sexta-feira, 5 de abril de 2019

Palácio dos Viscondes dos Olivais

Encontramos a rua larga e arejada chamada do Pau da Bandeira — escreve Norberto de Araújo — , dístico antigo pitoresco, e cuja origem me escapa.
Êsse grande palácio, dominando a área, n.º  11, confinado entre quatro ruas, foi antiga propriedade dos  Viscondes dos Olivais, e é, desde 1927, a Legação da Alemanha.

Antigo Palácio dos Viscondes dos Olivais [1927]
Rua do Pau de Bandeira, 11
Actual Embaixada da República Popular da China 
Fotógrafo não identificado,
in Lisboa de Antigamente

Esta Rua do Pau de Bandeira, das freguesias da Lapa e dos Prazeres, foi um topónimo fixado em Lisboa em data desconhecida mas certamente posterior aos séculos XVI e XVII, já que foi no decurso destes que nesta zona começaram a surgir os primeiros conventos e entre os quais se rasgaram os primeiros arruamentos a partir da 2ª metade do século XVIII, como a Rua do Meio, a Rua de S. Félix, a Rua dos Remédios ou a Rua de S. João da Mata, povoamento que se foi intensificando depois do terramoto de 1755.

Antigo Palácio dos Viscondes dos Olivais [1937]
Rua do Pau de Bandeira, 11
Actual Embaixada da República Popular da China 
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. VII, pp. 51-52, 1938.
cm-lisboa.pt.

quarta-feira, 3 de abril de 2019

Largo do Chafariz de Dentro

Ao Penabuquel — diz mestre Castilho — segue-se o largo do chafariz de Dentro. «Chafariz de Dentro» porquê? é fácil a explicação. A face d'aquelle largo, ao longo da actual rua, seguia a muralha, que, mais ou menos, lá deve vir escondida dentro do grosso d'aquellas casas todas, ao nascente e ao poente do largo. O chafariz ficava da banda interior do muro, e não da exterior como o d'el-Rei, que logo estudaremos. Diz, pois, muito bem o autor do Aquilegio medicinal, notando que o chafariz de Dentro assim se chama, apor ficar dentro das portas da antiga muralha de Lisboa oriental, mais ficam da banda de fóra, e tão visinhos uns dos outros, que em pouco differem ás suas aguas.

Largo do Chafariz de Dentro, S↔N [1961]
Rua Terreiro do Trigo; Igreja de Santo Estêvão
Armando Serôdio, 
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

De acordo com Norberto de Araújo estamos perante «o mais pitoresco apontamento de Lisboa em dez léguas da grande póvoa. Tudo quanto é generoso de expressão popular assentou aqui arraial. Alfama tem o seu Rossio — S. Miguel; a sua Sé — Santo Estêvão; o seu Terreiro do Paço — o Largo do Chafariz de Dentro».

Largo do Chafariz de Dentro, N↔S [1961]
Rua Terreiro do Trigo; Chafariz de Dentro
Armando Serôdio, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
CASTILHO, Júlio de, A Ribeira de Lisboa, vol. p. 145, 1893.
ARAÚJO, Norberto de, «Legendas de Lisboa», p. 194, 1943.

domingo, 31 de março de 2019

Praça Afonso de Albuquerque

Praça com forma quadrangular, rematada a sul pelo Tejo e pelo antigo cais e a norte pelo Palácio de Belém. É um espaço com zonas ajardinadas, ladeadas por sebes, tendo algumas árvores como o lódão e o pinheiro-manso. Esta praça — até 1910 denominada «Dom Fernando» — era o antigo areal onde ancorava o Real Cais de Belém, assentando a estátua no local onde se situava o cais de D. João V.


Mas antes de tocarmos o primeiro edifício a visitar  — recorda o ilustre Norberto de Araújo —  rendamos aqui na sua Praça de Afonso de Albuquerque uma homenagem ao arrabaldino bairro, que foi praia do Restelo, e na qual o aziago velho, cuja legenda fatalista ao Destino coube contrariar, murmurava numa manhã de Julho de 1497, de parceria com os sinos da Ermida, quando as naus se foram à cata da índia:

Tão balalão...
Quantos lá vão
que não voltarão!

Praça Afonso de Albuquerque |1902|
Por Edital de 5 de Novembro de 1910 a Praça D. Fernando passou a denominar-se Praça Afonso de Albuquerque, com início na confluência da Rua da Junqueira, Calçada da Ajuda, Rua de Belém e Avenida da Índia.
Garcia Nunes, in Lisboa de Antigamente

Vamos ver, de-perto, essa estátua-monumento a Afonso de Albuquerque; é das mais expressivas de Lisboa nas suas legendas a relevo, já que não podemos dizer das mais belas.

Deve-se a Simão José da Luz Soriano, escritor e benemérito, a iniciativa de se erigir um monumento a Afonso de Albuquerque-a iniciativa e os fundos para a realização (35 contos legados em testamento). O escultor Costa Mota e o arquitecto Silva Pinto, após concurso público, foram encarregados de pôr de pé o seu projecto; foi o monumento inaugurado em 3 de Outubro de 1902, na presença da família real, enquanto uma divisão naval, composta dos cruzadores «D. Carlos›, «D. Amélia» e «S. Rafael», e da canhoneira «Sado› e da velha corveta «Duque da Terceira», salvaram cem 21 tiros. A estátua foi fundida na velha «Fundição de Canhões» onde se conserva o modelo.O mais valioso deste monumento é constituído pelos baixos relevos com passos da vida do vice-rei da Índia: a entrega das chaves de Goa, a derrota dos mouros na ponte da Malaca, Afonso de Albuquerque recebendo o embaixador do rei de Narcinga, e a resposta de Albuquerque ante a proposta daquele embaixador: «é esta a moeda com que o rei de Portugal paga os seus tributos».

Inauguração do monumento a Afonso de Albuquerque |1902-10-03|
Praça Afonso de Albuquerque antiga de D. Fernando
O monumento inaugurado na presença da família real.
Garcia Nunes, in Lisboa de Antigamente

No segundo corpo do monumento são também de interesse escultórico os altos relevos figurando caravelas e galeões; os quatro anjos assentes no ângulo da base do monumento são decorativos. Como vês, o conjunto manuelino do monumento não é desagradável. A figura do herói, contudo, tão alta está que se não vê.

Praça de D. Fernando |post. 1902|
Por Edital de 5 de Novembro de 1910 a Praça D. Fernando passou a denominar-se Praça Afonso de Albuquerque.
Postal - Ediçao F A. Martins

Bibliografia
Belém de Isabel Corrêa da Silva e Miguel Metelo de Seixas, ed. Junta de Freguesia de Sta. Maria de Belém, 2000.
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. IX, pp. 68-69. 1939.

sexta-feira, 29 de março de 2019

Rua do Norte

A Rua do Norte, foi fixada na memória de Lisboa em data que se desconhece, embora se possa presumir que seja do século XVI, altura em que foram arruadas as terras do sítio para constituir o Bairro Alto de São Roque. Aliás, Cristóvão Rodrigues de Oliveira no seu «Sumário: Lisboa em 1551», já refere a Rua do Norte na então freguesia do Loreto na sua «relação alfabética dos nomes das ruas, travessas, becos e outros postos».

Rua do Norte [1960]
Junto à Tv. do Poço da Cidade; ao fundo a Travessa da Queimada
Arnaldo Madureira, in Lisboa de Antigamente

topónimo propriamente dito é uma orientação geográfica o que não será de estranhar num bairro que na época era muito habitado por marinheiros, como aliás está presente também no topónimo da rua paralela a esta: Rua das Gáveas.

Rua do Norte, 91 [1960]
Adega do Machado 
Arnaldo Madureira, in Lisboa de Antigamente

A Adega do Machado, uma das catedrais do Fado, fundada em 1937, com localização na zona mais alfacinha de Lisboa, o Bairro Alto. A fachada iconográfica é da autoria do artista plástico Thomaz de Mello.

Rua do Norte, 100 [1960]
Restaurante Típico Casa de Fado A Tipóia
Arnaldo Madureira, in Lisboa de Antigamente

N.B. O Norte, direcção fundamentada no sentido de rotação do planeta e o ponto zero dos quatro pontos cardeais serviu de georreferenciação de algumas de artérias de Lisboa e ainda hoje encontramos mais sete para além desta: a Rua do Norte e o Beco do Norte na freguesia de Carnide, a Travessa do Norte à Lapa na freguesia da Estrela, a Praça do Norte e a Circular Norte do Bairro da Encarnação, e no Parque das Nações, a Rua do Mar do Norte e a Rua do Pólo Norte. [cm-lisboa.pt]

quarta-feira, 27 de março de 2019

Miradouro de São Pedro de Alcântara

Varanda dos amores românticos, do tempo em que era alameda — S. Pedro de Alcântara é um dos mais ternos miradouros naturais da cidade. Bem avisada andou a vereação que há pouco mais de um século fez deste cômoro, que fora de olivais, rústico e arrabaldino, — uma esplanada de crianças, um eirado, um jardim, uma alameda.

Sobre as Taipas e o Passeio Público, depois sobre a Avenida — S. Pedro de Alcântara é também um «passeio», suspenso, balouçante entre S. Roque, já sem padres, o Convento do Marialva, já sem arrábidos, e a Patriarcal, que nunca o chegou a ser.

Varanda do Bairro Alto, este Jardim — olha a direito. Que panorama!


Lisboa vista do Jardim de São Pedro de Alcântara [post. 1932]
S. Pedro de Alcântara teve o seu período de moda. Era o «Passeio», a «Alameda», o «Jardim» de S. Pedro de Alcântara, com a sua ingenuidade alfacinha, e o seu traço espiritual de romantismo. Não dava espectáculo, como o Passeio Público, mas era aprazível na sua posição de miradouro.
Estúdio Horácio Novais, in Lisboa de Antigamente

Para nascente e sul, o Castelo, recortado sobre a peanha pintalgada da cidade velha; as torres alvíssimas de S. Vicente espreitando da linha do horizonte, acima do casario; a Graça, generosa, entregando-se toda; S. Gens, minúsculo, pousado no outeiro que cai sobra as Olarias; a , flanqueada de torres, morena, muito severa... Para norte, os altos de Campolide, os retalhos verdes do Parque, ainda rústico aqui e ali, a confusão indistinta das avenidas modernas, e logo a cumeeira de Santana. É uma ondulação cenográfica de encantamento, sobretudo a certas horas de luz dourada, quando o sol se rende, e se despede nas vidraças de mil casas e tugúrios, embrechados nas colinas sagradas de Lisboa do oriente. [...]¹

Miradouro Jardim de São Pedro de Alcântara [entre 1926 e 1932]
Tanque do jardim  de São Pedro de Alcântara, no plano superior da Alameda (que data de 1840), peça elegante que fez parte do Paço da Bemposta ou Paço da Rainha.
António Passaporte, in Lisboa de Antigamente

Tinham entrado em São Pedro de Alcântara — escreve o imortal Eça no seu Primo Basílio; um ar doce circulava entre as árvores mais verdes; o chão compacto, sem pó, tinha ainda uma ligeira humidade; e, apesar do sol vivo, o céu azul parecia leve e muito remoto.[...]
Convidou-a mesmo a dar uma volta em baixo no jardim. [...]
Foram encostar-se às grades. Através dos varões viam, descendo num declive, telhados escuros, intervalos de pátios, cantos de muro com uma ou outra magra verdura de quintal ressequido; depois, no fundo do vale, o Passeio [Público], estendia a sua massa de folhagem prolongada e oblonga, onde a espaços branquejavam pedaços da rua areada.

Miradouro de São Pedro de Alcântara [c. 1920]
No tabuleiro inferior — verdadeiro jardim de crianças, contemplativo e sereno — foram colocados os bustos de mármore que ainda lá se vêem, e que representam homens notáveis de Portugal — o Infante
D. Henrique D. João de Castro, Afonso de Albuquerque, Vasco da Gama, Pedro Alvares Cabral — de mistura com figuras de mitologia e da lenda: Ulisses, Minerva, Vénus [entre outros]
.

Mário Novais,in Lisboa de Antigamente

 

Do lado de lá erguiam-se logo as fachadas inexpressivas da Rua Oriental [do Passeio Público], recebendo uma luz forte que fazia faiscar as vidraças; por trás iam-se elevando no mesmo plano terrenos de um verde crestado fechados por fortes muros sombrios; a cantaria da Encarnação de um amarelo triste; outras construções separadas, até ao alto da Graça coberta de edifícios eclesiásticos, com renques de janelinhas conventuais e torres de igrejas, muito brancas sobre o azul; e a Penha de França, mais para além, punha em relevo o vivo do muro caiado, de onde sobressaia uma tira verde-negra de arvoredo. À direita, sobre o monte pelado, o castelo assentava, atarracado, ignobilmente sujo; e a linha muito quebrada de telhados, de esquinas de casas da Mouraria e de Alfama descia com ângulos bruscos até às duas pesadas torres da , de um aspecto abacial e secular. Depois viam um pedaço do rio, batido da luz; duas velas brancas passavam devagar; e na outra banda, à base de uma colina baixa que o ar distante azulava, estendia-se a correnteza de casarias de uma povoaçãozinha de um branco de cré luzidio

Miradouro Jardim de São Pedro de Alcântara [ant. 1938]
O tabuleiro inferior era um «Queluz» em miniatura, delícia das nossas avós pequeninas; lá existiram um labirinto de buxo, os bancos voltados à cidade, os balouços e brinquedos infantis, os velhos do Asilo da Mendicidade e alugando cadeiras ao domingo, e, cá em cima, uma Banda regimental.
Mário Novais, in Lisboa de Antigamente

Da cidade um rumor grosso e lento subia, onde se misturavam o rolar dos trens, o pesado rodar dos carros de bois, a vibração metálica das carretas que levam ferraria, e algum grito agudo de pregão.
— Grande panorama! — disse o Conselheiro com ênfase. — E encetou logo o elogio da cidade. Era uma das mais belas da Europa, decerto, e como entrada, só Constantinopla! Os estrangeiros invejavam-na imenso. Fora outrora um grande empório, e era uma pena que a canalização fosse tão má, e a edilidade tão negligente!
— Isto devia estar na mão dos ingleses, minha rica senhora! — exclamou.
Mas arrependeu-se logo daquela frase impatriótica. Jurou que era uma maneira de dizer. Queria a independência do seu país; morreria por ela, se fosse necessário; nem ingleses nem castelhanos!... Só nós, minha senhora! — E acrescentou com uma voz respeitosa: — E Deus! 
— Que bonito está o rio! — disse Luísa.
Acácio afirmou-se, e murmurou em tom cavo:
— O Tejo!

Miradouro de São Pedro de Alcântara [1967]
Ao fundo, antes das escadas de pedra que dão acesso à Alameda, vê-se o  groto embutido no muro de suporte e o respectivo tanque, também visível na 2ª foto.
Em meados do século XIX, segundo Norberto de Araújo, todo este sítio era «um monturo de pedregulhos e de imundícies, vala de despejo de animais mortos, a contrastar com a bonita e verdejante encosta que caía mais para o lado de S. Roque, sobre o fundo de Valverde, depois Passeio Público, justamente a Quinta do Marques de
Castelo Melhor».

Artur Inácio Bastos, in Lisboa de Antigamente

Quis então dar uma volta pelo jardim. Sobre os canteiros borboletas brancas, amarelas, esvoaçavam; um gotejar de água fazia no tanque um ritmozinho de jardim  burguês;  um aroma  de  baunilha  predominava; sobre  a  cabeça  dos bustos  de  mármore, que se elevam dentre os maciços e as  moitas de dálias, pássaros pousavam. 
Luísa gostava daquele jardinzinho, mas embirrava com as grades tão altas...
— Por  causa  dos  suicídios! — acudiu  logo  o  Conselheiro. [...]
— Se fôssemos andando?... — lembrou Luísa.
O  Conselheiro  curvou-se,  mas  vendo-a,  a  ir  colher  uma  flor,  reteve-lhe vivamente o braço:
— Ah,  minha  rica  senhora,  por  quem  é!  Os regulamentos  são  muito explícitos!  Não  os  infrinjamos,  não  os  infrinjamos! — E acrescentou: — O exemplo deve vir de cima.²

Miradouro de São Pedro de Alcântara [entre 1918 e 1922]
O gradeamento, que ainda hoje ali se encontra, veio do Palácio da Inquisição do Rossio, ou dos Estaus, actual Teatro D. Maria..
João Penha Lopes, in Lisboa de Antigamente

Apenas no tabuleiro inferior — remata Norberto de Araújo — , quando se cala o alarido saudável do dia infantil, e as sombras se alongam — S. Pedro de Alcântara se pode entregar ao recolhimento, que amacia as almas. Mas com o seu arvoredo ralo, com os seus canteiros de miosótis, com a sua cascata romântica, com o seu tanque, que pertenceu ao Paço da Bemposta, com o seu ardina de bronze a apregoar a liberdade — é um enternecedor eirado do Ocidente, senhor de Lisboa.¹
______________________________________
Bibliografia
¹ ARAÚJO, Norberto de, Legendas de Lisboa, p. 114-115, 1943. 
² QUEIROZ, Eça de, O Primo Basílio, 1878.

domingo, 24 de março de 2019

Lojas de antanho: Ourivesaria Cunha

Escreve Norberto de Araújo sobre a velhinha Rua (Nova) da Palma: «[...] foi rua sempre estreita, muito mais do que hoje é, bastante mercantil, caracterizada pelos negócios de ourives e prateiros. Houve aqui, até há dois anos [c. 19366], na esquina de S. Vicente à Guia, uma assinalada «Ourivesaria do Cunha» que desapareceu para demolição do extremo do troço que encosta ao decrépito Palácio do Marquês do Alegrete

Ourivesaria, relojoaria e joalharia de Joaquim Nunes da Cunha  |c. 1910|
Rua da Palma

Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente
Ourivesaria, relojoaria e joalharia de Joaquim Nunes da Cunha  |c. 1910|
Rua da Palma
Alberto Carlos Lima, 
in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. IV, p. 25, 1938.

sexta-feira, 22 de março de 2019

Edifício na Avenida Almirante Reis, 74-74D

Construído em 1908,  este edifício de planta rectangular, cujo responsável pela obra foi Joaquim Craveiro Lopes, desenvolve-se em dois pisos, loja e habitação para o proprietário, rematados por platibanda plena, capiada a cantaria. Classificado como Imóvel de Interesse Público, constitui um dos exemplos mais representativos da introdução do gosto Arte Nova na arquitectura portuguesa de inícios do séc. XX, patente em elementos decorativos como painéis e frisos de azulejos, trabalhos de cantaria e ferro forjado. Apresenta a particularidade de ter sido um dos edifícios pioneiros, onde o azulejo Arte Nova deixou de se confinar ao friso para revestir a totalidade da fachada, trabalho assinado por Alfredo Pinto e datado de 1911

Edifício na Avenida Almirante Reis, 74-74D [post. 1972]
Estúdio Novais, in Lisboa de Antigamente

Enquanto o piso térreo surge revestido a tijolos cerâmicos biselados, monocromáticos, verdes vidrados, o piso superior evidencia uma decoração floral tipicamente Arte Nova (girassóis, folhagens, festões de flores e grinaldas), policromática, cujas cores predominantes são o verde e o amarelo. A influência da linguagem estética Arte Nova estende-se, também, à guarda em ferro forjado trabalhado da varanda. [cm-lisboa.pt]

quarta-feira, 20 de março de 2019

Profissões de antanho: a galinheira

— Éh! Galliiiiiiiii...nhas! Quem nas quér i com ôvo?!

Era assim o pregão esganiçado e arrastado, os ii muito agudos e longos, o bastante para se ouvir, e ouvia-se mesmo, como se fosse um apito. E melhor quando as freguesas as esperavam. Claro que não havia então os ruídos que atormentam hoje os moradores de Lisboa.
Quase sempre eram varinas as vendedeiras, trajando como tal. Habituadas ao negócio, conheciam bem a clientela, pois, naquele tempo, só comia galinha quem estava doente ou em dia de festa!...

Galinheira na Rua Rodrigo da Fonseca [1906]
Antiga do Abarracamento do Valle Pereiro; à direita, a Rua Barata Salgueiro e, ao fundo, a Rua Alexandre Herculano e o Parque; o prédio com mansarda, no nº 15 da Rodrigo da Fonseca, ainda existe e data de 1883.

Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

— Éh! Galliiiiiiiii...nhas! Quem nas quér i com ôvo?!

Traziam os animais em canastras armadas em gaiolas com rede de cordel esticada em forma de barraca, e garantiam às freguesas que todas as galinhas eram boas poedeiras!... Muitas pessoas, nesse tempo, criavam ou compravam criação para ter em casa, como reserva alimentar, sucedendo, à falta de espaço dentro da habitação, armarem pequenas gaiolas sobre os telhados, junto às águas-furtadas.

Galinheira na Rua Rosa Araújo Rua Barata Salgueiro [1906]
A galinheira trajava camisa de chita, cintada e estampada com flores miúdas; saia de seriguilha azul, com pregas, muito rodada e quase arrastando no chão, tapando as tamancas de cabedal; lenço claro envolvendo todo o rosto e atado sob o queixo; na cabeça, uma minúscula rodilha onde pousa o canastrão onde carregava as galinhas.
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
DINIS, Calderon, Tipos e factos da Lisboa do meu tempo: 1970-1974, 1986.
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