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Wednesday, 14 June 2017

Monumento a Luiz de Camões

Pela Carta de Lei de 10 Agosto de 1845 foi o governo autorizado a expropriar por utilidade publica o respectivo terreno, que estava compreendido entre o Largo das Duas Igrejas, Rua do Loreto, Travessa dos Gatos [que se foi com os Casebres do Loreto] e Rua da Horta Seca, e a entregá-lo à Câmara Municipal, para nele se formar uma grande praça, que se pensou aproveitar para a construção do futuro Teatro Nacional.

Por ocasião do 3º centenário de Camões (1880) resolveu-se colocar no Largo do Loreto a estátua do Épico, dando ao largo, devidamente disposto, nivelado e gradeado, o nome de Praça Luiz de Camões.


Pensando-se então em erguer uma estátua em honra do imortal autor de Os Lusíadas, para a qual se indicara o Passeio Público, foi decidido, pela respectiva Comissão, presidida pelo duque de Saldanha, solicitar, para o efeito, a nova praça em construção, e que à mesma fosse dado o nome do grande épico. Procedeu-se à colocação da primeira pedra, em 29 de Junho de 1862, com a presença de Sua Majestade. 

Monumento a Luiz de Camões [c. 1870]
Observe-se o gradeamento em volta do monumento e que tanta celeuma causou à época
Praça de Luís de Camões.
Francesco Rocchini, 
in Lisboa de Antigamente

Não cessavam os comentários, enquanto durou a construção da praça, como este que aqui damos:
«Parece que um mau fado persegue a Praça de Luís de Camões. Que gradaria que hoje ali começaram a colocar! Não se pode imaginar coisa de mais mau gosto. São uns grossos varões de ferro atravessados e com flores amarelas.
«Dir-se-ia que o gradeamento fora feito para uma jaula de animais ferozes, tão possante é.
«Na verdade, custa a crer como a Câmara não concebeu que aquele gradeamento é impróprio da praça. O desenho não é elegante; porém, se ao menos fosse de mais ligeira fábrica, se não tivesse tão grossos varões, poderia passar com menos reparo; como fizeram o tal gradeamento, era objecto das censuras de toda a gente e censuras justificadas, pois que ali fica um padrão do mau gosto no governo da cidade.»¹

Praça Luís de Camões  [c. 1900]
Assistência à passagem do cortejo das festas
de homenagem a Luís de Camões
Fotógrafo não identificado, in LdA
Monumento a Luiz de Camões [Início séc. XX]
 Estátuas em pedra lioz
Praça Luís de Camões
Fotógrafo não identificado, in LdA






















 
 
A inauguração da estátua, no meio de delirante entusiasmo, teve lugar em 9 de Outubro de 1867, muito antes da data em que se completou o tricentenário do passamento do cantor das nossas glórias². O custo da obra, paga ao escultor Vítor Bastos, foi de trinta e oito contos. A figura principal é de bronze, tem quatro metros de altura e está assente num pedestal octogonal de sete metros e quarenta e oito centímetros de altura, rodeado de oito estátuas em pedra lioz, de dois metros e quarenta, representando Fernão Lopes, Pedro Nunes, Gomes Eannes de Azurara, João de Barros, Fernão Lopes de Castanheda, Vasco Mouzinho de Quevedo, Jerónimo Corte Real e Francisco Sá de Miranda.

 A Praça de Luís de Camões, na tarde da inauguração da estátua do Poeta [1867]
Na janela do centro do 1.° andar, do prédio do lado Oeste, que foi de Carvalho Monteiro
armou-se a tribuna real 
in Archivo Pitoresco. Vol. X, 1867

Em 10 de Junho de 1880, uma grande multidão, entusiasmada, formada em cortejo, desfilou perante o monumento, irmanando-se com a massa compacta de portugueses, que enchia os passeios do Chiado, na ânsia de vitoriar a memória do poeta.
Por ocasião do Ultimatum inglês (1890), quando o monumento foi coberto de crepes pelos estudantes universitários, ainda o rodeava o gradeamento que a crítica alfacinha não perdoou.

¹ Jornal do Comércio, de 30 de Setembro de 1862
² Nessa noite, por iniciativa do rei D. Luís, efectuou-se um «baile campestre» nos jardins do palácio de Belém (A Dança no Estrangeiro e em Portugal, de Eduardo de Noronha, pág. 333)
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Bibliografia
COSTA, Mário, O Chiado pitoresco e elegante, pp. 68-70, 1987.

Monday, 4 January 2016

Praça Dom João da Câmara que foi Largo de Camões

Foi neste arruamento próximo do Teatro D. Maria II que a edilidade decidiu perpetuar como Praça, o nome do dramaturgo D. João da Câmara, com a legenda «Figura Gloriosa do Teatro Português, 1852–1908», embora o edital de 1924 tenha por lapso mencionado Largo e, durante décadas, se tenha mantido a duplicação de referências, ora como Largo ora como Praça.

Praça Dom João da Câmara [Início do séc. XX]
Antigo
Largo de Camões;

Confluência da Rua 1º de Dezembro, Praça D. Pedro IV e Largo do Regedor.
Estação do Rossio; Hotel Avenida Palace
Alexandre Cunha, in Lisboa de Antigamente

Dom João Gonçalves Zarco da Câmara (1852-1908), alfacinha do nascimento à morte, viveu no Palácio Ribeira Grande, à Junqueira, (vide artigo anterior) e embora fosse engenheiro dos caminhos-de-ferro dedicou-se à escrita, sobretudo a de teatro, tendo-se estreado em 1876 no teatro D. Maria com a comédia «Ao Pé do fogão». Como seus êxitos maiores destacam-se as operetas «O burro do Sr. Alcaide» (1891) e «Cocó, reineta e facada» (1893), bem como as peças «Bernarda no Olimpo» (1874), «Meia-Noite» (1890), «D. Afonso VI» (1890), «Alcácer Quibir» (1891), «Os Velhos» (1893), «A Toutinegra Real» (1894), «O Amigo das mulheres» (1896), «Triste Viuvinha» (1897), «Rosa Enjeitada» (1901) e «Ali-babá» (1904). Dom João da Câmara publicou também poemas, romances e contos para além da sua colaboração na revista «O Occidente» e de ensinar Arte de Representar no Conservatório de Lisboa.[cm-lisboa.pt]


Praça Dom João da Câmara [Início do séc. XX] 
Antigo Largo de Camões;
Confluência da Rua 1º de Dezembro, Praça D. Pedro IV e Largo do Regedor
Café Suisso; Teatro D. Maria; Castelo São Jorge; Café da Gare; Praça Dom Pedro IV
Alexandre Cunha, in Lisboa de Antigamente

Esta artéria era o Largo de Camões, já assim denominado em 1858 no Atlas da Carta Topográfica de Lisboa de Filipe Folque.
Há quem suponha que este Camões é o nosso épico Luiz de Camões. Errada suposiçãoJoão Paulo Freire  — jornalista, poeta, ensaísta, novelista — esclarece o motivo das trocas e baldrocas com este topónimo:
O Camões do Rossio nada tem que ver com o Camões das Duas Igrejas [actual Praça de Luís de Camões]. Este é o épico. Aquele é apenas o seu homónimo por antonomásia — Caetano José da Silva Souto Mayor, poeta epigramático, muito espirituoso, e que foi corregedor da corte de D. João V, juiz do Crime do Bairro da Mouraria, e corregedor do Bairro do Rossio, onde morava, pois residiu sempre no prédio onde mais tarde se construiu o actual que é ocupado pela Brasileira. A Câmara do tempo, querendo perpetuar-lhe a memória e galardoar-lhe os serviços teve a péssima ideia de dar ao Largo que resultou das construções e rectificações de 1840 o nome que os condiscípulos de Caetano José lhe haviam aplicado nos bons tempos de Coimbra, e a vereação que já no nosso tempo mudou o nome para D. João da Câmara, supondo que este Camões era o das Duas Igrejas, foi igualmente estúpida porque o célebre Corregedor merecia bem que o seu nome figurasse no pequenino Largo que foi quasi que ideia sua, entusiasmo seu e seu prazer.
Assim é que estava certo e ficava bem, mas para isto era preciso que quem fez a mudança soubesse primeiramente quem era o Camões que tinha dado nome ao Largo. Porque foi desta ignorância primária que partiu aquela asneira de palmatória.
(FREIRE, João Paulo, Lisboa do meu tempo e do passado, Lisboa, 1931-1939)

Atlas da Carta Topográfica de Lisboa, sob orientação de Filipe Folque, [1858]
Assinalado a vermelho, o largo de Camões, hoje Praça Dom João da Câmara
in Lisboa de Antigamente

Friday, 16 March 2018

Liceu Camões ou «Lyceu de Camões»

Notável para a sua época de construção, e ainda hoje [em 1938] estabelecimento publico de primeira ordem, é êste outro edifício escolar, do Liceu Camões. Foi inaugurado em 1909, e pertence ao grupo destas edificações liceais que se deveram ao ilustre estadista João Franco. Possue condições pedagógicas modernas, grandes salas, aulas arejadas, galerias e corredores largos, pátios de recreio, e um admirável ginásio.¹


O Liceu Nacional de Lisboa, actual Escola Secundária de Camões, foi o segundo liceu de Lisboa, criado em 1902 por Carta de Lei, de 24 de Maio.
Inicialmente a funcionar no Palácio da Regaleira, no Largo de São Domingos, partilhava as suas instalações, no rés-do-chão, com uma leitaria e uma loja de mobílias. Dois anos mais tarde com a divisão de Lisboa em três zonas escolares, o Liceu Camões, ou «Lyceu de Camões» adopta a designação de Liceu Central e passa a ser o principal da zona onde fica situado — primeira zona.

Liceu Camões |1914|
Soberano senhor da Praça José Fontana
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Em 1907, o Governo autoriza a aquisição de terreno, construção de um edifício e compra de mobiliário. O local escolhido, Largo do Matadouro Municipal [actual Praça José Fontana] foi alvo de fortes críticas por ser considerado ermo, de difícil acesso e distante para os alunos.
Projectado em 1907 pelo arquitecto Miguel Ventura Terra e edificado entre 1908 e 1909, foi o dos segundo liceu moderno da capital. A sua construção resulta de uma política de fomento do ensino superior, da qual fez parte a conclusão do Liceu Passos Manuel e o projecto do Liceu Pedro Nunes, também do risco de Ventura Terra. O edifício foi objecto de intervenções de ampliação e renovação em 1927, 1931, 1933, 1934, 1935 e 1940.

Liceu Camões |1928|
Praça José Fontana
O corpo central possui, no piso térreo, três arcos de volta perfeita dando um deles acesso ao interior. Em 1972 foi inaugurado à entrada do liceu, por ocasião do IV Centenário da Publicação de "Os Lusíadas", o busto de Camões, encomendado ao escultor Fernando Fernandes, para homenagear o grande poeta português.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente
Liceu Camões |1933|
Praça José Fontana
Os alunos do liceu Camões à saída daquele edifício, no dia de abertura de aulas.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Na sua construção recorreu-se aos novos materiais da época: ferro e tijolo. Neste novo edifício já havia uma cantina, papelaria, livraria e estava englobado um conjunto de infra-estruturas associadas à prática do exercício físico dos quais se destacam os espaços para ginástica e banhos. Os espaços destinados ao convívio, às disciplinas científicas e ao exercício físico eram uma novidade nas construções escolares da época.
No início de 1908 — Janeiro — iniciam-se as obras que surpreendentemente terminam vinte e um meses depois.
Em 1909, a 16 de Outubro, inaugura-se o novo Liceu que entretanto, em 9 de Setembro de 1908 muda oficialmente a sua designação para Lyceu de Camões.²

Liceu Camões |1928|
Praça José Fontana
Nas enjuntas observam-se medalhões cerâmicos em relevo com elementos vegetalistas; antecedem a cornija painéis de cerâmica com motivos zoomórficos e vegetalistas.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

N.B. Pelo Liceu Camões passaram grandes vultos da História e da Cultura do nosso país, quer como alunos quer como professores: Mário de Sá-Carneiro, Vergílio Ferreira, Aquilino Ribeiro entre outros.
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Bibliografia
¹ ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. IV, p. 58, 1938.
² Almeida e Duarte Belo – Portugal Património: Lisboa, Vol. VII, 2007.

Sunday, 7 March 2021

Da Praça de Luís de Camões ao Chiado, «capital de Lisboa»

Pode São Bento ter-se convertido no símbolo da Política; o Terreiro do Paço no símbolo da Burocracia; a Rua dos Capelistas no símbolo da Finança; o Chiado alcançou o privilégio de os superar a todos, porque se converteu no símbolo do Bom-Tom. Passando a pontificar na Literatura e na moda, consequentemente os homens de letras passaram a escrever para o Chiado, os janotas a apurar-se para o Chiado, as Senhoras a vestir-se para o Chiado. Mais do que uma rua, ainda que das mais afortunadas de Lisboa, o Chiado tornou-se uma verdadeira instituição nacional  quase que um autêntico Estado dentro do Estado, com o seu Governo, o seu Parlamento, a sua Academia, a sua Catedral. Eça de Queiroz não hesitou mesmo em afirmar: «o que um pequeno número de jornalistas, de políticos, de banqueiros, mundanos decide no Chiado que Portugal seja — é o que Portugal é.»¹


Quem está neste Largo do Chiado — relembra Mário Costa — , pode dar um saltinho até à Praça de Luís de Camões, e é justo que se atreva a essa pressuposta acrobacia, para trazer à lembrança os traços pitorescos que o progresso apagou, a começar na eliminação dos típicos quiosques com venda de refrescos, onde se bebia o melhor capilé de Lisboa. [vd. 3ª imagem]

Da Praça de Luís de Camões ao Chiado, «capital de Lisboa» [séc. XIX]
Largo do Chiado, que já foi Largo das Cavalariças Reais, Largo do Loreto e Largo das Duas Igrejas.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Ajudavam a compor o singelo friso, os esfuziantes vendedores das popularíssimas castanhas assadas no forno — quentes e boas, dé réis vinte! — ; o pictural homem do realejo, acompanhado do urso amestrado, que dançava ao som do toque de pandeireta; a sugestiva tela que conglobava as incomparáveis cenas interpretadas pelos inimitáveis pantomineiros de praça pública  empoleirados em pequena tripeça, fazendo uso do mais cómico palavreado, uma arenga às massas ingénuas — às vezes também desfrutadoras – propagandeando milagrosos produtos, tudo maravilhoso, elixires da longa vida, para fazer crescer o cabelo e extrair calos sem dor, os únicos para tirar as nódoas do fato.

Da Praça de Luís de Camões ao Chiado, «capital de Lisboa» [séc. XIX]
Largo do Chiado, que já foi Largo das Cavalariças Reais, Largo do Loreto e Largo das Duas Igrejas.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

 Foi-se toda essa colorida pintura, muito século XIX, quadros que enterneciam, pela ingenuidade do desenho. Também certo dia se arrancaram os utilíssimos bancos de duas tábuas, que foram o consolo de velhos reformados; e, em nome da civilização, se demoliu outro estilo de quiosque, todo de ferro e em forma cilíndrica, disfarçado por grande biombo, com entrada só para homens. [vd. 3ª imagem]

Da Praça de Luís de Camões ao Chiado, «capital de Lisboa» [1912]
Ao fundo notam-se os antigos bancos de duas tábuas e o desaparecido urinol
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente
 
Bibliografia
COSTA, Mário, O Chiado pitoresco e elegante, pp. 90-102, 1987.

Monday, 3 August 2015

Elevador Estrela-Camões (actualizado)

«A Morte do Maximbombo». Era este o título da Ilustração Portuguesa revista semanal editada pelo jornal O Século em 14 de Julho de 1913 — que pode ser lida na íntegra aqui — e continuava: «Morreu o Maximbombo da Estrela! Há mais tempo ele se tivesse  sumido, o monstrengo, para dar logar a coisa mais moderna, mais decente. Aquilo era mesmo um monstrengo: pesado, incomodo, infecto e amaldiçoado como um assassino.»

Elevador Estrela-Camões  [1913]
Calçada do Combro; Igreja de Santa Catarina
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

O engenheiro Mesnier du Ponsard ganhou a concessão do troço do Camões – Estrela – Rua de São João dos Bem-Casados [actual Rua Silva Carvalho] em 1882, mas acabou por passá-la para a Companhia dos Elevadores. Em 14 de Agosto de 1890 entrou em funcionamento a linha do Camões à Estrela, a cargo da Nova Companhia dos Ascensores Mecânicos de Lisboa, a mesma mas com novo nome desde 23 de Outubro de 1884.
Era um sistema de transporte público de passageiros em carros fraccionados por cabo sem-fim subterrâneo, rodando sobre carris-ranhura encastrados na via pública.

Elevador Estrela-Camões  [1913]
Rua dos Poiais de S. Bento junto à Travessa do Oleiro
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente
Elevador Estrela-Camões [ant. 1913]
Calçada do Estrela
Elevador da Estrela com reboque, passando pela A.R.
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Este elevador fora projectado com um troço mais longo, mas nunca foi completado, tendo funcionado somente entre o Camões e a Estrela até 1913. O arrastado machimbombo — como era  popularmente apodado — que aqui e lá, para mudar de direcção, rodava sobre placas giratórias, A Carris tomou conta daquilo tudo e instalou o eléctrico, tal como absorveu os elevadores da Bica, da Glória, do Lavra e Santa Justa, fazendo uma  desaparecer o da Biblioteca, que subia de S. Julião, poupando as canseiras da Calçada de S. Francisco, uma vez que o eléctrico passava por lá.
Os seus carros foram vendidos para barracas de banhos, para barracas de feiras e para casas de guarda no campo.

Elevador Estrela-Camões [c. 19--]
Praça de Luís de Camões; Igreja de N. S. da Encarnação
José Chaves Cruzl, in Lisboa de Antigamente
Elevador Estrela-Camões [1913]
Praça de Luís de Camões
O Ascensor da Estrela dando a volta na raquette da Praça Luís de Camões.
Joshua Benoliel, in Ilustração Portuguesa
Elevador Estrela-Camões [1913]
Praça da Estrela
Voltado à força de braços para mudar de linha.
Joshua Benoliel, in Ilustração Portuguesa

Thursday, 12 January 2017

As «velhas tílias do Camões»

Mas olha-me esta Praça, Dilecto, e o enfiamento do Chiado: tem a sua graça ingénua alfacinha, e uma ponta de beleza. (...) Hoje ainda possue uma certa harmonia de conjunto nos edifícios sóbrios e nas árvores que a rodeiam — uma das quais um exemplar de tília, por ventura o mais interessante da Cidade, onde se aninham às tardes os «pardais do Camões», que em revoadas chegam dos campos, num espectáculo bem curioso, de uma ternura de cidade romântica.


Praça de Luís de Camões [c. 1950]
Poda da tílias
Judah Benoliel,in Lisboa de Antigamente

Praça de Camões?, sabe? — explicava à irmã uma filhinha do Jaime Cortesão — é um grande largo onde está Camões, no meio, a ler versos e à volta os pardais a aplaudi-lo. Sim, à volta nas árvores, e principalmente naquelas duas tílias da esquina do Alecrim, que deviam ser consideradas monumento nacional, árvores na última hora da tarde tão carregadas de vida inocente que fazem parar e sonhar o lisboeta calcinado pela luta e pelo amargor de todos os dias. Árvores que aplaudem Camões e tornam os homens melhores. 

Praça de Luís de Camões [c. 1950]
Poda da tílias
Judah Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Finalmente, em Outubro de 1963, a «formosa Praça recebeu importantes modificações» — recorda-nos Mário Costa —  desapareceram os antigos quiosques com o seu capilé e foram acrescentados novos bancos em pedra lioz da autoria de mestre José Luís Monteiro, «coincidindo esse embelezamento, com o forçoso derrubamento da bela e vetusta tília — a «velha tília do Camões» — , que os muitos anos e a doença fizeram tombarUma guarnição de pinheiros mansos, em pleno crescimento, substitui o perdido exemplar botânico e as suas desventurosas irmãs».

Praça de Luís de Camões [c. 1950]
Poda da tílias
Judah Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia:
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. V, 1938.
BRANDÃO, Raul, ANGELINA, Maria, Os pardais de Lisboa. Portugal Pequenino, 1930.
COSTA, Mário, O Chiado pitoresco e elegante, 1987.

Wednesday, 18 July 2018

Café Martinho

Depois diante do Martinho, fallou em irem tomar neve [nome que se dava ao gelo em rama, sorvete]; mas D. Felicidade receava a frialdade, Luiza tinha vergonha. Pelas portas do café abertas, viam-se sobre as mesas jornais enxovalhados; e algum raro indivíduo, de calça branca, tomava placidamente o seu sorvete de morango.

Eça de Queiroz (1845-1900) O Primo Basílio, 1878.


De mais marcante no local, — recorda-nos Norberto de Araújo — e com saborosas tradições políticas e literárias, ai temos o Café Martinho, fundado por Martinho Bartholomeu Rodrigues em 1846, transformado já no actual século [XX], e que foi objecto de uma consagração evocativa na noite de 26 de Dezembro de 1936 pelo grupo «Amigos de Lisboa».

A fama do Café Martinho excedeu todas as expectativas anteriores à sua celebrada inauguração. Mas o certo é que contava já, à partida, com um fundador célebre na praça de Lisboa: Martinho Bartolomeu Rodrigues, proprietário — pelo menos desde 1829 — do Café da Arcada e contratador oficial da neve que se vendia na cidade. Presumir-se-ia que os gelados do Martinho viriam a ser — como de facto foram — cobiçados por Lisboa inteira.
(Marina Tavares Dias, Os cafés de Lisboa, 1999)

Café Martinho, a fachada inicial tal como Eça de Queiroz a conheceu [1909]
Quer você vir tomar o seu chá ao Martinho? — É a melhor torrada de Lisboa. [Eça de Queiroz, A Relíquia]
Praça D. João da Câmara. antigo Largo Camões

 Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

O Largo [antigo de Camões hoje Praça D. João da Câmara] que separa a Estação do Rossio do teatro ex-D. Maria, ex-Nacional, hoje Garrett, deveria chamar-se, se houvesse justiça nos nomes das ruas e praças, Largo dos Cafés. Tem nas suas margens os dois maiores cafés de Lisboa, o Suisso e o Martinho. Defronte tem outro pequeno: o da Gare, que, coitado, já está todo amachucado. Também quem se lembra de pôr um prédio daquele tamanho em cima dum café tão pequenino!

(André Brun (1881-1926), A Baixa às 4 da tarde, 1910)


Café Martinho, a entrada de ferro e vidro, após o restauro [ca. 1910]
Ainda me lembro que há dois anos o café Martinho foi respeitosamente de chapéu na mão pedir ao senado lisbonense licença para colocar algumas cadeiras e umas modestas mesas em face das suas portas, no grande largo deserto que lhe fica defronte.
O senado rejeitou o pedido, vendo nas ambições do café Martinho um perigo para o trânsito público.
[Guilherme de Azevedo, Crónicas de Paris: 1880-1882]

Praça D. João da Câmara. antigo Largo Camões
Alberto Carlos Lima,
in Lisboa de Antigamente
Café Martinho, a entrada de ferro e vidro, após o restauro [1909]
Praça D. João da Câmara. antigo Largo Camões
Joshua Benoliel,
in Lisboa de Antigamente
Café Martinho, após o restauro [1909]
Praça D. João da Câmara. antigo Largo Camões
No Martinho, já silencioso, o gás ia adormecendo entre os espelhos baços; e havia apenas numa mesa do fundo um moço triste, com a cabeça enterrada entre os punhos, diante de um capilé. [Eça de Queiroz, A Relíquia]
 Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Foi o café mais importante de Lisboa e, como tal, aparece referido por vários autores ao longo da sua existência, como se pode constatar em alguns excertos que aqui publicamos. Nele se reuniram gerações de intelectuais. O Café Martinho era famoso pelas suas deliciosas confecções culinárias, pelas torradinhas de Meleças, pelo chá verde com limão e pela neve, a par das desinteligências políticas e literárias que nele ocorreram. Foi palco logo no ano seguinte da peleja entre o batalhão Académico e os Batalhões do Algarve e da Carta, vendo esvoaçar pelo ar copos, chávenas, garrafas, pratos, açucareiros, bandejas, espelhos, tampos de mármore e bancos, desacato este que só findou com a intervenção da cavalaria municipal. Tal ocorrência justificou-se pelo facto de o filho do proprietário pertencer à quarta companhia do Batalhão Académico. Augusto Zeferino Rodrigues cursou direito.

Café Martinho, a sala de café e galeria da sobreloja onde ficava o restaurante [1909]
Praça D. João da Câmara. antigo Largo Camões

 Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

 

Foi no café Martinho — unico, n'essa epocha, que as senhoras atravessavam até à sala interior, para tomarem neve n'uma estufa!
Bulhão Pato (1829-1912), Memórias II [c. 1854]


Sucedeu a seu pai como proprietário do Café Martinho da Arcada e do Café Martinho do antigo Largo Camões. Este café tinha uma ampla sala com arcarias, cujas colunas eram revestidas com espelhos de Veneza. As mesas eram rectangulares com tampo em mármore branco. Os bancos do lado da parede eram de espaldar presos à parede. Ao fundo desta sala existia uma estreita e reservada sala de senhoras, onde as damas se deliciavam a saborear a famosa neve, ou seja, os sorvetes da época.
Personagens ilustres frequentavam este café. Alexandre Herculano ia lá sempre às quintas-feiras à tarde. Eça de Queiroz, Almeida Garrett, Bulhão Pato, o actor Tasso, o livreiro Zeferino Albuquerque, Pedro Lopes de Mendonça, Zacarias de Aça, Júlio de Castilho, Camilo Castelo Branco, Júlio César Machado, José Estêvão, Mendes Leal, Guerra Junqueiro entre tantos outros também figuram no leque da clientela assídua deste café. Célebres se tornaram também alguns dos seus criados, é o caso do Fagundo e do galego Valentim este último retratado inclusivamente em O António Maria, de Rafael Bordalo Pinheiro, graças ao seu enorme nariz.

Café Martinho, salão de restaurante na galeria da sobreloja [1909]
Ao fundo, um quarteto com piano de cauda animava almoços e jantares.
Praça D. João da Câmara. antigo Largo Camões

 Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Em 1909, o café foi remodelado. A antiga fachada foi substituída por uma entrada de ferro e vidro [vd. 2ª e 3ª fotos]. O interior do café decorado com arte-nova. A decoração e pinturas eram do artista João Vaz e as esculturas de Josef Füller. Mário de Sá Carneiro e Fernando Pessoa aí se encontravam para rever as provas tipográficas dos livros do último e da própria revista Orpheu.
Entre 1950 e 1953, o Café Martinho foi transformado em cervejaria, pertencendo à data à Companhia de Cervejas Estrela. A sua clientela passou a ser a geração académica dos anos 50 e 60, e o seu petisco o bife especial. Em Maio de 1968 o café encerrou portas e em Outubro desse ano reabriu como dependência bancária do Banco do Alentejo. É actualmente uma dependência do Banco Português de Investimento.

Café Martinho [ant. 1968]
Praça D. João da Câmara. antigo Largo Camões

Estúdio Horácio Novais, in Lisboa de Antigamente

Na «sentença de partilhas» dos bens de Martinho Bartholomeu Rodrigues (falecido a 22 de Abril de 1881) — refere Marina T. Dias — figura uma dívida de 1.214 réis, contraída pela Casa Real em vários fornecimentos de neve. A relação dos bens do antigo neveiro prossegue, depois, ao longo de oito páginas, indicando valores tão díspares como acções e obrigações, jóias  e peças de ouro, propriedades urbanas e terrenos agrícolas. [...] Um pormenor, contudo, atesta o verdadeiro luxo praticado no serviço dos dois cafés: o valor dos talheres e outros utensílios de prata (que serviam às mesas) que vem mencionado na relação dos bens. 422..618 réis valiam as pratas do Martinho da Arcada e ainda mais — 467.684 — as do Martinho do antigo Largo Camões [uma verdadeira fortuna para aquela época].
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Bibliografia
QUEIROZ, Eça de, O Primo Basílio, 1878.
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XII, p. 84, 1939.
DIAS, Marina Tavares, Os cafés de Lisboa, 1999.
AMIGOS DE LISBOA, Evocação do Café Martinho, 1936.
SUCENA, Eduardo, «Cafés» in SANTANA, Francisco e SUCENA, Eduardo, 1994.

Friday, 23 September 2022

Colocação da estátua de Camões

O monumento consagrado ao immortal poeta Luiz de Camões, está n'esta praça e foi inaugurado no dia 9 de Outubro de 1867. O risco, desenho e esculptura é de Victor Bastos. Tem este monumento desde o solo até ao pedestal 11,48 centimetros. A estatua de Camões tem quatro metros d'alto e foi fundida na fabrica Preseverança. O pedestal do monumento é um octógono de 7,48 centimetros de alto assente sobre quatro degraus. 

Colocação da estátua de Camões |1867|
A estátua, ainda envolta em panos, é parte do monumento erigido a memoria do insigne
poeta na Praça de Luiz de Camões (antigo Largo do Loreto até 1860) Camões (praça de Luiz
de) fica entre as ruas do Loreto, Norte, Gavias, Alecrim, larga de S. Roque, Flores e Horta
Secca; freguezia da Encarnação 1 a 48. [Velloso: 1869]
Colecção Alcídia e Luís Viegas Belchior, in Lisboa de Antigamente

Nos angulos do octogono tem oito plintos em que assentam oito estatuas feitas de pedra lioz, tendo cada figura 2,40 centimetros e são: Fernão Lopes, Corte Real, Pedro Nunes, Vasco Mouzinho, Gomes Eannes, Sá de Miranda, João de Barros e Cantanhede. A praça do nascente ao poente mede 66 metros e de norte a sul 36.
(in Roteiro das ruas de Lisboa e immediações, por Eduardo O. Pereiro Queiroz Velloso, 1869)

Monumento a Luiz de Camões |1867|
Observe-se o gradeamento em volta do monumento e que tanta celeuma causou à época.
Praça de Luís de Camões
Augusto Moreira, in Lisboa de Antigamente

Wednesday, 12 August 2015

Lyceu de Camões

Projectado em 1907, pelo arq.º Miguel Ventura Terra, foi construído de raiz na Praça José Fontana, entre 1908-1909, ano em que foi inaugurado sob a designação oficial de "Lyceu de Camões", tornando-se uma referência pioneira na arquitectura escolar à época, inaugurando em conjunto com outros liceus um modelo de liceu moderno em Lisboa. Este novo modelo de liceu trouxe uma arquitectura de utilidade pública, funcionalmente racionalista, muito técnica, desenvolvida numa linha decorativamente despojada e de volumetrias simples Tendo em conta a construção de um edifício essencialmente higiénico e confortável, bastante arejado e iluminado, o arquitecto projectou blocos rectangulares articulados, recorrendo aos novos materiais da época, o ferro e o tijolo, assim como a um esquema compositivo que primava pela ausência de corredores fechados, preferindo salas abertas para o pátio ou para galerias exteriores, favorecendo a existência de múltiplos espaços de recreio.

Lyceu de Camões  [c. 1909]
Praça José Fontana
Perspectiva tirada da Rua Tomás Ribeiro
Alberto Carlos Lima, in Lisboa de Antigamente

Estruturado em 2 pisos, o edifício apresenta planta rectangular e simétrica, segundo um esquema em tridente, inscrevendo-se num alongado rectângulo seccionado por outros 3, correspondentes a 3 alas paralelas entre si e perpendiculares à fachada principal, que possibilitam a formação de dois amplos espaços abertos, rectangulares, destinados a recreio. A distribuição das salas de aula é feita pelos corpos laterais encontrando-se os serviços administrativos, refeitórios e o ginásio instalados no corpo central. Em 1927 foram construídos 2 pavilhões nos eixos dos Pátios Sul e Norte, respectivamente destinados a Laboratórios de Física e de Química.

Lyceu de Camões  [c. 1909]
Praça José Fontana
Perspectiva tirada da Rua Gomes Freire
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Em 1972 foi inaugurado à entrada do liceu, por ocasião do IV Centenário da Publicação de "Os Lusíadas", o busto de Camões, encomendado ao escultor Fernando Fernandes, para homenagear o grande poeta português, que deu nome a este liceu. 
O Antigo Liceu Camões, actual Escola Secundária Camões, encontra-se Em Vias de Classificação.

Lyceu de Camões  [c. 1930]
Praça José Fontana
Postal não circulado, in Lisboa de Antigamente

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