Saturday, 16 April 2016

Palacete do Chafariz d'El-Rey, ou Palacete das Ratas

Mandado construir a partir de 1907, no local do antigo Palácio do Marquês de Angeja, destruído pelo terramoto de 1755, a propriedade foi partilhada pelos «brasileiros» João António e Augusto Vítor dos Santos. A partir de 1933, a posse do palacete passou para a família de Armando Dias da Cruz, até que, em 1980, com Francisco da Cruz, então proprietário, o imóvel deixou de ser habitado pela família e foi arrendado.

Palacete do Chafariz d'El-Rey, ou Palacete das Ratas [c. 1963]
Rua Cais de Santarém; Travessa do Chafariz, n.º 4 - 4 A
Armando Serôdio, in AML

Em Vias de Classificação, trata-se de um exemplar de arquitectura residencial romântica e ecléctica, de gosto revivalista, implantado em declive, sobranceiro ao Rio Tejo e assente parcialmente sobre as estruturas hidráulicas do Chafariz d'El-Rey e sobre vestígios da Cerca Moura. Este palacete, de planta compacta rectangular, volumetria escalonada, telhado de 4 águas perfurado por clarabóia, destacando-se um mirante, terraço e pequeno coruchéu, surge articulado em 2 corpos, de 5 pisos (2 deles parcialmente enterrados).
Este palacete-castelinho é hoje um pequeno hotel com seis quartos e salão de chá.

Palacete do Chafariz d'El-Rey, ou Palacete das Ratas [c. 1930]
Rua Cais de Santarém; Travessa do Chafariz, n.º 4 - 4 A
Eduardo Portugal, in AML

Crê-se que a origem do Chafariz d'El-Rey remonta a tempos muçulmanos. É certamente um dos mais antigos chafarizes da cidade. A sua fisionomia foi sendo alterada ao longo dos séculos resultante das diversas obras de que foi alvo. No reinado de D. Afonso II é chamado Chafariz de São João da Praça dos Canos e é a partir do reinado de D. Diniz que passa a ser designado por Chafariz d'El-Rey. No século XVI o chafariz era um recinto com muro, estando por baixo de três arcadas sobre colunas ornadas com o escudo régio e duas esferas armilares. 

Chafariz d'El-Rey [1909]
 Rua Cais de Santarém
 Joshua Benoliel, in AML

O seu aspecto actual obteve-o no século XIX. Este chafariz inicialmente tinha três bicas, depois passou a ter seis e por fim passaram a nove. Sendo o chafariz mais importante da cidade presenciou muitos motins e desacatos e até mortes, impondo-se a regulamentação da sua utilização pelo Senado, tendo sido estipulado que cada bica teria um destinatário: uma era para os negros forros; outra para os moiros das galés; outra para as moças brancas; outra para os homens brancos; outra para as índias, pretas, escravas e lacaios
No século XIX este Chafariz tinha nove bicas, dez Companhias de Aguadeiros, dez capatazes, trezentos e trinta aguadeiros e dois ligeiros. Os seus sobejos iam para o mar. Este chafariz também é designado por Chafariz n.º 18. (cm-lisboa.pt)

Chafariz d'El-Rey [s.d.] 
Rua Cais de Santarém
Fotógrafo não identificado, in AML

Quadra popular alusiva ao abastecimento público do Chafariz de El-Rey:
Os meus olhos se obrigaram
Ao que eu nunca me obriguei:
A dar água todo o ano
Para o Chafariz d'El-Rei.

(Agostinho de Campos e A. de Oliveira, Mil Trovas,  1917, p. 225, n.° 707)

2 comments:

  1. Este Palacete pertenceu ao meu avô, Armando dias da Cruz, e foi nele que eu nasci e vivi a maior parte da minha vida, atá ao ano da morte de minha avó, e finalmente, por decisão unanime da minha família, o resolvemos augar a despachantes do porto de Lisboa. Esteve vários anos alugado a despachantes, que infelizmente deixaram degradar o edifício a tal ponto que, para o salvar da derrocada, o decidimos vender. Fui eu que me ocupei da venda, e após muitos interessados em adquirir o Palacete, optamos por um Sr. Espanhol, Emilio Castillejos, visto que este o pretendia restaurar e voltar a conceder-lhe o fulgor de outros tempos. Após o restauro efetuado pela Fundação Ricardo Espírito Santo, o Palacete abre as portas ao público como hotel de charme, e no Salão dos Espelhos é servido de 4ª a Domingo um delicioso Brunch, e no terraço vista Tejo, pode-se tomar um refrescante cocktail com o azul do rio como pano de fundo. Quem visitar o Palacete não deve deixar de visitar a Capela, pois era lá que o meu Tio-bisavô, o Padre Cruz, um dos Santos portugueses mais venerados e amados do povo, rezava o terço e dava missa todos os domingos para a família.
    Nuno Mexia

    ReplyDelete
  2. Grato pelo seu interessante contributo.

    ReplyDelete

Web Analytics