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sexta-feira, 19 de junho de 2026

Rua Viriato, 5

Prémio Valmor de 1917


O Prémio Valmor de 1917 foi atribuído a um edifício de habitação, composto por cinco pisos, na Rua Viriato, 5 que pertencia a António Macieira Júnior e cuja arquitetura se deve a Ernesto Korrodi. Apesar de o júri ter hesitado, referindo que "parte dos materiais empregados na fachada (...) estão mascarados com argamassa, do qual resulta não se conhecer logicamente a função da parte estrutural da obra", considerou que este seria um "belo edifício (...) quanto à composição da fachada, como (...) da planta (...) com detalhes felizes". [patrimonio.pt]

Rua Viriato, 5 |1952|
Prémio Valmor de 1917
Antiga R. Rua Barros Gomes (1913)
Gustavo de Matos Sequeira, in Lisboa de Antigamente


N.B. Viriato foi um Chefe militar lusitano, crê-se que terá vivido no século II a. C., tendo sido um dos mais importantes chefes que liderou o povo contra o domínio que Roma exerceu na Península Ibérica.

sexta-feira, 8 de maio de 2026

Praça de Alvalade

A Praça de Alvalade foi criada aquando da construção do Bairro de Alvalade, tendo inicialmente adoptado a designação de Largo Frei Luís de Sousa. Contudo, quando foi erigida no seu centro a estátua de Santo António, da autoria do escultor António Duarte, em 1972, evitaram-se as confusões, dando-lhe então a actual designação e alterando a designação do Largo de Alvalade para Largo Frei Luís de Sousa.

Praça de Alvalade |c. 1950|
Construção da Praça de Alvalade, surgindo á dir. a Av da Igreja e, para N., a Av. de Roma com parte do Hosp. Julio de Matos, ao fundo, na Av. do Brasil. A transversal à esq. é a Rua Violante do Céu.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

N.B. O Monumento a Santo António foi erguido na rotunda do cruzamento das Avenidas de Roma e da Igreja, no bairro de Alvalade, representa a consagração oficial e pública do português ainda em nossos dias mais conhecido no mundo, mercê da sua eloquência e sabedoria. A estátua de bronze de 5,50 m de altura é da autoria do escultor António Duarte, que optou por retratar o Santo na postura de pregador, em vez da tradicional imagem com o Menino Jesus ao colo. A base, composta por quatro blocos de mármore, é da autoria do arquitecto Antero Ferreira.
Inaugurado em 4 de Outubro de 1972, o monumento tem 12 m de altura total e pesa 78 toneladas.

Praça de Alvalade
Em 1971 passou a denominar-se Praça de Alvalade e, integrando. 
desde 1972, o Monumento a Santo António.
Juan Rodriguez, in Lisboa de Antigamente

sexta-feira, 5 de dezembro de 2025

Avenida de Roma

A Avenida de Roma — espinha dorsal do Bairro de Alvalade — é um verdadeiro livro aberto da história da arquitectura e do urbanismo do século XX. Nela, encontramos edifícios de grande qualidade arquitectónica, projectados por alguns dos melhores arquitectos da época, como Cassiano Branco, Joaquim Bento de Almeida, José de Lima Franco, Licínio Cruz, Formosinho Sanches, Filipe Figueiredo e José Segurado.

Avenida de Roma |195-|
Perspectiva tomada da Praça Alvalade
Salvador de Almeida Fernandes, in Lisboa de Antigamente

A novíssima Avenida de Roma, topónimo que presta homenagem à capital da Itália, foi atribuído a 27 de Dezembro de 1930 à antiga Avenida nº 19 do plano de melhoramentos aprovado por deliberação camarária de 7 de Abril de 1928.

Avenida de Roma S→N |195-|
Perspectiva tomada junto ao extinto Cinema Roma (dir.) com a Av. Óscar Monteiro
Torres na primeira transversal á 
esquerda.
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

domingo, 13 de julho de 2025

Estr. de «Bemfica» que foi Estrada Real

Bemfica (estrada de) principia em sete Rios, indo de S. Sebastião da Pedreira e finda em Santo Antonio da Convalescença, freguezia de Bemfica. [Velloso: 1869]

Este topónimo está ligado à proximidade do Convento de São Domingos de Benfica. Esta localidade, onde viveu e morreu Frei Luís de Sousa (Manuel de Sousa Coutinho, este o seu nome antes de abraçar o sacerdócio), é descrita na sua História de S. Domingos cap. III do livro segundo. Leiamos isto do insigne clássico: «A huma piquena legua da cidade, pola estrada que corre para Cintra, (...) fica como escondido, e furtado a communicação da gente hum pequeno valle, que sendo naturalmente aprazível, por frescura de fontes e arvoredo, mereceo, ao que se póde crer, o nome que tem de Bemfica. (...) Na ladeira do monte maior, está situado o Convento, e d'ella se estende com sua cerca até hir beber no Rio».
Foi no Convento de São Domingos de Benfica que Frei Luís de Sousa professou como frade dominicano, em 1614. Este convento foi reconstruído no século XVII, parcialmente destruído pelo Terramoto de 1755 e extinto em 1834.

Estr. de «Bemfica» |1938|
Junto à Tv. S. Domingos de Benfica
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente
Estr. de «Bemfica» |1938|
Próximo do Calhariz
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente





























Bemfica, era sítio que, segundo Ramalho Ortigão: «Em nenhum outro lugar de Portugal, se exceptuarmos Sintra, se encontrarão reunidas em tão pequeno circuito, tão lindas, tão históricas, tão anedóticas, tão saudosas quintas. 
A antiga e amável povoação de Benfica, ainda que tão decaída hoje da alta importância que teve outrora no conceito, caprichoso e inconstante, da alta sociedade da capital, é ainda assim, no seu tanto, o recantinho suburbano de Lisboa que mais aproximada ideia nos sugere do que é para Roma o prestígio de Tivoli e de Frascati.» [Arte portuguesa, II, 1943]

Estr. de «Bemfica», 675 | 1961|
Boa parte do edificado já se encontra demolido.
Artur I. Bastos, in Lisboa de Antigamente
Estr. de «Bemfica», 542 |1971|
Próximo da Av. do Uruguai
Armando Serôdio, in Lisboa de Antigamente

“O break rodava na estrada de Bemfica: iam passando muros enramados de quintas, casarões tristonhos de vidraças quebradas, vendas com o seu masso de cigarro á porta dependurado de uma guita: e a menor arvore, qualquer bocado de relva com papoulas, um fugitivo longe da collina verde, encantavam Cruges. Ha que tempos elle não via o campo!” (Queiroz, Eça de, ln Os Maias, 1888)

Estr. de «Bemfica» |c. 1950|
Junto ao Calhariz no local onde os eléctricos faziam a inversão de marcha; antiga Estr. Real nº 82 (1889); alguns dos edifícios à direita ainda lá encontram.
Judah Benoliel, in Lisboa de Antigamente
Estr. de «Bemfica» |1961|
Esquina com a Avenida Grão-Vasco.
Augusto de Jesus Fernandes in Lisboa de Antigamente

domingo, 13 de abril de 2025

Sítio de Alvalade: o Pequeno e o Grande

A Estr. de Jerabrigam ia, pois, ao Campo de Alvalade onde, à beira do caminho, surgiram duas povoações distintas, denominadas do Campo, sendo a maior o Campo Grande, e a menor o Campo Pequeno. Grande e Pequeno não são alusivos a campos distintos, mas a póvoas distintas em que uma era maior que a outra, e ambas no mesmo campo.

Quase todos os dicionários de Língua Portuguesa trazem o artigo «alvalade» a que dão o sentido de «campo ou pátio murado». A Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, além dessa acepção, que não sei onde se foi arranjar, dá ainda mais esta: «Estrado ou tablado erguido do chão e destinado a permitir que dele se veia (sic) solenidade ou espectáculo». Traz como abonação um passo do El-Rei Seleuco de Camões, que é, na íntegra, como segue: «Mas tornando ao que importa, vossas mercês he necessario que se cheguem hus para os outros, para darem lugar aos outros senhores que hào de vir, que doutra maneira, se todo o corro se ha de gastar em palanques, será bom mandar fazer outro alualade....» , p. 83 da admirável edição do prof. Marques Braga.¹

 

Fotografia aérea do bairro de Alvalade e jardim do Campo Grande |c. 1953|
O Campo Grande tem este topónimo fixado através da publicação do Edital municipal de 19 de Janeiro, de 1916, que assim juntou as Ruas Oriental e Ocidental num único topónimo.
Abreu Nunes, in Lisboa de Antigamente
Fotografia aérea do Campo Grande |1955|
Em 1869, durante o reinado de D. Luís I, arranca a construção do lago principal, para agradar às esposas e famílias dos amantes de cavalos. Nascem os passeios românticos de barco a remos, frequentados por nobres e realeza. 
Mário Oliveira, in Lisboa de Antigamente

Julgo que o passo é bem claro: Alvalade não quer dizer nada do que se lhe atribui na Enciclopédia! Naquelas palavras a que oferece tal acepção é palanque. Camões pretendeu muito simplesmente dizer na sua o seguinte: se porventura os espectadores não se apertassem, quando se verificasse a chegada dos retardatários, para que todos ali coubessem, seria necessário mandar lá construir outro Alvalade, mas o Alvalade topónimo, o Alvalade sítio correspondente ao actual Campo Grande, naquela época fora do perímetro da Capital. Como esta designação moderna ainda o indica, a superfície dos terrenos desse local era extensa, de tal maneira que por vezes até lá se reuniam tropas para manobras. Alvalade, portanto, no citado passo camoniano tem de ser entendido, repita--se, como nome de sítio e não como nome comum, embora, por comparação, Camões o utilizasse, dada a referida extensão do local, para exprimir as ideias de «espaço vasto», «terreno extenso». Trata-se de topónimo já atestável em 933, não o de Lisboa, mas outro «in territorio conimbriense» («...de uilla de albalat per suos terminos», idem, p . 25), etc. A sua origem está no árabe al-balâT, «parte chata ou «plana», «prato chato», «chão», daí «terreno plano, planície».²


Campo Grande, antigo Campo 28 de Maio |séc. XIX|
O Lumiar tinha garantidas as suas carreiras, tomando os passageiros os veículos na Rua do Ouro, 265, por um tostão; pagavam-se quatro vinténs ate ao Campo Grande. (Martans, 1947)
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente
Campo Grande, antigo Campo 28 de Maio |1910|
Em 1816 alberga as primeiras corridas de cavalos, sendo que hoje em dia os concursos hípicos são realizados nas proximidades do jardim, por trás do Museu da Cidade (Palácio Pimenta).
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente
Campo Grande, antigo Campo 28 de Maio |1909-06-06|
Concurso de raça bovina no Campo Grande promovido pela Real Associação Central de Agricultura.
Nota(s): A Feira do Campo Grande (ou das Nozes, séc. XVI) remonta ao tempo de Dona Maria I. Foi transferida para o Lumiar em 1902, tendo estado posteriormente no Campo Pequeno e voltado novamente ao Campo Grande. Em 1932, regressa de novo ao Lumiar até à sua extinção.
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

No século XX, Alvalade, até então topónimo não oficial, foi oficializado pelo Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Álvaro Salvação Barreto ao determinar “[…] que o aglomerado habitacional que se está erguendo a sul da Avenida Alferes Malheiro [actual Av. Brasil], à beira do Campo 28 de Maio [hoje Campo Grande] tenha a denominação de Sítio de Alvalade.” (3 de Março de 1948). O moderno Bairro de Alvalade foi projectado por Faria da Costa, em 1940/1945, desenvolveu-se a partir da ideia de subunidades de vizinhança com espaços de comércio local, de educação, e de recreio, deixando as grandes vias para a circulação automóvel, que cruzava o bairro.

Praça de Alvalade |195-|
Cruzamento das Avenidas de Roma e da Igreja
Naqueles terrenos baldios, ao centro, encontra-se hoje o Centro Comercial de Alvalade.
Judah Benoliel, in Lisboa de Antigamente

A Praça de Alvalade foi criada aquando da construção do Bairro de Alvalade (c. 1950), tendo inicialmente adoptado a designação de Largo Frei Luís de Sousa. Contudo, quando foi erigida no seu centro a estátua de Santo António em 1972, evitaram-se as confusões, dando-lhe então a actual designação e alterando a designação do Largo de Alvalade para Largo Frei Luís de Sousa.³
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Bibliografia
¹ SAA, Mário, As Grandes Vias da Lusitania: O Itinerário de Antonino Pio. Lisboa, 1957-1967.
² JOSÉ PEDRO MACHADO - Factos, Pessoas e Livros: comentários através dos tempos, vol. V. Lisboa: Livraria Portugal, 2006.
³ jornaldapraceta.pt.

domingo, 9 de fevereiro de 2025

Rua Possidónio da Silva que foi da Fonte Santa

Há em Lisboa uma Rua da Fonte Santa, nome que se mudou em «de Possidónio da Silva». Sem dúvida Possidónio foi um benemérito da pátria, a quem a Arqueologia nacional muito deve, mas podia o seu nome ser imposto a uma nova, isto é, ainda inominada, e conservar-se o de Fonte Santa, que se liga a concepções míticas e religiosas da antiga Lisboa, da Lisboa pré-cristã. Estas substituições, porém, são por via de regra intempestivas, porque o povo, na sua prudência secular, despreza as apelações camarárias, e continua a adoptar as que ele já conhecia, herdadas de seus avós.

Isto dito, decidiu a CML através do seu Edital de 17/05/1897 homenagear Joaquim Possidónio Narciso da Silva pelos relevantes serviços que prestou à classe operária inválida, fundando, em 1864, o Albergue dos Inválidos do Trabalho — hoje Inválidos do Comercio no nº 204 neste arruamento.

Rua Possidónio da Silva |1961|
Ao fundo a Rua Santo António à Estrela, 35 e a Casa de Santa Zita da Estrela antes solar dos Aires de Ornelas.
Artur Goulart, in Lisboa de Antigamente

Joaquim Possidónio Narciso da Silva (1806-1896) partiu para o Brasil com apenas um ano de idade, acompanhando o seu pai, um mestre-geral dos paços reais destacado para o Rio de Janeiro. Aí cresceu, regressando a Portugal já com 21 anos para estudar nos ateliers de Sequeira e Sendim.
Em 1824 partiu para Paris para frequentar o curso de Arquitectura da École des Beaux-Arts, que concluiu quatro anos depois, e onde foi discípulo de Charles Percier. Passou dois anos em Roma, e voltou para Paris, onde participou das obras do Palais Royal e das Tulherias.
Regressou a Portugal apenas no final de 1833, tornando-se arquitecto da Casa Real e trabalhando nos palácios da Pena, de São Bento e das Necessidades, traçando também o Palácio do Alfeite. Em 1863 fundou a Associação dos Arquitectos. Porém, as suas ideias, marcadas pela Restauração francesa, não foram bem acolhidas em Portugal, razão pela quais muitos dos seus projectos para teatros, academias e um palácio real, foram recusados.

Rua Possidónio da Silva |1945|
Antiga da Fonte Santa: escadinhas de acesso ao Chafariz da Fonte Santa, junto ao n.º 111.
Fernando Martinez Pozal, in Lisboa de Antigamente

N.B. Em 1882, o escultor francês Anatole Vasselot fez um busto de bronze de Possidónio da Silva mas este nunca permitiu a divulgação da sua imagem em nenhum meio até à sua morte e assim, este busto apenas foi inaugurado em 5 de julho de 1968, colocado sobre um pedestal de pedra na Praceta da Rua Possidónio da Silva.

Rua Possidónio da Silva |1964|
Antiga da Fonte Santa junto ao n.º 25.
Arnaldo Madureira, in Lisboa de Antigamente

domingo, 13 de outubro de 2024

Avenida de Roma

Topónimo atribuído a 27 de Dezembro de 1930, presta homenagem à capital da Itália. A atribuição está inserida num contexto de Estado Novo, onde o nacionalismo era contrabalançado com uma ambicionada dimensão internacional.

Avenida de Roma (em construção) |c. 1954|
Cruzamento com a Avenida Frei Miguel Contreiras (dístico de 1955)
António Passaporte, in Lisboa de Antigamente
 
O cosmopolitismo formal, a ideia do mundo dentro de Lisboa, mais do que a modernidade das ideias e valores subjacente também a uma abertura para a Europa, está no âmago desta atribuição e de outras que se seguiram, nomeadamente, em 1948, Avenida de Madrid, Paris, Londres, entre outras.

Avenida de Roma [195-]
Perspectiva tomada da Praça de Londres junto a Avenida João XXI.
Claudino Madeira, in Lisboa de Antigamente

sexta-feira, 27 de setembro de 2024

Rua Violante do Céu

Por Edital de 19 de Julho de 1948 foi inscrito o nome de Violante do Céu na Rua nº 10 do Sítio de Alvalade, a que mais tarde, por parecer da Comissão Municipal de Toponímia de 15/05/1970, se juntou a legenda «Poetisa / 1601–1683». 

Rua Violante do Céu |1961|
Poetisa 1601-1683
Antiga Rua nº 10 do Sítio de Alvalade.
Cena de rua com venda ambulante; fotografia tirada da Escola Eugénio dos Santos no cruzamento com a Av. de Roma.
Arnaldo Madureira, in Lisboa de Antigamente

Soror Violante do Céu foi freira dominicana que na vida secular se chamava Violante Montesino. Professou no convento de Nossa Senhora do Rosário da Ordem de S. Domingos em 1630. Conhecida nos meios culturais da sua época como Décima Musa e Fénix dos Engenhos Lusitanos, cultivou a vertente conceptista do Barroco, que assentava, essencialmente na construção mental e na elegância da subtileza, exibindo um estilo muito mais intelectualizado do que o admitiria o preconceito sentimentalista feminino. Profundamente entrosada no espírito da Fénix Renascida, exibe nas suas composições uma dietética idealista que procura concretizar o impossível, transformar a morte na vida, a tristeza na alegria.
Destacam-se na sua obra «La Transformación por Diós» (1619), «Rimas» (1646) e «Parnaso Lusitano de Divinos e Humanos Versos» (1733). [infopedia]

domingo, 4 de junho de 2023

Profissões de antanho: o vendedor ambulante de gravatas

Os chineses, como vendedores ambulantes, fizeram época.
Foram eles que primeiro apareceram nas ruas de Lisboa a vender gravatas e bugigangas — recorda Dinis Calderon —  colares de vidros de várias cores, pó-de-arroz especial, anéis eléctricos que tinham a vantagem de dominar o reumático, etc. Naquele tempo era vê-los pela Baixa na sua voz branda: — Qui quer glavatas de linda colores? Qui quer deixar de padecê reumatique?

Profissões de antanho: o vendedor ambulante de gravatas |1960|
Avenida de Roma, junto ao n.º 30; o arruamento que se vê à esq. dava acesso à Piscina do Areeiro.
Arnaldo Madureira, in Lisboa de Antigamente

Antes tinham aparecido as chinesas dos bichos que prometiam curar todas as doenças dos olhos, pois tiravam uns bichinhos que elas afirmavam provocar inflamações e outros males. Teve de intervir a polícia, pois o povo, sempre crédulo, procurava-as para se submeter aos tratamentos.
Mas os chineses, como vendedores ambulantes, foram desaparecendo pouco a pouco das ruas, cedendo a venda das gravatas a todo o comerciante de ocasião que facilmente os substituíram, comércio que pouco durou depois do 25 de Abril, uma vez que, após a liberdade, todos adquiriram o direito de andar sem gravata!... E, o negócio deixou de interessar, considerada a gravata um objecto decorativo, só para cerimónias oficiais, casamentos e baptizados...==

Profissões de antanho: o vendedor ambulante de gravatas |1960|
Avenida Almirante Reis junto à Alameda Dom Afonso Henriques 
Arnaldo Madureira, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
DINIS, Calderon, Tipos e factos da Lisboa do meu tempo: 1970-1974, 1986.

domingo, 27 de fevereiro de 2022

Av. dos Estados Unidos da América com a Av. de Roma

No período da República (Edital de 07/08/1911), a Câmara de Lisboa evocou na sua toponímia sobretudo, os estrangeiros que defenderam ideias liberais e republicanos. Por isso a homenagem ao país que é a maior potência económica, militar e cultural do mundo, para além de ter denominado também o Bairro América, de Stª Engrácia, onde, em 1924, perpetuou nas placas toponímicas os americanos Franklin — estadista preponderante na independência das 13 colónias norte-americanas em 1783 e também inventor do pára-raios e Washington — o 1º Presidente dos Estados Unidos da América.

Avenida dos Estados Unidos da América |1968|
No cruzamento com a Av. de Roma 
Artur Pastor, in Lisboa de Antigamente

Quanto à Avenida de Roma, hoje pertença das Freguesias de Alvalade e do Areeiro, nasceu no último mês do ano de 1930 e nesta grandiosa artéria se ergueram sucessivamente, a partir do fim da II Guerra, três cinemas: o Alvalade, o Roma e o Londres. Antes era a Avenida nº 19 do plano de melhoramentos aprovado por deliberação camarária de 7 de Abril de 1928.

Avenida dos Estados Unidos da América |1968|
No cruzamento com a Av. de Roma 
Artur Pastor, in Lisboa de Antigamente

domingo, 16 de janeiro de 2022

Rua Domingos Sequeira

Pois desçamos de novo a Rua da Estrela; estamos no começo da moderna Rua Domingos Sequeira — recorda Norberto de Araújo —, cujo lado oriental é moderno, em contraste com as casas e velhos pátios do lado poente. O edifício do Dispensário da Associação Nacional aos Tuberculosos data de 1932; adiante desta graciosa edificação vê-se ainda parte dos barracões, o pitoresco «car-barn» [ao fundo à esq.] dos ascensores da Estrela, os famosos «maxibombos» que precederam nesta linha, há cerca de trinta e cinco anos, a viação eléctrica.
O «Cinema Paris», edifício que segue, foi erguido em 1930, e dele é proprietário, Máximo Pinto. Não tem nada de notável.

Rua Domingos Sequeira [1932]
«Pintor 1768-1837»
Em 04/06/1957, foi acrescentada ao topónimo a legenda «Pintor 1768–1837». 
Basílica do Coração de Jesus ou da Estrela; Convento do Coração de Jesus, actual Instituto Geográfico e Cadastral. 
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

A Rua Domingos Sequeira foi traçada, pela CML em Fevereiro de 1887, dada a necessidade de ligar o bairro de Campo de Ourique às áreas vizinhas, e, consequentemente, ao centro da cidade. Apenas em Junho de 1905 estaria em funcionamento a linha eléctrica do tramway, concretizando-se a ligação entre o Largo do Rato e a Praça da Estrela, através da Rua Ferreira Borges. [Informação prestada pela n/leitora Susana Maia E Silva]

Panorâmica da Estrela tirada do zimbório da Basílica da Estrela, vendo-se a Rua Domingos de Sequeira [1941]
Nesta imagem, observa-se o antigo Dispensário da Associação Nacional aos Tuberculosos, hoje infantário. e o Cinema Paris. Na esq. baixa corre a Rua de Santo António, à Estrela.
O pintor Domingos Sequeira foi colocado há 129 anos na toponímia de Lisboa, por deliberação camarária de 4 de Novembro de 1887. 
Judah Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Nota(s): O topónimo homenageia Domingos António Sequeira, pintor que em 1802 foi nomeado pintor real e co-director da pintura do Palácio da Ajuda. Também em 1806 foi director da Aula de Desenho, no Porto. A Vilafrancada fê-lo emigrar para Paris e em 1826 fixou-se em Roma onde executou obras sacras. Foi também gravador e aquele que executou as primeiras litografias em Portugal. A sua obra está representada no Museu Nacional de Arte Antiga. [cm-lisboa-pt]
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Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XI, p. 54, 1939.

domingo, 19 de dezembro de 2021

Liceu D. Filipa de Lencastre

No coração deste Bairro do Arco do Cego se construiu o novo Liceu D. Felipa de Lencastre. Vale uma visita.
O Liceu D. Felipa de Lencastre foi criado em 1928 — recorda o ilustre Norberto de Araújo — , e funcionou primeiramente no Palacete Corte Real (onde fora a Nunciatura) na Rua do Quelhas, 36, passando em 1936 para a Rua de S. Bernardo, 16, de onde para aqui foi transferido.
As primeiras aulas no edifício novo que temos à vista efectuaram-se em 14 de Novembro de 1938.

Liceu D. Filipa de Lencastre [1958]
Avenida Magalhães Lima, Arco do Cego
No ano lectivo 1940/1941 funcionou com 712 alunas.
Salvador de Almeida Fernandes, in Lisboa de Antigamente

O Liceu feminino de D. Felipa de Lencastre é, nas suas instalações, talvez o melhor do país, pois obedece já à arquitectura pedagógica, e satisfaz condições que em 1906, quando se levantaram os liceus modernos, por João Franco, não eram ainda exigidas. Foi arquitecto do edifício Jorge Segurado.
O Liceu, com dois pavimentos, é constituído, como vês, por um vasto quadrilátero, e compõe-se, pois, de quatro alas, servidas por um pátio ou claustro, em parte coberto. A Sul prolonga-se um corpo distinto, rectangular, no qual foram, instalados o ginásio e o balneário.

Liceu D. Filipa de Lencastre [1962-07]
Avenida Magalhães Lima, Arco do Cego
Artur Goulart,  in Lisboa de Antigamente

A fachada do Liceu oferece-se original e elegante, em rotunda e as fachadas laterais, largamente envidraçadas, dão um conjunto lavado desafogado, sem aspecto de casarão maciço. O átrio, todo de mármore, é muito belo.
Possui o Liceu 28 salas de aulas, duas das quais em anfiteatro, galerias, terraços, museu, laboratórios, biblioteca, refeitório, salas de conselho, de professores, e de secretarias.
   
Fotografia aérea do Bairro Social do Arco do Cego, Praça de Londres e Avenida de Roma [1953]
Na esq. baixa observa-se o Liceu D. Filipa de Lencastre.
Mário de Oliveira, in Lisboa de Antigamente

N.B. O Liceu D. Filipa de Lencastre, foi baptizado em sua honra. Esposa de D. João I e rainha de Portugal entre 1387 e 1415, nasceu em Inglaterra em 1360, filha de João de Gante, 1.º Duque de Lencastre.
Nada se sabe da sua vida até à altura do casamento com D. João I, que se efectuou no Porto, em 2 de Fevereiro de 1387, e que é considerado ilegítimo até 1391, altura em que uma bula papal autoriza o casamento do Mestre de Avis, que era eclesiástico. Dessa união nasceram oito filhos — a "Ínclita Geração", como lhe chamou Camões — , de entre os quais se destacam D. Duarte, futuro rei, o infante D. Pedro, o das "Sete Partidas", o infante D. Henrique, "o Navegador", e D. Fernando, o "Infante Santo". Ignora-se qual o papel que teve na educação dos filhos.
D. Filipa de Lencastre (Philippa of Lancaster) faleceu de peste bubónica em 18 de Julho de 1415, no Convento de Odivelas, na véspera da partida da expedição a Ceuta, estando sepultada no Mosteiro da Batalha. [infopedia]
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Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIV, pp, 74-75, 1939.

sexta-feira, 24 de setembro de 2021

Avenida Casal Ribeiro, 50

Este prédio de rendimento, construído no início do século XX, com elementos de Arte Nova, foi demolido em meados do séc. XX para a construção do edifício que acolheu a Companhia Nacional de Electricidade.

José Maria Caldeira do Casal Ribeiro (Lisboa, 1825-1896) – faz jus à diversidade de actividades que pautaram a sua vida. Licenciado em Direito, começou por ser um revolucionário republicano, inspirado pelos ideais da Segunda República Francesa. Colaborou no jornal O Atheneu, na Revista Universal Lisbonense, n’A Semana de Lisboa e fundou A Civilização (1856-1857).
Ao longo da sua vida relacionou-se com diversas figuras nacionais e internacionais, mantendo relações de duradoura amizade com Alexandre Herculano, Oliveira Martins ou António José de Ávila.
D. Luís agraciou-o com o título de conde de Casal Ribeiro em 1870. O conde de Casal Ribeiro foi um proprietário abastado, ligado pelo casamento à rica família Farrobo Quintela. Foi agraciado com a grã-cruz da Ordem de Cristo e com numerosas condecorações estrangeiras, entre as quais a Grã-Cruz de Alberto, o Valoroso (Saxónia), a Legião de Honra (França), a cruz de São Gregório Magno (Roma), da Ordem da Rosa (Brasil) e da Ordem de Carlos III (Espanha). Foi sócio da Academia Real das Ciências de Lisboa e da Academia de História de Madrid. [fcsh.unl.pt]

Avenida Casal Ribeiro, 50 [post. 1902]
Prédio erguido quarteirão entre a Praça do Duque de Saldanha e a Av. Defensores de Chaves. 
Paulo Guedes, in Lisboa de Antigamente
Avenida Casal Ribeiro, 50 [post. 1902]
Topónimo atribuído pela CML em 1902 à nova via que liga a Praça do Duque de Saldanha ao Largo de D. Estefânia. Em 2º plano as traseira dos prédios da Rua de D. Estefânia.
Paulo Guedes, in Lisboa de Antigamente

domingo, 9 de maio de 2021

Largo Dr. Afonso Pena, actual Campo Pequeno (actualizado)

Do Largo Afonso Pena, pelo nascente, saem as Avenidas recentes de Sacadura Cabral e Óscar Monteiro Torres, que são atravessadas pelas transversais Ruas Capitão Ramires, David de Sousa e Augusto Gil, A Avenida de Berna [actual João XXI] será prolongada até à futura Avenida de Roma. [Araujo: 1939]

 
O sítio do Campo Pequeno no início do século XVI era um logradouro público, espaço a descoberto na periferia da cidade, no qual se realizavam exercícios militares, por vezes paradas e feiras improvisadas (onde se treinou o exército de D. Sebastião antes de ir para Alcácer-Quibir). Teve também, no século XVIII, uma Praça de Touros provisória.
Em 18 de Agosto de 1892 foi inaugurada a Praça de Touros definitiva, arquitectada por António José Dias da Silva. No Campo Pequeno existe também um edifício seiscentista de arquitectura civil portuguesa, o Palácio Galveias. [cm-lisboa.pt]
 
Largo Dr. Afonso Pena, actual Campo Pequeno [1939]
Campo Pequeno com a Rua do Arco do Cego; anterior ao prolongamento da Avenida João XXI — entre o Campo Pequeno e a Av. de Roma— concluído na por volta de 1950; Palácio Galveias. Actualmente, temos, à esq., o Hotel Alif e, à dir., o edifício da Caixa Geral de Depósitos.
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

N.B. Na sessão de 1 de Outubro de 1908, ainda antes da vitória republicana da Câmara Municipal de Lisboa, o vereador Augusto César Clara da Rica, professor liceal que viria a falecer no ano seguinte, propôs que se passasse a chamar Largo Afonso Pena ao Campo Pequeno. O fundamento da proposta era de homenagem e agradecimento aos Estados Unidos do Brasil na pessoa do seu Presidente. . Afonso Pena, natural de Minas Gerais, candidato do Partido Republicano Mineiro, foi Presidente do Brasil, entre 1906 e 1909, não tendo completado o mandato. [MELO, Ana Homem de do Gabinete de Estudos Olisiponenses]

Largo Dr. Afonso Pena, actual Campo Pequeno [1965]
Campo Pequeno com a Rua do Arco do Cego; anterior ao prolongamento da Avenida João XXI — entre o Campo Pequeno e a Av. de Roma— concluído na por volta de 1950; Palácio Galveias. Actualmente, temos, à esq., o Hotel Alif e, à dir., o edifício da Caixa Geral de Depósitos.
Armando Serôdio, in Lisboa de Antigamente

sexta-feira, 29 de maio de 2020

Largo das Portas do Sol

Lemos na Gazeta de Nuvens de José Gomes Ferreira: «Tão entranhadamente vivi a vadiagem por esses sítios que contínuo a considerá-los — desculpa, ó Alvalade! desculpa, ó Avenida de Roma! — a Lisboa verdadeira. Uma amálgama barulhenta de varinas, padeiros, homens de burrico, vendedeiras de azeitonas, suor luminoso ligado à caliça da paisagem por raízes de pregões, insultos de vinho fácil, meninas janeleiras à espera de cartinhas de desconhecidos, para namoros de estafermo, quiosques onde, nos intervalos das aulas, íamos comprar os tétés, como no meu tempo de menino chamávamos em Lisboa aos sorvetes, monotonamente fabricados em sorveteiras de manivelas emperradas, vozes roufenhas de tabernas, bêbados nocturnos no seu ritual de danças de insectos em redor de candeeiros — e as marchas de Santo António improvisadas, à última hora, nos pátios sem alegria pré-comandada.

Largo das Portas do Sol [ant. 1901|
Topónimo evocativo da porta da Cerca Moura que ali se abria, é uma reminiscência da cidade medieval.
Machado & Souza, in Lisboa de Antigamente

Parece ser esta a Lisboa que mais soa, que mais canta e menos berra, que mais entoa e menos buzina. E por entre esses sons se descortinam textos, melodias, ãs vezes poesia.
É a esta Lisboa que eu volto sempre, quando quero encher os olhos de Lisboa.
(FERREIRA, José Gomes (1900-1985), Gazeta de Nuvens, 1975)
 
N.B, Monumentos que se destacam neste Largo, além da magnifica vista sobre o Tejo: Igreja de S. Braz ou de Santa Luzia e Palácio do Largo das Portas do Sol que foi dos Viscondes de Azurara.

Largo das Portas do Sol |post. 1901|
Topónimo evocativo da porta da Cerca Moura que ali se abria, é uma reminiscência da cidade medieval.
Artur Bárcia, in Lisboa de Antigamente

sexta-feira, 3 de abril de 2020

Abertura da Avenida de Roma

Antes era a Avenida nº 19 do plano de melhoramentos aprovado por deliberação camarária de 7 de Abril de 1928, compreendida entre a Rotunda a norte da Avenida de António José de Almeida (hoje, Avenida Guerra Junqueiro) e a Avenida Alferes Malheiro (hoje, Avenida do Brasil), que a partir do Edital de 27 de Dezembro de 1930 passou a ser a Avenida de Roma.

Abertura da Avenida de Roma |1945|
Ao fundo destaca-se o Hosp. Júlio de Matos
Fotografia anónima, in Lisboa de Antigamente

A Avenida de Roma, hoje pertença das Freguesias de Alvalade e do Areeiro, nasceu no último mês do ano de 1930 e nesta grandiosa artéria se ergueram sucessivamente, a partir do fim da II Guerra, três cinemas: o Alvalade, o Roma e o Londres.
Como existe uma Via Lisbona em Roma e embora se desconheça a sua data de atribuição, a Avenida de Roma em Lisboa pode ter sido atribuída apenas como retribuição. [cm-lisboa.pt]

Abertura da Avenida de Roma |1945|
A futura Avenida de Roma, ainda sem quaisquer construções, vista da porta do Hospital Júlio de Matos. À direita: terrenos de cultivo onde seria construído o Bairro de Alvalade.
Legenda da foto: «Vista tomada do Manicómio Júlio de Matos, do estado actual das obras da grande artéria que será rodeada de habitações colectivas e moradias unifamilares de renda não limitada.»
Ferreira da Cunha{?], in Revista Municipal Lisboa
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