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Wednesday, 16 August 2017

Travessa do Cidadão João Gonçalves

O edital da CML, datado de 14 de Outubro de 1915, substituiu vários topónimos anteriores à República. O único topónimo atribuído a um arruamento novo foi o da Travessa do Cidadão João Gonçalves, atribuído “à parte da Rua Antero de Quental, entre a Rua dos Anjos e a Avenida Almirante Reis”. Rocha Martins refere-se à origem que deste curioso dístico na sua obra Lisboa de ontem e de hoje, publicada em 1945:

Existe na antiga Rua dos Anjos, uma travessa que tinha, outrora, a mesma designação da via e passou a chamar-se do Cidadão João Gonçalves quando se proclamou o novo regime. Várias vezes me tem perguntado, alguns leitores, porque se fez aquela mudança e quem era aquele cidadão, que mereceu as atenções dos edis. 

Travessa do Cidadão João Gonçalves com a Rua dos Anjos |1907|
Troço compreendido entre o
Largo do Intendente e a Avenida Almirante Reis
Machado & Souza, in Lisboa de Antigamente

Era um desses prestantes e activos obreiros que lutavam pela proclamação do seu ideal, que devia ser de paz e de fraternidade no entender dos obscuros combatentes. Foi presidente do Centro Eleitoral Republicano, das freguesias dos Anjos e S. Jorge, instalado na Rua dos Anjos, 162, 1.º, no ano de 1890. Possuía um estabelecimento de víveres na Calçada de Agostinho de Carvalho, em cuja tabuleta se lia: Mercearia do cidadão João Gonçalves. No carimbos dos pagamentos também marcava aquela dignidade cívica.
Tem pois justificação aquele nome dado à travessa.==
Nota(s): O Cidadão João Gonçalves morreu pouco antes da implantação da república.

Travessa do Cidadão João Gonçalves |1907|
Ao fundo, à esq., a Rua dos Anjos; em frente, a Tv. do Maldonado;
à dir., o começo do Largo do Intendente
Alberto Carlos Lima, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
MARTINS, Rocha, Lisboa de ontem e de hoje: as colinas da cidade, pp. 30-31, 1945.
cm-lisboa.

Wednesday, 5 December 2018

Avenida Almirante Reis com a Travessa do Cidadão João Gonçalves

João Gonçalves, merceeiro de profissão, contribuiu notavelmente para a causa da educação das classes operárias, ao subsidiar generosamente várias escolas primárias da capital.
Foi um fervoroso republicano, um notável orador, e envolveu-se com afinco na organização de associações de classe. Fundou os centros eleitorais republicanos dos Anjos e de S. Jorge de Arroios. Morreu pouco antes da implantação da república.

Avenida Almirante Reis com a Travessa do Cidadão João Gonçalves |Início séc. XX|
Troço da Rua Antero de Quental compreendido entre a Rua dos Anjos e a Avenida Almirante Reis
Estabelecimento União Metalúrgica
Alberto Carlos Lima, in Lisboa de Antigamente

João Gonçalves assinava todos os documentos comerciais como Cidadão João Gonçalves, daí resultando o topónimo.

Avenida Almirante Reis com a Travessa do Cidadão João Gonçalves |Início séc. XX|
Troço da Rua Antero de Quental compreendido entre a Rua dos Anjos e a Avenida Almirante Reis
Estabelecimento União Metalúrgica
Alberto Carlos Lima, in Lisboa de Antigamente

Sunday, 26 September 2021

Rua de Barros Queirós

Era a antiga Travessa de São Domingos, passou a designar-se Rua de Barros Queirós em homenagem a "Tomé José de Barros Queirós". A atribuição deste topónimo foi ainda acrescentada com uma legenda de «Ilustre cidadão, vereador da 1ª Câmara Municipal Republicana de Lisboa – 1926».

No Edital de 21 de Junho de 1926 pode ler-se: “[...] o Senado Municipal, em sessão de 7 de Junho corrente, prestando homenagem á grande figura republicana que foi Tomé José de Barros Queiroz, um dos mais ilustres propagandistas da Republica, trabalhando e lutando por ela e prestando relevantes serviços á cidade, quando vereador, resolveu dar á travessa de S. Domingos a seguinte denominação: Rua Barros Queiroz / Ilustre Cidadão, Vereador da 1ª Câmara Municipal Republicana de Lisboa – 1926”.

Rua de Barros Queiroz |1908|
Antiga Travessa de São Domingos
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

A justificação possível da alteração do topónimo Travessa de São Domingos para Rua de Barros Queirós reside no propósito – que se verificou durante o período da 1ª República – de acabar com a influência que a religião e a monarquia tinham na vida quotidiana e profissional das pessoas. O novo regime alterou a denominação das ruas, praças, largos, instituições e edifícios por outros conotados com a República.
Ainda, e por parecer da Comissão Municipal de Toponímia, em reunião de 19/05/1950, foram suprimidos os dizeres "Ilustre Cidadão – Vereador da 1ª Câmara Municipal de Lisboa – 1926" dos letreiros toponímicos e acrescentada a partícula “de”.

Rua de Barros Queiroz |1944|
Antiga Travessa de São Domingos
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

N. B. Tomé José de Barros Queiroz nasceu em Ílhavo a 2 de Fevereiro de 1872 e faleceu a 5 de Maio de 1926 em Lisboa.
Foi aprendiz de oficina, marçano e caixeiro e, pelo empenho e esforço chegou a comerciante de candeeiros no Largo de S. Domingos; político do período da Primeira República Portuguesa que, entre outras funções, exerceu os cargos de deputado, Ministro das Finanças, Ministro da Instrução Pública e Presidente do Conselho de Ministros. Foi membro da Maçonaria, na loja "Acácia". [cm-lisboa-pt; ANTT]

Rua de Barros Queiroz |1940|
Antiga Travessa de São Domingos; Igreja de São Domingos, abside; Rua da Palma.
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Sunday, 21 June 2026

Rua de Barros Queirós que foi Tv. de S. Domingos

Sobre o sítio de S. Domingos refere Norberto de Araújo o seguinte:
S. Domingos — Dilecto — é uma crónica viva de Lisboa, com as suas imediações da Praça da Figueira, com o seu trânsito obrigatório, pela Rua Barros Queiroz e Calçada do Garcia, formigueiros de gente, que desce dos Anjos, dos bairros novos, ou de Sant'Ana velha. [...] [Araújo: 1939]

Rua de Barros Queirós que foi Tv. de S. Domingos (até 1926) |1970|
Na direcção do Largo de S. Domingos.
Armando Serôdio, in Lisboa de Antigamente

A antiga Travessa de S. Domingos é actual Rua de Barros Queirós, em homenagem a "Tomé José de Barros Queiroz" — como refere Velloso no seu utilíssimo livrinho sobre as ruas de Lisboa:
Domingos (travessa nova de S.) primeira á esquerda na rua nova do Amparo, indo da rua do Amparo e finda na rua nova de S. Domingos, freguezia de Santa Justa 2 a 56 e 1 a 69. [Velloso: 1869]

A este topónimo foi inicialmente acrescentada a legenda «Ilustre cidadão, vereador da 1ª Câmara Municipal Republicana de Lisboa - 1926». Mais tarde, por parecer da Comissão Municipal de Toponímia em reunião de 19/05/1950, retiraram-se dos letreiros as palavras “Ilustre Cidadão – Vereador da 1ª Câmara Municipal de Lisboa – 1926” e acrescentou-se a partícula “de”.

Rua de Barros Queirós que foi Tv. de S. Domingos (até 1926) |1970|
Perspectiva tomada da R. Dom Duarte com a R. da Palma.
Armando Serôdio, in Lisboa de Antigamente

Sunday, 29 September 2024

Igreja de São Domingos

S. Domingos — Dilecto — é uma crónica viva de Lisboa, com as suas imediações da Praça da Figueira, com o seu trânsito obrigatório, pela Rua Barros Queiroz e Calçada do Garcia, formigueiros de gente, que desce dos Anjos, dos bairros novos, ou de Sant'Ana velha. [...]

Junto do templo dominicano, assentava, crê-se que já antes de se erguer o Convento, a pequenina ermida de N. Senhora da Purificação, da Escada, de grande nomeada na Lisboa velha; o seu lugar era onde está a Casa de Candeeiros, que foi de Tomé de Barros Queiroz, bom cidadão de Lisboa (...)»

Igreja de São Domingos [c. 1910]
Rua Barros Queirós; Largo de S. DomingosGinjinha do Rossio
A velha Igreja de São Domingos ficava junto à ermida de Nossa Senhora da Escada, também conhecida por Nossa Senhora da Corredoura, por ficar próximo do sítio deste nome, actualmente a Rua das Portas de Santo Antão, e cuja construção datava dos princípios da monarquia.
Alberto Carlos Lima, in Lisboa de Antigamente

Tendo sido lançada a primeira pedra no ano de 1241, e alvo de sucessivas e diferentes campanhas de obras que lhe foram alterando e adicionando a traça primitiva, data de 1748 a reforma efectuada na capela-mor pelo arqº Ludovice, acabando por ser a única zona do templo poupada ao terramoto de 1755. Seguidamente, a igreja foi reconstruída por Manuel Caetano de Sousa, que reaproveitou o portal e a sacada sobrejacente pertencentes à Capela-Real do Paço da Ribeira.
Em termos formais, esta Igreja conventual denuncia uma arquitectura barroca, de planta em cruz latina. Enquanto que exteriormente é caracterizada pelas suas linhas simples, o interior ainda revela alguma da sua notória riqueza ecléctica. Assim, serão dignos de realce, não apenas o aspecto grandioso de todo o espaço interior, como os próprios mármores e pinturas, infelizmente hoje desaparecidos.

Era notável a sua riqueza em alfaias preciosas, havendo uma imagem de prata maciça, que saía em procissão num andor do mesmo metal, alumiada por lâmpadas também de prata. As pinturas dos altares, os paramentos, os tesouros, tudo desapareceu durante o terramoto de 1755, salvando-se unicamente a sacristia e a capela-mor, mandada fazer por D. João V e riscada pelo arquitecto João Frederico Ludovice, em 1748 - homem que projectou o colossal Convento de Mafra. A capela-mor, toda de mármore negro, e em cujas colunas se vêem, junto à base, medalhões delicadamente cinzelados, que também avultam sobre os nichos laterais.
 
Igreja de São Domingos |Inicio séc. XX|
Perspectiva longitudinal do interior da Igreja
A Capela-mor, edificada em 1748 por Ludovice e acabada por João António de Pádua é rematada
por um arco de volta perfeita que marca a outra extremidade da abóbada de berço e possui quatro
grandes colunas sem capitel que delimitam o receptáculo do Sacrário com porta de bronze. O conjunto
é rematado por formação escultórica ladeando o registo central, duas mísulas com as estátuas de
S. Domingos e S. Francisco. Nas paredes laterais, janelas ao nível do grupo escultórico superior.
José A. Bárcia, in Lisboa de Antigamente

Em 13 de Agosto de 1959, um violento incêndio destruiu por completo a decoração interior da igreja, onde constavam altares em talha dourada, imagens valiosas e pinturas de Pedro Alexandrino de Carvalho. A igreja recebeu obras e reabriu ao público em 1994, sem esconder as marcas do incêndio, como as colunas rachadas. Ainda que destruída, é uma igreja que sobressai pela policromia dos seus mármores. 
Actualmente é a igreja paroquial da freguesia de Santa Justa e Santa Rufina, em plena Baixa Pombalina e foi classificada como Monumento Nacional. Expõe metade do lenço usado por Lúcia no dia 13 de Outubro de 1917 (a outra metade encontra-se no Santuário de Nossa Senhora de Fátima, em Fátima) e ainda o terço usado por Jacinta Marto no mesmo dia.

Igreja de São Domingos, abside e torre sineira |c. 1950|
Rua Dom Duarte cruzamento com a Rua da Palma  e Rua Barros Queirós
Numa passagem para a sacristia, com entrada pela Rua da Palma, encontram-se os túmulos do grande pregador dominicano Fr. Luís de Granada (m. 1588) e do reformador da ordem Fr. João de Vasconcelos (m. 1652). Esta igreja tem ainda uma cripta abobadada e dotada de lambris de azulejos, onde está o túmulo de D. João de Castro, capelão de D. João. 
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa», vol. XII, p. 80, 1939.
CARRIÇO, Hugo Miguel, Informação sobre igrejas de Lisboa, 2017.

Friday, 13 March 2026

Rua Antero de Quental, 6

Imagem anterior à demolição parcial da antiga cerca do Convento do Desterro — que se nota ao fundo — e que durante alguns anos atravancou esta zona, mesmo depois de rasgada a «Avenida «dos Anjos» (depois «de D. Amélia» e actual Alm. Reis).

Topónimo atribuído pela CML, em 1900, ao arruamento que liga o Largo do Intendente com o Largo do Conde de Pombeiro, mais tarde limitado à Av. Almirante Reis quando foi atribuído, em 1915, o topónimo Travessa do Cidadão João Gonçalves ao troço desta rua sito entre a Rua dos Anjos e aquela avenida.

Na direcção da Av. Almirante Reis.
Machado & Souza, in Lisboa de Antigamente

N.B. Antero de Quental (1842-1891), poeta e filósofo. foi um verdadeiro líder intelectual do Realismo em Portugal. Dedicou-se à reflexão dos grandes problemas filosóficos e sociais de seu tempo, contribuindo para a implantação das ideias renovadoras da geração de 1870.

Sunday, 22 May 2022

Palácio do Manteigueiro

Também conhecido como Palácio Condeixa, foi edificado em finais do séc. XVIII (1787). Deve-se ao arquitecto pombalino Manuel Caetano de Sousa o seu plano de construção [Eduardo de Noronha atribui a obra ao arquitecto Altronochi, Milionário. Artista, p.184]. Com uma arquitectura setecentista imponente, o palácio passou de residência a sede da Assembleia Lisbonense (1836) e, actualmente, é ocupado pelo Ministério da Economia.
Leia a agitada história deste celebrado palácio que vale bem a pena.


O Palácio do Manteigueiro, na Rua da Horta Seca à esquina da Rua da Emenda (que foi Travessa do Mel), foi edificado por volta de 1787 por uma curiosa personagem que Lisboa em peso conheceu, um certo Domingos Mendes Dias, transmontano, enriquecido no Brasil com géneros de mercearia, que transitara de aguadeiro a merceeiro, volvido depois em grande negociante de manteigas: daí a alcunha. Este homem — que se não fora a riqueza acumulada não passaria dum ignorado e humilde cidadão, chegou a fidalgo da Casa Real — era de uma sordidez tão engenhosa que fazia servir o jantar dentro de uma gaveta para a fechar rapidamente se alguém aparecesse, levantou, todavia, um palácio maravilhoso com incrível prodigalidade. Foi a sua criação. Morreu deixando toda a fortuna a António Pereira Coutinho, da velha família dos Pereiras Coutinhos, morgado de Vilar de Perdizes, a favor de quem, e querendo mostrar-se de origem fidalga, fizera testamento, com a condição de este se deixar tratar por primo — e o palácio veio a pertencer a João Fletcher, inglês de tanta preponderância na sociedade portuguesa do seu tempo, talvez a partir de 1826, época em que o palácio se transformou num grande centro de reuniões, principalmente da colónia inglesa. Mais tarde, em 1860, passou aos Condes de Condeixa [vd. imagem abaixo]No segundo ano da República habitou neste palácio o Presidente Manuel de Arriaga.

Palácio do Manteigueiro [1970]
Rua da Horta Seca, 13-19; Rua da Emenda, 87-91; possui outro meio de comunicação na Rua das Chagas, onde um portão de ferro, com o n.º 18, abre para um extenso corredor, que liga com o jardim, nas traseiras do edifício, e que servia à criadagem e dava passagem às carruagens.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente
Palácio do Manteigueiro [1970]
Rua da Horta Seca, 13-19; Rua da Emenda, 87-91
 As actuais pedras de armas que coroam a janela de tribuna da entrada do palácio, são da família Condeixa.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Domingos Mendes Dias era considerado um dos maiores capitalistas do seu tempo e deixou uma fortuna que, na data do falecimento, foi avaliada em seis e meio milhões de cruzados, correspondentes a dois mil e seiscentos contos de réis. Apesar disso, até ao fim da sua vida, revelou-se um espírito tacanho, peculiar à sovinice de que deu bastas provas. Vivia com uma preta de avançada idade, que lhe preparava os alimentos, tudo do que havia de mais barato.
Devido ao seu feitio miserável, este estranho milionário chegou a ser preso pela ronda, por se tornar suspeito, uma noite em que transportava às costas a fruta verde que apanhara do chão, numa das suas quintas dos arredores. 
Contava-se que, nas longas noites de Inverno, o seu prazer favorito consistia em «formar cartuchos de cem peças de oiro». Jamais soube tirar do dinheiro o bom partido que ele pode dar, esse ricaço asqueroso, que faleceu nos princípios do século XIX (2), em consequência de um ataque de ladrões, à punhalada, pois que, mesmo nessa emergência, achando os gastos exagerados, implorou do médico que o tratava, que fosse mais comedido nos remédios... Da poupança surgiu a gangrena, que o levou como a qualquer pobre de Cristo.

Palácio do Manteigueiro, fachada principal na fase primitiva [c. 1900]
Rua da Horta Seca, 13-19; Rua da Emenda, 87-91
Primitivamente de um só andar, águas-furtadas e dois pisos térreos, de janelas gradeadas,
que o declive do terreno permitiu edificar, correspondendo a loja e sobre-loja, do lado
da Rua da Emenda, tem hoje três pavimentos superiores.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Contrastando com a sua manifesta avareza, o milionário-«manteigueiro» vivia num ambiente de riqueza. Os interiores do palácio eram de um «luxo asiático», expressão de que se serviu Tinop. As quatro salas (branca, vermelha, verde e amarela), com os tectos pintados por Pedro Alexandrino (1730-1810) e ricas portas de madeira do Brasil, estavam forradas de damasco, recheadas de colgaduras e de «Opulenta mobília». Os espelhos eram de boas chapas de cristal e tanto as molduras como os tremós estavam dourados com «peças d'ouro derretidas». O salão de baile, como a sala de jantar, corriam ao longo da fachada virada à Rua da Horta Seca.

Palácio do Manteigueiro, escada nobre [2020]
Rua da Horta Seca, 13-19; Rua da Emenda, 87-91
Fotógrafo Hélder Carita, Tiago Molarinho, in A Casa Senhorial

A Assembleia Lisbonense — também chamada Assembleia da Horta Seca, considerada durante os catorze anos da sua vigência, o melhor centro da plutocracia e da alta política, que constituíam a nata dos partidários da «Carta» — instalou-se em 1836, no Palácio do Manteigueiro; quando para lá foi, mutilou-o de cima a baixo. Mandou arrancar os tectos de excelente madeira de teca, todas as portas e ombreiras de magnifica madeira do Brasil. e vendeu tudo a ferros-velhos: o estuque igualitário destruiu, de vez, a preciosa concepção do velho Altronochi, arquitecto que ali pusera o melhor da sua arte. Ficou um casarão incaracterístico, de gosto duvidoso, mobilado á feição de Poisignon, com todas as chinesices então muito em moda no boulevard dos Italianos.
Por aqui passou, todavia, o que em Lisboa posava e orientava.

Palácio do Manteigueiro, capela [1966]
Rua da Horta Seca, 13-19; Rua da Emenda, 87-91
Desmontado e guardado no Patriarcado de Lisboa, o oratório do palácio constituía  uma das peças mais elaboradas de todo o programa interior.
Horácio Novais, in Lisboa de Antigamente

No 1.º andar, merece especial referência a linda capela, com rica obra de talha e elegante cúpula, de um só altar, figurando no retábulo a imagem de Nossa Senhora. Não sabemos se é contemporânea das fundações do palácio, ou se teria sido mandada construir pelo visconde de Condeixa. No ano de 1913 instalou-se aqui a sede da Vacuum Oil Company acabando por comprar o edifício em 1920. É esta empresa que realiza as grandes obras do edifício acrescentando um andar nobre ao edifício. Se a morfologia do palácio é assim radicalmente alterada, as escadarias nobres foram preservadas protegendo-se uma estrutura arquitectónica de inequívoco valor estético. Nestas obras é igualmente desarmado o oratório da casa e guardado no Patriarcado de Lisboa.
_________________________________________
Bibliografia
ALMEIDA, Mário de. LISBOA do Romantismo, 1917.
COSTA, Mário, O Palácio do Manteigueiro, in Olisipo, Abril de 1958.
acasasenhorial.org.

Sunday, 15 September 2024

Avenida Almirante Reis, 6

No número 6 da Av. Alm. Reis destaca-se uma fachada de azulejo azul e branco de cariz revivalista evidencia o complexo urbano relacionado com a Fábrica Viúva Lamego que apresenta outras zonas de azulejo de padrão azul e branco e outras ainda com um verde e preto algo islamizante. 

Avenida Almirante Reis, 6 |Inicio séc. XX|
Edifício da Fábrica de Cerâmica Viúva Lamego, fund. em 1849, embelezado com um vistoso revestimento azulejar que abrange a totalidade da fachada.
Alberto Carlos Lima, in Lisboa de Antigamente

Esta fachada é um exemplo típico de uma arquitectura ou melhor de uma decoração do meio do século XIX. Este interessante edifício está classificado como Imóvel de Interesse Público.

Avenida Almirante Reis, 6 |1970-02|
Edifício da Fábrica de Cerâmica Viúva Lamego, fund. em 1849, embelezado com um vistoso revestimento azulejar que abrange a totalidade da fachada. Travessa Cidadão João Gonçalves.
João Goulart, in Lisboa de Antigamente

Sunday, 14 April 2019

De Avenida dos Anjos e Avenida Dona Amélia, a Avenida Almirante Reis

O Barão Haussman o "artista demolidor" (1809-1891) em Paris, o paisagista Humphrey Repton (1752-1818) em conjunto com o arquitecto John Nash (1752-1835) em Londres ou o urbanista Ildefonso Cerdá (1815-1876) em Barcelona, com os seus planos de carácter regulador higienista e de circulação viária, influenciaram arquitectos e projectistas por toda a Europa e América do Norte (Frampton, 1992).

Avenida Almirante Reis |c. 1911|
À dir., no n-º 2-2K, o edifico prémio Valmor de 1908; à esq. vê-se o Hospital do Desterro.
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Assim, em 1903, foi aberta a Avenida dos Anjos e a Avenida Dona Amélia, que viria a ser mais tarde designada por Avenida Almirante Reis. Foram destruídos vários quarteirões nesta área permitindo por outro lado, a construção de novos e mais modernos edifícios o longo da recente e ampla avenida (Unidade Projecto Mouraria, 2009).

Avenida Almirante Reis |c. 1911|
Fotografia original colorida por Fátima Rocha
Joshua Benoliel

Quem no dealbar do século XX, viajasse pela Rua da Palma para norte, na procura da moderna e ampla Avenida Dona Amélia (hoje Almirante Reis), acabava por deparar-se com um beco sem saída. Ali, por alturas do Intendente, onde finda a Rua da Palma e onde deveria começar a tão falada avenida, o passeante acabava por dar com o nariz na parede, literalmente. Mais exactamente, acabava por dar de caras com os muros do hospital do Desterro. Para retomar a avenida era preciso fazer um desvio à direita pelo Largo do Intendente Pina Manique — seguindo a linha do eléctrico — contornar o quarteirão, virar à esquerda na actual Travessa Cidadão João Gonçalves de volta à Almirante Reis. Para melhor compreensão deste inusitado trajecto consulte a carta topográfica (anotada) daquela zona em 1911.

Levantamento da Planta de Lisboa (fragmento |1911|
Legenda (clicar para ampliar):
Azul - Av. Almirante Reis Localização da carroça da foto
Vermelho - Desvio pelo Largo do Intendente
Verde - Hospital do Desterro
 Júlio António Vieira da Silva Pinto, in Lisboa de Antigamente

Avenida Almirante Reis, 2 |post. 1911|
Neste postal pode ver-se a Av. Almirante Reis já rectificada após a demolição parcial do Hospital do Desterro.
Postal ilustrado em fototipia, edição de Faustino Martins
in Lisboa e Fernando

Friday, 25 December 2015

Rua Garrett: Iluminações de Natal

João Baptista da Silva Leitão de Almeida Garrett (1799-1854). Iniciador do Romantismo, refundador do teatro português, criador do lirismo moderno, criador da prosa moderna, jornalista, político, legislador, Garrett é um exemplo de aliança inseparável entre o homem político e o escritor, o cidadão e o poeta. É considerado, por muitos autores, como o escritor português mais completo de todo o século XIX, porquanto nos deixou obras-primas na poesia, no teatro e na prosa, inovando a escrita e a composição em cada um destes géneros literários.

De origem irlandesa, a grafia do seu último apelido «garet» foi por ele próprio alterada na sua assinatura para «garrett» com o objectivo que as pessoas lessem a letra tê para pronunciar correctamente o seu nome como «garrete».

Rua Garrett [1960]
Antiga Rua do Chiado; O topónimo Rua Garrett, no Chiado, foi atribuído no âmbito das Comemorações do tricentenário da morte de Camões em 1880.
Armando Serôdio, in Lisboa de Antigamente

Sunday, 2 February 2025

Avenida Almirante Reis: obras do Metropolitano

Nos primeiros anos do século XX, paralela à antiga Estr. de Sacavém e prolongando para Norte a Rua da Palma, é aberta a Av. Almirante Reis que, na sua primeira fase, terminará junto ao hospital de Arroios, na actual actual Praça do Chile. Rasgada no último período da monarquia. Quantos lisboetas saberão hoje quem foi este Almirante Reis que deu o nome a uma das mais importantes artérias citadinas? Chamava-se Carlos Cândido dos Reis (1852-1910), foi vice-almirante da marinha de marinha de guerra e um dos grandes instigadores e organizadores da revolução de 5 de Outubro de 1910. Construída sobretudo com prédios de rendimento, destinada a uma classe média de cariz republicano, o nome caiu-lhe bem. E ficou.

Avenida Almirante Reis: obras do Metropolitano (Intendente) |1966|
Junto à Tv. Cidadão João Gonçalves com o Castelo encimando a imagem.
Armando Serôdio, in Lisboa de Antigamente

A Avenida tem sofrido alterações diversas. Começou por ser ladeada de árvores, ao gosto da época; só que as necessidades de época (e de todas as épocas afinal; só que as necessidades de trânsito se tornam prioritárias), para ser depois alargada e «modernizada» no início da década de quarenta. No meado do seculo8 XX dá-se inicio à construção do Metropolitano.

Avenida Almirante Reis: obras do Metropolitano |1965-05|
Junto ao antigo Cinema Lys (Roxy) no cruzamento com a Rua dos Anjos.
Artur J. Goulart, in Lisboa de Antigamente

A sociedade Metropolitano de Lisboa, é constituída a 26 de Janeiro de 1948 e tinha como objectivo o estudo técnico e económico, em regime de exclusivo, de um sistema de transportes colectivos fundado no aproveitamento do subsolo da cidade. A concessão para a instalação e exploração do respectivo Serviço Público veio a ser outorgada em 1 de Julho de 1949.
Os trabalhos de construção iniciaram-se em 7 de Agosto de 1955 e, quatro anos depois, em 29 de Dezembro de 1959, o novo sistema de transporte foi inaugurado.
O 1º escalão de construção da rede foi concretizado em fases sucessivas. Assim, em 1963 entra em exploração o troço Restauradores/Rossio, em 1966, o troço Rossio/Anjos e, por último, é completado em 1972 com a ligação Anjos/Alvalade.

Avenida Almirante Reis: obras do Metropolitano (Anjos) |1966|
Junto ao eixo Rua de Angola/Rua Febo Moniz
Armando Serôdio, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ADRAGÃO, José Victor & PINTO, Natália, RASQUILHO, Rui, Lisboa, vol. 2, 1985.
metrolisboa.pt

Wednesday, 25 December 2019

Presépio do Largo do Chiado

João Baptista da Silva Leitão de Almeida Garrett (1799-1854). Iniciador do Romantismo, refundador do teatro português, criador do lirismo moderno, criador da prosa moderna, jornalista, político, legislador, Garrett é um exemplo de aliança inseparável entre o homem político e o escritor, o cidadão e o poeta. É considerado, por muitos autores, como o escritor português mais completo de todo o século XIX, porquanto nos deixou obras-primas na poesia, no teatro e na prosa, inovando a escrita e a composição em cada um destes géneros literários.

Rua Garrett [1966]
Presépio do Largo do Chiado
Armando Serôdio, in Lisboa de Antigamente

De origem irlandesa, a grafia do seu último apelido «garet» foi por ele próprio alterada na sua assinatura para «garrett» com o objectivo que as pessoas lessem a letra tê para pronunciar correctamente o seu nome como «garrete».
A meio do século XIX, ainda o Governo Civil tinha a incumbência da denominação dos arruamentos decidiu este que as Ruas do Chiado e Portas de Santa Catarina passassem a ter a denominação única de Rua do Chiado (Edital de 01/09/1859) e, só passados 21 anos (1880) passou a Rua Garrett.

Rua Garrett [1966]
Presépio do Largo do Chiado
Armando Serôdio, in Lisboa de Antigamente

Sunday, 11 June 2017

Instituto Nacional de Estatística

Construído em 1931, risco do arq.º Pardal Monteiro. Destaca-se o seu salão nobre decorado com dez frescos, da autoria do pintor Henrique Franco representando as quatro estações do ano e algumas actividades económicas tais como a Agricultura, a Pesca, os Têxteis e a Cerâmica e a escadaria principal com vitral de grandes dimensões, em posição horizontal, executado em 1933 no atelier de Ricardo Leone, sob cartão do pintor Abel Manta, Encontram-se ainda, na parte superior da fachada principal do edifício, dois baixos-relevos de Leopoldo de Almeida, representando um a Agricultura e a Demografia e, outro o Comércio e a Indústria.

Edifício-sede do Instituto Nacional de Estatística [1934]
Avenida de António José de Almeida; Avenida do México (esq.); Praça de Londres
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

O imóvel continua a manter a sua primitiva função — sede do Instituto Nacional de Estatística. São atribuições do INE a notação, apuramento, coordenação e difusão de dados estatísticos de interesse geral e comum. O edifício-sede do Instituto Nacional de Estatística (incluindo muros e logradouro) está Em Vias de Classificação.

Edifício-sede do Instituto Nacional de Estatística [post. 1935]
Avenida de António José de Almeida; Avenida do México (esq.)
Ferreira da Cunha, in Lisboa de Antigamente

O topónimo desta artéria, atribuído  pelo Edital de 18 de Julho de 1933 da C.M.L, homenageia António José de Almeida. Na Praça onde convergem a Av. Miguel Bombarda e a Av. António José de Almeida foi edificado o monumento ao antigo Presidente da República, segundo projecto do arq. Pardal Monteiro e esculpido por Leopoldo de Almeida, inaugurado a 31 de Dezembro de 1937, por iniciativa do Governo. De composição simples, é constituído pela figura do médico, escritor, jornalista e político, António José de Almeida, de pé, esculpida em bronze, sobressaindo do monumento a figura da República, esculpida em pedra. É junto dele que no dia 5 de Outubro se costuma prestar homenagem aos heróis da implantação da República. A face principal do monumento apresenta a seguinte legenda: "António José de Almeida, ardente tribuno, patriota perfeito, cidadão exemplar - Presidente da República 19919-1923. - 17-7-1866. - 31-10-1929"
Por sua vez, a face posterior do mesmo exibe legendas com frases históricas do Dr. António José de Almeida, como propagandista republicano (1906), como Ministro do Interior do Governo Provisório (1910) e como Presidente da República (1921)

Monumento a António José de Almeida [post. 1934]
Avenida de António José de Almeida; Avenida do México (esq.)

Em último plano o Instituto Superior Técnico
António Passaporte, in Lisboa de Antigamente

Friday, 5 July 2024

Rua Garrett, antiga do Chiado

O topónimo Rua Garrett, foi atribuído no âmbito das Comemorações do tricentenário da morte de Camões em 1880 à velhinha Rua do Chiado.

João Baptista da Silva Leitão de Almeida Garrett (1799-1854). Iniciador do Romantismo, refundador do teatro português, criador do lirismo moderno, criador da prosa moderna, jornalista, político, legislador, Garrett é um exemplo de aliança inseparável entre o homem político e o escritor, o cidadão e o poeta. É considerado, por muitos autores, como o escritor português mais completo de todo o século XIX, porquanto nos deixou obras-primas na poesia, no teatro e na prosa, inovando a escrita e a composição em cada um destes géneros literários.

Rua Garrett, antiga do Chiado |1926-09-09|
Lojas na esquina da Cç. do Sacramento: Ao Último Figurino fund. 1910; a Antiga Casa José Alexandre fund. 1840; ao fundo os Armazéns do Chiado fund. 1894.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente
Legenda no arquivo: «Bando precatório a favor das vítimas do terramoto no Faial»

De origem irlandesa, a grafia do seu último apelido «garet» foi por ele próprio alterada na sua assinatura para «garrett» com o objectivo que as pessoas lessem a letra tê para pronunciar correctamente o seu nome como «garrete».

Rua Garrett, antiga do Chiado |1951|
Na imagem merecem destaque a antiga Tabacaria Estrela Polar , o Café Chiado à dir,  a Basílica dos Mártires e, encimando a foto, a Igreja de Encarnação.
Mário Novais, in Lisboa de Antigamente

Thursday, 11 February 2016

Largo de S. Domingos: Casa de Candeeiros José D'Oliveira & Barros

Sobre o sítio de S. Domingos refere Norberto de Araújo o seguinte: 
S. Domingos  — Dilecto — é uma crónica viva de Lisboa, com as suas imediações da Praça da Figueira, com o seu trânsito obrigatório, pela Rua [de] Barros Queiroz e Calçada do Garcia, formigueiros de gente, que desce dos Anjos, dos bairros novos, ou de Sant'Ana velha. [...]

Casa de Candeeiros José D'Oliveira & Barros [1909]
Rua Barros Queirós; Largo de S. Domingos; Igreja de São DomingosGinjinha do Rossio
Procissão de Nossa Senhora da Saúde entrando na igreja de São Domingos.
Anselmo Franco, in Lisboa de Antigamente

Junto do templo dominicano, assentava, crê-se que já antes de se erguer o Convento, a pequenina ermida de N. Senhora da Purificação, ou da Escada, de grande nomeada na Lisboa velha; o seu lugar era onde está a Casa de Candeeiros, que foi de Tomé de Barros Queiroz, bom cidadão de Lisboa, e que em 1890 a tomou a Manuel Joaquim de Oliveira, fundador dela em 1870. ==
(ARAÚJO, Norberto de, «Peregrinações em Lisboa»,  vol. XII, p. 80, 1939)

Casa de Candeeiros José D'Oliveira & Barros [c. 1910]
Largo de S. Domingos; Igreja de São Domingos (video)
Alberto Carlos Lima, in Lisboa de Antigamente
 
N.B. O topónimo devia ser mais conhecido como sítio de São Domingos já que nas plantas feitas após a remodelação paroquial de 1770, é referida uma «rua de trás de S. Domingos» na freguesia de Stª Justa e Rufina.

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