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sábado, 5 de novembro de 2016

E Tudo o Terramoto Levou: a Grande Capela ou Igreja Patriarcal de D. João V

Já disse que o edifício municipal ocupa o espaço que era o do Pátio da Capela Real, pátio com suas arcadas e galerias, nas quais se ostentavam «capelas e tendas, ou tendas da Capela.


   A primeira Capela Real do Paço — que tinha a invocação de S. Miguel, e que fazia parte do Paço da Ribeira —, ficaria neste lado sul do Pátio, que olha para a Rua do Arsenal defronte dos Correios. Só em 1531 passou mais para Norte — onde está o abandonado templo de S. Julião, vendido pela Aqui-confraria ao Banco de Portugal [actual Museu do Dinheiro] em 7 de Julho de 1933 —; foi ampliada em 1610 e 1619.
   Em 1716 a Capela Real foi elevada, por esforços de D. João V, a Catedral Metropolitana e Patriarcal de Lisboa Ocidental, e logo o rei pensou na sua reedificação; em 1746 estava de pé a Grande Capela ou Igreja Patriarcal, do orago de N. Senhora da Assunção.
   O pequeno Largo fronteiro, antepassado dêste. onde estamos, chamou-se por isso «da Patriarcal».
   O Terramoto reduziu tudo a cinzas; a riqueza da Patriarcal desapareceu, e tudo em redor, incluindo o vasto e imponente Paço da Ribeira.

Maqueta de reconstituição da cidade de Lisboa antes do Terramoto de 1755
Planta da primeira Igreja Patriarcal a vermelho (clicar para ampliar)
in Museu de Lisboa, núcleo instalado no Palácio Pimenta ao Campo Grande

D. João V, O Magnânimo — cuja corte beneficiava de excepcional desafogo financeiro, graças ao ouro do Brasil — engrandeceu bizarramente a Capela Real. Sob a orientação de João Frederico Ludovice, o arquitecto e ourives alemão ao serviço do rei, inicia-se a transformação da capela adjacente ao Paço da Ribeira em  Patriarcal, uma das mais magníficas igrejas de então, réplica miniatural do Vaticano, cujo esplendor era alimentado por constantes encomendas a artistas estrangeiros, sobretudo romanos, uma vez que Roma era o mais conceituado centro de produção artística da Europa. 

Ruínas da  Igreja Patriarcal de D. João V [1755]
Antiga Praça (Largo) da Patriarcal, actual Praça do Município

Jacques Philippe Le Bas (1707-1783), gravura

As prodigalidades deste monarca eram extraordinárias; enriqueceu os conventos, deu dinheiro ilimitado aos fidalgos; nos últimos anos da sua vida mandou rezar para cima de 700.000 missas; por urna imagem que o papa benzeu, de prata dourada, deu 120.000 cruzados; para Jerusalém mandou 1.377 cruzados; fundou o convento do Louriçal dotando-o com 6.000 cruzados, e deu-lhe muitas alfaias e pratas; ceou dois bispados no Brasil; mandou para diferentes igrejas do estrangeiro alfaias e adornos de incalculável valor; em indulgências e canonizações enviou para Roma perto de 1,38 milhões de cruzados; na missão que foi a Roma assistir a um conclave gastou-se para cima de dois milhões de cruzados; ao núncio Bichi, quando se retirou de Lisboa, mandou dar-lhe 1.000 moedas para ajuda da viagem; ao cardeal Oddi deu-lhe uma caixa de brilhantes no valor de 20.000 cruzados, etc. Apesar da sua exagerada devoção, não tinha escrúpulo em profanar a clausura das virgens do Senhor, o que lhe adquiriu o titulo de rei freirático, transformando, por exemplo, o convento de Odivelas, sustentando escandalosamente os seus amores com a madre Paula, freira sua predilecta.

Planta da Igreja Patriarcal [c. 1775?]
Planta feita depois do terramoto de 1755, mostrando o local onde se encontrava a Patriarcal ao lado do Paço da Ribeira, assim como todas as acomodações do Patriarca, os Principais, o tribunal da Congregação Camarária, etc., que se encontram descriminados à margem da planta.
Título: «Planta Geometrica pella qual se mostra a formalidade e grandeza, que tinha a S.ta Igreja Patriarchal, abrazada junto aos Passos da Ribeira das Naos; (...)»
in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XII, pp. 13-14 [1939])
(arqnet.pt)

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2025

Terreiro do Paço: vendedores ambulantes

O Terreiro do Paço, vulgo Praça Comercio, foi construído, ainda no século XVI, sobre a praia e sobre o mar, o solar dos Mouras-Cortes-Reais, umas das mais nobres residências de Lisboa, e, um pouco acima, já na escarpa, dominava o palácio dos duques de Bragança embelezado, em meados do século, com as obras que o Duque D. Teodósio nele mandou fazer. O Terreiro do Paço e nele a Casa da India e logo o Paço da Ribeira, magnificente moradia régia, de três andares, coroado por quatro torres ameadas, que D. João III, depois ampliou, e mais tarde, Filipe II, seguindo o plano do arquitecto Terzi, havia de alterar, aumentando-o ainda com um torreão que dava sobre o Tejo. Junto do Palácio ficava a Armaria, valioso museu militar, e ainda a Torre do Relójio, a Varanda das Damas. Mas em frente, pois que isso e mais, o grande Terramoto Tudo Levou.

Terreiro do Paço |190-|
Vendedoras ambulantes de marisco
Paulo Guedes, in Lisboa de Antigamente
Terreiro do Paço |190-|
Vendedor ambulante de estampas
Paulo Guedes, in Lisboa de Antigamente























Também os vendedores ambulantes encontraram no Terreiro do Paço o seu poiso preferido, e o  principal mercado de comestíveis da cidade depois conhecido por Mercado da Ribeira Velha que em princípios de quinhentos, se acoitava ao lado oriental do Terreiro do Paço, junto dos Alpendres e na proximidade do Açougue do Peixe, que ficava à entrada do Pelourinho Velho.

Terreiro do Paço |191-|
Vendedor ambulante de carvão
Paulo Guedes, in Lisboa de Antigamente
Terreiro do Paço |191-|
Vendedor ambulante de carvão
Paulo Guedes, in Lisboa de Antigamente

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

E Tudo o Terramoto Levou: a Real Ópera do Tejo ou Casa da Ópera

Ora em 1755 aqui, onde se ergue o edifício da Câmara Municipal, existia o pátio esplendoroso da Capela Real (…). Da porta do Arsenal, para poente (Rua do Arsenal fora, então Rua do Arco dos Cobertos) ficava a Casa da Ópera, construída dois anos antes do Terramoto; defronte do Pátio citado da Capela, do lado sul, isto é, na Rua hoje do Arsenal, entre a face do edifício onde estão repartições dos Correios, e a face lateral da Câmara, rasgava-se um não grande Largo do Relógio ou das Tendas da Capela.1


O palco da Ópera do Tejo no dia da sua inauguração, 31 de Março de 1755.
A ópera era Alessandro nell'Indie, de Perez.

Obra de Giovanni Carlo Sicinio Gali Bibiena, membro de uma prestigiada família de arquitectos e cenógrafos teatrais, a Real Ópera do Tejo, segundo os escassos testemunhos, seria um sumptuoso edifício com decorações a branco e dourado. Teria uma lotação de 600 lugares.
Na Primavera de 1755, pelo aniversário da Rainha Dona Mariana Vitória, é inaugurado o Teatro Real da Ópera, ou Ópera do Tejo, por iniciativa régia. A estreia recaíria em libretos de Pietro Mestatasio, musicadas por David Perez: Alexandro nell`Indie.
Numa sequência da ópera Alexandre na Índia apresentar-se-iam em cena, simultaneamente, 25 cavalos, demonstrando a capacidade do palco. A monumentalidade dos cenários foi complementada por ricos efeitos espectaculares, a cargo do maquinista Petronio Mazzoni. O elenco contou com duas das maiores estrelas internacionais da época, os castrati Anton Raaff, no papel principal, Alessandro, e Caffarelli no papel do antagonista, Poro.
O terramoto de 1 de Novembro de 1755, destruiria, por completo, aquele que era considerado um dos mais grandiosos teatros europeus. 

As ruínas da Ópera do Tejo após o Terramoto de 1755, por Jacques Philippe Le Bas (1757)

Embora não se conheça um registo exaustivo de todas as récitas (nem todas são mencionadas na Gazeta de Lisboa, pelo que não se sabe ao certo quantas de cada ópera foram apresentadas), sabe-se que tinham lugar às Segundas e Quintas-feiras.2
_____________________________
Bibliografia
1 ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XII, p. 12, 1939.
2 FARIA, Miguel Figueira de; A Ópera do Tejo e a sua ligação ao Paço Real: possíveis vestígios arquitectónicos, p. 93-99.

domingo, 6 de agosto de 2017

A Bemposta: o Paço da Rainha

Eis-nos, Dilecto, deante do Paço da Bemposta. Observa-me a fachada desta casa paçã e palaciana; tem um certo ar mais aristocrático que fidalgo, mas, no seu conjunto, oferece um indiscutível interesse de arquitectura civil, com indicações puras seiscentistas na frontaria.


   Duas noticias te dou já: o adro, com sua escadaria, nem sempre foi como agora se apresenta; era mais avançado, e a sua redução ao espaço e configuração actuais datam de 1860. Quanto ao sítio, onde estamos, êle constituía um pátio do Palácio, fechado nos topos, com muros, onde rasgavam arcos ou portões, mas por onde aliás se fazia passagem pública, e demolidos em 1849.
    Foi aqui que uma Rainha, fatigada de pousadas estranhas, se recolheu um belo dia do ano de 1702. D. Catarina de Bragança regressara ao seu país em 1693, trazendo havia já oito anos sobre a sua cabeça, cortida por desgostos e resignações, o véu da viuvez que Carlos II de Inglaterra lhe legara. Filha e irmã de reis — porque não ter na sua pátria casa sua? Um paço próprio?

Capela e Paço Real da Bemposta [c. 1910]
Paço da Rainha; ao fundo,
a Penha de França
 Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

    D. Catarina, fiiha de D. João IV, que casara com Carlos II de Inglaterra — a que levou aos ingleses Tânger e Bombaim — enviuvara em 1685 e aborrecida da côrte de Inglaterra, voltou a Portugal em 1693, habitando sucessivamente os Paços Reais do Calvário, o Palácio dos Condes do Redondo, em Santa Marta, os do Conde de Soure, no Bairro Alto, os dos Condes de Âveiras, em Be1ém. E acabou por resolver — construir casa sua.
   Achamos que fêz muito bem.
   Entrou a Rainha a comprar terrenos a quantos proprietários, que por aqui desfrutavam quintas, hortas e azinhagas, os punham à disposição real. Do Matadouro [actual Praça José Fontana], Estefânia, Gomes Freire, Santa Bárbara e Bemposta de hoje — tudo passou a D. Catarina, que começou a erguer a sua casa neste lugar do Campo da Bemposta em 1694, e já nela habitava em 1702, ainda o edifício não estava concluído. A Carreira dos Cavalos [actual Rua Gomes Freire], ficava-lhe a Norte, acompanhando cêrca e jardins. O Paço não seria sumptuoso, mas merecer cuidados à viúva de Carlos II, que conhecia castelos e palácios de Inglaterra; a Capela, sobretudo, foi enriquecida de obras de arte, algumas trazidas na sua bagagem de rainha-viúva.

Capela e Paço Real da Bemposta [c. 1900]
Paço da Rainha, 31; portas brasonadas com as armas da Rainha D. Catarina de Bragança; entre as duas ergue-se, desde 2002, um busto em bronze da Rainha assente sobre pedestal em pedra, obra da autoria do escultor britânico Tim Fargher, foi oferecida à cidade de Lisboa pela British Historical Society of Portugal, por ocasião da visita da rainha Isabel II a Portugal.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

   Morreu D. Catarina em 1705, e a propriedade passou a seu irmão D. Pedro II, que só lhe sobreviveu um ano. O Paço tornado bem da Corôa foi por D. João V, em1707, doado à Casa do Infantado, tomando dele posse o Infante D. Francisco, falecido em 1752, e passando então a Bemposta para D. Pedro, irmão daquele, depois D. Pedro III. Veio o Terramoto. O Paço da Rainha ou Paço da Bemposta, como indistintamente era conhecido, sofreu bastante; a Capela, que era da invocação de Jesus Maria José, foi quási completamente arruinada. A Casa do Infantado, muito rica, reedificou o Paço com certa largueza, modificando:se sensivelmente a sua aparência. A Bemposta, abandonada, em certos períodos, já antes vinha reclamando obras.

Capela e Paço Real da Bemposta [1863]
Largo do Paço da Rainha
Gravura, in Archivo pittoresco

   Beneficiado o Paço, pôde vir habitá-lo D. Joáo VI, quando regressou do Brasil (1821). Foi aqui que se desenrolou parte das cenas da famosa «Abrilada», em 30 de Abril de 1824, conjura à frente da qual se colocou o irrequieto Infante D. Miguel, e que se malogrou pela intervenção do corpo diplomático, animado pelo embaixador de Luiz XVIII, o Barão Hyde de Neuville.
   (Neuville foi distinguido, logo quinze dias depois, com o título de Conde da Bemposta; um sobrinho de Neuville, que serviu D. Pedro IV nas lutas liberais e casou com uma dama portuguesa, da Casa Subserra, foi, depois, por D. María II, feito Marquês da Bemposta, e o título perdurou em três vidas, extinguindo-se na Casa Rio Maior).
   Depois de D. João VI viveram aqui D. Miguel (1828) e D. Pedro IV (1833). Em 1834 a Casa do Infantado foi abolida, e a Bemposta passou para a Corôa, rras D. Maria II apressou-se a doá-la ao Estado, quere dizer: à Nação.
   Eis porque eu te dizia que por ter comprado e feito, a Bemposta, andou bem a rainha D. Catarina de Bragança. Os ermos povoararn-se, o sítio animou-se, e a Nação ficou com mais um palácio útil.

Capela e Paço Real da Bemposta [c. 1910]
Largo do Paço da Rainha, 31 

Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Não podíamos, Dilecto, fugir a esta divagação, e pena tenho eu — de que tu talvez comparticipes — de não te poder resumir certas cenas da «Abrilada» descritas para França pelo próprio Embaixador Barão de Neuville em relatórios ao seu Ministro dos Negócios Estrangeiros, que era, nem mais nem menos, o grande escritor René de Chateaubriand, e pela Embaixatriz, Maria Roger de Neuville, num diário íntimo. Mas dêsses papéis se apura, e eis o que nos interessa, que êste sítio há cem anos era descampado e, de noite, «lúgubre e medonho».

Ele — o Paço — era a testa coroada de Sant'Ana toda. Perto, campo de ciganos, a Carreira dos Cavalos, o solar dos Mitelos de Meneses, nascidos em Santo Estêvão de Alfama.

Hoje — e desde 1851, por mercê de D. Maria II — é a Escola do Exército [actual Academia Militar]. A frontaria, de linhas aristocráticas da arquitectura de setecentos — eis tudo. Tudo e a Bemposta, a mais linda designação de Lisboa de há duzentos anos.


E fez o Paço Real da Bemposta [risco do arq.º João Antunes], um dos mais lindos espaldares arquitectónicos de Lisboa.
É vê-lo no seu alçado setecentista, recomposto depois do Terramoto [arq. Manuel Caetano de Sousa]. Na sua varanda nobre, no seu pórtico de capela real, no seu duplo escadório decorativo, cortinado de acrotérios. 
É senti-lo na evocação opulenta da Casa do Infantado, nas sombras do Infante D. Francisco, de D. João VI, do irrequieto Infante D. Miguel, que chegou a ser por algumas horas dono de Lisboa, mas que não sabia bem o que queria. 

Capela do Paço Real da Bemposta [c. 1910] 
Paço da Rainha
Na fachada imponente destaca-se o coroamento de platibanda e balaústres, pelo
remate com frontão triangular, decorado no tímpano, encimado por cruz sobre plinto,
e pela varanda central, de balaustrada contracurvada, para a qual se abrem três janelões,
sendo o central rematado por frontão tripartido ostentando as armas reais.
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

No interior a Capela organiza-se dentro de um rectângulo de ângulos arredondados, a nave, com seis capelas laterais, constituindo a do Santíssimo Sacramento [vd. foto abaixo (dir)], pela sua profundidade, uma unidade espacial autónoma, à qual se justapõe a capela-mor. O programa decorativo é inspirado na obra prima do barroco joanino, a Capela de S. João Baptista, da Igreja de S. Roque, mas atribuindo-lhe já um certo gosto rococó tardio, que se abre a manifestações neoclássicas. Merecem, ainda, destaque as pinturas em «trompe l'oeil» de Pedro Alexandrino de Carvalho e a tela do altar-mor, figurando a padroeira (N. S. da Conceição, vd. foto abaixo à esq), atribuída ao pintor italiano José Troni, sob a qual foi colocado um friso de retratos de elementos da família real.
A Capela está classificada como Monumento Nacional. O Paço Real da Bemposta integra a classificação do Campo dos Mártires da Pátria como Imóvel de Interesse Público.

Capela do Paço Real da Bemposta, nave, capela e altar-mor (esq) e Capela do Santíssimo, retábulo [1790-95] (dir) [c. 1962] 
Paço da Rainha
Robert Chester Smith, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. IV, pp. 47-48, 1938.
id., Legendas de Lisboa, p. 87, 1943.
Archivo pittoresco: semanario illustrado - Vol. 6, 1863.

quarta-feira, 8 de agosto de 2018

Joalharia Leitão & Irmão — antigos Joalheiros da Coroa

Este Largo do Chiado, aprazível e portentoso, é um alfobre de história. Estivemos encantados a enumerar e analisar algumas das suas melhores estampas, e só agora demos pelo faiscar dos brilhantes que se engastam nas jóias de alto preço — só para ricaço adquirir! — que se mostram expostas nas montras da antiga Joalharia de Leitão & Irmão, fundada em 1877 por José e Narciso Pinto Leitão, cujo acontecimento mereceu nessa data uma crónica especial de Ramalho. 


É o mais rico estabelecimento do burgo, uma autêntica casa-forte, onde se acumulam grandes riquezas, e que fez luxo em ostentar a divisa «Fornecedor da Casa Real». A parte exterior está revestida de mármores negros, o que levou certo gracioso a chamar a essa tão conhecida casa, o «túmulo do Chiado». 

Joalharia Leitão & Irmão |post. 1910|
Largo do Chiado, 21-23 (actualmente no n.º 16); Rua Nova da Trindade
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

A Joalharia Leitão instalou-se aqui quando artéria que lhe corre do lado nascente, já se chamava Rua Nova da Trindade, assim classificada em 1836. Antes, era Rua do Secretário da Guerra, um alto funcionário de muita nomeada no século XVIII, de nome João Pereira da Cunha Forjaz, morador e proprietário do prédio que antecedeu o actual, que o Terramoto obrigou a reconstruir. 

Joalharia Leitão & Irmão |1910-10-05|
Largo do Chiado, 21-23 (actualmente no n.º 16); Rua Nova da Trindade
Grupo de civis revolucionários aquando do 5 de Outubro
Alberto Carlos Lima, in Lisboa de Antigamente

Um dos antecessores da Joalharia Leitão, foi a Fábrica de Marcenaria de José Aniceto Raposo, talvez de 1810 a 1814, pelo menos. No 1.° andar, funcionou o estabelecimento de banhos de Francisco Geneste, que morreu em 1835; e foi Andrilliat, cabeleireiro da Casa Real, quem tomou a casa e a dirigiu, ao mesmo tempo que exercia a sua principal profissão, vendendo aos clientes toda a espécie de adereços, como chinós, meias-cabeleiras metálicas, elásticas e de pressão; marrafas e crescentes, «tudo chegado de Paris». Causaram sensação, «imersões quentes a 320 réis».

Joalharia Leitão & Irmão |1953|
Largo do Chiado, 21-23 (actualmente no n.º 16); obras de pavimentação
Judah Benoliel, in Lisboa de Antigamente

No dia 1 de Dezembro 1877, o Rei D. Luís atribuiu à Joalharia Leitão & Irmão o título de «Joalheiros da Coroa». A Leitão & Irmão continuou a ser a escolha da Casa Real para a criação de presentes a familiares, amigos e personalidades. A rainha D. Maria Pia foi igualmente uma entusiasta e fiel cliente.
As principais oficinas da Casa Leitão foram construídas em finais do século XIX no pátio de um pequeno palacete no Bairro Alto [vd. imagem abaixo]. Aí se instalaram grandes artistas prateiros que até então trabalhavam em oficinas de “vão de escada”, um pouco por toda a Lisboa. Os modernos meios de fabrico e condições de trabalho foram contribuição decisiva para a manufactura de peças de excepção.
Em 1981, as oficinas de joalharia, originalmente localizadas no primeiro andar da loja do Chiado, foram integradas na oficina do Bairro Alto.
A actual loja do Largo do Chiado foi remodelada no ano 2000 pelo artista Pedro Leitão.
 
Antigas oficinas da Joalharia Leitão & Irmão |c. 1900|
Rua da Gáveas com a Travessa da Espera
Machado & Souza,
in Lisboa de Antigamente
_____________
Bibliografia
COSTA, Mário, O Chiado pitoresco e elegante, 1987.
leitao-irmao.com.

domingo, 22 de abril de 2018

Igreja de São Roque: da Patriarcal à Capela Real de S. João Batista — a Encomenda Prodigiosa

Último passo da jornada de hoje — o lanço monumental e artístico desta Peregrinação: a Igreja de S. Roque, e o Museu de Arte Sacra, seu anexo. A influência da Casa professa dos jesuítas neste bairro, como ainda hoje a projecção da Misericórdia, foi grande, e disso te pudeste aperceber no passo anterior mais por tua atenção e bom aviso do que por minhas letras.

Toque! Toque! Toque!
Vamos a S. Roque.

Igreja de São Roque [Início séc. XX]
Largo Trindade Coelho antigo de S. Roque; Rua S. Pedro de Alcântara
Garcia Nunes, in Lisboa de Antigamente

Ouviste já como de uma ermida, erguida em 1506, nasceu a Casa dos jesuítas e o seu formoso templo começado a erguer, em 1555. Não desejo forçar a nota, mas não quero privar-te de alguns elementos retrospectivos, resumidos ao máximo, segundo o nosso plano. 
Quando neste sítio se erguia apenas a pequenina Ermida de S. Roque, princípios do século XVI, assentou aqui o «Adro da Peste» (fôra a peste que originara a construção do templozito, como te disse), Adro «consagrado por mandado de El-Rei Nosso Senhor (D. João III) em 24 de Maio de 1527 pelo Bispo D. Ambrosío», — o que tudo se interpreta de uma lápide que no local existiu, e se encontra hoje colocada na parede do corredor do edifício da Misericórdia. Vieram os jesuítas; planeou-se o novo templo grandioso (cuja primeira pedra foi lançada pelo Padre jesuíta Nunes Barreto,  Patriarca da Etiópia, e do qual o risco inicial não sabemos ao certo de quem foi-talvez do Padre Diogo Miron —, conhecendo-se apenas que concebia cinco naves. Os trabalhos foram arrastados, até porque voltou a peste a Lisboa, mas em 1573 as paredes estavam de pé. A construção da abóbada constituiu um problema, que afinal Felipe Terzi, já depois de 1580, resolveu, fazendo-a construir em madeira. A fachada, pobre de linhas, austera, quási de construção civil, não diferia muito do que hoje é; tinha a mais uma varanda sôbre a cimalha, e um nicho de S. Roque no tímpano.
O adro era avançado, quási até ao meio da praça, e no ângulo, próximo da entrada da Misericórdia de hoje, abria-se a portaria conventual.  
A Igreja era rica, adornada de boas obras de arte, e constantemente objecto de generosidades régias, especialmente no tempo de D. João V, que fêz construir a opulenta Capela de S. João Baptista. 
O Terramoto causou em S. Roque bastantes estragos-principalmente na fachada, que caiu e arrastou uma parte extrema do tecto —, mas não arruinou sensivelmente o templo; as obras de restauro que se seguiram foram importantes, e, depois, em vários períodos, benefícios e melhoramentos têm sido levados a efeito, mormente em 1862 e 1892. Limpezas e arranjos têm continuado sempre, de resto, e ainda agora S. Roque está recebendo pequenas obras. 

Igreja de São Roque [ant. 1900]
Largo Trindade Coelho antigo de S. Roque
Coluna mandada erguer pela colónia italiana, comemorando o casamento do 

Rei Dom Luís I com Dona Maria Pia de Sabóia em 1862
Garcia Nunes, in Lisboa de Antigamente

A Casa de S. Roque deixou de pertencer à Companhia de Jesus desde a confiscação dos bens dos jesuítas — 19 de Janeiro de 1759 — após a sua expulsão de Portugal. Em 1768, como atrás te disse, todo o edifício, seus bens e terrenos, passaram à Misericórdia, excepto uma parte da cerca arborizada, que chegava aos Restauradores de hoje, e que foi doada em 1765 ao 4.° Conde, l.° Marquês de Castelo Melhor. 
E apesar de os Padres de Santo Inácio terem sido autorizados a regressar em 1830 (D. Miguel), para serem novamente expulsos em 1833 (D. Pedro IV) — a verdade é que a Casa de S. Roque acabara para a Companhia de Jesus.

domingo, 17 de setembro de 2017

Monumento do Senhor Roubado

A origem do nome Odivelas está como o nome de tantas outras freguesias e concelhos de Portugal, envolto numa lenda que tem perpassado pelos séculos. A propósito do nome desta cidade, conta-se que D. Dinis tinha o hábito de deslocar-se à noite a Odivelas ao Mosteiro de S. Dinis e certa noite, sabendo a rainha do que se passava resolveu esperá-lo e quando o rei fazia o seu percurso para o encontro, a rainha interpelou-o e eis que proferiu as seguintes palavras: "Ide vê-las senhor." Pelo que, segundo a lenda, a expressão "Ide vê-las", por evolução, terá dado o nome a Odivelas.


A 11 de Maio 1671 um roubo na Igreja de Odivelas dá origem a um belo monumento, o «Senhor Roubado», que alguns descrevem como sendo a primeira banda desenhada portuguesa, e que levanta muitas pistas sobre a forte presença da Inquisição na região.
O monumento do Senhor Roubado, tendo sido construído em três fases distintas, entre 1744 e 1747, correspondendo à última os azulejos da parede fundeira, que relatam toda a odisseia do roubo e a respectiva pena aplicada a António Ferreira.
A construção do primeiro padrão remonta a 1744 e deve-se à iniciativa de frei António dos Santos Prazeres que, às suas custas e beneficiando de diversas colaborações, decidiu substituir a antiga cruz, que assinalava o local onde haviam sido enterradas as partículas sagradas, por um cruzeiro e um pináculo. Logo depois, em 1745, foi decidido complementar a primeira intervenção, através de quatro colunas toscanas e respectiva abóbada, patrocinada pelo Cardeal Patriarca e paga com as esmolas dos fiéis. A mensagem iconográfica foi bastante alterada com esta intervenção, colocando a tónica na "exaltação da Fé na doutrina cristã como uma virtude da alma essencial para se chegar à Salvação". Contribuem para esta leitura a representação da pomba do Espírito Santo, do Crucifixo, símbolo de Jesus, e do vaso sagrado, símbolo de Cristo, aludindo, no seu conjunto, à Santíssima Trindade. Da mesma forma se compreendem as colunas toscanas evocativas dos quatro Evangelistas, que suportam a cobertura com a figura da Fé, bem como os fogaréus aos cantos, cuja chama é, também, representativa da Fé.
Para melhor ilustrar a antiga e curiosa história deste monumento laçamos mão da velhinha  revista científica de grande prestígio nacional e internacional, "O Arqueólogo Português” publicada em 1915, num capítulo intitulado «Azulejos datados». Reza assim:

À saída das portas de Carriche, junto da estrada municipal que leva a Odivelas, do lado esquerdo, encontra-se um pequeno espaço trapezoidal lajeado, delimitado no mais largo topo por um muro coberto de azulejos, e no outro topo e nos restantes lados por gradaria de ferro e um muro baixo. 
Ao centro, perto da parede azulejada, levanta-se um oratório de pedra, sob cuja abóbada crucial aguentada em quatro colunas de mármore claro se abriga uma imagem do crucificado. Do lado esquerdo, separados do oratório, um púlpito pequeno e um orifício circular aberto no lajedo, a modo de boca de poço; do lado direito apenas um marco de pedra, semelhante aos frades dos portões. 
É este o local conhecido pelo «Senhor Roubado» onde, em fins do séc. XVII se desenrolou uma série de acontecimentos, cuja descrição apresentará. bem claramente um dos aspectos do religiosismo da época.

Monumento do Senhor Roubado [c. 1903]
Rua Pedro Álvares Cabral; Rua do Senhor Roubado, Odivelas
Fotografia anónima, in Lisboa de Antigamente

Um tal António Ferreira, de Odivelas, trabalhador e moço de soldada, roubou a igreja do povo e foi esconder parte dos paramentos e vasos sagrados no lugar onde hoje se levanta o monumento e que ao tempo era um pedaço de vinha chamado os Caniços, a beira da estrada velha seguia para Lisboa. Descoberto o furto, preso e condenado o seu autor, a piedade dos fiéis fez crigir mais de meio século depois, aquela aparatosa fabrica, ainda hoje quási integralmente conservada. Comecemos a sua descrição.
No pedestal da cruz de pedra do oratório lêem-se primeiro os seguintes versos:
AQVI
OCCVLTOV A INGRATIDÃO
DO MAIOR ROVBO A INSOLÊNCIA
MAS LEVANTO V A CLEMENCIA
A MEMOBIA DO PERDÃO
 E logo por baixo: (na parte de trás do padrão, actualmente ocultada pela parede)
 ESTE PIADOZO PADRAO ⭙ COM ETERNA DOR SE LEA
AQVI VM ATROS LADRÃO ⭙ ÁS DUAS DA NOVTE E MEA
O CEV ENTERROV NO CHÃO
CAZO DE ODIVELLAS . AN . 1671
Ainda por baixo destas inscrições se encontra uma outra, que marca a época da construção do monumento, 1744. 
No muro azulejado, que forma o fundo do estranho monumento, abre-se ao centro uma porta hoje entaipada, em cuja verga se lê:
LOVVADO
SEIA O SANTÍSSIMO
SACRAMENTO E A TRINDADE
DA TERRA, JESVS, MARIA, JOZE
P. ALMAS P. N. A. M.
ESTA. O. FEITA T CÕ ESMOLAS DOS FIEIS. 1744.
o que nos indica com precisão a data dos azulejos que foram aplicados na obra. 
Aparecem divididos em quadros — como se de uma banda desenhada dos tempos modernos se tratasse —, seis de cada banda da porta, em duas ordens sobrepostas.
Sob eles, separado por uma linha de rectângulos amarelos, vem um lambris de outros azulejos de figura avulsa, com os cantos todos sobrecarregados de cinco pintas sôbre uma cruz riscada. Encostados as ombreiras da porta estão dois grandes painéis com figuras alegóricas de mulheres, semelhantes aos que vemos, por exemplo, nos ombros da capela da Senhora da Saúde, de Montemor de Loures.

Monumento do Senhor Roubado [c. 1900]
Rua Pedro Álvares Cabral; Rua do Senhor Roubado, Odivelas
 A parede desenvolve-se atrás do cruzeiro e apresenta-se totalmente decorada com azulejos
Fotografia anónima. in Lisboa de Antigamente

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