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Friday, 10 July 2026

Lisboa: do Tejo a Monsanto

Ó macio Tejo ancestral e mudo


Ó céu azul — o mesmo da minha infância —
Eterna verdade vazia e perfeita!
Ó macio Tejo ancestral e mudo,
Pequena verdade onde o céu se reflecte!
Ó mágoa revisitada, Lisboa de outrora de hoje!
Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta.
«Lisbon Revisited (1923)»Poesias de Álvaro de Campos. Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993).

Lisboa: do Tejo a Monsanto |1967|
Vasco Gouveia de Figueiredo, in Lisboa de Antigamente

Lisboa: do Tejo a Monsanto |c. 1920|
Antes de ser erigida Estação Sul e Sueste; Terreiro do PaçoArsenal de Marinha
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Friday, 17 April 2026

Vendedeira ambulante de bolos

Chegada com seu burrico às ruas da Baixa Pombalina, a vendedora de bolos começa a preparar o equipamento necessário para montar o estaminé para a venda.

A Baixa de Lisboa, também chamada Baixa Pombalina ou Lisboa Pombalina por ter sido edificada por ordem do Marquês de Pombal, na sequência do terramoto de 1755, cobrindo uma área de cerca de 255 ha. Situa-se entre o Terreiro do Paço, junto ao rio Tejo, Rossio e a Praça da Figueira, e longitudinalmente entre o Cais do Sodré, o Chiado e o Carmo, de um lado, e a Sé e a colina do Castelo de São Jorge, do outro.

Vendedeira ambulante de bolos |1922-02-22|
Rua Augusta esquina com a Rua de Sao Nicolau. As portadas em ferro que se vêem ao fundo pertenciam ao antigo edifício do Banco Português do Atlântico, entretanto demolido.
Nota(s): local da foto não está identificado no arquivo.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Sunday, 31 August 2025

Profissões de antanho: o ardina

— Olh'ó Notícias, o Diá... Notícias!
— Olh'ó Século, saiu agora!
A profissão de vendedor de jornais — o ardina — começou a bem dizer, com a publicação do Diário de Notícias, a partir de 1 de Janeiro de 1865, uma vez que, anteriormente, não havia jornais diários à venda pelas ruas de Lisboa, pois apenas era permitida a venda de papéis noticiosos, realizada por cegos, conhecidos pelos «cegos—papelistas» que constituíam uma Irmandade, criada pelo Marquês de Pombal, como protecção aos invisuais, para que não andassem mendigando pelas ruas de Lisboa.
Daí que, ao surgirem os ardinas apregoando o Diário de Notícias, logo se levantasse certa resistência, tanto por parte dos invisuais como duma mendicidade lucrativa que enxameava Lisboa e via sem razão nos rapazes dos jornais certa concorrência.

Profissões de antanho: o ardina |1913|
Praça do Comércio vulgo Terreiro do Paço.
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

A verdade é que apenas trinta rapazes iniciaram a venda do Diário de Notícias, embora, três meses passados, mais de cem se ocupassem da venda do jornal, donde auferiam diariamente entre 200 a 400 réis! E de tal forma o negócio se foi valorizando que, a dada altura, um deles, que havia adquirido posse de local de venda, o passou temporariamente a outro por cem mil réis, e para o readquirir teve de lhe pagar o dobro!
Em 1887 já os vendedores de jornais tinham associação de classe, para socorro mútuo e instrução, o que lhes deve ter proporcionado boas vantagens, uma vez que se tratava de rapazes tirados à vadiagem das ruas, rapidamente adquirindo personalidade e confiança no trato do negócio, a tal ponto que chegaram a levantar os jornais a crédito, quando em dificuldades. E assim muitos foram vencendo na vida, sendo mais tarde comerciantes e industriais.

Profissões de antanho: o ardina |1926-03-01|
Grupo de vendedores de 'O Século' à porta deste jornal na antiga Rua Formosa.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente
 
Provindo, quase todos, da classe ovarina, que há muito assentara arraiais nos bairros da Madragoa e da Esperança, o ardina era esperto e trabalhador na profissão que lhe dava liberdade para galgar Lisboa de lés a lés, na ânsia de levar o jornal ao fim da cidade, contanto que chegasse primeiro que todos! Garoto da rua, mal liberto das saias da mãe — a varina — , o ardina, com a venda dos jornais, levaria para casa uma ajuda valiosa aos parcos rendimentos da família. [Dinís: 1986]

Monumento a Eduardo Coelho |post. 1904|
Ao centro destaca-se a imagem de um garoto a apregoar jornais, o popular «ardina». Quiosque do  Jardim Miradouro de São Pedro de Alcântara

Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Friday, 18 April 2025

Rua Joaquim Bonifácio

«[...] a Rua Joaquim (Gregório) Bonifácio (vereador da Câmara a quem chamavam o “Bota-Abaixo” porque, para aformosear, não se lhe dava demolir) é de Julho de 1882, embora fosse aberta em 1878». [Araújo: II, 1938]

A Rua Joaquim Bonifácio que se estende pelas freguesias de S. Jorge de Arroios, Pena e Anjos, foi atribuída por deliberação camarária de 20/07/1882. Mais tarde, por edital de 23/03/1929, o troço da artéria compreendida entre a Rua de D. Estefânia e a Rua Gomes Freire, tomou o nome de Rua Joaquim Bonifácio, como prolongamento deste.

Ruas Joaquim Bonifácio (e do Conde de Redondo) |1958|
Obras da Companhia Carris de Ferro de Lisboa, colocação de carris para o eléctrico. 
Judah Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Joaquim Gregório Bonifácio foi vereador da CML em 1834 e presidente da edilidade de 1834 a 1836, voltando como vereador em 1840, tendo a seu cargo o pelouro da Limpeza, Passeios, Mercado Novo e Praça da Figueira. Da obra deste homem diligente e prático na cidade de Lisboa durante estes anos, registe-se os melhoramentos na Praça da Figueira, a limpeza dos restos das ruínas do Terramoto, a conclusão dos arranjos do Rossio e do Terreiro do Paço em 1841.

Rua Joaquim Bonifácio |1958|
Obras da Companhia Carris de Ferro de Lisboa, colocação de carris para o eléctrico. 
Judah Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Friday, 4 April 2025

Estação do Rocio que foi «da Avenida»

Acordei um pouco antes do meio-dia, quase a chegar a Lisboa. Era impossível pensar em almoçar e mal tive tempo de me aproveitar rapidamente do meu gabinete de toilette e do belo equipamento da minha mala de crocodilo. Não voltei a ver o professor Kuckuck na confusão da descida, nem na praça em frente do edifício da estação, de inspiração mourisca, onde segui o carregador até uma tipoia descoberta. [Thomas Mann (1875-1955). As Confissões de Félix Krull. 1895]

Estação do Rossio que foi «da Avenida» ou «de Cintra» |c. 1889|
A Estação Central da C. P. do Rossio — traço do arq.º Luiz Monteiro — começada a construir em 1887 é inaugurada em 11 de Junho de 1890, mas já em 8 de Abril de 1889 pelas 6 da tarde chegava ao Rocio a primeira máquina com um vagão, vindo de Campolide.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Na noite de 7 de Março de 1914 Fernando Pessoa, poeta e fingidor sonhou que acordava. Tomou o café no seu pequeno quarto alugado, fez a barba e vestiu-se com esmero. Enfiou a gabardine, porque lá fora chovia. Quando saiu faltavam vinte minutos para as oito, e às oito em ponto estava na Estação do Rossio, na plataforma do comboio com destino Santarém.
[António Tabucchi. «Sonho de Fernando Pessoa, poeta e fingidor» Sonho de Sonhos, 1914]

Estação do Rocio que foi «da Avenida» |1899|
Em frente do edifício da estação de inspiração mourisca.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente
Estação do Rocio que foi «da Avenida» |194-|
Cais de Orsay-Rossio» é que ele devia chamar-se...
Estúdio Horácio Novais, in Lisboa de Antigamente

Neste comboio toda a gente vai a Paris ou para lá regressa e, mais que Sud-Express ou Paris-Lisboa, «Cais de Orsay-Rossio» é que ele devia chamar-se como comboio que é, o belo comboio-cama que tomamos nas imediações do Palácio da Legião de Honra e deixamos à entrada do Rossio, a grande praça central de Lisboa a dois passos da Avenida da Liberdade, a dez minutos do Terreiro do Paço cujas escadarias descem à água do Tejo. 
[Valery Larbaud. «Escrito numa carruagem do sud-express». in Portugal de fora para dentro, 1927]

Estação do Rossio |c. 1950|
Praça Dom João da Câmara, antigo Largo de Camões.
Os autocarros AEC Regal III da Carris começaram a circular em 1948-49.
Estúdio Horácio Novais, in Lisboa de Antigamente

Sunday, 9 March 2025

Avenida Dom Carlos I que foi «das Cortes»

Avenida rasgada em 1889 com a denominação Avenida das Cortes atribuída em 1918. Antiga Avenida do Presidente Wilson (até 1948), antes Rua Dom Carlos I, antes Rua Duque de Terceira (1866), antes Rua dos Ferreiros a Esperança, antes Rua dos Ferreiros a Santa Catarina) e Travessa Nova da Esperança.

Avenida Dom Carlos I |c. 1900|
Troço entre a Rua do Merca-Tudo e a Calçada Marquês Abrantes (dir.) 
Machado & Souza, in Lisboa de Antigamente

Carlos Fernando Luís Maria Victor Miguel Rafael Gabriel Gonzaga Xavier Francisco de Assis José Simão de Bragança Sabóia Bourbon e Saxe-Coburgo-Gota, foi o penúltimo Rei de Portugal. Nasceu em Lisboa, no Palácio da Ajuda, a 28 de Setembro de 1863, e morreu na mesma cidade, no Terreiro do Paço, a 1 de Fevereiro de 1908. Era filho de D. Luís I e de D. Maria Pia de Sabóia.
O seu reinado vai de 19 de Outubro de 1889 até 1 de Fevereiro de 1908 e é caracterizado por constantes crises políticas e consequente insatisfação popular.
No seu reinado deram-se também as revoltas no ultramar, desde a Guiné a Timor.
D. Carlos distinguiu-se como pintor de talento e cientista, especialmente na oceanografia.
Estabeleceu uma profunda amizade com Alberto I, do Mónaco, igualmente apaixonado pelas coisas do mar. Como consequência desta “aliança” nasceu o Aquário Vasco da Gama, que pretendia, em Portugal, desempenhar um papel semelhante ao do Museu Oceanográfico do Mónaco.

 

Avenida Dom Carlos I |c. 1900|
Troço entre a Calçada Marquês Abrantes e a Rua do Cais do Tojo (dir.).
Nota(s): A Antiga Fábrica de Gessos Raul Ennes Ramos supõe-se que estivesse relacionada com os estucadores de Afife (Viana do Castelo), bem conhecidos pela sua hábil mestria.
Machado & Souza, in Lisboa de Antigamente

 

Foi também um excelente agricultor, tendo tornado rentáveis as seculares propriedades da Casa de Bragança, produzindo vinho, azeite, cortiça, entre outros produtos, tendo também organizado uma excelente ganadaria e incentivado à preservação dos prestigiados cavalos de Alter.
Grande apreciador das tecnologias que começavam a surgir no início do século XX, instalou a luz eléctrica no Palácio das Necessidades e fez planos para a electrificação das ruas de Lisboa.
Ficou conhecido pelo cognome de O Diplomata devido às múltiplas visitas que fez pela Europa.
Foi numa das suas viagens à Europa que conheceu a sua futura esposa, a princesa francesa D. Amélia de Orleães. Após um curto noivado, vêm a casar, em Lisboa, na Igreja de S. Domingos, a 22 de Maio de 1886. (in mosteirobatalha-pt)

 

Avenida Dom Carlos I |c. 1930|
Troço entre a Rua do Cais do Tojo e a Rua Dom Luís I (ao fundo) na direcção da Av. 24 de Julho.
Nota(s): Fábrica de gessos Serafim Ramos.
Ferreira da Cunha, in Lisboa de Antigamente

Friday, 7 February 2025

Terreiro do Paço: vendedores ambulantes

O Terreiro do Paço, vulgo Praça Comercio, foi construído, ainda no século XVI, sobre a praia e sobre o mar, o solar dos Mouras-Cortes-Reais, umas das mais nobres residências de Lisboa, e, um pouco acima, já na escarpa, dominava o palácio dos duques de Bragança embelezado, em meados do século, com as obras que o Duque D. Teodósio nele mandou fazer. O Terreiro do Paço e nele a Casa da India e logo o Paço da Ribeira, magnificente moradia régia, de três andares, coroado por quatro torres ameadas, que D. João III, depois ampliou, e mais tarde, Filipe II, seguindo o plano do arquitecto Terzi, havia de alterar, aumentando-o ainda com um torreão que dava sobre o Tejo. Junto do Palácio ficava a Armaria, valioso museu militar, e ainda a Torre do Relójio, a Varanda das Damas. Mas em frente, pois que isso e mais, o grande Terramoto Tudo Levou.

Terreiro do Paço |190-|
Vendedoras ambulantes de marisco
Paulo Guedes, in Lisboa de Antigamente
Terreiro do Paço |190-|
Vendedor ambulante de estampas
Paulo Guedes, in Lisboa de Antigamente























Também os vendedores ambulantes encontraram no Terreiro do Paço o seu poiso preferido, e o  principal mercado de comestíveis da cidade depois conhecido por Mercado da Ribeira Velha que em princípios de quinhentos, se acoitava ao lado oriental do Terreiro do Paço, junto dos Alpendres e na proximidade do Açougue do Peixe, que ficava à entrada do Pelourinho Velho.

Terreiro do Paço |191-|
Vendedor ambulante de carvão
Paulo Guedes, in Lisboa de Antigamente
Terreiro do Paço |191-|
Vendedor ambulante de carvão
Paulo Guedes, in Lisboa de Antigamente

Friday, 4 October 2024

Ruas da Alfândega e dos Bacalhoeiros

As Rua Nova da Alfândega e a Rua da Ribeira Velha [actual Rua do Instituto Virgílio Machado] passaram a constituir um único arruamento, com a denominação de Rua da Alfândega, por edital do Governador Civil de Lisboa de 1 de Setembro de 1859, em razão do edifício da Alfândega que ocupa todo o lado sul desta Rua, uma construção pombalina posterior ao terramoto de 1755 que veio substituir a alfândega quinhentista que se situava aproximadamente onde hoje confluem as Ruas do Comércio e da Madalena.
De acordo com o olisipógrafo Pastor de Macedo, a partir de 1755 a parte oriental da rua era a Ribeira Velha que só em 1836 aparece como Rua da Ribeira Velha, enquanto a parte compreendida entre o Terreiro do Paço e a Rua dos Arameiros foi denominada como Rua Direita da Misericórdia (1766), Rua da Misericórdia de Baixo (1780), Rua dos Freires da parte de baixo (1787), Rua da Conceição dos Freires da parte do mar (1799) e Rua Nova da Alfândega (1806).

Rua da Alfândega |Início séc. XX|
À esquerda, a Rua dos Arameiros e à dir. o edifício da antiga Alfândega [hoje Min. Finanças].
Paulo Guedes, in Lisboa de Antigamente

De acordo com Gomes de Brito, pelo mesmo Edital do Governador Civil de 1 de Setembro de 1859, as Ruas dos Bacalhoeiros e dos Confeiteiros foram mandadas reunir em uma só, sob a designação de «Bacalhoeiros». A dos Confeiteiros, que anteriormente a 1755 se denominava «Rua de Cima da Misericórdia» principiava no Arco Escuro (Campo das Cebolas) e findava na rua da Madalena. [Brito: 1935]

Ruas da Alfândega e dos Bacalhoeiros (dir.) | c. 1900|
Ao centro vê-se o antigo Terreirinho das Farinhas composto por um renque de seis
pequenos núcleos de casas sito entre a Rua dos Arameiros e o Campo das Cebolas e demolido na década de 1940.

Autor desconhecido, in Lisboa de Antigamente

Friday, 28 June 2024

Praça do Comércio, vulgo Terreiro do Paço

A Praça actualmente do Comércio, vulgo Terreiro do Paço, é uma evocação tradicional da sua primitiva designação. Praça extraordinária pela sua vastidão e pelas acertadas proporções da sua arquitectura; átrio nobre da cidade de Lisboa, opulentado pela grandiosidade do seu Arco Triunfal e pelo escultural monumento equestre a el-rei D. José, obra-prima de Machado de Castro; lição de espantosa actividade e acendrado patriotismo, que nos deixaram o omnipotente Marquês de Pombal e os seus colaboradores e que não é observada como deveria sê-lo; praça de grande nomeada  da qual se ufanariam quase todas as capitais do mundo, se a tivessem como sua, e que é, para todos os portugueses, a sintética representação de um enorme esforço, tão enorme, que a sua festiva inauguração fez esquecer a horrível catástrofe de 1755.

Numa manhã amena o povo apinha-se junto ao Cais das Colunas — o «miradouro rasteirinho» de Lisboa. Frente ao torreão oriental pombalino do antigo Tribunal do Comércio e Bolsa de Lisboa, proas para o cais, estende-se uma longa fileira de fragatas airosas, as velas enroladas nos mastros erectos como lanças duma guarda de honra.

Cena de rua junto ao Cais das Colunas |c. 1900|
Ao fundo nota-se o barracão da antiga Alfândega.
Autor não identificado, in Lisboa de Antigamente

Este delicioso Cais das Colunas — recorda o ilustre Norberto de Araújo — que deve seu nome às colunas de pedra colocadas no sopé da escadaria suave, é posterior ao Terramoto. Anteriormente, mais à nossa esquerda, e também mais recuado, existia um «Cais da Pedra», que o sismo de 1755 subverteu.
Da sua rampa de pedra rolada, ou da sua escadaria carcomida — viu cem gerações dizerem adeus a cem armadas que partiam. 

Praça do Comércio vista do Tejo |c. 1900|
À esq. observa-se a ponte da antiga Estação dos Caminhos-de-Ferro e Vapores de Sul e Sueste; ao fundo nota-se o Arco da Rua Augusta e, lá no cimo, o Castelo de S. Jorge.
Autor não identificado, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
Terra Portuguesa, p. 71, 1917.
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XII, p. 28, 1939.

Friday, 9 February 2024

Praça do Comércio: «Lisboa e Madrid começam a conversar pelo telefone»

Sobre o Terreiro do Paço, operários na torre da Central Telegráfica, a 16 de Maio de 1928. No dia seguinte, às 10H30, o Presidente Carmona e o Rei Afonso XIII, fazem o primeiro telefonema entre Lisboa e Madrid.

Praça do Comércio vulgo Terreiro do Paço |1928|
«Lisboa e Madrid começam a conversar pelo telefone»
Fotografia DN, in Lisboa de Antigamente

Sunday, 3 December 2023

Terreiro do Paço: «O Caes das ex-colunas»

Segundo Norberto Araújo «Este delicioso Cais das Colunas — que deve seu nome às colunas de pedra colocadas no sopé da escadaria suave — é posterior ao Terramoto. Anteriormente, mais à nossa esquerda, e também mais recuado, existia um «Cais da Pedra», que o sismo de 1755 subverteu.==
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XII, p. 28)

Contudo, as colunas nem sempre estiveram presentes. A ausência de um ou mesmo dos dois ornatos, terá sido uma constante durante diversas décadas.
A 13 de Março de 1925, o jornal «A Época» fazia saber que «na última reunião da Câmara Municipal de Lisboa, o sr. dr. Alexandre Ferreira chamou a atenção da Comissão Executiva e especialmente ao vereador do pelouro de engenharia sr. Raul Caldeira, para o facto, de no Cais das Colunas, não existirem há muito as colunas que deram origem àquela nomenclatura».

Terreiro do Paço: «O Caes das ex-colunas» |c. 1953|
António Passaporte, in Lisboa de Antigamente

A queda das colunas, representando por vezes vários anos de ausência de um ou mesmo dos dois ornatos, terá sido uma constante durante diversas décadas — conforme comprovam estas imagens captadas na década de 1950. Ribeiro Cristino frisou a sua falta, no início da década de 1910, nas páginas do Diário de Notícias, com a publicação do artigo «O Caes das ex-colunas» (Cristino 1923, p. 14-16).

As colunas regressaram ao cais a que deram o nome em Julho de 1929. Assim o noticiou o «Diário de Notícias» de 9 de Julho desse ano: «O Cais das Colunas estava há largos anos sem colunas (…) A primeira das colunas do cais ficou ontem de pé, como a nossa gravura atesta e prova. Pouco falta, portanto, para que o «Diário de Notícias» possa dizer nas suas colunas que o Cais das Colunas voltou a ter colunas no cais». As colunas que actualmente ali se encontram são as mesmas que foram colocadas em 1939.

Terreiro do Paço: «O Caes das ex-colunas» |1957-02-18|
Visita oficial da rainha Isabel II de Inglaterra
Artur Pastor, in Lisboa de Antigamente

Friday, 11 August 2023

Avenida da Ribeira das Naus

Topónimo atribuído por edital camarário de 22/06/1948 ao arruamento projectado entre a Praça do Comércio vulgo Terreiro do Paço e o Cais do Sodré.
Com a assistência de membros do Governo, foi inaugurada a lápide que, na Avenida da Ribeira das Naus, assinala o local onde foram construídas as caravelas que partiram para os Descobrimentos.

Avenida da Ribeira das Naus |1962|
Ao fundo nota-se a Estação Sul e Sueste
Artur Goulart, in Lisboa de Antigamente

Sunday, 28 May 2023

Rua Bartolomeu de Gusmão: o Paço de D. Leonor

E já agora, duas palavrinhas acerca do Paço de D. Leonor, de Santo Elói ou S. Bartolomeu (pois não houve senão lindos Lolós um com duas designações locais). A solução do problema da sua localização — adianta Norberto de Araújo — deu-a o historiador Anselmo Braamcamp Freire, em termos irremissíveis, e ante uma argumentação documentada. Assentava no extremo deste Largo dos Lóios, num triângulo contido pelas antigas e desaparecidas Rua da Amargura, Rua de Jerusalém (que corria ao meio longitudinal do actual Largo) e Adro de S. Bartolomeu. Isto é: a ponta extrema do Paço ou Casas entrava pela actual Rua Bartolomeu de Gusmão (até há pouco de S. Bartolomeu), e que é esta que aqui corre subindo para o Castelo, correspondendo sensivelmente a setecentista Rua Direita das Portas da Alfofa.
Do Paço da Rainha, mulher de D. João II, [o Príncipe Perfeito], a excelsa fundadora das Misericórdias, residência que teve larga história realenga, tocada de certa poesia e envolta em relativa grandeza, que não ostentação  — nada existe.

Rua de São Bartolomeu, actual Bartolomeu de Gusmão |1903|
«Inventor dos Aeróstatos 1675–1724» (legenda de 1911)
Os Paços de D. Leonor eram situados, pouco mais ou menos, no local onde hoje assenta o prédio aqui se vê e que da Rua Bartolomeu de Gusmão esquina para o Largo dos Lóios
Machado & Souza, in Lisboa de Antigamente

A Rua de São Bartolomeu passou pelo Edital de 13 de Dezembro de 1911 a denominar-se Rua Bartolomeu de Gusmão, com a legenda «Inventor dos Aeróstatos 1675–1724», em homenagem ao criador da Passarola Voadora, embora mais de 40 anos depois a legenda tenha passado a «Precursor da Aeronáutica 1675–1724» de acordo com o parecer da Comissão Municipal de Toponímia de 24 de Julho de 1958.
Este arruamento homenageia Bartolomeu Lourenço de Gusmão (1685–1724), filho dum modesto cirurgião-mor de presídio, Francisco Lourenço, e de sua mulher, Maria Álvares.
Nascido em Santos, S. Paulo, no Brasil, fez estudos no Seminário jesuíta de Belém, na freguesia de Cachoeira, Capitania da Baía, onde se ordenou. Desde muito cedo se interessou pelo estudo da Física, tendo concebido uma máquina de elevação de água a 100 metros de altura, no Seminário de Belém. Em 1701 veio para Portugal. 

Rua de São Bartolomeu |1903|
«Inventor dos Aeróstatos 1675–1724»
Em 1911, este arruamento passou a denominar-se Bartolomeu de Gusmão (com a legenda acima), antes Direita das Portas da Alfofa.
Machado & Souza, in Lisboa de Antigamente

Quando se matriculou na Faculdade de Cânones de Coimbra, em 1 de Dezembro de 1708, com o nome de Bartolomeu Lourenço, já como sacerdote, desconhecia-se, ainda, a célebre figura em que se tornaria, no ano seguinte, devido ao prodigioso invento de um aeróstato, recebendo, por isso, o epíteto de “padre voador”. Era o primeiro balão de papel que se ergueria no ar, sem fazer grande voo, tendo recebido do Rei D. João V a exclusividade da construção de “máquinas voadoras”. A primeira apresentação pública, feita em Lisboa, no Palácio Real, não teve sucesso e o balão ardeu, sem ter feito qualquer voo. Só numa segunda tentativa, em 8 de Agosto de 1709, se ergueu no ar, em voo de 4 metros de altura. A ”passarola voadora”, de que se conhecem diversos desenhos e gravuras, não seria mais do que um projecto que o engenhoso inventor nunca chegou a construir.

Rua Bartolomeu de Gusmão |1949|
Precursor da Aeronáutica [1685-1724] (legenda de 195-)
Antiga de São Bartolomeu antes Direita das Portas da Alfofa.
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Durante a segunda metade do século XVIII difundiu-se a ideia de que o próprio Bartolomeu de Gusmão teria efectuado um voo num aeróstato por ele construído, entre o Castelo de S. Jorge e o Terreiro do Paço, mas trata-se de uma lenda, não há documentos que registem esse acontecimento e as suas experiências teriam avivado a imaginação popular a tal ponto que ele seria alvo de chacota.
____________________________________________
Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. II, pp. 65-66, 1938.
Olisipo : boletim do Grupo "Amigos de Lisboa", 1948.

Sunday, 29 January 2023

Rua das Picoas com a Avenida Cinco de Outubro

De acordo com Norberto de Araújo «Os serviços dos Correios e Telégrafos — hoje [em 1939] já espalhados por S. José, Restauradores e Picôas, e com inúmeros postos e estações em várias áreas da Cidade — foram instalados no edifício do Terreiro do Paço, contiguo ao do Arsenal, em 1 de Março de 1881.

Rua das Picoas e Avenida Cinco de Outubro |1928|
O sítio das Picoas que já surge referido nas «Memórias Paroquiais de Lisboa» de 1758,
derivou do nome de uma quinta do Morgado; ao fundo à dir. nota-se a ermida das Picoas já demolida.
Fotógrafo: não identificado, in Lisboa de Antigamente

Os serviços dos Correios, que desde D. Manuel constituíam ofício privado do «Correio Mor», cargo que principiando em Luiz Homem (1520) coube mais tarde a Luiz Gomes da Mata, e deste a seus descendentes (depois Condes de Penafiel) — passaram para a administração directa do Estado em 1797, transitando então do Palácio do Correio Velho (às Pedras Negras) para uma casa no sitio da Boa Morte [à Estrela], de onde logo saíram para se instalarem no Palácio dos Condes de Olhão, aos Paulistas (o Correio Geral) no Palácio dos Condes de Olhão, aos Paulistas (o Correio Geral). Dali vieram para o Terreiro do Paço.==
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XII, p. 18; XIV p.80, 1939) 

Rua das Picoas e Avenida Cinco de Outubro |c. 1934|
A Ermida, do orago de N. Senhora de Lourdes, foi primeiramente de Santo António, antes de ser ampliada. Ostentava azulejos relativos à vida do Santo português, e vitrais alusivos ao actual orago; a imagem de N. Senhora de Lourdes é feitura do escultor Anjos Teixeira.
Neste prédio de gaveto foi instalada, em 1926, a Estação de Correios e Telégrafos Lisboa-Norte (C.T.F. Correios Telégrafos e Faróis).
Fotógrafo: não identificado, in Lisboa de Antigamente

Sunday, 25 December 2022

Iluminações de Natal: Rua Áurea

O plano de Eugénio dos Santos e Carlos Mardel de reconstrução de Lisboa após o terramoto de 1755, aprovado pelo Marquês de Pombal, apresentava uma rede de ruas longitudinais e transversais, cortadas em ângulos rectos, cuja importância relativa era traduzida pela largura das suas ruas e passeios.
Cinco anos passados do terrível terramoto de 1755, ficaram definidos através deste decreto os topónimos dos arruamentos nucleares daquela a que se convencionou chamar Baixa Pombalina. Era então presidente da câmara Gaspar Ferreira Aranha.

Iluminações de Natal |1960|
Rua Áurea vista da Pç. do Comércio vulgo Terreiro do Paço. O topónimo Rua Áurea foi atribuído através do Decreto de 05/11/1760. 
Arnaldo Madureira, in Lisboa de Antigamente

Rua Áurea, onde se alojariam os ourives, ficando as lojas que por ventura sobrassem para os relojoeiros e para os volanteiros [aqueles que vendiam artigos variados]. A primeira vez, depois do decreto de 1760, que vemos citá-la com o nome oficial é em 1766, tendo-se também denominado entre o povo e por hábito antigo, rua dos Ourives do Ouro e simplesmente rua dos Ourives. Em determinada altura do século pretérito [XIX] passaram a designá-la por rua do Ouro e assim continuou a ser nomeada até hoje. [Macedo: 1938]

Iluminações de Natal |1977|
O topónimo Rua Áurea foi atribuído através do Decreto de 05/11/1760. 
Gonçalves, F., in Lisboa de Antigamente

Saturday, 12 November 2022

Panorâmica da Praça do Comércio

De «espalmadeiro» — estaleiro no qual se querenavam naus nos séculos XIV e XV — a Terreiro do Paço da Ribeira d'el rei D. Manuel no séc. XVI, até Praça do Comércio, em homenagem aos comerciantes de Lisboa, pela mão de Pombal e Eugénio dos Santos no séc. XVIII, a parque de estacionamento em meados do séc. XX. 

Praça do Comércio, panorâmica do parque de estacionamento [ant. 1960]
Salvador Fernandes, in Lisboa de Antigamente

Historial resumido da Praça do Cavalo Preto ou «Black Horse Square» como dizem os ingleses, talvez, a mais imponente praça pública da Europa [Araújo, XII, 1939].

Praça do Comércio, panorâmica do parque de estacionamento [ant. 1960]
Monumento a D. José I; Estação Fluvial do Sul e Sueste
Luís Filipe de Aboim, in Lisboa de Antigamente

Sunday, 28 August 2022

Praça do Príncipe Real: a Patriarcal e a Praça do Rio de Janeiro

Estamos numa das praças mais lindas, e mais «alfacinhas» de Lisboa  — a Praça do Rio de Janeiro [e de novo, desde 1948, do Príncipe Real]. Deves ter no ouvido algumas das designações deste largo terreiro  e eu, — diz Norberto de Araújo —  sempre por curiosidade, tas relembro pela ordem das idades: «Chãos da Ferrôa» no século XVI, a mais antiga que se lhe conhece; «Alto da Cotovia», denominação que perdurou mesmo através de outros dísticos posteriores, municipais e populares; sítio das «Casas do Conde de Tarouca», cerca de 1755; «Patriarcal Queimada», depois de 1769; sítio das «Obras do Erário Novo», em 1810-1815; «Praça do Príncipe Real», em 1855; «Praça do Rio de Janeiro» depois de 1911.

Em boa verdade esta Praça é das mais modernas da capital, no seu aspecto urbano e paisagista; data assim de 1879. A sua regularidade é contudo notável, e respira um ar sadio, gozando desafogo, uma relativa tranquilidade, e oferecendo curiosos aspectos: pousio de «reformados» à sombra do velho cedro copado, com sessenta anos idade, brinco de crianças, jardim «de estar» dos nostálgicos e desocupados inocentes.
Pois, Dilecto, sentemo-nos também à sombra do cedro, ouvindo cantar o repuxo do lago, que mal se distingue no murmúrio afogado do conjunto entre o espesso arvoredo que tem resistido às devastações do tempo.

Praça do Príncipe Real |1940|
Antiga Praça do Rio de Janeiro
A praça foi traçada em 1853 e o jardim, plantado em 1869, projecto do jardineiro João Francisco da Silva. Em termos urbanísticos é um exemplo do Romantismo das últimas décadas do século XIX.
«O Príncipe Real é um largo deliciosamente arborizado. Do seu harmonioso conjunto, destacam-se o majestoso cedro, considerado de interesse público, a deliciosa araucária e os formosos ulmeiros, também como tal distinguidos e as decorativas palmeiras. A «araucária columnaris» (araucária colunar — Nova Caledónia), de aspecto altaneiro e delgado, forma com o corpulento «cupressus», uma estranha parelha, que aos espirituosos frequentadores do recinto não passou despercebida, e por isso atribuem esse local de recreio o dito popular de Jardim do Bucha e do Estica». [Lisboa em quatro horas e Lisboa em quatro dias, 1895]
Judah Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Um pouco antes de 1755, neste alto cômoro da Cotovia, sobranceiro sobre a ponta do Salitre e portas de Valverde — mais largo para norte do que é hoje [em 1938], depois de urbanizado — existia apenas o Palácio dos Penalvas, à esquina das actuais Escadinhas da Mãe d'Água, e ao fundo do curto Arco do Evaristo. No centro da actual Praça andava o Conde de Tarouca construindo um Palácio, e ao local, por isso, chamava o povo «Casas do Conde de Tarouca», e o povo crisma a seu bel-prazer os sítios e as coisas, de modo que as denominações acabam por entrar na linguagem oficial e, quando as Câmaras as alteram ou corrompem, levam lustros, levam até séculos a apagar-se.
O Terramoto abalou inteiramente o edifício Tarouca soerguido, resignando-se o fidalgo no infortúnio, e compondo versos sobre os destroços.
Como a Patriarcal, que estava assente na Capela Real do Paço da Ribeira, tivesse ardido no dia do horroroso cataclismo, deliberou-se, após hesitações, transferir a Basílica para os restos, de pé, do palácio Tarouca, na «Cotovia»; a bênção foi dada em 26 de Junho de 1756, e logo nesse ano se realizou uma procissão, depois repetida, que deu o nome à Rua da «Procissão» (desde há poucos anos denominada de «Cecílio de Sousa»). 

Praça do Príncipe Real |c. 1869|
Lago octogonal com repuxo; ao fundo notam-se as torres e zimbório da Basílica da Estrela. 
Ао repuxo dedicou Júlio de Castilho um hino de ternura, mais próprio de poeta, como o Mestre se mostrava muitas vezes: «Quando ele arroja, metros ao alto, as suas pérolas fluídas, decompondo a luz, sussurrando frescura, e espadanando-se todo vaidoso no azul da atmosfera, está, muito de industria, repassando as águas nos gazes aéreos que as vivificam e as tornam potáveis; pensa em nós; prepara para nós a melhor das bebidas; colabora na higiene da Cidade. Aquele tanque é um sábio: reconhece as leis da física; sabe que os líquidos, vindo de longe, impregnando-se do calcário dos canos, e morando lá em baixo às escuras, se tornam pesados; quer aligeirá-los , banhá-los de sol e de oxigénio. Aquele tanque é um poeta utilitário: mistura habilmente o Belo e o Bom. Olhemos pois com gratidão para esse pequenino Oceano de puríssimas linfas, que abastecem as cozinhas, e amanhã brilharão aos poucos nas nossas taças de cristal. [Lisboa Antiga: 1904]
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

E a Igreja [armada em madeira] foi-se construindo, no edifício adaptado; era imponente: três naves, largo cruzeiro, quinze capelas, um zimbório oitavado, e anexos esplêndidos. Treze anos perdurou: a Patriarcal foi devastada por um terrível incêndio em 10 de Maio de 1769, obra criminosa de um empregado da Igreja, que pelo fogo queria ocultar seus sacrílegos roubos; foi justiçado, depois de lhe cortarem as mãos no próprio local onde os escombros fumegavam ainda. E aí está a origem da designação de «Patriarcal Queimada».[...]
As ruínas e montes de pedregulho ficaram por aqui durante dezenas de anos, ninho de valhacoutos. Em 1807 pensou-se em levantar no sítio o novo Erário Régio, a casa do Tesouro (pois ardera o do Rossio) mas o projecto, que era do Visconde de Vila Nova da Cerveira, não teve seguimento, embora se chegasse a começar a obra, e nela se gastassem alguns milhões de cruzados.
Em 1841 ainda o sítio continuava a ser vazadouro público e albergue de patifes. Só em 1856 se começou a terraplanar o local, que pouco depois recebeu iluminação. Já chamada «Praça do Príncipe Real», em 1859, começou então a estudar-se o seu aformoseamento, com a construção dum lago, por acordo entre a Câmara e a Companhia das Águas; os restos da «Patriarcal Queimada» foram então destruídos a tiros de pólvora.

Praça do Príncipe Real |1945|
Antiga Praça do Rio de Janeiro
 Localizado no subsolo da Praça, existe o Reservatório da Patriarcalprojectado em 1856 pelo eng. francês Mary. Construído entre 1860 e 1864 para servir a rede de distribuição de água da zona baixa da cidade. 
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente
Praça do Príncipe Real |1945|
Antiga Praça do Rio de Janeiro
 No centro da praça está o monumento-memória a França Borges, o jornalista fundador de «O Mundo», foi erigido em 1924; é obra de Maximiano Alves; à dir. observa-se destaca-se o Cedro-do-Buçaço, árvore secular com mais de 20 metros de diâmetro.
Ferreira da Cunha, in Lisboa de Antigamente

Em 1864 regularizou-se a disposição da Praça, tornando-a quadrada, e alinhando algumas edificações que entretanto se tinham erguido, o que tudo se concluiu em 1863. Construiu-se então a muralha sobre a Rua da Procissão e plantou-se este magnífico jardim, que estamos contemplando.
O «Príncipe Real» começou a existir, pequeno parque e logradoiro, com a sua ingenuidade, o seu repuxo e a sua «memória esquecida» de anteriores desgraças. E assim até hoje…==

Muralha da Praça do Príncipe Real sobre a Rua Cecílio de Sousa, antiga da Procissão |1960|
Terraço, com varanda, assente sobre muralha, que se ergueu em substituição da velha ribanceira, que por longos tempos existiu. Esta obra faz parte do arranjo geral da praça, foi concluída em 1864 e custou 3.208$400 réis. Numa lápida elucidativa, lê-se: «A Câmara Municipal mandou construir no ano de 1863». Por dois caminhos laterais, conduz à Rua da Procissão, que começou por chamar-se do Corpo de Deus e Cotovia ou simplesmente do Corpo de Deus. É hoje Cecílio de Sousa (desde 1926) a rua onde morou em 1869 o paciente bibliófilo Inocêncio Francisco da Silva, e se chamou desde 1756, ano em que, da nova Basílica Patriarcal, já implantada nas «Casas do Conde de Tarouca», saiu o grande cortejo religioso comemorativo do solene dia do Corpo de Deus.
Armando Serôdio,, in Lisboa de Antigamente

N.B. A Praça tem este nome em homenagem ao filho primogénito da Rainha D. Maria II, o futuro rei D. Pedro V — nasceu no Palácio das Necessidades, a 16 de Setembro de 1837, recebendo o nome de Pedro de Alcântara Maria Fernando Miguel Rafael Gonzaga Xavier João António Leopoldo Vítor Francisco de Assis Júlio Amélio; morrendo no mesmo local, a 11 de Novembro de 1861.
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Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. V, pp. 65-68, 1938.
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