Já disse que o edifício municipal ocupa o espaço que era o do Pátio da Capela Real, pátio com suas arcadas e galerias, nas quais se ostentavam «capelas e tendas, ou tendas da Capela.
A primeira Capela Real do Paço — que tinha a invocação de S. Miguel, e que fazia parte do Paço da Ribeira —, ficaria neste lado sul do Pátio, que olha para a Rua do Arsenal defronte dos Correios. Só em 1531 passou mais para Norte — onde está o abandonado templo de S. Julião, vendido pela Aqui-confraria ao Banco de Portugal [actual Museu do Dinheiro] em 7 de Julho de 1933 —; foi ampliada em 1610 e 1619.
Em 1716 a Capela Real foi elevada, por esforços de D. João V, a Catedral Metropolitana e Patriarcal de Lisboa Ocidental, e logo o rei pensou na sua reedificação; em 1746 estava de pé a Grande Capela ou Igreja Patriarcal, do orago de N. Senhora da Assunção.
O pequeno Largo fronteiro, antepassado dêste. onde estamos, chamou-se por isso «da Patriarcal».
O Terramoto reduziu tudo a cinzas; a riqueza da Patriarcal desapareceu, e tudo em redor, incluindo o vasto e imponente Paço da Ribeira.
D. João V, O Magnânimo — cuja corte beneficiava de excepcional desafogo financeiro, graças ao ouro do Brasil — engrandeceu bizarramente a Capela Real. Sob a orientação de João Frederico Ludovice, o arquitecto e ourives alemão ao serviço do rei, inicia-se a transformação da capela adjacente ao Paço da Ribeira em Patriarcal, uma das mais magníficas igrejas de então, réplica miniatural do Vaticano, cujo esplendor era alimentado por constantes encomendas a artistas estrangeiros, sobretudo romanos, uma vez que Roma era o mais conceituado centro de produção artística da Europa.
| Ruínas da Igreja Patriarcal de D. João V [1755] Antiga Praça (Largo) da Patriarcal, actual Praça do Município Jacques Philippe Le Bas (1707-1783), gravura |
As prodigalidades deste monarca eram extraordinárias; enriqueceu os conventos, deu dinheiro ilimitado aos fidalgos; nos últimos anos da sua vida mandou rezar para cima de 700.000 missas; por urna imagem que o papa benzeu, de prata dourada, deu 120.000 cruzados; para Jerusalém mandou 1.377 cruzados; fundou o convento do Louriçal dotando-o com 6.000 cruzados, e deu-lhe muitas alfaias e pratas; ceou dois bispados no Brasil; mandou para diferentes igrejas do estrangeiro alfaias e adornos de incalculável valor; em indulgências e canonizações enviou para Roma perto de 1,38 milhões de cruzados; na missão que foi a Roma assistir a um conclave gastou-se para cima de dois milhões de cruzados; ao núncio Bichi, quando se retirou de Lisboa, mandou dar-lhe 1.000 moedas para ajuda da viagem; ao cardeal Oddi deu-lhe uma caixa de brilhantes no valor de 20.000 cruzados, etc. Apesar da sua exagerada devoção, não tinha escrúpulo em profanar a clausura das virgens do Senhor, o que lhe adquiriu o titulo de rei freirático, transformando, por exemplo, o convento de Odivelas, sustentando escandalosamente os seus amores com a madre Paula, freira sua predilecta.
Bibliografia
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XII, pp. 13-14 [1939])
(arqnet.pt)
Bibliografia
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XII, pp. 13-14 [1939])
(arqnet.pt)






















