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Sunday, 15 December 2024

Rua do Alecrim que foi «do Conde»

Do fundo N. da Praça do Duque da Terceira sobe em declive violento a Rua do Alecrim, antiga Rua do Conde (de Vimioso), que, para ganhar o desnível, passa sobre dois arcos, um na R. Nova de Carvalho e outro na de S. Paulo.

Ora agora podemos ver a interessante perspectiva desta Rua do Alecrim — diz Norberto de Araújo — , com seus estabelecimentos de bric-à-brac, as fachadas dos seus prédios com recorte nas cantarias e sacadas bem desenhadas, e ao fundo um retalho do Tejo, alegria de Lisboa.
E «do Alecrim» ― porquê ? Que originou a modificação no tradicional dístico de Rua do Conde?
 
Rua do Alecrim que foi «do Conde» |1965|
Tinha um traçado pré-pombalino, sendo «uma das artérias mais características destes sítios, muito lisboeta, com o seu delicioso enfiamento até S. Roque, direita como um fuso e em dois terços da sua extensão corresponde à seiscentista Rua do Conde». [Araújo: 1939]

Armando Serôdio, in Lisboa de Antigamente

No quarteirão ao alto da Rua do Alecrim, entre esta e a Rua das Flores, uns trinta metros abaixo de onde está a Farmácia Andrade [vd. 3ª imagem], fazendo esquina para uma rua de Brás da Costa, desaparecida, existiu uma Ermida, integrada numa propriedade, fundada por D. Ana de Vilhena entre 1628 e 1641, e cuja Imagem de Nossa Senhora, que viera de S. Miguel de onde D. Ana era natural, foi chamada «do Alecrim» por inspiração de uma criança, filho da fundadora da Ermida, muito tempo antes de esta ser erigida.=

Rua do Alecrim que foi «do Conde» |Início séc. XX|
Antes de ser rua, «era o torcicolo do Cata-que-farás que serpeava, na subida, tocando,
à direita, uma confusão de casas encostadas às muralhas trecentistas de D. Fernando» [França: 1994]
Alexandre Cunha, in Lisboa de Antigamente

Uma curta paragem no Largo do Barão de Quintela onde, numa madrugada de 1866, vamos encontrar Hans Christian Andersen. Acabava de chegar a Lisboa e tinha pedido ao cocheiro que o «conduzisse ao Hotel Durand na praça perto da Rua das Flores». Num outro prédio, num «segundo andar, por trás de uma janela iluminada», está Alípio Abranhos «a olhar, desesperadamente, para a tenebrosa pacatez do Largo». O palácio Quintela, que dá o nome ao largo, possui a sua fachada principal virada para o largo e ocupa um vasto terreno entre as ruas do Alecrim e António Maria Cardoso. Foi comprado, em 1777, por Luís Rebelo (irmão de Inácio Pedro Quintela). Nesse terreno, esteve um outro Palácio, o dos condes de Vimioso, que ardeu em 1726. O largo foi terraplenado em 1788 e a estátua de Eça de Queirós, obra do escultor António Teixeira Lopes (1866-1942), que nele se encontra, foi inaugurada no dia 9 de Novembro de 1918.

Rua do Alecrim que foi «do Conde» |1965|
Palácio do Barão de Quintela e Conde de Farrobo (esq.); Farmácia Andrade
Armando Serôdio, in Lisboa de Antigamente

No primeiro lanço da rua, vindos  da Praça do Duque da Terceira, que assenta sobre dois arcos mandados construir pelo marquês de Pombal, situava-se o Hotel Bragança (no n.º 12, à direita), fundado em 1912, então como pensão, e só anos mais tarde tornado hotel, para cujo nome foi necessário obter autorização da Casa de Bragança. Foi neste hotel que Saramago hospedou Ricardo Reis, quando este regressa do Brasil, em 1935: «(...) quando o automóvel já está a dar a volta ao largo, e o motorista avisa. O hotel é aquele, à entrada da rua. Parou em frente de um café, acrescentou, O melhor será ir ver primeiro se há quartos, não posso esperar mesmo à porta por causa dos eléctricos».

Rua do Alecrim que foi «do Conde» |190-|
Não deve ser confundido este «Hotel (Pensão) Bragança (1912)» da Rua do Alecrim, 12, fundado por Manuel Miguez Simas, como simples Pensão, com o «Hotel Bragança» (ou Braganza), citado em «Os Maias» de Eça de Queirós, sito na Rua Vítor Cordon (antiga rua do Ferragial de Cima), 45.
Paulo Guedes, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
JANEIRO, Maria João , Lisboa: histórias e memórias, 2006.
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIII, p. 51, 1939.
PROENÇA, Raul, Guia de Portugal, Generalidades: Lisboa e arredores, 1924.

Monday, 27 July 2015

Rua Nova do Carvalho

Carvalho (Beco do) — Ou Rua Nova do Carvalho. Anteriormente ao terramoto de 1755, havia na freguesia de S. Paulo um beco denominado «da Carvalha».¹ Corria na direcção N. S., e ficava «entre a rua direita de S. Paulo e a da Praia [de S.Paulo?]». Tinha de comprimento 79 varas, 2 p. e 7/10, e de largura 2 varas, 4 p. e 9/10 [vd. N. do A.]. É provável reminiscência desta denominação transmudado o género, a da actual «Rua Nova do Carvalho», a qual, conquanto lançada na orientação oposta, deve avizinhar o poiso do antigo beco referido.
¹ «Que antigamente chamavam do Varão» , diz Carvalho da Costa [1712].
(BRITO, Gomes de) Ruas de Lisboa. Notas para a história das vias públicas, 1935)

N. do A. A «vara» correspondia a 110cm e o «pé» a 0.33cm.

Rua Nova do Carvalho, lado nascente.|c. 1940|
Denominado Arco Pequeno, sendo  o Arco Grande o da Rua de S. Paulo; Rua do Alecrim
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente
 
A Rua Nova do Carvalho, que liga a Travessa do Corpo Santo à Praça de São Paulo, na zona do Cais do Sodré, tal como a Travessa do Carvalho, evoca a família do Marquês de Pombal, Sebastião José de Carvalho e Melo, responsável político pela reconstrução de Lisboa após o Terramoto de 1755 e, sobretudo o seu irmão Paulo de Carvalho e Mendonça.
O plano urbanístico de Pombal resolveu a forte inclinação da vertente da Rua do Alecrim, prolongando-a numa espécie de ponte em dois grandes arcos sobre a Rua de São Paulo e a Rua Nova do Carvalho e, este projecto mereceu especial atenção do Marquês de Pombal (1699-1782) que encarregou o seu irmão Paulo de Carvalho e Mendonça (1702-1770), que foi Monsenhor da Patriarcal de Lisboa, Inquisidor-mor e Presidente do Senado da Câmara (1764), da administração das obras da Praça, a par de outras obras de primeira importância para a cidade, como os Paços do Concelho, o Depósito Público e o Cais da Ribeira.
 
Rua Nova do Carvalho, lado poente.|c. 1947|
Denominado Arco Pequeno, sendo  o Arco Grande o da Rua de S. Paulo; Rua do Alecrim
Martinez Pozal, in Lisboa de Antigamente

N.B. Para que a Rua do Alecrim descesse até à margem do Tejo e obtivesse assim uma formosa entrada — diz Pinho Leal no seu Portugal antigo e moderno — , foi preciso ao insigne arquitecto da nova Lisboa, Eugénio dos Santos Carvalho, vencer a grande dificuldade que lhe apresentava o terreno, na quebrada do Sul da rua.
Para isto concebeu, desenhou e executou arco (viaduto) que passa sobre a Rua de S. Paulo, por cuja circunstância se lhe deu o nome de Arco de S. Paulo (ou Arco Grande). Este arco, de ponto abatido e a ponte toda obliqua, a sua solidez e elegância, constituem esta obra um primor de arte neste género.
Pouco mais abaixo deste arco, há outro (denominado Arco Pequeno) que dá passagem à rua inferior (Nova do Carvalho). Estes arcos tinham primeiramente as guardas feitas de parede: hoje têm boas e solidas grades de ferro.
(PINHO LEAL, Augusto Soares de Azevedo de, Portugal antigo e moderno, 1874)

Sunday, 30 August 2020

Galgou a Calçada do Alecrim

A chuva recomeçara; e ao fundo da Calçada do Alecrim separaram-se, quando soavam devagar as onze horas na torre da igreja de S. Paulo.

Artur galgou a calçada do Alecrim, impressionado, exaltado. Decidia-se agora a abandonar todos os hábitos de sociedade, as esperanças vãs em amores fictícios, a literatura puramente lírica; [...]

(QUEIROZ, Eça de, A Capital, 1877)


Rua do Alecrim [ant. 1900]
Largo do Chiado, vulgarmente conhecido pela denominação de Largo das Duas Igrejas ou Praça do
Loreto, sendo constituído pelo troço da Rua Garrett que findava na Praça Luís de Camões (entre 1880
e 1925). Nofim do século XV era a estrada que vai ter a Cata-que-farás, segundo o olisipógrafo Luís
Pastor de Macedo.
Estúdio Horácio Novais.  in Lisboa de Antigamente

O nome de rua do Alecrim — lê-se no Archivo Pittorescoproveio de uma ermida dedicada a Nossa Senhora do Alecrim, que ahi fundou, em 1641, uma senhora viúva e de nobre família, chamada D. Anna de Vilhena.
Estava situada esta ermida junto da porta de Santa Catharina, e esta porta occupava o fundo de um largo pouco espaçoso, ao presente denominado das Duas Egrejas, no sitio onde começa a descer a rua das Portas de Santa Catharina. O largo era então guarnecido, da parte do norte e do sul, por dois lanços da muralha, que iam formar dois angulos: o do norte, proximo da egreja do Loreto, que ficava de fora, e do qual proseguia o muro ao largo de S. Roque: e o do sul no lugar em que vemos o predio contiguo à egreja de Nossa Senhora da Encarnação, d'onde o muro continuava, separando as ditas ruas do Alecrim e da Cordoaria Nova, depois Thesouro Velho [actual Rua António Maria Cardoso].==
(in Archivo Pittoresco, 1862, vol. 5, p. 398)

Rua do Alecrim [ant. 1900]
Perspectiva tomada da Rua da Misericórdia (antiga de S. Roque)
José Artur Bárcia, in Lisboa de Antigamente

Wednesday, 7 February 2018

Café-Restaurante Royal

O «Café Royal» tem boa situação na Praça, entre tabacarias que se distinguem — tal as do Rossio — pela profusão de revistas e jornais estrangeiros; não tem história recuada. Foi fundado em 1906[1904] pelos donos do Cafe Central da Calçada do Carmo (...)

Era neste Café-Restaurante que costumava almoçar nos últimos anos da sua vida, sempre acompanhado de sua espôsa, o pintor Columbano.¹


O Café Royal — recorda M. Tavares Dias na sua Lisboa Desaparecida — constitui sozinho uma página importante da história do Cais do Sodré. Em estampas oitocentistas o gaveto nascente da Praça Duque da Terceira com a Rua do Alecrim é ainda morada do alfaiate Rego. Como de costume, inscrições do toldo e da fachada exibem publicidade em inglês: Rego Tailor.

 Café Royal |c. 1912|
Praça Duque da Terceira e Rua do Alecrim (Hotel Bragança); Rua Bernardino Costa (dir.)
Alberto Carlos Lima,  in Lisboa de Antigamente

O estabelecimento foi trespassado em 1902, adquirido por um brasileiro de torna-viagem que ali pretendia instalar um café elegante. Esmerou-se nas decorações exteriores, encomendando a J. Bonnadove desenhos vários, alusivos aos prazeres da gastronomia e da boémia. A partir deles foram estampados belos painéis de azulejo para enquadramento das portas e embelezamento das fachadas. Apeados inteiros na altura em que o café encerrou, esses azulejos versavam sete temas distintos, cujo levantamento aqui deixo a partir de fotografias e outros documentos da época.

Café Royal |1958|
Painel (central) de azulejos assinados

por J. Bonnadove
Armando Serôdio, in L.A.
Painel central sobre a praça: publicidade à Água Castello (figura feminina exibindo uma garrafa) [vd. 2ª foto]. Painel lateral nascente, sobre a praça: piquenique campestre com quatro convivas. Painel lateral poente sobre a praça: interior de café (três homens à mesa).  Painel poente tornejando para a Rua do Alecrim: cena de brinde com champanhe; várias figuras à mesa (uma delas, de cálice erguido, ocupava o friso vertical que constituía o gaveto do quarteirão) [vd. 3ª foto]. Painéis pequenos virados para a Rua do Alecrim: dois com motivos campestres e, ao centro, o «painel do caçador» (que teria sido inspirado pelo poeta Bulhão Pato).

A tempos espaçados estiveram inteiramente cobertos os dois painéis, à esquerda da entrada, pois desse lado instalara-se a tabacaria do café com as suas vitrinas repletas de estampas e de postais. Os desenhos acompanhavam quase toda a altura da fachada do café (piso térreo do edifício), começando a cerca de um metro do solo. Todos estavam enquadrados por molduras em relevo com motivos arte-nova, cuja policromia contrastava com o azul ferrete  dos motivos principais.
 
Café Royal |1958|
Painel de azulejos no gaveto do
quarteirão assinados por J. Bonnadove
Armando Serôdio, in L.A.
Os interiores também eram modern-style (mesas monogramadas e espelhos debruados a ouro), pelo que a casa inaugurou no pino da moda em artes decorativas. Nesse ano de 1904 o Café Royal adivinhava-se futuro centro de muitas e ilustres tertúlias. Alguns meses após a fundação já o proprietário inicial o tinha em praça para trespasse por preço disso condigno, encontrando imediatamente muitos colegas interessados. O café seria então — 1905 adquirido pela família Blanco, em cujas mãos se manteve até 1959, ano do encerramento. Entre estas duas datas um mundo de luzes cintilou em volta das suas mesas. Na lista dos clientes do Royal poder-se-ão apontar, entre muitos outros, Columbano e Raphael Bordallo Pinheiro, Camilo Pessanha, Mário de Sá-Carneiro. Fernando Pessoa. Almada Negreiros, António Botto, Gago Coutinho, Reinaldo Ferreira (Reporter X), Armando Portela, Rocha Martins, Cunha Leal, Lopes Graça. Luiz Pacheco, Helder Macedo, Virgílio Martinho. António José Forte, Ernesto Sampaio, Mário Cesariny e Mário Domingues.

Foi este último escritor, conhecedor do café desde a segunda década do século [XX], quem fez a elegia da casa num panfleto publicado pouco antes do encerramento: «Conheci naquele aconchegado café tantos tipos humanos, presenciei tanto drama, escutei tanta confidência. lidei com gente tão fraternal e, por vezes, com patifes. escroques internacionais, mal disfarçados espiões que se acotovelavam com ingleses gelados e rígidos por fora e sentimentais por dentro, holandeses saudáveis, americanos mal-educados mas good-fellows; impregnei-me de tanta humanidade, armei-me de tanta compreensão e tolerância que considero o Royal o maior tesouro espiritual da minha vida.» Estas palavras de homenagem reflectem bem as múltiplas faces do mundo que, entre as duas guerras, desaguava no Cais do Sodré, encaminhando os passos para o seu principal pólo de vida: as mesas do célebre café.²

 Café Royal |c. 1910|
Praça Duque da Terceira; Rua Bernardino Costa (dir.)
Joshua Benoliel,  in Lisboa de Antigamente

N.B.  No próximo artigo — e ainda a propósito deste curioso  café — contaremos uma história picaresca em que contracenam o freguês «exigente», o empregado de mesa — um tal de Chico —, um cozinheiro pouco zeloso e ainda... um  bife. A não perder.
___________________________________________
Bibliografia
¹ ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIII, p.39, 1939.
² DIAS, Marina T
avares, Lisboa Desaparecida, vol. 6, pp. 179-184, 1989.

Sunday, 11 December 2022

Travessa do Alecrim que foi do «Cataquefarás»

E o enigmático Cata-que-farás, de que já nos fala Fernão Lopes, que ficava não longe do actual Cais do Sodré, e que uma das nossas municipalidades ineptamente transformou em Travessa do Alecrim? Cata-que-farás seria porventura um prolóquio, uma sentença, um velho rifão equivalente a: Procura que hás de acharProssegue que hás de conseguir — Trabalha que hás de vencer: conselho dado talvez aos mareantes e navegadores, que por ali embarcavam durante toda a época áurea das navegações, dos descobrimentos e das conquistas? Cata-que-farás era decerto na sua ingenuidade rude um enérgico repelão, uma sacudidela salutar na mandrieira nacional... E os marinheiros que partiam iriam dali cantando:

«Partimos de Portugal
Catar cura a nosso mal»
.
(in Embrechados por António Maria José de Melo César e Meneses Sabugosa)

 

Travessa do Alecrim, perspectiva tomada da  R. das Flores para a R. do Alecrim [1945]
O topónimo Travessa do Alecrim foi atribuído pela CML, através do Edital de 31/12/1885, à antiga Travessa do Cata-que-farás, a qual fora denominada até 1882 Travessa do Catefaraz. 
Fernando Martinez Pozal, in Lisboa de Antigamente

Como curiosidade transcreve-se um anúncio publicado, em 1820, na velha Gazeta de Lisboa, o primeiro jornal oficial português: 
«Carlos Baker annuncia ao Publico que elle he o unico Agente no meado por Day e Martins de Londres, para vender em Lisboa, a verdadeira graxa para çapatos e botas, descoberta feita por elles; para venda e fabrico da qual se lhe concedeo Privilegio Privativo, e que daqui em diante quem a quizer comprar genuina e livre de duvida, ha de achalla no seu Escriptorio na travessa de Cátefaraz N.° 3, tendo eada botija hum bilhete na rolha com o letreiro seguinte, Charles Baker, travessa de Catefaraz N.º 3 entre a rua das Flores e a rua do Alecrim».

Travessa do Alecrim [1947]
Frades de pedra junto à Rua do Alecrim
Fernando Martinez Pozal, in Lisboa de Antigamente

Wednesday, 17 February 2016

Palácio do Barão de Quintela e Conde de Farrobo

O Palácio dos Quintelas-Farrobos sito na Rua do Alecrim, erguido entre 1781-1882 pelo desembargador Luís Rebelo Quintela, fidalgo da Real Casa, sobre as ruínas do Palácio do Marquês de Valença (destruído por um incêndio, em 1726, e abandonado até 1777),  traduz um exemplar de arquitectura residencial pombalina, caracterizado por um eclectismo de matriz neo-clássica ou neo-barroca. O palácio foi muito ampliado e enriquecido por Joaquim Pedro Quintela, 1.° Barão de Quintela, sobrinho daquele desembargador, que instituiu o Morgado de Farrobo. O 2.° Barão e 1.° Conde de Farrobo, também Joaquim Pedro Quintela, revestiu o Palácio de ostentação rara em Lisboa. 
Foi neste palácio que se instalou o odioso general Junot em 1807/1808, durante a Primeira Invasão Francesa.

Palácio do Barão de Quintela e Conde de Farrobo [1933]
Rua do Alecrim, 56-72; Rua António Maria Cardoso, 37
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

De planta rectangular simples, com dois pequenos pátios interiores, do mesmo formato, a que se adossa um corpo também rectangular correspondente às antigas cocheiras, possui jardim murado com pórtico de acesso.
No final do séc. XIX, após a falência do Casa Quintela-Farrobo, é adquirido pelo capitalista Mendes Monteiro, e, posteriormente, herdado por António Carvalho Monteiro — o construtor da Quinta da Regaleira, em Sintra, e a quem toda a Lisboa chamava o «Monteiro Milhões» (ARAÚJO, 1939) — e alguns anos depois, por via matrimonial, passou para a Casa Pombal, cuja família aí mantém residência. 

Palácio do Barão de Quintela e Conde de Farrobo [c. 1910]
Rua do Alecrim, 56-72; Rua António Maria Cardoso, 37
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

O interior foi objecto de uma campanha de remodelação e enriquecimento artístico, dirigida pelo arq.º Hildbrandt e pelo cenógrafo e decorador Cinatti, no 1º quartel de Oitocentos, merecendo destaque as alterações estruturais introduzidas, os estuques artísticos e as pinturas a óleo e a fresco de António Manuel da Fonseca e de Wolkmar Machado.
A Classificação como Imóvel de Interesse Público abrange os jardins, os muros e o pórtico de acesso.

Palácio do Barão de Quintela e Conde de Farrobo [c. 1910]
Rua do Alecrim, 56-72; Rua António Maria Cardoso, 37
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente
 
N.B. A partir de meados de Fevereiro escreve-se um novo capítulo na história deste palácio, a antiga casa do Barão de Quintela abre ao público sob o nome Palácio Chiado. Lá dentro estarão 7 chefs e respectivos conceitos, do sushi aos hambúrgueres, e cerca de 250 lugares sentados.

Sunday, 22 November 2015

Rua do Alecrim

Sobre este arruamento e as suas anteriores denominações escreve Luís Pastor de Macedo: «(…) a rua do Conde nos fins do século XVII foi também designada por rua Direita do Conde, aparecendo pela primeira vez em 1693 a denominação da rua Direita do Alecrim. Depois do terramoto, além de ter tido o nome de rua das Duas Igrejas, conforme diz Castilho e Gomes de Brito menciona, teve também, segundo o mesmo autor, o nome de rua Larga do Loreto, nome que aliás não lhe vemos dar, uma única vez que seja, nos registos paroquiais. No fim do século XV era a «estrada que vay ter a Cata que farás.» 
 
Rua do Alecrim [1912]
Festas da Cidade, desfile de carros alegóricos.
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Friday, 12 July 2019

Hotel Bragança ou Braganza Hotel

E numa luminosa e macia manhã de Janeiro de 1887, os dois amigos, enfim juntos, almoçavam num salão do Hotel Bragança, com as duas janelas abertas para o rio.

— QUEIROZ, Eça de, Os Maias, 1888


O Hotel Bragança ficava perto do Chiado, à esquina da Rua Vitor Cordon (outrora Ferragial de Cima) com a Rua dos Duques de Bragança (veio a chamar-se Rua da Luta, para de novo voltar a ser dos Duques de Bragança), não distante da Baixa. Era o Hotel Bragança o mais belo hotel lisboeta da época. Nele hoje funciona uma dependência da Universidade Livre. Pertence o edifício à Fundação D. Manuel II.

Hotel Bragança visto do Largo do Corpo Santo [1856]
No cimo vê-se a fachada que deitava para este Largo; situado na Rua Vítor Cordon (antiga rua do Ferragial), 45 — no local onde se situaria o Edifício do Tesouro dos Duques de Bragança — não deve ser confundido com o «Hotel Bragança» da Rua do Alecrim, 12, que lhe fica próximo. Do lado esq. vê-se o Convento do Corpo Santo.
C. P. Symonds, in Lisboa de Antigamente

O edifício do Hotel Bragança — diz o eng.º Vieira da Silva — , primeiramente denominado Hospedaria de Bragança, e depois, talvez por soar mal esta castiça designação portuguesa, chamado Braganza Hotel, alugado actualmente [1943] às Companhias Reunidas Gás e Electricidade, tem lojas na frente oriental e em parte da frente norte, rés-do-chão, 1.° e 2.° andares e sótão habitável; 11 janelas na fachada do norte e 12 na do sul; e 5 na frente do nascente e 4 na do poente. Não conseguimos averiguar em que ano foi construído o edifício (talvez depois do grande incêndio de 1841).

– Escreve para Lisboa, para o Hotel Bragança... Os lençóis ao menos são frescos, cheiram bem, a sadio!
— QUEIROZ, Eça de, A Cidade e as Serras, 1901

Hotel Bragança [196-]
Rua Vítor Cordon (antiga do Ferragial), 45

Armando Serôdio, in Lisboa de Antigamente

Pelo Braganza Hotel passaram alguns hóspedes ilustres vindos dos quatro cantos do mundo: imperadores, reis, príncipes, diplomatas, artistas e escritores, todos se hospedaram neste Braganza Hotel durante o século XIX. «(..) D. Fernando, o senhor infante D. Luiz (já então rei), o senhor infante D. João, etc. A rainha da Suécia, irmã de sua magestade imperial a duquesa de Bragança, também habitou este hotel, nos mesmos quartos dos imperadores do Brasil. Também esteve aqui residindo alguns dias S. A. o sultão de Zanzibar, Said-Bargash. (...) a célebre e estravagantíssima actriz francesa Sarah Bernhardt (Abril de 1882), e a viúva de Rattazzi,; o rei Kalakawa [Havai] (Agosto de 1881) e tôda a sua comitiva; os embaixadores do Japão ; o músico espanhol D. Guido Remigio Barbieri; sua alteza a princesa imperial do Brasil, seu marido o senhor conde de Eu, e o seu séquito;(...)»

Hotel Bragança visto do Arsenal de Marinha [c. 1870]
Rua Vítor Cordon (antiga do Ferragial), 45
Francesco
Rocchini, in Lisboa de Antigamente
___________________
Bibliografia
SILVA, Vieira da, Os Paços dos Duques de Bragança em Lisboa, in Olisipo: boletim do Grupo Amigos de Lisboa, 1943.

Sunday, 1 June 2025

Rua da Boavista

A origem do nome do sítio é projecção toponímica do Alto da Boa Vista, ou seja, ou Alto do Belver ou Belveder actual Alto de Santa Catarina. Não quero deixar de observar-te — recorda o ilustre Norberto de Araújo — que as edificações desta artéria da Boa Vista, do lado Sul, não levam cem anos (c. 1840). O edifício da Companhia do Gás sucedeu ao antigo Quartel da Brigada Real de Marinha. Foi aqui a primeira Fábrica do Gás, cujo privilégio concedido a Claudio Adriano da Costa e ao francês José Detry, datava de 3 de Maio de 1846

Rua da Boavista |ant. 1914|
O edifício do lado esq., até à esquina com o Boqueirão dos Ferreiros pertencia à «Companhia Lisbonense de Iluminação a Gaz»; em ampliando a foto observam-se, ao fundo, os sete arcos do do prédio nº 67 erguido pelo industrial Ferreira Pinto em meados do séc. XIX para «palacete de família, e constitui ainda a única nota decorativa urbana da Rua da Boa Vista.» [Araújo, 1939]
Alberto Carlos Lima, in Lisboa de Antigamente
Nota(s): o local da foto não está identificado no abandalhado amL

De facto, foi junto ao rio, meio de transporte privilegiado, que a «Companhia Lisbonense de Iluminação a Gaz» instalou, em 1846, a sua primeira fábrica de Gás; e, dois anos depois, em 1848, já Lisboa inaugurava a iluminação a gás, com 28 candeeiros, nas ruas da Baixa (Rua dos Capelistas, Rua do Ouro e Rua da Prata), no Chiado, na Rua do Alecrim, no Cais do Sodré, em S. Paulo e na Boavista.

Rua da Boavista |1940|
Companhias Reunidas de Gás e Electricidade: fachadas Norte e OesteBoqueirão dos Ferreiros.
Kurl Pinto, in Lisboa de Antigamente

Em 1914 deu-se na fábrica a formidável explosão que originou dezanove mortes, e o fabrico do gás passou então, inteiramente, para o Bom Sucesso — vizinhança da Torre de Belém — , onde ase manteve até 1949.

Rua da Boavista |1914|
Topónimo anterior ao terramoto de 1755, como vem mencionado nas Memórias Paroquiais.
Incêndio no edifício da Companhia de Gás.
Anselmo Franco, in Lisboa de Antigamente

Friday, 12 January 2018

Lojas de antanho: «Ao Último Figurino»

O Chiado — resiste. Perdeu-se o seu romantismo ainda de ante de ontem, mas o Chiado persiste [...] Resiste... Garrett, flamante de casaca verde e bronze com botões dourados, colete de pique de grandes bandas, cintado e pernoita calça cor de alecrim, peitilho e punhos de canudo, luvas cor de canário, gravata azul-ferrete — ainda lá está na parede da esquina da... Rua Garrett. O Maggiolo à esquina da Calçada do Sacramento, casa de café e de brinquedos — foi-se embora. Está lá agora o Último Figurino. ¹

Rua Garrett, 20-26 [1966]
Antiga Rua do Chiado (até 1880); Esquina da Calçada do Sacramento
Montra da casa de modas «Ao Último Figurino», fundada em 1910. mais tarde «Novo Figurino».
Garcia Nunes, in Lisboa de Antigamente

Atravessando para o quarteirão seguinte da Rua Garrett (antiga do Chiado), vamos encontrar uma das casas de melhor gosto e apresentação, a que o seu fundador, António Gonçalves Marques, já falecido, nomeou, com justeza, Ao Último Figurino. A princípio (1910-1911?) abrangeu apenas os números 20 a 24, e, desdobrando-se mais tarde para a loja seguinte, a firma António Gonçalves Marques, Ld.a, acabou por tomar a sobreloja e andares superiores. 

Rua Garrett, 20-26 [191-]
Antiga Rua do Chiado (até 1880); Esquina da Calçada do Sacramento
Montra da casa de modas «Ao Último Figurino», 
fundada em 1910. mais tarde «Novo Figurino».
Alexandre Cunha, in Lisboa de Antigamente

 Recorrendo aos antecedentes, vamos encontrar (ainda no século passado), as lojas números 20 a 24 na posse de Magiolo & Magiolo, que, na parte com entrada pela porta de esquina, se dedicavam ao negócio de mercearias, chás e cafés, casa muito farta e especializada. Nos dois números seguintes (22 e 24), expunham um profuso mostruário de bijutarias e brinquedos, nesse tempo de simples aparência e modestos na composição. Como os adultos, as crianças, então contentavam-se com pouco. Qualquer bugiganga lhes servia. Bastavam aquelas bem conhecidas carrocinhas de madeira, um cavalo de pasta ou uma boneca de trapos, para tornar felizes esses inocentes, limitados nas ambições. Estavam longe o engenhoso «Meccano», os maravilhosos comboios eléctricos (com os quais brincam mais os pais do que os filhos) e as sedutoras bonecas falantes, que também abrem e fecham os olhos.

Rua Garrett, 20-26 [1974]
Antiga Rua do Chiado (até 1880); Esquina da Calçada do Sacramento
Montra da casa de modas «Ao Último Figurino», 
fundada em 1910. mais tarde «Novo Figurino».
Alfredo Cunha, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
¹ ARAÚJO, Norberto de Peregrinações em Lisboa, vol. XII, p. 93, 1939.

² COSTA, Mário, O Chiado pitoresco e elegante, p. 265, 1987.

Sunday, 26 March 2023

Praça de Luís de Camões com a Rua da Horta Seca

A Rua das Flores já existia antes do Terramoto, no troco até à Rua do Ataíde, ambas seiscentistas. E de igual modo existia a Rua da Horta Seca, designação, que, tal a das Flores, e a das Parreiras (sobre a qual assentou a Rua da Emenda) evocam os tempos de quinhentos em que por aqui eram quintas e chãos rústicos da herdade de Santa Catarina.==
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIII, p. 51, 1939)

Praça de Luís de Camões com a Rua da Horta Seca |1959|
Realce para o espectacular "espada" Buick Super "The Black Beauty" (1949–1953)
Arnaldo Madureira, in Lisboa de Antigamente

Encontramos no Arquivo Histórico Português, Vol . VIII, pág. 421, no estudo do dr. António Baião, acerca da Inquisição uma referência a este sítio, datada de 1583. É a primeira à direita na rua do Alecrim vindo do Loreto e termina na rua das Chagas, ensina o Itinerário Lisbonense, de 1818. Fora das portas de Santa Catarina. [Brito: 1935]
 
Rua da Horta Seca |1922-07-21|
Rua da Emenda;  ao fundo nota-se o Palácio do Manteigueiro; Rua e Palacete das Chagas
Legenda no arquivo: «Bodo aos pobres promovido pelo sr. governador civil»
Arnaldo Madureira, in Lisboa de Antigamente
Nota(s): o local da foto não está «identificado no arquivo

Friday, 9 February 2018

Café Royal: — Agora sim, agora temos bife!

Aqui, no Cais do Sodré, existiu até há bem pouco tempo, o Café Royal, que pelo nome seria um chamariz para a marinhagem estrangeira que frequentava o local. Teve mais poder a banca que o adquiriu, desmantelou-o, e ali instalou a sua agência. E foi pena, porque este curioso café era ainda o símbolo de uma época, com a fachada revestida de belos azulejos, um alpendre envidraçado construído sobre ferrajaria desenhada à arte nova e bons espelhos no interior. 


Ainda conhecemos os empregados que serviam a clientela, vestidos de preto, laço no colarinho e largo avental branco tapando-lhe as pernas, à velha maneira, como ainda se encontram em algumas «terrasses» parisienses. Um destes servidores, bom cavaqueador, contou-nos a seguinte anedota verdadeira...

Café Royal [c. 1912]
Praça Duque da Terceira, vulgo Cais do Sodré, e Rua do Alecrim (esq.)
Alberto Carlos Lima,  in Lisboa de Antigamente

À hora do almoço, o Café enchia-se de fregueses, empregados das agências de navegação existentes na área. Entre os habituais, um trazia debaixo do braço uma molhada de jornais e enquanto lhe preparavam o habitual bife com batatas — que o Café tinha fama em os servir  — foi lendo. Na devida altura o criado colocou sobre a mesa a frigideira rechinando, a meia garrafa do Colares, o apetitoso pãozinho branco, a manteiga, os talheres e o copo. Mas o freguês continuou a ler o jornal. Até que, reparando na mesa, largou as notícias e iniciou o ataque ao bife. Porém, às primeiras dentadas, contra o habitual, verificou que a carne era rija! E reclamou:
Ó, Chico, este bife é intragável!
O criado, pacientemente, devolveu a frigideira ao guiché dizendo para o cozinheiro: — Olha lá isso, ó pá! O freguês diz que essa carne é rija! 
O cozinheiro, que não estaria em dia de boa disposição, disse de sua justiça e, violentamente, acompanhou as frases, ferrando com o bife no chão, espezinhando-o com a serradura. O freguês voltara à leitura dos jornais. Mas a certa altura, gritou: 
— Então, esse bife!?
Tanto o criado como o cozinheiro se haviam esquecido da reclamação, e quando aquele voltou à portinhola a gritar pelo bife — que o freguês estava furioso! — o cozinheiro olhou em volta, embaraçado esquecendo-se do que lhe havia feito! Mas ao olhar o chão, deparou com a carne negra, empapada na serradura. Apanhou-a, sacudiu-a, deu-lhe duas palmadas e ferrou com o bife na frigideira que estaria sempre sobre o fogão, fervendo a mesma gordura que servia a todos. Quando julgou que a coisa estaria em condições, prantou-a no barro limpo que servia à mesa, ajeitou-lhe umas batatas em volta, o ovo da praxe e gritou para o Chico: 
— Pronto, aqui está um esplêndido bife!
O freguês de novo largou o jornal e à primeira garfada, exclamou: 
 — Agora sim, agora temos bife!...

Café Royal [c. 1912]
Praça Duque da Terceira, vulgo Cais do Sodré, e Rua do Alecrim (esq.)
Alberto Carlos Lima,  in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
DINIS, Calderon, Tipos e Factos da Lisboa do Meu Tempo (1900-1974), pp. 46.48, 1986.

Wednesday, 26 July 2017

Monumento ao Duque da Terceira

Se a Praça Duque da Terceira já não tem os famosos cafés do tempo de Eça de Queirós, toda a zona é rica de edifícios e monumentos do século XIX. No centro daquela praça foi erigido em 1877 o monumento ao general conde de Vila Flor, duque da Terceira que libertou Lisboa do governo absoluto em 1833, obra do escultor Simões de Almeida.


Sigamos o olisipógrafo Norberto de Araújo em mais uma Peregrinação e «enfiemos ao Cais do Sodré, que aí temos alguma cousa que ver e outras para lembrar.
A Praça do Duque da Terceira é do meado do século passado [séc. XIX], e assenta sabre chãos que eram praia há menos de um século. A Praça Duque da Terceira constitui uma parte do Cais do Sodré, e não logrou absorver a velha designação mesmo na limitada área em que a Praça, com sua estátua, rigorosamente se contém». Recorda-nos ainda o mesmo autor que na denominação municipal «Cais do Sodré é a larga zona que abrange o Jardim Roque Gameiro e vai desde a Estação da linha do Estoril-Cascais até ao Corpo Santo»,  e ainda que as «designações «Cais do Sodré» ou «Praça dos Remolares» foram comuns durante muito tempo, antes de se erguer a Estátua; «Remolares», perdeu-se na oralidade. Há no povo uma atracção particularíssima para os vocábulos sonantes. «Sodré» — canta».
No local onde hoje se ergue a estátua ao Duque da Terceira existiu até 1874  um relógio de sol conhecido como a «Merediana dos Remolares».

Praça Duque da Terceira |c. 1890|
Cais do Sodré, antiga Praça dos Remolares
Monumento ao Duque da Terceira
À direita vê-se parte do prédio onde existiu o famoso Hotel Central, imortalizado por Eça de Queiroz em «Os Maias»; no piso térreo, o «jacobino» Café do Grego (depois Café Londres); ao centro,  no  gaveto nascente  da Praça com a Rua do Alecrim vê-se o toldo do Alfaiate Rego (depois Café Royal). Como era costume naquela época, as inscrições do toldo e da fachada exibiam publicidade em inglês: Rego Tailor. O mesmo se pode constar do lado poente: Barbear Shaving
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

A primeira pedra deste monumento foi lançada em 24 de Julho de 1875; a inauguração solene realizou-se em 24 de Julho de 1877, no 44.° aniversário do desembarque do Duque da Terceira em Lisboa. A estátua é do cinzel de José Simões de Almeida, e o risco do monumento de José António Gaspar. 
 O monumento é simples, discreto de linhas, com as suas quatro inscrições: «Guerra Peninsular 1808 a 1814» — «Campanhas da Liberdade 1826 a 1834» — «24 de Julho de 1833» — «Ao Duque da Terceira 1877», esta na face principal, sul.

Praça Duque da Terceira |c. 1877|
Cais do Sodré, antiga Praça dos Remolares
Monumento ao Duque da Terceira; coreto
Observe-se a guia e gradil de protecção em redor das árvores com aspecto de terem sido 
plantadas recentemente
in Archivo Panoramico e Artístico

A estátua homenageia o Duque da Terceira, António José de Sousa Manuel Menezes Severim de Noronha, herói das guerras liberais, natural de Lisboa, Trata-se de uma estátua de bronze, com altura de 3,30m, onde a figura do duque é representada em traje militar, de rosto sóbrio e numa posição de chefia e comando. O plinto de pedra em forma de prisma tem uma base mais alargada com friso saliente junto ao chão de empedrado artístico de vidraço e friso duplo saliente no final desta parte. No pedestal foi colocada uma folha de palmeira e na parte superior deste plinto um brasão de armas coroado e ladeado por ramos de oliveira. Este conjunto, de estátua e plinto, tem a altura total de 9m.
A estátua ao Duque da Terceira sofreu recentemente uma intervenção de conservação e restauro, patrocinada pela Renault. O projecto, acompanhamento e fiscalização da obra, da responsabilidade da Divisão de Salvaguarda de Património Cultural/DPC/DMC da Câmara da Municipal de Lisboa, ficou concluída em Fevereiro de 2015.

Praça Duque da Terceira |post. 1877|
Cais do Sodré, antiga Praça dos Remolares
Monumento ao Duque da Terceira, face norte
No centro da Praça a estátua do duque olha a direito o rio.
Fotógrafo: não identificado,
in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
Monumentos e edifícios notáveis do distrito de Lisboa, vol. 5, Junta Distrital de Lisboa, p. 19, 1962.
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIII, pp. 37-40. 1939.

Sunday, 25 February 2024

Hotel Central

Estamos de volta ao velhinho Sitio dos Remolares, e ao afamado Hotel Central, desta vez na companhia de Marina T. Dias e de Eça de Queiroz.  Delineada pelos engenheiros do Marquês de Pombal, a futura Praça do Duque da Terceira permaneceu quase deserta até ao início do século XIX, constituindo então apenas parte dos vastos areais que delimitavam sul de Lisboa. Mesmo após a construção dos primeiros quarteirões a nascente e a poente, o rio chegava até ao extremo sul do largo, formando uma pequena praia no local onde mais tarde seria construída a estação de caminho de ferro da linha de Cascais. Contígua à praia, a Praça dos Remolares tinha já sido ampliada pelas obras de construção do Aterro, mantendo na tradição oral o nome do antigo cais: Sodré.
Falar do Cais do Sodré é também falar da Lisboa queirosiana — e do seu Hotel Central, Eça refere-o em Os Maias, A Capital, O Primo Basílio e A Correspondência de Fradique Mendes. A primeira hospedaria que ocupou o quarteirão com os números 20-27 do Largo (antigos números 3 a 11) chamava-se Estrella Branca (c. 1835). Em 1838 fora já trespassada à francesa Madame Lenglet que lhe deu o título de Hotel de France

(Grand) Hotel Central |c. 1875|
A oitocentista praça dos Remolares ainda sem a estátua do Duque da Terceira (1877) vendo-se ao fundo a primeira ponte de acesso aos barcos; no local onde se vê um candeeiro existiu, até 1874, um relógio de sol, conhecido por Meridiana dos Remolares. 
Rua Bernardino Costa antiga do Corpo Santo; à esq. nota-se a embocadura da Rua do Alecrim com o Alfaiate Rego (Rego Tailor) no gaveto leste.
J.. Laurent, in Lisboa de Antigamente

Sobre o rio, a tarde morria numa paz elísia. O peristilo do Hotel Central alargava-se, claro ainda. Um preto grisalho vinha, com uma cadelinha no colo. Uma mulher passava, alta, com uma carnação ebúrnea, bela como uma deusa, num casaco de veludo branco de Génova. O Craft dizia ao seu lado: Très chic. E ele sorria, no encanto que lhe davam estas imagens, tomando o relevo, a linha ondeante, e a coloração de coisas vivas.
(Eça de Queiroz, ln Os Maias, 1888)

Com uma sólida fama e um excelente serviço de mesa, o hotel recebeu hóspedes ilustres, entre eles o compositor Franz Liszt, na temporada de 1844-1845. Novamente trespassado (c. 1855), transforma-se no Hotel Central, supra-sumo da possível opulência lisboeta, com as suas ceias elegantes e as suas belas janelas então viradas para o Tejo.
O Central foi,  na Lisboa da segunda metade de Oitocentos, aquilo que o Avenida Palace viria a ser na Belle-Époque, ou o Aviz no tempo da Segunda Grande Guerra. Recebeu reis e diplomatas famosos, figuras mundanas e celebridades do universo das artes. Foi também num dos seus quartos que o próprio Eça de Queiroz terá pedido ao conde de Resende a mão da irmã deste, Emília de Castro Pamplona, sua futura mulher. O episódio é narrado por Luís Pastor de Macedo. 

Hotel Central |c. 1904|
Praça Duque da Terceira: Cais do Sodré. Ao fundo observa-se o extinto Arsenal de Marinha que deu lugar à Av. Ribeira das Naus.
Postal ilustrado, edição da Casa Gonçalves, in Lisboa de Antigamente
Hotel Central, depois das adaptações sofridas por volta de 1920 |c. 1936|
Praça Duque da Terceira
No gaveto norte deste edifício estiveram vários botequins célebres. À O primeiro foi o «jacobino» Café do Grego; o último foi o Café Londres, encerrado em 1935.
Mário Novais, in Lisboa de Antigamente

«Numa das suas vindas a Portugal, informado que o conde, vindo do Porto, se hospedara em Lisboa no Hotel Central, e apreciando em extremo a convivência daquele seu grande amigo, [Eça] mandou também as suas malas para o mesmo hotel e ali ficou durante largos dias.
Certa manhã, quando [...] se encontrava no quarto do seu amigo, justamente na ocasião em que este, de cara ensaboada, se dispunha, com a navalha na mão, a barbear-se, o criado, pedindo licença, entrou e entregou uma carta que viera pelo correio. 
   — Vê lá, menino, o que aí vem -—- diz o conde a Eça de Queiroz.
   — É uma cartada tua irmã.
   — Faze favor, abre-a e vê o que diz essa teimosa.
   O grande escritor obedeceu e ao terminar a sua leitura, depois de a dobrar vagarosamente, diz a Rezende:
   — Peço-te mão de tua irmão».
(Luís Pastor de Macedo notas em A Ribeira de Lisboa por Júlio de Castilho, vol. 4)

Hotel Central, depois das adaptações sofridas por volta de 1920 |c. 1936|
Praça Duque da Terceira; Cais do Sodré
Mário Novais, in Lisboa de Antigamente

O Hotel Central encerrou em 1919, após um breve período de crise económica, distantes que iam já os hábitos de convívio da Lisboa queirosiana. A Sociedade Estoril, nova arrendatária, mandou então proceder a obras de vulto na fachada e interiores do edifício, cujas características gerais pouco têm agora a ver com a da casa que albergou Eça, Ramalho ou Guerra Junqueiro. O próprio Cais do Sodré sofrera enormes alterações ao longo do meio século de existência do Hotel Central. Por volta de 1880 a praia chegava ainda sé ao larguinho posteriormente ajardinado (Jardim Rogue Gameiro, plantado entre 1912 e 1915), e alguns quartos do Central estavam, como era uso dizer-se, «sobre o no». Perderam esse privilégio em 1907, vendo erguer-se-lhes à frente o edifício da Administração do Porto de Lisboa (onde está o célebre relógio com a «Hora Legal»). O terreno era tão incerto (basicamente areia da praia, movimentada pelas marés) que foi necessário fazer assentar todas as paredes desse prédio sobre estacaria. Ao centro da praça esteve, até 1874,um relógio de sol muito célebre e muito troçado: a «Meridiana dos Remolares», apeada para que desse lugar ao monumento em homenagem ao Duque da Terceira.

Hotel Central, depois das adaptações sofridas por volta de 1920 |c. 1936|
Fachada S. sobre o Cais do Sodré e Travessa do Corpo Santo; Praça Duque da Terceira.
Mário Novais, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
MARINA, Tavares Dias, Lisboa Desaparecida, vol. 6, pp. 179-184, 1989.
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