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Friday, 17 April 2026

Vendedeira ambulante de bolos

Chegada com seu burrico às ruas da Baixa Pombalina, a vendedora de bolos começa a preparar o equipamento necessário para montar o estaminé para a venda.

A Baixa de Lisboa, também chamada Baixa Pombalina ou Lisboa Pombalina por ter sido edificada por ordem do Marquês de Pombal, na sequência do terramoto de 1755, cobrindo uma área de cerca de 255 ha. Situa-se entre o Terreiro do Paço, junto ao rio Tejo, Rossio e a Praça da Figueira, e longitudinalmente entre o Cais do Sodré, o Chiado e o Carmo, de um lado, e a Sé e a colina do Castelo de São Jorge, do outro.

Vendedeira ambulante de bolos |1922-02-22|
Rua Augusta esquina com a Rua de Sao Nicolau. As portadas em ferro que se vêem ao fundo pertenciam ao antigo edifício do Banco Português do Atlântico, entretanto demolido.
Nota(s): local da foto não está identificado no arquivo.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Thursday, 5 February 2026

Avenida 24 de Julho: o «Aterro»

O Aterro da Boa Vista iniciou-se em 1855 e foi uma das maiores obras públicas portuguesas desse século. Consistiu na ligação do Cais do Sodré a Alcântara através da Av. 24 de Julho, conquistando, para isso, terrenos ao rio. A zona era uma enseada de atracação de embarcações delimitada por um caminho à beira-rio, onde é actualmente a Rua da Boavista.

Avenida 24 de Julho |c. 1900|
Carro de bois na zona do Aterro da Boa Vista — na zona da Ribeira Nova — carregando carvão.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

N.B. Situava-se o Aterro, que corresponde à actual Avenida 24 de Julho, perto do Ramalhete dos Maias de Eça de Queiros, Aterro porque era a parte aterrada do rio Tejo por volta de 1858. Foi aqui que Carlos da Maia salvou de um garrotilho a ilha de um brasileiro, ganhando «a sua primeira libra, a primeira que pelo seu trabalho ganhava um homem da sua família».

Avenida 24 de Julho |c. 192-|
Greve dos carroceiro junto a Santos.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Sunday, 25 January 2026

Cais da Ribeira: cena de rua

Nos primeiros anos do séc. XX diversas empresas asseguravam o tráfego fluvial de Lisboa com a “Outra Banda”. A Parceria dos Vapores Lisbonenses, sedeada no “chalet” do Cais do Sodré, tinha duas carreiras diárias para Aldeia Galega (Montijo), onde se pagava 160 réis à ré e 120 réis à proa. Na “linha” de Cacilhas, durante a semana, os preços variavam de 60 réis à ré a 40 réis à proa, saindo os barcos com um intervalo de 40 minutos.
(in Guia do Viajante, Lisboa 1907)

Cais da Ribeira: recolher das redes de pesca |1912|
Em segundo plano destacam-se os famosos "Hotel Central" e "Hotel Bragança (ou Braganza)" mais atrás, ambos referidos por Eça de Queiroz nos seus romances e já aqui mencionados.
Joshua Benoliel
, in Lisboa de Antigamente

Nota(s): As ovarinas (o 'o' etimológico perdeu-se na pronúncia) (peixeiras) formam com seus pais, maridos e irmãos a mais curiosa população desta cidade; população inteiramente à parte e com carácter e feição própria.

Cais da Ribeira: cena de rua |c. 1900|
A freguesia aguarda enquanto as varinas preparam o peixe para a venda. Antiga Estação da "Parceria dos Vapores Lisbonenses", fundada em 1890; Cais do Sodré.
Autor não identificado, in Lisboa de Antigamente

Sunday, 1 June 2025

Rua da Boavista

A origem do nome do sítio é projecção toponímica do Alto da Boa Vista, ou seja, ou Alto do Belver ou Belveder actual Alto de Santa Catarina. Não quero deixar de observar-te — recorda o ilustre Norberto de Araújo — que as edificações desta artéria da Boa Vista, do lado Sul, não levam cem anos (c. 1840). O edifício da Companhia do Gás sucedeu ao antigo Quartel da Brigada Real de Marinha. Foi aqui a primeira Fábrica do Gás, cujo privilégio concedido a Claudio Adriano da Costa e ao francês José Detry, datava de 3 de Maio de 1846

Rua da Boavista |ant. 1914|
O edifício do lado esq., até à esquina com o Boqueirão dos Ferreiros pertencia à «Companhia Lisbonense de Iluminação a Gaz»; em ampliando a foto observam-se, ao fundo, os sete arcos do do prédio nº 67 erguido pelo industrial Ferreira Pinto em meados do séc. XIX para «palacete de família, e constitui ainda a única nota decorativa urbana da Rua da Boa Vista.» [Araújo, 1939]
Alberto Carlos Lima, in Lisboa de Antigamente
Nota(s): o local da foto não está identificado no abandalhado amL

De facto, foi junto ao rio, meio de transporte privilegiado, que a «Companhia Lisbonense de Iluminação a Gaz» instalou, em 1846, a sua primeira fábrica de Gás; e, dois anos depois, em 1848, já Lisboa inaugurava a iluminação a gás, com 28 candeeiros, nas ruas da Baixa (Rua dos Capelistas, Rua do Ouro e Rua da Prata), no Chiado, na Rua do Alecrim, no Cais do Sodré, em S. Paulo e na Boavista.

Rua da Boavista |1940|
Companhias Reunidas de Gás e Electricidade: fachadas Norte e OesteBoqueirão dos Ferreiros.
Kurl Pinto, in Lisboa de Antigamente

Em 1914 deu-se na fábrica a formidável explosão que originou dezanove mortes, e o fabrico do gás passou então, inteiramente, para o Bom Sucesso — vizinhança da Torre de Belém — , onde ase manteve até 1949.

Rua da Boavista |1914|
Topónimo anterior ao terramoto de 1755, como vem mencionado nas Memórias Paroquiais.
Incêndio no edifício da Companhia de Gás.
Anselmo Franco, in Lisboa de Antigamente

Tuesday, 1 April 2025

Café Chave d'Ouro: o maior café do Rossio (1916-1959)

O Chave d'Ouro foi não só o maior, mas também um dos mais emblemáticos cafés e salões de chá do século XX lisboeta, orgulhando - se na imprensa de fazer o chá e o café com água do Luso. Aberto ao público em 1916, tomou o espaço de uma antiga loja de ferragens, da qual reteve o respetivo nome comercial. Na segunda metade dos anos 30 foi totalmente remodelado pelo arquiteto Norte Júnior, autor da decoração original, na qual se destacara o enorme anjo que então decorava a fachada deste estabelecimento. O novo Chave d'Ouro abriu as suas portas em Fevereiro de 1936, tendo merecido uma página inteira no Diário de Lisboa, que realçou as suas «duas rentes — Rossio e Primeiro de Dezembro — sete andares, nove pavimentos, central — o grande café — galeria de café; salão de bilhares, salão de chá, restaurante, esplanada, cinco bares [...] » e até «11 400 lâmpadas».¹

Café Chave d'Ouro: o maior café do Rossio de 1916 a 1959 |1923-05-10|
Praça D. Pedro IV, 33-38
Nota(s): Esta fotografia integra a reportagem "A Festa da Flor" em Lisboa. Foi coroada do melhor êxito,
sendo importantes os donativos alcançados", publicada no jornal 'O Século' de 10 de Maio de 1923.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Eram 5 da tarde e o Café Chave d'Ouro, no Rossio, no topo superior da grelha da Baixa, o coração da cidade , estava cheio de gente. Ainda não fazia frio e as janelas estavam todas abertas. Laura van Lennep tinha-se sentado ao pé de uma dessas janelas e olhava repetidamente para a praça. Tinha diante dela a pequena chávena de café que pedira há hora e meia, quando chegara, mas os empregados não a incomodavam. Já estavam habituados.

Café Chave d'Ouro: o maior café do Rossio entre 1916 e 1959 |c. 1940-50|
Praça D. Pedro IV, 33-38
Anote-se o anjo esculpido em pedra de lioz e ferro, projecto de Fausto Fernandes. Á dir. observa-se a afamada Joalharia Lory. 
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Distraidamente, ia ouvindo a conversa duma mesa de refugiados que falavam francês com forte sotaque. Os dois homens tinham visto camiões do exército na Baixa, de manhã cedo, e desenvolviam uma fantástica teoria de invasão que não contribuiu nada para acalmar Laura. Não podia suportar a inércia daquela gente, que sabia vir de uma pensão a três prédios da sua, na rua de S. Paulo, por trás do Cais do Sodré. Tinha-os ouvido na rua, corrigindo-se mutuamente acerca de aristocratas que tinham conhecido em festas, como se isso tivesse sido na semana passada, e não noutro país e noutra década. Estava desesperada por não ter cigarros, e o homem que ia mudar a sua vida, que tinha prometido mudar a sua vida, não chegava.²

 

Café Chave d'Ouro: o maior café do Rossio de 1916 a 1959 |1959|
Praça D. Pedro IV, 33-38 
Frontaria estilo Art Déco após remodelação, em 1936. e onde se destacam as grandes chaves pintadas de ambos os lados da entrada no dia em que foi encerrado.
Judah Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
¹ WILSON, Robert W, Último Acto em Lisboa.1941
² SANTOS, João Moreira dos, Roteiro do Jazz na Lisboa dos anos 20-50 : guia ilustrado de 40 espaços históricos dos primórdios do Jazz em Portugal 2012.

Sunday, 26 May 2024

Ruas Cascais e do Cais de Alcântara

Da Rua Fradesso da Silveira para o sul, até à Avenida da Índia, sobre o caneiro de Alcântara e do lado ocidental do mesmo — diz o eng.º Vieira da Silva — , passa uma rua que faz seguimento à de João de Oliveira Miguens, a qual tinha o mesmo nome que eia, que foi mudado em 1917 para Rua Cascais.
É obscura a origem da Rua Cascais, embora se possa aventar a hipótese de este topónimo se dever à proximidade à linha ferroviária para Cascais.
Do, meio da Rua Cascais para o rio, com as obras do Porto de Lisboa, foram conquistados mais terrenos, onde se implantaram vários edifícios e estruturas, entre os quais, as vias férreas da Estação de Alcântara-Mar e a doca de Santo Amaro.¹ Este topónimo foi atribuído por Edital municipal de 21/01/1889 e recorde-se que nesse mesmo ano, a 30 de Setembro, foi inaugurado o ramal de Cascais, com início em Pedrouços e ligação a Lisboa por barco. No ano seguinte, com terrenos ganhos ao rio Tejo, o referido ramal chegou a Alcântara, fazendo ligação à linha de Cintura e permitindo o acesso à estação do Rossio até em 1895 se concluir a ligação ao Cais do Sodré.

Rua Cascais (em cima) e Rua do Cais de Alcântara |1940-08|
Troço compreendido entre a Rua Fradesso da Silveira e a margem do Tejo.  Rua João de Oliveira Miguens; ao fundo nota-se o Cemitério dos Prazeres.
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Nos terrenos conquistados ao Tejo acham-se abertas muitas vias públicas, das quais a mais importante é a Avenida da India, começada a construir há muitos anos, sendo o último troço a concluir-se o que vai desde a Avenida 24 de Julho até à actual Rua do Cais de Alcântara a que primeiro foi dado o nome de Rua 14 de Maio.¹
O Edital da época informa o seguinte:
  1. Considerando que a esta Câmara Municipal têm chegado numerosos pedidos de entidades oficiais e particulares, para que se modifiquem determinadas denominações toponímicas da Capital;
  2. Considerando a vantagem de regressar, em certos casos, às antigas denominações, e a justiça de homenagear algumas figuras e entidades nacionais merecedoras da nossa consagração (…)
  3. Que à Rua 14 de Maio – que não tem nenhum passado histórico – , passe a designar-se Rua do Cais de Alcântara
Final da Rua Cais de Alcântara e da Rua Cascais com a Av. da IndiaAv. da India |1940-08|
Na confluência destas artérias foi erguido o Viaduto de Alcântara inaugurado em 1972.
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
¹ Olisipo: boletim do Grupo «Amigos de Lisboa»,  A Ponte de Alcântara e suas circunvizinhanças: notícia histórica, por A. Vieira da Silva, 1942.

Sunday, 25 February 2024

Hotel Central

Estamos de volta ao velhinho Sitio dos Remolares, e ao afamado Hotel Central, desta vez na companhia de Marina T. Dias e de Eça de Queiroz.  Delineada pelos engenheiros do Marquês de Pombal, a futura Praça do Duque da Terceira permaneceu quase deserta até ao início do século XIX, constituindo então apenas parte dos vastos areais que delimitavam sul de Lisboa. Mesmo após a construção dos primeiros quarteirões a nascente e a poente, o rio chegava até ao extremo sul do largo, formando uma pequena praia no local onde mais tarde seria construída a estação de caminho de ferro da linha de Cascais. Contígua à praia, a Praça dos Remolares tinha já sido ampliada pelas obras de construção do Aterro, mantendo na tradição oral o nome do antigo cais: Sodré.
Falar do Cais do Sodré é também falar da Lisboa queirosiana — e do seu Hotel Central, Eça refere-o em Os Maias, A Capital, O Primo Basílio e A Correspondência de Fradique Mendes. A primeira hospedaria que ocupou o quarteirão com os números 20-27 do Largo (antigos números 3 a 11) chamava-se Estrella Branca (c. 1835). Em 1838 fora já trespassada à francesa Madame Lenglet que lhe deu o título de Hotel de France

(Grand) Hotel Central |c. 1875|
A oitocentista praça dos Remolares ainda sem a estátua do Duque da Terceira (1877) vendo-se ao fundo a primeira ponte de acesso aos barcos; no local onde se vê um candeeiro existiu, até 1874, um relógio de sol, conhecido por Meridiana dos Remolares. 
Rua Bernardino Costa antiga do Corpo Santo; à esq. nota-se a embocadura da Rua do Alecrim com o Alfaiate Rego (Rego Tailor) no gaveto leste.
J.. Laurent, in Lisboa de Antigamente

Sobre o rio, a tarde morria numa paz elísia. O peristilo do Hotel Central alargava-se, claro ainda. Um preto grisalho vinha, com uma cadelinha no colo. Uma mulher passava, alta, com uma carnação ebúrnea, bela como uma deusa, num casaco de veludo branco de Génova. O Craft dizia ao seu lado: Très chic. E ele sorria, no encanto que lhe davam estas imagens, tomando o relevo, a linha ondeante, e a coloração de coisas vivas.
(Eça de Queiroz, ln Os Maias, 1888)

Com uma sólida fama e um excelente serviço de mesa, o hotel recebeu hóspedes ilustres, entre eles o compositor Franz Liszt, na temporada de 1844-1845. Novamente trespassado (c. 1855), transforma-se no Hotel Central, supra-sumo da possível opulência lisboeta, com as suas ceias elegantes e as suas belas janelas então viradas para o Tejo.
O Central foi,  na Lisboa da segunda metade de Oitocentos, aquilo que o Avenida Palace viria a ser na Belle-Époque, ou o Aviz no tempo da Segunda Grande Guerra. Recebeu reis e diplomatas famosos, figuras mundanas e celebridades do universo das artes. Foi também num dos seus quartos que o próprio Eça de Queiroz terá pedido ao conde de Resende a mão da irmã deste, Emília de Castro Pamplona, sua futura mulher. O episódio é narrado por Luís Pastor de Macedo. 

Hotel Central |c. 1904|
Praça Duque da Terceira: Cais do Sodré. Ao fundo observa-se o extinto Arsenal de Marinha que deu lugar à Av. Ribeira das Naus.
Postal ilustrado, edição da Casa Gonçalves, in Lisboa de Antigamente
Hotel Central, depois das adaptações sofridas por volta de 1920 |c. 1936|
Praça Duque da Terceira
No gaveto norte deste edifício estiveram vários botequins célebres. À O primeiro foi o «jacobino» Café do Grego; o último foi o Café Londres, encerrado em 1935.
Mário Novais, in Lisboa de Antigamente

«Numa das suas vindas a Portugal, informado que o conde, vindo do Porto, se hospedara em Lisboa no Hotel Central, e apreciando em extremo a convivência daquele seu grande amigo, [Eça] mandou também as suas malas para o mesmo hotel e ali ficou durante largos dias.
Certa manhã, quando [...] se encontrava no quarto do seu amigo, justamente na ocasião em que este, de cara ensaboada, se dispunha, com a navalha na mão, a barbear-se, o criado, pedindo licença, entrou e entregou uma carta que viera pelo correio. 
   — Vê lá, menino, o que aí vem -—- diz o conde a Eça de Queiroz.
   — É uma cartada tua irmã.
   — Faze favor, abre-a e vê o que diz essa teimosa.
   O grande escritor obedeceu e ao terminar a sua leitura, depois de a dobrar vagarosamente, diz a Rezende:
   — Peço-te mão de tua irmão».
(Luís Pastor de Macedo notas em A Ribeira de Lisboa por Júlio de Castilho, vol. 4)

Hotel Central, depois das adaptações sofridas por volta de 1920 |c. 1936|
Praça Duque da Terceira; Cais do Sodré
Mário Novais, in Lisboa de Antigamente

O Hotel Central encerrou em 1919, após um breve período de crise económica, distantes que iam já os hábitos de convívio da Lisboa queirosiana. A Sociedade Estoril, nova arrendatária, mandou então proceder a obras de vulto na fachada e interiores do edifício, cujas características gerais pouco têm agora a ver com a da casa que albergou Eça, Ramalho ou Guerra Junqueiro. O próprio Cais do Sodré sofrera enormes alterações ao longo do meio século de existência do Hotel Central. Por volta de 1880 a praia chegava ainda sé ao larguinho posteriormente ajardinado (Jardim Rogue Gameiro, plantado entre 1912 e 1915), e alguns quartos do Central estavam, como era uso dizer-se, «sobre o no». Perderam esse privilégio em 1907, vendo erguer-se-lhes à frente o edifício da Administração do Porto de Lisboa (onde está o célebre relógio com a «Hora Legal»). O terreno era tão incerto (basicamente areia da praia, movimentada pelas marés) que foi necessário fazer assentar todas as paredes desse prédio sobre estacaria. Ao centro da praça esteve, até 1874,um relógio de sol muito célebre e muito troçado: a «Meridiana dos Remolares», apeada para que desse lugar ao monumento em homenagem ao Duque da Terceira.

Hotel Central, depois das adaptações sofridas por volta de 1920 |c. 1936|
Fachada S. sobre o Cais do Sodré e Travessa do Corpo Santo; Praça Duque da Terceira.
Mário Novais, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
MARINA, Tavares Dias, Lisboa Desaparecida, vol. 6, pp. 179-184, 1989.

Friday, 11 August 2023

Avenida da Ribeira das Naus

Topónimo atribuído por edital camarário de 22/06/1948 ao arruamento projectado entre a Praça do Comércio vulgo Terreiro do Paço e o Cais do Sodré.
Com a assistência de membros do Governo, foi inaugurada a lápide que, na Avenida da Ribeira das Naus, assinala o local onde foram construídas as caravelas que partiram para os Descobrimentos.

Avenida da Ribeira das Naus |1962|
Ao fundo nota-se a Estação Sul e Sueste
Artur Goulart, in Lisboa de Antigamente

Sunday, 11 December 2022

Travessa do Alecrim que foi do «Cataquefarás»

E o enigmático Cata-que-farás, de que já nos fala Fernão Lopes, que ficava não longe do actual Cais do Sodré, e que uma das nossas municipalidades ineptamente transformou em Travessa do Alecrim? Cata-que-farás seria porventura um prolóquio, uma sentença, um velho rifão equivalente a: Procura que hás de acharProssegue que hás de conseguir — Trabalha que hás de vencer: conselho dado talvez aos mareantes e navegadores, que por ali embarcavam durante toda a época áurea das navegações, dos descobrimentos e das conquistas? Cata-que-farás era decerto na sua ingenuidade rude um enérgico repelão, uma sacudidela salutar na mandrieira nacional... E os marinheiros que partiam iriam dali cantando:

«Partimos de Portugal
Catar cura a nosso mal»
.
(in Embrechados por António Maria José de Melo César e Meneses Sabugosa)

 

Travessa do Alecrim, perspectiva tomada da  R. das Flores para a R. do Alecrim [1945]
O topónimo Travessa do Alecrim foi atribuído pela CML, através do Edital de 31/12/1885, à antiga Travessa do Cata-que-farás, a qual fora denominada até 1882 Travessa do Catefaraz. 
Fernando Martinez Pozal, in Lisboa de Antigamente

Como curiosidade transcreve-se um anúncio publicado, em 1820, na velha Gazeta de Lisboa, o primeiro jornal oficial português: 
«Carlos Baker annuncia ao Publico que elle he o unico Agente no meado por Day e Martins de Londres, para vender em Lisboa, a verdadeira graxa para çapatos e botas, descoberta feita por elles; para venda e fabrico da qual se lhe concedeo Privilegio Privativo, e que daqui em diante quem a quizer comprar genuina e livre de duvida, ha de achalla no seu Escriptorio na travessa de Cátefaraz N.° 3, tendo eada botija hum bilhete na rolha com o letreiro seguinte, Charles Baker, travessa de Catefaraz N.º 3 entre a rua das Flores e a rua do Alecrim».

Travessa do Alecrim [1947]
Frades de pedra junto à Rua do Alecrim
Fernando Martinez Pozal, in Lisboa de Antigamente

Friday, 26 August 2022

Varinas na Ribeira Nova

Poucas horas depois começam as varinas a aparecer, os pés descalços, as pernas nuas, roxas de frio, apregoando o carapau, a pescada marmota, a «salpicadinha da costa».
Que bellos corpos de varinas, alguns! E tão mal tratados pela intempérie, ao passo que outros muitos, bem menos esculpturaes por certo, dormem ainda afofados em brandos colchões de sumaúma...
(PIMENTEL, Alberto, Vida de Lisboa, p. 53, 1900)

Varinas na Ribeira Nova (Cais do Sodré) |1928|
...os pés descalços, as pernas nuas, roxas de frio...
Estúdio Mário Novais, in Lisboa de Antigamente

Friday, 17 September 2021

Cais do Sodré

As designações «Cais do Sodré» e Praça dos Remolares foram comuns durante muito tempo, antes de se erguer a Estátua; «Remolares», perdeu-se na oralidade. Há no povo uma atracção particularíssima para os vocábulos sonantes. «Sodré» — canta. «Remolares» — já o disse atrás — era designação muito antiga. A designação «Sodré» é-lhe posterior, e teve a sua origem no facto de por aqui terem vivido e erguido prédios uns Sodrés, António, Duarte, Vicente, negociantes, descendentes de um Frederico Sodré, inglês, que passara a Portugal no tempo de D. Afonso V.
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIII, pp. 37-38, 1939)

Panorâmica tirada do Tejo sobre o Cais do Sodré [1880]
J. A. Vieira, in Lisboa de Antigamente

Monday, 12 July 2021

Profissões de antanho: a vendedora de figos

— Quem quer figos quem quer merendar?


Bem, elas ofereciam os figos para o almoço, mas a verdade é que ninguém ficaria almoçado só com figos, a não ser que comesse tantos que enchesse a pança! Não era de acreditar, até porque as raparigas que cantavam alegremente o pregão apareciam de manhã e também pela tarde. E nesta altura já o pregão era outro:
 
— Quem quer figos , quem quer merendar?! Ó figuinhos de capa rota!

Vendedoras de figos transportando os cestos à cabeça, após a descarga no cais da Ribeira Nova |1912|
Antigo Cais dos Vapores devido à Estação da "Parceria dos Vapores Lisbonenses", fundada em 1890;  Cais do Sodré
J
oshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

E lá iam com a ceira à cabeça, os figos cobertos por largas folhas de figueira, que tudo aquilo cheirava a campo e abria o apetite para adoçar a boca com os belos figos estaladiços, que era um louvar a Deus!
E a verdade é que a rapaziada não largava as mães a pedir-lhes o regalo de merendar uma pratada de figos.
— Tem cuidado, rapaz, que se não lhes tiras a capa rebenta-te a boca!
E por toda a cidade, na época própria:

— Quem quer figos, quem quer merendar?!


Vendedoras de figos transportando os cestos à cabeça, após a descarga no cais da Ribeira Nova |1912|
Antigo Cais dos Vapores devido à Estação da "Parceria dos Vapores Lisbonenses", fundada em 1890;  Cais do Sodré
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
DINIS, Calderon, Tipos e factos da Lisboa do meu tempo: 1970-1974, 1986.

Friday, 12 February 2021

Mercado de hortaliças da Ribeira Nova

O Mercado da Ribeira Nova há vinte anos [por  volta de 1919] — lembra Norberto de Araújo — era, quási exclusivamente, de peixe, e o das hortaliças e frutas arrumou-se até 1927 nuns barracões, entre a linha do caminho de ferro, à qual se encostava por lado de terra, e a Avenida 24 de Julho

Mercado de hortaliças da Ribeira Nova [Início do séc. XX]
Avenida 24 de Julho
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Esse Mercado de frutas e verdes junto à linha férrea fora originado por uma greve de hortaliceiras na Praça da Figueira; as rebeldes foram-se instalar no Cais de Santarém onde estiveram dois anos, até que, despejadas dali, se instalaram (1905) no sítio — hoje [1939] ajardinado — onde fizeram o seu negócio (quem se lembrava já da greve?) até 1927. Entretanto juntaram-se-lhe as hortaliceiras da Ribeira Nova.

Mercado de hortaliças da Ribeira Nova [Início do séc. XX]
Avenida 24 de Julho
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Lê-se no Novo guia do viajante em Lisboa de Francisco Bordalo publicado nos idos 1853Ribeira Nova - Mercado de peixe , mas onde se encontram também fructas e hortaliças. Está situado em uma boa praça junto ao caes de Sodré; tem logares cobertos como a Praça da Figueira. Na frente do mercado, junto ao rio, está a casa fiscal da administração do pescado.==

Mercado de hortaliças da Ribeira Nova [1919]
Avenida 24 de Julho
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIII, p. 57, 1939.
BORDALO, Francisco Maria, Novo guia do viajante em Lisboa e seus arredores, 1853.

Sunday, 28 June 2020

Tragédia no Cais do Sodré

Uma das maiores tragédias vividas no Cais do Sodré: o abatimento da cobertura de betão da estação dos comboios, a 28 de Maio de 1963. Por entre os escombros. bombeiros e voluntários da Cruz Vermelha tentar ajudar as vitimas. Muitas delas receberam ali mesmo, dos padres entretanto chamados, a extrema-unção.


Os relógios pararam quando, a 28 de Maio de 1963, a cobertura da gare do Cais do Sodré desaba. Por isso, a hora do colapso é a primeira certeza sobre a tragédia: passavam sete minutos das quatro da tarde. Ao final do dia já é conhecido o número de vítimas. Entre homens, mulheres e crianças, contam-se 49 mortos e 61 feridos. São empregados de escritório, domésticas, enfermeiros, reformados, funcionários da companhia que explora a linha, a Sociedade Estoril, e muitos outros, todos apanhados de surpresa. A ajuda não tarda. Entre bombeiros, equipas médicas, militares, a Cruz Vermelha e civis, mais de 400 pessoas acorrem à estação. Cerca de um quarto são operários que trabalham na construção da ponte sobre o Tejo, enviados por ordem do ministro das Obras Públicas. Levam gruas, martelos pneumáticos, apoios decisivos na remoção dos escombros. Sacerdotes consolam os feridos e ministram a extrema-unção aos que não vão conseguir sobreviver.

Estação do Cais do Sodré, 28 de Maio de 1963
Fotógrafo não identificado,
in Lisboa de Antigamente

Pela cidade multiplicam-se as teorias especulativas. Uns apontam a falha às fundações. Outros falam num comboio que chocara contra a plataforma. Os mais imaginativos apostam num atentado à bomba. A comissão de inquérito nomeada pelo ministro das Obras Públicas. Arantes de Oliveira começa a trabalhar nessa noite. Recolhe depoimentos e envia fragmentos da placa e das vigas para o Laboratório Nacional de Engenharia Civil. Os jornais fazem as suas próprias inquirições. Trabalhadores da estação e passageiros frequentes contam ao Diário de Noticias que as fendas e os ruídos suspeitos eram frequentes. Por isso é que ninguém ligou quando se ouviu o som de vidro estilhaçado momentos antes da derrocada.
A 3 de Junho, a Policia Judiciária divulga os resultados preliminares da investigação. "O ruído ou som ouvido minutos antes da catástrofe, semelhante ao estampido de impacto de uma lâmpada eléctrica" — cita o Diário de Noticias — "terá resultado do movimento de fractura do sistema de cobertura." Dois inspectores da Sociedade Estoril ainda avançaram para vedar a zona na altura em que a pala desabou. Nenhum sobreviveu.

Estação do Cais do Sodré, 28 de Maio de 1963
Fotógrafo não identificado,
in Lisboa de Antigamente

No fim, a comissão de inquérito responsabiliza a construtora MANIL pelo acidente. Acusa a empresa de negligencia e incompetência. Falhara na construção das juntas previstas no projecto e na obra de ampliação da cobertura das gares. Como punição ficará sem os alvarás de empreiteiro de obras publicas. Quanto à Estação do Cais do Sodré, já está em pleno funcionamento. O serviço ferroviário recomeçará cinco dias apenas depois da tragédia.
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Bibliografia
Marina T. Dias, Lisboa Desaparecida, vol. 6, 2000.
Joana Stichini Vilela e Nick Mrozowski, LX60: A Vida em Lisboa Nunca Mais Foi a Mesma, 2012.

Friday, 8 May 2020

Quiosque da Ribeira das Naus

Quiosque da Ribeira das Naus — situado entre o Corpo Santo e Cais do Sodré — junto aos antigos edifícios do Arsenal da Marinha demolidos na década 1950 para rectificação e prolongamento da Avenida até ao Terreiro do Paço (Praça do Comércio); ao fundo, parcialmente visível, o abrigo de ferro do tempo das carruagens e dos dos cavalos que as puxavam.

Quiosque da Ribeira da Naus [190-]
Avenida da Ribeira da Naus
Eduardo Trindade, in Lisboa de Antigamente

Sunday, 2 February 2020

Antiga Estação Ferroviária da Parede

Esta estação situa-se no troço entre as Estações de Pedrouços e Cascais da Linha de Cascais, que foi inaugurado pela Companhia Real dos Caminhos de Ferro Portugueses em 30 de Setembro de 1889. A estação entrou ao serviço com a denominação de «Parede-Galiza».

Antiga Estação Ferroviária da Parede |1928|
Parede, Cascais
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente
Legenda da foto no arquivo: «As crianças [da Colónia Infantil de O Seculo] na estação da Parede»

A ligação ferroviária do Cais do Sodré a Cascais data de 1896, «antes ia-se a Cascais partindo da estação de Pedrouços, que servia de testa de linha.» [Araújo: 1939]

Antiga Estação Ferroviária da Parede.Galliza |1889|
Parede, Cascais
RvdC

Wednesday, 9 October 2019

Estação do Cais do Sodré

A Estação do Cais do Sodré — linha de Cascais — que aqui vês, foi inaugurada em 18 de Agosto de 1928, e dela foi arquitecto Pardal Monteiro, que adoptou êste estilo prático e desafogado, decente mas sem cousa alguma de monumental. Substituiu uma estação ferroviária que levava 32 anos [vd. 4ª e 5ª  foto].


A ligação ferroviária do Cais do Sodré a Cascais data de 1896, «antes ia-se a Cascais partindo da estação de Pedrouços, que servia de testa de linha» [Araújo: 1939]. «O comboio abranda» ao chegar ao Cais do Sodré. Nele vem Bernardo Soares. Fora «pagar a Cascais uma contribuição do patrão Vasques, de uma casa que tem no Estoril», gozando «o prazer de ir, uma hora para lá, uma hora para cá, vendo os aspectos sempre vários do grande rio e da sua foz atlântica».

Panorâmica sobre o Cais do Sodré [1944]
Estação do Cais do Sodré, Praça Duque da Terceira e Avenida 24 de Julho
Estátua de António José de Menezes Severin de Noronha, 1792-1860, 1º duque da Terceira; Jardim Roque Gameiro.
Judah Benoliel, in Lisboa de Antigamente

A Estação de Caminho-de-Ferro do Cais do Sodré é a primeira grande construção do seu autor, o arq. Porfírio Pardal Monteiro. Trata-se de um projecto executado para a Sociedade Estoril, que ambicionava desenvolver turisticamente o território favorecido pela exploração desta linha férrea. A Estação foi desenhada como se de um empreendimento público se tratasse, antevendo por certo esse estatuto posterior, na sua utilização efectiva e importância social.

Estação do Cais do Sodré [1963]
Praça Duque da Terceira
Armando Serôdio, in Lisboa de Antigamente
Estação do Cais do Sodré [1928]
Praça Duque da Terceira; Av. 24 de Julho
Porfírio Pardal Monteiro, in Lisboa de Antigamente

Trata-se de uma construção moderna de transição, de acordo com a própria modernização da linha operada em 1926, com a sua electrificação, e com uma proposta estilística assente nos ensinamentos da «Art-Déco». Abre-se ao espaço exterior através de grande superfícies de iluminação em ferro e vidro e de um grande arco envidraçado inserido num corpo que articula as fachadas laterais. Esta relação com a Praça marca efectivamente a modernidade deste edifício, servindo para tal a sua situação privilegiada em esquina. 

Bilheteiras da Estação do Cais do Sodré [195-]
Armando Serôdio, in Lisboa de Antigamente

A expressão formal decorre das possibilidades do novo material, o betão armado. Os seus motivos decorativos abundam em detrimento dos trabalhos em ferro e avançam para uma ideia de novo progresso (em contraponto ao progresso oitocentista) decorrente do desenvolvimento pretendido, tanto para o país, como também para o território entre Lisboa e Cascais. Simultaneamente, esta obra anuncia a caracterização depurada da arquitectura que Pardal Monteiro viria a projectar e que contribuiu decididamente para uma renovação da linguagem da arquitectura portuguesa.

Panorâmica sobre o Cais do Sodré [c. 1896]
Antiga Estação do Cais do Sodré (esq.), Praça Duque da Terceira. Partindo ainda do Cais do Sodré, junto ao rio e em direcção paralela à deste, estende-se a grande Avenida 24 de Julho, ou, mais vulgarmente o Aterro.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

«Um dia, ao comprar o bilhete do caminho de ferro na estação do Cais de Sodré, colocou em cima do guichet a importância da passagem em terceira classe e, quando o empregado lhe perguntava qual a classe desejada, respondeu irónico: «La que Usted quiera!»

Estação do Cais do Sodré [1908]
Legenda da foto no arquivo:«Eleições legislativas em Lisboa: condução de presos para a estação do Cais do Sodré com destino a Caxias»
António Novais, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIII, pp. 40-41, 1939.
PESSOA, Fernando, O Livro do Desassossego, 1982.
CML-Cadernos do Arquivo Municipal, nº4, pp. 24-25, 2000.
Portucale. Revista ilustrada de cultura literária, scientífica e artística, 1943.

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