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domingo, 21 de setembro de 2025

Largo Silva e Albuquerque que foi Rua dos Canos

Não tem o bairro da Mouraria — de tão ressonante nome — o fundo sólido lisboeta do de Alfama. Não é, porém, menos característico, embora o seu pitoresco se concentre apenas em três ou quatro artérias buliçosas. Começou a povoar-se logo depois da tomada de Lisboa em 1147, quando D. Afonso Henriques para aqui atirou os mouros «forros», que ocuparam as encostas das Olarias e dos Lagares, as abas do Castelo, pelo lado N., descendo até ao vale, que é a Praça do Martim Moniz de hoje.
 
Ora, aproximando-nos do cabo da jornada, entremos no Largo Silva e Albuquerque [hoje Praça do Martim Moniz] Ponde avulta a face poente do casarão Alegrete — condenado à demolição, e muito bem. Ali, na parte que abre para a Rua da Palma — recorda o ilustre Norberto de Araújo — existiu até há dois anos [c. 1936] uma estreita serventia rasgada pela demolição já iniciada neste sítio, em obediência ao plano urbanista municipal.

Largo Silva e Albuquerque que foi Rua dos Canos |c. 1900|
Aguadeiro junto ao Palácio do Marquês de Alegrete.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

O sítio é feio, desagradável, sem pitoresco, ainda que com signıficação bairrista, nos seus cafés de tipo antigo, botequins e tavernas de peixe frito, durante o século passado de fama equívoca.
O dístico foi substituído, em 1885, por este actual de Silva e Albuquerque, em memória de José Maria da Silva e Albuquerque, operário muito culto, um apóstolo da instrução primária gratuita, falecido em 1879.

 

Largo Silva e Albuquerque que foi Rua dos Canos |1938-10-12|
Palácio do Marquês de Alegrete, portal sul-poente.
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

O Palácio dos Marqueses de Alegrete foi construído pelos condes de Vilar-Maior, no século XVII, sobre um lanço da muralha (da cerca de D. Fernando) e sobre a porta da Mouraria. Depois, elevado o conde de Vilar-Maior ao título de Marquez de Alegrete, se ficou chamando á porta da Mouraria — Arco do Marquez de Alegrete, nome que ainda conserva, e dando-se também o de «Rua do Arco do Marquez de Alegrete, à que d'esta porta vae ao Largo do Poço do Borratem».
(in Portugal antigo e moderno, 1873)

Largo Silva e Albuquerque com a Rua da Palma em fundo |1946|
Palácio do Marquês de Alegrete (demolições)
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, Vol XV, pp. 221, 1936.
ARAÚJO, Norberto de Peregrinações em Lisboa, vol. III, pp. 78-79, 1938.

sexta-feira, 29 de agosto de 2025

Praça do Martim Moniz: os vendedores de manjericos e o Mundial

A tradição conta-nos que Martim Moniz era um dos cavaleiros de D. Afonso Henriques que em 1147, na conquista de Lisboa, se atravessou numa porta da muralha do Castelo dos Mouros, impedindo o seu fecho e, sendo de imediato morto pelos sitiados enquanto garantia a abertura necessária para a entrada dos exércitos cristãos conquistarem a cidade.
Em 1908, o herói Martim Moniz ganhou uma placa evocativa na porta do seu sacrifício e, em 1915, ficou também imortalizado na toponímia da Mouraria já que a Rua de São Vicente à Guia – que se situava entre a Rua da Mouraria, Rua do Arco do Marquês de Alegrete e a Calçada do Jogo da Pela – se passou a denominar Rua Martim Moniz, pelo Edital de 14 de Outubro de 1915. Contudo, as alterações urbanísticas do local iniciadas a partir da década de 30, a pretexto de ligar a Avenida Almirante Reis ao Rossio, acabaram por fazer desaparecer o Mercado da Figueira, parte da Mouraria e este arruamento. [1943-1974 - Actas da Comissão Municipal de Toponímia de Lisboa]

 Praça do Martim Moniz |1961|
Venda de manjericos.
Augusto de J. Fernandes, in Lisboa de Antigamente

Quando o Hotel Mundial foi inaugurado, em 1958, tinha o lobby virado para as traseiras da Igreja de São Domingos e para a Barros Queirós, ruela muito comercial que leva ao Rossio. Depois, o Mundial expandiu-se, quase ocupou o quarteirão, triplicou os quartos e abriu-se para o Martim Moniz. {Fernandes: 2024]

Praça do Martim Moniz |1964|
Festas populares de Junho: venda de manjericos junto ao Hotel Mundial.
Artur Goulart, in Lisboa de Antigamente

domingo, 17 de março de 2024

Antiga Rua Martim Moniz antes das demolições efectuadas na Baixa da Mouraria

Na Baixa da Mouraria, onde o passado e o presente se entrelaçam, encontramos o Martim Moniz, encravado entre o Borratém, a Rua da Mouraria, o começo da Rua da Palma, a encosta que leva ao Hospital de S. José, o início da Rua de S. Lázaro e as traseiras de S. Domingos. Com as demolições na Baixa da Mouraria, parte da Rua da Palma foi derrubada e, com ela, o velho Teatro Apolo, antes chamado do Príncipe Real (D. Carlos), apenas pouparia o bairro da Mouraria e a Ermida de Nossa Senhora da Saúde.

A ocupação humana deste lugar remonta a 8 mil anos atrás como povoado neolítico da encosta de Sant ' Ana, situado na margem do Regueirão dos Anjos, no vale da Mouraria. Porém, somente a partir da Idade Média a fixação humana neste local se tornou mais significativa. No século XIV a área correspondente à praça actual era atravessada pela Cerca Fernandina (1373-1375), estrutura muralhada que delimitava a cidade e da qual ainda hoje restam vestígios na zona, como a Torre do Jogo da Péla.

Antiga Rua Martim Moniz antes das demolições efectuadas na Baixa da Mouraria |c. 1949|
Actual Praça de Martim Moniz
Estúdio Horácio Novais, in Lisboa de Antigamente
Nota(s): o local e a data da foto não estão identificados no arquivo (FCG)

A intenção de unir o núcleo histórico à cidade em expansão, e as medidas higienistas e embelezadoras do regime político de então, determinaram as demolições empreendidas nas décadas de 40 e 50 do século XX. Desaparecia uma dezena de ruas, becos e pátios e com eles uma parte significativa da memória da cidade.

Antiga Rua Martim Moniz antes das demolições efectuadas na Baixa da Mouraria |c. 1949|
Actual Praça de Martim Moniz
Estúdio Horácio Novais, in Lisboa de Antigamente
Nota(s): o local e a data da foto não estão identificados no arquivo (FCG)

domingo, 10 de dezembro de 2023

Panorâmica do Martim Moniz

Em 1908 o herói Martim Moniz ganhou uma placa evocativa na porta do seu sacrifício e, em 1915, ficou também imortalizado na toponímia da Mouraria já que a Rua de São Vicente à Guia – que se situava entre a Rua da Mouraria, Rua do Arco do Marquês de Alegrete e a Calçada do Jogo da Pela – se passou a denominar Rua Martim Moniz, pelo Edital de 14 de Outubro de 1915.
Na década de 90 do século XX, a edilidade lisboeta procurando preservar a toponímia mais histórica e tradicional da zona, ao arruamento já conhecido vulgarmente por Largo do Martim Moniz – situado entre a Rua da Palma e a Rua do Arco do Marquês de Alegrete - atribuiu o topónimo Rua Martim Moniz, por Edital de 30 de Abril de 1991.

Panorâmica do Martim Moniz |1976|
Miradouro de Nossa Senhora do Monte

Francisco Leite Pinto, in Lisboa de Antigamente

Passados 6 (1997) anos e concluída a recuperação urbana desta zona levada a cabo pela Câmara Municipal de Lisboa, determinou esta que o espaço delimitado pela Rua da Senhora da Saúde, Rua Fernandes da Fonseca, Rua da Palma e Rua do Arco do Marquês de Alegrete, onde se situava também a Rua Martim Moniz se passasse a denominar Praça Martim Moniz.

Panorâmica do Martim Moniz |1976|
Francisco Leite Pinto, in Lisboa de Antigamente

sexta-feira, 17 de junho de 2022

Rua Dom Duarte

Pelo edital da CML de 3 de Novembro de 1949, o troço da Rua dos Fanqueiros, compreendido entre a Praça da Figueira e a Rua da Palma, passou a denominar-se: Rua de Dom Duarte.

Dom Duarte, filho de D. João I, Mestre de Avis e de D. Filipa de Lencastre, nasceu em Viseu, a 31 de Outubro de 1391 e faleceu em Tomar, a 13 de Setembro de 1438. Foi o décimo primeiro rei de Portugal e o segundo da segunda dinastia tendo ascendido ao trono com a morte de seu pai em 1433.
Em relação à política interna promulgou a Lei Mental, medida de centralização que se destinava a defender o património da coroa. O seu curto reinado, de apenas cinco anos, ficou também marcado pela passagem do cabo Bojador por Gil Eanes, feito que permitiu uma mais rápida exploração da costa africana.
Com o apoio da sua mulher a rainha D. Leonor de Aragão e dos seus irmãos infantes D. Fernando a D. Henrique e a oposição dos irmãos infantes D. Pedro a D. João, lançou-se na política de conquistas em Marrocos, que se saldou pelo desastre militar de Tânger e pela morte de D. Fernando no cativeiro.

Rua Dom Duarte |195-|
Ao fundo nota-se a Rua da Palma; à dir., a extinta Rua Silva e Albuquerque; o sentido do trânsito foi alterado durante
o período em que tiveram lugar as demolições na Mouraria (para construção da Praça Martim Moniz).

Judah Benoliel, 
in Lisboa de Antigamente

domingo, 1 de agosto de 2021

Ermida da Saúde

Eis-nos, agora, diante da Igreja de N. Senhora da Saúde, a da famosa procissão que constituía um dos encantos populares religiosos de Lisboa do século passado [XIX], e que perdurou até à República. 

Neste sítio se elevava no século XVI, logo no começo (1506), uma ermida da invocação de S. Sebastião, advogado contra as pestes, construção que foi da iniciativa dos artilheiros da guarnição de Lisboa.
Em 1596, por deliberação do Arcebispo D. Miguel de Castro, a igrejinha converteu-se em paroquial de S. Sebastião (da Mouraria), desanexada da de Santa Justa, e assim o bairro tomou independência como freguesia. (...)

Ermida de Nossa Senhora da Saúde [190-]
Praça do Martim Moniz; Rua da Mouraria
José Artur Bárcia,
in Lisboa de Antigamente
Ermida de Nossa Senhora da Saúde [ant. 1910]
Praça do Martim Moniz; Rua da Mouraria
Procissão de Nossa Senhora da Saúde
Alberto Carlos Lima,
in Lisboa de Antigamente

A sede da paróquia em 1646 foi levada para a Igreja do Socorro; a actual Igreja da Saúde continuava a chamar-se de S. Sebastião, sem honras de Paroquial, mas muito mais representativa. 
Só em 1662 a Igreja de S. Sebastião passou a chamar-se de N. S. da Saúde, quando a imagem foi transferida do Colégio de Jesus [ou dos Meninos Órfãos], de que te falei, aqui a dois passos, para a actual «residência». E de Nossa Senhora da Saúde passou a ser até hoje [1938]. S. Sebastião esqueceu.
Pelo Terramoto o templo recebeu dano, mas pouco, porque logo dois anos depois estava restaurado e aberto ao público.»
A Ermida — melhor é classificá-la assim — constitui um dos restos piedosos de Lisboa velha, embora os artilheiros hoje já se não preocupem com a devoção. Oferece uma certa ingenuidade; lembra uma capela de aldeia, pois não lembra?

Tem uma só nave, e mais não precisa. Os altares laterais são os de Nossa Senhora piedade e de Cristo Crucificado, e as imagens são em pintura e não escultura, obra do pintor setecentista António Machado Sapeiro. Na capela-mor vês as imagens de Santo António, S. Sebastião, de roca, e sempre muito alindada. O retábulo que notas é do escultor Brás de Oliveira. São interessantes os azulejos oitocentistas da Igreja.

Aí tens, Dilecto, o que é a Igreja de que falam os versos de um fado, até há dois anos, muito em voga:
Há festa na Mouraria
é dia da Procissão
da Senhora da Saúde...
Ermida de Nossa Senhora da Saúde [ant. 1910]
Praça do Martim Moniz; Rua da Mouraria
Saída do andor com a imagem de Nossa Senhora da Saúde
Alberto Carlos Lima,
in Lisboa de Antigamente

Mas na Mouraria, hoje, já não há procissão. A procissão da Saúde era dos mais curiosos espectáculos da Lisboa religiosa, com um carácter diverso da dos Passos e da do Corpo de Deus ou S. Jorge.
A primeira vez que se realizou foi em 20 de Abril de 1570. A última em 20 de Abril de 1910. Saia de manhã cedo da Mouraria, ia à Sé onde se cantava um Te-Deum, e depois a S. Domingos, onde havia sermão. Recolhia ao entardecer à Mouraria — e era de ver-se.
Na procissão iam as três imagens citadas, de S. Sebastião, dos Artilheiros, e da Saúde, ambas da mesma confraria, e a de Santo António que andou sempre ligado a S. Sebastião aqui no bairro, de outra irmandade. Música religiosa, bandas militares, filarmónicas locais; foguetes, sinos, alarido típico do sítio; «anjinhos», soldados vestindo capa vermelha sobre a farda, e, nos seus últimos trinta anos, o Infante D. Afonso, como figura de destaque, simpática ao povo. O Capelão, a Amendoeira, o Outeiro, o Coleginho, os Álamos, despejavam-se sobre a Mouraria: quadro de costumes lisboetas dos mais sugestivos que pode imaginar-se, sem a grandeza da procissão do Corpo de Deus, nem a compostura fidalga da dos Passos da Graça — plebeia, original, bairrista, enternecedora.

Enquadramento da Ermida da Saúde na Pç. do Martim Moniz depois das demolições na Mouraria [post. 1949]
A igreja actual é de pequenas dimensões e data do século XVIII. É um símbolo da arquitectura religiosa barroca embora a
sua fachada principal e simples seja atribuída ainda ao mestre João Antunes dos inícios de 1700. 
Artur Pastor[?], in Lisboa de Antigamente

N.B.  Os artilheiros da Guarnição de Lisboa, denominados por bombardeiros, mandaram erguer em 1505, uma pequena ermida dedicada a São Sebastião, padroeiro e advogado da peste, em cumprimento da promessa feita ao mártir pelo fim da epidemia que nesse ano se estendeu por toda a cidade e que matou muitos habitantes.
Em Outubro de 1569, o rei D. Sebastião devido a mais um surto epidémico que matou milhares de pessoas, pede ao Senado da Câmara de Lisboa a construção de uma igreja maior, consagrada a São Sebastião, e em Dezembro, ordena que a sua edificação seja efectuada na Mouraria perto do local da antiga ermida.

Ermida de Nossa Senhora da Saúde, interior [1902-01-25]
Praça do Martim Moniz; Rua da Mouraria
O culto a Nossa Senhora da Saúde é muito importante na cidade de Lisboa e anualmente realiza-se a procissão em
agradecimento e protecção à Virgem, tradição que se mantém desde o século XVI.
Machado & Souza, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. III, pp. 76-77, 1938.
SANTANA, Francisco e SUCENA, Eduardo (dir.), Dicionário da História de Lisboa, 1.ª ed., Sacavém, Carlos Quintas & Associados – Consultores, 1994, pp. 874-876.

sexta-feira, 25 de junho de 2021

Rua da Palma, 43: Casa Travassos

É aquela rua onde na sua parte mais estreita — a que vai do Socorro à Rua dos Fanqueiros — faz com que o lisboeta experimente a sua paciência, quando por ela passa, quer de eléctrico, quer de automóvel, tal a lentidão com que o trânsito se escoa por ali.==
(Luís Pastor de Macedo, «Lisboa de lés-a-lés», vol. III, 1981)

Casa Travassos, que vendeu a Sorte Grande |1938|
Rua da Palma, 43 (antes das demolições, hoje Praça de Martim Moniz).
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

domingo, 2 de maio de 2021

Igreja de São João de Deus

No sítio onde hoje se encontra a Igreja de São João de Deus, erguia-se outrora uma vacaria  do abastado proprietário João do Outeiro — que deu nome a um arruamento na velhinha Mouraria desde 1552 [Araújo: 1938]. Era um espaço riscado pela Estrada das Amoreiras e Rua Alves Torgo e entremeadas de outros caminhos estreitos.

Inaugurada em 1953, sob projecto do arq. António Lino, destacam-se duas particularidades: a sua estrutura em três naves separadas, convergentes para o altar-mor, iluminado por uma torre central; e ter recolhido parte do espólio da antiga Igreja do Socorro, destruída aquando das demolições do Martim Moniz (várias alfaias de culto e mobiliário, incluindo o arcaz em uso na sacristia). 

Praça de Londres, à direita da imagem a Igreja de São João de Deus [post. 1953]
Praça de Londres; Rua Brás Pacheco
António Passaporte, in Lisboa de Antigamente

Merece ainda referência, o seu acervo artístico contemporâneo composto pela escultura de Leopoldo de Almeida e de Soares Branco — várias estátuas, incluindo a do Santo Padroeiro e dois arcanjos suspensos na parede principal exterior — pela pintura de Domingos Rebelo (tríptico do altar-mor, com episódios da vida de S. João de Deus) e pela cerâmica de Jorge Barradas — relevo em cerâmica colorida sobre a pia baptismal, representando o baptismo de Cristo.

Igreja de São João de Deus [1959]
Praça de Londres; Rua Brás Pacheco
Armando Serôdio, in Lisboa de Antigamente

Na Época da construção, António Lino explicou o seu desejo de aproximar os fiéis do altar, vencendo a afastamento obrigatório que existia em relação à assembleia, circunstância que só foi alterada uma década depois com o Concílio Vaticano II. [paroquiasaojoaodeus.pt]

Igreja de São João de Deus [post. 1953]
Praça de Londres; Rua Brás Pacheco
Artur Pastor, in Lisboa de Antigamente

sexta-feira, 22 de janeiro de 2021

Chafariz do Socorro

Chafariz existente no antigo Largo do Socorro derribado na consequência do plano de demolições da Mouraria nos idos de 1940-50 e que deram lugar à actual Praça Martim Moniz. Ao fundo observam-se os prédios da Rua de S. Lázaro na esquina com a Rua da Palma.

Chafariz do Socorro [194-]
Antigo Largo do Socorro
Fernando Martinez Pozal, in Lisboa de Antigamente
Antigo Largo do Socorro [c. 1950]
Ao centro nota-se o Chafariz do Socorro e, á dir., a R. José António Serrano.
Judah Benoliel, in Lisboa de Antigamente

sexta-feira, 17 de abril de 2020

Venda das amêndoas em Sexta-feira Santa

Dia de sol. Mulheres veladas de negro em visita aos templos. Mais bichas a formigar pelos passeios do Chiado. Desta feita, bichas gulosas roendo amêndoas, saboreando o açúcar que vai faltando no café. E o corrupio passa, dá a volta à Baixa, alastra-se pelo Rossio e entra em S. Domingos. A quinta-feira santa é toda a Lisboa tradicional cheirando a rosmaninho. Que lindo dia de sol!
(in Arquivo nacional, Emprêsa Nacional de Publicidade, 1942)

Venda das amêndoas em Sexta-feira Santa |15 de Abril de 1927|
Cruzamento das antigas Ruas da Palma e do Martim Moniz (antiga zona da Guia)
Estas artérias foram extintas e substituídas pela actual Praça do Martim Moniz na década de 1940-50.
Fotógrafo: não identificado, in Lisboa de Antigamente

Crianças junto da tômbola das amêndoas da Casa Pia de Lisboa [1907-04]
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

Rua José António Serrano que foi Cç. do Colégio

Colégio (Calçada Nova do) — Esta categoria foi acompanhada do sufixo «Nova», para diferençar a via pública a que está aplicada a denominação correspondente, de outra que a teve igual, e hoje é denominada «José António Serrano» , com a categoria de Rua.
(BRITO, Gomes de) Ruas de Lisboa. Notas para a história das vias públicas, 1935)

Rua José António Serrano |1951|
Antiga Calçada do Colégio
Do lado esquerdo, o antigo Largo (e rua) do Socorro demolidos para urbanização
e rectificação da Rua da Palma e posterior abertura da Praça Martim Moniz na década de 1950.
Judah Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Com a legenda «Doutor Tratadista, Osteólogo, 1851–1901» foi o nome de José António Serrano fixado na que era a Calçada do Colégio, por deliberação camarária de 6 de Dezembro de 1906.
José António Serrano (1851-1904), foi Lente da Escola Médica e o primeiro cirurgião português que obteve a cura de um tumor sólido do ovário (por meio de laparatomia, em 1889) e a realizar uma histerectomia abdominal. Defendera tese em 22.12.1875 e três anos depois foi nomeado preparador e conservador do Museu de Anatomia da Escola sendo também cirurgião do Banco do Hospital de São José e, a partir de 1895, director de enfermaria do Hospital do Desterro bem como, em 1901, director da Repartição de Estatística do Hospital de São José. Foi lente substituto em 1880 de Anatomia Descritiva e lente proprietário em 1889, para além de ter regido na Escola de Belas Artes a cadeira de Anatomia Artística e Higiene de Edifícios. As suas obras essenciais foram «Manual Sinóptico de Anatomia Descritiva» e «Tratado de Osteologia Humana». [cm-lisboa.pt]

Rua José António Serrano |ant. 1949|
[Antes das demolições do Martim Moniz]
Antiga Calçada do Colégio [dos Jesuítas de Santo Antão-o-Novo, hoje Hosp. S. José, cerca;
Miradouro de Nossa Senhora do Monte.
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

quarta-feira, 29 de maio de 2019

Antiga Igreja do Coração de Jesus

Quási defronte do antigo Convento de Santa Marta temos a Igreja do Coração de Jesus — recorda-nos Norberto de Araújo — , cuja paroquial foi criada em 1770 com o orago de Santa Joana, na Igreja do vizinho Convento de Santa Joana, passando depois (1780) para o Hospício das Carmelitas, na Rua de Santa Marta.


O templo paroquial do Coração de Jesus só foi erguido neste local em 1790 a esforços, sobretudo, do Conde de Redondo; foi arquitecto Manuel Caetano de Sousa. A inauguração realizou-se a 30 de Maio. Entre 1877 e 1880 a Igreja recebeu restauros. 

Rua de Santa Marta |1944|
Ao fundo vê-se a antiga Igreja do Coração de Jesus, situava-se em frente ao Convento de Santa Marta, hoje Hospital de Santa Marta.
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

A paroquial do Coração de Jesus é pobre, embora simpática. Possue no corpo da Igreja duas capelas por lado; à direita as de N. Senhora de Fátima e da Sagrada Família, à esquerda de N. Senhora das Dores e de S. Miguel. No altar da Capela-mór vêem-se sobre o sacrário do SS. as imagens do Sagrado Coração de Jesus e o S. Coração de Maria; nela se ostenta um quadro do orago da freguesia devido a Cirilo Wolkmar  Machado. O teto é de Pedro Alexandrino.



Igreja do Coração de Jesus |195-|
Rua de Santa Marta
Mário de Oliveira, in Lisboa de Antigamente
 


Igreja do Coração de Jesus |1956|
Retábulo do capela-mor, de Volkmor Mochado
Fotografia anónima, in IL



A igreja foi demolida na década de 1960 e substituída de outra, com a mesma invocação, edificada na Rua Camilo Castelo Branco.

Igreja do Sagrado Coração de Jesus |195-|
Pormenor do tecto da autoria de Pedro Alexandrino
Armando Serôdio, in Lisboa de Antigamente

N.B. Esta zona da cidade era servida pela Carreira de eléctricos Nº 6 RESTAURADORES-PRAÇA DA FIGUEIRA. Foi inaugurada em 1905, com o percurso inicial entre o Rossio e a R. Gomes Freire. Foi suprimida em 1960.
Percurso: Praça dos Restauradores, Av. da Liberdade, Rua Barata Salgueiro, Rua de Santa Marta, Rua Conde Redondo, Rua Gomes Freire, Campo dos Mártires da Pátria, Rua de S. Lázaro, Rua da Palma (sentido inverso, Poço do Borratem), Largo Martim Moniz e Praça da Figueira.
____________________________________________________
Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIV, pp. 90-91, 1939.

sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

Castelo de S. Jorge: Porta (ou Portão) do Espírito Santo

Queria começar a legenda deste jeito: 

«Era uma vez uma cidade de mouras e valis...». E era. 

Foi assim a Lisboa sarracena que sucedeu à dos godos depois que se afogou no Guadalete a estrela de D. Rodrigo. Lisboa era a Alcáçova, a Kssaba mourisca, ninho de águias que fora romano e godo — o Castelo de hoje.  [...]
E lá passa ainda, esgueirando-se, e bem se vê no seu albornoz alvadio, o derradeiro mouro, talvez o filho do vali, que logrou escapar-se ao primeiro dos cavaleiros cristãos, e há oitocentos anos, todas as noitinhas, espera que o vento lhe traga desde as almenaras africanas — a canção do almuadin.

E... «era uma vez uma cidade de mouras e valis...».


De acordo com o olisipógrafo Norberto de Araújo, tem o Castelo de S. Jorge — monumento nacional (séc. X) — sete portas: uma servindo a freguesia civil, outra dando acesso do exterior do bairro do Castelo ao «Passeio», três ligando a freguesia civil ao recinto monumental, e duas abrindo da antiga «Praça Nova» para o «Passeio». [vd. planta esquemática]

Castelo de S. Jorge: Porta ou Portão, do Espírito Santo [1906]
Esta Rua das Cozinhas que nasce junto ao nº 37 da Rua do Espírito Santo é uma artéria que surgiu após o Terramoto e recorda as cozinhas do Paço de Alcáçova medieval.
Machado & Souza, in Lisboa de Antigamente

A Porta ou Portão, do Espírito Santo, situa-se no topo da Rua deste nome, já na Rua das Cozinhas, de perfil ogival e arestas chanfradas, rematado o arco por esfera armilar de D. Manuel, e em cujos muros laterais se rasgam, de um lado onze seteiras, e do outro dezassete, vendo-se, embebida no muro exterior, do lado esquerdo, uma pedra de armas reais do tempo de D. Afonso III [a primordial construção é árabe]; esta porta, com portão de ferro, conduz à antiga «Praça Nova», terreiro a Nascente do Castelejo, e está normalmente fechada.

Castelo de S. Jorge: Porta ou Portão, do Espírito Santo [c. 1900]
Ao alto ostenta a esfera armilar de D. Manuel e, a esq., as armas 
portuguesas do tempo de D. Afonso III.
Alberto Carlos Lima, in Lisboa de Antigamente

Nesta plana a parle central, a branco, corresponde a lodo o recinto do Monumento, incluindo as actuais explana­das, a antiga Cidadela ou Alcáçova, o Castelejo, marcado e traço grosso negro, a muralha circundante marcada a traço mais fino, e a zona do «Passeio», assinalado a verde. Siga-se o texto, referenciado por números e por letras e círculos azuis. 

— Porta de S. Jorge (A) [já falámos dela aqui]
— Porta de Santo André (B)
— Porta  do  Sul  (C)
— Porta ou Portão, do Espírito Santo (D)
— Portão de Santa Cruz (E) [aqui]
 — Porta do Norte (F)
 — Porta de Martim Moniz (G) [já falámos dela aqui]


Planta esquemática do Castelo de S. Jorge
A  Porta ou Portão, do Espírito Santo está assinalada a vermelho,
as outras seis portas, a azul, e o «Passeio» a verde
.
ARAÚJO, Norberto de, in Inventário de Lisboa

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Legendas de Lisboa, pp. 10-22, 1943.
ARAÚJO, Norberto de, Inventário de Lisboa: Monumentos históricos, 1944.

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Os «Canos da Mouraria»

O sítio é feio, desagradável, sem pitoresco, ainda que com significação bairrista, nos seus cafés de tipo antigo, botequins e tavernas de peixe frito, durante o século passado de fama equivoca.


Esta zona na antiga freguesia do Socorro fazia parte de um dédalo de arruamentos que foram alvo do camartelo camarário, cerca de 1940-50, para dar lugar à "moderníssimo" Praça do Martim Moniz [vd. carta topogáfica anotada]. O local era outrora conhecido como os «Canos da Mouraria» como nos conta, em 1938, mestre Norberto de Araújo:

Beco  dos  Álamos |c. 1940|
Esta serventia começava na Rua Silva Albuquerque e findava
na Rua do Arco do Marquês de Alegrete, que se vê ao fundo
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Tudo isto — que é um dédalo — eram os canos da Mouraria, que transmitiram o nome às nossas contemporâneas Travessa, Beco e Rua dos Canos, de dístico substituído em 1885, por este actual de Silva e Albuquerque, operário muito culto, um apóstolo da instrução primária gratuita, falecido em 1879.
Como já disse toda esta área foi alagadiça, depois de ter sido um verdadeiro rio, e assim por aí acima, pelo Benformoso e Anjos, até Arroios.
No século XVI isto por aqui eram os «Canos de S. Vicente» (da porta de S. Vicente), e no século seguinte «Canos da Mouraria».

Beco  dos  Álamos (esq,), ao fundo o arco de ligação ao Beco da Póvoa; (dir.) Rua dos Vinagres |c. 1940|
A Rua dos Vinagres começava na Rua dos Álamos e findava no Largo de Silva e Albuquerque
Fotografo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Estas horríveis serventias, Beco da Póvoa, Rua dos Vinagres (onde havia a «póvoa» dos «vinagreiros»), Rua dos Álamos, já de 1550, e mais vielas, eram tudo — os «Canos».
E esses canos eram umas valas abertas no leito da rua, escoantes das águas que, no vale, corriam das encostas de Sant'Ana e do Castelo, e vinha já de Arroios. Em 1840 ainda aqui havia sumidouros, cobertos de grades, como os do Rossio, nos passeios laterais.

Beco  da  Póvoa |c. 1940|
Este insignificante
beco ligava, através de um arco (ao fundo) com o Beco dos Álamos, a
Rua do Arco do Marquês de Alegrete ao Largo de Silva e Albuquerque
No século XVI era denominado Beco da estalagem das moças, ou do mouco.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Rua dos Álamos, demolições |c. 1950|
Perspectiva tomada da Rua do Arco do Marquês de Alegrete
Judah Benoliel,in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. III, p. 79, 1938.
COSTA, António Carvalho da (Pe.), Corografia portuguesa, e descripçam topografica do famoso reyno de Portugal..., vol, III,  1706-1712.

domingo, 12 de março de 2017

Palácio (arco) do Marquês de Alegrete

O Palácio do 1º Marquês de Alegrete, que o mandou construir em 1694, e ali existiu até 1946 junto à porta de São Vicente da Mouraria. Arruinado pelo terramoto de 1755, deixou de ser habitado pelos seus proprietários e foi alugado a modestos inquilinos que ali fizeram estabelecimentos comerciais e industriais.
Tinha o palácio três frentes, duas para locais já desaparecidos: o Largo Silva e Albuquerque e a Rua Martim Moniz, e a terceira para a Rua da Mouraria. Em 1946 foi demolido para dar lugar à actual Praça Martim Moniz.


O velho Palácio do Alegrete que teve certa aura na Lisboa de setecentos — relembra o olisipógrafo Norberto de Araújo —, é hoje [1938] uma ruína, pouco mais que um pardieiro, condenado à demolição, mas onde estão instalados ainda estabelecimentos de vária natureza e casas de habitação.

Palácio (arco) do Marquês de Alegrete  |ant. 1946]|
Rua da Mouraria e Rua Martim Moniz (à dir.); ao  fundo a Calçada do Jogo da Pela.
Mário Novais, in Lisboa de Antigamente
Palácio (arco) do Marquês de Alegrete, portal brasonado |1907|
Rua da Mouraria
Machado & Souza, in Lisboa de Antigamente

Tem a forma de um rectângulo contido entre a Rua da Mouraria [1ª foto] (junto ao Arco, onde avulta ainda o portal brasonado dos Sylvas, entrada hoje [1938] de uma serralharia), a Rua Martim Moniz (onde existe um portal do antigo tipo arquitectónico), a Rua da Palma, agora em muro raso (desde que em 1935 foi demolido o prédio da Ourivesaria Cunha, que se encostava a este topo do palácio) e o Largo de Silva e Albuquerque [3ª foto], antiga Rua dos Canos (onde na fachada se rasgam dois portais também do tipo dos antecedentes). 
O Arco, sobre o qual assentam dois andares, cada um com sua janela, pertence ao prédio da Rua do Arco do Marquez do Alegrete, que se lhe encosta, e que é propriedade também da família dos Condes de Tarouca [Teles da Sylva].

Palácio do Marquês de Alegrete  |1946|
Largo Silva e Albuquerque com a Rua da Palma em fundo.
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente
Palácio do Marquês de Alegrete |194.|
Rua Martim Moniz (à esq,); Praça Martim Moniz (antes das demolições)
Filmarte, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. III, p. 78, 1938.
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