]
Actual Rua Marques da Silva
Em primeiro plano vê-se a Rua Passos Manuel, de seguida a Rua de Arroios, e paralela a estas, o troço da Av. Almirante Reis, compreendido entre a as ruas Marques da Silva (antigo Caracol da Penha) e a futura Rua Pascoal de Melo, que será rasgada, por volta de 1910, nos terrenos que se vêem do lado esq. da foto; altaneira, a Igreja e antigo Convento de Nossa Senhora da Penha de França.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

 Logo a seguir olha-me esta espécie de castelo, de cimento armado [logo abaixo da torre sineira], e que de quási tôda a Lisboa se vê: é um depósito da Companhia das Águas, começado a construir em 1929, e terminado em 1932, com a capacidade de seiscentos metros cúbicos e que tem a particularidade de manter a pressão para a elevação das águas aos sitios mais altos da cidade.
Ora, Dilecto, neste ponto descansemos. Aqui temos mais um miradouro de Lisboa. Cousa bela, a cidade surpreendida dêste lado!

Panorâmica sobre a Penha de França [190-]
Actual Rua Marques da Silva
Igreja e antigo Convento de Nossa Senhora da Penha de França
Fotógrafo não identificado, in in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. VIII, p. 16, 1938.

Sunday, 23 August 2015

Igreja e Convento de Nossa Senhora da Penha de França

A primeira ermida (Alto da Penha de França) com esta invocação surgiu na sequência de um voto efectuado em Alcácer Quibir pelo imaginário António Simões. A sua construção iniciou-se em 1597-98. Em 1601 foi entregue aos eremitas calçados de Santo Agostinho. Entre 1625 e 1635 foi edificado um novo templo, em substituição do anterior. No século XVIII a igreja sofre nova campanha de obras, concluídas em 1754 que ficariam bastante danificadas pelo terramoto no ano seguinte, sendo de seguida reconstruída com o apoio do marquês de Marialva. Já no século XX passa a Igreja Paroquial. 

Panorâmica da Penha de França tirada da Rua Morais Soares |Início séc. XX|
Paulo Guedes, in Lisboa de Antigamente
 
A fachada principal da igreja, toda em cantaria de calcário, desenvolve-se em 3 planos e 3 corpos distintos, marcados por dois contrafortes com pequenos nichos. No corpo central, vazado situa-se a escadaria monumental de acesso ao templo. Sobre o vão rematado com arco abatido, e ao nível do 3º piso janela de sacada que abre para bacia com balaústres, suportada por mísulas. O conjunto e encimado por cartela com emblema da Ordem de Santo Agostinho. Ao nível dos corpos laterais, portas de verga recta no embasamento, sobrepujado por vão em arco de volta perfeita e grande janela no 3º piso. No enfiamento do plano central, pano de muro vazado por óculo sendo o conjunto rematado por frontão triangular, coroado com cruz de ferro e fogaréus de cantaria, sobre acrotérios. O acesso ao interior faz-se através de escadaria, que acede ao nartex.

Largo da Penha de França |1949|
Estúdio Mário Novais, in Lisboa de Antigamente

O interior é de planta axial. A nave possui altares laterais (3 de cada lado) intercalados por portas e janelas de peito, no nível superior. Púlpitos em cantaria e cobertura efectuada por abóbadas com trabalho em estuque e pintura. Na fachada tardoz torre sineira e grande registo de azulejo. Por sua vez, a construção do Convento data do século XVII sendo Teodósio de Frias o arquitecto responsável pelo seu traçado. Em 1700 possuía 40 religiosos. O edifício conventual situa-se contiguamente ao alçado principal da igreja, organizando-se em 3 andares separados por frisos de cantaria. Ao nível do piso térreo, vãos de portas e janelas, que nos superiores passam a janelas rectangulares de verga destacada, que no último piso são de menores dimensões e sobrepujadas por óculos. Possui claustro rectangular, com arcos de volta perfeita ao nível do piso térreo, e janelas de sacada de verga recta no sobre claustro. O convento possui grande variedade de revestimentos azulejares, com exemplares desde o século XVII, policromados, século XVIII com painéis historiados e de figura avulsa. Destaca-se o revestimento da antiga cozinha conventual. Como a igreja, todo o conjunto sofreu danos em consequência do terramoto de 1755. 
A Igreja e edifício do antigo Convento de Nossa Senhora da Penha de França, incluindo o seu património integrado encontram-se Em Vias de Classificação. [cm-lisboa.pt]

Largo da Penha de França |1949|
Estúdio Mário Novais, in Lisboa de Antigamente

Sunday, 1 December 2024

Rua Marques da Silva que foi Travessa do Caracol da Penha

De Arroios se subia à Penha de França por uma tortuosa ladeira — à qual minha avó teimava em chamar ainda Travessa do Caracol da Penha — e que é, hoje, a Rua Marques da Silva.


Em 1891, para o alargamento paralelo da Travessa do Caracol da Penha, compreendido entre a projectada Avenida dos Anjos — hoje Av. Almirante Reis — e a velhinha Rua de Arroios, foi cedido à Câmara gratuitamente, quase na totalidade por João Marques da Silva, o terreno de sua propriedade denominado Quinta da Imagem. Perguntemos agora: Marques da Silva porquê? quem foi aquele senhor? que fez ele? — Saiba mais aqui.

Rua Marques da Silva que foi Travessa do Caracol da Penha |c. 1900|
Perspectiva tomada da Rua de Arroios
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente
Nota(s): o local da foto não está identificado no abandalhado amL.

O próprio Caracol da Penha, (que parece tão calado) — recorda Mestre Castilho — se o interrogarmos, dir-nos-á que ainda em 1857 não era mais que uma estreita e pitoresca azinhaga, com foros de caminho de pé posto. Passar aí de noite, só Amadis de Gaula ou Ferrabraz da Alexandria; todo o resto dos mortais eram exterminados.
Em sessão de 2 de Abril desse ano de 57 (nos dirá o Caracol) recebeu a câmara de Lisboa participação de haver sido aprovada pelo conselho de distrito a deliberação tomada em 2 de Março antecedente, para a expropriação de certo terreno a fim de se começarem ali alguns melhoramentos projectados. Foi aprovado o orçamento, no valor de 669$870.
Em sessão de 10 de Dezembro autoriza a câmara o alargamento do Caracol segundo a planta do engenheiro.
Finalmente em 11 de Julho de 1859 determinou-se que se anunciasse a arrematação da obra da muralha, na estrada que hoje trepa elegantemente aquela encosta a pino. [Castilho: 1889]

Rua Marques da Silva que foi Travessa do Caracol da Penha |1959|
Troço da rua no topo da colina com a Igreja de Nossa Senhora da Penha de França
Arnaldo Madureira, in Lisboa de Antigamente

Sunday, 12 July 2026

Rua Cidade de Manchester

Há em Lisboa o bairro dos Açores, o das Colónias [vd. ultimq imagem dir.], e, passeando dentro da cidade por longes terras da estranja, o de Inglaterra com as ruas de Manchester, Liverpool, Cardiff, etc., recantos da Suíça, na Avenida de Berna, evocações da América na Praça do Chile, na Rua de Buenos Aires, na Praça do Brasil [actual Largo do Rato] e na do Rio de Janeiro [actual Principe Real]. [Ocidente: 1939]


O topónimo Cidade de Manchester foi atribuído juntamente com os topónimos Cidade de Liverpool, Cidade de Cardiff, Poeta Milton e Newton, por edital de 29 de Agosto de 1916. Na sessão de 17 do mesmo mês, a câmara havia inicialmente homenageado Lord Byron, substituído no edital por Isaac Newton. Este conjunto de arruamentos ficou conhecido como Bairro de Inglaterra. Eram arruamentos particulares que formavam o Bairro de Braz Simões, denominado em homenagem ao seu proprietário, José Braz Simões de Sousa, um grande comerciante de Lisboa, que o entregou à C.M.L. por escritura em 13 de Outubro de 1913.

Rua Cidade de Manchester |1966-03|
Antiga Rua Isabel Leal do Bairro de Inglaterra ou de Braz Simões. 
O Bairro de Inglaterra foi construído depois do Bairro Andrade e antes do Bairro das Colónias, e abrange as abrange as encostas da Penha.
Escadinhas na esquina com a Rua Cidade de Cardiff, observando-se em cima a Rua da Penha de França.
Artur Goulart, in Lisboa de Antigamente

Curiosamente, à semelhança do que aconteceu no Bairro Andrade, Braz Simões deu aos arruamentos nomes de familiares ou amigos. Assim, a Rua Cidade de Manchester chamava-se anteriormente Rua Isabel Leal, a Rua Cidade de Liverpool era a Rua José de Sousa, a Rua Cidade de Cardiff [vd. 1ª imagem] correspondia à Rua Maria Gouveia, a Rua Lord Byron (mais tarde Rua Newton) era a Rua Aurora e, por fim, a Rua Poeta Milton era a Rua Margarida.
[1943-1974 - Actas da Comissão Municipal de Toponímia de Lisboa]

Rua Cidade de Manchester, 9 |1964|
Notam-se as Ruas Ilha do Príncipe e Poeta Mílton dir.
Augusto Fernandes, in Lisboa de Antigamente
Rua Cidade de Manchester [c. 1945]
Vista tomada da R. da Ilha do Príncipe
Fernando M. Pozal, in Lisboa de Antigamente

Wednesday, 23 September 2015

O Sítio dos Quatro Caminhos

O Sítio dos Quatro Caminhos existe hoje apenas na tradição oral — observa Norberto de Araújo — ; em 1889 a serventia chamou-se cumulativamente «Rua dos Quatro Caminhos e dos Sapadores».  Ainda não há meio século [c. 1890] esta Cruz dos Quatro Caminhos era o eixo natural de quatro áreas do oriente da Cidade, uma apenas urbanizada em forma: a da Graça.
Por aqui se descia ao Caminho de Ferro e ao Vale de Santo António, sítios na vertente de muitas quintas desaparecidas; por aqui, a poente, se passava, via Caminho do Forno do Tijolo (a Charca), para os lados dos Anjos, Sant'Ana, Intendente, e Baixa; por aqui se fazia o trajecto, pela Estrada antiga — hoje Rua — que percorremos, até à Penha de França, descendo-se ao Poço dos Mouros.
 Em boa verdade, era uma extrema simpática da Cidade, com suas casas pequenas do século passado [séc. XIX], ou, as mais recuadas, do fim do século do Terramoto.

Sítio dos Quatro Caminhos [1969]
Rua dos Sapadores
Artur Inácio Bastos, in Lisboa de Antigamente


De acordo com Norberto Araújo, o topónimo deriva de um quartel lá existente:
Na primeira metade do século do Terramoto já aqui havia um aquartelamento, embora de reduzida superfície: era o Regimento da Segunda Armada, aos Quatro Caminhos, e, em boa verdade, não consegui saber a que correspondia aquela designação do regimento. No século passado, e durante longos anos, esteve aqui o Regimento de Engenharia, fazendo-se por várias vezes obras e ampliações, sempre restritas. Em 1911, pela reorganização do Exército, subdividiu-se a arma de engenharia, ficando neste quartel Sapadores Mineiros. Fizeram-se então novas ampliações, e ergueu-se este edifício que vês, corpo central de comando, recuado um pouco de frente, para alargamento da nova Rua de Sapadores (1912-1913). Em 1927, após a revolução de 7 de Fevereiro, os Sapadores saíram e entraram os Telegrafistas.

Sítio dos Quatro Caminhos [1953]
Vista tomada da Rua da Graça, ficando à esq. Rua Angelina Vidal e, à dir. a Rua dos Sapadores.
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Hoje tudo isto tem um aspecto alegre e já digno de um bairro de Lisboa. Anota essas casas baixinhas, do lado direito, esse pedaço de habitações pobres contínuas sobre uma cortina à entrada da Rua Angelina Vidal (antigo Caminho do  Forno do Tijolo), esse outro grupo de casebres junto do muro do Quartel, à nossa esquerda: são o último sinal dos Quatro Caminhos setecentista. Estão por meses; podes talvez saudá-los pela última vez.==
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. VIII, pp. 25-26, 1938)

Sítio dos Quatro Caminhos [1953]
Rua da Penha de França, entrada da Rua direita da Graça com a Rua dos Sapadores.
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Wednesday, 27 February 2019

Sítio de São Roque: Palácio Niza

Estamos no cérebro do Bairro Alto — diz Norberto de Araújo. Temos andado à roda do Bairro, sem penetrarmos no seu íntimo: em verdade só tenho querido evitar atropelos, em matéria de si tão entroncada de assuntos, tão xadrezada de motivos ornamentais da sua história.

Neste Largo de S. Roque-que desde 8 de Outubro de 1913 se passou a chamar «de Trindade Coelho» — é lugar de discorrermos — sem perdermos dez minutos — acerca [...] do edifício moderno, anexo da Misericórdia, com face para o Largo, e que se continua nos três primeiros lanços da Calçada do Duque.


Foi D. Francisco da Gama, 2." Conde da Vidigueira, quem aqui fez erguer o desaparecido Palácio Niza, em 1543, sobre chãos que a Câmara Municipal lhe aforou. O palácio era mais avançado do que hoje é.
A Casa solarenga foi dos descendentes de Vasco da Gama até 1631, ano em que, assoberbados de dividas, a venderam a Gaspar Freire, fidalgo da Casa Real. Mas logo quatro anos depois D. Vasco Luiz da Gama, 5.º Conde da Vidigueira, 1.º Marquês de Niza, voltou a adquirir o Palácio, que recebeu obras e beneficiações em 1672, para o que aquele fidalgo, que foi diplomata e Secretário de Estado de D. Pedro II, enquanto Regente — e não era opulento — precisou de vender umas casas que tinha na Rua Nova (dos Mercadores).
Em 1689 os Nizas não habitavam o seu Palácio de S. Roque, e nele residia o Embaixador de Franga Robert. Le Roux. Quando do Terramoto, o Palácio era a habitação faustosa do 1.º Patriarca de Lisboa. D. Tomaz de Almeida (que nele morreu); a permanência do famoso Prelado de Lisboa foi grande no Solar Niza, de S. Roque, e ao pátio chamava o povo «o Pátio do Patriarca».
O Terramoto .arruinou o edifício, e os fidalgos Gamas não estiveram dispostos — como aliás quási todos os propriet6rios de palácios em Lisboa — à reedificação, muito dispendiosa, sobretudo pela falta de braços.
Em 1814, num antigo palheiro da Casa, começou a funcionar um curioso «Teatro Pitoresco», no qual se representou, por amadores, o «Catão» de Almeida Garrett, e se deu o primeiro baile de máscaras público da capital. 

Sítio de São Roque: Palácio Niza [c. 1895]
Largo Trindade Coelho (Jurisconsulto e Escritor, 1861-1908); antes Largo de São Roque
À esq. a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, fundada em 1498 e. ao centro, antiga Companhia de Carruagens Lisbonenses; ao centro vê-se Coluna mandada erguer pela colónia italiana, comemorando o casamento do 
Rei Dom Luís I com Dona Maria Pia de Sabóia em 1862.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

O edifício, cada vez mais arruinado, ameaçava desmoronar-se; entrou a ser pardieiro, como tantos. Em 1835 a Câmara Municipal intimou a Marquesa, D. Eugénia da Gama, à demolição urgente. Mas a nobre dama vendeu, por comodidade, tudo quanto possuía neste sitio a Francisco Caldas Aulette, dicionarista, contador da Relação, pessoa culta e de bom gosto; a transferência de propriedade fez-se a 17 de Maio de 1837. Recompôs-se então o Palácio na parte de seu fundo, encostando à Calçada do Duque, com entrada no pequeno Largo defronte da Rua da Condessa. Em 1863, Ant6nio Florêncio dos Santos adquiriu a Aulette, para a sua Escola Académica, de bom nome alfacinha, a parte do edifício sobre o Largo da Rua da Condessa, e a extinta Companhia de Carruagens [Lisbonenses] comprou o edifício, com seu pátio sobre S. Roque.
Quando em Lisboa os trens entraram em desuso, a Companhia meteu em S. Roque — onde alardearam coches principescos e episcopais — os automóveis de «remise». Foram de há vinte anos [c. 1918]. No primeiro andar do prédio, com frente para o Largo, instalou-se em 1917 um jornal, de nomeada em Lisboa pelo seu feitio literário e noticioso, «A Manhã», de que foi principal fundador e animador o distinto jornalista Luiz Derouet, embora a direcção estivesse a cargo de Mayer Garção; êste jornal acabou em 1922. Por essa época liquidou também a Companhia de Carruagens, e o prédio foi adquirido por Deniz M. de Almeida que tomou o activo e passivo da Companhia. Foi êste capitalista quem em 1926 vendeu à Misericórdia de Lisboa o que restava, desfigurado em absoluto, do antigo Palácio Niza.
E logo em 1927 a Companhia Portuguesa de Caminhos de Ferro adquiriu o edifício da Escola Académica, transferida para o Monte Agudo, à Penha de França, onde ainda se mantém.
As obras de adaptação aos serviços da Misericórdia sabre fundamentos antigos, e aproveitando as paredes do Largo e da Calçada, foram dirigidas pelo construtor Touzé, sob o risco do arquitecto Tertuliano Marques.

Sítio de São Roque: Palácio Niza [1920]
Largo Trindade Coelho (Jurisconsulto e Escritor, 1861-1908); antes Largo de São Roque
Legenda foto arquivo: «Lotaria do Natal no largo de São Roque, actualmente Largo Trindade Coelho»
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

E sabre o Palácio Niza — de que tanto havia a dizer da época em que foi residência prelatícia, e do tempo em que foi sede de um dos mais interessantes jornais que tem havido em Portugal — nem mais palavra.
No muro que divide, actualmente, o edifício da Misericórdia daquela sede de escritórios da C. P. — no qual corria um lanço da muralha de D. Fernando, cuja relíquia está de pé-ainda existe uma lápide, que não se vê da rua, e que diz: «Êste lanço do muro que El-Rei D. Fernando acabou em 1413 foi conservado e reparado por Francisco José Caldas Aulete em 1840». 1413 — é a era, e que corresponde ao ano de 1375. Ainda há semanas vi a lápide, que chegou, a andar perdida durante obras no edifício

N.B. Da Misericórdia de Lisboa, falaremos numa próxima peregrinação.
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Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. V, pp. 81-87, 1938.

Wednesday, 25 July 2018

Palácio dos Copeiros-Mores

O antigo Palácio dos copeiros-mores, dito Palácio Coimbra (e melhor estaria a denominação de Palácio do «Braço de Prata»), situa-se na Rua de Santa Apolónia, onde o portal nobre tem o n.º 53, e constitui um quadrilátero, cuja fachada principal está orientada a Poente. 

Há um século e pouco [c. 1850] as águas do rio chegavam ao jardim a Nascente do palácio, e do lado Sul havia um embarcadouro.


O antigo palácio, ou palacete, da Rua de Santa Apolónia  — a que chamam o Palácio Coimbra — já existia no terceiro quartel do século XVII, pois em 1688 foi incluído num morgado instituído por António de Sousa de Meneses, denodado militar que foi capitão-mor das naus da Índia, governa­dor e capitão general do Brasil, onde perdera um braço em combate com os holandeses, em 1688. Era este homem filho de Francisco de Sousa de Meneses, 1.º copeiro-mor em tempos do Cardeal D. Henrique, e de seu pai lhe chegaram às mãos o palácio de Santa Apolónia e a quinta dos Olivais. que veio a chamar-se do «Braço de Prata», e deu nome ao sítio. [...]

Palácio dos Copeiros-Mores, portal e andar nobre da fachada |1941|
Rua de Santa Apolónia, 53
Eduardo Portugal
in Lisboa de Antigamente

Transmitia-se o morgado depois para a descendência de outra irmã do fundador, D. Maria Henriques, filha do primeiro casamento do 1.º copeiro-mor, e irmão do 2.º, Jorge de Sousa de Meneses, senhora casada com D. João Carcomo Figueiroa; depois ainda morgado e palácio transitaram para a descendência daquele 2.º copeiro-mor, Jorge de Sousa de Meneses, vindo a cair, em 1806, e após uma demanda com a 2.• Marquesa de Belas, D. Constança Manuel de Meneses (a qual- se arrogava direito à sucessão no morgado) em D. António José de Sousa Manuel de Meneses Severim de Noronha, 9.• copeiro-mor, 7.º Conde e 1.º Marquês de Vila Flor, mais tarde Duque da Terceira, e que ao tempo contava 2 anos de idade. Este fidalgo e célebre político vendeu o palácio, em meados do século passado [XIX], a um abastado negociante de Lisboa, João Pedro da Costa Coimbra, morador ao tempo na Rua da Penha de França.
Foi a este Coimbra que, em 1862, adquiriu a propriedade por 19 contos, e ainda 6 contos de desvinculação, a Real Companhia dos Caminhos de Ferro Portugueses, que do edifício e jardins tomou posse em 10 de Fevereiro daquele ano. A denominação de «Palácio Coimbra», que é do século passado, manteve.se, e ainda hoje [1950] perdura nas referências da Companhia. [...]

Palácio dos Copeiros-Mores, jardins, cocheiras |1858|
Rua de Santa Apolónia, 53

Há um século e pouco as águas do rio chegavam ao jardim a Nascente do palácio, e do lado Sul havia um embarcadouro. [Araújo: 1950]
Levantamento topográfico de 1858, autor: Folque, Filipe [pormenor], in Lisboa de Antigamente

O palácio, que pouco sofreu pelo Terramoto — era então do dr. Luís Diogo Lobo da Silva — , beneficiou de restauros no decorrer dos séculos XVIII e XIX; com as obras de adaptação promovidas pela Real Companhia de Caminhos de Ferro Portugueses, e que nos últimos anos tem continuado, ficou interiormente muito desfigurado, perdendo o seu velho carácter. É ocupado por escritórios da C. P. e, em parte dele, residem funcionários da Companhia.==

Palácio dos Copeiros-Mores, portal e andar nobre da fachada |1968|
Rua de Santa Apolónia, 53
Nota(s): ou do Capoeiro-Mor como o designam os incompetentes do abandalhado arquivo camarário.  
Armando 
Serôdio, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Inventário de Lisboa, 1950.

Sunday, 6 August 2017

A Bemposta: o Paço da Rainha

Eis-nos, Dilecto, deante do Paço da Bemposta. Observa-me a fachada desta casa paçã e palaciana; tem um certo ar mais aristocrático que fidalgo, mas, no seu conjunto, oferece um indiscutível interesse de arquitectura civil, com indicações puras seiscentistas na frontaria.


   Duas noticias te dou já: o adro, com sua escadaria, nem sempre foi como agora se apresenta; era mais avançado, e a sua redução ao espaço e configuração actuais datam de 1860. Quanto ao sítio, onde estamos, êle constituía um pátio do Palácio, fechado nos topos, com muros, onde rasgavam arcos ou portões, mas por onde aliás se fazia passagem pública, e demolidos em 1849.
    Foi aqui que uma Rainha, fatigada de pousadas estranhas, se recolheu um belo dia do ano de 1702. D. Catarina de Bragança regressara ao seu país em 1693, trazendo havia já oito anos sobre a sua cabeça, cortida por desgostos e resignações, o véu da viuvez que Carlos II de Inglaterra lhe legara. Filha e irmã de reis — porque não ter na sua pátria casa sua? Um paço próprio?

Capela e Paço Real da Bemposta [c. 1910]
Paço da Rainha; ao fundo,
a Penha de França
 Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

    D. Catarina, fiiha de D. João IV, que casara com Carlos II de Inglaterra — a que levou aos ingleses Tânger e Bombaim — enviuvara em 1685 e aborrecida da côrte de Inglaterra, voltou a Portugal em 1693, habitando sucessivamente os Paços Reais do Calvário, o Palácio dos Condes do Redondo, em Santa Marta, os do Conde de Soure, no Bairro Alto, os dos Condes de Âveiras, em Be1ém. E acabou por resolver — construir casa sua.
   Achamos que fêz muito bem.
   Entrou a Rainha a comprar terrenos a quantos proprietários, que por aqui desfrutavam quintas, hortas e azinhagas, os punham à disposição real. Do Matadouro [actual Praça José Fontana], Estefânia, Gomes Freire, Santa Bárbara e Bemposta de hoje — tudo passou a D. Catarina, que começou a erguer a sua casa neste lugar do Campo da Bemposta em 1694, e já nela habitava em 1702, ainda o edifício não estava concluído. A Carreira dos Cavalos [actual Rua Gomes Freire], ficava-lhe a Norte, acompanhando cêrca e jardins. O Paço não seria sumptuoso, mas merecer cuidados à viúva de Carlos II, que conhecia castelos e palácios de Inglaterra; a Capela, sobretudo, foi enriquecida de obras de arte, algumas trazidas na sua bagagem de rainha-viúva.

Capela e Paço Real da Bemposta [c. 1900]
Paço da Rainha, 31; portas brasonadas com as armas da Rainha D. Catarina de Bragança; entre as duas ergue-se, desde 2002, um busto em bronze da Rainha assente sobre pedestal em pedra, obra da autoria do escultor britânico Tim Fargher, foi oferecida à cidade de Lisboa pela British Historical Society of Portugal, por ocasião da visita da rainha Isabel II a Portugal.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

   Morreu D. Catarina em 1705, e a propriedade passou a seu irmão D. Pedro II, que só lhe sobreviveu um ano. O Paço tornado bem da Corôa foi por D. João V, em1707, doado à Casa do Infantado, tomando dele posse o Infante D. Francisco, falecido em 1752, e passando então a Bemposta para D. Pedro, irmão daquele, depois D. Pedro III. Veio o Terramoto. O Paço da Rainha ou Paço da Bemposta, como indistintamente era conhecido, sofreu bastante; a Capela, que era da invocação de Jesus Maria José, foi quási completamente arruinada. A Casa do Infantado, muito rica, reedificou o Paço com certa largueza, modificando:se sensivelmente a sua aparência. A Bemposta, abandonada, em certos períodos, já antes vinha reclamando obras.

Capela e Paço Real da Bemposta [1863]
Largo do Paço da Rainha
Gravura, in Archivo pittoresco

   Beneficiado o Paço, pôde vir habitá-lo D. Joáo VI, quando regressou do Brasil (1821). Foi aqui que se desenrolou parte das cenas da famosa «Abrilada», em 30 de Abril de 1824, conjura à frente da qual se colocou o irrequieto Infante D. Miguel, e que se malogrou pela intervenção do corpo diplomático, animado pelo embaixador de Luiz XVIII, o Barão Hyde de Neuville.
   (Neuville foi distinguido, logo quinze dias depois, com o título de Conde da Bemposta; um sobrinho de Neuville, que serviu D. Pedro IV nas lutas liberais e casou com uma dama portuguesa, da Casa Subserra, foi, depois, por D. María II, feito Marquês da Bemposta, e o título perdurou em três vidas, extinguindo-se na Casa Rio Maior).
   Depois de D. João VI viveram aqui D. Miguel (1828) e D. Pedro IV (1833). Em 1834 a Casa do Infantado foi abolida, e a Bemposta passou para a Corôa, rras D. Maria II apressou-se a doá-la ao Estado, quere dizer: à Nação.
   Eis porque eu te dizia que por ter comprado e feito, a Bemposta, andou bem a rainha D. Catarina de Bragança. Os ermos povoararn-se, o sítio animou-se, e a Nação ficou com mais um palácio útil.

Capela e Paço Real da Bemposta [c. 1910]
Largo do Paço da Rainha, 31 

Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Não podíamos, Dilecto, fugir a esta divagação, e pena tenho eu — de que tu talvez comparticipes — de não te poder resumir certas cenas da «Abrilada» descritas para França pelo próprio Embaixador Barão de Neuville em relatórios ao seu Ministro dos Negócios Estrangeiros, que era, nem mais nem menos, o grande escritor René de Chateaubriand, e pela Embaixatriz, Maria Roger de Neuville, num diário íntimo. Mas dêsses papéis se apura, e eis o que nos interessa, que êste sítio há cem anos era descampado e, de noite, «lúgubre e medonho».

Ele — o Paço — era a testa coroada de Sant'Ana toda. Perto, campo de ciganos, a Carreira dos Cavalos, o solar dos Mitelos de Meneses, nascidos em Santo Estêvão de Alfama.

Hoje — e desde 1851, por mercê de D. Maria II — é a Escola do Exército [actual Academia Militar]. A frontaria, de linhas aristocráticas da arquitectura de setecentos — eis tudo. Tudo e a Bemposta, a mais linda designação de Lisboa de há duzentos anos.


E fez o Paço Real da Bemposta [risco do arq.º João Antunes], um dos mais lindos espaldares arquitectónicos de Lisboa.
É vê-lo no seu alçado setecentista, recomposto depois do Terramoto [arq. Manuel Caetano de Sousa]. Na sua varanda nobre, no seu pórtico de capela real, no seu duplo escadório decorativo, cortinado de acrotérios. 
É senti-lo na evocação opulenta da Casa do Infantado, nas sombras do Infante D. Francisco, de D. João VI, do irrequieto Infante D. Miguel, que chegou a ser por algumas horas dono de Lisboa, mas que não sabia bem o que queria. 

Capela do Paço Real da Bemposta [c. 1910] 
Paço da Rainha
Na fachada imponente destaca-se o coroamento de platibanda e balaústres, pelo
remate com frontão triangular, decorado no tímpano, encimado por cruz sobre plinto,
e pela varanda central, de balaustrada contracurvada, para a qual se abrem três janelões,
sendo o central rematado por frontão tripartido ostentando as armas reais.
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

No interior a Capela organiza-se dentro de um rectângulo de ângulos arredondados, a nave, com seis capelas laterais, constituindo a do Santíssimo Sacramento [vd. foto abaixo (dir)], pela sua profundidade, uma unidade espacial autónoma, à qual se justapõe a capela-mor. O programa decorativo é inspirado na obra prima do barroco joanino, a Capela de S. João Baptista, da Igreja de S. Roque, mas atribuindo-lhe já um certo gosto rococó tardio, que se abre a manifestações neoclássicas. Merecem, ainda, destaque as pinturas em «trompe l'oeil» de Pedro Alexandrino de Carvalho e a tela do altar-mor, figurando a padroeira (N. S. da Conceição, vd. foto abaixo à esq), atribuída ao pintor italiano José Troni, sob a qual foi colocado um friso de retratos de elementos da família real.
A Capela está classificada como Monumento Nacional. O Paço Real da Bemposta integra a classificação do Campo dos Mártires da Pátria como Imóvel de Interesse Público.

Capela do Paço Real da Bemposta, nave, capela e altar-mor (esq) e Capela do Santíssimo, retábulo [1790-95] (dir) [c. 1962] 
Paço da Rainha
Robert Chester Smith, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. IV, pp. 47-48, 1938.
id., Legendas de Lisboa, p. 87, 1943.
Archivo pittoresco: semanario illustrado - Vol. 6, 1863.
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