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Sunday, 26 April 2026

Beco de Santa Helena

Helena (beco de Santa) primeiro à esquerda na rua do Castello Picão, indo da calçadinha de S. Miguel e finda no largo das Portas do Sol, freguezias de S. Miguel 1 a 13, S. Vicente 2 a 12 e 15 a 25. [Velloso: 1869]

Enfiemos por este Beco de Santa Helena na companhia. mais uma vez, do olisipógrafo Norberto de Araújo.
No seu primeiro lanço este beco nada tem de especial, mas no seu segundo, de escadarias, passado o Beco do Garcês, a perspectiva é já repousada, com o ambiente que advém, à direita, dos jardins do Palácio do Conde de S. Miguel (dos Arcos ou do Salvador).

Beco de Santa Helena |c. 1960|
Perspectiva tomada das Portas do Sol antes da remodelação do sítio. Ao fundo
nota-se a 
Igreja de São Vicente de Fora.
Artur Pastor, in Lisboa de Antigamente

Não se desdenha de ser Alfama, mas uma Alfama tranquila, sem gatos nem mulherio, um sítio que não oferece pano para mangas aos escritores que só encontram gracilidade urbanista onde o carácter é plácido e onde não existe nem um cunhal, nem uma gelosia, nem um sinal de povo, nem uma garatuja de nobreza, nem um sopro religiosidade..==

Panorâmica sobre o Beco de Santa Helena |c. 1960|
Perspectiva tomada junto ao nª 21 onde se vêem os frades de pedra. Do lado esq. observa-se o muro do Palácio do Conde de S. Miguel (dos Arcos ou do Salvador) que desemboca no Beco do Garcês.
Artur Pastor, in Lisboa de Antigamente

Nota(s): Embora se desconheça a data de atribuição do topónimo sabe-se que esta designação é anterior ao Terramoto.
Na Idade Média e na Idade Moderna, os topónimos apareciam de forma natural, inspirados numa atividade, num acidente geográfico, numa propriedade, no nome do proprietário mais importante, numa direção ou, até, em nomes de santos, igrejas, conventos e ordens religiosas.

Beco de Santa Helena |962|
Perspectiva tomada junto ao nª 21 — próximo do Mural História de Lisboa (dir.).
Armando Serôdio, in Lisboa de Antigamente

N.B. Santa Helena, de família plebeia e pagã, nasceu em meados do século III na Turquia); essa cidade, mais tarde, foi chamada Helenópolis, em sua honra, pelo seu filho e futuro imperador Constantino, o primeiro imperador cristão. Muito piedosa, Santa Helena partiu em peregrinação para a Terra Santa, onde se diz que encontrou a verdadeira Cruz do Salvador.

Beco de Santa Helena |1945|
Perspectiva tomada da Rua do Castelo Picão na direcção do Beco do Garcês.
Fernando Martinez Pozal, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. X, p. 59, 1939.
BACKHEUSER,Everardo, Toponímia: (Suas regras — Sua evolução), 1049.

Sunday, 9 November 2025

Igreja de Santa Isabel

A igreja de Santa. Isabel é uma edificação setecentista, cujas obas começaram em 1742 e se prolongaram durante alguns anos ainda depois do Terramoto, que não causou no templo, em construção, estrago algum. Pode dizer-se que Santa Isabel, à parte a frontaria, completada em 1875, e a despeito dos restauros daquele ano, se encontra sensivelmente como foi erguida.

Como vês, Dilecto, a fachada do templo não é trivial, embora não contenha beleza ou particularidade a assinalar; as duas torres sineiras, ilustradas de mostradores de relógio, dão-lhe uma certa imponência bairrista. No pórtico, sob a legenda da padroeira «Beatae Elisabeth Lusitaniae Reginae», marca-se a data citada (da reconstrução): MDCCCLXXV. Vejamos o interior da Igreja

Igreja de Santa Isabel, fachada principal |1959|
Rua. Saraiva de Carvalho 2A
Santa Izabel, do orago da Rainha Santa, recebeu benefícios em dois períodos do século
XIX, nomeadamente em 1875.
Armando Serôdio, in Lisboa de Antigamente

O tecto, simples, é de estuque com pintura representando a Assunção. de Santa Isabel. Onze capelas ou altares além da principal, tem esta Igreja. Notamos a começar pela direita: Senhor dos Passos, que ocupa o lugar de uma porta; Santa Terezinha, com retábulo de S. Gonçalo. pintura de Bernard Foit. Santa Rita, retábulo de S. Sebastião por Bruno José do Vale, cópia de Dominichino: Santo António, com retábulo deste padroeiro de Lisboa por Roque Vicente com toque de Pedro Alexandrino; Senhora das Graças e Santa Inês (antiga do Santíssimo), com retábulo «A Ceia», por Peregrino Parodi; e, no topo, N. Sr.ª da Conceição, com retábulo «Nascimento de Jesus», por Roque Vicente; pela esquerda vemos, a seguir ao baptistério, a capela de S. José, com retábulo de Sant'Ana, de Roque Vicente; S. Miguel e Almas com retábulo de Arcanjo, por Domingos Rosa; N. Sr.ª de Fátima com retábulo de N. Srª. do Carmo, cujo autor não identifiquei; e, no topo, o altar do Coração de Jesus, com retábulo de Joaquim Manuel da Rocha

Igreja de Santa Isabel |c. 1910|
Altar-mor cm imagem do orago
Alberto Carlos Lima, in Lisboa de Antigamente
Igreja de Santa Isabel |c. 1910|
N.S. Conceição com retábulo «Nascimento de Jesus»
Alberto Carlos Lima, in Lisboa de Antigamente

























Catorze janelas se rasgam nas paredes da nave onde predomina o estuque «fingido», pois apenas as colunas de apoio lateral são de mármore pobre.
Na Capela-mor, na qual se debruçam duas tribunas por lado, está, sobre o sacrário a imagem de Santa Isabel, padroeira do templo . E mais nada digno de registo possuí Santa Isabel.==

 

Igreja de Santa Isabel |1956|
Altar de S. Miguel com retábulo de Domingos Rosa e imagem pintada e estofada do Século XVIII.
Rosa Duarte, in Lisboa de Antigamente

N.B. Mandada construir em 1742, pelo primeiro cardeal-patriarca de Lisboa, D. Tomás de Almeida, a Igreja Paroquial de Santa Isabel é considerada um imóvel de elevado valor histórico e arquitectónico. [+ imagens aqui]

Igreja de Santa Isabel, frontaria |1970|
Rua. Saraiva de Carvalho 2A em perspectiva tomada da R. de Santa Isabel.
A Fachada, (1875), com um corpo central, levemente avançado dos dois corpos laterais, servido por um pequeno adro, acima do nível da rua, rodeado por cortina gradeada.
João Goulart, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Inventário de Lisboa: Monumentos histórico, 1956.
idem, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XI, pp. 64-65, 1939.

Friday, 17 October 2025

Quartel da Graça

Graça (largo da) fica entre a calçada da Graça, caracol da Graça, travessas das Monicas, de S. Vicente, da Pereira, rua do Sol da Graça e travessa do Monte, freguezias de Santo Andre 93 a 136, Santa Engracia 1 a 52, S Vicente 53 a 92.
Foi fundada a egreja de Nossa Senhora da Graça no anno de 1147, a primeira vez e a segunda em 1291, sendo reedificada em 1526 е 1556. O convento serve de quartel para infanteria[Veloso: 1869]

Tudo o que a Graça oferece à vista é posterior ao Terramoto, a não ser o casco invisível de uma ou outra casa, fora da área central do Bairro, e a Convento, hoje [1938] Quartel, com sua Igreja. Os mouros, que seus arredores ocupavam antes da conquista cristã, chamavam a este sítio «Almafala» — recorda Norberto de Araújo — designação «de Graça» que data precisamente de 1305, nem mais ano nem menos ano. Continuou depois a ser subúrbio, estrada de comunicação desta parte da Cidade com os caminhos que levavam para as quintas e lugarejos do ocidente.

Largo da Graça |1949-03|
Stio do estrangulamento entre os seus terreiros superior e inferior. À dir. nota-se a igreja e convento e quartel da Graça e, ao fundo, observa-se a chamada Vila Sousa.
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Dilecto — prossegue o distinto olisipógrafo —: vale a pena, mais do que noutro qualquer antigo Convento tornado casa militar, percorrer o edifício, apressadamente que seja, e no que nos for possível.
Em 1834, pela extinção das Ordens, instalou-se no edifício conventual o regimento de Infantaria 10, alguns anos mais tarde Infantaria 5, que foi a unidade grande detentora da casa, claustros e cerca dos Agostinhos. Em 1918, estiveram neste Quartel, episodicamente, Infantaria 32 (de Lagos) e Infantaria 30 (de Bragança); de 1919 a 1928 um esquadrão da Guarda Republicana sendo depois o edifício entregue a Caçadores 7, que hoje ocupa uma parte com uma companhia de adidos e duas companhias de reformados, havendo-se instalado noutra parte do casarão monástico a terceira companhia de Saúde.
O aspecto exterior do Quartel, ameado nas guarnições, e com o portal de tipo militar com legendas, muito sumidas, relativas a acções em combate de Infantaria 5, é de 1842.

Largo da Graça |1912|
À esq. nota-se o convento e quartel da Graça.
Postal ilustrado, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. VIII, pp. 42-43, 1938.

Sunday, 27 April 2025

Lojas de Antanho: Freire-Gravador

O jornal diário A Capital: Diário Republicano da Noite, na sua edição de 29 de Junho de 1916, dedicava um longo artigo às mais antigas e tradicionais lojas da Baixa, mais precisamente aquelas situadas na Rua Áurea, vulgo do Ouro. Sobre a história do estabelecimento denominado Freire Gravador — e respeitando a grafia da época — o texto rezava assim:

No outro quarteirao para o lado do Rocio fica o Freire-Gravador casa de larga fama, como se sabe, que teve a precede-la n'aquelle mesmo sitio, um ourives de importancia. A casa Freire, pelos seus producros em ferro esmaltado, entre os que se se distinguem nas melhores taboletas que se fabricam e Portugal; pelas sua fábrica de carimbos, que nao tem rival, pelas suas officinas de gravura, notabilissimas, occupa, entre as suas congeneres, uma situação de privilegio.==
(A Capital: diário republicano da noite, Guimarães, Manuel, 1868-1938, ed. com., N.º 2106, 26 Jun. 1916)

Lojas de Antanho: Freire-Gravador |1932-03-03|
Rua Áurea (vulgo do Ouro), 158-64 com a Rua da Victoria, 90-96
Fund. 1882 — propriedade de Aires Lourenço Costa Freire
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Os anúncios pitorescos do Candeias do Intendente, do Clemente dos Gabões, do 92 da Rua Nova do Almada, do Freire Gravador ou do Mergulhão dos Cordões de Oiro, admirá-lo-iam decerto muito mais do que o reclamo do francês António la Fissière, alfaiate dos tafuis que dizia fazer e alugar fraques e os mais hábitos da modernice, ou do sapateiro que intitulava o seu estabelecimento de Real Fabrica de Botas Elásticas porque nela se servem ambos os sexo, e se acha a famosa invenção dos canhões postiços.

 

A unica fabrica
“Este anúncio é um labirinto, um novelo, uma teia!.
que ha completa na Europa
      ** PREMIADO
      COM 3  * * * *
      MEDALHAS **
      D'OURO NA EX-
      POSIÇÃO DO *
      BRAZIL * * * *
Fabrica sellos em branco pa
ra repartições e companhias,
carimbos de metal, borracha
e  para  lacre,   numeradores,
timbragem a côres, ouro, em
relevo, monogrammas e bra-
sões,  prensas, balancés, cu-
nhos,  alicates para sellar  a
chumbo,  fabrica de chapas
esmaltadas em metal e ferro,
gravura em pedra e seus an-
neis, lithographia,  typogra-
phia, papelaria ferragens, bi-
lhetes, trabalhos superiores,
é a casa ==============
A. L. FREIRE GRAVADOR
o qual  tem feito viagens  de
estudo á Allemanha, Austria,
Inglaterra, França, etc, é um
estab elecimento de  muitos
artigos. Preços baratissimos
com os quaes ninguem pode
competir =============
Mandam-se as encommendas
para a provincia á cobrança =

Em tudo se tem avançado, até nisto. O progresso no tocante às tabuletas vai de vento em popa e de velas inchadas. Desde o «Sempre por bom caminho e segue» dos «Armazéns Grandella» à Única Loja que Vende Barato de que se ufanam em letras pintadas tantas lojas de Lisboa, todas únicas, já se vê; da firma Faria & Filhos a que pertence uma botica ao Bom Sucesso (veja-se a coincidência!) a um Silva & Mata alfaiates que representa, evidentemente, uma vingança daquela aranha que foi morta por sete, há de tudo nas tabuletas e fachadas de Lisboa, a desafiar a crítica mordaz [...] encontra-se, porém, matéria para variadas e desenfastiadas cogitações filosóficas. Experimente-o, comigo, o paciente leitor. As casas de vinho, tabernas e botequins, como naquela no caminho para o alto de S. João, com a famosa legenda de «Reparem à ida, à volta cá os espero», que é um convite pagão de folia fúnebre para os carpideiros da praxe!==
(SEQUEIRA Gustavo de Matos). RELAÇÃO de Vários Casos Notáveis e Curiosos Sucedidos em tempo na cidade de Lisboa e em outras terras de Portugal, p. 58, 1925)

Lojas de Antanho: Freire-Gravador |c. 193-|
Rua Áurea, 158-64 com a Rua da Victoria, 90-96
Na última página deu com um grande anúncio, dois palmos de mão ancha, representando,
ao alto, à direita, o Freire Gravador, de monóculo e gravata, perfil antigo, e por baixo, até
ao rodapé, uma cascata doutros desenhos figurando os artigo fabricados nas suas oficinas, 
únicas que merecem o nome de completas, com legendas explicativas.
(SAMAGO, Jose O Ano da Morte de Ricardo Reis, 1984)
AFG, in Lisboa de Antigamente

N-B. Aires Lourenço Costa Freire, natural de Penela. Alcançou rapidamente uma boa reputação nacional, tendo além da sua loja na Rua Aurea (A. L. Freire-Gravador), um armazém na Calçada de S. Vicente e uma fábrica no Beco dos Clérigos, no bairro de Alfama em Lisboa. Mais tarde, muda a sua fábrica para estrada Paço de Arcos-Cacém. Aires Costa Freire detentor de grande fortuna, foi benemérito tendo construído um bairro para os seus trabalhadores no Dafundo, Algés, e cujas habitações ao fim de uns anos reverteriam para os próprios. O estabelecimento terá encerrado na década de 1960. (arquivodigital.cascais.pt)

Lojas de Antanho: Freire -Gravador, oficina |1932-03-03|
Rua Áurea, 158-64 com a Rua da Victoria, 90-96
Fund. 1882, por Aires Lourenço Costa Freire, fechou portas década de 1960.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Friday, 28 March 2025

A Rua do Benformoso que foi do «Boi-Formoso» e «de Bemfica»

A Rua de Bemfica é noticiada desde o século XIV e tudo indica que a sua localização era neste local. Coloca-se a hipótese, considerada por muitos como plausível, de esta rua ter sido posteriormente chamada por Rua do Boi Formoso, derivando daí a sua atual designação de Rua do Benformoso  [Azevedo 1900]
Os poucos casos estudados, um total de nove habitações, deram a entender que as casas tinham uma área correspondente a 11,29m2 e a 36,3m2, sendo muito menores do que as das mourarias situadas a norte do Tejo. [Coelho 1996]

Rua do Benformoso, 109-113 |1902|
Antiga do Boy Formoso, antes Rua Direita da 
Mouraria (séc. XVI)
José A. Bárcia, in Lisboa de Antigamente
Rua do Benformoso, 109-113 |1902|
Antiga do Boy Formoso, antes Rua Direita da 
Mouraria (séc. XVI)
Machado & Souza, in Lisboa de Antigamente





























Os limites da Mouraria não se podem por enquanto, determinar exactamente. Pelo sul ficava a meio da encosta do Castello, pelo poente era limitada pela rua direita da porta de S. Vicente, hoje chamada da Mouraria, e pelo nascente não passava alem da entrada da rua da Amendoeira. Da parte norte ainda é maior a dúvida, porque era aqui onde se encontravam os almocavares dos judeus e dos mouros, os quaes terrenos foram depoes cortados por diversas ruas, ao que parece. […] Do lado poente o bairro dos mouros não passava das modernas ruas da Mouraria e da rua do Benformoso. [Azevedo 1900: 270-271]

 

 
Rua do Benformoso, 101-117 |1902|
Antiga do Boy Formoso, antes Rua Direita da
Mouraria (séc. XVI)
José A. Bárcia, in Lisboa de Antigamente
 
Rua do Benformoso, 109-113 |1939|
Une maison rouge! A grandir à peu
prés comme épreuve! 
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente











 

A casa mais antiga da Rua do Benformoso [v.d prédio ao centro nas imagens acima] é um edifício pertencente à denominada "Arquitectura Popular", a sua construção efectuou-se, sensivelmente, entre os séculos XVI e XVII.
De planta longitudinal, formando um trapézio irregular, este prédio possuí quatro pisos, encontrando-se os dois primeiros apartados por um diminuto pé-direito. É, aliás, no segundo piso que a sua metade esquerda apresenta janela de sacada com guardas de estrutura férrea e gradeamento de rótulas de madeira, enquanto que a outra metade encontra-se rasgada por uma fresta e um óculo. Cadência esta que vemos repetir-se ao nível dos outros dois pisos. O telhado de duas águas encontra-se sustentado por uma trave de madeira que, por seu turno, se apoia em mísulas.

Rua do Benformoso, 194 |1902-05|
Regra geral, os edifícios da Mouraria não eram muito diferentes dos seus
contemporâneos medievais, à excepção de algumas casas térreas que possuíam um
quintal fronteiriço.
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Em paralelo às gentes dos ofícios e serviços e ao baixo nível socioeconómico da população, a Mouraria rapidamente se tornaria um bairro “mal afamado” e “tempestuoso” por causa da gente de “vida parasitária” e das “desordeiras”, sendo exemplo dessa condição as prostitutas e o tipo fadista. Na Lisboa boémia, a Mouraria teria um lugar cativo com as suas...

“casas suspeitas, os hotéis para pernoitar, com a sua tradicional lanterna de luz frouxa, os seus cantos e recantos que protegem baixas aventuras, as estalagens das lavadeiras saloias, os vendedores de elixires maravilhosos que pregam ao domingo, a infabilidade dos seus medicamentos nos largos do bairro; e ainda o formigar de gente baixa pelas ruelas da encosta, o Capelão, João do Outeiro e Amendoeira, tudo nos ajuda a invocar o quadro cheio de cor deste bairro popular, onde ainda se vê nas mais sujas serventias o nicho, devoto, o registo dos azulejos com St António ou S. Marçal, e um ou outro pormenor arquitectónico dos tempos idos. […] Esta história animada e pitoresca ainda hoje se reflecte na fisionomia gritadora do antigo arrabalde cedido aos muçulmanos vencidos.” 
[Guia de Portugal 1924]

Rua do Benformoso  |1925|
 Em finais do século XIX instalaram-se na Mouraria famílias ligadas à aristocracia
e à burguesia, dessa vez ocupando o troço final da
Rua do Terreirinho e da Rua do Benformoso com edifícios de traça arquitectónica
de mais qualidade e com maiores dimensões ao inverso das habitações populares.

Alfredo Roque Gameiro (1864-1935), in BNP

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. VIII, pp. 12-14, 1938.
MENEZES, Marluci, Mouraria, Retalhos de Um Imaginário: Significados Urbanos de Um Bairro de Lisboa, 2023.
FERNANDES, José Ferreira, Martim Moniz - Como o Desentalar e Passar a Admirar, 2024.
MESQUITA, Alfredo. Lisboa, pp. 526-527, 1903.

Sunday, 23 March 2025

Rua e Chafariz de São Sebastião da Pedreira

A velha Rua de S. Sebastião — recorda o ilustre Norberto de Araújo — , tradicional estrada de Lisboa seiscentista, é um topónimo que advém da existência no local do templo, chamado da Pedreira (primeiro ermida, depois igreja, dedicado ao mártir S. Sebastião) que assim se denominava em virtude do sítio ser conhecido por tal afloramento.

Rua (e Chafariz) de São Sebastião da Pedreira |c. 1951!
O viaduto permite a ligação da Avenida António Augusto de Aguiar com a Rua Filipe Folque, que lhe passa superiormente.
Horácio Novais, in Lisboa de Antigamente

Ora eis-nos sob o Viaduto da Rua Filipe Folque adornado com a Nau de São Vicente; atrás, escondido pelo camião, encontramos o Chafariz de São Sebastião da Pedreira mandado construir em 1787, risco do arq. Francisco António Ferreira Cangalhas ou de Reinaldo Manuel dos Santos, então arquitecto das Águas Livres; nele começou a correr água em Agosto de 1791.==

Rua (e Chafariz) de São Sebastião da Pedreira |1961|
Recebia água a partir da Galeria de Sant'Ana.
Arnaldo Madureira, in Lisboa de Antigamente

N.B. É um chafariz de planta rectangular simples em cantaria de calcário lioz, desenvolvendo-se em dois níveis, com escadas laterais de acesso.. As armas reais, localizadas sob o remate do corpo central do espaldar, encimadas por uma coroa fechada e, na base, duas bicas circulares, que vertem para tanque rectangular.
____________________________________________________________
Bibliografia
ARAÚJO, Norberto, Peregrinações em Lisboa, vol. XIV, p. 64, 1939
FLORES, Alexandre M. e CANHÃO, Carlos, Chafarizes de Lisboa, Lisboa, Edições INAPA, 1999.

Friday, 6 December 2024

Beco das Cruzes

Cruzes (Beco das) quarto á esquerda na rua da Regueira indo da rua dos Remedios e finda na rua do Castello Picãu, freguezias de S. Vicente 2 a 30, S. Miguel 1 a 19. [Velloso: 1869]

O Redentor, que penou pelas nossas fragilidades e expiou os nossos pecados, anda associada a comemoração «da Cruz», temos cruzes que fartam em Lisboa. Prova-o a seguinte nota por Gomes de Brito na sua Lisboa do passado, Lisboa de nossos dias (1911), algumas já extintas:

Rua do Crucifixo
Rua da Cruz, em Alcântara 
Rua da Cruz, a Sta. Apolónia 
Rua da Cruz do Mao 
Rua da Cruz de Pao
Rua da Cruz dos Poiaes 
Travessa da Cruz, aos Anjos 
Travessa da Cruz do Desterro 
Travessa da Cruz de Soure 
Travessa da Cruz do Thorel 
Largo da Cruz da Rocha 
Calçada da Cruz da Pedra
Pateo da Cruz, em Alfama
Rua de Santa Cruz, ao Castello
Largo da Igreja de Santa Cruz, ao Castello
Estrada, travessa e largo da Cruz do Taboado
Beco das Cruzes
Cruzes da Sé.
Exclamemos agora também; — Cruzes!

Beco das Cruzes |c. 1960|
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente
Nota(s): o local da foto não está identificado no arquivo.

Entre a Rua da Regueira e a Rua do Castelo Picão encontramos o Beco das Cruzes, sabendo-se que este arruamento já ostentava este topónimo em 1770, por constar nas plantas e descrições das freguesias de Lisboa desse ano.

Beco das Cruzes |1963|
Armando Serôdio, in Lisboa de Antigamente

Friday, 8 November 2024

Panorâmica da Estrela tomada do zimbório da Basílica da Estrela

Do majestoso zimbório da Basílica da Estrela — a que se pode ascender depois de galgados mais de 200 degraus — o panorama de que ali se desfruta é dos mais belos de lisboa. 

Se da maioria dos pontos altos de lisboa se avista a parte antiga da cidade — recorda o Guia de Portugal (1924) —  o que aqui domina inteiramente no conjunto é a  cidade moderna. O espectáculo torna-se por isso mais claro e mais alegre, variado ainda pela abundância de pequenos bosques e jardins, desdobrados como numa grinalda. Logo a O. a tapada da Ajuda, hoje já muito rarefeita, e a mole enorme do palácio; mais para cá a mancha verde do parque das Necessidades, e a seguir a parada sombria dos ciprestes dos Prazeres. Ao longe desdobra-se o espinhaço de Monsanto, e mais além e a NO. as alturas de Sintra. Para o N. abrange-se a cidade nova, e logo em baixo repousa o olhar a frondosa espessura do Jardim da Estrela, continuada ao fundo com os belos ciprestes do cemitério dos Ingleses. A E. avista-se o Castelo, a torre de S. Vicente e mais abaixo as da , um pouco perdidas na massa escura dos telhados. Ao S. abre-se enfim, maravilhosa de luz e de amplidão, a enseada do Tejo, a melo da qual se ergue o pontal de Cacilhas, avançando no rio como a proa duma nau.

Panorâmica da Estrela tomada do zimbório da Basílica da Estrela |entre 1926 e 1936|
Vêem-se os terrenos onde virá a ser rasgada a Avenida Infante Santo nas décadas de 1940/50, o Hospital da Estrela, antigo Convento do Sagrado Coração de Jesus, um trecho do Aqueduto das Aguas Livres [demolido], uma nesga do Tejo e a Outra Banda.
António Passaporte,  in Lisboa de Antigamente

Nota(s): Conforme o Edital de 13 de Maio de 1949 «o arruamento em construção, que ligará a Avenida 24 de Julho à Estrela, compreende parte da Rua Tenente Valadim, desde o término da curva do prédio do Estado (Instituto Maternal); parte da Travessa dos Brunos prédios nºs 22 e 24 e, ainda, a Rua da Torre da Pólvora» passou a ser a Avenida Infante Santo.

Obras para abertura da Avenida Infante Santo |1949|
Junto ao Hospital Militar Principal, à Estrela
Judah Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Sunday, 8 September 2024

Rua de Santo António dos Capuchos

Santo António dos Capuchos (Rua de) — Em 1786 se lhe chamava «Rua Nova de Santo António dos Capuchos». Por esta rua transitou o cadáver da rainha de Inglaterra [Catarina Henriqueta de Bragança, vd. Nota(s)], indo a seu enterro em Belém. [Brito: 1935]
O topónimo do arruamento deriva da Convento de Santo António dos Capuchos (hoje hosp.) — dos religiosos franciscanos da província de Santo António — fund. neste local em 1570.

Rua de Santo António dos Capuchos, 35 |1942|
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Nota(s): Dona Catarina de Bragança (1638-1705) morreu no Paço da Bemposta. Enterrada no real convento de Belém ou Igreja dos Jerónimos, o seu corpo foi depois trasladado para o panteão dos Braganças em São Vicente de Fora.

Sunday, 21 July 2024

Escadinhas da Costa do Castelo

Retempera uns momentos a tua vista no trecho de panorama que daqui já se desfruta e prossigamos, Dilecto companheiro, deixando à direita as escadinhas que levam ao Largo da Rosa.

Assentou aqui a casa nobre quinhentista de Luís de Brito de Nogueira — prossegue Norberto de Araújo — , senhor dos morgados de S. Lourenço, de Lisboa, e de Santo Estêvão, de Beja, e descendente do cavaleiro, alcaide-mor de Lisboa, Afonso Ennes Nogueira, já no local proprietário da casa nobre no século XIV. 
Foi Luís de Brito o fundador (1619) do Convento da Rosa das religiosas dominicanas, que avultou à direita das actuais Escadinhas da Costa do Castelo, e que, destruído pelo Terramoto, caldo em ruínas, desapareceu de todo no começo do século passado [XIX].==

Escadinhas da Costa do Castelo |c. 1960|
Perspectiva tomada da Costa do Castelo; ao fundo vê-se o Largo da Rosa; a dir. avulta o
Palácio da Rosa (Castelo Melhor).

Artur Pastor, in Lisboa de Antigamente
Nota(s): o local da foto está mal identificado no abandalhado amL.

A chamada Costa do Castelo — diz o Guia de Portugal — constitui parte da antiga estr. de circunvalação que, anteriormente à conquista de Lisboa, corria a meia altura da encosta do monte do Castelo, partindo das portas de Alfofa (no cruzamento das ruas do Milagre de Santo António e S, Bartolomeu [de Gusmão]), rodeando a antiga cerca visigótica, passando a S. Lourenço e Santo André, e vindo terminar no Largo das Portas do Sol. Paralelamente a ela e na base do monte corria na mesma época outra estr., que começava na Porta do Ferro (Largo de Santo António da Sé) e findava na de S. Vicente (arco do Marquês de Alegrete).
A Costa do Castelo termina no lugar onde se erguiam as Portas de Santo André, e onde há pouco se via o arco do mesmo nome, demolido para passagem dos eléctricos.==
 
Escadinhas da Costa do Castelo |1946|
Perspectiva tomada do Largo da Rosa com 
o Palácio da Rosa à esq..
Fernando Pozal, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. III,p. 16,  1938.
idem, Inventário de Lisboa, 1950.
Guia de Portugal: Generalidades. Lisboa e arredores, p. 272, 1924.

Sunday, 7 July 2024

Arco do Marquês do Alegrete, ao Martim Moniz

Ora aí temos o Arco do Marquês do Alegrete — diz Norberto de Araújo — no aspecto de 1674, ano em que foi transformada a velha porta de S. Vicente da Mouraria, assim chamada ainda em 1554. Intitula-se do Marquês do Alegrete, porque a ele se encostou o palácio construído pelo Conde de Vilar Maior, antecessor da Casa dos Alegretes, depois Penalvas e Taroucas (Teles da Sylva).
 
 
O boletim trimestral — Olisipo do grupo de Amigos de Lisboa — , apurou em Abril de 1945: «Passam por hora sob o Arco do Marquês de Alegrete: mais de 100 eléctricos, 200 automóveis, 6000 pessoas a pé e muitos caminhões. Apesar de algumas dúvidas nas quantidades, sobretudo no exagero de tantos eléctricos por hora quando competiam num buraco de agulha, além da multidão, com «caminhetas e carretas», cito o rol feito pelo olisipógrafo Luís Pastor de Macedo — a quem vamos sempre seguindo.

Arco do Marquês do Alegrete, ao Martim Moniz |1946|
Arco do Marquês do Alegrete
 — durante as demolições na Mouraria; Salão Lisboa
Estúdio Mário Novais, in Lisboa de Antigamente

A tradição conta-nos que Martim Moniz era um dos cavaleiros de D. Afonso Henriques que em 1147, na conquista de Lisboa, se atravessou numa porta da muralha do Castelo dos Mouros, impedindo o seu fecho e, sendo de imediato morto pelos sitiados enquanto garantia a abertura necessária para a entrada dos exércitos cristãos conquistarem a cidade.
Em 1908 o herói Martim Moniz ganhou uma placa evocativa na porta do seu sacrifício e, em 1915, ficou também imortalizado na toponímia da Mouraria já que a Rua de São Vicente à Guia – que se situava entre a Rua da Mouraria, Rua do Arco do Marquês de Alegrete e a Calçada do Jogo da Pela – se passou a denominar Rua Martim Moniz, pelo Edital de 14 de Outubro de 1915. Contudo, as alterações urbanísticas do local iniciadas a partir da década de 30, a pretexto de ligar a Avenida Almirante Reis ao Rossio, acabaram por fazer desaparecer o Mercado da Figueira, parte da Mouraria e este arruamento.

Arco do Marquês do Alegrete, ao Martim Moniz |1945|
Arco e Palácio do Marquês do Alegrete e Salão Lisboa
André Salgado, in Lisboa de Antigamente

N.B. Em 1961 foi finalmente empreendida a controversa destruição do Arco do Marquês de Alegrete, o último resquício das portas da Cerca Fernandina, a Porta da Mouraria, e recordado em versos:

Arco do Marquês de Alegrete
O quadro ilustra bem
Uma imagem que morreu
Será que existe alguém
Que este passado viveu?
Era palácio e cinema
Eléctricos, engraxadores
Eis a leitura do tema
Ao Arco dos meus Amores.
(Baguinho: 1999)

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Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. III, pp. 78-79, 1938.
MENEZES, Marluci, Mouraria, Retalhos de Um Imaginário: Significados Urbanos de Um Bairro de Lisboa, 2023.
FERNANDES, José Ferreira, Martim Moniz - Como o Desentalar e Passar a Admirar, 2024.

Sunday, 11 February 2024

Rua Vicente Borga, à Madragoa

Dístico de 1859 originado por corruptela de Vicente Borchers — filho de um negociante alemão, um tal Conrado Bicker, natural de Hamburgo — , que morou na antiga Rua da Madragoa após ter casado com Maria Clara Sousa Peres, no séc. XVIII, e acabou por substituir o antigo topónimo.

O autêntico nome que substituiu o de Madragoa é, reverendo leitor, o de Vicente Borchers — refere o olisipógrafo Luiz Pastor Macedo. Vicente Borchers e não Vicente Borga.
Nem mais, nem menos.
Declaramo-lo peremptoriamente e por nossa honra, como se fossemos em pessoa o próprio Borchers que há um século, já passante — Deus saberá com que desgosto —  ouve pronunciar mal o seu apelido e há um ror de lustros o vê mal grafado nas esquinas da sua rua. Vicente Borchers e não Vicente Borga é que é, e vamos já, já ver porquê.

Rua Vicente Borga |1936|
Perspectiva tomada da Cç. Castelo Picão para a Travessa do Pasteleiro
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Vicente Bernardo Borchers Maldonado, nasceu em 15 de Setembro de 1739 numa casa da Rua Direita dos Anjos; casou, morando então na freguesia de S. Paulo, em 28 de Setembro de 1776, com D. Maria Clara de Sousa Peres, e foi depois aquele morador da velha Rua da Madragoa que originou a substituição do seu vocativo. Não temos .a menor dúvida a esse respeito. Foi deste Vicente Borchers, uma das pessoas mais importantes que por aqueles tempos moraram na rua, que nasceu nos soalheiros do sítio o Vicente Borga que a: pouco e pouco foi destronando, até se fixar oficialmente na artéria, a decrépita denominação de Madragoa.

Rua Vicente Borga |1945|
(Na direcção Rua das Trinas)
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Júlio de Castilho, algum tempo antes do dia 1 de Julho de 1893, explicou a razão por que, segundo lhe parecia, a uma das ruas do antigo bairro do Mocambo dera o povo o nome de Madragoa. E foram estas as palavras de que se serviu para a sua explicação:

O Mosteiro das Bernardas, com a invocação de Nossa Senhora da Nazaré, foi fundado em 1652. Pela sua parte oriental, na Rua das Madres, que vai da Calçada do Castelo Picão para a Travessa do Pasteleiro, ficava o antigo recolhimento de Santa Isabel da Hungria, fundado em dias da Raínha D. Catarina: por uma Isabel de Jesus, falecida em 1612, isto segundo o Agiológio Lusitano de Jorge Cardoso. título da Rua das Madres é abreviatura do outro que a rua teve, Rua das Madres Bernardas, para se diferençar da outra travessa superior, e paralela, que se chamou das Madres de Goa, por causa de um hospício ou recolhimento de senhoras da India, que existia na casa que ficou fazendo esquina para a íngreme Rua das Trinas, desde que alargaram esta última. Pois o nome de Rua das Madres de Goa corrompeu-se em Rua da Madragoa, de imunda e torpe memória; e tão torpe, que obrigou o letreiro a mudar-se no de Rua de Vicente Borga, sujeito que não conheço. 

A marcha infantil da Rua Vicente Borga |1935-06-09|
(Junto ao jornal o Seculo)
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Porém — temos de declará-lo —  nem foram as madres de Goa que deram origem à denominação da rua, nem ela foi pelo vulgo baptizada com o extravagante nome de Mandrágora. As vezes sucedem coisas —   acrescenta Pastor de Macedo —  , até aos Mestres, especialmente quando a documentação anda arredia ou escasseia, e surge portanto aliciante e convidativo o campo das hipóteses.
A quinhentista denominação da rua (data pelo menos do ano 1579) provém, reverendo leitor, duma Mandragoa, mulher dum Mandragão. Não tenhamos dúvida alguma a esse respeito. Mandragão,
apelido duma família que viveu na Ilha da Madeira, deu em Mandragoa quando na cola de nome de dona ou  de moça, talqualmente sucedeu com os apelios de Leitão, Falcão, Varejão e outros, que, consoante o melhor jeito, se transformavam ou não em Leitoa, Falcoa e Varejoa. E que a rua primitivamente teve em vez de Madragoa o vocativo de Mandragoa também não se nos oferece dúvida alguma, pois que assim a topamos nos documentos antigos e assim a encontramos ainda nas obras impressas na primeira metade do século XVIII.=

N.B. Nesta artéria, no nº 33, nasceu no dia 26 de Julho de 1820, Maria Severa Onofriana, filha de Ana Gertrudes Severa (conhecida como a Barbuda) e de Severo Manuel de Sousa. Por isso, no dia em que se celebrava o 193º aniversário do nascimento da fadista, a Câmara lisboeta e a Junta de Freguesia de Santos-O-Velho colocaram uma placa evocativa no prédio do evento com os seguintes dizeres: 
Neste local
onde sua mãe tinha uma taberna
segundo a tradição nasceu/
em 26 de Julho de 1820
a mítica fadista
Maria Severa Onofriana
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Bibliografia
A Madragoa e o Vicente Borga, artigo de Luís Pastor de Macedo, em Olisipo, VII, 26, pp, 81-84, 144, 1944.
Grande Enciclopédia Portuguesa E Brasileira, p. 213.

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