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Wednesday, 22 August 2018

Calçada da Pampulha

[...] eis-nos no sitio da Pampulha — para o qual a Lapa é uma criança — e que remonta ao século XVI. (...) A Calçada da Pampulha — diz Norberto Araújohoje é a continuação da Rua do Presidente Arriaga, nome que depois de 1917 foi dado à Rua de S. Francisco Paula. Em verdade, oficializada, a Pampulha não tem mais que duzentos metros, mas a designação extravasa, possui ressonância bairrista além do limite municipal do dístico.
«Pampulha» porquê? Não o sei eu, nem os mestres que têm. até agora, escrito acerca das origens dos nomes das ruas de Lisboa. Julgo, porém, que problema não é insolúvel, e creio até que estará para breve o desvendar deste mistério toponímico.
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. VII, pp. 55-56, 1938)

Calçada da Pampulha [ant. 1939]
Cruzamento com a Rua Tenente Valadim; anterior à construção do viaduto sobre a Avenida Infante Santo, em 1949 (vd. 2ª foto)
Eduardo Portugal, in in Lisboa de Antigamente

Em relação à etimologia da palavra «Pampulha», José Pedro Machado no seu Dicionário Onomástico Etimológico da Língua Portuguesa (1984) avançou a hipótese de a origem estar em «pão da Apúlia» (pan no português arcaico), indicando o local onde era recebido o trigo vindo da Apúlia italiana.
Gomes de Brito refere que «Pampulha» já surge num Assento da Vereação de 1636: «Nas travessas que há do Corpo Santo até á Pampulha». Em 1786, na Relação Universal figura este arruamento ora como Rua Fresca da Pampulha, ora como Rua Direita da Pampulha. E como Calçada da Pampulha aparece primeiro no Itinerário lisbonense de 1818 e no Atlas da Carta Topográfica de Lisboa de Filipe Folque, de 1857. No entanto, num documento de 1875 ainda é referida a denominação genérica da zona, numa planta da Praia da Pampulha.

Calçada da Pampulha [c. 1949]
Construção do viaduto sobre a Avenida Infante Santo no cruzamento com a Rua Tenente Valadim
Judah Benoliel, in Lisboa de Antigamente
 
Refira-se ainda que a Fábrica de Bolachas da Pampulha, a primeira fábrica de bolachas em Portugal, fundada por Eduardo Costa na década de 1870, referenciava a sua localização entre a Pampulha e a Rua 24 de Julho (hoje Avenida 24 de Julho). [cm-lisboa.pt]

Publicidade da Fábrica de Bolachas da Pampulha em 1907

Sunday, 16 April 2017

Torre da Pólvora: Palácio da Cova da Moura

Como já preconizava Norberto de Araújo, em 1938, nas suas Peregrinações «a Rua da Tôrre da Pólvora que tende a desaparecer, pela urbanização que já nela começou no seu começo, esteve ligada às tradições polvoreiras de Alcântara».1 De facto, esta antiga artéria seria extinta e, mais tarde, integrada na novíssima Avenida Infante  Santo, cujo topónimo viria a ser atribuído pela Câmara Municipal de Lisboa através de Edital de 13/5/1949, à anterior Rua da Torre da Pólvora. 


Espreitemos a Rua da Torre da Pólvora - prossegue Norberto de Araújo -, urbanizada e rectificada no seu troço inicial, sob a Pampulha, há dois anos [1936]. Na parte antiga vemos, à esquerda, uns casebres decrépitos, e os restos de fornos de cal, pois muitos por aqui houve. O sítio foi chamado, no século XVI, «Lapa da Moura», em virtude da existência de uma lapa entre as pedreiras que afloram ainda na raiz das construções. De Lapa da Moura se passou a Cova da Moura, nome que esta área entre Alcântara e Pampulha ainda mantém.
A designação de Torre da Pólvora nesta serventia nasce da circunstância de, no fundo da rua, ter sido construída, de 1670 a 1696, uma torre, depósito ou paiol de pólvora defendida per seu guarda fogo, num recinto relativamente largo.

Panorâmica sobre a zona da Pampulha e a antiga Rua da Torre da Pólvora {c. 1940]
 O topónimo Avenida Infante Santo foi atribuído pela Câmara Municipal de Lisboa através de Edital de 13/5/1949, à anterior Rua da Tôrre da Pólvora
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente
Legenda:
1 - Palácio da Cova da Moura - Prémio Valmor, 1921, (Restauro), arq,º Tertuliano Marques   2 - Rua da Torre da Pólvora (extinta e integrada na Av. Infante Santo)   3 - Rua da Cova da Moura   4 - Hospital da    CUF Infante Santo (Tv. do Castro)   5 - Prédio, de 1938, «ao estilo moderno e desafogado» referido por Norberto de Araújo nas suas «Peregrinações em   Lisboa»   6 - Dispensário de Alcântara, sito na Rua Tenente Valadim, edifício de relevância histórica, foi mandado erigir por iniciativa da Rainha Dona Amélia. Inaugurado em 1893   7 - Rua do Sacramento a Alcântara

O casarão foi depois presídio (1843), já há muito o depósito de pólvora havia desaparecido do local. Mais tarde, nas casas anexas reconstruidas e ampliadas, instalou-se o regimento de Infantaria n.° 7; ainda depois, em 1899, vários serviços de Administração Militar, e em 1928 uma Companhia de Trem Hipomóvel. É êste o bairrista quartel da Cova da Moura. (...)

Abertura da Avenida Infante Santo (Viaduto da Pampulha) [c. 1949]
Ao fundo o Palácio da Cova da Moura (jardins)
O topónimo Avenida Infante Santo foi atribuído pela Câmara Municipal de Lisboa através de Edital de 13/5/1949, à anterior Rua da Torre da Pólvora.

Judah Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Ora tornemos ao começo da Rua. Este palacete, do estilo de D. João V, à esquina da Cova da Moura, por onde tem a entrada principal, é do século passado [séc XIX]; pertencia ao Dr. João Ulrich, e foi adquirido pelo Ministério da Guerra em Agosto de 1935, para sede do Conselho Superior de Defesa Nacional e do Conselho Superior do Exército. Como contraste, olha-me este prédio, de 1938, ao estilo moderno e desafogado, e esse outro, em gaveto, estreito como uma cunha, entre as Rua e Travessa da Cova da Moura, do século passado. O urbanismo em Lisboa tem muito deste desequilíbrio estético.2

Palácio da Cova da Moura [ant. 1950]
Avenida Infante Santo
O topónimo Avenida Infante Santo foi atribuído pela Câmara Municipal de Lisboa através de Edital de 13/5/1949, à anterior Rua da Torre da Pólvora.
Autor desconhecido, in Lisboa de Antigamente

Em 1921, o Prémio Valmor foi o restauro do Palácio (setecentista) da Cova da Moura sito na Rua Cova da Moura; Avenida Infante Santo,; Travessa do Castro, projectado por Tertuliano Marques (1883-1942) e pertencente a João Ulrich. Até à data tinha sido o único caso de atribuição do prémio a um restauro, considerado significativo “por se desenvolver dentro de uma arquitectura tradicionalista portuguesa das mais belas”.
Apesar de ainda existir, foi profundamente modificado e acrescentado em 1950 e adaptado para ali funcionar uma dependência do Ministério da Defesa.
__________________________________________
Bibliografia
1 ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. VII, p. 56, 1938.
2 idem, vol. IX, p. 13.

Sunday, 22 September 2024

Escadinhas na Rua do Sacramento, à Pampulha

O topónimo deriva do Convento do Sacramento, de religiosas dominicanas que foi fundado em 1612 pelos Condes de Vimioso. A sua igreja manteve o culto alguns anos depois de 1834 e nuns anexos da ala poente esteve instalada depois de 1911, a Academia de Ciências de Portugal. A partir de 1916, o edifício passou a depender do então Ministério da Guerra.

Rua do Sacramento a Alcântara: Escadinhas na Pampulha |1949|
Cruzamento com a Rua Tenente Valadim com a Calçada da Pampulha em fundo.
Fernando M. Pozal, in Lisboa de Antigamente

Em relação à etimologia da palavra «Pampulha», refere Gomes de Brito na sua Ruas de LisboaÉ este um dos dísticos da via pública lisbonense até agora, supõe-se, indecifrados, e já agora indecifráveis, provavelmente. De remota era é decerto, pois que por coevo da dominação filipina se pode afirmar.
Aliás, no que a esta denominação diz respeito. Norberto Araújo faz afirmação idêntica.  
(BRITO, Gomes de) Ruas de Lisboa. Notas para a história das vias públicas, 1935.)

Friday, 7 February 2020

Rua Tenente Valadim, à Pampulha

Esta Rua Tenente Valadim que celebra a memória de um oficial sacrificado nas guerras de África 1890, leva à Avenida 24 de Julho [vindo da Calçada Pampulha]; não tem meio século [...]
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. VII, p. 56, 1938)

Eduardo António Prieto Valadim nasceu em Lisboa a 13 de Junho de 1865. Entrou para o Colégio Militar em 1876 com o nº 132. Oficial do Exército, distinguiu-se nas campanhas de África do final do século XIX, em Moçambique. Morreu decapitado pelo régulo Mataca, no Niassa, em Moçambique, em Janeiro de 1890, quando se preparava para içar a bandeira portuguesa numa povoação daquela província ultramarina a fim de assegurar a soberania nacional.

Rua Tenente Valadim, à Pampulha |1939|
[Este troço está hoje integrado na Av. Infante Santo]
No cruzamento com a Rua do Sacramento A Alcântara e Calçada Pampulha: ao centro, entre o casario, vislumbra-se a futura Av. Infante Santo, rasgada no final da década de 1940.
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Sunday, 10 April 2022

Rua da Torre da Pólvora

[1804Torre da Pólvora: é a ultima à direita, descendo pela Calçada da Pampulha, vindo da Igreja de S. Francisco de Paula, e vai terminar aos Armazéns da Pólvora
[1864Torre da Pólvora (largo da)  fica na fim da rua da Torre da Pólvora, indo da calçada da Pampulha e finda na travessa do chafariz das Terras, freguesia de Santos. Está n'este largo o presidio denominado da Cova da Moura, actualmente serve de quartel para infantaria.
[1924] Fronteira à R. do Tenente Valadim, a rua da Torre da Pólvora, que vai dar à Cova da Moira, ao fundo da qual fica o quartel onde se acha instalado o 1.º grupo de companhias de administração militar. 

A designação de Torre da Pólvora nesta serventia — recorda Norberto de Araújo — nasce da circunstância de, no fundo da rua, ter sido construída, de 1670 a 1696, uma torre, depósito ou paiol de pólvora defendida por seu guarda fogo, num recinto relativamente largo.

Rua da Torre da Pólvora |1939|
Desaparecida para dar lugar à Avenida Infante Santo
Eduardo Portugal, 
in Lisboa de Antigamente

O casarão foi depois presídio (1843), já há muito o depósito de pólvora havia desaparecido do local. Mais tarde, nas casas anexas reconstruídas e ampliadas, instalou-se o regimento de Infantaria n.° 7; ainda depois, em 1899, vários serviços de Administração Militar, e em 1928 uma Companhia de Trem Hipomóvel. É este o bairrista quartel da Cova da Moura. [...]

Panorâmica sobre o Quartel da Cova da Moura |c. 1947|
Demolido para dar lugar à Avenida Infante Santo
Eduardo Portugal, 
in Lisboa de Antigamente

A abertura da Avenida Infante Santo vai implicar a sua destruição em finais da década de 1949. Conforme o Edital de 13 de Maio de 1949 «o arruamento em construção, que ligará a Avenida 24 de Julho à Estrela, compreende parte da Rua Tenente Valadim, desde o término da curva do prédio do Estado (Instituto Maternal); parte da Travessa dos Brunos prédios nºs 22 e 24 e, ainda, a Rua da Torre da Pólvora» passou a ser a Avenida Infante Santo.

Panorâmica sobre a Avenida Infante Santo |c. 1959|
A abertura da Avenida Infante Santo vai implicar a destruição da Rua da Torre da Pólvora.
Mário Novais, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. VII, p. 56, 1938.
COSTA, António José Pereira da - A Fábrica e a Torre da Pólvora, 2017.

Friday, 24 November 2017

Panorâmica sobre o Vale da Lapa da Moura: Chafariz das Terras (ou de Buenos Ayres)

No século XVIrecorda-nos Norberto de Araújoo lado poente do actual bairro [da Lapa], que cai sobre a Pampulha, era de campos matizados de casas e arvoredos, onde aqui e ali afloravam pedreiras. Uma lapa, numa dessas rochas deu origem à «Lapa da Moura», designação oral, e documentada, que precedeu a de «Cova da Moura» ainda existente. A “«lapa» – à Pampulha, sítio mais antigo – subiu para Norte e Nascente até ao Mocambo e, deslocando a designação, firmou a Lapa de setecentos.


Em fundo, paredes meias com a Tapada das as Necessidades, espalmada entre muros, sobe a Calçada do mesmo nome, vendo-se, ao cimo desta, o palacete da Casa de Bragança no gaveto para a Rua do Borja; logo abaixo, entre a Calçada e o ramal do Aqueduto ou Galeria das Necessidades, o Vale da Cova da Mourasímbolos do passado que se foram para dar lugar a novos arruamento, por onde corre actualmente a Avenida Infante Santo, construída na década de 1940 e que implicou a demolição parcial do referido aqueduto; na 1.ª imagem, em baixo à esquerda, na Travessa do Chafariz das Terras, junto à «Casa das Iscas» e adossado ao troço do Aqueduto das Águas Livres, vislumbra-se o Chafariz das Terras e o movimento de aguadeiros; do lado direito do ramal, encontramos a Rua do Pau da Bandeira, «dístico antigo e pitoresco» diz Norberto de Araújo —, «cuja origem me escapa» e que comunica com a referida Travessa através de um dos arcos do aqueduto contíguo ao chafariz. (vd. 2ª foto).

Panorâmica sobre o Vale da Cova da Moura [s.d.] [prov. início séc. XX]
Travessa do Chafariz das Terras e Chafariz das Terras; Rua do Pau da Bandeira; Calçada das Necessidades
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Localizado na Tv. do Chafariz das Terras, à Cova da Moura, o Chafariz das Terras surge encostado ao Aqueduto das Águas Livres, sendo abastecido pela água proveniente da Galeria das Necessidades. De construção mais tardia, 1867, e por iniciativa camarária, tal como atesta a inscrição patente numa tabela quadrangular, de vértices chanfrados, existente na frontaria do chafariz, traduz uma solução mais simples e funcional em relação aos imponentes modelos de chafarizes abastecidos nos primeiros tempos de funcionamento do Aqueduto. Chafariz de planta rectangular, com um largo espaldar, cujo pano frontal surge delimitado lateralmente por cunhais coroados por pequenos coruchéus em pirâmide. A meio da cimalha ostenta as armas da cidade inscritas numa moldura circular e na base possui 2 tanques de recepção de águas diferenciados assentes sobre degraus. Uma porta lateral dá acesso ao interior da arca de água.

Chafariz das Terras (ou de Buenos Ayres) [1970]
Travessa do Chafariz das Terras e o arco que liga com as Ruas do Arco do Chafariz das Terras e do Pau da Bandeira
Assim como a Rua do Arco do Chafariz das Terras este é um topónimo fixado na memória da cidade em data que se desconhece mas que será seguramente do final do século XVIII já que a denominação deriva do primitivo Chafariz das Terras, construído em 1791, mais acima daquele em que está hoje; neste sítio tem a data de 1867.
Artur I. Bastos, in Lisboa de Antigamente
 
Sofreu melhoramentos em 1812, tinha em meados do século XIX, 2 bicas, 2 Companhias de Aguadeiros, 2 capatazes e cabos, 66 aguadeiros e 1 ligeiro.

Chafariz das Terras (ou de Buenos Ayres) [1947]
Travessa do Chafariz das Terras
Fernando Martinez Pozal, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. VII-IX. 
VELOSO DE ANDRADE, José Sérgio , Memória sobre Chafarizes, Bicas, Fontes e Poços Públicos de Lisboa, Belém e muitos lugares do Termo., 1851.
monumentos.pt; cm-lisboa.pt.

Sunday, 7 October 2018

Quartel de Marinheiros

Ora aí tens o quartel dos Marinheiros, de tanto renome bairrista — recorda-nos Norberto de Araújo.
O Corpo de Marinheiros foi criado cm Agosto de 1854, começando poucos anos depois a erguer-se éste edifício, só concluído em 1865. Os terreiros para o seu Quartel não pertenciam ao Estado — segundo creio —, e teriam sido cedidos a titulo de doação perpétua, não podendo ter outro destino que não fõsse o de servir a aquartelamento da Armada. É, como se vê, urna coustrução trivial com dois andares, com corpos laterais que envolvem a parada norte, e um outro corpdcentral — em cujcs baixos foi a prisão dos marinheíros até o ano passado — , e que entesta a parada sul, debruçada sôbre o alto muro corrido da Avenida 24 de Julho e Rua do Tenente Valadim, que liga aquela avenida à Pampulha.
Quartel de Marinheiros (ao centro) [1932]
Praça da Armada, antiga Rua do Arco a Alcântara (1888)
Fotógrafo não identificado,
in Lisboa de Antigamente

No terreno da parada do actual Quartel se erguia no século XVII, sôbre chão que pertencera ao Conde de Cantanhede, o Baluarte de Alcântara, começado a construir em 1650, e que obedecia a um plano de novas fortificações da cidade, que compreendia 32 dêsses fortins, e que não prosseguiu na execução. O Terramoto destruiu quási por completo êste Baluarte, que ocupava uma larga área sôbre o rio e sob Alcântara.
O Corpo dos Marinheiros foi afastado dêste edifício em 1918, e nunca mais para aqui voltou. No antigo quartel estão hoje [1939] instalados o Tribunal de Marinha, o Arquivo do Ministério da Marinha, a Secção de Reformados, a Assistência aos Tuberculosos da Armada, e a Banda da Marinha.

Quartel de Marinheiros (ao centro) [c. 1940]
Panorâmica sobre a Avenida 24 de Julho, ao fundo vê-se o Palácio das Necessidades.
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. IX, p. 15, 1939.

Sunday, 9 February 2020

Dispensário Rainha D. Amélia (ou de Alcântara)

A construção deste Dispensário para Tuberculosos corresponde a uma iniciativa da Rainha D. Amélia e tinha como objectivo o amparo e tratamento de crianças e jovens atingidos por esta grave doença. No local fornecia-se aos internados a assistência médica e medicamentosa necessária. O apoio aos doentes ficava ainda a cargo de uma comunidade religiosa as Irmãs Missionárias que habitavam um edifício anexo localizado a Oeste do Dispensário e que correspondia à antiga casa do Vigário do Convento de Nossa Senhora do Santíssimo Sacramento de Alcântara. Curiosamente, esta comunidade ainda se mantém no local.

Dispensário Rainha D. Amélia (ou de Alcântara) |c. 1949|
Rua Tenente Valadim, (ste troço está hoje integrado na Av. Infante Santo) no cruzamento com a Rua do Sacramento A Alcântara e Calçada Pampulha: abertura Av. Infante Santo, rasgada no final da década de 1940.
Judah Benoliel, in Lisboa de Antigamente

O edifício designado como "Dispensário de Alcântara" ou "Dispensário Rainha D. Amélia", localiza-se num gaveto entre a Avenida Infante Santo e a Rua Tenente Valadim. Trata-se de uma construção mista de ferro e alvenaria de pedra construída de raiz nos finais do século XIX (1893) apresentando uma planta quadrangular em torno de um pátio central iluminado por claraboia em vidro. No exterior, pintado a ocre, rasgam-se diversos janelões dispostos ao alto, quer simples quer duplos, rematados superiormente por vergas que se prolongam nas ombreiras. Uma moldura saliente seguida de platibanda marca todo o perímetro superior das fachadas.
De destacar a presença de um soco em pedra bujardada onde, na secção inferior, se abrem pequenas janelas rectangulares que na fachada defronte à Avenida são de diminutas dimensões mas na Rua Tenente Valadim assumem uma maior expressão apresentando vergas em arco. Ainda na fachada principal, virada à Avenida, surge uma porta destacada ao centro com arco de volta inteira inserida num pórtico em arco abatido sobre o qual se inscreve a designação do edifício. Nesta fachada observam-se também dois corpos laterais salientes, tipo torreão, coroados por frontões onde se inscrevem janelões semicirculares.

Dispensário Rainha D. Amélia (ou de Alcântara) |190-|
Rua Tenente Valadim, (este troço está hoje integrado na Av. Infante Santo)
Paulo Guedes, in Lisboa de Antigamente

No interior a compartimentação é feita através de paredes de alvenaria e tabique apresentando lambris de azulejo alusivos às funções de cada espaço. No quadrante Oeste o pavilhão prolonga-se apresentando, ao nível do piso superior, um terraço virado ao Tejo onde os doentes iam igualmente para usufruir dos bons ares.
Trata-se assim de um imóvel de relevante interesse patrimonial onde a configuração arquitectónica se adequa exemplarmente às funções — cuidados de saúde — algo que na época era bastante inovador.
Infelizmente hoje o edifício encontra-se em avançado estado de degradação não se sabendo ainda qual será o seu destino. [DGCP]

Sunday, 19 April 2026

O Sítio de Alcântara

Dizer Alcântara na toponímia lisboeta é, só por si, compor um quadro de movimento e de febril agitação bairrista — recorda Norberto de Araújo, o grande enamorado de Lisboa. Alcântara foi um lugar, um sítio; é um bairro, uma zona com individualidade e consciência. Tudo gira em Alcântara: fábricas, oficinas, linhas, ruas — vidas.
O que em Alfama é estático é, em Alcântara dinâmico. Este bairro tem azougue.
O seu pitoresco é de cosmograma. Não existe neste rincão da Cidade nada de contemplativo. Apenas nas Necessidades, com seu jardim, com seu obelisco, com o seu palácio e na sua tapada — mora o repouso. Persiste ali um pedaço de beleza e gracilidade de miradouro. É a mancha aristocrática e requintada do bairro. 

Praça General Domingos de Oliveira |1965|
Antigo Largo de Alcântara 
À dir. destaca-se o prédio setecentista — pombalino e altaneiro — referido mais à frente por Norberto Araújo,   
Artur I. Bastos, in Lisboa de Antigamente
Praça General Domingos de Oliveira |1965|
Remodelação da Rotunda de Alcântara, devido à construção do acesso à ponte sobre o Rio Tejo; à dir. observa-se o antigo Eden Cinema
Artur I. Bastos, in Lisboa de Antigamente

Alcântara urbanizada não leva duzentos anos: de arrabalde fez-se cidade em fins de setecentos. Mas é lisboeta de casco e sumo. Rescende alguma coisa de um passado evocativo. Já lá não está a ponte de Alcântara com S. João Nepomuceno. Mas o Prior do Crato resiste no letreiro da artéria principal do bairro. Do tempo velho ficaram e falam deliciosas legendas: Baluarte, Trabuqueta, o Arco, as Fontainhas, a Triste-Feia; a Horta Navia — saudade de Alcântara quinhentista, o Fiúza — reminiscência de Alcântara palaciana, o Sacramento — evocação de Alcântara conventual.
Foram-se os marinheiros rude golpe no coração do bairro! — ; ficou a Praça da Armada com seu Neptuno de tridente no Chafariz. O risonho vale de Alcântara vai-se sumindo, mas nas lombas do Alvito e da Cruz das Oliveiras demora-se a expressão popular campesina que ficou do rústico antigo.
O prédio setecentista cor-de-rosa da quina poente-sul do Largo — pombalino e altaneiro — é com a sua famosa adega do «Sete-e-Sete» — o padrão bairrista de Alcântara [vd. 1.º imagem à dir.]: cinco gerações o contemplaram — sequiosas.
Pequeno mundo alfacinha, vizinho do Calvário, da Pampulha, da Avenida da India — desentranha-se em vida. É o pregão cantante do trabalho. Contido entre a Serra e Tejo, possui a índole atávica de um poeta, a alma rude, nostálgica de um mareante.==

Praça General Domingos de Oliveira |1966|
Vista tomada da R. da Quinta do Jacinto — onde brincam os ganapos. Ao fundo nota-se o pináculo da torre sineira do Palácio das Necessidades.
Artur I. Bastos, in Lisboa de Antigamente
Praça General Domingos de Oliveira |1966|
Rua de Alcântara (esq-) e acesso à ponte sobre o Rio Tejo.
Artur I. Bastos, in Lisboa de Antigamente

N.B. A edilidade lisboeta, através  edital de 18/08/1966, presta homenagem ao General Domingos de Oliveira atribuindo o seu nome a um arruamento da cidade. [1943-1974 - Actas da Comissão Municipal de Toponímia de Lisboa]
Domingos Augusto Alves da Costa Oliveira (1873–1957) foi presidente do Conselho de Ministros em 1920, ministro interino da Justiça, membro vitalício do Conselho de Estado (1949) e oficial-general do Exército. A sua carreira reúne inúmeros louvores e condecorações, incluindo a Grã-Cruz da Ordem Militar de Avis e a da Ordem Militar da Torre e Espada.

Fotografia aérea da zona industrial de Alcântara |1950-04|
Caminho de ferro; Palácio das Necessidades; Estação de Alcântara-Terra e Mercado de AlcântaraVale de Alcântara...
Garcia Nunes, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Legendas de Lisboa, pp. 142-143, 1943.
idem, Peregrinações em Lisboa, vol. IX, 1939.
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