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domingo, 6 de agosto de 2017

A Bemposta: o Paço da Rainha

Eis-nos, Dilecto, deante do Paço da Bemposta. Observa-me a fachada desta casa paçã e palaciana; tem um certo ar mais aristocrático que fidalgo, mas, no seu conjunto, oferece um indiscutível interesse de arquitectura civil, com indicações puras seiscentistas na frontaria.


   Duas noticias te dou já: o adro, com sua escadaria, nem sempre foi como agora se apresenta; era mais avançado, e a sua redução ao espaço e configuração actuais datam de 1860. Quanto ao sítio, onde estamos, êle constituía um pátio do Palácio, fechado nos topos, com muros, onde rasgavam arcos ou portões, mas por onde aliás se fazia passagem pública, e demolidos em 1849.
    Foi aqui que uma Rainha, fatigada de pousadas estranhas, se recolheu um belo dia do ano de 1702. D. Catarina de Bragança regressara ao seu país em 1693, trazendo havia já oito anos sobre a sua cabeça, cortida por desgostos e resignações, o véu da viuvez que Carlos II de Inglaterra lhe legara. Filha e irmã de reis — porque não ter na sua pátria casa sua? Um paço próprio?

Capela e Paço Real da Bemposta [c. 1910]
Paço da Rainha; ao fundo,
a Penha de França
 Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

    D. Catarina, fiiha de D. João IV, que casara com Carlos II de Inglaterra — a que levou aos ingleses Tânger e Bombaim — enviuvara em 1685 e aborrecida da côrte de Inglaterra, voltou a Portugal em 1693, habitando sucessivamente os Paços Reais do Calvário, o Palácio dos Condes do Redondo, em Santa Marta, os do Conde de Soure, no Bairro Alto, os dos Condes de Âveiras, em Be1ém. E acabou por resolver — construir casa sua.
   Achamos que fêz muito bem.
   Entrou a Rainha a comprar terrenos a quantos proprietários, que por aqui desfrutavam quintas, hortas e azinhagas, os punham à disposição real. Do Matadouro [actual Praça José Fontana], Estefânia, Gomes Freire, Santa Bárbara e Bemposta de hoje — tudo passou a D. Catarina, que começou a erguer a sua casa neste lugar do Campo da Bemposta em 1694, e já nela habitava em 1702, ainda o edifício não estava concluído. A Carreira dos Cavalos [actual Rua Gomes Freire], ficava-lhe a Norte, acompanhando cêrca e jardins. O Paço não seria sumptuoso, mas merecer cuidados à viúva de Carlos II, que conhecia castelos e palácios de Inglaterra; a Capela, sobretudo, foi enriquecida de obras de arte, algumas trazidas na sua bagagem de rainha-viúva.

Capela e Paço Real da Bemposta [c. 1900]
Paço da Rainha, 31; portas brasonadas com as armas da Rainha D. Catarina de Bragança; entre as duas ergue-se, desde 2002, um busto em bronze da Rainha assente sobre pedestal em pedra, obra da autoria do escultor britânico Tim Fargher, foi oferecida à cidade de Lisboa pela British Historical Society of Portugal, por ocasião da visita da rainha Isabel II a Portugal.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

   Morreu D. Catarina em 1705, e a propriedade passou a seu irmão D. Pedro II, que só lhe sobreviveu um ano. O Paço tornado bem da Corôa foi por D. João V, em1707, doado à Casa do Infantado, tomando dele posse o Infante D. Francisco, falecido em 1752, e passando então a Bemposta para D. Pedro, irmão daquele, depois D. Pedro III. Veio o Terramoto. O Paço da Rainha ou Paço da Bemposta, como indistintamente era conhecido, sofreu bastante; a Capela, que era da invocação de Jesus Maria José, foi quási completamente arruinada. A Casa do Infantado, muito rica, reedificou o Paço com certa largueza, modificando:se sensivelmente a sua aparência. A Bemposta, abandonada, em certos períodos, já antes vinha reclamando obras.

Capela e Paço Real da Bemposta [1863]
Largo do Paço da Rainha
Gravura, in Archivo pittoresco

   Beneficiado o Paço, pôde vir habitá-lo D. Joáo VI, quando regressou do Brasil (1821). Foi aqui que se desenrolou parte das cenas da famosa «Abrilada», em 30 de Abril de 1824, conjura à frente da qual se colocou o irrequieto Infante D. Miguel, e que se malogrou pela intervenção do corpo diplomático, animado pelo embaixador de Luiz XVIII, o Barão Hyde de Neuville.
   (Neuville foi distinguido, logo quinze dias depois, com o título de Conde da Bemposta; um sobrinho de Neuville, que serviu D. Pedro IV nas lutas liberais e casou com uma dama portuguesa, da Casa Subserra, foi, depois, por D. María II, feito Marquês da Bemposta, e o título perdurou em três vidas, extinguindo-se na Casa Rio Maior).
   Depois de D. João VI viveram aqui D. Miguel (1828) e D. Pedro IV (1833). Em 1834 a Casa do Infantado foi abolida, e a Bemposta passou para a Corôa, rras D. Maria II apressou-se a doá-la ao Estado, quere dizer: à Nação.
   Eis porque eu te dizia que por ter comprado e feito, a Bemposta, andou bem a rainha D. Catarina de Bragança. Os ermos povoararn-se, o sítio animou-se, e a Nação ficou com mais um palácio útil.

Capela e Paço Real da Bemposta [c. 1910]
Largo do Paço da Rainha, 31 

Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Não podíamos, Dilecto, fugir a esta divagação, e pena tenho eu — de que tu talvez comparticipes — de não te poder resumir certas cenas da «Abrilada» descritas para França pelo próprio Embaixador Barão de Neuville em relatórios ao seu Ministro dos Negócios Estrangeiros, que era, nem mais nem menos, o grande escritor René de Chateaubriand, e pela Embaixatriz, Maria Roger de Neuville, num diário íntimo. Mas dêsses papéis se apura, e eis o que nos interessa, que êste sítio há cem anos era descampado e, de noite, «lúgubre e medonho».

Ele — o Paço — era a testa coroada de Sant'Ana toda. Perto, campo de ciganos, a Carreira dos Cavalos, o solar dos Mitelos de Meneses, nascidos em Santo Estêvão de Alfama.

Hoje — e desde 1851, por mercê de D. Maria II — é a Escola do Exército [actual Academia Militar]. A frontaria, de linhas aristocráticas da arquitectura de setecentos — eis tudo. Tudo e a Bemposta, a mais linda designação de Lisboa de há duzentos anos.


E fez o Paço Real da Bemposta [risco do arq.º João Antunes], um dos mais lindos espaldares arquitectónicos de Lisboa.
É vê-lo no seu alçado setecentista, recomposto depois do Terramoto [arq. Manuel Caetano de Sousa]. Na sua varanda nobre, no seu pórtico de capela real, no seu duplo escadório decorativo, cortinado de acrotérios. 
É senti-lo na evocação opulenta da Casa do Infantado, nas sombras do Infante D. Francisco, de D. João VI, do irrequieto Infante D. Miguel, que chegou a ser por algumas horas dono de Lisboa, mas que não sabia bem o que queria. 

Capela do Paço Real da Bemposta [c. 1910] 
Paço da Rainha
Na fachada imponente destaca-se o coroamento de platibanda e balaústres, pelo
remate com frontão triangular, decorado no tímpano, encimado por cruz sobre plinto,
e pela varanda central, de balaustrada contracurvada, para a qual se abrem três janelões,
sendo o central rematado por frontão tripartido ostentando as armas reais.
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

No interior a Capela organiza-se dentro de um rectângulo de ângulos arredondados, a nave, com seis capelas laterais, constituindo a do Santíssimo Sacramento [vd. foto abaixo (dir)], pela sua profundidade, uma unidade espacial autónoma, à qual se justapõe a capela-mor. O programa decorativo é inspirado na obra prima do barroco joanino, a Capela de S. João Baptista, da Igreja de S. Roque, mas atribuindo-lhe já um certo gosto rococó tardio, que se abre a manifestações neoclássicas. Merecem, ainda, destaque as pinturas em «trompe l'oeil» de Pedro Alexandrino de Carvalho e a tela do altar-mor, figurando a padroeira (N. S. da Conceição, vd. foto abaixo à esq), atribuída ao pintor italiano José Troni, sob a qual foi colocado um friso de retratos de elementos da família real.
A Capela está classificada como Monumento Nacional. O Paço Real da Bemposta integra a classificação do Campo dos Mártires da Pátria como Imóvel de Interesse Público.

Capela do Paço Real da Bemposta, nave, capela e altar-mor (esq) e Capela do Santíssimo, retábulo [1790-95] (dir) [c. 1962] 
Paço da Rainha
Robert Chester Smith, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. IV, pp. 47-48, 1938.
id., Legendas de Lisboa, p. 87, 1943.
Archivo pittoresco: semanario illustrado - Vol. 6, 1863.

sexta-feira, 14 de junho de 2019

Largo do Mitelo, Paço da Rainha e Pátio do Costa

O Paço da Rainha fica situado entre os Largos do Conde Pombeiro e do Mitelo e a Rua da Escola do Exército tem o Paço de que advém o topónimo, também conhecido como Palácio da Bemposta já que nos séculos XVII e XVIII o sítio era designado por Bemposta Grande.
A Rainha a que o Paço se refere é D. Catarina (1638-1705), filha de D. João IV, que casou com Carlos II de Inglaterra e que ao enviuvar regressou a Portugal em 1693 e acabou por fazer casa no lugar do Campo da Bemposta, em 1649, a qual já habitava em 1702.

Largo do Mitelo e Paço da Rainha |1943|
Do lado esq., junto ao gradeamento, vê-se o Pátio do Costa vulgo «do Gato» seguido da capela do Palácio da Bemposta
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Este topónimo [Paço da Rainha] retomou em 1954 o topónimo mais antigo, fixado seguramente após 1702. No entanto foi denominado Largo da Escola do Exército pelo Edital de 05/11/1910 e depois, pelo Edital de 17/10/1924, passou a designar-se Largo General Pereira de Eça. [cm-lisboa.pt]

Largo do Mitelo, 16 |1900|
Pátio do Costa vulgo «do Gato»
Machado & Souza,in Lisboa de Antigamente

sábado, 29 de julho de 2017

Igreja dos Freires da Conceição Velha ou Conceição Velha (antiga da Misericórdia)

Ora bem, Dilecto — expressão com que habitualmente Norberto de Araújo interpela o leitor — mais tem que ver a Rua dos Bacalhoeiros, em 1755 designada Rua de Cima da Misericórdia, e depois, e até à dos Arameiros, aberta depois do Terramoto, chamada dos Confeiteiros.
E da Misericórdia, porquê? Porque no chão onde se eleva hoje um quarteirão de propriedades sólidas, entre as Ruas dos Bacalhoeiros e da Alfândega, se ergueu no começo do século de quinhentos a Igreja do Recolhimento da Misericórdia.
Pois metamos já por esta transversal da Rua dos Arameiros, e vamos ver o que resta desse templo manuelino, chamando, desde a segunda metade do século XVIII, da Conceição Velha. Quedemo-nos sob o majestoso pórtico. Duas breves notícias de história, que é simples, afinal.
   A instituição das Misericórdias foi obra, como já disse quando passámos pela Sé, e por S. Roque, da Rainha D. Leonor. A primeira Confraria, instalou-se na Capela de N. Senhora da Piedade, vulgo da Terra Sôlta no claustro ogival da Sé, em 15 de Agôsto de 1498.
   Prosperou a Confraria, ou seja a Misericórdia de Lisboa, reconhecendo-se pouco depois que a capela claustral da Sé era mesquinha para sede da instituição. D. Manuel, irmão da Rainha fundadora, viúva de D. João II, projectou, não se sabe ao certo o ano, mas seguramente depois de 1510, erguer neste chão — que era ocupado por vários edifícios públicos, como o Paço do Trigo, a Portagem, o Paço da Madeira — um majestoso templo e Casa para Misericórdia, a obra querida de sua irmã, inspirada por freire Miguel Contreiras.
   Era o tempo opulento da Índia e do Brasil, caracterizado pela sumptuosidade na arquitectura religiosa. A obra — templo, Recolhimento das Orfãs e Casas da Misericórdia — só se concluiu em 1534, tempo de D. João III, já havia falecido (1525) D. Leonor. A Igreja ostentava-se de três naves, sendo a abóbada apoiada ao centro por seis colunas monolíticas (de mármore?) e por mais catorze laterais, pilares de sustentação da cobertura; as casas anexas ocupavam quatro pavimentos.
   Obra notável era, de precioso recheio. Orientada no sentido poente-nascente, a porta principal com seu adro rasgava-se, de começo, para o Largo da Portagem, prolongamento, então da Rua da Padaria; a sua porta travessa, a sul, é hoje o portal desta Conceição Velha (já vou dizer, porque se chama Conceição Velha).

Igreja da Conceição Velha [ant. 1900]
À esquerda, a Rua dos Arameiros em direcção ao Campo das Cebolas
Rua da Alfândega, 112-114 
Augusto Bobone, in Lisboa de Antigamente

   Veio o Terramoto. Aluiu e incendiou tudo. Do templo escaparam este pórtico magnífico, a Capela do Espírito Santo, hoje Capela-mor, e uma ou outra imagem.
   D. José ordenou que se reedificasse a Igreja, mas a Misericórdia andou de empréstimo por aqui e por ali, até que ocupou a Casa dos Jesuítas de S. Roque.
   A nova igreja, já num estilo bastardo da arquitectura religiosa, cujo risco é de Francisco António Ferreira, o «Cangalhas», foi entregue aos freires de Cristo de Nossa Senhora da Conceição, cuja Casa e templo haviam ardido também.
   Aquela Igreja da Conceição [vd. gravura] que ocupava uma antiga sinagoga dos judeus, situava-se próximo à Madalena, caindo sobre a actual Rua dos Fanqueiros junto ao quarteirão cujas traseiras são a Rua dos Douradores; fora N. Senhora da Conceição dada aos freires de Cristo em troca da Ermida do Restelo, derrubada para se erguer os Jerónimos, e chamava-se, por oposição, «a Velha» (paroquial em 1568), porque em 1698 se construíra outra sede paroquial de N. S. da Conceição «Nova» — desaparecida também pelo, Terramoto — e que se localizava onde passa hoje a Rua da Prata, segundo quarteirão do sul, então Rua Nova dos Ferros.
   E como foram os freires da Conceição Velha que para a antiga Misericórdia vieram em 1770, esta Igreja que temos à vista se passou também a chamar da Conceição Velha.
   Falta dizer que nunca estes chãos foram de sinagoga e de judeus, (como anda escrito), ou sítio de uma Vila Nova de Gibraltar, que nunca existiu, versão esta que corre derivada de um dos raros erros do grande Herculano, e que mestre Vieira da Silva teve a felicidade de poder desfazer, sem deixar qualquer espécie de dúvida.
Ficaste sumariamente a par do que isto foi, e como e porque foi.

Vista de Lisboa [1598?-1610?]
(clicar para  ampliar)
Olissippo quae nunc Lisboa, civitas amplissima Lusitaniae ad Tagum, totius orientis... emporium nobilissimum
Autores: Georg Braun, gravador (1542-1622) e Franz Hogenberg, geógrafo (1535-1590)
Esta gravura, colorida à mão e gravada em cobre, faz parte da colecção "Civitates Orbis Terrarum" publicada entre 1572 e 1618. Representa  a cidade de Lisboa com Armas Reais e as Armas de Lisboa ladeando uma rosa dos ventos e com os edifícios e espaços públicos numerados correspondente a uma legenda na parte inferior e superior..

Assinalados no mapa: 
Antiga Igreja da Misericórdia, actual Conceição Velha
Primitiva Igreja da Conceição
Terreiro do Paço, actual Praça do Comércio
Sé Patriarcal de Lisboa

Agora contempla o Pórtico — antiga porta travessa lateral —, obra de peregrinos lavrantes da pedra: ali tens, sobre a porta geminada, dentro do arco, o quadro escultórico, pormenor largo historiado desta bela peça arquitectónica, e que representa N. Senhora da Misericórdia, de manto aberto [sustido por dois anjos], tendo de joelhos, a seus pés, de um lado D. Manuel, D. Leonor, e alguns príncipes, e do outro o Pontífice Leão X, freire Miguel Contreiras — o inspirador das Misericórdias —, e algumas figuras da Igreja. Este quadro admirável esteve retirado deste seu lugar, desde 1818 a 1880, substituído por uma grade iluminante da Igreja, e colocado numa capela da nave, então de N. Senhora das Mercês.

Igreja da Conceição Velha, aguarela [s.d.]
Pórtico de estilo manuelino
Rua da Alfândega, 112-114 
Autor desconhecido, in Lisboa de Antigamente

De cada um dos lados do Pórtico rasga-se uma formosa e decorativa janela, avolumando a beleza deste conjunto plástico, que o frontão alto de remate avilta até à mesquinhez.
Como observas, esta peça solta de arte, encravada entre prédios vulgares do século passado [XIX], é de puro estilo manuelino, do tipo dos pórticos dos Jerónimos, posto que menos grandioso e exuberante.
A-pesar-de, aparte o pórtico, a Conceição Velha não ser famosa, ela merecia mais dilatada visita; se deste templo mais quiseres saber recomendo-te o livro «A Igreja da Conceição Velha», de Filipe Nery de Faria e Silva (1900).

Igreja da Conceição Velha [c. 1940]
Capela de Nossa Senhora do Restelo ou do Parto, quadro
oferecido pelo Infante D. Henrique aos freires.
Rua da Alfândega, 112-114 
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Vejamos agora o templo no seu interior — prossegue o autor das Peregrinações — obra do final de setecentos, cuja torre sineira se encrava em propriedades particulares. (...)
À direita vemos a Capela de N. Senhora do Restelo  [vd. imagem acima], ou do Parto — pela circunstância de a Virgem, sentada numa cadeira (esta de madeira) ter o Menino Jesus nu sobre os joelhos. Esta imagem, em pedra pintada, é o venerando monumento dêste templo, relíquia da imaginária religiosa portuguesa; pertenceu à primitiva Ermida de N. Senhora do Restelo, doada em 1460 pelo Infante D. Henrique aos freires de Cristo, e adveio de Sagres onde o Infante teve sua Casa, sendo por consequência anterior à Ermida, podendo atribuír-se-lhe meio milhar de anos de idade (há receio de se lhe tocar por correr o perigo de se desfazer).
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Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. X, pp. 16-19, 1939.

domingo, 23 de agosto de 2015

Observatório Astronómico do Paço da Bemposta

Também conhecido por posto astronómico e geodésico da escola de guerra, ou simplesmente como era conhecida a torre do relógio, situava-se em frente ao Paço da Bemposta,  ou o palácio da Rainha D. Catarina de Inglaterra, que no século XIX era a antiga escola do exército e da Guerra, hoje Academia Militar.
Esta escola tinha funcionado na Politécnica mas em meados do século XIX foi transferida para este novo espaço e houve a necessidade de se construir um observatório astronómico para se complementarem os estudos científicos dos futuros militares.
 
Paço da Rainha [c. 1910]
Antigo Largo da Escola do Exército, antes Largo General Pereira de Eça
O relógio, cujo grande disco, praticado no lado da torre comum com o alinhamento
da rua, é um belo espécime do nosso século XVIII, trabalhou e trabalha muito bem.
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente
 
De planta quadrada, no seu interior uma escada em caracol dá acesso ao primeiro andar, onde se encontra o relógio e o seu mecanismo, seguindo-se um segundo e terceiro andar e a cúpula onde se faziam as observações astronómicas.
Actualmente inactivo faz parte do património do Exército e mais concretamente da Academia Militar.(exercito.pt)

domingo, 27 de dezembro de 2015

Palácio das Açafatas, ou palácio Centeno

Já agora anota este palacete que se encosta, pelo lado nascente à entrada do jardim do Hospital [dos Capuchos]: é uma construção equilibrada que remonta à época do levantamento do Paço da Rainha, na Bemposta — recorda o ilustre Norberto de Araújo — , e cujas transformações não lhe tiraram o carácter. Foi solar de habitação — segundo tradição, mas sem documentos suficientes a demonstrá-lo — de açafatas da Rainha D. Catarina, e, de sucessão em sucessão, chegou à posse de umas servas das últimas descendentes das primitivas donas. Em 1900 adquiriu o edifício o Sr. Dr. António Centeno, que nele fez algumas obras, mandando erguer uma capela no local interior da casa, onde existira uma primitiva, mas que desaparecera. [Araújo: 1938]


O Palácio das Açafatas, ou Palácio Centeno, foi mandado construir no século XVII pela Rainha D. Catarina de Bragança (1638-1705) para as suas as aias (açafatas) inglesas, que não eram meras criadas, mas sim moças fidalgas, suas confidentes, nas proximidades do que mandou construir para si própria, o Paço da Bemposta (marcando o seu regresso à corte portuguesa em 1693). O Paço conserva pouco mais do que os dois portais, conferindo uma expressão marcadamente seiscentista à frontaria.

Palácio das Açafatas, ou palácio Centeno [c. 1900]
Alameda de Santo António dos Capuchos, 1-5
Machado & Souza, in Lisboa de Antigamente

Pelo contrário, o Palácio das Açafatas encontra-se relativamente bem conservado e apresenta uma noção de escala e gosto característicos do barroco português setecentista (apesar das intervenções nos séculos XIX e XX). Para se entender esta mudança de gosto é importante focar um brevíssimo perfil da encomendadora enquadrado na complexa conjuntura política que ditou o seu casamento com Carlos II de Inglaterra (1630-1685) e posterior regresso a Portugal e considerar os aspectos mais significativos do edifício no contexto da arquitectura áulica [palaciana] Portuguesa do início do século XVIII.

Palácio das Açafatas, ou palácio Centeno [c. 1910]
Alameda de Santo António dos Capuchos, 1-5
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Com o decorrer dos anos, o Palácio sofreu algumas alterações, sendo as mais significativas, as realizadas após a sua aquisição, cerca de 1900, por António Centeno, que então realiza obras, incluindo a construção da capela, donde herdou o nome pelo qual é hoje conhecido — Palácio Centeno.
O seu interior é rico em azulejos do séc. XVIII, considerados como exemplares de grande interesse na história da azulejaria portuguesa. Os tectos da sala nobre são decorados com pinturas de grande delicadeza, de cunho marcadamente novecentista, atribuídos a Bigaglia.

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Chegada a Lisboa de D. Estefânia

«No dia 18 de Maio de 1858, ao despontar da manhã, as salvas das fortalezas da cidade anunciavam ao povo que era aquele o dia destinado para o casamento do seu Rei. A Bartolomeu Dias que transportara a noiva gentil estava à vista, ancorada em frente da Praça do Comércio. O dia mostrava-se formoso: um belo dia de primavera, claro, cheio de luz e de perfumes, como são os de Portugal, em que as rosas e os lírios desabrocham debaixo do firmamento azul. O sol espelhava-se no Tejo sereno; e tudo parecia sorrir para acolher no coração alegre aquela que, em breves horas, viria sentar-se no trono, dignificado por Isabel de Aragão e Filipa de Lencastre.
 
Preparativos no Terreiro do Paço para a recepção de D. Estefânia [18 de Maio de 1858]
Amédée Ternante-Lemaire dit Lemaire de Ternantes, in Lisboa de Antigamente
 
Às 9 horas e 12 minutos, a artilharia anunciava que El-Rei havia saído do Paço das Necessidades, e 8 minutos antes das 10 chegava à Praça do Comércio o cortejo real, seguindo em tudo o programa publicado na folha oficial. O infante D. João, formoso e elegante, comandava o regimento de caçadores a cavalo, que desfilava à frente da guarda de honra composta de toda a força de cavalaria existente em Lisboa e que seguia o coche real.

Recepção a D. Estefânia no Terreiro do Paço) [18 de Maio de 1858]
Amédée Ternante-Lemaire dit Lemaire de Ternantes, in Lisboa de Antigamente

D. Pedro, recebido pela corte que já se encontrava no pavilhão, e pela Câmara Municipal, passou logo a embarcar para a Bartolomeu Dias. O espectáculo era imponente. As músicas dos regimentos, o estrondo da artilharia, os vivas dos marinheiros nas vergas dos navios, os foguetes rebentando no espaço, a agitação e os aplausos frenéticos do povo, tudo convertia aquele acto numa visão grandiosa, como raríssimas vezes se presenceia na vida das nações. Então apareceu a Rainha. Tudo ficou deslumbrado. Vestia de branco, envolta em finíssimas rendas, com ramos de murta e flores de laranjeira. Na cabeça o diadema que o noivo lhe oferecera, produto da arte portuguesa, cujos quatro mil brilhantes irradiavam ao sol, coroando-a de um disco luminoso. A formosura da Rainha, o seu ar natural e meigo, como que afagando a multidão, cativou logo o coração e o amor do povo.

Seguiram para o pavilhão. O rei D. Fernando dava o braço à infanta D. Maria Ana e o infante D. Luís à infanta D. Antónia. O povo não pôde coríter-se e invadiu os três pavilhões: queria participar mais directamente da festa. Queria ver a sua Rainha de mais perto e tão sincera, tão dedicada, tão carinhosa era a sua devoção q.ue nenhuma força o reprimiu.»
(in Archivo Piltoresco, 1858, vol. I, pág. 377-379 e 385-387)

Foto da Família Real Portuguesa [1858]
Da esquerda para direita: Rainha D. Estefânia, Rei D. Pedro V

N.B. Princesa de Hohenzollern-Sigmaringen, e rainha de Portugal, mulher do rei D. Pedro V. O seu nome completo era D. Estefânia Josefina Frederica Guilhermina Antónia. Nasceu em Sigmaringen, Alemanha a 15 de Julho de 1837, e faleceu em Lisboa a 17 de Julho de 1859.

Nota(s): Amédée Ternante-Lemaire (dit Lemaire de Ternantes) nasceu em França, em Chatillon-sur-Seine, provavelmente em 1821 e faleceu em 1900. Conhecido sobretudo como pintor, da escola francesa, os seus quadros encontram-se em muitos museus de França e no Museu do Vaticano. Em 1858, acompanhou a princesa D. Estefânia a Lisboa, tendo anotado com precisão a data a que aportou ao Terreiro do Paço: 18 de Maio, cerca do meio-dia. Durante a sua estadia em Lisboa, fez um extenso levantamento fotográfico da cidade, que imprimiu em provas de papel salgado e albumina.

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Antiga Estação dos Caminhos-de-ferro e Vapores do Sul e Sueste

Embarcámos de manhã cedo para o Barreiro, testa do Caminho de Ferro de Sul e Sueste, na ponte do Terreiro do Paço, em frente do Pavilhão da Marinha. Uma vez em cima das águas, eu, que nunca vira navios, por efeito da transmissão sensorial das gerações, era como se voltasse a encontrar coisas vistas e triviais. 

RIBEIRO, Aquilino (1885-1963), Um Escritor Confessa-se. [c. 1902] 


Antiga Estação dos Caminhos-de-ferro e Vapores do Sul e Sueste [c. 1910]
Praça do Comércio (Terreiro do Paço)
Substituída em 1932 pela actual Estação Sul e Sueste no lado nascente da Praça do Comércio.
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Situada frente ao torreão poente da Praça do Comércio, junto ao Arsenal da Marinha, a «ponte do Terreiro do Paço», então um «barracão assente sobre estacaria que envergonha a capital» conforme inteirava o Guia de Portugal de Raul Proença, era a Estação dos Caminhos-de-Ferro e Vapores do Sul e Sueste (projectada para não ter comboios), da qual partiam os vapores para a estação do Barreiro, para a Aldeia Galega (Montijo) e Seixal.

Antiga Estação dos Caminhos-de-ferro e Vapores do Sul e Sueste [c. 1910]
Praça do Comércio (Terreiro do Paço)
Substituída em 1932 pela actual Estação Sul e Sueste no lado nascente da Praça do Comércio.
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Durante mais de meio século — diz Rodrigues Miguéis — o alfacinha da gema pingou lamentos em frente do barracão que deslustrava a Praça, sala dos passos-perdidos da Europa. Era provisória e durou quase cem anos. Prestou grandes serviços que nunca lhe reconheci. E não é que não tivesse dela boas recordações... Há por esse mundo além muitas e piores fealdades que se encontram servindo, em cidades ricas e orgulhosas: Não importa, aquilo feria-me a sensibilidade ociosa. Odiei-a. Pois bem, inaugurada a estação nova, do lado oposto — mais passeios à noite, considerações urbano-estéticas, lamentos, e tal —, quem-me-acode, que aquilo ofende a melodia geométrica da Praça, a imponência da Alfândega vista do rio, e que sei eu.
MIGUÉIS, José Rodrigues (1901-1980), As Harmonias do «Canelão» - Da Mania das Grandezas, p. 72, 1974

Antiga Estação dos Caminhos-de-ferro e Vapores do Sul e Sueste [ant. 1908]
Praça do Comércio (Terreiro do Paço)
Substituída em 1932 pela actual Estação Sul e Sueste no lado nascente da Praça do Comércio.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Engalanada por diversas ocasiões, pois ela foi átrio de recepção dos mais ilustres visitantes — Eduardo VII, a rainha Alexandra, o Presidente Loubet, o imperador Guilherme II, Afonso XIII, constam da lista dos chefes de Estado que visitaram Lisboa no início do século XX —, a Praça do Comércio foi também palco de tragédias. Foi na ponte dos Vapores do Sul e Sueste que — ás quatro horas e meia da tarde do dia 1 Fevereiro de 1908 — atracou o vapor que do Barreiro conduzia o rei D. Carlos, a rainha D. Amélia e o príncipe real D. Luís Filipe. Estavam a cem passos da morte.
 
Fotografia aérea da Praça do Comércio (e da Baixa Pombalina), que ilustra o posicionamento da antiga Estação dos Caminhos-de-ferro e Vapores do Sul e Sueste (à esq.) e a  Estação Fluvial Sul e Sueste (à dir.) [1932]
Manuel Barros Marques,
in Lisboa de Antigamente

domingo, 28 de maio de 2023

Rua Bartolomeu de Gusmão: o Paço de D. Leonor

E já agora, duas palavrinhas acerca do Paço de D. Leonor, de Santo Elói ou S. Bartolomeu (pois não houve senão lindos Lolós um com duas designações locais). A solução do problema da sua localização — adianta Norberto de Araújo — deu-a o historiador Anselmo Braamcamp Freire, em termos irremissíveis, e ante uma argumentação documentada. Assentava no extremo deste Largo dos Lóios, num triângulo contido pelas antigas e desaparecidas Rua da Amargura, Rua de Jerusalém (que corria ao meio longitudinal do actual Largo) e Adro de S. Bartolomeu. Isto é: a ponta extrema do Paço ou Casas entrava pela actual Rua Bartolomeu de Gusmão (até há pouco de S. Bartolomeu), e que é esta que aqui corre subindo para o Castelo, correspondendo sensivelmente a setecentista Rua Direita das Portas da Alfofa.
Do Paço da Rainha, mulher de D. João II, [o Príncipe Perfeito], a excelsa fundadora das Misericórdias, residência que teve larga história realenga, tocada de certa poesia e envolta em relativa grandeza, que não ostentação  — nada existe.

Rua de São Bartolomeu, actual Bartolomeu de Gusmão |1903|
«Inventor dos Aeróstatos 1675–1724» (legenda de 1911)
Os Paços de D. Leonor eram situados, pouco mais ou menos, no local onde hoje assenta o prédio aqui se vê e que da Rua Bartolomeu de Gusmão esquina para o Largo dos Lóios. 
Machado & Souza, in Lisboa de Antigamente

A Rua de São Bartolomeu passou pelo Edital de 13 de Dezembro de 1911 a denominar-se Rua Bartolomeu de Gusmão, com a legenda «Inventor dos Aeróstatos 1675–1724», em homenagem ao criador da Passarola Voadora, embora mais de 40 anos depois a legenda tenha passado a «Precursor da Aeronáutica 1675–1724» de acordo com o parecer da Comissão Municipal de Toponímia de 24 de Julho de 1958.
Este arruamento homenageia Bartolomeu Lourenço de Gusmão (1685–1724), filho dum modesto cirurgião-mor de presídio, Francisco Lourenço, e de sua mulher, Maria Álvares.
Nascido em Santos, S. Paulo, no Brasil, fez estudos no Seminário jesuíta de Belém, na freguesia de Cachoeira, Capitania da Baía, onde se ordenou. Desde muito cedo se interessou pelo estudo da Física, tendo concebido uma máquina de elevação de água a 100 metros de altura, no Seminário de Belém. Em 1701 veio para Portugal. 

Rua de São Bartolomeu |1903|
«Inventor dos Aeróstatos 1675–1724»
Em 1911, este arruamento passou a denominar-se Bartolomeu de Gusmão (com a legenda acima), antes Direita das Portas da Alfofa.
Machado & Souza, in Lisboa de Antigamente

Quando se matriculou na Faculdade de Cânones de Coimbra, em 1 de Dezembro de 1708, com o nome de Bartolomeu Lourenço, já como sacerdote, desconhecia-se, ainda, a célebre figura em que se tornaria, no ano seguinte, devido ao prodigioso invento de um aeróstato, recebendo, por isso, o epíteto de “padre voador”. Era o primeiro balão de papel que se ergueria no ar, sem fazer grande voo, tendo recebido do Rei D. João V a exclusividade da construção de “máquinas voadoras”. A primeira apresentação pública, feita em Lisboa, no Palácio Real, não teve sucesso e o balão ardeu, sem ter feito qualquer voo. Só numa segunda tentativa, em 8 de Agosto de 1709, se ergueu no ar, em voo de 4 metros de altura. A ”passarola voadora”, de que se conhecem diversos desenhos e gravuras, não seria mais do que um projecto que o engenhoso inventor nunca chegou a construir.

Rua Bartolomeu de Gusmão |1949|
Precursor da Aeronáutica [1685-1724] (legenda de 195-)
Antiga de São Bartolomeu antes Direita das Portas da Alfofa.
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Durante a segunda metade do século XVIII difundiu-se a ideia de que o próprio Bartolomeu de Gusmão teria efectuado um voo num aeróstato por ele construído, entre o Castelo de S. Jorge e o Terreiro do Paço, mas trata-se de uma lenda, não há documentos que registem esse acontecimento e as suas experiências teriam avivado a imaginação popular a tal ponto que ele seria alvo de chacota.
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Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. II, pp. 65-66, 1938.
Olisipo : boletim do Grupo "Amigos de Lisboa", 1948.

quarta-feira, 27 de março de 2019

Miradouro de São Pedro de Alcântara

Varanda dos amores românticos, do tempo em que era alameda — S. Pedro de Alcântara é um dos mais ternos miradouros naturais da cidade. Bem avisada andou a vereação que há pouco mais de um século fez deste cômoro, que fora de olivais, rústico e arrabaldino, — uma esplanada de crianças, um eirado, um jardim, uma alameda.

Sobre as Taipas e o Passeio Público, depois sobre a Avenida — S. Pedro de Alcântara é também um «passeio», suspenso, balouçante entre S. Roque, já sem padres, o Convento do Marialva, já sem arrábidos, e a Patriarcal, que nunca o chegou a ser.

Varanda do Bairro Alto, este Jardim — olha a direito. Que panorama!


Lisboa vista do Jardim de São Pedro de Alcântara [post. 1932]
S. Pedro de Alcântara teve o seu período de moda. Era o «Passeio», a «Alameda», o «Jardim» de S. Pedro de Alcântara, com a sua ingenuidade alfacinha, e o seu traço espiritual de romantismo. Não dava espectáculo, como o Passeio Público, mas era aprazível na sua posição de miradouro.
Estúdio Horácio Novais, in Lisboa de Antigamente

Para nascente e sul, o Castelo, recortado sobre a peanha pintalgada da cidade velha; as torres alvíssimas de S. Vicente espreitando da linha do horizonte, acima do casario; a Graça, generosa, entregando-se toda; S. Gens, minúsculo, pousado no outeiro que cai sobra as Olarias; a Sé, flanqueada de torres, morena, muito severa... Para norte, os altos de Campolide, os retalhos verdes do Parque, ainda rústico aqui e ali, a confusão indistinta das avenidas modernas, e logo a cumeeira de Santana. É uma ondulação cenográfica de encantamento, sobretudo a certas horas de luz dourada, quando o sol se rende, e se despede nas vidraças de mil casas e tugúrios, embrechados nas colinas sagradas de Lisboa do oriente. [...]¹

Miradouro Jardim de São Pedro de Alcântara [entre 1926 e 1932]
Tanque do jardim  de São Pedro de Alcântara, no plano superior da Alameda (que data de 1840), peça elegante que fez parte do Paço da Bemposta ou Paço da Rainha.
António Passaporte, in Lisboa de Antigamente

Tinham entrado em São Pedro de Alcântara — escreve o imortal Eça no seu Primo Basílio; um ar doce circulava entre as árvores mais verdes; o chão compacto, sem pó, tinha ainda uma ligeira humidade; e, apesar do sol vivo, o céu azul parecia leve e muito remoto.[...]
Convidou-a mesmo a dar uma volta em baixo no jardim. [...]
Foram encostar-se às grades. Através dos varões viam, descendo num declive, telhados escuros, intervalos de pátios, cantos de muro com uma ou outra magra verdura de quintal ressequido; depois, no fundo do vale, o Passeio [Público], estendia a sua massa de folhagem prolongada e oblonga, onde a espaços branquejavam pedaços da rua areada.

Miradouro de São Pedro de Alcântara [c. 1920]
No tabuleiro inferior — verdadeiro jardim de crianças, contemplativo e sereno — foram colocados os bustos de mármore que ainda lá se vêem, e que representam homens notáveis de Portugal — o Infante
D. Henrique D. João de Castro, Afonso de Albuquerque, Vasco da Gama, Pedro Alvares Cabral — de mistura com figuras de mitologia e da lenda: Ulisses, Minerva, Vénus [entre outros]
.

Mário Novais,in Lisboa de Antigamente

 

Do lado de lá erguiam-se logo as fachadas inexpressivas da Rua Oriental [do Passeio Público], recebendo uma luz forte que fazia faiscar as vidraças; por trás iam-se elevando no mesmo plano terrenos de um verde crestado fechados por fortes muros sombrios; a cantaria da Encarnação de um amarelo triste; outras construções separadas, até ao alto da Graça coberta de edifícios eclesiásticos, com renques de janelinhas conventuais e torres de igrejas, muito brancas sobre o azul; e a Penha de França, mais para além, punha em relevo o vivo do muro caiado, de onde sobressaia uma tira verde-negra de arvoredo. À direita, sobre o monte pelado, o castelo assentava, atarracado, ignobilmente sujo; e a linha muito quebrada de telhados, de esquinas de casas da Mouraria e de Alfama descia com ângulos bruscos até às duas pesadas torres da Sé, de um aspecto abacial e secular. Depois viam um pedaço do rio, batido da luz; duas velas brancas passavam devagar; e na outra banda, à base de uma colina baixa que o ar distante azulava, estendia-se a correnteza de casarias de uma povoaçãozinha de um branco de cré luzidio. 

Miradouro Jardim de São Pedro de Alcântara [ant. 1938]
O tabuleiro inferior era um «Queluz» em miniatura, delícia das nossas avós pequeninas; lá existiram um labirinto de buxo, os bancos voltados à cidade, os balouços e brinquedos infantis, os velhos do Asilo da Mendicidade e alugando cadeiras ao domingo, e, cá em cima, uma Banda regimental.
Mário Novais, in Lisboa de Antigamente

Da cidade um rumor grosso e lento subia, onde se misturavam o rolar dos trens, o pesado rodar dos carros de bois, a vibração metálica das carretas que levam ferraria, e algum grito agudo de pregão.
— Grande panorama! — disse o Conselheiro com ênfase. — E encetou logo o elogio da cidade. Era uma das mais belas da Europa, decerto, e como entrada, só Constantinopla! Os estrangeiros invejavam-na imenso. Fora outrora um grande empório, e era uma pena que a canalização fosse tão má, e a edilidade tão negligente!
— Isto devia estar na mão dos ingleses, minha rica senhora! — exclamou.
Mas arrependeu-se logo daquela frase impatriótica. Jurou que era uma maneira de dizer. Queria a independência do seu país; morreria por ela, se fosse necessário; nem ingleses nem castelhanos!... Só nós, minha senhora! — E acrescentou com uma voz respeitosa: — E Deus! 
— Que bonito está o rio! — disse Luísa.
Acácio afirmou-se, e murmurou em tom cavo:
— O Tejo!

Miradouro de São Pedro de Alcântara [1967]
Ao fundo, antes das escadas de pedra que dão acesso à Alameda, vê-se o  groto embutido no muro de suporte e o respectivo tanque, também visível na 2ª foto.
Em meados do século XIX, segundo Norberto de Araújo, todo este sítio era «um monturo de pedregulhos e de imundícies, vala de despejo de animais mortos, a contrastar com a bonita e verdejante encosta que caía mais para o lado de S. Roque, sobre o fundo de Valverde, depois Passeio Público, justamente a Quinta do Marques de
Castelo Melhor».

Artur Inácio Bastos, in Lisboa de Antigamente

Quis então dar uma volta pelo jardim. Sobre os canteiros borboletas brancas, amarelas, esvoaçavam; um gotejar de água fazia no tanque um ritmozinho de jardim  burguês;  um aroma  de  baunilha  predominava; sobre  a  cabeça  dos bustos  de  mármore, que se elevam dentre os maciços e as  moitas de dálias, pássaros pousavam. 
Luísa gostava daquele jardinzinho, mas embirrava com as grades tão altas...
— Por  causa  dos  suicídios! — acudiu  logo  o  Conselheiro. [...]
— Se fôssemos andando?... — lembrou Luísa.
O  Conselheiro  curvou-se,  mas  vendo-a,  a  ir  colher  uma  flor,  reteve-lhe vivamente o braço:
— Ah,  minha  rica  senhora,  por  quem  é!  Os regulamentos  são  muito explícitos!  Não  os  infrinjamos,  não  os  infrinjamos! — E acrescentou: — O exemplo deve vir de cima.²

Miradouro de São Pedro de Alcântara [entre 1918 e 1922]
O gradeamento, que ainda hoje ali se encontra, veio do Palácio da Inquisição do Rossio, ou dos Estaus, actual Teatro D. Maria..
João Penha Lopes, in Lisboa de Antigamente

Apenas no tabuleiro inferior — remata Norberto de Araújo — , quando se cala o alarido saudável do dia infantil, e as sombras se alongam — S. Pedro de Alcântara se pode entregar ao recolhimento, que amacia as almas. Mas com o seu arvoredo ralo, com os seus canteiros de miosótis, com a sua cascata romântica, com o seu tanque, que pertenceu ao Paço da Bemposta, com o seu ardina de bronze a apregoar a liberdade — é um enternecedor eirado do Ocidente, senhor de Lisboa.¹
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Bibliografia
¹ ARAÚJO, Norberto de, Legendas de Lisboa, p. 114-115, 1943. 
² QUEIROZ, Eça de, O Primo Basílio, 1878.
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