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sexta-feira, 9 de dezembro de 2022

Ermida de N. S. da Vitória

A ermida de Nossa Senhora da Vitória avulta entre dois prédios da rua da Vitória, na parte situada entre as ruas do Ouro e do Crucifixo, e está orientada ao Sul. O acesso ao templo faz-se por seis degraus que terminam em patamar formando um pequeno adro.


A actual ermida da Vitória foi construída entre 1765 e 1824 [atribuído o risco ao Arquitecto José Monteiro de Carvalho] para substituir a antiga, quinhentista, que se levantava, com o hospício anexo de Santana dos Caldeireiros, na Caldeiraria, onde hoje se cruzam as ruas do Ouro e da Assunção. Devia-se a uma recolhida, cega, desse hospício, devota daquela invocação, que introduziu o culto da Senhora da Vitória na capelinha do recolhimento então administrado pelo Hospital Real de Todos-os-Santos. A ermida fora edificada em 1556 passando a sua mantença à Irmandade dos Caldeireiros.

Ermida de Nossa Senhora da Vitória [1944]
Rua da Vitória
A Fachada, de um só corpo, ladeado por quatro pilastras, portas a par duas a duas, às quais
serve de remate a arquitrave, coroada de acrotérios flamejantes e frontão com tímpano, e nele
óculo iluminante.
J. C. Alvarez, in Lisboa de Antigamente

Foi inteiramente destruída pelo Terramoto. No final do século XIX entraram a administrá-la os representantes da antiga confraria dos Ourives, cuja capela da invocação de Santo Elói e da Senhora da Assunção (1697} queimada em 1755, se transportara para a rua da Prata (n.ºˢ 139-141) e acabara por desaparecer.
Em virtude da venda e demolição da igreja da Conceição Nova instalaram-se (a partir de 1951) os serviços paroquiais na ermida da Vitória.

Ermida de Nossa Senhora da Vitória [194-]
Rua da Vitória
Assinala-se o portal com moldura de cantaria e ática ornamentada. Por cima janelão com
ática, decorado com um vitral moderno.
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Inventário de Lisboa: Monumentos histórico, 1956.

domingo, 16 de março de 2025

Rua dos Ourives da Prata

À rua que em 1755 subia do Largo do Pelourinho, e que então “trifurcava, depois de percorridos os seus quatrocentos e oitenta e quatro palmos”, nas ruas das Pedras Negras, da Correaria e do Arco de Nossa Senhora da Consolação, designava-se, então, de Rua dos Ourives da Prata. 

Assim descreve Luís Pastor de Macedo a rua que, por alvará de D. Manuel I, de 19 de Abril de 1514, relativo ao arruamento dos ofícios, estabelecia que do dia de São João em diante, passassem para a Rua Nova d’El Rei [actual R. do Comércio] os ourives do ouro, ficando a designada Rua da Ourivesaria à disposição dos “prateiros”, para nela abrirem as suas oficinas. 
Rua (dos Ourives da Prata) |séc. XIX|
Os «carros americanos» um dos mais famosos meios de transporte lisboetas. Mais confortáveis que os «Choras», serão substituídos gradualmente pelos carros eléctricos que a Carris começa a comprar durante a última década de oitocentos.
Emílio Biel, in Lisboa de Antigamente

Mais tarde, em 1551, de acordo com descrição de Cristóvão Rodrigues de Oliveira, surge esta rua já designada por Rua da Ourivesaria da Prata, ou, também, por Rua dos Ourives da Prata, nome apresentado por João Brandão em 15527, embora a antiga denominação de Rua da Ourivesaria perdurasse até finais do terceiro quartel do século XVI. 
A 20 de Fevereiro de 1588, uma provisão de Filipe I, relativa ao arrua- mento do ofício dos ourives da prata, refere que “os ourives morassem, e estivessem suas tendas no arruamento”, tendo os vereadores elaborado uma postura para que não pudessem os ditos ourives morar, nem possuir as suas oficinas, fora do respectivo arruamento, na Rua da Ourivesaria da Prata.

Rua (dos Ourives da Prata) |1917|
Antiga Bella da Rainha, junto à Igreja de São Nicolau na Rua da Vitória
Venda da Flor, iniciativa da escritora Genoveva da Lima Mayer Ulrich a favor das vítimas da I Grande Guerra.
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente


Na Lisboa erguida após o terramoto de 1755, a Rua dos Ourives da Prata, juntamente com a dos Ourives do Ouro, evidenciava-se pelas preciosidades expostas aos olhares de quem por elas passava e pasmava. Assim descrevia Carl Ruders, aludindo às referidas ruas, nas quais “havia sempre muita gente pasmada”, porque “todas as lojas das casas (...) são ocupadas por estabelecimentos onde se vem expostas as alfaias e jóias mais preciosas”. Obras de ouro e prata “de toda a espécie”, que se revelavam em “armários envidraçados, suspensos dos dois lados das portas”-

Rua (dos Ourives da Prata) |1917|
A Rua da Prata nasceu em 1910 como topónimo da Baixa pombalina, por via da publicação do Edital camarário de 5 de Novembro, o 1º relativo a toponímia após a implantação da República em Portugal, substituindo a Rua Bela da Rainha que havia sido atribuída em 1760, pela Portaria de 5 de Novembro, a 1ª sobre toponímia. 
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente


Bibliografia
MACEDO, Luís Pastor – A Igreja de Santa Maria Madalena de Lisboa. Lisboa: Solução Editora, p. 5.1930,.
RUDERS, Carl Israel – Viagem em Portugal: 1798-1802. Lisboa: B.N.P., p. 35, 1981.
CARLOS, Rita, Da Rua dos Ourives da Prata à Rua Bela da Rainha: as lojas dos ourives da prata em Lisboa na segunda metade do século XVIII, 2015.

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Rua da Conceição

Sobre a Rua da Conceição refere a Portaria pombalina de 5 de Novembro de 1760, diploma do rei D. José com que foi inaugurada em Lisboa a prática de atribuição de nomes de ruas por decreto e, no qual se estabelece a denominação dos arruamentos localizados da Baixa lisboeta reconstruída, entre a Praça do Comércio e o Rossio, ao mesmo tempo que regulariza a distribuição dos ofícios e ramos do comércio pelos diferentes arruamentos, a saber: Rua Nova d'El Rey, Rua Augusta, Rua Áurea, Rua Bella da Rainha, Rua Nova da Rainha, Rua dos Douradores, Rua dos Correeiros, Rua dos Sapateiros, Rua de S. Julião, Rua da Conceição, Rua de S. Nicolau, Rua da Victoria, Rua da Assumpção e Rua de Santa Justa.

Sobre a Rua da Conceição refere a Portaria que «Assim se denominará a segunda das referidas seis traveças, e nella se acommodorão os Mercadores de logens de retroz.»

A escolha do topónimo deriva da proximidade à Igreja da Conceição, aliás como o sublinha Luís Pastor de Macedo quando afirma que «os nomes de S. Julião, da Conceição, de S. Nicolau, da Vitória e de Santa Justa, foram dados às ruas que mais perto passavam das igrejas e ermidas que com aquela invocação, segundo o plano estabelecido, se haviam de erguer ou se estavam já construindo.»
(in cm-lisboa.pt)

Rua da Conceição vulgo dos Retroseiros [1909]
Retrosaria Fernandes & Cardoso onde existe uma lápide e um poço com acesso às galerias romanas.
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Depois do grande terramoto de 1755, quando, em 1770, se abriam caboucos para a construção de um prédio na esquina da Rua da Prata com a Rua dos Retroseiros (ou da Conceição) foram encontradas as ruínas de um complexo de galerias inicialmente identificadas como termas romanas. No local apareceu também uma grande lápide, de mármore dedicada a Esculápio, deus da Medicina que fora mandada gravar por dois augustais, ambos de origem grega e por eles oferecida ao município olisiponense que levou à identificação deste sítio como termas. Calcula-se que a sua construção date do tempo de Tibério (14-37 a.C.). (in arqueologia.patrimoniocultural.pt)

Base de estátua a Esculápio
Proveniência: Rua da Prata, Lisboa
Cronologia: Época romana. Ano (s) 14-37 d.C.
Tipologia: Base de estátua em mármore branco (lápide)
Dimensão: altura 73 cm largura 72 cm espessura 53 cm

Pedestal de estátua (lápide; na face superior está patente um orifício destinado ao respectivo encaixe; bloco alisado nas faces laterais e anterior; a peça encontra-se fracturada na face posterior. A paginação do texto segue sensivelmente o eixo de simetria. Os dedicantes apresentam antropónimos de cariz grecizante e identificam-se como augustais; são, evidentemente, libertos. Esta dedicatória a AESCVLAPIVS não está necessariamente associada ao culto imperial, apesar dos cargos religiosos nesse âmbito desempenhados por Marcus Afranius Euporio e por Lucius Fabius Daphnus. 

« SACRVM / AESCVLAPIO / M(arcus) . AFRANIVS . EVPORIO / ET / L(ucius) . FABIVS DAPHNVS / AVG(ustales) / MVNICIPIO . D(ono) . D(ederunt) //.»

Tradução: "Consagrado a Aesculapio. Marco Afranio Euporio e Lúcio Fábio Daphno, augustais do município, deram e dedicaram".

Planta e cortes verticais das galerias romanas consagradas a Esculápio,
descobertas no subsolo da Rua da Prata

domingo, 22 de março de 2026

Rua das Picoas com a Av. da Praia da Vitória

 A Rua das Picoas, embora só tinha sido oficializada por deliberação camarária de 12 de Julho de 1906, era anterior à urbanização que o local sofreu no final do século XIX, como Estr. das Picoas. Diz-se que entre os proprietários da quinta se contaram duas senhoras de apelido Picão, a quem o povo chamou «as Picôas», e assim foi baptizado o sítio.

Picôas (estrada das) fica á direita no largo da Cruz do Taboado, indo para a porta do novo Matadouro e finda na barreira, que precede a rua das Cangalhas, freguezia de S. Sebastião da Pedreira 2 a 20 e 1 a 15. [Velloso: 1869]

Rua das Picoas com a Av. da Praia da Vitória |1943-01|
Este antigo troço da Rua das Picoas (velhinha Estr. das Picoas) que desapareceu depois da construção do Cine-Teatro Monumental (e prolongamento da Av. Praia da Vitória) e após demolição do Palácio Camarido que se vê à direita.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente
Avenida Praia da Vitória no cruzamento com a Rua das Picoas |1943-01|
Ao fundo, em fase de demolição, observa-se o Palácio Camarido e a Avenida 5 de Outubro.
Roiz, in Lisboa de Antigamente
Nota(s): imagem corrigida, invertida no abandalhado amL.

O nome desta avenida surgiu em 1906 como Avenida «da» Praia da Vitória mas, em 1951, a partícula «da» foi retirada, após parecer da Comissão Municipal de Toponímia de 13 de Abril aprovado pelo Vice-Presidente da Câmara no dia 16. Inicialmente, estendia-se da Rua de Dona Estefânia à Praça Duque de Saldanha, sendo que, a partir de 1945, passou a prolongar-se até à Avenida 5 de Outubro.

Rua das Picoas vista tomada da com a Av. Fontes Pereira de Melo |1938|
Este antigo troço da Rua das Picoas (velhinha Estr. das Picôas) desapareceu depois da construção do Cine-Teatro Monumental (vd. fotografia aérea abaixo); à dir. nota-se o muro do extinto Palácio Camarido.
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente
Nota(s): imagem corrigida, invertida no abandalhado amL.
Fotografia aérea da zona da Praça Duque de Saldanha e Picoas |1934|
Pinheiro Corrêa, in Lisboa de Antigamente
Legenda (clicar para ampliar):
Edifícios/Monumentos:
1—Palácio Camarido (demolido c. 1945)  2—Praça Duque de Saldanha  3—Mercado 31 de Janeiro que foi Matadouro Municipal   4—Maternidade Doutor Alfredo da Costa  6—Hotel Aviz (Palacete Silva Graça, demolido em 1962)
Arruamentos:
Vermelho —Antiga Estr. das Picoas (o troço tracejado foi extinto);  Verde — Rua Engenheiro Vieira da Silva;  Azul — Avenida Fontes Pereira de Melo;  Laranja — Avenida 5 de Outubro;  Roxo —Av. Duque de Ávila

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Igreja de São Nicolau

O templo primitivo data do séc. XIII. Totalmente destruído pelo Terramoto de 1755 foi reedificado em 1780 com traço do arq.º Reinaldo Manuel dos Santos, prolongando-se as obras até 1850. A igreja, revestida exteriormente a cantaria, encontra-se orientada a Norte e a sua fachada principal, cortada verticalmente por 6 pilastras, possui os corpos externos laterais arredondados. 

 Igreja de São Nicolau |1959|
Rua da Vitória; Rua da Prata

Armando Serôdio, in Lisboa de Antigamente

No interior destacam-se: as pinturas do tecto da nave atribuídas a Pedro Alexandrino de Carvalho, representando cenas da vida de S. Nicolau e uma alegoria à Fé, Esperança e Caridade e a antiga Capela do Santíssimo, revestida de mármores, com tecto de cúpula e lanternim. Possui um núcleo museológico de arte sacra, que foi aberto em 1914.

 Igreja de São Nicolau |1955|
Rua da Vitória; Rua da Prata

Fotografia anónima, in Lisboa de Antigamente

O arco da capela-mor, em cujo centro se vêm as armas reais, e, acima, em pedra emoldurada de lavores, um nicho, sem imagem ou escultura;
A Capela-mor, que é a dependência mais antiga da reedificação, revestida de mármores, e nela:
O tecto, de abobadilha, representando, a fresco, a «Glória de S. Nicolau», pintura de António Manuel da Fonseca;
O altar-mor, guarnecido de colunas de mármore, coroado de urna composição escultórica na qual se vêem os emblemas de. S. Nicolau; a imagem do Santo bispo pa droeiro; quatro tribunas, duas por cada lado.
 Igreja de São Nicolau [c. 1910]
Rua da Vitória; Rua da Prata

Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

O recheio da Igreja apresenta elementos provenientes de outros conventos da cidade, nomeadamente do Convento de São Francisco da Cidade, relicários e talha dourada do Convento da Esperança, paramentos do Convento dos Lóios e do Mosteiro de Alcobaça.
Esta igreja integra a Lisboa Pombalina, que está classificada como Conjunto de Interesse Público.
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Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Inventário de Lisboa: Monumentos históricos, 1944.

quarta-feira, 5 de setembro de 2018

Grande Hotel das Duas Nações

Aí temos à esquina da Rua da Vitória o Hotel das Duas Nações — diz Norberto de Araújo — , um dos raros hotéis desta nossa área  — e tantos houve!
Êste Hotel das Duas Nações, com entrada pela Rua da Vitória, 41, leva aproximadamente sessenta e cinco anos, pois já existia em 1875; foi fundado neste prédio por Manuel (?) Certã. alentejano, casado com uma senhora espanhola, e daí a designação de «Duas Nações.

Grande Hotel «Duas Nações» [1912]
Rua da Vitória, 41 - 1º

Rua Augusta; Casa Comercial Ribeiro e Silva
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

À saída da Estação do Rossio — conta-nos Calderon Dinís — , por volta de 1900, os corretores dos hotéis eram uns sujeitos fardados exibindo nos quépis os títulos dos vários hotéis a que pertenciam.
À medida que os passageiros iam saindo das carruagens eram assaltados por esses homens a apregoar os nomes dos hotéis ou pensões, numa vozearia que se estendia a toda a gare. — Hotel Aliança! Hotel Borges! Suiço Hotel! Francfort Hotel! Hotel das duas Nações! Hotel Central! Pensão do Rossio! etc. Para quem vinha de longe e ignorasse Lisboa, eles, de imediato, tiravam as pessoas de dificuldades, oferecendo os seus préstimos e conduzindo as malas portáteis dos recém-chegados.
Tal serviço acabou com o desenvolvimento do turismo, pois, raro será o viajante que, não conhecendo o ambiente do destino, não contrate com uma agência de viagens que, sem mais preocupações para ele, se encarrega de todos os pormenores, desde o bilhete da passagem à instalação tranquila no local do destino.

Grande Hotel «Duas Nações» [1911]
Rua da Vitória, 41 - 1º, esquina com a Rua Augusta
Trabalhos de montagem do abrigo em ferro e vidro na fachada da

Casa Comercial Ribeiro e Silva virada à  Rua Augusta 
Alberto Carlos Lima,
in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, «Peregrinações em Lisboa», vol. XII, p. 52, 1939.
DINIS, Calderon , Tipos e Factos da Lisboa do meu tempo (1900-1974), p. 42, 1986.

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Palácio Burnay

O antigo Palácio Burnay, na Junqueira. conhecido antes por «Palácio dos Patriarcas», teve o seu fundamento nas casas nobres que D. José César de Meneses, principal da Sé de Lisboa, ali fez erguer, depois de 1701, em terrenos aforados por D. João de Saldanha e Albuquerque. Em 1724 o palácio estava já representado numa «vista» da Junqueira, com certa grandeza, e em 1734 o seu proprietário era ainda o seu fundador, que engrinaldara o seu solar arrabaldino de jardins magníficos. Já depois do Terramoto o palácio de D. José César, irmão do 1.° Conde de Sabugosa, foi adquirido pela Mitra Patriarcal para residência de verão dos prelados, e nesse senhorio se conservou muito tempo, havendo no palácio habitado D . Francisco Saldanha, que morreu em 1776. [...]

No último quartel do século XIX o «Palácio dos Patriarcas» veio às mãos do banqueiro Henrique Burnay; atingiu então aquele palácio setecentista, já desfigurado, o auge da sumptuária interior, sendo enriquecidas as salas com valioso recheio de mobiliário, amalgamando-se nos restauros e transformações o que nele existisse ainda da primitiva traça, ficando a predominar no que fora o solar de D. José César o gosto bricabraque, ainda que opulento e de merecimento artístico.

Palácio Burnay, fachada Sul [c. 1870]
Rua da Junqueira, 78-92
O conde Burnay mandou-o decorar com sumptuosidade por alguns dos melhores artistas da época, como Ordoñes, Rodrigues Pita e Malhoa.
António Novaes, 
in Lisboa de Antigamente
Palácio Burnay, fachada Norte [c. 1870]
Rua da Junqueira, 78-92
Era tão luxuosamente mobilado e com tal riqueza em obras de arte que, quando da venda do seu recheio em 1936, só o Governo adquiriu peças no valor global de dois mil contos.
António Novaes, 
in Lisboa de Antigamente

Em meados do século XVIII, o caminho que ligava a Calçada de Santo Amaro e a Calçada da Ajuda, paralelo ao rio, recebe o nome de Junqueira. Recuperava-se assim uma denominação que remonta ao reinado de D. Dinis, quando esta zona dos juncais é legada a D. Urraca Pais, abadessa do mosteiro de Odivelas.
Consta que, a partir de 1701, um descendente da família dos Saldanha, presidente do Senado da Câmara de Lisboa decide aflorar os terrenos, iniciando-se assim um processo de urbanização que, pela localização privilegiada seduz algumas famílias fidalgas que iniciam, na Rua da Junqueira, a construção dos seus palácios de veraneio. Após o terramoto de 1755, a rua afasta-se das águas plácidas da foz do Tejo devido aos aterros que vão permitindo a construção a sul.

Chegada da palmeira ao Palácio do Conde Burnay [c. 1890]
Rua da Junqueira, 78-92
Francesco Rocchini, 
in Lisboa de Antigamente
Palácio Burnay, escadaria nobre [1933]
Rua da Junqueira, 78-92
Nos preparativos para o leilão do Palácio da Junqueira foi encomendado em Março de 1933 um conjunto de fotografias do palácio para figurarem no catálogo a ser impresso e que constituem a base do Álbum de fotografias do palácio.
João Coutinho, in Álbum Palácio do Conde de Burnay

«Grandes factos históricos, de exteriorização militar, se desenrolaram na Junqueira no século XVIII; festas, cavalhadas. justas, e até uma célebre tourada que durou três dias (29 a 31 de Março de 1738), quando fez vinte anos Mariana Vitória, já esposa do príncipe herdeiro, futuro Rei D. José. Reinava D. João V; a tourada foi organizada pelo Duque do Cadaval, D. Jaime de Melo, havendo-se construído, de propósito, uma deslumbrante praça, já de arena circular.» 


Palácio Burnay, Garden-party [1907]
Rua da Junqueira, 78-92
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Por morte da última condessa de Bumay, D. Amélia Krus, que sobrevivera a seu marido, e para efeitos de partilhas, o recheio do palácio foi vendido (1936), ficando desde então destroçados os interiores, que, a despeito de não possuírem carácter próprio, unidade e ligação o com a história da casa, eram admiráveis. Em 1940 o imóvel foi adquirido pelo Ministério das Colónias, para instalação de serviços daquele departamento do Estado; desde então até fim de 1948 beneficiou lte restauros, transformações e obras de adaptação. custeadas pelo Ministério das Colónias, e orientadas pela Direcção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais.

Palácio Burnay, Garden-party [1907]
Rua da Junqueira, 78-92
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

No exterior destacam-se as estufas, ao gosto fim de século que, simetricamente, integram o corpo do edifício e, no interior, o zimbório que envolve a escadaria, decorada em tromp l'oeil. A classificação como Imóvel de Interesse Público inclui o Palácio, anexos e jardim. Encontra-se ocupado pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas.

Palácio Burnay, Garden-party [1907]
Rua da Junqueira, 78-92
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Inventário de Lisboa: Outros  palácios  do  património  nacional, 1946.
idem, Peregrinações em Lisboa, vol. IX, p. 50, 1939.

domingo, 16 de fevereiro de 2020

Rua da Conceição vulgo dos Retroseiros

Sobre a Rua da Conceição refere a Portaria pombalina de 5 de Novembro de 1760 que «Assim se denominará a segunda das referidas seis traveças, e nella se acommodorão os Mercadores de logens de retroz.». A escolha do topónimo deriva da proximidade à [Igreja da Conceição (Nova), já demolida].

Encontrou-se uma inscrição, que ainda em 1883 existia, e eu vi — diz mestre Castilho — , numa parede do armazém de retroseiro de Manuel Pereira Bastos [em 1909, Fernandes & Cardoso], na rua dos Retroseiros (ou da Conceição), com porta para a escada n.° 83 [11ª porta à esq.]; (...) Diz assim : SSACRVM / AESCVLAPIO / M[arcus] . AFRANIVS . EVPORIO / ET / L[ucius] . FABIVS DAPHNVS / AVG[ustales] / MVNICIPIO . D(ono) . D(ederunt) »
(CASTILHO, Júlio de, Lisboa antiga:Segunda parte: Bairros orientais, Vol. 1, 1884, pp.154-155)

Rua da Conceição vulgo dos Retroseiros |1915|
Esquina com a Rua da Prata, antiga Bella da Rainha [vd. N.B.]
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Esta dedicatória na lápide de mármore dedicada AESCVLAPIVS (deus da Medicina) não está necessariamente associada ao culto imperial, apesar dos cargos religiosos nesse âmbito desempenhados por Marcus Afranius Euporio e por Lucius Fabius Daphnus.
Tradução: «Consagrado a Aesculapio. Marco Afranio Euporio e Lúcio Fábio Daphno, augustais do município, deram e dedicaram»

N.B. A «Rua da Prata» foi chamada durante os anos de 1760 a 5 de Novembro de 1910 de «Rua Bella da Rainha» em memória da Rainha «D. Mariana Vitória (1718-1781)», mulher do Rei D. José I, e filha de Filipe V de Espanha. A «Rua da Prata» adquiriu este nome porque no período que antecedeu o terramoto de 1755 existiu próximo a «Rua Dos Ourives Da Prata», ou ainda dos «Prateiros» rua muito característica e concorrida na época.
Em Reunião na Câmara Municipal de Lisboa, em 6 de Outubro de 1910, presidida por Anselmo Braamcamp Freire, [...] a Rua Bela da Rainha passa a denominar-se Rua da Prata;[...]

domingo, 27 de março de 2022

O Sitio das Picôas

O sítio das Picôas que já surge referido nas «Memórias Paroquiais de Lisboa» de 1758, derivou do nome de uma quinta do morgado das Picoas — D. Nuno Freire de Andrade e Castro de Sousa Falcão —  do qual dependia uma Ermida (já demolida) na Rua das Picoas próximo da actual Av. Praia da Vitória.
A Rua das Picoas, embora só tinha sido oficializada por deliberação camarária de 12 de Julho de 1906, era anterior à urbanização que o local sofreu no final do século XIX, como Estr. das Picoas. Diz-se que entre os proprietários da quinta se contaram duas senhoras de apelido Picão, a quem o povo chamou «as Picôas», e assim foi baptizado o sítio. 
Sabe-se também que em meados do século XVIII existiam casas nobres na quinta, então propriedade do negociante lisboeta António das Neves Colaço, e uma ermida com a invocação de Nossa Senhora do Carmo.

Rua das Picoas, troço da velhinha Estr. da Picôas, actual Rua Eng.º Vieira da Silva [ant. 1910]
Na elevação, ao fundo da Rua das Picoas – no cruzamento com a Av. Fontes Pereira de Melo – vê-se o antigo Palácio Camarido, no leito (hoje) da Av. da Praia da Vitória, do lado do Cine-Teatro Monumental; em primeiro plano e no quarteirão entre as Ruas Fernão Lopes e Actor Taborda, a varina e o homem de calções parecem vir do Mercado 31 de Janeiro (antigo Matadouro Municipal) a caminho da actual Rua Actor Taborda, dístico de 1906.
Alberto Carlos Lima, in Lisboa de Antigamente

Em 1956, este troço da Rua das Picoas – entre a Praça José Fontana e a Avenida Fontes Pereira de Melo – passou a designar-se com Rua Engenheiro Vieira da Silva (1869-1951), reputado olisipógrafo que integrou a 1ª Comissão Municipal de Toponímia que falecera 5 anos antes, por Edital de 22 de Junho.

Rua Eng.º Vieira da Silva [1960]
Perspectiva tirada da 
Praça José Fontana observando-se à esq. o Mercado 31 de Janeiro e, à dir., a Av. Almirante Barroso: ao fundo vê-se a fachada do Cine-Teatro Monumental sobre a Avenida Fontes Pereira de Melo.
Filipe Romeiras, in Lisboa de Antigamente

quinta-feira, 16 de julho de 2015

Porfírios

Em Dezembro de 1965 é inaugurada em Lisboa a loja Porfírios especializada em vestuário jovem, com roupa confeccionada em Portugal mas copiada da Carnaby Street de Londres e de outras referências da moda da década de 60 e 80.
A loja localizada na Rua da Vitória, 55-63, tinha duas entradas, salas escuras, corredores estreitos, escadas em caracol, luzes psicadélicas, música a tocar bem alto e a fazer lembrar um ambiente de discoteca. Pioneiros no mercado de pronto-a-vestir, a Porfírios propõe aos jovens portugueses roupa absolutamente diferente e irreverente, quiçá extravagante: os famosos jeans à 'boca-de-sino', as camisas coloridas e às flores, os blusões estampados, as camisolas de barriga à mostra, as incontornáveis mini-saias, os collants coloridos e uma variedade extraordinária de acessórios e adereços: anéis, pulseiras e colares ou lenços, cintos e carteiras.

Porfírios |post. 1965|
Rua da Vitória, 55-63
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

A Porfírios é uma referência para toda uma geração e um marco relevante na criação da moda jovem, até então inexistente, como refere o estilista Manuel Alves: «a única ligação com o mundo, num Portugal pautado por uma mentalidade um bocado tacanha e provinciana, a loja remava contra a maré e o obscurantismo do país». 
Encerra portas em Abril de 2001.

Porfírios com a Rua dos Sapateiros |post. 1965|
Rua da Vitória, 55-63
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente






sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Santa Justa

Rua de Santa Justa. Assim se denominará a sexta, e ultima das referidas travessas, e nella se alojaráõ os mercadores de lã, e seda, que naõ tiveram bastante accomodaçaõ na Rua Augusta.1


A remodelação paroquial de 1770 menciona esta artéria ora como Travessa ora como Rua, já que a descrição da Freguesia de Nª Srª da Conceição e a de Santa Justa a referem como «nova traveça de S. Justa» e nas plantas dessas mesmas freguesias surge como «Rua de S. Justa». E finalmente, o Edital municipal de 12 Novembro de 1892 retomou as nomenclaturas pombalinas e passou as Travessas de Santa Justa, da Assunção, de São Nicolau e da Vitória a Ruas.
Luís Pastor de Macedo sublinha ainda que «os nomes de S. Julião, da Conceição, de S. Nicolau, da Vitória e de Santa Justa, foram dados às ruas que mais perto passavam das igrejas e ermidas que com aquela invocação, segundo o plano estabelecido, se haviam de erguer ou se estavam já construindo.» 3

Rua de Santa Justa [c. 1906]
Ao fundo, O elevador de Santa Justa — ou do Carmo — inaugurado em 10 de Julho de 1902.

Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

De acordo com Norberto Araújo existiu aqui, à entrada das Escadinhas de Santa Justa na esquina da Rua dos Fanqueiros (vd. 2.ª imagem), a «paroquial de Santa Justa, uma das primeiras de Lisboa, fundada — crê-se — em 1166». Por sua vez, o Pe. João Baptista de Castro escreve, em 1870, que «Uma das tres freg«ezias primitivas, que formou, e instituiu n'esla cidade o bispo D. Gilberto, logo que o inclyto D. Afonso Henriques a conquistou aos mouros, foi a de Santa Justa: e segundo consta das nossas Historias correndo o anno de 1173, a primeira igreja, para onde foi conduzido o sagrado corpo do invicto martyr S. Vicente, assim que chegou do Promontório sacro do Algarve a este porto, foi para esta de Santa Justa, para cuja lembrança permanecia na porta principal da igreja um nicho de pedra da parte do Evangelho com a imagem do santo.» 2

Rua de Santa Justa [c. 1930]
Ao fundo, na Rua dos Fanqueiros — antiga Nova da Princesa — o prédio da «Companhia do Papel do Prado», mais tarde edifício da «Pollux», casa fundada em 1936
.
Paulo Guedes, in Lisboa de Antigamente

A igreja sofreu um incêndio aquando do Terramoto. Pensou-se em construir outra, precisamente onde se ergueu depois o prédio da «Companhia do Papel do Prado», mais tarde edifício da «Pollux» (casa fundada em 1936),  mas com a transição da paroquial para igreja de S. Domingos a ideia gorou-se. Ainda segundo Norberto de Araújo, o edifício «converteu-se em teatro, o «Teatro de D. Fernando», que existiu até 1860. Só depois se realizou a urbanização do local (1863-1864).» 4
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Bibliografia:
1 CASTRO, João Baptista, Mappa de Portugal antigo e moderno, 1870, Vol. 3, Parte V, p. 57.
2 idem, p. 182.
3 cm-lisboa.pt.
4 ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XII, pp. 40-41, 1939.

sexta-feira, 15 de setembro de 2023

Rua de São Nicolau: «O Gato Preto» (actualizado)

A origem do topónimo radica da proximidade à antiga Igreja de S. Nicolau que foi reedificada pela primeira vez em 1280 e após o Terramoto, quase foi construída toda de novo, com obras que decorreram de 1780 a 1850.

A loja «O Gato Preto», no princípio deste século ultra-civilizado {1893] abria as suas portas na Rua dos Sapateiros [antiga do Arco do Bandeira] perto da Rua da Vitória e era nela que se vendia a louça [e as cavacas[ que o Rafael Bordalo mandava das Caldas. Em 1909 encontrava-se estava instalada na Rua de São Nicolau, 107-111, hoje 116-119. [Sequeira: 1940]
Narra o Diário Ilustrado que numa fita sobre o parlamento americano, um deputado diz ao presidente: “As verdadeiras cavacas das Caldas só no Gato Preto perto da Rua da Vitória.

Rua de São Nicolau: «O Gato Preto» |c. 1910|
Vulgo do Arco do Bandeira  que também se chamava do Pote das Almas, por ter uma pia de pedra com agua para os transeuntes beberem, com um mealheiro das almas por cima. [vd N.B.]
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

N.B. Chamava-se Pote das Almas, a uma pia de pedra com tampa de madeira, púcaro de folha e mealheiro para as esmolas, que a Irmandade das Almas da Conceição Nova colocara no cunhal do prédio n.ꟹ 121 a 127 da Rua de S. Nicolau, esquinando para a Rua Nova do Almada. No cunhal do prédio contíguo o que torneja para a Rua do Crucifixo, existia um painel das almas, iluminado por uma lanterna, suspensa por uma corrente de ferro. [CARVALHO, Pinto de, (Tinop), Lisboa d'outrora, p. 201, 1938]

Publicidade na revista "O Branco e Negro", de 26 Março 1899 e Diário Ilustrado de 1909
Raphael Bordallo Pinheiro (1846-1905 (tinha uma adoração especial por gatos. O próprio, em história aos quadradinhos no jornal “António Maria” confessa ter sido “gato noutra encarnação”. Da homenagem à sua gata Pili ao assanhado gato preto, são muitas as figuras que o representam.
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