Sunday, 5 April 2026

Rua (de Nossa Senhora) do Patrocínio, à Boa Morte

Patrocínio de Nossa Senhora do (Rua do) No testamento de Felix Antonio Castrioto feito em 15 de Julho de 1796 diz-se que o desembargador do Juiz dos Órfãos da Repartição do Meio, Domingos Monteiro de Albuquerque e Amaral, morava nesta rua, freguesia de Santa Isabel
No Almanach deste ano vem a simples indicação: Á Boa Morte». 
Já se anunciava assim na Gazeta de Lisboa, de 26 de Setembro de 1806:
 «Quem quizer comprar, ou tomar de venda, huma morada de casas, sitas na rua do Patrocinio, á Boa Morte, nas quaes estivera ha annos o Tribunal da Mesa da Consciencia , e posteriormente o Correio, falle com a dona das mesmas casas, nellas assistente...» 
Patrocinio: he a que passa pelo lado da Porta Travessa da Igreja da Boa Morte, e termina na Rua de S. Miguel, a Santa Isabel, elucida o Itinerário lisbonense, de 1804. [Brito: 1935]

Rua (de Nossa Senhora) do Patrocínio, à Boa Morte |1906-03|
À esq. nota-se a frontaria da Igreja de N. S. das Dores [vd. imagem abaixo] e à dir., tornejando a Rua de Santo António à Estrela, o edifício da Assistência Infantil da Freguesia Santa Isabel e, ao fundo, nota-se parte da Casa de Santa Zita da Estrela que foi da família Perestrelo e fora antes solar dos Aires de Ornelas.
Machado & Souza, in Lisboa de Antigamente

Esta Rua do Patrocínio, à Boa Morte, — recorda o ilustre Norberto de Araújo, a quem vamos sempre seguindo — foi urbanizada na transição do século XVIII para o século XIX, mas data de antes do Terramoto, embora as casas dessa época tenham desaparecido. [...]
Ora, Dilecto, hemos agora de ver uma outra instituição de beneficência instalada na citada casa particular, que fora antes o Hospício da Boa Morte [antigo Convento da Boa Morte]. Intitula-se Associação da Assistência Infantil de Santa Isabel, internato de meninas, e tem entrada pela Rua do Patrocínio, n.º 3 [último prédio à dir. na 1ª imagem]; é dirigido pelas mesmas religiosas franciscanas missionárias de Maria, autorizadas a regressar a esta sua casa em Junho de 1937 [...]

Igreja de Nossa Senhora das Dores (ou Ermida do Patrocínio) |1934 e 1948|
Rua do Patrocínio, 8 (actualmente Igreja Católica de Língua Alemã de Lisboa)
in Lisboa de Antigamente

Já agora te aponto, nesta Rua do Patrocínio outra Igreja, a de Nossa Senhora das Dores, coeva da construção da Basílica da Estrela, fundada — diz-se que com materiais que do monumento de D. Maria I sobejaram — pelo Padre António Luiz de Carvalho, em honra das Sete Dores de Maria Santíssima. [Araújo: 1939]

Rua do Patrocínio, à Boa Morte, 94 |1906-10|
Palacete na esquina com a Travessa do Jardim, à Estrela, 28.
Machado & Souza, in Lisboa de Antigamente

Friday, 3 April 2026

Inauguração do Metropolitano de Lisboa

Inauguração do Metropolitano de Lisboa em 1959, versão a cores, Tobis Portuguesa, com Artur Agostinho, realizador Arthur Duarte (duração aprox.13 min)

O primeiro projecto de um sistema de caminhos-de-ferro subterrâneo para Lisboa data de 1888, é da autoria do engenheiro militar Henrique de Lima e Cunha. Publicado na revista “Obras Públicas e Minas”, previa já um sistema completo de linhas, formando uma rede. Mais tarde, nos anos 20 do século XX, dão entrada na Câmara Municipal de Lisboa dois projectos, respectivamente, de Lanoel d’Aussenac e Abel Coelho (1923) e de José Manteca Roger e Juan Luque Argenti (1924), que não tiveram seguimento.
Somente a partir da 2ª Guerra Mundial com a retoma da economia e no seguimento das políticas de electrificação e aproveitamento dos fundos do Plano Marshall, surge com plena vitalidade a decisão de se construir um metropolitano para Lisboa.

Os trabalhos de construção iniciaram-se em 7 de Agosto de 1955 e, quatro anos depois, em 29 de Dezembro de 1959, o novo sistema de transporte foi inaugurado. A rede aberta ao público consistia numa linha em Y constituída por dois troços distintos, Sete Rios (actualmente, Jardim Zoológico) – Rotunda (actualmente, Marquês de Pombal) e Entre Campos – Rotunda (Marquês de Pombal), confluindo num troço comum, Rotunda (Marquês de Pombal) – Restauradores.

Sunday, 29 March 2026

A Kermesse de Paris no Avenida Palace Hotel

No Largo D. João da Câmara — antigo de Camões — cujo nome se refere, não ao poeta dos Lusíadas, mas ao dr .Caetano José da Silva Souto Maior, o Camões, corregedor do bairro do Rossio no reinado de D. João V (séc.. XVIII), destacam-se a Estação do Rossio (1890) e o o Avenida Palace Hotel (1892), elegante construção em estilo francês, ambas do risco do arquitecto José Luiz Monteiro e com uma «passagem» entre eles.

A Kermesse de Paris, considerada durante muitos anos a melhor e mais cara loja de brinquedos de Lisboa, foi fundada nos finais do século XIX por Thomaz J. Sá Dias. A loja sita na então Rua do Principie — depois 1º de Dezembro (1911) — estabeleceu-se no piso térreo do recém-inaugurado edifício do Hotel Avenida Palace.

Hotel Avenida Palace |c. 194-|
Praça D. João da Câmara, Estação do Rossio e Rua 1.º de Dezembro
Inaugurado em 1892 com o nome de Grande Hotel Internacional, só no ano seguinte se passou a chamar Avenida Palace Hotel.
Estúdio Mário Novais, in Lisboa de Antigamente

Algumas lojas imprescindíveis da minha infância, todas de brinquedos, eram a Biaggio Flora, na Rua Áurea, a Panchito na Av. Guerra Junqueiro, o Bazar do Parque, Arcadas do Estoril, o Pinóquio, nos Restauradores, que, no Natal, tinha um Pai Natal à porta com um cavalinho de peluche que se podia montar e tirar fotografias, e a Kermesse de Paris, que ficava na base do edifício do Hotel Avenida Palace, entre os Restauradores e o Teatro Nacional D. Maria II, com uma selecção incrível de marionetas. [Memória de uma Epifania e outras histórias, Maria João Vaz, 2023]

 

Kermesse de Paris |1912|
Praça D. João da Câmara
A loja de brinquedos funcionava nas arcadas do piso térreo do Avenida Palace Hotel.
Estúdio Mário Novais, in Lisboa de Antigamente

N.B. Por Edital municipal de 7 de agosto de 1911 a Rua do Príncipe e Largo da Rua do Príncipe passaram a denominar-se Rua Primeiro Dezembro, a data da Restauração em 1640.
Quanto ao Largo D. João da Câmara, até 1924, era o Largo de Camões, já assim denominado em 1858 no Atlas da Carta Topográfica de Lisboa de Filipe Folque.

Hotel Avenida Palace |1961|
Grupo de turistas junto à entrada S. do Hotel Avenida Palace e à Kermesse de Paris.
Garcia Nunes, in Lisboa de Antigamente

Friday, 27 March 2026

Travessa das Freiras a Arroios

Em 1910, esta Travessa das Freiras a Arroios — era ainda parte da Azinhaga das Freiras — e foi aqui, junto a uma antiga capela, que foi encontrado o corpo do Almirante Cândido dos Reis, recorda o olisipógrafo Norberto de Araújo nas suas Peregrinações.

Travessa das Freiras a Arroios e Largo do Leão |1959|
As freiras que deram origem a este topónimo eram do Convento de Arroios da invocação de Nossa Senhora da Conceição da Luz.
Arnaldo Madureira, in Lisboa de Antigamente

N.B. Esta Travessa recebeu o seu nome em 1916 devido à proximidade da antiga Azinhaga das Freiras — como refere Mestre Araújo — , que anteriormente se chamava Azinhaga do Leão e cujo espaço corresponde hoje às Ruas Alves Torgo e Quirino da Fonseca (antiga Estr. de Sacavém). Já o Largo do Leão é um topónimo lisboeta de origem desconhecida, sabendo-se apenas que, após o terramoto de 1 de Novembro de 1755, já figurava nas descrições paroquiais da então chamada “freguezia de S. Jorge”[Machado: 1998]

Largo do Leão, 9 |1931-04-21|
O edifício que se observa ao lado dir. na 1ª imagem albergou a antiga Escola Municipal nº 14 e foi a sede da Câmara Municipal do extinto concelho dos Olivais.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Sunday, 22 March 2026

Rua das Picoas com a Av. da Praia da Vitória

 A Rua das Picoas, embora só tinha sido oficializada por deliberação camarária de 12 de Julho de 1906, era anterior à urbanização que o local sofreu no final do século XIX, como Estr. das Picoas. Diz-se que entre os proprietários da quinta se contaram duas senhoras de apelido Picão, a quem o povo chamou «as Picôas», e assim foi baptizado o sítio.

Picôas (estrada das) fica á direita no largo da Cruz do Taboado, indo para a porta do novo Matadouro e finda na barreira, que precede a rua das Cangalhas, freguezia de S. Sebastião da Pedreira 2 a 20 e 1 a 15. [Velloso: 1869]

Rua das Picoas com a Av. da Praia da Vitória |1943-01|
Este antigo troço da Rua das Picoas (velhinha Estr. das Picoas) que desapareceu depois da construção do Cine-Teatro Monumental (e prolongamento da Av. Praia da Vitória) e após demolição do Palácio Camarido que se vê à direita.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente
Avenida Praia da Vitória no cruzamento com a Rua das Picoas |1943-01|
Ao fundo, em fase de demolição, observa-se o Palácio Camarido e a Avenida 5 de Outubro.
Roiz, in Lisboa de Antigamente
Nota(s): imagem corrigida, invertida no abandalhado amL.

O nome desta avenida surgiu em 1906 como Avenida «da» Praia da Vitória mas, em 1951, a partícula «da» foi retirada, após parecer da Comissão Municipal de Toponímia de 13 de Abril aprovado pelo Vice-Presidente da Câmara no dia 16. Inicialmente, estendia-se da Rua de Dona Estefânia à Praça Duque de Saldanha, sendo que, a partir de 1945, passou a prolongar-se até à Avenida 5 de Outubro.

Rua das Picoas vista tomada da com a Av. Fontes Pereira de Melo |1938|
Este antigo troço da Rua das Picoas (velhinha Estr. das Picôas) desapareceu depois da construção do Cine-Teatro Monumental (vd. fotografia aérea abaixo); à dir. nota-se o muro do extinto Palácio Camarido.
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente
Nota(s): imagem corrigida, invertida no abandalhado amL.
Fotografia aérea da zona da Praça Duque de Saldanha e Picoas |1934|
Pinheiro Corrêa, in Lisboa de Antigamente
Legenda (clicar para ampliar):
Edifícios/Monumentos:
1Palácio Camarido (demolido c. 1945)  2Praça Duque de Saldanha  3Mercado 31 de Janeiro que foi Matadouro Municipal   4Maternidade Doutor Alfredo da Costa  6Hotel Aviz (Palacete Silva Graça, demolido em 1962)
Arruamentos:
Vermelho —Antiga Estr. das Picoas (o troço tracejado foi extinto);  Verde — Rua Engenheiro Vieira da Silva;  Azul — Avenida Fontes Pereira de Melo;  Laranja — Avenida 5 de Outubro;  Roxo —Av. Duque de Ávila

Friday, 20 March 2026

Rua Santo António à Estrela, 35

Da Praça da Estrela sai a SO., para a esq., a rua de Santo António à Estrela, à dir. da qual se rasga a do Patrocinio, com a ermida dessa invocação, de bem proporcionada fachada de ordem jónica. No fim da R. de Santo António, o largo da Boa Morte, sítio outrora apelidado Encruzilhada da Espera, muito perigoso para os viandantes, e onde convergem também as ruas de Santana e do Possolo.
[Guia de Portugal: Generalidades. Lisboa e arredores, p. 301, 1924]

Rua Santo António à Estrela, 35 |2 de Abril de 1945|
A casa de Santa Zita da Estrela pertencia à família Perestrelo e fora antes solar dos Aires de Ornelas.
Legenda no abandalhado amL:«Ataque a um incêndio com escada magirus pelo Batalhão de Sapadores Bombeiros»
Judah Benoliel, in Lisboa de Antigamente

N.B. No dia 1 de abril de 1931, o Padre Joaquim Alves Brás dá início à Fundação da Obra de Previdência e Formação das Criadas (OPFC), para responder a um grave problema dos anos 30 – o êxodo de um elevado número de jovens e adolescentes, das aldeias para as cidades, em busca de um trabalho, quase sempre precário e sem proteção legal, em condições e ambientes, a maior parte das vezes, degradantes.
No dia 4 julho de 1945 a Sede Diretiva e Administrativa da Obra [de Santa Zita designação de 1956], é transferida da Guarda para Rua Santo António à Estrela, Lisboa. [+ info em osz.pt]

Rua Santo António à Estrela, 35 |1907-02|
Este edifício foi solar dos Aires de Ornelas em fins do século XVIII e depois propriedade da família Perestrelo. Em 1945 foi adquirido pela Obra de Santa Zita.
Machado & Souza, in Lisboa de Antigamente

Sunday, 15 March 2026

Sé Patriarcal (Igreja de Santa Maria Maior)

A Sé Patriarcal de Lisboa projectada pelo Mestre Roberto (séc. XII) é a única construção em estilo Românico e também a única do período de Dom Afonso Henriques que ainda existe na cidade, embora bastante alterada ao longo do tempo [vd. última imagem]. O Românico é um estilo caracterizado por formas compactas, transmitindo uma sensação de solidez e resistência.

 está classificada monumento nacional (decretos de 10 de Janeiro de 1907 e de 16 de Junho de 1910), e, excluindo os troços que ainda restam da muralha ou cerca moura — diz Mestre Castilho, a quem vamos sempre seguindo — , é incontestavelmente o edifício mais antigo da cidade.

Sé de Lisboa |1942-06-20|
Largo da Sé
Constitui a Sé de Lisboa um recinto isolado entre quatro ruas: de Augusto Rosa,
antiga Rua do Arco do Limoeiro, ao norte; as Cruzes da Sé, ao sul; o Beco do
Quebra-Costas, em escadaria, ao nascente; e o Largo da Sé (fachada principal), ao poente.
Legenda da foto no arquivo: «Os trabalhos de defesa da fachada da Sé de Lisboa, contra ataques
aéreos»
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Não tem ele actualmente [em 1902], porém, o aspecto que apresentava na sua origem, porquanto, durante o volver dos séculos, foram-se-lhe fazendo acrescentamentos, modificações e sobreposições, que quási por completo lhe transformaram o facies primitivo, como se tem inferido do estudo consciencioso dos descobrimentos consequentes dos trabalhos de demolição e restauro a que no edifício se vem procedendo desde os últimos anos do século passado [XIX](Castilho: 1902)

Sé de Lisboa, obras de restauro |1913|
Sobre o eirado da torre norte (esq.) observa-se «uma pirâmide de cimento armado»;
quem assim no-lo diz é Norberto Araújo, que, mais adiante, acrescenta: «Naquela torre
do Norte, já no período das obras deste século [XX], colocou-se uma guarita oitavada,
de cimento armado, e que há poucos anos foi, como disse, demolida». [Araujo: 1938]
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

No monumento nada existe, nem parece ter existido, que leve a aceitar a versão de que o templo foi erigido sobre o fundamento de uma mesquita  — recorda o ilustre olisipógrafo Norberto de Araújo.
Presume-se, aliás sem base documental, que o primeiro arqtiitecto houvesse sido um dos cavaleiros cruzados que tomaram parte no assédio à cidade sarracena, porventura «mestre» monge normando, companheiro do clérigo, cruzado inglês, Gilberto Hastings, que veio a ser (1150?} o primeiro bispo de Lisboa. Não há notícia da época da conclusão das obras do templo; não é, porém, arrojado suipôr-se que, ainda no período inicial, estivesse já dado ao culto e em parte coberto, constituindo desde logo sede de uma freguesia, cuja invocação é de Santa Maria Maior.==

Recriação da Sé de Lisboa por Alfredo Roque Gameiro (1864–1935) segundo pinturas existentes do século XVI
«[...] Estas torres [Sé], primitivamente, não tiveram sinos, os quais se situavam na torre sineira, sobre a cúpula do cruzeiro, e que o terramoto arrasou. [...]» [Araujo: 1938]
in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Inventário de Lisboa: Monumentos histórico, 1944.
idem, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. II, 1938.
CHAGAS, Manuel Pinheiro, História de Portugal, popular e ilustrada, 1899-1905

Friday, 13 March 2026

Rua Antero de Quental, 6

Imagem anterior à demolição parcial da antiga cerca do Convento do Desterro — que se nota ao fundo — e que durante alguns anos atravancou esta zona, mesmo depois de rasgada a «Avenida «dos Anjos» (depois «de D. Amélia» e actual Alm. Reis).

Topónimo atribuído pela CML, em 1900, ao arruamento que liga o Largo do Intendente com o Largo do Conde de Pombeiro, mais tarde limitado à Av. Almirante Reis quando foi atribuído, em 1915, o topónimo Travessa do Cidadão João Gonçalves ao troço desta rua sito entre a Rua dos Anjos e aquela avenida.

Na direcção da Av. Almirante Reis.
Machado & Souza, in Lisboa de Antigamente

N.B. Antero de Quental (1842-1891), poeta e filósofo. foi um verdadeiro líder intelectual do Realismo em Portugal. Dedicou-se à reflexão dos grandes problemas filosóficos e sociais de seu tempo, contribuindo para a implantação das ideias renovadoras da geração de 1870.

Sunday, 8 March 2026

Chafariz de Dentro que foi Fonte dos Cavalos

O Chafariz de Dentro ou Fonte dos Cavalos — assim cognominado por causa dos cavalos de bronze, que os Castelhanos levaram quando cercaram Lisboa deixando lá dois buracos no lugar das equestres bicas de onde a água jorrava — é uma nascente mui antiga, e a data mais remota a que lhe encontramos referência é do ano 1285. Também o denominavam Fonte ou Chafariz de Alfama (1384 e 1650). [Silva: 1998]

Parece, porém — conta Camilo no seu romance satírico A Queda de um Anjo — , que ele [Calisto Elói de Silos e Benevides de Barbuda] andava aporfiado em afogar o seu recto juízo nas águas de Lisboa. Lera o deputado que também o chafariz dos cavalos da rua Nova tinha prodigiosas virtudes em cura de moléstias de olhos. Procurou a rua Nova [d'El-Rei], que o terramoto de 1755 soterrara; procurou o chafariz, que, segundo ele, devia estar na rua dos Capelistas ou Algibebes sucessoras daquela rua.

 

Chafariz de Dentro ou dos Cavalos |1929|
Largo do Chafariz de DentroIgreja de Santo Estêvão.

Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

 

Ninguém lhe dava conta do chafariz dos cavalos; e alguns lojistas interrogados supuseram que o provinciano não podia beber em fonte que não tivesse aquela aplicação.
O erudito respondia aos chacoteadores:
—  Pois saibam que se perdeu um mirífico chafariz! Rezam os meus livros que as salubérrimas águas desta fonte perdida tinham a propriedade oculta de engordar as carruagens que bebiam dela; e acrescenta Marinho de Azevedo, textualíssimas palavras: e quando ela faz tão conhecidos efeitos nos animais, os fizera nos corpos humanos, se a beberam na sua fonte.

Chafariz de Dentro ou dos Cavalos |1931|
Largo do Chafariz de Dentro

Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente


Um bacharel, que ouvira as lástimas de Calisto, disse a um vizinho a meia-voz:
— Este homem parece que tem uma carruagem magra no corpo!
Com estas zombarias é que em Portugal os sábios são premiados. Se Calisto fosse um parvo, o Governo dava-lhe um subsídio até ele achar o chafariz dos cavalos.==
(CASTELO BRANCO, Camila A Queda de um Anjo, 1866)


Chafariz de Dentro ou dos Cavalos |c. 1930|
Largo do Chafariz de Dentro
Horácio Novais., in Lisboa de Antigamente

Friday, 6 March 2026

Rua Joaquim Bonifácio - o «Bota-abaixo»

Joaquim Bonifácio (Rua) — Joaquim Gregório Bonifácio, vereador da Câmara Municipal de Lisboa por 1834. A seu respeito lê-se:
«Houve, quando em Lisboa começou o verdadeiro regimen municipal moderno, um bom vereador que, durante o seu quadriénio, fez andar a cidade em uma roda-viva. Via alpendres? terra. Telheiros? terra. Casebres? escadas pejando a via publica? balcões salientes? atravancamentos, empachos, embaraços e pejamentos? em um abrir e fechar de olhos, tudo isso era demolido; d'onde lhe ficou a alcunha do Bota-abaixo.
Mas o vereador aformoseava, desatravancava, e também construía».
Foi legalizada esta designação por edital da Câmara de 26 de Julho de 1882. [Brito: 1935]

Rua Joaquim Bonifácio (actual Jacinta Marto) |1901|
Aqui, no largo de Santa Bárbara, foram demolidos ha cerca de dois anos uns casebres do lado poente, quai a esquina da Rua Joaquim Bonifácio (...) [Araujo: 1938]
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

«[...] a Rua Joaquim (Gregório) Bonifácio (vereador da Câmara a quem chamavam o “Bota-abaixo” porque, para aformosear, não se lhe dava demolir) é de Julho de 1882, embora fosse aberta em 1878».
(ARAUJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. IV, p. 76]

N.B. Rua Joaquim Bonifácio que se estendia do Largo de Santa Bárbara até à Rua Gomes Freire, foi atribuída por edital de 26/07/1882. Mais tarde, por edital de 23/03/1929, o troço da artéria compreendida entre a Rua de D. Estefânia e a Rua Gomes Freire, tomou o nome de Rua Joaquim Bonifácio, como prolongamento desta. Ainda mais tarde, por edital de 03/04/1981, o troço da Rua Joaquim Bonifácio compreendido entre a Rua de D. Estefânia e o Largo de Stª Bárbara passou a denominar-se Rua Jacinta Marto. [1943-1974 - Actas da Comissão Municipal de Toponímia de Lisboa]

Rua Joaquim Bonifácio (actual Jacinta Marto) |1908-01-28|
Quartel de Santa Bárbara da Guarda Municipal
Neste quartel. estiveram presos Afonso Costa, e Francisco Correia de Herédia, Visconde de Ribeira Brava e Alfredo Leal aquando do Regicídio (1908).
Aqui esteve instalado o Batalhão nº 1 da Guarda Nacional Republicana, criada em 3 de Maio de 1911
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Sunday, 1 March 2026

Feira da Ladra ao Campo de Santa Clara que foi Campo da Forca

Nas traseiras do convento de São Vicente de Fora estende-se o Campo de Santa Clara (vulgarmente designado por Feira da Ladra), cujo mercado remonta a tempos muito antigos.
Nos primórdios fazia-se no chamado «Chão de Feira»; em tempos de D. Afonso llI, na Ribeira Velha; com D. Manuel l, junto ao Paço da Ribeira e, no séc. XVl, no Rossio. Após o terramoto de 1755, teve lugar na Praça da Alegria, depois à Bemposta (Sant'Ana) e Passeio Público e só em 1882 se instalou definitivamente aqui. Por outro lado, foi o Campo de Santa Clara palco, no séc. Xlll, de execuções capitais e daí ser conhecido também por Campo da Forca, que se manteve até ao séc. XVI.==
(in Os conventos de Lisboa, Baltazar Mexia de Matos Caeiro, 1989, p. 149)

Feira da Ladra |séc. XIX|
Campo de Stª. Clara: à dir. vê-se parte do Palácio dos Condes Almirantes de Rezende vulgo Casão Militar.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente
Feira da Ladra |séc. XIX|
Campo de Stª. Clara: à esq. nota-se a cortina que suporta o Jardim Botto Machado.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Friday, 27 February 2026

Mercado 31 de Janeiro que foi Matadouro Municipal, às Picôas

E aí tens o velho Matadouro Municipal de Lisboa, às Picôas — recorda o ilustre Norberto de Araújo. O edifício foi erguido em 1863, do risco do arquitecto francês Pezerat, e ocupa uma área de mais de treze mil metros quadrados. Está hoje [1938] antiquado e condenado a desaparecer. [Araújo: 1938]


Em sessão de 22 de Dezembro de i852 resolveu a Câmara mandar proceder á construção do actual Matadouro, para substituir o antigo [de S. Lázaro no Largo do Mastro], cujas péssimas condições higiénicas e imperfeita organização o condenavam por insalubre e prejudicial aos interesses da Camara e do comércio lícito. O engenheiro Pedro José Pezerat (1801-1872) foi encarregado de elaborar o projecto e orçamento para a edificação, que ficou situada na Cruz do Taboado, um dos pontos mais elevados da cidade. Constituído por diversos corpos, cujo conjunto tem a forma retangular, mede esse edifício por um dos lados 120 metros e pelo outro m metros, o que dá a superfície de 13.320 metros quadrados. [Pimentel: 1903]

Mercado 31 de Janeiro que foi Matadouro Municipal, às Picôas |1955|
Av. Fontes Pereira de Melo com s Rua Tomás Ribeiro
O mercado foi demolido na década 1950.
Armando Serôdio, in Lisboa de Antigamente

sítio das Picoas que já surge referido nas «Memórias Paroquiais de Lisboa» de 1758, derivou do nome de uma quinta do morgado das Picoas — D. Nuno Freire de Andrade e Castro de Sousa Falcão —  do qual dependia uma Ermida (já demolida) na Rua das Picoas próximo da actual Av. Praia da Vitória.

Mercado 31 de Janeiro que foi Matadouro Municipal, às Picôas |1961|
Rua Engenheiro Vieira da Silva, Av. Fontes Pereira de Melo e Praça José Fontana; ao fundo vislumbra-se o famoso "prédio do anjo" com fachada sobre Praça do Duque de Saldanha.
Augusto de Jesus Fernandes, in Lisboa de Antigamente

N.B. Entre 1852 e 1872, a Repartição Técnica da Câmara Municipal de Lisboa foi liderada pelo engenheiro-arquitecto francês Pierre Joseph Pézerat, que começou a trabalhar na CML em 1852 e se destacou como figura central na organização urbana da capital no período pós-liberal, realizando importantes obras de infraestrutura na cidade.

Sunday, 22 February 2026

«Casa das Varandas»

[João Eduardo] Tinha alugado uma água-furtada na rua dos Bacalhoeiros, comia na taverna do Isca por um ajuste ao mês, e à noite errava pelas ruas, batendo o macadame com as suas solas rotas, as mãos nos bolsos, a ideia em Amélia, cheio de um vago ódio contra a cidade, as lojas dos ourives, o rodar dos coupés, e o peristilo dos teatros. (QUEIROZ, Eça de, O Crime do Padre Amaro, 1876)

[...] a Rua dos Bacalhoeiros — recorda o ilustre Norberto de Araújo — que neste troço já era eirado de tendas da Ribeira Velha — possui o seu interesse, embora o tipo das construções urbanas seja, em quási toda ela, do começo do século passado [XIX], trivial pois, mas sólido e representativo da sua época. [...]

«Casa das Varandas» |1950-02|
Rua dos Bacalhoeiros, 6-6C e 8-8D; Rua Afonso de Albuquerque, 5-7 (Casa dos Bicos)
O edifício inicial remonta ao século XVI, tendo sido destruído pelo terramoto de 1755
e depois de restaurado foi novamente destruído por um incêndio em 1781.
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

O prédio que se segue [à Casa dos Bicos ou de Brás Albuquerque], de notável beleza de linhas, é uma construção do tempo de D. João V, e que lembra o risco de Ludovice. Os seus seis andares (os dois últimos, de varanda corrida, constituem uma sobreposição do século passado [1803-1805]) fazem deste edifício urbano um dos mais assinalados da Baixa, com as suas magníficas varandas, nove em cada pavimento, tão decorativas como originais. Este imóvel — construído por um cidadão, certamente endinheirado, João da Cruz —, pertence hoje [em 1938] a Carlos Augusto Santa Bárbara, que o herdou de seu sogro José Pedro Ferreira.»
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. X, pp. 20-22, 1939)

«Casa das Varandas» |c. 1960|
Rua dos Bacalhoeiros, 6-6C e 8-8D; Rua Afonso de Albuquerque, 5-7
O edifício é coroado de ática e com varandas de sacada, com varões de mó.
Estúdio Mário Novais, in Lisboa de Antigamente

Nota(s): O actual topónimo Rua dos Bacalhoeiros foi atribuído pela Câmara Municipal de Lisboa, através de Edital do Governo Civil de 01/09/1859, ao arruamento que resultou da junção das antigas Ruas dos Bacalhoeiros e dos Confeiteiros.

Rua dos Bacalhoeiros |c. 1900|
Casa dos Bicos e Casa das Varandas
(antes das demolições de 194- no Campo Cebolas)
Alberto C. Lima, in Lisboa de Antigamente
Rua dos Bacalhoeiros |1941|
Casa das Varandas (ao centro) e Casa dos Bicos
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente




Friday, 20 February 2026

Rua Garrett que foi «do Chiado»

Saiamos da freguesia dos Mártires — sugere Mestre Castilho — , não sem deitar uma vista de olhos à célebre rua dos elegantes lisbonenses, ao nosso Boulevard de Gand, à nossa Regent Street, ao nosso velho e falador Chiado, hoje crismado (bem mal a propósito, quanto a mim, salvo melhor juízo) em Rua de Garrett.

Antigamente essa grande artéria, que seguia desde o convento do Espírito Santo (palácio Barcelinhos) até à frente do palácio do marquês de Marialva (praça de Luiz de Camões), tinha em cima o nome de rua das Portas de Santa Catarina, e só era Chiado para baixo da rua da Cordoaria Velha (a nossa rua de S. Francisco). Ultimamente chamava-se a tudo, em linguagem oficial, rua das Portas de Santa Catarina, mas a denominação de Chiado invadira, e dominava no uso. Os janotas da casa Havanesa estavam tanto no Chiado, como os fregueses da loja do José Alexandre. O edital do Governo Civil de Lisboa, de 1 de Setembro de 1859, incorporou nesse nome os dois nomes seguidos da mesma rua, passando a chamar-se em toda a sua extensão rua do Chiado.

Rua Garrett que foi «do Chiado» [c. 1950]
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente
Nota(s): imagem sem data; local da foto não está identificado no arquivo

Esse nome do Chiado, destronado pelo do imortal Garrett, pelo edital de 14 de Junho de 1880, também tinha os seus foros, e não muito mesquinhos; foi injustiça desconhecer-lhos. Garrett presou-se de bom companheiro em letras; ¿porque o obrigou a Câmara Municipal a ser mau companheiro depois de morto? Tenham a certeza disto: se o pudessem consultar, pediria ele que deixassem quieto no seu lugar o velho Chiado, o poeta António Ribeiro Chiado, seu predecessor, e seu colega (se bem que muito somenos, é claro) na carreira literária. [Castilho: 1879]

Rua Garrett que foi «do Chiado» |c. 193-|
O Chiado durante Quinta-feira Santa.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Sunday, 15 February 2026

A S. Miguel de Alfama

Largo de S. Miguel de Alfama ao centro, recamada de talha de ouro, na sumptuária sacra de seiscentos, esplende a paroquial, templo bairrista cuja primeira fábrica remontava ao século XIII. S. Miguel de Alfama!

Sobem por aí acima até à Adiça e a Santa Helena, em escadarias contorcidas de presépio bíblico, o Beco das Curvinhas (ou da Corvinha), as Calçadas da Figueira e de S. Miguel. Não seria possível a um pintor conceber cousa assim, se ele quisesse criar originalidade de cenário e construir planos de inverosímil lógica urbanística. É arrojo, na Alfama, destacar, dentro do pitoresco, uma gracilidade de outra gracilidade.

Largo e Calçadinha de S. Miguel |c. 1910|
Fachada lateral da Igreja de S. Miguel.
José A .Bárcia, in Lisboa de Antigamente

Eis um alfobre de fantasias que ficaram dos meandros mouriscos. Mas este sitiozinho modelo do génio truculento do acaso é um padrão.
O Largo esmalta-se de casitas excêntricas, como outras não há, tão de sua índole seiscentista, salientes do fundo da fatalidade dos tempos.

Rua do Castelo Picão (N-S) junto ao Beco do Garcês |c. 1910|
O Castelo Picão é uma artéria, relativamente longa - emula da Regueira — que desenhando uma curva, quási em ângulo recto, nos traz do Salvador a S. Miguel». [Araújo: 1939]
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente
Nota(s): o local da foto não está identificado no abandalhado amL
Rua do Castelo Picão |1953|
Alfama teve durante os anos de 1950/60, o Concurso de janelas floridas, incluído nas Festas da Cidade.
Armando Serôdio, in Lisboa de Antigamente

De largo ressalto, janelas minúsculas, beirais engrinaldados de ervas, nascidas do sol e da chuva, cor-de-rosa, maneirinhas — as casas de S. Miguel são cousas de copiar, moldar com dedos de ternura, e colocar como espécimes sobre as mesas de artistas inspirados na humildade. Uma delas, a da esquina do Largo sobre sobre a Rua, semelha uma torre, imposta sobre uma base estreita, que mal pode com ela. Em todas mora a alegria, que nem sequer carece do condimento da resignação. A cantar o «passarinho trigueiro» as mulheres de Alfama, maliciosas e inocentes, redimem o bairro da sua melancolia atávica. E são às dezenas, pela redondeza, os exemplares desta construção, imaginada por oleiros de presépio.

Cai a noite em Alfama: Largo e Beco de S. Miguel visto das Escadinhas do mesmo nome |1961|
«Alfama é, com certeza, uma cousa única nas cidades com consciência do que se devem.
A sua beleza é muito subjectiva. Ali não há possibilidade de se fazer um Museu aberto. O
que se lhe exige é limpeza» [Araújo: 1939]
Artur Pastor, in Lisboa de Antigamente

Muros tisnados sobre os quais caem arbustos. Traseiras, absurdas de branco, que moram no Castelo Picão. Mil janelinhas de roupa estendida, os píncaros da Regueira, o perfil esbelto de uma chaminé, um gato espreguiçado num banho de sol.
Um pregão, uma cantiga vinda de um tugúrio. O voo de uma pomba!
A S. Miguel de Alfama ... 
(ARAÚJO, Norberto de Araújo, Legendas de Lisboa, pp. 60-61, 1943)

Calçadinha de S. Miguel |c. 1940|
R. do Castelo Picão
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente
Calçadinha de S. Miguel |c. 1913|
(Colecção Afonso Lopes Vieira)
Roque Gameiro (1864-1935)







                                         






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