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domingo, 26 de setembro de 2021

Rua de Barros Queirós

Era a antiga Travessa de São Domingos, passou a designar-se Rua de Barros Queirós em homenagem a "Tomé José de Barros Queirós". A atribuição deste topónimo foi ainda acrescentada com uma legenda de «Ilustre cidadão, vereador da 1ª Câmara Municipal Republicana de Lisboa – 1926».

No Edital de 21 de Junho de 1926 pode ler-se: “[...] o Senado Municipal, em sessão de 7 de Junho corrente, prestando homenagem á grande figura republicana que foi Tomé José de Barros Queiroz, um dos mais ilustres propagandistas da Republica, trabalhando e lutando por ela e prestando relevantes serviços á cidade, quando vereador, resolveu dar á travessa de S. Domingos a seguinte denominação: Rua Barros Queiroz / Ilustre Cidadão, Vereador da 1ª Câmara Municipal Republicana de Lisboa – 1926”.

Rua de Barros Queiroz |1908|
Antiga Travessa de São Domingos
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

A justificação possível da alteração do topónimo Travessa de São Domingos para Rua de Barros Queirós reside no propósito – que se verificou durante o período da 1ª República – de acabar com a influência que a religião e a monarquia tinham na vida quotidiana e profissional das pessoas. O novo regime alterou a denominação das ruas, praças, largos, instituições e edifícios por outros conotados com a República.
Ainda, e por parecer da Comissão Municipal de Toponímia, em reunião de 19/05/1950, foram suprimidos os dizeres "Ilustre Cidadão – Vereador da 1ª Câmara Municipal de Lisboa – 1926" dos letreiros toponímicos e acrescentada a partícula “de”.

Rua de Barros Queiroz |1944|
Antiga Travessa de São Domingos
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

N. B. Tomé José de Barros Queiroz nasceu em Ílhavo a 2 de Fevereiro de 1872 e faleceu a 5 de Maio de 1926 em Lisboa.
Foi aprendiz de oficina, marçano e caixeiro e, pelo empenho e esforço chegou a comerciante de candeeiros no Largo de S. Domingos; político do período da Primeira República Portuguesa que, entre outras funções, exerceu os cargos de deputado, Ministro das Finanças, Ministro da Instrução Pública e Presidente do Conselho de Ministros. Foi membro da Maçonaria, na loja "Acácia". [cm-lisboa-pt; ANTT]

Rua de Barros Queiroz |1940|
Antiga Travessa de São Domingos; Igreja de São Domingos, abside; Rua da Palma.
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Largo de S. Domingos: Casa de Candeeiros José D'Oliveira & Barros

Sobre o sítio de S. Domingos refere Norberto de Araújo o seguinte: 
S. Domingos  — Dilecto — é uma crónica viva de Lisboa, com as suas imediações da Praça da Figueira, com o seu trânsito obrigatório, pela Rua [de] Barros Queiroz e Calçada do Garcia, formigueiros de gente, que desce dos Anjos, dos bairros novos, ou de Sant'Ana velha. [...]

Casa de Candeeiros José D'Oliveira & Barros [1909]
Rua Barros Queirós; Largo de S. Domingos; Igreja de São Domingos; Ginjinha do Rossio
Procissão de Nossa Senhora da Saúde entrando na igreja de São Domingos.
Anselmo Franco, in Lisboa de Antigamente

Junto do templo dominicano, assentava, crê-se que já antes de se erguer o Convento, a pequenina ermida de N. Senhora da Purificação, ou da Escada, de grande nomeada na Lisboa velha; o seu lugar era onde está a Casa de Candeeiros, que foi de Tomé de Barros Queiroz, bom cidadão de Lisboa, e que em 1890 a tomou a Manuel Joaquim de Oliveira, fundador dela em 1870. ==
(ARAÚJO, Norberto de, «Peregrinações em Lisboa»,  vol. XII, p. 80, 1939)

Casa de Candeeiros José D'Oliveira & Barros [c. 1910]
Largo de S. Domingos; Igreja de São Domingos (video)
Alberto Carlos Lima, in Lisboa de Antigamente
 
N.B. O topónimo devia ser mais conhecido como sítio de São Domingos já que nas plantas feitas após a remodelação paroquial de 1770, é referida uma «rua de trás de S. Domingos» na freguesia de Stª Justa e Rufina.

domingo, 29 de setembro de 2024

Igreja de São Domingos

S. Domingos — Dilecto — é uma crónica viva de Lisboa, com as suas imediações da Praça da Figueira, com o seu trânsito obrigatório, pela Rua Barros Queiroz e Calçada do Garcia, formigueiros de gente, que desce dos Anjos, dos bairros novos, ou de Sant'Ana velha. [...]

Junto do templo dominicano, assentava, crê-se que já antes de se erguer o Convento, a pequenina ermida de N. Senhora da Purificação, da Escada, de grande nomeada na Lisboa velha; o seu lugar era onde está a Casa de Candeeiros, que foi de Tomé de Barros Queiroz, bom cidadão de Lisboa (...)»

Igreja de São Domingos [c. 1910]
Rua Barros Queirós; Largo de S. Domingos; Ginjinha do Rossio
A velha Igreja de São Domingos ficava junto à ermida de Nossa Senhora da Escada, também conhecida por Nossa Senhora da Corredoura, por ficar próximo do sítio deste nome, actualmente a Rua das Portas de Santo Antão, e cuja construção datava dos princípios da monarquia.
Alberto Carlos Lima, in Lisboa de Antigamente

Tendo sido lançada a primeira pedra no ano de 1241, e alvo de sucessivas e diferentes campanhas de obras que lhe foram alterando e adicionando a traça primitiva, data de 1748 a reforma efectuada na capela-mor pelo arqº Ludovice, acabando por ser a única zona do templo poupada ao terramoto de 1755. Seguidamente, a igreja foi reconstruída por Manuel Caetano de Sousa, que reaproveitou o portal e a sacada sobrejacente pertencentes à Capela-Real do Paço da Ribeira.
Em termos formais, esta Igreja conventual denuncia uma arquitectura barroca, de planta em cruz latina. Enquanto que exteriormente é caracterizada pelas suas linhas simples, o interior ainda revela alguma da sua notória riqueza ecléctica. Assim, serão dignos de realce, não apenas o aspecto grandioso de todo o espaço interior, como os próprios mármores e pinturas, infelizmente hoje desaparecidos.

Era notável a sua riqueza em alfaias preciosas, havendo uma imagem de prata maciça, que saía em procissão num andor do mesmo metal, alumiada por lâmpadas também de prata. As pinturas dos altares, os paramentos, os tesouros, tudo desapareceu durante o terramoto de 1755, salvando-se unicamente a sacristia e a capela-mor, mandada fazer por D. João V e riscada pelo arquitecto João Frederico Ludovice, em 1748 - homem que projectou o colossal Convento de Mafra. A capela-mor, toda de mármore negro, e em cujas colunas se vêem, junto à base, medalhões delicadamente cinzelados, que também avultam sobre os nichos laterais.
 
Igreja de São Domingos |Inicio séc. XX|
Perspectiva longitudinal do interior da Igreja
A Capela-mor, edificada em 1748 por Ludovice e acabada por João António de Pádua é rematada
por um arco de volta perfeita que marca a outra extremidade da abóbada de berço e possui quatro
grandes colunas sem capitel que delimitam o receptáculo do Sacrário com porta de bronze. O conjunto
é rematado por formação escultórica ladeando o registo central, duas mísulas com as estátuas de
S. Domingos e S. Francisco. Nas paredes laterais, janelas ao nível do grupo escultórico superior.
José A. Bárcia, in Lisboa de Antigamente

Em 13 de Agosto de 1959, um violento incêndio destruiu por completo a decoração interior da igreja, onde constavam altares em talha dourada, imagens valiosas e pinturas de Pedro Alexandrino de Carvalho. A igreja recebeu obras e reabriu ao público em 1994, sem esconder as marcas do incêndio, como as colunas rachadas. Ainda que destruída, é uma igreja que sobressai pela policromia dos seus mármores. 
Actualmente é a igreja paroquial da freguesia de Santa Justa e Santa Rufina, em plena Baixa Pombalina e foi classificada como Monumento Nacional. Expõe metade do lenço usado por Lúcia no dia 13 de Outubro de 1917 (a outra metade encontra-se no Santuário de Nossa Senhora de Fátima, em Fátima) e ainda o terço usado por Jacinta Marto no mesmo dia.

Igreja de São Domingos, abside e torre sineira |c. 1950|
Rua Dom Duarte cruzamento com a Rua da Palma  e Rua Barros Queirós
Numa passagem para a sacristia, com entrada pela Rua da Palma, encontram-se os túmulos do grande pregador dominicano Fr. Luís de Granada (m. 1588) e do reformador da ordem Fr. João de Vasconcelos (m. 1652). Esta igreja tem ainda uma cripta abobadada e dotada de lambris de azulejos, onde está o túmulo de D. João de Castro, capelão de D. João. 
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa», vol. XII, p. 80, 1939.
CARRIÇO, Hugo Miguel, Informação sobre igrejas de Lisboa, 2017.

sexta-feira, 15 de junho de 2018

Largo de São Domingos (em dia de Portugal-Espanha)

Recorda mestre Norberto Araújo que « (...) não podemos negar certo carácter alfacinha a êste Largo de S. Domingos (...) é uma crónica viva de Lisboa, com as suas imediações da Praça da Figueira, com o seu trânsito obrigatório, pela Rua Barros Queiroz e Calçada do Garcia, formigueiros de gente, que desce dos Anjos, dos bairros novos, ou de Sant'Ana velha.». ¹



Tinha este Largo de São Domingos, às Portas de Santo Antão, «uma atmosfera decadente e boémia, estritamente lisboeta, impregnada dos aromas das iscas e do álcool que os clientes da Ginjinha cuspinhavam no chão e no passeio, juntamente com os caroços dos frutos», recorda Rodrigues Miguéis que, durante alguns tempos, por ali andou num escritório situado em frente ao Palácio dos Almadas ou da Independência. As «casas das iscas» eram, por norma, manhosas e acanhadas: bancos corridos e mesas de madeira, com os garfos atados por correntes de ferro, e o cozinheiro quase sempre com o fogão cerca da porta da rua; e, apesar da pouca comodidade dos estabelecimentos e da falta de higiene, as iscas, com elas ou sem elas, atraíam fregueses, pois «só os galegos lhes davam precioso tique saboroso, que apenas tinham como rival o cheiro particular do petisco» um «mágico odor a que ninguém resistia» (Fernandes: 1995).
Neste largo «estritamente lisboeta», espaço de trânsito obrigatório e «formigueiro de gente», dois monumentos merecem especial atenção: a Igreja de S. Domingos e o palácio dos Condes de Almada ou da Independência.²

Largo de São Domingos [2 de Abril de 1933]
Legenda no arquivo: «No Largo de São Domingos, a multidão ouvindo o relato do desafio Portugal-Espanha»
Fotógrafo não identificado, iin Lisboa de Antigamente

Bibliografia:
¹ ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XII, p. 79, 1939.
² JANEIRO, Maria João , Lisboa: histórias e memórias, p. 250-266.

sexta-feira, 29 de novembro de 2019

Rua de S. Domingos, à Lapa

Esta Rua de S. Domingos — recorda o ilustre Norberto de Araújo — já faz parte da  lapa nobre mas se o nosso caminho é este, neste passo a dispusemos. [...] Subamos a Rua de S. Domingos pela linha dos eléctricos. [...]

Rua de São Domingos, 60 |190-|
Esquina com a Rua das Praças [Centro Social Do Sagrado Coração De Jesus]
O eléctrico exibe a bandeira com destino ao «Largo das Duas Egrejas», denominação do Largo do Chiado até 1925.
Paulo Guedes, in Lisboa de Antigamente



A Rua de São Domingos que nos dias de hoje é parte das freguesias da Lapa, Prazeres e Santos-O-Velho, foi fixada na memória da Lisboa setecentista já que a encontramos referida nas plantas executadas após a remodelação paroquial de 1770, com parte da artéria pertença da freguesia de Santos e parte da Lapa. 

Rua de São Domingos, 60 |190-|
Esquina com a Rua da Lapa
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

quarta-feira, 10 de junho de 2015

A Ginjinha do Rossio teve bênção de um monge

A Ginjinha do Largo de São Domingos abriu portas em 1840 e mantém-se praticamente igual. Um pequeno balcão e dezenas de garrafas de licor. Nesta foto a grande diferença para os dias de hoje era a presença de engraxadores em frente à porta.
Desde 1840 que os lisboetas e os que visitam a capital vão ao Rossio para se confrontar com a pergunta: “Com ou sem elas.” A ginja, rigorosamente seleccionada, e a produção do licor está na Arruda dos Vinhos. O negócio vai na quinta geração da família Espinheira.

Largo de São Domingos [198-]
DN, in Lisboa de Antigamente

«É mais fácil com uma mão dez estrelas agarrar, fazer o sol esfriar, reduzir o mundo a grude, mas ginja com tal virtude é difícil de encontrar.» O verso está escrito há mais de um século no balcão d’A Ginjinha. E terá quase tanto tempo como a lenda do monge da Igreja de Santo António, Francisco Espinheira. A história, que está contada à porta, diz que esta doce bebida nasceu da recomendação de um monge à família galega Espinheira para deixar fermentar ginjas dentro de aguardente, juntando-lhe açúcar, água e canela. Por ser uma bebida doce e barata tornou-se um êxito imediato, transformando a ginjinha na bebida típica de Lisboa.

Largo de São Domingos [post. 1940]
Observa-se A Ginjinha, à esquerda, no prédio que torneja para o Rossio.

Horácio Novais, in Lisboa de Antigamente

Tem a Ginjinha do Rossio duas meias portas, onde se podem ver umas pinturas do actor Alexandre de Azevedo, antigo pintor de tabuletas, estão inscritos os seguintes versos, pelos quais o galego dono da casa pagou, «em bons tempos de penúria e quando o dinheiro era dinheiro, a soma de 5.000 reis» a Eduardo Fernandes  (ESCULÁPIO) :
“Dona Prudência da Costa,
 Delambida e magrisela,
 Fez de ser tola uma aposta,
 Diz que ginginha nem vê-la
 Porque, coitada, não gosta.
 E a ama de um reverendo
 Que é das bandas da Barquinha
 Tem um aspecto tremendo,
 Bebe aos litros da ginginha
 E é isto que se está vendo.”

Recorda-nos o autor dos versos que «A pintura representa duas tipas a escorropichar copinhos, vendo-se, na outra mela porta e na mesma atitude, dois tipos, num dos quais o artista me quiz representar, mas com grande infelicidade».
“O Mateus é um chóchinha
 Mais feio que um camafeu,
 Magro, tísico, um fuinha,
 Nunca na vida bebeu
 Nem um copo de ginginha.
 O Irmão, que sabe a virtude
 Desta divina ambrozia,
 É gordo como um almude,
 Bebe seis copos por dia,
 Por isso goza saúde.”
[1]
[1](in Olisipo : boletim do Grupo «Amigos de Lisboa», n.º 17, Janeiro 1942)

A Ginjinha, porta, Largo de São Domingos [1967]
Sid Kemer, in Lisboa de Antigamente

domingo, 18 de março de 2018

Palácio Regaleira, a S. Domingos

No quarteirão entre as Escadinhas da Barroca e a Calçada do Garcia, ali tens o prédio, n.º 14 a 15 com sete portas, que foi o Palácio Regaleira, propriedade no meado do século passado [séc. XIX] de D. Ermelinda Monteiro [Allen] d'Almeida, baronesa e viscondessa da Regaleira, título que passou e se mantém nos Morais Palmeiro; êste prédio pertenceu a Francisco de Sousa Cruz, em 1915? passou por compra a Artur Aires, e hoje [1939] é da Companhia dos Tabacos.

Existiu aqui um clube de jogo e de prazer, impropriamente chamado "Clube Regaleira".¹


O registo mais antigo que se encontra sobre este edifício remonta a 28 de Outubro de 1814, no qual a localização do palácio é descrita no Registo de Descrições Prediais. A localização privilegiada do Palácio Regaleira numa zona nobre, central e movimentada da cidade, próximo do Rossio e no mesmo Largo da Igreja de São Domingos fez com que este mantivesse a sua centralidade relativamente ao espaço e vida urbana ao longo dos tempos.
Os dados precisos sobre a autoria e data de construção do edifício são desconhecidos. Vários autores sugerem tratar-se de uma edificação do século XVIII, provavelmente anterior ao terramoto de 1755. Segundo José-Augusto França, em gravuras anteriores a essa data, surge representado no mesmo local um edifício que apresenta grandes semelhanças com o actual: um prédio de três pisos, com a fachada principal virada a sul, de arquitectura sóbria e disposição simétrica de portas e janelas, que ocupam de forma regular grande parte da frontaria. É provável que o edifício tenha entrado na posse da família Allen em período anterior ao de D. Ermelinda Allen Monteiro d’Almeida, a primeira viscondessa da Regaleira, que teria herdado o Palácio dos seus pais e empreendido os trabalhos de remodelação entre 1835 e 1842, conferindo ao edifício a sua traça actual.

Palácio Regaleira [post. 1933]
Largo de S. Domingos, 14-15
Mário Novais, in Lisboa de Antigamente

A vida social de grande ostentação e as festas sumptuosas dadas nesta época pela baronesa e viscondessa da Regaleira no seu palácio lisboeta são-nos descritas por Fialho de Almeida:
«A primeira foi em 4 de Março de 1842, e Paulina de Flaugergues aponta-a como uma das mais belas e animadas da estação. Estiveram cerca de mil convidados, e era notável a porção de mulheres bonitas que se encontrava nos salões. A ornamentação da casa em pouco ou nada fora alterada a mais do que costumava ser nos dias ordinários. O palácio de madame Monteiro d’Almeida era um verdadeiro museu de coisas de arte e de elegância, e arcava em gosto e riqueza com a residência dos Palmelas, dos Fronteiras, dos Atalaias, e dos viscondes de Porto Covo […] No pátio da casa, em que tocavam três bandas de regimento, fora improvisado um jardim com laranjeiras, pritchardias e camélias, sob uma tenda de seda, às riscas multicolores, esticada e, lanças e albardas, que aprumavam de roda, mais de catorze ou quinze estátuas de guerreiros.»²

Em 1901 — após ter saído em definitivo (1898) da posse da família Allen — está instalado no Palácio Regaleira o Teatro Eléctrico Mágico. A partir do ano seguinte, funciona nesse edifício o Liceu de São Domingos, um desdobramento do Liceu do Carmo. Segundo o olisipógrafo Appio Sottomayor, terá aí funcionado, pouco tempo antes da implantação da República, a sala de cinema Rossio Palace, na qual se realizam, para alguns espectadores escolhidos e pagantes, sessões especiais com filmes pornográficos que têm lugar pela noite fora49. Já João Paulo Freire refere nas suas memórias «uma exposição-museu de figuras de cera, com uma secção reservada a doenças venéreas» que teria estado no Palácio Regaleira em 1918, aproximadamente.³

Palácio Regaleira [post. 1933]
Largo de S. Domingos, 14-15
No início do séc. XX esteve aqui instalada sala de cinema Rossio Palace
Mário Novais, in Lisboa de Antigamente

No mesmo edifício funciona ainda um estabelecimento comercial denominado Vaccaria de S. Domingos e um hotel. A 24 de Março de 1919 o prédio foi vendido à firma Arthur Adriano Ayres, Lda. Este dado, retirado dos Registos Prediais, contradiz a data de transição da propriedade do imóvel que nos é dada por Norberto Araújo nas suas Peregrinações em Lisboa como se pode ler logo no inicio desta publicação: «em 1915? passou por compra a Artur Aires».

Palácio Regaleira [1910]
Na esquina do Largo de S. Domingos com as Escadinhas da Barroca, observa-se a Vaccaria S. Domingos.
António Novais, in Lisboa de Antigamente

No que respeita ao Regaleira Club — também mencionado por Norberto de Araújo como Clube Regaleira — há notícia do seu funcionamento entre 1920 e 1922. Contudo, este poderá ter aqui funcionado antes da data indicada. Entre Fevereiro e Maio de 1917 estaria, a julgar pelo nome, aí já instalado o Club Palácio da Regaleira, que pagava ao Governo Civil de Lisboa a devida licença para prolongar, todas as noites, as suas diversões para além da meia-noite. Não foi no entanto possível apurar se este seria ou não o mesmo estabelecimento conhecido por Regaleira Club em 1920. O seu encerramento em 1923 parece ser consensual.
Com a sua instalação no Palácio Regaleira e a adopção do nome deste para sua própria denominação, este clube nocturno procurou claramente beneficiar do estatuto alcançado e difundido na época da baronesa e viscondessa da Regaleira, aproveitando do edifício a aura que ainda prevalecia de festas sumptuosas e luxuosas.

«A monumental escada» e «A majestosa sala do “Regaleira Club”»
Efeitos da Guerra», ABC, 7 de Julho de 1921 [fotografias de Serra Ribeiro]

O palácio é vendido à Companhia de Tabacos de Portugal, que compra o imóvel pelo montante de 1.303.000$00 em escritura de 14 de Novembro de 1923.
Os inquilinos multiplicam-se e sucedem-se: um Armazém de Roupas Nogueira Viegas Lda.; a Fotografia Electro Rápida, de Brito Gago Justel; um estabelecimento de instrumentos musicais, de Larcher Castelo Branco, um estabelecimento comercial de artigos de malha, de José Esteves de Almeida; a Empresa Portuguesa de Instalações Eléctricas, Lda.; um estabelecimento de comércio de fruta e um outro de peixe, de Maria Fernandes de Almeida; o Bazar Universal, de Orlando Silva. Por estes anos está também instalada no Palácio Regaleira a Casa das Beiras, instituição de carácter regional que organiza festas e récitas.
No final da década o edifício encontra-se em adiantado estado de degradação: «O palácio estava em mísero estado. Parecia um chavascal. Soalho esburacado, paredes sujas, portas escangalhadas, um pavor.»
Em 1933 a Companhia dos Tabacos arrenda à Ordem dos Advogados o 1.º andar do edifício, que inicia obras de recuperação no palácio. A nova sede da Ordem dos Advogados só é inaugurada em cerimónia solene a 24 de Maio de 1939. Finalmente, a 26 de Janeiro de 1960, a Companhia dos Tabacos de Portugal vende o Palácio Regaleira à Caixa de Previdência da Ordem dos Advogados e Solicitadores pelo preço avultado de 11.000.000$00.
Tudo leva a crer que a traça arquitectónica exterior do edifício se tenha mantido igual desde meados do século XIX, altura em que se realizaram os amplos trabalhos de remodelação. Já o interior do Palácio terá conhecido múltiplas e significativas intervenções, em resultado dos numerosos inquilinos e das diversas actividades que ali tiveram lugar.⁴
____________________________________
Bibliografia
¹ ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XII, p. 81, 1939.
² ALMEIDA, Fialho de, Vida Errante, pp. 334-335, 1925.
³ FREIRE, João Paulo, Lisboa do meu tempo e do passado, Lisboa, 1931-1939, p. 10-11.
⁴ VAZ, Cecília Santos, Clubes nocturnos modernos em Lisboa: sociabilidade, diversão e transgressão (1917-1927), Palácio Regaleira, pp. 76-81, 2008.

domingo, 12 de setembro de 2021

Hospital Real de Todos-os-Santos

O Rossio era uma praça, irregular, mas já muito espaçosa. o Hospital de Todos-os-Santos com a sua esplendida fachada; os arcos do Rossio, onde se acomodavam as mais luxuosas lojas, que vendiam as fazendas da moda, tornavam aquela praça a mais importante da capital.


Neste Rossio — diz Norberto de Araújo —  do lado nascente, à nossa direita, erguia-se até pouco antes do Terramoto o imponente Hospital de Todos-os-Santos, fundação de D. João II, e cuja primeira pedra foi lançada a 15 de Maio de 1492. Os terrenos eram dependentes dos frades de S. Domingos.
Possuía um formoso pórtico gótico , de dupla entrada , para o qual se subia por uma escadaria de vinte e um degraus, e de um lado e do outro, ao nível do chão, corriam magníficas arcadas, em maior extensão do lado norte, e em cujo número não acertam os eruditos nem velhas estampas, mas que andaria por trinta.

Rossio antes do terramoto de 1755
Legenda: A
 — Hospital de Todos-os-Santos;  B — Igreja de São Domingos e à esq. a Ermida da S.ª da Escada [hoje demolida];  C — Convento da Graça; D — Castelo de S. Jorge; E — Chafariz de Neptuno. À dir. observa-se um poste de forca com um homem preso pelos braços.
Água-tinta, desenho à pena a nanquim de Zuzarte, século XVIII (1787)
Rossio antes do terramoto de 1755
Legenda: A
 — Hospital de Todos-os-Santos;  B — Igreja de São Domingos e à esq. a Ermida da S.ª da Escada [hoje demolida];  C — Convento da Graça; D — Castelo de S. Jorge; E — Chafariz de Neptuno. À dir. observa-se um cortejo fúnebre e um poste de forca com um homem preso pelos braços.
Pintura a óleo sobre gravura de Zuzarte, autor desconhecido (1787)

Estas arcarias do Hospital de El-Rei — como de começo se chamou – e que davam abrigo a muitas dezenas de tendas e bazares — constituíam um dos encantos panorâmicos do Rossio. A Igreja continuava-se do prolongamento do pórtico, isto é: na direcção poente-nascente.
Junto deste Hospital — que foi uma das mais nobres instituições de Lisboa de todos os tempos, servindo os pobres — funcionava a «Roda dos Engeitados», do lado da Rua da Betesga.
O Hospital de Todos-os-Santos dependia da Santa Casa da Misericórdia. Sofreu um incêndio em 27 de Outubro de 1601, facilmente reparável em seus estragos, outro, horroroso, em 10 de Agosto de 1750, que o reduziu a cinzas, fazendo muitas vítimas, salvando-se, porém, 730 doentes e centenas de crianças que foram recolhidas pelas janelas e portas contíguas a S. Domingos.

Hospital Real de Todos-os-Santos no séc. XVIII
Igreja do Hospital Real de Todos-os-Santos, portal manuelino, admirado por toda a Europa, não só pelo seu trabalho de escultura, mas também pela sua imponência.
Gravura da autoria de Jaime Martins Barata, Museu de Lisboa

O Hospital tinha a sua frente obliquamente recuada em relação ao alinhamento oriental do Rossio que temos à vista, de modo que só pelas alturas onde hoje estão os Armazéns e a Loja do Povo [Praça de D. Pedro IV, 87-92] a linha antiga coincidia com a actual [vd. planta topográfica]. No interior da Retrosaria «Botões de Ouro», n. 86 [hoje sapataria], situada entre aqueles dois estabelecimentos existem ainda abóbadas e um lanço de arcaria de volta perfeita — resto vivo das arcadas do Rossio — , e até Julho de 1933 estava à vista um capitel de coluna, singelamente ornamentado, um meio metro acima do nível actual da Praça, único, venerando vestígio que foi entaipado por ocasião de umas obras de limpeza. Tenho tentado conseguir que ele seja, de novo, posto à vista; acredito na boa vontade dos donos do estabelecimento.


Sítio do Hospital de Todos-os-Santos, convento de S. Domingos e Poço do Borratém antes do terremoto de 1755 (a preto), e na actualidade (1937) (a vermelho) 
Planta topographica exacta do Sitio que comprehende a Ilha em que estava edificado o Hospital Real de Todos os Santos. Desenhos de J. de Castilho

Bibliografia
MESQUITA, Alfredo, Lisboa, 1903.
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. V, pp. 22-26, 1938.
CASTILHO, Júlio de,  Lisboa antiga, vol. IV,  1885, 

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Palacete Monte Real

Ora aqui temos, no n.º 29 39, à esquina da Rua de São Domingos, este caprichoso e complexo Palacete do Conde de Monte Real. 


Não é possível reunir mais elementos em menos espaço: claustros, pátio, capela, passadiço, painéis e silhares de azulejos, e uma torre, além da habitação com seus dois pavimentos. Dir-se-á a reconstituição teatral, em miniatura, com bons materiais e vistosa traça, de um exemplar da casa portuguesa, antiga, de bom senhorio e de bens de raiz.¹

Palacete dos Condes de Monte Real [1932]
Rua de Buenos Aires, 39;
Rua de São Domingos à Lapa, 100; Travessa do Norte à Lapa, 3; Beco do Norte
Fotógrafo não identificado, 
in Lisboa de Antigamente

Palacete construído no início do séc. XX, a partir de 1900, por iniciativa de Artur Porto de Melo e Faro, conde de Monte Real, para sua residência e de sua esposa, D. Laura Cardoso Diogo da Silva. Projectado pelo arq. José Luís Monteiro, traduz um exemplar de arquitectura residencial, romântica (neo-barroca e neo-rococó), que apresenta planta em L articulada, do lado interno, com pátio e num dos seus extremos, com capela de planta longitudinal definida por nave e capela-mor, à qual surge adossada torre sineira. 
No interior, escadaria monumental e respectiva caixa surge como principal elemento de aparato, merecendo destaque o acervo de azulejar de diferentes períodos cronológicos e tipologias, as boiseries que animam tectos, guardas de escadas, vergas e aventais de janelas interiores, assim como a pintura mural de carácter vegetalista e floral miudinho das coberturas.² 

Palacete dos Condes de Monte Real,  claustros, pátio, capela [s.d.]
Rua de Buenos Aires, 39; 
Rua de São Domingos à Lapa, 100; Travessa do Norte à Lapa, 3; Beco do Norte
Fotografia anónima (recente)
, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
¹ ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. VII, p. 50, 1938.
² cm.lisboa.pt.

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Igreja de São Domingos

É uma visão assombrosa: uma das mais imponentes igrejas do país, com raízes no século XIII, mantém deliberadamente visíveis as marcas do último grande desastre que sofreu. Mas o incêndio que a desfigurou em meados dos anos 50 do séc. XX foi apenas um dos inúmeros incidentes que a Igreja de São Domingos protagonizou. O historiador António Camões Gouveia guia-nos pela história desta peça extraordinária e, através dela, pelas histórias das gentes de Lisboa.


Largo de São Domingos; Rua Barros Queirós; Rua D. Duarte; Rua da Palma
Visita Guiada com António Camões Gouveia e Paula Moura Pinheiro, 2 Fev. 2015, RTP. Duração aprox.:27 min.

quarta-feira, 27 de novembro de 2019

Palacete da Rua de São Domingos à Lapa, 26

Palacete urbano da 2ª metade do séc. XIX, riscado pelo arq.º Victor Vaz, representando uma arquitectura residencial ecléctica, integra-se na tipologia do palacete urbano que se generalizou na Lisboa das Avenidas Novas e dos bairros aristocráticos do final do séc. XIX e 1º quartel do séc. XX. Inicialmente utilizado para habitação, veio à posse do Estado para instalação de serviços no final do séc. XX. Apresenta planta composta em L, volumetricamente traduzida por dois paralelepípedos. O alçado principal surge delimitado por cunhais de cantaria e estruturado em dois níveis.O piso térreo é rasgado pelo portal e seis janelas de peito rectangulares,enquanto que o piso superior surge rasgado por seis óculos com emolduramento calcário, destacando-se, no corpo central, uma janela de sacada com balaustrada de cantaria. 

Palacete da Rua de São Domingos à Lapa, 26 |1957|
Judah Benoliel, in Lisboa de Antigamente

O edifício é rematado por platibanda interrompida a eixo por frontão neo-barroco, ornamentado com volutas e enrolamentos. Uma escadaria de dois lanços rectos convergentes em patamar, com guardas de ferro fundido ritmadas por plintos de cantaria encimados por figuras, evidencia-se no alçado posterior do corpo principal. No interior destaca-se o tratamento decorativo em estuque nos tectos e sobreportas dos salões, assim como as pinturas. [cm-lisboa.pt]

Palacete da Rua de São Domingos à Lapa, 26 |post. 1933|
Alçado posterior e jardim.
Estúdio Mário Novais, in Lisboa de Antigamente

domingo, 13 de julho de 2025

Estr. de «Bemfica» que foi Estrada Real

Bemfica (estrada de) principia em sete Rios, indo de S. Sebastião da Pedreira e finda em Santo Antonio da Convalescença, freguezia de Bemfica. [Velloso: 1869]

Este topónimo está ligado à proximidade do Convento de São Domingos de Benfica. Esta localidade, onde viveu e morreu Frei Luís de Sousa (Manuel de Sousa Coutinho, este o seu nome antes de abraçar o sacerdócio), é descrita na sua História de S. Domingos cap. III do livro segundo. Leiamos isto do insigne clássico: «A huma piquena legua da cidade, pola estrada que corre para Cintra, (...) fica como escondido, e furtado a communicação da gente hum pequeno valle, que sendo naturalmente aprazível, por frescura de fontes e arvoredo, mereceo, ao que se póde crer, o nome que tem de Bemfica. (...) Na ladeira do monte maior, está situado o Convento, e d'ella se estende com sua cerca até hir beber no Rio».
Foi no Convento de São Domingos de Benfica que Frei Luís de Sousa professou como frade dominicano, em 1614. Este convento foi reconstruído no século XVII, parcialmente destruído pelo Terramoto de 1755 e extinto em 1834.

Estr. de «Bemfica» |1938|
Junto à Tv. S. Domingos de Benfica
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente
Estr. de «Bemfica» |1938|
Próximo do Calhariz
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente





























Bemfica, era sítio que, segundo Ramalho Ortigão: «Em nenhum outro lugar de Portugal, se exceptuarmos Sintra, se encontrarão reunidas em tão pequeno circuito, tão lindas, tão históricas, tão anedóticas, tão saudosas quintas. 
A antiga e amável povoação de Benfica, ainda que tão decaída hoje da alta importância que teve outrora no conceito, caprichoso e inconstante, da alta sociedade da capital, é ainda assim, no seu tanto, o recantinho suburbano de Lisboa que mais aproximada ideia nos sugere do que é para Roma o prestígio de Tivoli e de Frascati.» [Arte portuguesa, II, 1943]

Estr. de «Bemfica», 675 | 1961|
Boa parte do edificado já se encontra demolido.
Artur I. Bastos, in Lisboa de Antigamente
Estr. de «Bemfica», 542 |1971|
Próximo da Av. do Uruguai
Armando Serôdio, in Lisboa de Antigamente

“O break rodava na estrada de Bemfica: iam passando muros enramados de quintas, casarões tristonhos de vidraças quebradas, vendas com o seu masso de cigarro á porta dependurado de uma guita: e a menor arvore, qualquer bocado de relva com papoulas, um fugitivo longe da collina verde, encantavam Cruges. Ha que tempos elle não via o campo!” (Queiroz, Eça de, ln Os Maias, 1888)

Estr. de «Bemfica» |c. 1950|
Junto ao Calhariz no local onde os eléctricos faziam a inversão de marcha; antiga Estr. Real nº 82 (1889); alguns dos edifícios à direita ainda lá encontram.
Judah Benoliel, in Lisboa de Antigamente
Estr. de «Bemfica» |1961|
Esquina com a Avenida Grão-Vasco.
Augusto de Jesus Fernandes in Lisboa de Antigamente

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