Wednesday, 8 May 2019

Alameda de Algés

Com uma História a caminho do meio milénio, o Convento actualmente transformado no Palácio Foz, faz parte integrante das raízes de Algés. Da sua história consta que D. Francisco de Gusmão, Cavaleiro da Casa da Infanta D. Maria, donatário de vastos terrenos na orla do Reguengo de Algés, doou esses terrenos aos monges, em 1559, para a fundação de um Convento evocando S. José. Mais tarde, o Cardeal D. Henrique ainda Infante, construiu nesse local três casas com uma Capela, e em 1595, o Provincial — Frei António da Anunciação, pela terceira vez erigiu o Convento, com uma albergaria de excelência para a época. 

Alameda de Algés  |Início séc. XX|
 Alameda Hermano Patrone
Torreões do Palácio dos Condes da Foz / Quinta de S. José de Ribamar
Garcia Nunes, in Lisboa de Antigamente

Em 1834, dá-se o confisco dos bens das Ordens Religiosas, em proveito da Fazenda Pública e assim o Convento e as suas terras foram vendidas a João Marques da Costa Soares, um capitalista, que em 1850 vendeu toda a propriedade a Andrade Neri, o qual mandou restaurar a encantadora Casa dos Arrábidos, assim como a bela Igreja. Em 1872, o Conde de Cabral comprou tudo e fez a muralha e a bela construção dos arcos que fica sobranceira à entrada. A Pousada foi transformada no palacete de airosas linhas, arcarias e colunas que permanecem até aos dias de hoje,
Hoje é propriedade privada fruto de um projecto de suposta reabilitação Urbana que mais uma vez coloca nas mãos de privados um edifício histórico único na Freguesia.

Alameda de Algés  |c. 1920|
 Alameda Hermano Patrone (ant. à deslocamento da linha férrea Lisboa-Cascais)
Palácio dos Condes da Foz / Quinta de S. José de Ribamar
Fotografia anónima, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
SILVA, Sara Cristina, O Convento de S. José de Ribamar in Revista Oeiras Municipal.

Sunday, 5 May 2019

A Bica dos Olhos

Ora aí temos no prédio n.° 32, numa reentrância da fachada, no primeiro plano, a Bica dos Olhos [...] 

Vê tu que ingenuidade, que fisionomia curiosíssima de miniatural monumento seiscentista!

A Bica dos Olhos — creio eu — já hoje perdeu a sua fama, o que não impede que se vejam, de madrugada, algumas pessoas ali a lavarem os olhos.


Havia naquele tempo por estes sítios da vertente de encosta que trepava a Belver, ou seja a Santa Catarina, — recorda-nos Norberto de Araújo — um homem a quem chamavam Artibelo, e que não era outro senão o Senhor Duarte Belo [contracção de Duarte Bello], dono de um chão às Portas do Pó (a actual Rua da Boa Vista) e no qual chão existia uma bica de água corrente. Aquele tempo — era o fim de quinhentos. A água da Bica do Artibelo foi — talvez seja ainda — milagrosa. Possuía a virtude de curar as doenças dos olhos, contando que a tomada da água se desse antes do nascer do sol.
De seu começo a Bica situava-se mais atrás do prédio da esquina da Travessa do Sampaio e Rua da Boa-Vista, em cujo vão de parede, com ombreiras e vergas de pedra, se encontra desde 1709, por imposição da Câmara feita a um carpinteiro [chamado António Ferreira] que comprou o chão [por 1:750$000 réis] onde, antes, o manancial milagreiro se encontrava. Lá está esculpido que «o dono da propriedade é obrigado a conservar «esta bica sempre corrente à sua custa».
É esta a Bica dos Olhos.

Bica dos Olhos |1951|
Rua da Boavista, 30 esquina com a Tv. do Marquês de Sampaio
Ora aí temos no prédio n.° 32, numa reentrância da fachada, no primeiro plano, a Bica dos Olhos [...]
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

As fontes, as bicas, como alguns chafarizes desaparecidos ou secos nesta Lisboa de nascentes e arroios, andaram sempre rodeadas de lendas e de prestígios alfacinhas; assim a do Andaluz, a do Desterro, a do Regueirão dos Anjos, a da Samaritana, de que existe apenas o espaldar mutilado, a da Fonte Santa, o desaparecido Chafariz de Arroios.
A Bica dos Olhos é humilde e pobrezinha. Lá está com a sua data de 1675 (época talvez em que lhe foi encontrada virtude) e com a sua nau alfacinha.

Bica dos Olhos |1944|
Rua da Boavista, 30

Ostenta, na zona inferior, uma tabela octogonal com as armas camarárias, onde está instalada uma bica, que verte água para uma pia semicircular, assente no plano oblíquo da base.
Eduardo Portugal,  in Lisboa de Antigamente

Olhos de trinta gerações que passaram de madrugada fria pela Bica dos Olhos — onde estais vós? Embarcadiços, calafates, remolares, mendigos, colarejas! Talvez mesmo que algumas donas velhinhas das casas dos Condes Barões de Alvito ou dos Carvalhais, provedores da Casa da Índia, ou alguns dos frades de S. João Nepomuceno, mandassem buscar pelos criados, noite alta, uma garrafinha da linfa virtuosa.
A Bica dos Olhos, eis um monumento ingénuo de humildade. E talvez por isso subsiste, mesmo já sem olhos que creiam nela

Bica dos Olhos |1951|
Rua da Boavista, 30
 = 1675 =
 = HE OBRIGADO O DONO DESTA PROPRIEDADE A CONCERVAR ESTA BICA SEMPRE 

CÒRENTE Á SUA CUSTA =
Eduardo Portugal,
in Lisboa de Antigamente

O chamar-se-lhe bica dos Olhos — lê-se no Archivo pittoresco — provém do seguinte caso, que a tradição tem conservado até hoje. Um francez que descobriu na agua desta bica grandes virtudes para inflammação de olhos, começou a vendel-a em vidrinhos com um nome pomposo, e vindo de origem supposta. Com efeito esta agua fez immensas curas, diz-se, e o industrioso estrangeiro ganhou muito dinheiro. Por fim o criado que ia de noite buscar a agua á bica de Duarte Bello, que o amo vendia como especifico, revelou o segredo, pelo que o francez teve de fugir, divulgando-se a virtude que tinha a agua d’aquella bica, concorrendo alli desde então muitos doentes a lavar os olhos, e a ser tirada em garrafas para o mesmo uso.
O auctor do Aquilegio Medicinal, em que se dá conta das aguas de caldas, de fontes, rios, poços, lagoas e cisternas do reino de Portugal, era medico d'el-rei D. João V, e publicou este curioso livro em 1726. E sobre tudo, o sr. J. Sergio Velloso de Andrade, na sua accurada Memoria sobre os chafarizes, bicas, fontes e poços publicos, diz positivamente que a bica d'antes chamada do Artibello é a actual bica dos Olhos.

Bica dos Olhos, gravura
Tem por cima das Armas da Cidade, a inscrição na pedra que reza :
= 1675 = 
= He obrigado o dono desta Propriedade a concervar esta Bica sempre còrente á sua custa = 
in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIII, pp. 78, 1939.
id., Legendas de Lisboa, pp. 68-69, 1943.
Archivo pittoresco: semanario illustrado - Vol. V, 1862.

Friday, 3 May 2019

Jardim 5 de Outubro vulgo Jardim da Burra

Estamos já em pleno coração da Estrêla — diz Norberto de Araújo.

Eu não te disse, Dilecto, que esta era uma das mais belas Praças de Lisboa? O monumental, o paisagista, o urbano, conjugam-se neste Largo da Estrêla (chamado até 1889 do Coração de Jesus), e desta harmonia, que talvez não houvesse sido estudada, resultou um admirável logradouro citadino-alegre, movimentado, limpo, lisboeta puro.

 

Jardim 5 de Outubro vulgo Jardim da Burra [entre 1926 e 1936]
Praça da Estrela; Basílica da Estrela; quiosque da Estrela
António Passaporte, in Lisboa de Antigamene

Pequeno jardim verdejante desenvolvido lateralmente em relação à Basílica da Estrela. Este jardim exibe um conjunto escultórico , em bronze, executado com grande realismo, em 1918, por Costa Mota (tio), designado por "Lavrador" ou "Sagrada Família", uma vez que representa um casal de camponeses característicos da época, um lavrador de enxada ao ombro e uma camponesa com um menino nos braços, sentada numa burra que transporta cestos.

Jardim 5 de Outubro vulgo Jardim da Burra [1955]
Praça da Estrela
Conjunto escultórico designado por "Lavrador" ou "Sagrada Família"
Fernando Martinez Pozal, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XI, p. 45, 1939.
cm-lisboa.pt.

Wednesday, 1 May 2019

O sítio de Valverde

«Ernestinho que não se podia demorar, ofereceu logo ao Conselheiro e a Julião — “a sua carruagem, que era uma caleche, se iam para a Baixa...”»

[Eça de Queirós, in O Primo Basílio, 1878]

 

A serventia [Rua Primeiro de Dezembro] — recorda-nos o ilustre Norberto de Araújo — parece que fora chamada pelo vulgo, no tempo de Pombal, depois do Terramoto, Rua Nova das Hortas e Rua das Hortas (e que constituiria referência oral à Horta da Mancebia ou a horta dos terreiros do Duque de Cadaval ou dos Condes de Faro, mais para Norte). Antes de 1755 a Rua tinha já o traçado sensivelmente idêntico ao de hoje, e chamava-se Rua de Valverde – lindo nome.

Praça Dom João da Câmara |1895|
Antigo Largo Camões; Tteatro D. Maria II
Caleche (ou caleça) Manton transportando o toureiro "Guerrita".
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Rafael Guerra "Guerrita" (1862-1941) foi um dos maiores e mais famosos toureiros do século XIX. Actuou inúmeras vezes em Lisboa, onde era idolatrado pela afición. A fotografia que se reproduz, mostra o toureiro cordovês ao passar pela pelo então Largo de Camões [actual hoje Praça D. João da Câmara] e Rua do Príncipe [hoje Primeiro de Dezembro], numa caleça (ou caleche) Manton [vd. NB.], a caminho da Praça de Touros do Campo Pequeno.

Rua Primeiro de Dezembro |1895|
Antiga Rua do Príncipe, antes Travessa Camões; Café Suisso
Caleche (ou caleça) Manton transportando o toureiro "Guerrita".
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

N.B. Caleche Manton: viatura do Século XIX. Caixa em forma de barco, com capota rebatível e quatro lugares vis-à-vis. Suspensão com molas elípticas e molas em C à frente e atrás da capota, mais por elegância do que por razões técnicas, duas lanternas quadrangulares. Guarda-lamas fixo na aba da capota. O banco do cocheiro é elevado e, na retaguarda, encontra-se um banco para sota com acesso ao travão de manivela. Rodas revestidas e estribo desdobrável.
A caleche Manton foi adquirida pela Casa Real Portuguesa, passou para as equipagens da Presidência da República após 1910.
_________________
Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XII, p. 85, 1939.

Sunday, 28 April 2019

Basílica dos Mártires

Estamos em face da Basílica dos Mártires, um dos templos de Lisboa de «categoria social» — que as igrejas também possuem por efeito de convenções ou da importância das suas irmandades. A Igreja dos Mártires, porém, vale pelo seu título, pela história da sua paroquial, pela sua ligação aos primeiros destinos de Lisboa.


A Igreja de Nossa Senhora dos Mártires, de tão ressonante nome olisiponense, é uma edificação integral do século XVIII, do risco do arquitecto Reinaldo Manuel dos Santos
A paróquia remonta ao ano da conquista de Lisboa; a sede principiou por ser uma pequena ermida dos Cruzados ingleses que auxiliaram D. Afonso Henriques na conquista de Lisboa, erecta no local — Monte Fragoso, que mais tarde foi o Alto de S. Francisco — onde aqueles cavaleiros tinham o cemitério dos seus «mártires», junto do acampamento situado a Poente da Lisboa sarracena.

Basílica dos Mártires |190-|
Rua Garrett
A Frontaria, constituída por dois corpos no sentido horizontal, cortados verticalmente por seis
pilastras da ordem dórica, das quais as extremas são duplas; e nela, ao cimo de alguns degraus;
 Frontão, em cujo tímpano se rasga um óculo iluminante.
Paulo Guedes, in Lisboa de Antigamente

O templo primitivo de Nossa Senhora dos Mártires foi várias vezes reedificado, ampliado e restaurado, nomeadamente em 1598-1602, 1629, 1686-1692, 1710, 1746-1750; assentava ao lado, sobre o rio, do convento de S. Francisco (no sitio ocupado pelo prédio que esquina da Rua Vítor Córdon para o Largo da Biblioteca [actual Largo da Academia Nacional de Belas Artes] e o Terramoto destruiu-o inteiramente. A paróquia estanciou depois por vários locais: numa barraca em Rilhafoles, na ermida dos Mártires, ao Rego, na de S. Pedro Gonçalves, ao Corpo Santo.
Em 1769, ou no ano seguinte, deu-se começo às obras do novo templo, situado na rua Direita das Portas de Santa Catarina, entre as ruas da Figueira e da Ametade (mas Garrett, Anchieta e Serpa Pinto actuais). Ainda por acabar foi benzida a nova sede paroquial em 18 de Março de 1774, mas só aberta ao culto em 5 de Agosto de 1786 (outros dizem em 1783). Só foi sagrada em 1866 (30 de Julho) após obras efectuadas nesse ano.

Basílica dos Mártires |1907|
Rua Garrett
O portal central, emoldurado de ombreiras trabalhadas na base do  capitel, e rematado, sobre a  verga, por  um  interes­sante baixo relevo, contido num medalhão, de mármore, obra de Francisco Leal  Gar­cia,  discípulo de  Machado de Castro, e que representa a dedicação do templo à Virgem, que a aceita de dois cavaleiros ajoelhados, um dos quais figura D. Afonso  Henriques, vendo-se ao fundo um trecho das muralhas ameiadas de Lisboa.  
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

A fachada, como vês, é simples e discreta (teve em tempos um adro fechado entre grades); as pilastras da parte inferior são de ordem dórica, aos de cima, sob o frontão, de ordem jónica. Com seus três pórticos, suas três janelas iluminantes, o seu óculo gradeado no tímpano — a frontaria dos Mártires parece-nos bem no semblante arquitectónico do Chiado.


Basílica dos Mártires |s-d.|
Perspectiva tirada do Largo de S. Carlos;
A torre sineira está colo­cada por detrás do edifício, sobre a Rua Serpa Pinto
Fotografia anónima



Basílica dos Mártires |195-|
Porta de ferro dourada que defende a capela baptismal
Mário de Oliveira
(clicar para ampliar)



A Basílica dos Mártires não é sumptuosa nem trivial. Impressiona bem sem deslumbrar. O tecto da igreja em pintura de Pedro Alexandrino com ornatos de Inácio de Oliveira, tem no centro a cena da dedicação do templo antigo a N. Senhora dos Mártires, e em volta os doutores da igreja.
O coro assenta sobre três arcos de pedra, sendo o do centro de volta abatida. Possui oito capelas por lado, e que vamos ver, a começar pelo lado esquerdo, logo a seguir à capela baptismal defendida por porta de ferro doirada com uma inscrição relativa ao primeiro baptismo realizado, em 1147 [vd. foto acima à dir. e NB.], no templo velho: de S. Brás, com painel de fundo deste santo, logo de Santo António, com painel de Santa Cecília, com painel representando a Santa de Joelhos, e a do Santíssimo; pela direita: de Santa Luísa com painel representando o sacrifício da Santa, de S. José, .cujo retábulo representa Cristo no Gólgota, de N. Senhora da Conceição, dando a pintura do fundo S. Miguel, e o de N. Senhora de Lourdes, com o Bom Pastor no retábulo. Todas as pinturas são de Pedro Alexandrino.

Basílica dos Mártires |195-|
Rua Garrett
O tecto em  abóbada de arco, em madeira, revestida de larga composição pictural, 
representando ao centro D. Afonso Henriques dedicando o templo à Virgem
acompanhado de um cavaleiro (Guilherme «da longa espada»), figurando-se ao alto Nossa Senhora,
 rodeada de  cruzados mártires e assistida por uma coroa de anjos, trabalho de  Pedro Alexandrino
 inspirado no desenho original do último tecto da anterior igreja, da autoria de  Vieira Lusitano.
Mário de Oliveira, iin Lisboa de Antigamente

N.B. O baptistério, defendido por uma porta de ferro, dourada, com inscrição repartida; no  batente esquerdo lê-se em maiúsculas: «NESTA PARÓQUIA/SE ADMINISTROU O/PRIMEIRO BAPTISMO», e no batente direito «DEPOIS DA TOMADA/DE LISBOA AOS MOU/ROS, NO ANO DE1147»; no  fundo do  baptistério vê-se  um quadro «O baptismo do Salvador por S. João» pintura atribuída a Pedro Alexan­drino.

Basílica dos Mártires |1973|
Rua Garrett
No Interior, de nave única, a Igreja reveste-se de nobreza de materiais; um nicho, sobre o  arco da capela-mor, no qual se situa, orientada para o  corpo da igreja, uma imagem setecentista do Senhor Jesus dos Perdões; Nos Mártires conservam-se algumas boas imagens setecentistas, entre as quais uma, escultura de J. J. Barros Laborão, que pertenceu a uma ermida que existiu no edifício do Tesouro Velho. 
Artur Pastor, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XII, pp. 96-97, 1939.
id., Inventário de Lisboa, 1956.

Friday, 26 April 2019

Convento de S. João de Deus

As traseiras desta Casa conventual de poucas tradições lisboetas — recorda o ilustre Norberto de Araújo — , são mais bonitas do que a frontaria, pelas sobreposições de acaso, panorama do claustro combinado com a arquitectura geral, um pouco confusa, e com pormenores decorativos que de todo não se perdem à distância. O Convento debruçava-se sobre o rio.¹


Convento de S. João de Deus [c. 1939]
Rua Presidente Arriaga, 9-13. Panorâmica tirada da Avenida 24 de Julho.
O Terramoto pouco dano fez ao Convento, que foi extinto em 1834. A Igreja conservou-se durante alguns anos, mas foi sacrificada às exigências de edifício publico. [Araújo: 1938]
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Situado na Rua das Janelas Verdes [hoje Presidente Arriaga] ao lado do palácio que foi do Conde de Óbidos, e mesmo em frente ao vistoso convento de S. Francisco de Paula, encontra-se o que foi a antiga casa dos religiosos Hospitaleiros de S. João de Deus, Ordem instituída entre nós em 1617. 
Primitivamente, foi nesse local que se edificou, em 1581, o primeiro convento da Congregação de S. Filipe de Néri, dos Carmelitas Descalços, que naquele tempo era um sítio afastado da cidade, com boas vistas para o rio.

Convento de S. João de Deus
O claustro, que se vê do rio, é rasgado na frente, tendo, pois, três lados apenas, o do fundo com onze arcarias de volta perfeita e os outros com seis em cada. [Araújo: 1938]
Maqueta de Lisboa antes do Terramoto de 1755, pormenor, in Museu de Lisboa

O casario em que se edificou o convento pertencera a Francisco de Távora e a sua mulher, D. Mécia Ribeiro, que por volta de 1604 o venderam ao Dr. António Mascarenhas (Deão da Capela Real, doutor em Teologia e deputado da Mesa da Consciência e Ordens), que resolveu instituir um convento dessa invocação, com hospital acoplado.
Deu-se, pois, a sua fundação em 1629, contendo amplas instalações, grande claustro voltado para o rio e bonitas guarnições azulejadas.
Por morte de Deão fundador em 1637, viria a ser concluído posteriormente pelos religiosos.
Uma vez extintas as Ordens Religiosas em 1834, nele estiveram instalados primeiramente o Quartel da Brigada Real da Marinha, extinta com a revolução de Belém, em 1835. Depois, o Tribunal da Corte. Seguiu-se o Quartel de Infantaria n.° 2, culminando nos nossos dias, e a partir de 1919, com a Guarda Nacional Republicana, servindo o antigo claustro de parada do quartel

Convento de S. João de Deus, Enquadramento urbano [1857]
Rua Presidente Arriaga, 9-13 antiga Rua Direita de São Francisco de Paula
Legenda:  a Vermelho o claustro; a
Verde a delimitação do convento e cerca extintos em 1834. Carta topográfica de Filipe Folque, 1857, in Lisboa de Antigamente
(clicar para ampliar)

Bibliografia
¹ ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. VII, pp. 59-60, 1938.
² CAEIRO, Baltazar Mexia de Matos, Os conventos de Lisboa,  p. 120, 1989.

Wednesday, 24 April 2019

Calçada e Rua de Arroios

Acerca da origem do topónimo «Calçada de Arroios», Luís Pastor de Macedo afirma que «Nos princípios do século XVIII denominavam-na calçada de Alvalade, denominação ainda em uso ao tempo do terremoto. O nome era-lhe dado em razão da calçada comunicar com [o sítio de] Alvalade (Campo Grande e Campo Pequeno).⁼⁼
(MACEDO, Luís Pastor de, Lisboa de Lés-a-Lés, vol. I, p. 180, 1940)

Calçada e Rua de Arroios |c. 1912|
Ao fundo nota-se o viaduto sob a Rua Pascoal de Melo, que se ampara a antigas edificações do arruamento; ao fundo, à direita, destaca-se a cúpula do belíssimo prédio de gaveto na Avenida Almirante Reis, 31 com Rua dos Anjos.
Joshua Benoliel,  in Lisboa de Antigamente
Nota: arruamento não identificado no arquivo.

Sobre o sítio de Arroios, o olisipógrafo Norberto de Araújo nas suas Peregrinações, refere o seguinte:
O Largo de Arroios — escuso dizer-to — era um arrabalde de Lisboa ainda há cento e cinquenta anos. Ameno, sussurrante de hortas verdejantes, como o seu nome indica, salpicado de casas e de alguns palácios seiscentistas — continuação mais pura de Santa Bárbara — Arroios, por cuja estrada se fazia a saída de Lisboa para Sacavém, tem também o seu pedaço de história fugaz a ilustrá-lo. [...]
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. IV, p. 82, 1938)

Rua de Arroios |1961|
Ao fundo, passado o viaduto sob a Rua Pascoal de Melo, destaca-se o Palácio do Conde da Guarda no "Largo" de Arroios.
Artur Goulart, in Lisboa de Antigamente

Sunday, 21 April 2019

Lojas de antanho: Pâtisserie Benard

Modificada, embelezada e modernnisada — noticiava a lllustração portugueza em Novembro de 1914 — abriu ha dias a antiga pastelaria Benard. de que é proprietário o sr. Casimiro Bénard
 
O interior da loja é revestido de elegantes vitrines de metal branco e cristal, bons espelhos que rodeiam a casa o até ao teto, tudo decorado a branco e ouro, o que a torna confortável e vistosa. A pastelaria Bénard tornou-se o ponto escolhido da boa sociedade de Lisboa para as suas reuniões, sendo o o seu proprietário, pelas belas qualidades que possue e dotes de inteligencia que o distinguem, merecedor de todas as simpatias que lhe são dispensadas

Pâtisserie Benard [c. 1912]
Rua Garrett, 104-106; (Hotel Borges, vd N.B.)
A partir de 1926, passou a incluir o termo «pastelaria», quando os dísticos das fachadas em idiomas estrangeiros foram sujeitos a um pagamento de 500 reis à Câmara.
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

A elegante Pastelaria Bénard, vizinha do Hotel Borges, — recorda-nos Mário Costa no seu Chiado pitoresco e elegante — pertence hoje à firma Manuel José de Carvalho, Ld.ª. Fundada no Calhariz [abriu primeiro como patisserie], em 1868, por Elie Bénard, passou a Pedro Bénard, Elias Bénard e ainda a Casimiro Bénard, transferindo-se para aqui no princípio do século XX, em substituição de outra fábrica de guloseimas, a Confeitaria Gratidão, de Manuel Antunes, que sucedera à firma V.ª Justo, especializada em frutas cristalizadas para exportação, e que se demorou de 1885 a 1891.

Pâtisserie Benard [c. 193-]
Rua Garrett, 104-106
O interior da pastelaria em 1912.
A partir de 1926, passou a incluir o termo «pastelaria», quando os dísticos das fachadas em idiomas estrangeiros foram sujeitos a um pagamento de 500 reis à Câmara.
Ferreira da Cunha, in Lisboa de Antigamente

Entre 1838 e 1840 foi notória uma loja de ferragens, conhecida por Clube da Rolha, reunindo numeroso grupo de janotas, que, com a sua presença e animada conversação, afastavam muita freguesia. E, em 1873, data em que se inaugurou, o armazém de pianos, de G. Fontana & C.ª foram estes os fornecedores de grande número de discípulos dos melhores professores da época. 
A Confeitaria Gratidão lembrará duas similares, de tempos muito distantes, que por estes lados se acoutaram, tornando-se conhecidas pelos nomes dos seus proprietários, o Batalha e o Vilas. 

Pâtisserie Benard [1912]
Rua Garrett, 104-106
Funcionários da Benard a fazer broas de Natal em 1912.
A partir de 1926, passou a incluir o termo «pastelaria», quando os dísticos das fachadas em idiomas estrangeiros foram sujeitos a um pagamento de 500 reis à Câmara.
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

N.B. O Hotel Borges não tem capitulo na história antiga da artéria, mas é de citar-se como o único Hotel que o hiado possui em 1939, visto que o Aliança, na esquina da Rua Nova da Trindade, desapareceu em 1936. [Araújo: 1939]
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Bibliografia
Illustração Portugueza, 9 de Novembro, 1914.
COSTA, Mário, O Chiado pitoresco e elegante, p. 276-277, 1987.
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