sábado, 19 de dezembro de 2015

Feira da Luz

Largo da Luz, Carnide


O topónimo advém do local, o «Sítio da Luz». Teve origem na lenda que diz ter Nossa Senhora aparecido aureolada de luz a Pêro Martins, natural de Carnide, quando este, provável homem de armas, se encontrava aprisionado no Norte de África.

   Ligada à tradicional romaria que se realizava anualmente, em Setembro, no Santuário da Nossa Senhora da Luz, a feira era complemento das festividades religiosas que duravam vários dias, atraindo numerosos forasteiros da capital e arredores. Embora se possa considerar tão antiga como o próprio culto e remonte, certamente, à Idade Média, foi durante os séculos XVI e XVII que começou a adquirir maior projecção.
A romaria da Luz era muito concorrida e chegou a ter participação do Sírio da Senhora do Cabo que já vinha regularmente à pequena ermida do Espírito Santo desde 1437. O culto do Espírito Santo era anterior e foi absorvido pela nova devoção.

Feira da Luz, Largo da Luz, Carnide [1903]
Fotógrafo não identificado, in AML

Os marítimos, eram devotos da nossa senhora da Luz e, por isso, compareciam sempre várias confrarias com os seus estandartes. Mas, numa área essencialmente rural, os principais devotos eram os trabalhadores rurais de toda a zona norte do termo de Lisboa e até os saloios de Mafra e Sintra. Por isso, as festividades religiosas e a feira que se lhe seguia passaram a realizar-se em Setembro, no final das colheitas de Verão.

Feira da Luz, Largo da Luz, Carnide [séc. XIX]
Fotógrafo não identificado, in AML

Todos os membros da nobreza em veraneio nas quintas do Lumiar, Benfica, Carnide e muitos vindos propositadamente da capital, bem como membros da casa real participavam ou faziam-se representar. Os reis D. João III e D, João VI e as rainhas D. Catarina e D. Carlota Joaquina, suas mulheres, eram devotos e romeiros fervorosos. No cortejo, a imagem de Nossa Senhora era levada numa berlinda real e acompanhada por dois coches onde seguiam os reis. Esta ligação à corte era antiga, pois já o rei D. Afonso V tinha feito parte da confraria da Luz que cuidava da imagem e do santuário e organizava as festividades. O numeroso cortejo percorria as ruas de Carnide e voltava ao santuário.

Feira da Luz, Largo da Luz, Carnide [190-]
Paulo Guedes, in AML

No início, a feira surgiu integrada nas festividades religiosas, com barracas de comes e bebes, vendedores de medalhas, registos de santos, rosários e objectos religiosos. Pouco a pouco, foi-se ampliando e surgiram os louceiros, vendedores de fruta, cesteiros e, por último, os negociantes de gado. Chegou a realizar-se uma feira de gado, quinzenalmente, no segundo domingo de cada mês, mas a feira anual era o grande atractivo para os negociantes de cavalos e de gado vacum. Em 1881, por regulamento camarário (Câmara de Belém), a feira passou de três para cinco dias com o mercado de gado de 8 a 11 de Setembro e os restantes produtos nos seguintes.

Feira da Luz, Largo da Luz, Carnide [1903]
Fotógrafo não identificado, in AML
   
As barracas agrupavam-se no largo da Luz e havia manifestações populares como corridas de bicicletas, jogos e competições desportivas, fantoches e teatro de rua. Os petiscos eram famosos, nomeadamente as farturas. Numerosas famílias aristocratas faziam grandes piqueniques nas quintas e os forasteiros «arranchavam» nos campos, ao longo das estradas da Pontinha e da Correia. Figuras famosas da boémia lisboeta frequentavam a feira da Luz em Carnide, especialmente o conde Vimioso que, segundo a tradição, se fazia acompanhar pela Severa.

Feira da Luz, Largo da Luz, Carnide [1903]
Fotógrafo não identificado, in AML

   Os aristocratas deslocavam-se em carruagens próprias e os populares iam de burro ou a pé. Quando se inaugurou o elevador de S. Sebastião da Pedreira em 1899, o percurso mais encurtado, através da estrada da Luz, por Sete Rios. Em 1929, com o estabelecimento da linha de eléctricos que ligava os Restauradores a Carnide, o acesso ficou mais fácil e foi estabelecido um novo calendário, prolongando-se a feira desde o primeiro sábado até ao último domingo de Setembro. (in jf-carnide.pt)

Feira da Luz, Largo da Luz, Carnide [1903]
Fotógrafo não identificado, in AML

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