quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

1 de Fevereiro de 1908: Os Três Tiros que Abalaram a Monarquia

O Regicídio de 1 de Fevereiro de 1908, ocorrido no Terreiro do Paço, marcou profundamente a História de Portugal, resultando deste atentado a morte do Rei D. Carlos e do Príncipe Real D. Luís Filipe. O atentado foi uma consequência do clima de crescente tensão que perturbava o panorama político português. O Rei, a Rainha e o Príncipe Real encontravam-se então em Vila Viçosa, no Alentejo, onde costumavam passar uma temporada de caça no inverno. O infante D. Manuel, futuro Rei, havia regressado dias antes, por causa dos seus estudos como aspirante na marinha.
Os acontecimentos acima descritos levaram D. Carlos a antecipar o regresso a Lisboa, tomando o comboio, na estação de Vila Viçosa, na manhã do dia 1 de Fevereiro. Durante o caminho, o comboio sofre um ligeiro descarrilamento junto ao nó ferroviário de Casa Branca, provocando um atraso de quase uma hora. A comitiva régia chegou ao Barreiro ao final da tarde, onde tomou o vapor “D. Luís”, com destino ao Terreiro do Paço, onde desembarcaram, na Estação Fluvial Sul e Sueste, por volta das 5 horas da tarde, onde eram esperados por vários membros do governo, incluindo João Franco, além dos infantes D. Manuel e D. Afonso, o irmão do rei.

Fotografia do Terreiro do Paço, com indicações manuscritas:"Buiça, Costa, Nunes. Polícia nas arcadas".
A seta vermelha assinala o local do atentado
Carvalhão Duarte/ Rocha Martins/ Fundação Mário Soares

Apesar do clima de grande tensão, o monarca optou por seguir em carruagem aberta, numa tentativa de demonstrar normalidade. A escolta resumia-se aos batedores protocolares e a um oficial a cavalo, Francisco Figueira Freire, ao lado da carruagem do rei. Quando se deu o atentado, encontravam-se poucas pessoas no Terreiro do Paço. Quando a carruagem real estava perto da curva para a entrada da Rua do Arsenal, "um homem de barba preta [Manuel Buiça] com um grande gabão", vindo pela retaguarda e afastando as abas do capote, agarrou na carabina que transportava (Winchester, modelo 1907), apontou e descarregou o primeiro tiro, que acertou no pescoço de D. Carlos, matando-o. Apontou e descarregou de novo, atingindo desta feita o rei no ombro.

Terreiro do Paço [191-]
Ao fundo, a antiga Estação Sul e Sueste onde atracou o barco que transportava a família real regressada de Vila Viçosa; a seta vermelha assinala o local do atentado
Joshua Benoliel, in AML

Enquanto isto, vindo das arcadas, Alfredo Costa, armado com uma pistola Browning FN, calibre 7,65, avança para a carruagem real. Subindo para o estribo, dispara quase à queima-roupa sobre o rei. D. Luís Filipe levanta-se, de revólver em punho, mas antes de poder disparar, Costa atinge-o no peito. A rainha, de pé, agita um ramo de flores, gritando "infames, infames!". Seguiu-se a confusão, com a polícia à espadeirada e a disparar em todas as direcções. D. Manuel diria mais tarde: "começou uma perfeita fuzilada, como n'uma batida às feras!". Ambos os regicidas cairam mortos. Eram cinco e meia da tarde.

A rainha, de pé, agita um ramo de flores, gritando "infames, infames!"

A carruagem seguiu, a toda a velocidade, para o Arsenal da Marinha, onde o rei já entrou morto e o príncipe herdeiro agonizante, falecendo pouco depois. O Infante D. Manuel também estava ferido num braço, sem gravidade.
Ao anoitecer, o Infante D. Manuel é coroado Rei de Portugal, que, devido à crescente instabilidade social e à sua inexperiência para liderar, será o último Monarca do País. A Europa ficou revoltada com este bárbaro atentado, uma vez que D. Carlos era estimado pelos restantes Chefes de Estado europeus, e ainda mais pelo facto de não se ter tratado de um acto isolado, mas sim de uma organização metódica. Jornais de todo o mundo publicam imagens do atentado, baseadas nas descrições, com elementos mais ou menos fantasiosos, mas sendo sempre presente a imagem de Dª Amélia, de pé, indiferente ao perigo, fustigando os assassinos com um frágil ramo de flores. Em Londres, os jornais exibiam fotos das campas dos assassinos, cobertas de flores, com a legenda “Lisbon’s shame!” (A Vergonha de Lisboa).


Alfredo Costa
Fotógrafo: António Novais
in AML
Manuel Buiça
Fotógrafo: Alberto Carlos Lima
in AML





Os regicidas: Manuel Buiça (esq.) e Alfredo Costa (dir.), 1908











Nota: pode assistir a um pequeno filme sobre o Regicídio aqui.

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