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Wednesday, 19 July 2017

Rua de São Tomé (antiga do Infante D. Henrique)

Ora, paciente companheiro, entremos na Rua do Infante D. Henrique, chamada até 1882, Rua de S. Tomé [em 1948 voltou a designar-se Rua de São Tomé], e Largo do mesmo nome na sua parte menos estreita. O Infante navegador teve aqui próximo umas casas, que cedeu ao Estudo Geral — a nossa Universidade de Lisboa  —, do qual resta o nome "Escolas Gerais", sítio de que nos ocuparemos noutra jornada. Deriva daquela circunstância o ter-se dado o nome do filho de D. João I a esta artéria do velho S. Tomé. [...]

Rua de São Tomé, 24 (esq.) [1939]
Antiga do Infante D. Henrique
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Este sítio de São Tomé deriva seu nome de uma Igreja Paroquial que existiu exactamente onde estão o tabuleiro e cortina sobranceiros à Rua das Escolas Gerais e do Salvador. “São Tomé do Penedo” chamava o povo ao local pela razão de aqui ter havido uma penedia. A paroquial datava, pelo menos, do princípio do século XIV (1320); a Igreja, que resistiu bem ao Terramoto, foi demolida em 1839. A freguesia reuniu-se então à de S. Vicente.

Rua de São Tomé com a Travessa de São Tomé (dir.) [1939]
Antiga do Infante D. Henrique
Eduardo Portugal,in Lisboa de Antigamente

Esta Rua do Infante D. Henrique pouco mais tem do que sessenta anos [ca. 1880] no seu aspecto de agora; foi um vereador Estrela Braga que logrou fazer alargar a antiga Rua de S. Tomé, cujos prédios do lado Sul, à nossa direita, são como vês, relativamente modernos. O lado esquerdo, esse conserva o seu aspecto pobre urbano do fim de setecentos. Da Rua Infante D. Henrique actual, onde, por ameaçarem ruína, já começaram a ser destruídos alguns antigos prédios típicos, abrem para a aba do Castelo e Menino de Deus estas curiosas serventias: Beco do Maldonado, que deixamos atrás, Beco do Funil, Calçada do Menino de Deus [foto em baixo à esq.], Rua dos Cegos, e o Beco da Laje, com uma casa setecentista à esquina [foto em baixo à dir.].

Rua de São Tomé [1908]
Rua de São Tomé [1908]
 
Esquerda: Esquina da Rua de São Tomé com a Cç. do Menino Deus.

Direita: Esquina da Rua de São Tomé com o Beco da Lage. De acordo com Gomes de Brito, o Beco da Lage aparece mencionado em “O Itinerário Lisbonense” de 1818. No entanto, já existia antes do grande terramoto de 1755.


 
O prédio mais representativo do sitio é este, n.° 24 [à esquerda na 1ª foto], apalaçado, com sua fachada de dois andares, e sete elegantes janelas de sacada no primeiro. Constitui um espécime da arquitectura truncada da transição do século XVIII para o século XIX, mas o edifício denota no seu interior confuso mais antiguidade. 

Rua (Largo) de São Tomé [1939]
Antiga do Infante D. Henrique
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. II, pp. 72 -73, 1938.

Friday, 12 May 2023

Rua de São Tomé, 9-23

Este sítio de São Tomé deriva seu nome de uma Igreja Paroquial que existiu exactamente aqui. O povo chamava ao local “São Tomé do Penedo” por aqui ter havido uma penedia. A paroquial datava — recorda o ilustre Norberto de Araújo — , pelo menos, do princípio do século XIV e foi demolida em 1839.⁼⁼
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. II, pp. 72-73, 1938)

Rua de São Tomé, 9-23| 1908|
Antiga do Infante D. Henrique (até 1948). Deriva daquela circunstância o ter-se dado o nome
do filho de D. João I a esta artéria do velho S. Tomé.

Nota(s): Neste edifício está instalado, actualmente, o restaurante "Frei Papinhas".
Machado & Souza, in Lisboa de Antigamente

Wednesday, 9 September 2015

Panorâmica sobre São Vicente de Fora

Considerada um dos mais impressionantes edifícios lisboetas, a Igreja de São Vicente de Fora ergue-se como uma imagem emblemática do mecenato arquitectónico de Filipe I, depois de ter subido ao trono português.

Instituído por D. Afonso Henriques em 1147, decorrendo do voto feito pelo monarca caso conseguisse conquistar Lisboa, o mosteiro dedicado ao mártir, e entregue aos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho, simbolizou na sua essência a refundação cristã da cidade, tornando-se progressivamente uma das mais importantes casas conventuais lisboetas.

 

Em 1527, D. João III encetou uma profunda reforma no interior da ordem dos Crúzios, que estabelecia uma reformulação das regras de vida monástica, estendendo-se à arquitectura dos complexos conventuais.
No entanto, só no início do reinado de Filipe I foi iniciada a reforma do edifício da igreja e do mosteiro, numa acção em que o monarca "refazia o gesto fundacional de Afonso Henriques, sobretudo como gesto primeiro de um novo dinasta e de um novo mecenas", reforçada pela escolha do templo para panteão real (Soromenho, 1994, p. 208).
A autoria da traça do novo mosteiro continua envolta em alguma polémica, embora nos últimos anos seja consensual que as grandes figuras de destaque da reforma vicentina sejam os arquitectos Juan de Herrera e Filipe Terzi.
Se a Herrera, autor do Escorial, são atribuídos os planos do complexo mandados fazer por Filipe I, coincidindo a data dos esboços com os anos de permanência do arquitecto em Lisboa (1580-1583), de Terzi destaca-se o seu contributo nas "traças operativas", ou seja, o seu papel na condução do estaleiro de obras e a influência decisiva do seu trabalho na estrutura final (idem, ibidem, p. 210).

Panorâmica sobre São Vicente de Fora, observando-se o Mercado de Santa Clara e a Escola Secundária Gil Vicente |1940|
in Lisboa de Antigamente

Outra figura de destaque na obra de São Vicente de Fora é, sem dúvida, o arquitecto português Baltazar Álvares, que dirigiu as obras entre 1597 e 1624, e a quem se aponta a composição da fachada (idem, ibidem; Soromenho, 1995, p. 379-380). Adaptando a tradição do Maneirismo romano às tradições arquitectónicas portuguesas, o seu modelo constituiu-se como uma das géneses do estilo chão, marcando em definitivo a arquitectura maneirista, em Portugal e em todo o mundo português, durante o século XVII.
De planta longitudinal, o templo vicentino possui nave única, com transepto, capela-mor bastante profunda e retro-coro. Nas paredes laterais da nave "destaca-se a sequência rítmica de pilastras emparelhadas" (idem, ibidem), entre as quais foram rasgadas, em 1608 pequenas capelas, comunicantes entre si. O espaço, cuja iluminação é feita através de janelas termais que se distribuem pelo topo da cabeceira e do transepto, é coberto por abóbada de berço de caixotões, estando estes decorados com diferentes relevos. O cruzeiro da igreja era originalmente rematado por uma cúpula, que ficou totalmente destruída durante o terramoto de 1755.

Igreja e Mosteiro de São Vicente de Fora |1858|
Largo de São Vicente; Palácio Teles de Menezes (esq.)
Fotógrafo não identificado, 
in Lisboa de Antigamente

A fachada apresenta uma composição muito original, de linhas sóbrias e depuradas mas repleta de monumentalidade, como convinha a uma igreja designada panteão-real, na qual se destaca a disposição das duas torres. Estas não são simplesmente justapostas como dois blocos adossados ao frontispício, mas antes plenamente integradas na estrutura, numa tipologia que recria, à luz da tratadística renascentista, a arquitectura medieval portuguesa, alcançando "um equilíbrio perfeito entre a tensão horizontal de um alçado de cinco tramos e a verticalidade sugerida pelos volumes torreados" (idem, ibidem).
(DIDA/IGESPAR/28 de Novembro de 2007)

Igreja e Mosteiro de São Vicente de Fora |1951|
Largo de São Vicente
Eduardo Portugal, 
in Lisboa de Antigamente

N.B. A freguesia dita de S. Vicente, funcionou, logo desde 1147, na igreja conventual, e o seu patrono foi S. Miguel, invocação principal que se perdeu. Esteve, desde o início fora da jurisdição episcopal, e, talvez por isso, se chamou S. Vicente «de Fora». e não por estar fora dos muros da Cerca Moura. Em fins de Janeiro de 1856 foram anexadas à paróquia de S. Vicente as de S. Tomé. e do Salvador. já retinidas uma à outra desde 1836. A freguesia civil passou a chamar-se das Escolas Gerais desde 15 de Julho de 1916.
(ARAÚJO, Norberto de, IL, 1944)

Panorâmica tirada das Portas do Sol sobre São Vicente de Fora |194-|
Largo de São Vicente
Amadeu Ferrari, 
in Lisboa de Antigamente

Sunday, 26 September 2021

Rua de Barros Queirós

Era a antiga Travessa de São Domingos, passou a designar-se Rua de Barros Queirós em homenagem a "Tomé José de Barros Queirós". A atribuição deste topónimo foi ainda acrescentada com uma legenda de «Ilustre cidadão, vereador da 1ª Câmara Municipal Republicana de Lisboa – 1926».

No Edital de 21 de Junho de 1926 pode ler-se: “[...] o Senado Municipal, em sessão de 7 de Junho corrente, prestando homenagem á grande figura republicana que foi Tomé José de Barros Queiroz, um dos mais ilustres propagandistas da Republica, trabalhando e lutando por ela e prestando relevantes serviços á cidade, quando vereador, resolveu dar á travessa de S. Domingos a seguinte denominação: Rua Barros Queiroz / Ilustre Cidadão, Vereador da 1ª Câmara Municipal Republicana de Lisboa – 1926”.

Rua de Barros Queiroz |1908|
Antiga Travessa de São Domingos
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

A justificação possível da alteração do topónimo Travessa de São Domingos para Rua de Barros Queirós reside no propósito – que se verificou durante o período da 1ª República – de acabar com a influência que a religião e a monarquia tinham na vida quotidiana e profissional das pessoas. O novo regime alterou a denominação das ruas, praças, largos, instituições e edifícios por outros conotados com a República.
Ainda, e por parecer da Comissão Municipal de Toponímia, em reunião de 19/05/1950, foram suprimidos os dizeres "Ilustre Cidadão – Vereador da 1ª Câmara Municipal de Lisboa – 1926" dos letreiros toponímicos e acrescentada a partícula “de”.

Rua de Barros Queiroz |1944|
Antiga Travessa de São Domingos
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

N. B. Tomé José de Barros Queiroz nasceu em Ílhavo a 2 de Fevereiro de 1872 e faleceu a 5 de Maio de 1926 em Lisboa.
Foi aprendiz de oficina, marçano e caixeiro e, pelo empenho e esforço chegou a comerciante de candeeiros no Largo de S. Domingos; político do período da Primeira República Portuguesa que, entre outras funções, exerceu os cargos de deputado, Ministro das Finanças, Ministro da Instrução Pública e Presidente do Conselho de Ministros. Foi membro da Maçonaria, na loja "Acácia". [cm-lisboa-pt; ANTT]

Rua de Barros Queiroz |1940|
Antiga Travessa de São Domingos; Igreja de São Domingos, abside; Rua da Palma.
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Sunday, 13 September 2020

Palacete da Quinta dos Lilases

O edifício integrado num espaço amplo e funcional apresentava em 1902 todo um conjunto de equipamentos característicos das quintas de recreio agrícola: cocheira, cavalariças, capoeiras e vacarias, celeiros, estufa, lagos, casa para caseiros, hortas e mata.  


O edifício de cariz romântico, apresenta uma simetria rigorosa na sua fachada virada á Alameda das Linhas de Torres, sendo o seu revestimento de azulejo de fabrico industrial, num interessante tom verde – água, que contrasta com o branco dos elementos em cantaria e do reboco. 
Começou por ser uma pequena casa de habitação em 1886, pertencente a Francisco César Batalha. Na transição dos séculos XIX-XX, Francisco Mantero e Velarde — notável empresário colonial na província ultramarina de São Tomé e Príncipe, onde viveu muitos anos — decidiu comprá-la. Segundo refere Julieta da Cunha Gonçalves: «Com alguns terrenos que foram desanexados da «Quinta das Flores». além de outros que comprou e mais uma faixa de terreno que foi buscar à sua «Quinta das Conchas», Francisco Mantero fez em 1897 a «Quinta dos Lilazes», que durante um quarto de século não parou de engrandecer e alindar. A quinta confronta a poente com a então chamada Rua do Lumiar (também chamada Estrada do Lumiar e Alameda do Lumiar), a norte com a «Quinta das Flores», e com a Quinta de Pimentel Leão, a nascente com a vinha de Aurora Francisca Ribeiro Ferreira e a sul com a «Quinta das Conchas» que também pertencia a Francisco Mantero.

Palacete da Quinta dos Lilases [1968]
Alameda das Linhas de Torres, 198-220
Armando Serôdio, in Lisboa de Antigamente

Na parte traseira do imóvel, destaca-se a intervenção do arq-º Norte Júnior, que em 1916 realizou um curiosa galeria em ferro que, ao nível do 1º andar, une o corpo principal da habitação ao que terá sido um jardim de Inverno ou estufa.
No jardim um lago de formas curvilíneas apresenta ao centro duas pequenas ilhas arborizadas com a forma das ilhas de São Tomé e Príncipe, numa ilusão ás colónias onde Francisco Mantero fizera fortuna. Ladeiam o lago quatro pavilhões em ferro destinados originalmente um para merendas, outro para ginásio, um com baloiço e um com poço para mergulhos.

Palacete da Quinta dos Lilases, jardim [1968]
Alameda das Linhas de Torres, 198-220
Vasco Gouveia de Figueiredo, in Lisboa de Antigamente

N.B. No edifício da quinta, propriedade municipal, encontra-se hoje sedeada a Academia Portuguesa da História e na zona envolvente o Parque das Quintas das Conchas e dos Lilases, que constitui o 3º maior espaço verde da cidade de Lisboa depois de Monsanto e do Parque da Bela Vista. Encontra-se Em Vias de Classificação.
____________________________________
Bibliografia
Os palácios de Lisboa; lisboapatrimoniocultural.pt.

Sunday, 4 May 2025

Largo Rodrigues de Freitas: Vão lá dizer às gentes que isto aqui não é «Santo André»!


Chegara então ao Largo Rodrigues de Freitas, encruzilhada de uma meia dúzia de pequenas ruas, oásis verdejante, com algumas casas bem antigas, mas, infelizmente, bastante degradadas. Estará então a dois passos da igreja do Menino Deus.¹


Foi neste Largo de Rodrigues de Freitas que nos despedimos no cabo da última jornada — recorda o ilustre Norberto de Araújo. Aqui nos voltamos a encontrar — no coração do velho Santo André, santo da toponímia popular, cujo nome encheu o sítio, e por muitos anos perdurará. Vão lá dizer às gentes que isto aqui não é «Santo André»!

Largo Rodrigues de Freitas antigo de Santo André |1948-05|
Confluência da Rua de São Tomé, Calçada da Graça e Travessa do Açougue
 Costa do Castelo (esq.) e Calçada de Santo André; à dir., o Palácio dos Condes de Figueira.

Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

A designação deriva da circunstância de neste local de que nos vamos aproximando — a Travessa do Açougue, que conduz em pequena rampa à Calçada da Graça — ter existido a Igreja Paroquial daquela invocação.²

Largo Rodrigues de Freitas antigo de Santo André |c. 1960|
Confluência da Travessa do Açougue (esq.) e Ruas do Salvador e de São Tomé.
Mário Pinto,, in Lisboa de Antigamente

No dia 31 de Maio de 1835, acabaram definitivamente as freguesias de Santa Marinha e de Santo André [...] Os letreiros dos carros eléctricos arvoravam durante muito tempo, o chamadouro do lugar que foi de grandeza e decaiu. Ficouporém, a Calçada de Santo André que vai até ao Terreirinho. O largo é que passou a ser de Rodrigues de Freitas, em 1915, sem que cousa alguma explique a homenagem local ao ilustre professor e notável democrata.
Nem sequer a existência de um centro republicano, com o seu nome, naquele âmbito justifica a distinção do município.³

Largo Rodrigues de Freitas antigo de Santo André |1967|
Jardim e Travessa do Açougue.
Artur Inácio Bastos, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
¹ ADRAGÃO, José Victor; PINTO (Natália); RASQUILHO, Rui, Lisboa, p. 74, 1985.
² ARAUJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. III, p. 12, 1938.
³ MARTINS, Rocha, Lisboa de ontem e de hoje : as colinas da cidade, p.1045.

Wednesday, 7 October 2015

Palacete Mendonça (actualizado)

Projectado entre 1900 e 1902 pelo arqº. Ventura Terra para Henrique José Monteiro de Mendonça, roceiro em S. Tomé, o edifício construído, de gramática ecléctica, ficou terminado em 1909, data em que foi galardoado com o Prémio Valmor, tendo sido posteriormente classificado como Imóvel de Interesse Público.  O júri destacou ainda a «loggia»1, afirmando mesmo que « (...) deveria ser mais amplamente adoptado no nosso pais (...)».

Trata-se de um edifício de planta rectangular, cuja fachada apresenta 3 corpos, um central avançado e dois laterais, aos quais estão adossados duas estruturas térreas, também de planta rectangular. O corpo central, de 3 pisos, caracteriza-se, ainda, pela escadaria de acesso e pelos 3 vãos, que no 2º andar definem uma galeria, com arcos em volta-perfeita, formando uma loggia suportada por pés direitos, traduzindo uma linguagem neo-renascentista, dando, tal como no 1º andar, para uma varanda corrida com balaustrada em pedra.

Palacete Mendonça, Prémio Valmor de 1909 [post. 1909]
Rua Marquês de Fronteira, 18-28
Paulo Guedes, in Lisboa de Antigamente

No interior merecem destaque o vestíbulo coberto por cúpula envidraçada, evidenciando uma certa monumentalidade e efeito cenográfico, a partir do qual se desenvolve a monumental escadaria de acesso ao piso nobre e a feição decorativa neo-rócocó patente nos espelhos e estuques do tecto e das paredes da Sala Luís XV. Exteriormente surge rodeado por um parque murado, cujo muro de pedra se encontra ornado por um gradeamento em ferro forjado evidenciando apontamentos Arte Nova. 

1 Loggia ou Lógia é um elemento arquitectónico aberto inteiramente ou em um dos lados — como uma galeria ou pórtico — coberto e, normalmente, sustentado por colunas e arcos.

Palacete Mendonça, Prémio Valmor de 1909, fachada posterior [c. 1909]
Rua Marquês de Fronteira, 18-28
Joshua Benoliel, 
 in Lisboa de Antigamente

N.B. Henrique José Monteiro de Mendonça foi um importante homem de negócios do final do século XIX e início do século XX em Portugal. Proprietário da Roça da Boa Entrada, na ilha de São Tomé, foi um dos pioneiros do ciclo do cacau, tendo promovido o desenvolvimento de metodologias inovadoras no seu cultivo e processo de secagem.
[MACEDO, Marta – Império de Cacau. In JERÓNIMO, Miguel Bandeira, coord. –  O império colonial em questão: sécs. XIX e XX. Lisboa: Edições 70, 2012. p. 289-316]

Vista panorâmica da zona de São Sebastião da Pedreira no local de construção do Palacete Henrique de Mendonça |1900-1902|
Rua Marquês de Fronteira, 18-28
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Sunday, 15 September 2019

Cais das Colunas: o miradouro raso e rasteirinho da cidade

Levantam voo as gaivotas à roda delas, e largam para o rio os bergantins reais e os botes catraios. Visão de séculos neste Cais das Colunas — dois brasões de pedra que nunca chega a ser morena. As colunas são um sinal de atenção, o mais lindo e recortado sinal na fronte de Lisboa ribeirinha. Fazem uma evocação da Veneza dos doges.


Em verdade estes dois pilares não levam duzentos anos, pois são invenção posterior ao Terramoto. E não são os primitivos. O Tejo divertiu-se sempre muito com as colunas, e arrebata-as várias vezes. Quando, em 1903, se preparava o desembarque de um rei inglês [Eduardo VII], que no cais havia de abicar na galeota dourada de trinta remeiros — houve que improvisar umas colunas de madeira, porque as de pedra tinham caído. Foi outro brinquedo: o rio levou as colunas no outro dia. . .

Cais das Colunas, Terreiro do Paço |1903|
Do lado esq. podem observar-se as colunas provisórias em madeira de forma quadrangular. Ampliando a foto vê-se na base dos pilares — manifestamente desalinhados —o  travessão que os unia e mantinha no lugar, supostamente..
 Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Este Cais das Colunas, que sucedeu ao Cais da Pedra — é o miradouro raso e rasteirinho da cidade. Um livro aberto de evocações. Viu sucessivamente as barcas, as fustas, as galeras, as caravelas, as naus; as galés e os galeões; as fragatas, as corvetas, os brigues e as escunas, depois os navios chapeados de ferro e aço, os transportes e os transatlânticos, os cruzadores e os couraçados. Guarda na retina as silhuetas da nau «S. Gabriel», que foi à Índia, do galeão «Santa Teresa», o mais imponente que cruzou os mares, da nau «D. Maria», do Marquês de Nisa, que esteve em Trafalgar, da corveta «Pero de Alenquer», e do «Adamastor».

Cais das Colunas sem colunas |c. 1900|
O Tejo divertiu-se sempre muito com as colunas, e arrebata-as várias vezes.
 José Artur Bárcia,in Lisboa de Antigamente

Cais das Colunas |post. 1931|
Por ocasião da visita a Portugal de Alexandre da Dinamarca — rainha consorte do ReinoUnido da Grã-Bretanha e Irlanda, e Imperatriz da Índia e esposa do rei Eduardo VII — as colunas foram pintadas de branco tal como informa a edição de 15 de Março de 1905 do Diario Ilustrado.
Postal, in Lisboa de Antigamente

Conheceu as velas de todo o mundo, os pavilhões de todos os povos, os alcaxas¹ de todos os marujos, e ouviu trons e salvas em todas as línguas. Da sua rampa de pedra rolada, ou da sua escadaria carcomida — viu cem gerações dizerem adeus a cem armadas que partiam. Pórtico escancarado do Terreiro do Paço, a sumir-se abaixo do nível, dir-se-á um adiantado do Arco Triunfal, o primeiro aviso de que a cidade começa.
¹  peças inconfundíveis do uniforme dos marinheiros

Cais das Colunas «Salazar» e «Carmona» |post. 1939|
As duas famosas colunas ainda têm os nomes que lhes foram dados em pleno Estado Novo, em homenagem às duas figuras mais importantes do país na altura: ««Salazar» e «Carmona».
 Garcia Nunes,in Lisboa de Antigamente

De acordo com alguns autores, as colunas que pontuam a escadaria de pedra que desce até ao rio, poderão ser de inspiração maçónica e representar as duas colunas do Templo de Salomão (colunas Boaz (B) e Jaquim (J) ,ou Jerusalém e Belém, conforme as interpretações) simbolizando força e estabilidade, rigor e misericórdia, força e beleza, ciência e conhecimento, o Ocidente e o Oriente. O "estar entre colunas" maçonicamente significa estar em segredo entre irmãos
Mas o que talvez poucos saibam, é o que o lodo esconde. As duas famosas colunas ainda têm os nomes que lhes foram dados em pleno Estado Novo, em homenagem às duas figuras mais importantes do país na altura: «Salazar» e «Carmona».

Cais das Colunas «Salazar» |post. 1939|
Inscrição no pilar esquerdo (Oriental):
«A SEGUNDA VIAGEM DO CHEFE DO ESTADO ÀS TERRAS ULTRAMARINAS DO IMPÉRIO: CABO VERDE, MOÇAMBIQUE E ANGOLA. XVII DE JUNHO - XII DE SETEMBRO DE MCMXXXIX A VIAGEM DO CHEFE DO ESTADO ÀS TERRAS DO IMPÉRIO EM ÁFRICA ESTÁ NA MESMA DIRECTRIZ DAS NOSSAS PREOCUPAÇÕES E FINALIDADE, É MANIFESTAÇÃO DO MESMO ESPÍRITO QUE PÔS DE PÉ O ACTO COLONIAL»
SALAZAR
Luís Filipe de Aboim Pereira,,in Lisboa de Antigamente

Acima dos nomes dessas duas importantes e polémicas personalidades da História de Portugal, estão citações que cada uma delas proferiu na sequência de duas viagens que Óscar Carmona, Presidente da República, fez às colónias.

Cais das Colunas «Carmona» |post. 1939|
Inscrição no pilar direito  (Ocidental):
«AQUI EMBARCOU O CHEFE DO ESTADO PARA A PRIMEIRA VIAGEM ÀS TERRAS 
ULTRAMARINAS DO IMPÉRIO: SÃO TOMÉ E PRÍNCIPE E ANGOLA. XI DE JULHO - 
XXX DE AGOSTO DE MCMXXXVIII COM A CERTEZA DE QUE FALA PELA MINHA
PORTUGAL INTEIRO, PROCLAMO A UNIDADE INDESTRUTÍVEL E 
VOZ ETERNA DE PORTUGAL»
GENERAL CARMONA
Luís Filipe de Aboim Pereira,, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de,  Legendas de Lisboa, pp. 38-39, 1943.
lusophia.wordpress.com.

Friday, 20 March 2020

Ponte Giratória do Cais da Rocha do Conde de Óbidos

Uma ponte que ligasse o Posto Marítimo de Desinfecção (Estação de Sanidade Marítima) com a Rocha do Conde de Óbidos, era assunto que vinha preocupando as administrações do porto desde meados da década de 1910. Era urgente melhorar as condições de passagem naquele local para evitar que aos estrangeiros desembarcados lhe fosse patenteado um tal espécimen de incúria [no local existia, a jusante uma pequena ponte levadiça, vd. 2ª foto]

Ponte giratória do cais da Rocha do Conde de Óbidos |c. 1959|
Em 1948, inaugurava-se a Gare Marítima da Rocha do Conde de Óbidos, projectada pelo arq.º Porfírio Pardal Monteiro, contando, igualmente, com a colaboração do pintor Almada Negreiros.
António Passaporte, Colecção JMF, in Lisboa de Antigamente
Ponte giratória do cais da Rocha do Conde de Óbidos |17 Maio 1938|
Ferreira da Cunha, in Lisboa de Antigamente
 

O material para a ponte chegou a Lisboa sem as fundações estarem preparadas para a sua montagem. Foi preciso intensificar estes trabalhos, já pelo estabelecimento de horas extraordinárias concedidas ao pessoal, já por uma constante vigilância sobre o trabalho produzido. Por esta forma conseguiu-se que a ponte tosse inaugurada pelo Presidente da República General Óscar Carmona em 28 de Agosto de 1927.¹

As duas pequenas pontes na Doca da Rocha Conde de Óbidos. |post. 1927|
A ponte em primeiro plano era levadiça; ao fundo, destaca-se o SS Ambaca, construído e completado em Junho de 1889, para a Empresa Nacional de Navegação. Viagem inaugural em 6 de Julho de 1889 para o Funchal, São Vicente, São Tiago, Príncipe, São Tomé e Moçâmedes. Afundado pelos alemães em 23 de Dezembro de 1917.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Nota(s): As duas pontes coexistiram até meados da década de 1920,  altura em que a primitiva ponte levadiça [vd. imagem abaixo] foi  desmantelada. Por sua vez, em 2005, a ponte giratória foi substituída por uma nova ponte pedonal.

Ponte levadiça da Doca da Rocha Conde de Óbidos. |ant. 1898|
João Francisco Camacho, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
¹ CURADO, Paiva, O porto de Lisboa: ideias e factos, p. 26, 1928.

Sunday, 29 September 2024

Igreja de São Domingos

S. Domingos — Dilecto — é uma crónica viva de Lisboa, com as suas imediações da Praça da Figueira, com o seu trânsito obrigatório, pela Rua Barros Queiroz e Calçada do Garcia, formigueiros de gente, que desce dos Anjos, dos bairros novos, ou de Sant'Ana velha. [...]

Junto do templo dominicano, assentava, crê-se que já antes de se erguer o Convento, a pequenina ermida de N. Senhora da Purificação, da Escada, de grande nomeada na Lisboa velha; o seu lugar era onde está a Casa de Candeeiros, que foi de Tomé de Barros Queiroz, bom cidadão de Lisboa (...)»

Igreja de São Domingos [c. 1910]
Rua Barros Queirós; Largo de S. DomingosGinjinha do Rossio
A velha Igreja de São Domingos ficava junto à ermida de Nossa Senhora da Escada, também conhecida por Nossa Senhora da Corredoura, por ficar próximo do sítio deste nome, actualmente a Rua das Portas de Santo Antão, e cuja construção datava dos princípios da monarquia.
Alberto Carlos Lima, in Lisboa de Antigamente

Tendo sido lançada a primeira pedra no ano de 1241, e alvo de sucessivas e diferentes campanhas de obras que lhe foram alterando e adicionando a traça primitiva, data de 1748 a reforma efectuada na capela-mor pelo arqº Ludovice, acabando por ser a única zona do templo poupada ao terramoto de 1755. Seguidamente, a igreja foi reconstruída por Manuel Caetano de Sousa, que reaproveitou o portal e a sacada sobrejacente pertencentes à Capela-Real do Paço da Ribeira.
Em termos formais, esta Igreja conventual denuncia uma arquitectura barroca, de planta em cruz latina. Enquanto que exteriormente é caracterizada pelas suas linhas simples, o interior ainda revela alguma da sua notória riqueza ecléctica. Assim, serão dignos de realce, não apenas o aspecto grandioso de todo o espaço interior, como os próprios mármores e pinturas, infelizmente hoje desaparecidos.

Era notável a sua riqueza em alfaias preciosas, havendo uma imagem de prata maciça, que saía em procissão num andor do mesmo metal, alumiada por lâmpadas também de prata. As pinturas dos altares, os paramentos, os tesouros, tudo desapareceu durante o terramoto de 1755, salvando-se unicamente a sacristia e a capela-mor, mandada fazer por D. João V e riscada pelo arquitecto João Frederico Ludovice, em 1748 - homem que projectou o colossal Convento de Mafra. A capela-mor, toda de mármore negro, e em cujas colunas se vêem, junto à base, medalhões delicadamente cinzelados, que também avultam sobre os nichos laterais.
 
Igreja de São Domingos |Inicio séc. XX|
Perspectiva longitudinal do interior da Igreja
A Capela-mor, edificada em 1748 por Ludovice e acabada por João António de Pádua é rematada
por um arco de volta perfeita que marca a outra extremidade da abóbada de berço e possui quatro
grandes colunas sem capitel que delimitam o receptáculo do Sacrário com porta de bronze. O conjunto
é rematado por formação escultórica ladeando o registo central, duas mísulas com as estátuas de
S. Domingos e S. Francisco. Nas paredes laterais, janelas ao nível do grupo escultórico superior.
José A. Bárcia, in Lisboa de Antigamente

Em 13 de Agosto de 1959, um violento incêndio destruiu por completo a decoração interior da igreja, onde constavam altares em talha dourada, imagens valiosas e pinturas de Pedro Alexandrino de Carvalho. A igreja recebeu obras e reabriu ao público em 1994, sem esconder as marcas do incêndio, como as colunas rachadas. Ainda que destruída, é uma igreja que sobressai pela policromia dos seus mármores. 
Actualmente é a igreja paroquial da freguesia de Santa Justa e Santa Rufina, em plena Baixa Pombalina e foi classificada como Monumento Nacional. Expõe metade do lenço usado por Lúcia no dia 13 de Outubro de 1917 (a outra metade encontra-se no Santuário de Nossa Senhora de Fátima, em Fátima) e ainda o terço usado por Jacinta Marto no mesmo dia.

Igreja de São Domingos, abside e torre sineira |c. 1950|
Rua Dom Duarte cruzamento com a Rua da Palma  e Rua Barros Queirós
Numa passagem para a sacristia, com entrada pela Rua da Palma, encontram-se os túmulos do grande pregador dominicano Fr. Luís de Granada (m. 1588) e do reformador da ordem Fr. João de Vasconcelos (m. 1652). Esta igreja tem ainda uma cripta abobadada e dotada de lambris de azulejos, onde está o túmulo de D. João de Castro, capelão de D. João. 
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa», vol. XII, p. 80, 1939.
CARRIÇO, Hugo Miguel, Informação sobre igrejas de Lisboa, 2017.

Thursday, 11 February 2016

Largo de S. Domingos: Casa de Candeeiros José D'Oliveira & Barros

Sobre o sítio de S. Domingos refere Norberto de Araújo o seguinte: 
S. Domingos  — Dilecto — é uma crónica viva de Lisboa, com as suas imediações da Praça da Figueira, com o seu trânsito obrigatório, pela Rua [de] Barros Queiroz e Calçada do Garcia, formigueiros de gente, que desce dos Anjos, dos bairros novos, ou de Sant'Ana velha. [...]

Casa de Candeeiros José D'Oliveira & Barros [1909]
Rua Barros Queirós; Largo de S. Domingos; Igreja de São DomingosGinjinha do Rossio
Procissão de Nossa Senhora da Saúde entrando na igreja de São Domingos.
Anselmo Franco, in Lisboa de Antigamente

Junto do templo dominicano, assentava, crê-se que já antes de se erguer o Convento, a pequenina ermida de N. Senhora da Purificação, ou da Escada, de grande nomeada na Lisboa velha; o seu lugar era onde está a Casa de Candeeiros, que foi de Tomé de Barros Queiroz, bom cidadão de Lisboa, e que em 1890 a tomou a Manuel Joaquim de Oliveira, fundador dela em 1870. ==
(ARAÚJO, Norberto de, «Peregrinações em Lisboa»,  vol. XII, p. 80, 1939)

Casa de Candeeiros José D'Oliveira & Barros [c. 1910]
Largo de S. Domingos; Igreja de São Domingos (video)
Alberto Carlos Lima, in Lisboa de Antigamente
 
N.B. O topónimo devia ser mais conhecido como sítio de São Domingos já que nas plantas feitas após a remodelação paroquial de 1770, é referida uma «rua de trás de S. Domingos» na freguesia de Stª Justa e Rufina.

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