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domingo, 10 de dezembro de 2023

Panorâmica do Martim Moniz

Em 1908 o herói Martim Moniz ganhou uma placa evocativa na porta do seu sacrifício e, em 1915, ficou também imortalizado na toponímia da Mouraria já que a Rua de São Vicente à Guia – que se situava entre a Rua da Mouraria, Rua do Arco do Marquês de Alegrete e a Calçada do Jogo da Pela – se passou a denominar Rua Martim Moniz, pelo Edital de 14 de Outubro de 1915.
Na década de 90 do século XX, a edilidade lisboeta procurando preservar a toponímia mais histórica e tradicional da zona, ao arruamento já conhecido vulgarmente por Largo do Martim Moniz – situado entre a Rua da Palma e a Rua do Arco do Marquês de Alegrete - atribuiu o topónimo Rua Martim Moniz, por Edital de 30 de Abril de 1991.

Panorâmica do Martim Moniz |1976|
Miradouro de Nossa Senhora do Monte

Francisco Leite Pinto, in Lisboa de Antigamente

Passados 6 (1997) anos e concluída a recuperação urbana desta zona levada a cabo pela Câmara Municipal de Lisboa, determinou esta que o espaço delimitado pela Rua da Senhora da Saúde, Rua Fernandes da Fonseca, Rua da Palma e Rua do Arco do Marquês de Alegrete, onde se situava também a Rua Martim Moniz se passasse a denominar Praça Martim Moniz.

Panorâmica do Martim Moniz |1976|
Francisco Leite Pinto, in Lisboa de Antigamente

sexta-feira, 17 de junho de 2016

Castelo de São Jorge: Porta de Martim Moniz

Forçoso é a quem suba ao Castelo de S. Jorge — escreve Norberto de Araújo — quedar-se diante da Porta de Martini Moniz. Arco de rude aparência, com seus reduzidos onze palmos, rasgado na grossura da muralha que se continua do «castelejo» ou fortaleza — aí está o único padrão vivo do esforço do homem na tomada de Lisboa. As torres, as quadrelas, os adarves, as portas ogivais do velho «castrum» — falam mas não têm voz; dizem tudo mas ciciam. A Porta de Martim Moniz é clara como água: «Isto foi assim, e o que eu digo é uma escritura». 


Castelo de São Jorge e a Porta de Martim Moniz [s.d.] [séc. XIX/XX]
A porta, ao centro, está assinalada por uma seta; à esquerda, a Igreja de Santa Cruz do Castelo.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

 
As letras de uma legenda esculpida em pedras venerandas têm expressão oral. Não se lê: escuta-se. Quando a lenda força a história — faz história. Ora esta história diz que um valente capitão das hostes de Afonso Henriques [1109-1185], acompanhado de outros cavaleiros, assaltou pelo lado norte, cortado a pique, o castelo sarraceno, e a poder de ombros fez entreabrir a porta, deixando-se ficar nela entalado para que os portugueses entrassem. E os mouros o mataram. Eis o que está dizendo esta legenda, do exterior da porta, do lado que cai sobre as Olarias, Lagares, e Costa do Castelo. No nicho, agora já sem moldura, lá está o busto de Martim Moniz, mutilado pelos vandalismos das idades.
 
A inscrição data de 1646, o Arco é reconstituição de quinhentos, mas a «Porta de Martim Moniz» remonta ao medievalismo português [séc. XIII]. Não há dúvida: tudo se passou como a lenda e a inscrição rezam. Se se tratasse de história pura — não existiria aqui poesia alguma. O sítio é dos mais belos de todo o Castelo de S. Jorge. Foi aqui o chão da Cidadela, onde assentaram os Paços dos Bispos, os Paços do Mestre de Aviz, chão que, arrasado, veio a dar a «Praça Nova» do desaparecido recinto militar, hoje eirado, povoado de sombras. 

Castelo de São Jorge [1908]
Ronda do lado interior da porta de Martim Moniz.

 Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Martim Moniz! Nobre e esforçado capitão e cavaleiro, que em teu escondido nicho velas há centos de anos pela intangibilidade dos belos contos lendários — e muito tens visto desta Lisboa castelã e cristã depois de os mouros te trespassarem à lançada. Nós te saudamos! ¹

A placa de mármore, que se pode ver na imagem abaixo, mandada  ali  colocar  em  1646  por  D.  João  Roiz  de  Vasconcelos  e  Sousa,  Conde  de  Castelo  Melhor,  décimo quarto  neto,  por  varonia,  daquele  heróico  cavaleiro  de  D.  Afonso  Henriques,  a  qual  diz:
"El-Rei dõ Afonso Henriques mandou aqui colocar esta estatua e cabeça de pedra em memória da gloriosa morte que dõ Marti Muniz progenitor da família dos Vasconcelos recebeu nesta porta quando atravessando-se nela franqueou aos seus a entrada com que se ganhou aos mouros esta cidade no ano de 1147. 
João Roiz de Vasconcelos e Sousa Conde de Castelmelhor seu décimo quarto neto por baronia fes aqui por esta inscrição no ano de 1646." ²

Castelo de São Jorge [1908]
Busto de Martim Moniz sobre a porta, do lado exterior da muralha;
a moldura que guarnecia a inscrição e escultura foi retirada em 1939.
Joshua Benoliel,
in Lisboa de Antigamente

N.B. Os historiadores não podem comprovar a existência real desta personagem em virtude de não haver qualquer documento da época que a ela faça referência, (no entanto, Alfredo Pimenta, na sua obra de 1940, «A façanha de Martim Moniz», refere documentos de 1258 que citam esse feito). Citam-na, no entanto, como figura lendária da história de Portugal. Em sua homenagem, esse acesso ficou conhecido como Porta de Martim Moniz, também foi chamada «do Olival».
___________________________________________________
Bibliografia
¹ ARAÚJO, Norberto de, Legendas de Lisboa, p. 143, 1943.
² idem, Inventário de Lisboa: Monumentos históricos, pp. 21- 22, 1944.

domingo, 12 de março de 2017

Palácio (arco) do Marquês de Alegrete

O Palácio do 1º Marquês de Alegrete, que o mandou construir em 1694, e ali existiu até 1946 junto à porta de São Vicente da Mouraria. Arruinado pelo terramoto de 1755, deixou de ser habitado pelos seus proprietários e foi alugado a modestos inquilinos que ali fizeram estabelecimentos comerciais e industriais.
Tinha o palácio três frentes, duas para locais já desaparecidos: o Largo Silva e Albuquerque e a Rua Martim Moniz, e a terceira para a Rua da Mouraria. Em 1946 foi demolido para dar lugar à actual Praça Martim Moniz.


O velho Palácio do Alegrete que teve certa aura na Lisboa de setecentos — relembra o olisipógrafo Norberto de Araújo —, é hoje [1938] uma ruína, pouco mais que um pardieiro, condenado à demolição, mas onde estão instalados ainda estabelecimentos de vária natureza e casas de habitação.

Palácio (arco) do Marquês de Alegrete  |ant. 1946]|
Rua da Mouraria e Rua Martim Moniz (à dir.); ao  fundo a Calçada do Jogo da Pela.
Mário Novais, in Lisboa de Antigamente
Palácio (arco) do Marquês de Alegrete, portal brasonado |1907|
Rua da Mouraria
Machado & Souza, in Lisboa de Antigamente

Tem a forma de um rectângulo contido entre a Rua da Mouraria [1ª foto] (junto ao Arco, onde avulta ainda o portal brasonado dos Sylvas, entrada hoje [1938] de uma serralharia), a Rua Martim Moniz (onde existe um portal do antigo tipo arquitectónico), a Rua da Palma, agora em muro raso (desde que em 1935 foi demolido o prédio da Ourivesaria Cunha, que se encostava a este topo do palácio) e o Largo de Silva e Albuquerque [3ª foto], antiga Rua dos Canos (onde na fachada se rasgam dois portais também do tipo dos antecedentes). 
O Arco, sobre o qual assentam dois andares, cada um com sua janela, pertence ao prédio da Rua do Arco do Marquez do Alegrete, que se lhe encosta, e que é propriedade também da família dos Condes de Tarouca [Teles da Sylva].

Palácio do Marquês de Alegrete  |1946|
Largo Silva e Albuquerque com a Rua da Palma em fundo.
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente
Palácio do Marquês de Alegrete |194.|
Rua Martim Moniz (à esq,); Praça Martim Moniz (antes das demolições)
Filmarte, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. III, p. 78, 1938.

sexta-feira, 29 de agosto de 2025

Praça do Martim Moniz: os vendedores de manjericos e o Mundial

A tradição conta-nos que Martim Moniz era um dos cavaleiros de D. Afonso Henriques que em 1147, na conquista de Lisboa, se atravessou numa porta da muralha do Castelo dos Mouros, impedindo o seu fecho e, sendo de imediato morto pelos sitiados enquanto garantia a abertura necessária para a entrada dos exércitos cristãos conquistarem a cidade.
Em 1908, o herói Martim Moniz ganhou uma placa evocativa na porta do seu sacrifício e, em 1915, ficou também imortalizado na toponímia da Mouraria já que a Rua de São Vicente à Guia – que se situava entre a Rua da Mouraria, Rua do Arco do Marquês de Alegrete e a Calçada do Jogo da Pela – se passou a denominar Rua Martim Moniz, pelo Edital de 14 de Outubro de 1915. Contudo, as alterações urbanísticas do local iniciadas a partir da década de 30, a pretexto de ligar a Avenida Almirante Reis ao Rossio, acabaram por fazer desaparecer o Mercado da Figueira, parte da Mouraria e este arruamento. [1943-1974 - Actas da Comissão Municipal de Toponímia de Lisboa]

 Praça do Martim Moniz |1961|
Venda de manjericos.
Augusto de J. Fernandes, in Lisboa de Antigamente

Quando o Hotel Mundial foi inaugurado, em 1958, tinha o lobby virado para as traseiras da Igreja de São Domingos e para a Barros Queirós, ruela muito comercial que leva ao Rossio. Depois, o Mundial expandiu-se, quase ocupou o quarteirão, triplicou os quartos e abriu-se para o Martim Moniz. {Fernandes: 2024]

Praça do Martim Moniz |1964|
Festas populares de Junho: venda de manjericos junto ao Hotel Mundial.
Artur Goulart, in Lisboa de Antigamente

domingo, 17 de março de 2024

Antiga Rua Martim Moniz antes das demolições efectuadas na Baixa da Mouraria

Na Baixa da Mouraria, onde o passado e o presente se entrelaçam, encontramos o Martim Moniz, encravado entre o Borratém, a Rua da Mouraria, o começo da Rua da Palma, a encosta que leva ao Hospital de S. José, o início da Rua de S. Lázaro e as traseiras de S. Domingos. Com as demolições na Baixa da Mouraria, parte da Rua da Palma foi derrubada e, com ela, o velho Teatro Apolo, antes chamado do Príncipe Real (D. Carlos), apenas pouparia o bairro da Mouraria e a Ermida de Nossa Senhora da Saúde.

A ocupação humana deste lugar remonta a 8 mil anos atrás como povoado neolítico da encosta de Sant ' Ana, situado na margem do Regueirão dos Anjos, no vale da Mouraria. Porém, somente a partir da Idade Média a fixação humana neste local se tornou mais significativa. No século XIV a área correspondente à praça actual era atravessada pela Cerca Fernandina (1373-1375), estrutura muralhada que delimitava a cidade e da qual ainda hoje restam vestígios na zona, como a Torre do Jogo da Péla.

Antiga Rua Martim Moniz antes das demolições efectuadas na Baixa da Mouraria |c. 1949|
Actual Praça de Martim Moniz
Estúdio Horácio Novais, in Lisboa de Antigamente
Nota(s): o local e a data da foto não estão identificados no arquivo (FCG)

A intenção de unir o núcleo histórico à cidade em expansão, e as medidas higienistas e embelezadoras do regime político de então, determinaram as demolições empreendidas nas décadas de 40 e 50 do século XX. Desaparecia uma dezena de ruas, becos e pátios e com eles uma parte significativa da memória da cidade.

Antiga Rua Martim Moniz antes das demolições efectuadas na Baixa da Mouraria |c. 1949|
Actual Praça de Martim Moniz
Estúdio Horácio Novais, in Lisboa de Antigamente
Nota(s): o local e a data da foto não estão identificados no arquivo (FCG)

domingo, 1 de agosto de 2021

Ermida da Saúde

Eis-nos, agora, diante da Igreja de N. Senhora da Saúde, a da famosa procissão que constituía um dos encantos populares religiosos de Lisboa do século passado [XIX], e que perdurou até à República. 

Neste sítio se elevava no século XVI, logo no começo (1506), uma ermida da invocação de S. Sebastião, advogado contra as pestes, construção que foi da iniciativa dos artilheiros da guarnição de Lisboa.
Em 1596, por deliberação do Arcebispo D. Miguel de Castro, a igrejinha converteu-se em paroquial de S. Sebastião (da Mouraria), desanexada da de Santa Justa, e assim o bairro tomou independência como freguesia. (...)

Ermida de Nossa Senhora da Saúde [190-]
Praça do Martim Moniz; Rua da Mouraria
José Artur Bárcia,
in Lisboa de Antigamente
Ermida de Nossa Senhora da Saúde [ant. 1910]
Praça do Martim Moniz; Rua da Mouraria
Procissão de Nossa Senhora da Saúde
Alberto Carlos Lima,
in Lisboa de Antigamente

A sede da paróquia em 1646 foi levada para a Igreja do Socorro; a actual Igreja da Saúde continuava a chamar-se de S. Sebastião, sem honras de Paroquial, mas muito mais representativa. 
Só em 1662 a Igreja de S. Sebastião passou a chamar-se de N. S. da Saúde, quando a imagem foi transferida do Colégio de Jesus [ou dos Meninos Órfãos], de que te falei, aqui a dois passos, para a actual «residência». E de Nossa Senhora da Saúde passou a ser até hoje [1938]. S. Sebastião esqueceu.
Pelo Terramoto o templo recebeu dano, mas pouco, porque logo dois anos depois estava restaurado e aberto ao público.»
A Ermida — melhor é classificá-la assim — constitui um dos restos piedosos de Lisboa velha, embora os artilheiros hoje já se não preocupem com a devoção. Oferece uma certa ingenuidade; lembra uma capela de aldeia, pois não lembra?

Tem uma só nave, e mais não precisa. Os altares laterais são os de Nossa Senhora piedade e de Cristo Crucificado, e as imagens são em pintura e não escultura, obra do pintor setecentista António Machado Sapeiro. Na capela-mor vês as imagens de Santo António, S. Sebastião, de roca, e sempre muito alindada. O retábulo que notas é do escultor Brás de Oliveira. São interessantes os azulejos oitocentistas da Igreja.

Aí tens, Dilecto, o que é a Igreja de que falam os versos de um fado, até há dois anos, muito em voga:
Há festa na Mouraria
é dia da Procissão
da Senhora da Saúde...
Ermida de Nossa Senhora da Saúde [ant. 1910]
Praça do Martim Moniz; Rua da Mouraria
Saída do andor com a imagem de Nossa Senhora da Saúde
Alberto Carlos Lima,
in Lisboa de Antigamente

Mas na Mouraria, hoje, já não há procissão. A procissão da Saúde era dos mais curiosos espectáculos da Lisboa religiosa, com um carácter diverso da dos Passos e da do Corpo de Deus ou S. Jorge.
A primeira vez que se realizou foi em 20 de Abril de 1570. A última em 20 de Abril de 1910. Saia de manhã cedo da Mouraria, ia à Sé onde se cantava um Te-Deum, e depois a S. Domingos, onde havia sermão. Recolhia ao entardecer à Mouraria — e era de ver-se.
Na procissão iam as três imagens citadas, de S. Sebastião, dos Artilheiros, e da Saúde, ambas da mesma confraria, e a de Santo António que andou sempre ligado a S. Sebastião aqui no bairro, de outra irmandade. Música religiosa, bandas militares, filarmónicas locais; foguetes, sinos, alarido típico do sítio; «anjinhos», soldados vestindo capa vermelha sobre a farda, e, nos seus últimos trinta anos, o Infante D. Afonso, como figura de destaque, simpática ao povo. O Capelão, a Amendoeira, o Outeiro, o Coleginho, os Álamos, despejavam-se sobre a Mouraria: quadro de costumes lisboetas dos mais sugestivos que pode imaginar-se, sem a grandeza da procissão do Corpo de Deus, nem a compostura fidalga da dos Passos da Graça — plebeia, original, bairrista, enternecedora.

Enquadramento da Ermida da Saúde na Pç. do Martim Moniz depois das demolições na Mouraria [post. 1949]
A igreja actual é de pequenas dimensões e data do século XVIII. É um símbolo da arquitectura religiosa barroca embora a
sua fachada principal e simples seja atribuída ainda ao mestre João Antunes dos inícios de 1700. 
Artur Pastor[?], in Lisboa de Antigamente

N.B.  Os artilheiros da Guarnição de Lisboa, denominados por bombardeiros, mandaram erguer em 1505, uma pequena ermida dedicada a São Sebastião, padroeiro e advogado da peste, em cumprimento da promessa feita ao mártir pelo fim da epidemia que nesse ano se estendeu por toda a cidade e que matou muitos habitantes.
Em Outubro de 1569, o rei D. Sebastião devido a mais um surto epidémico que matou milhares de pessoas, pede ao Senado da Câmara de Lisboa a construção de uma igreja maior, consagrada a São Sebastião, e em Dezembro, ordena que a sua edificação seja efectuada na Mouraria perto do local da antiga ermida.

Ermida de Nossa Senhora da Saúde, interior [1902-01-25]
Praça do Martim Moniz; Rua da Mouraria
O culto a Nossa Senhora da Saúde é muito importante na cidade de Lisboa e anualmente realiza-se a procissão em
agradecimento e protecção à Virgem, tradição que se mantém desde o século XVI.
Machado & Souza, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. III, pp. 76-77, 1938.
SANTANA, Francisco e SUCENA, Eduardo (dir.), Dicionário da História de Lisboa, 1.ª ed., Sacavém, Carlos Quintas & Associados – Consultores, 1994, pp. 874-876.

sexta-feira, 8 de abril de 2016

Rua do Arco do Marquês de Alegrete

Sigamos mestre Norberto de Araújo e «tomemos a Rua do Arco do Marquez do Alegrete. (...) Esta sim, na sua pobreza urbanista, tem qualquer coisa de pitoresco, vista em enfiamento, com o seu arco ao fundo, o estendal às janelas, e os estabelecimentos populares tão característicos. (...)
Ora aí temos o Arco do Marquez do Alegrete, no aspecto de 1674, ano em que foi transformada a velha porta de S. Vicente da Mouraria, assim chamada ainda em 1554. Intitula-se do Marquez do Alegrete, porque a êle se encostou o palácio construído pelo Conde de Vilar Maior, antecessor da Casa dos Alegretes, depois Penalvas e Taroucas (Teles da Sylva).»
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. III, pp. 78-79, 1938)

Rua do Arco do Marquês de Alegrete [Início séc. XX]
Em 1946 o palácio do Alegrete foi demolido para dar lugar à actual praça Martim Moniz.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

A Rua do Arco do Marquês de Alegrete, (só terá adquirido esta denominação depois de 1801), .entre o Poço do Borratém e a Praça Martim Moniz tem este nome devido ao proprietário do palácio, o 1º Marquês de Alegrete.
O Arco sobre o qual assentavam dois andares unia dois prédios pertencentes à mesma família, e, como refere o olisipógrafo Vieira da Silva, foi construído por volta de 1674, por proposta da Câmara para que «se rompesse a Torre das Portas da Mouraria, com um arco que tenha capacidade de passarem coches.»

[Rua do] Arco do Marquês do Alegrete
Em 1961 foi finalmente empreendida a controversa destruição do Arco do Marquês de Alegrete. 
Roque Gameiro, in Museu da Cidade

terça-feira, 6 de outubro de 2015

Mercado do Martim Moniz

Vizinho do então principal mercado de Lisboa, na Praça da Figueira, o Largo de Martim Moniz, tal como os Restauradores, passou a ser um mercado de frutas que só fechava às 8 da noite. Eram os chamados «mercados de levante». Levantavam-se, i.e., eram armados (tendas, barracas), montados (bancas), logo de madrugada, e retirados ao início da tarde ou ao fim da noite.

Praça do Martim Moniz |1947|
Em segundo plano, eléctrico ornamentado por ocasião das Festas da Cidade, comemorando o VIII Centenário da Tomada de Lisboa aos Mouros.
Mário Novais, in Lisboa de Antigamente

sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

Rua José António Serrano que foi Cç. do Colégio

Colégio (Calçada Nova do) — Esta categoria foi acompanhada do sufixo «Nova», para diferençar a via pública a que está aplicada a denominação correspondente, de outra que a teve igual, e hoje é denominada «José António Serrano» , com a categoria de Rua.
(BRITO, Gomes de) Ruas de Lisboa. Notas para a história das vias públicas, 1935)

Rua José António Serrano |1951|
Antiga Calçada do Colégio
Do lado esquerdo, o antigo Largo (e rua) do Socorro demolidos para urbanização
e rectificação da Rua da Palma e posterior abertura da Praça Martim Moniz na década de 1950.
Judah Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Com a legenda «Doutor Tratadista, Osteólogo, 1851–1901» foi o nome de José António Serrano fixado na que era a Calçada do Colégio, por deliberação camarária de 6 de Dezembro de 1906.
José António Serrano (1851-1904), foi Lente da Escola Médica e o primeiro cirurgião português que obteve a cura de um tumor sólido do ovário (por meio de laparatomia, em 1889) e a realizar uma histerectomia abdominal. Defendera tese em 22.12.1875 e três anos depois foi nomeado preparador e conservador do Museu de Anatomia da Escola sendo também cirurgião do Banco do Hospital de São José e, a partir de 1895, director de enfermaria do Hospital do Desterro bem como, em 1901, director da Repartição de Estatística do Hospital de São José. Foi lente substituto em 1880 de Anatomia Descritiva e lente proprietário em 1889, para além de ter regido na Escola de Belas Artes a cadeira de Anatomia Artística e Higiene de Edifícios. As suas obras essenciais foram «Manual Sinóptico de Anatomia Descritiva» e «Tratado de Osteologia Humana». [cm-lisboa.pt]

Rua José António Serrano |ant. 1949|
[Antes das demolições do Martim Moniz]
Antiga Calçada do Colégio [dos Jesuítas de Santo Antão-o-Novo, hoje Hosp. S. José, cerca;
Miradouro de Nossa Senhora do Monte.
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

domingo, 21 de setembro de 2025

Largo Silva e Albuquerque que foi Rua dos Canos

Não tem o bairro da Mouraria — de tão ressonante nome — o fundo sólido lisboeta do de Alfama. Não é, porém, menos característico, embora o seu pitoresco se concentre apenas em três ou quatro artérias buliçosas. Começou a povoar-se logo depois da tomada de Lisboa em 1147, quando D. Afonso Henriques para aqui atirou os mouros «forros», que ocuparam as encostas das Olarias e dos Lagares, as abas do Castelo, pelo lado N., descendo até ao vale, que é a Praça do Martim Moniz de hoje.
 
Ora, aproximando-nos do cabo da jornada, entremos no Largo Silva e Albuquerque [hoje Praça do Martim Moniz] Ponde avulta a face poente do casarão Alegrete — condenado à demolição, e muito bem. Ali, na parte que abre para a Rua da Palma — recorda o ilustre Norberto de Araújo — existiu até há dois anos [c. 1936] uma estreita serventia rasgada pela demolição já iniciada neste sítio, em obediência ao plano urbanista municipal.

Largo Silva e Albuquerque que foi Rua dos Canos |c. 1900|
Aguadeiro junto ao Palácio do Marquês de Alegrete.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

O sítio é feio, desagradável, sem pitoresco, ainda que com signıficação bairrista, nos seus cafés de tipo antigo, botequins e tavernas de peixe frito, durante o século passado de fama equívoca.
O dístico foi substituído, em 1885, por este actual de Silva e Albuquerque, em memória de José Maria da Silva e Albuquerque, operário muito culto, um apóstolo da instrução primária gratuita, falecido em 1879.

 

Largo Silva e Albuquerque que foi Rua dos Canos |1938-10-12|
Palácio do Marquês de Alegrete, portal sul-poente.
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

O Palácio dos Marqueses de Alegrete foi construído pelos condes de Vilar-Maior, no século XVII, sobre um lanço da muralha (da cerca de D. Fernando) e sobre a porta da Mouraria. Depois, elevado o conde de Vilar-Maior ao título de Marquez de Alegrete, se ficou chamando á porta da Mouraria — Arco do Marquez de Alegrete, nome que ainda conserva, e dando-se também o de «Rua do Arco do Marquez de Alegrete, à que d'esta porta vae ao Largo do Poço do Borratem».
(in Portugal antigo e moderno, 1873)

Largo Silva e Albuquerque com a Rua da Palma em fundo |1946|
Palácio do Marquês de Alegrete (demolições)
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, Vol XV, pp. 221, 1936.
ARAÚJO, Norberto de Peregrinações em Lisboa, vol. III, pp. 78-79, 1938.

domingo, 10 de abril de 2016

Igreja de São Brás e de Santa Luzia

Igreja implantada sobre a cerca moura, intimamente ligada aos Cavaleiros da Ordem de Malta, cuja origem parece remontar ao séc. XII. Primitivamente, era uma igreja-fortaleza avançada sobre os arrabaldes da zona oriental da cidade. Objecto de várias reedificações, este templo traduzia, após o terramoto de 1755, uma arquitectura chã com uma fachada principal de linhas simples e inspiração clássica, exibindo, na sua fachada lateral virada para o miradouro, dois painéis de azulejos, representando a conquista de Lisboa e a Praça do Comércio antes do terramoto, executados na Fábrica Viúva de Lamego. 

Igreja de Santa Luzia, Largo de Santa Luzia |1959|
Jardim Júlio de Castilho; painel de azulejos
representando a conquista de Lisboa e a Praça do Comércio
António Passaporte, in Lisboa de Antigamente

O interior, de planta em cruz latina e nave única, destacam-se por conservar 10 sepulturas, em forma de lápides ou monumentos funerários, com inscrições em português ou latim, distribuídas pela capela-mor, transepto e nave, as quais estão classificadas como Monumento Nacional.


Igreja de Santa Luzia, Largo de Santa Luzia |1949|
Jardim Júlio de Castilho

Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente
 
Nas paredes exteriores da Igreja de São Brás, orladas de flores, existem dois painéis de azulejos, um muito pormenorizado, mostrando o Terreiro do Paço nos começos do século XVIII, antes do terramoto de 1755, e outro relatando a façanha de Martim Moniz, durante os combates pela conquista de Lisboa em 1147: "Quando os mouros fechavam a porta do Castello precipitadamente, Martim Moniz, portuguez destemido, atravessou-se nellas, para dar passagem, morrendo gloriosamente." 
No jardim encontra-se um modesto busto de Júlio Castilho, historiador da Lisboa antiga.

Panorâmica sobre Alfama, tirada do Miradouro de Santa Luzia |1949|
Jardim Júlio de Castilho; à dir., a Igreja de Santo Estêvão

Eduardo Portugal, iin Lisboa de Antigamente

sexta-feira, 17 de abril de 2020

Venda das amêndoas em Sexta-feira Santa

Dia de sol. Mulheres veladas de negro em visita aos templos. Mais bichas a formigar pelos passeios do Chiado. Desta feita, bichas gulosas roendo amêndoas, saboreando o açúcar que vai faltando no café. E o corrupio passa, dá a volta à Baixa, alastra-se pelo Rossio e entra em S. Domingos. A quinta-feira santa é toda a Lisboa tradicional cheirando a rosmaninho. Que lindo dia de sol!
(in Arquivo nacional, Emprêsa Nacional de Publicidade, 1942)

Venda das amêndoas em Sexta-feira Santa |15 de Abril de 1927|
Cruzamento das antigas Ruas da Palma e do Martim Moniz (antiga zona da Guia)
Estas artérias foram extintas e substituídas pela actual Praça do Martim Moniz na década de 1940-50.
Fotógrafo: não identificado, in Lisboa de Antigamente

Crianças junto da tômbola das amêndoas da Casa Pia de Lisboa [1907-04]
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

sexta-feira, 17 de junho de 2022

Rua Dom Duarte

Pelo edital da CML de 3 de Novembro de 1949, o troço da Rua dos Fanqueiros, compreendido entre a Praça da Figueira e a Rua da Palma, passou a denominar-se: Rua de Dom Duarte.

Dom Duarte, filho de D. João I, Mestre de Avis e de D. Filipa de Lencastre, nasceu em Viseu, a 31 de Outubro de 1391 e faleceu em Tomar, a 13 de Setembro de 1438. Foi o décimo primeiro rei de Portugal e o segundo da segunda dinastia tendo ascendido ao trono com a morte de seu pai em 1433.
Em relação à política interna promulgou a Lei Mental, medida de centralização que se destinava a defender o património da coroa. O seu curto reinado, de apenas cinco anos, ficou também marcado pela passagem do cabo Bojador por Gil Eanes, feito que permitiu uma mais rápida exploração da costa africana.
Com o apoio da sua mulher a rainha D. Leonor de Aragão e dos seus irmãos infantes D. Fernando a D. Henrique e a oposição dos irmãos infantes D. Pedro a D. João, lançou-se na política de conquistas em Marrocos, que se saldou pelo desastre militar de Tânger e pela morte de D. Fernando no cativeiro.

Rua Dom Duarte |195-|
Ao fundo nota-se a Rua da Palma; à dir., a extinta Rua Silva e Albuquerque; o sentido do trânsito foi alterado durante
o período em que tiveram lugar as demolições na Mouraria (para construção da Praça Martim Moniz).

Judah Benoliel, 
in Lisboa de Antigamente

domingo, 2 de maio de 2021

Igreja de São João de Deus

No sítio onde hoje se encontra a Igreja de São João de Deus, erguia-se outrora uma vacaria  do abastado proprietário João do Outeiro — que deu nome a um arruamento na velhinha Mouraria desde 1552 [Araújo: 1938]. Era um espaço riscado pela Estrada das Amoreiras e Rua Alves Torgo e entremeadas de outros caminhos estreitos.

Inaugurada em 1953, sob projecto do arq. António Lino, destacam-se duas particularidades: a sua estrutura em três naves separadas, convergentes para o altar-mor, iluminado por uma torre central; e ter recolhido parte do espólio da antiga Igreja do Socorro, destruída aquando das demolições do Martim Moniz (várias alfaias de culto e mobiliário, incluindo o arcaz em uso na sacristia). 

Praça de Londres, à direita da imagem a Igreja de São João de Deus [post. 1953]
Praça de Londres; Rua Brás Pacheco
António Passaporte, in Lisboa de Antigamente

Merece ainda referência, o seu acervo artístico contemporâneo composto pela escultura de Leopoldo de Almeida e de Soares Branco — várias estátuas, incluindo a do Santo Padroeiro e dois arcanjos suspensos na parede principal exterior — pela pintura de Domingos Rebelo (tríptico do altar-mor, com episódios da vida de S. João de Deus) e pela cerâmica de Jorge Barradas — relevo em cerâmica colorida sobre a pia baptismal, representando o baptismo de Cristo.

Igreja de São João de Deus [1959]
Praça de Londres; Rua Brás Pacheco
Armando Serôdio, in Lisboa de Antigamente

Na Época da construção, António Lino explicou o seu desejo de aproximar os fiéis do altar, vencendo a afastamento obrigatório que existia em relação à assembleia, circunstância que só foi alterada uma década depois com o Concílio Vaticano II. [paroquiasaojoaodeus.pt]

Igreja de São João de Deus [post. 1953]
Praça de Londres; Rua Brás Pacheco
Artur Pastor, in Lisboa de Antigamente
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