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domingo, 9 de agosto de 2026

À roda da Magdalena: o Monete, o Bonete e o Rozendo

Magdalena (rua da) segunda á esquerda na rua nova d'Alfandega, indo da praça do Commercio e finda no poço do Borratem, freguezias da Magdalena 2 a 22, 32 a 146 ela 197, S. Christovão 148 a 186, Santa Justa 188 a 234, 199 a 291, Sé 24 a 30. [Velloso: 1869]

A Rua da Madalena nunca teve qualquer característica comercial ou industrial muito acentuada. Artéria de passagem, de ligação entre a Baixa e S. Cristóvão, S. Mamede e altos do Castelo e da Graça, e ainda à margem da zona principal do comércio citadino, nunca foi uma rua cujo nome lembrasse, ao pronunciá-lo, uma especialidade comercial que a dominasse. No entanto lá teve uma zona que era a das sapatarias e lá teve também as suas casas de venda de bixas (barbearias?).
Da indústria, alem da dos tamancos e das violas, só mais duas, na segunda metade do século passado se afeiçoaram à rua: a hoteleira, na parte que desce para o sul, e a das molherinhas de porta, no pitoresco dizer do quinhentista Miguel Leitão de Andrade ao referir-se às mulheres que se vendiam a si próprias, as quais, sorrateiramente, fugindo a vigilância por entre as sombras imprecisas projectadas pela mortiça luz de azeite, se foram acomodando, hoje uma, amanhã outra, depois várias, ao fim da rua, junto à Betesga, no enfiamento da Mouraria, foco principal. Foi esta a parte suja da rua. Foi ... e infelizmente ainda é, pelo menos à noite, na passagem obrigatória para as casas duvidosas do beco do Rosendo. Mas tirando esta parte — a que resvala das embocaduras das escadinhas de Santa Justa e da travessa da Madalena, antigo beco do Monete — a rua foi sempre uma artéria limpa, uma rua pacatamente habitada pela burguesia com alguma coisa de seu, circunstância que lhe emprestou noutros tempos um ar calmo, de intimidade, que nos confidenciava morarem ali as senhoras Silvas com o seu jogo de gamão, as suas fatias de pão de fôrma com manteiga, o seu chá, e os seus bolos do afamado Baltresqui ...==
[MACEDO, Luiz Pastor de, Tempos que passaram; um artista, uma rua e uma freguesia de Lisboa, 1940]

Rua da Madalena (S→N) |c. 1911|
A dir. lê-se o dístico municipal indicando o então Beco do Monete, que por edital de 1924, passou a denominar-se Tv. da Madalena. Ao funco fica o Poço do Borratém.
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente
Legenda no abandalhado amL:«Manietação popular»

O topónimo Rua da Madalena, como o próprio nome indica, deriva da proximidade à Igreja da Madalena, existente desde pelo menos 1164, mandada construir por D. Afonso Henriques junto à Cerca Moura, em terrenos onde outrora se erguia um templo romano dedicado a Cibeles, a deusa-mãe.
De acordo com o olisipógrafo Luíz Pastor de Macedo, esta artéria teria sido a Rua do Arco de N. S. da Consolação. Por seu lado, Norberto Araújo defendia que não correspondia a qualquer arruamento existente antes do terramoto de 1755. Em 1841, adianta, ainda nesta artéria não havia passeios empedrados.

 

Rua da Madalena em 1911 e 1901, respectivamente
A primeira transversal na imagem da esq. é a Rua de Santa Justa (escadinhas)
Na imagem da dir. vê-se a embocadura das Escadinhas de São Cristóvão, sendo que, ao prédio com que estas faziam gaveto, foi acrescentado do lado poente
uma fiada com um arco que se abre sobre a antiga serventia.
Fotografias por Alberto Carlos Lima e Machado & Souza, in Lisboa de Antigamente

Monete (beco do) primeiro á esquerda nas escadinhas de S. Christovão, indo da rua da Magdale Magdalena, e finda na rua da Magdalena, não tem saída, freguezia de Santa Justa 2 a 50 e 1 a 9.

Monete (Beco do) Em 1551 «rua do Monturo do Bonete», assim como as Escadinhas de S. Cristóvão «rua da calçada do Monturo do Bonete», havendo também no sítio a «travessa do Monturo do Bonete».
Em 1715, a rua do Monturo do Bonete desceu já à categoria de «beco», e a sua denominação está reduzida a «Beco do Bonete». Em 1763, ainda o Padre Castro lhe chama igualmente «Beco do Bonete». Aparece, enfim, o beco do Bonete transformado em beco do Monete, no Itinerário de Inácio Paulino, edição de. edição de. 1804. É. provável. que. a. transformação. venha. da. aposição geral dos letreiros, mandada executar dois anos antes pela Administração Geral dos Correios.
É o segundo à esquerda, subindo pela rua da Madalena e termina nas escadinhas de S. Cristóvão, diz o Itinerário lisbonense de 1818. [Brito: 1935]

Beco do Rosendo |c. 1945|
Perpectiva tomada da Rua da Madalena.
Fernando Martinez Pozal, in Lisboa de Antigamente

Em Lisboa há um beco hoje chamado «do Rosendo» que pelos documentos antigos e pelo Tombo da Cidade, composto depois do terremoto de 1755, se vê ter tido a denominação de Resende. [O Archeólogo português: 1906]

sexta-feira, 1 de maio de 2026

Rua de Martim Vaz

Martim Vaz (Rua de) É a segunda à direita, subindo pela calçada de Santa Ana e termina na mesma calçada, ensina o Itinerário Lisbonense de 1818. Derivou-lhe o nome de um célebre letrado que figura já na Estatística de 1552. Cristóvão Rodrigues de Oliveira dá na freguesia de Santa Justa um Beco de Martim Vaz, não mencionando rua com tal denominação. Por onde se poderá entender que seja o denominado Beco a actual Rua, mas mais ampla do que seria então tal artéria da cidade, por força de modificações locais posteriores. 

Rua de Martim Vaz, 1 |1923|
Letrado do Século XVI
Perspectiva tirada da Cç. de Sant'Ana.
Nota(s): Amália Rodrigues nasceu nesta artéria em 1920.

Fernando Martinez Pozal, in Lisboa de Antigamente

É preciso porém advertir que houve nesta época outro indivíduo com igual nome, e também com tal qual notoriedade. Era juiz do Pezinho e como tal encontramos este outro Martim Vaz em 1565. Morava porém na Rua do Cura da Madalena, freguesia desta invocação. [Brito: 1565]

Rua de Martim Vaz N→S |1902-05|
Letrado do Século XVI
Perspectiva tomada junto ao Largo do Tabelião que se abre à dir. na imagem. 
Machado & Souza, in Lisboa de Antigamente

sexta-feira, 11 de abril de 2025

Rua da Judiaria

Judiaria (Rua da) Principia no largo de S. Rafael, e finda no Arco do Rosário. Freguesia de Santa Maria Maior. Houve em Lisboa várias judiarias que, tais como o vocábulo indica, eram bairros habitados por judeus, do mesmo modo que os muçulmanos tinham as suas «mourarias». A actual rua é o único vestígio que existe da «Judiaria d'Alfama», extinta em 1496.
[BRITO, Gomes de) Ruas de Lisboa. Notas para a história das vias públicas, 1935]

Rua da Judiaria,  antes das obras de remodelação |1960|
Rua da Judiaria vista do Arco Rosário.
Apontamento para as graciosas janelas a espreitar do murete que quasi as encobre. 
Salvador de Almeida Fernandes, in Lisboa de Antigamente

Não se comporta aqui uma notícia, sucinta que seja, acercar das Judiarias de Lisboa — recorda por seu lado o ilustre Norberto de Araújo — olisipógrafo que legendou Lisboa.
Em apontamento posso dizer-te que aquela existente neste sítio no século xv era chamada Judiaria da Alfama, ou a «Pequena», por oposição à «Grande» que existiu onde se ergueu a Conceição Velha, à Madalena, desaparecida pelo Terramoto. Esta Judiaria, como todas, foi extinta em Dezembro de 1496, como acima vimos, por D. Manuel, logo no ano seguinte aquele em que subiu ao trono: foi o presente de noivado à fanática D. Izabel, gentil viúva de seu primo o Príncipe D. Afonso, filho de D. João II, morto aos 17 anos.
E os judeus foram-se do Reino — violência que só prejudicou o país — e as judiarias ficaram desertas.
Aí a temos hoje — morta

Rua da Judiaria |1960|
Rua da Judiaria
 cachorrada, do terraçoadarve que foi da muralha
Armando Serôdio, in Lisboa de Antigamente

Respira-se, porém, neste recanto ou betesga um arcaísmo, de que este brasão da muralha é o mantenedor silencioso. Observa daqui a silhueta desluzida quem quer saber destas velharias? da cachorrada, do terraço, adarve que foi da muralha [erigida em 1375 por El-Rei D. Fernando], e o apontamento das graciosas janelas a espreitar do murete que quasi as encobre.  [Araújo: 1939, X, 48]

Rua da Judiaria no velho bairro d'Alfama |1911|
Tem a vetusta rua da Judiaria uma feição pronunciadamente arcaica; e o seu principal
brasão é a altissima muralha de cantaria de uma casa grande á esquerda de quem sobe,
casa cuja frente dá sobre a rua de S. João da Praça, e que julgo ser a do citado João Vogado,
escrivão da fazenda d'El-Rei D. Affonso V.
Alfredo Roque Gameiro (1864-1935), in BNP

domingo, 16 de março de 2025

Rua dos Ourives da Prata

À rua que em 1755 subia do Largo do Pelourinho, e que então “trifurcava, depois de percorridos os seus quatrocentos e oitenta e quatro palmos”, nas ruas das Pedras Negras, da Correaria e do Arco de Nossa Senhora da Consolação, designava-se, então, de Rua dos Ourives da Prata

Assim descreve Luís Pastor de Macedo a rua que, por alvará de D. Manuel I, de 19 de Abril de 1514, relativo ao arruamento dos ofícios, estabelecia que do dia de São João em diante, passassem para a Rua Nova d’El Rei [actual R. do Comércio] os ourives do ouro, ficando a designada Rua da Ourivesaria à disposição dos “prateiros”, para nela abrirem as suas oficinas. 
Rua (dos Ourives da Prata) |séc. XIX|
Os «carros americanos» um dos mais famosos meios de transporte lisboetas. Mais confortáveis que os «Choras», serão substituídos gradualmente pelos carros eléctricos que a Carris começa a comprar durante a última década de oitocentos.
Emílio Biel, in Lisboa de Antigamente

Mais tarde, em 1551, de acordo com descrição de Cristóvão Rodrigues de Oliveira, surge esta rua já designada por Rua da Ourivesaria da Prata, ou, também, por Rua dos Ourives da Prata, nome apresentado por João Brandão em 15527, embora a antiga denominação de Rua da Ourivesaria perdurasse até finais do terceiro quartel do século XVI. 
A 20 de Fevereiro de 1588, uma provisão de Filipe I, relativa ao arrua- mento do ofício dos ourives da prata, refere que “os ourives morassem, e estivessem suas tendas no arruamento”, tendo os vereadores elaborado uma postura para que não pudessem os ditos ourives morar, nem possuir as suas oficinas, fora do respectivo arruamento, na Rua da Ourivesaria da Prata.

Rua (dos Ourives da Prata) |1917|
Antiga Bella da Rainha, junto à Igreja de São Nicolau na Rua da Vitória
Venda da Flor, iniciativa da escritora Genoveva da Lima Mayer Ulrich a favor das vítimas da I Grande Guerra.
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente


Na Lisboa erguida após o terramoto de 1755, a Rua dos Ourives da Prata, juntamente com a dos Ourives do Ouro, evidenciava-se pelas preciosidades expostas aos olhares de quem por elas passava e pasmava. Assim descrevia Carl Ruders, aludindo às referidas ruas, nas quais “havia sempre muita gente pasmada”, porque “todas as lojas das casas (...) são ocupadas por estabelecimentos onde se vem expostas as alfaias e jóias mais preciosas”. Obras de ouro e prata “de toda a espécie”, que se revelavam em armários envidraçados, suspensos dos dois lados das portas”-

Rua (dos Ourives da Prata) |1917|
A Rua da Prata nasceu em 1910 como topónimo da Baixa pombalina, por via da publicação do Edital camarário de 5 de Novembro, o 1º relativo a toponímia após a implantação da República em Portugal, substituindo a Rua Bela da Rainha que havia sido atribuída em 1760, pela Portaria de 5 de Novembro, a 1ª sobre toponímia. 
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente


Bibliografia
MACEDO, Luís Pastor – A Igreja de Santa Maria Madalena de Lisboa. Lisboa: Solução Editora, p. 5.1930,.
RUDERS, Carl Israel – Viagem em Portugal: 1798-1802. Lisboa: B.N.P., p. 35, 1981.
CARLOS, Rita, Da Rua dos Ourives da Prata à Rua Bela da Rainha: as lojas dos ourives da prata em Lisboa na segunda metade do século XVIII, 2015.

sexta-feira, 4 de outubro de 2024

Ruas da Alfândega e dos Bacalhoeiros

As Rua Nova da Alfândega e a Rua da Ribeira Velha [actual Rua do Instituto Virgílio Machado] passaram a constituir um único arruamento, com a denominação de Rua da Alfândega, por edital do Governador Civil de Lisboa de 1 de Setembro de 1859, em razão do edifício da Alfândega que ocupa todo o lado sul desta Rua, uma construção pombalina posterior ao terramoto de 1755 que veio substituir a alfândega quinhentista que se situava aproximadamente onde hoje confluem as Ruas do Comércio e da Madalena.
De acordo com o olisipógrafo Pastor de Macedo, a partir de 1755 a parte oriental da rua era a Ribeira Velha que só em 1836 aparece como Rua da Ribeira Velha, enquanto a parte compreendida entre o Terreiro do Paço e a Rua dos Arameiros foi denominada como Rua Direita da Misericórdia (1766), Rua da Misericórdia de Baixo (1780), Rua dos Freires da parte de baixo (1787), Rua da Conceição dos Freires da parte do mar (1799) e Rua Nova da Alfândega (1806).

Rua da Alfândega |Início séc. XX|
À esquerda, a Rua dos Arameiros e à dir. o edifício da antiga Alfândega [hoje Min. Finanças].
Paulo Guedes, in Lisboa de Antigamente

De acordo com Gomes de Brito, pelo mesmo Edital do Governador Civil de 1 de Setembro de 1859, as Ruas dos Bacalhoeiros e dos Confeiteiros foram mandadas reunir em uma só, sob a designação de «Bacalhoeiros». A dos Confeiteiros, que anteriormente a 1755 se denominava «Rua de Cima da Misericórdia» principiava no Arco Escuro (Campo das Cebolas) e findava na rua da Madalena. [Brito: 1935]

Ruas da Alfândega e dos Bacalhoeiros (dir.) | c. 1900|
Ao centro vê-se o antigo Terreirinho das Farinhas composto por um renque de seis
pequenos núcleos de casas sito entre a Rua dos Arameiros e o Campo das Cebolas e demolido na década de 1940.

Autor desconhecido, in Lisboa de Antigamente

sexta-feira, 14 de abril de 2023

Escadinhas de Santa Justa

Aqui temos as Escadinhas de Santa Justa, que levam à Rua da Madalena, e em cuja esquina do lado de cima, se deu o pavoroso «incêndio da Madalena», na madrugada de 10 de Abril de 1907.
Existiu aqui, à entrada das Escadinhas — recorda o ilustre Norberto de Araújo — a paroquial de Santa Justa, uma das primeiras de Lisboa, fundada — crê-se — em 1166. A Igreja sofreu incêndio no dia seguinte ao do Terramoto. Pensou-se em construir outra neste local, precisamente onde se elevou depois esse prédio enorme, com os armazéns da Companhia do Papel do Prado [actual Pollux]; a paroquial instalou-se mal, numa parte logo edificada, mas as obras demoravam, veio o regime liberal (1833), e Santa Justa, paroquial, transitou para a Igreja de S. Domingos. Instalou-se então aqui um batalhão da Guarda Nacional de Lisboa, que durou até 1838; depois o edifício que, como igreja nunca se chegou a concluir, converteu-se em teatro, o «Teatro de D. Fernando», que existiu até 1860. Só depois se realizou a urbanização do local (1863-1864). 

Escadinhas da Rua de Santa Justa |c. 1945|
Escadinhas que ligam a Rua dos Fanqueiros à Rua da Madalena (ao cimo)
Fernando Pozal, in Lisboa de Antigamente

O que sobreviveu (até que a municipalidade se esforce em o apagar) — afirma, por seu lado, Mestre Castilho — é apenas o titulo do orago. O largo de Santa Justa, e as escadinhas ou travessa [Rua] de Santa Justa, são os últimos padrões que nos ficaram d'isso tudo!

Escadinhas da Rua de Santa Justa |1971|
Escadinhas que ligam a Rua da Madalena  à Rua dos Fanqueiros (ao fundo)
Armando Serôdio, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XII, pp. 40-41, 1939.
CASTILHO, Júlio de,  Lisboa antiga, vol. IV,  1885, 

domingo, 9 de abril de 2023

Sítio das Pedras Negras: Prédio do Almada

Este prédio alto que olha o Largo, entre a Rua da Madalena e a Travessa do Almada, encostado pelo posterior à Travessa das Pedras Negras, foi construído, num aspecto que não diverge muito do actual, em 1749, por João Manuel de Almada e Melo, visconde de Vila Nova de Sotto de El-Rei, tenente general, paroquiano, que no sítio das Pedras Negras outras mais casas edificou. Desse Almada — recorda Norberto de Araújo — veio o nome à Travessa e ao prédio, pois ainda há quem o designe por aquele título.

Largo da Madalena, 3-5 6 |1901|
O «Prédio do Almada» sofreu modificações nos séculos XIX e XX — foi-lhe acrescentado
uma fiada do lado nascente — hoje porta com o n.º 6À esq., a Rua da Madalena e, à dir.,
a Travessa do Almada.

Machado & Souza, in Lisboa de Antigamente

Lisboa está cheia de testemunhos da força inconsciente das tradições orais. O edifício — aliás sensaborão — , n.°ˢ 3 e 5 [6] do Largo, tem, como vês, seis andares, além dos estabelecimentos em loja; há quem suponha ter ele pertencido a um ramo da família Pombal, no começo do século passado. [...] Neste edifício funcionou, durante algum tempo, no século passado [séc. XIX], o Senado da Câmara de Lisboa. [...]

Prédio do Almada visto da Travessa do Almada |1901|
À dir., a Travessa das Pedras Negras e, ao fundo, o Largo da Madalena.
Machado & Souza, in Lisboa de Antigamente

Na parede do edifício Almada desta Travessa estão embebidas quatro lápides e pedras romanas, que podes ler e ver sem dificuldade. Foram encontradas soterradas neste local, em 1749, quando o tal João de Almada e Melo ordenou aberturas de novos caboucos para erguer sua propriedade. Este sítio foi fértil em achados arqueológicos, do tempo da dominação romana. Mas falemos por agora apenas destes. 
A maior [a 3ª lápide nas  imagens abaixo] corresponde, na legenda latina, a uma dedicatória de Lisboa a um pretor. Pode traduzir-se deste modo: "Felicitas Julia, Olisipo, dedica a Lúcio Cecílio, filho de Lúcio Celeri, recto questor da província da Bética, tribuno do povo e pretor”

Prédio do Almada, fachada lateral sobre a Tv. do Almada |190-|
O edifício integra na sua fachada nascente quatro lápides com inscrições romanas, conhecidas como Lápides das Pedras Negras.
José A. Bárcia
, in Lisboa de Antigamente

 

Esta primeira lápide, no começo da Travessa, está incompleta; é, na melhor das interpretações, uma dedicatória de certo Caio Júlio a Mercúrio e a César Augusto.
A lápide a seguir [2ª lapide abaixo], sobre uma pequena coluna, diz justamente, no seu latim, que "Tito Licínio Amarântio por voto dedicou à mãe dos deuses” [Cibele].
Esta outra da extremidade  [4ª lapide abaixo], mais decorativa, tem a legenda completa. Interpreta-se desta forma: Tito Licínio Cerno, natural de Lychaonia, dedicou à mãe dos deuses, a grande Ida da Frígia, sendo nobres duúnviros Cássio e Cassiano , e cônsules nobilíssimos Marco Atílio e Afroniano, e sendo governador Gaio".
Mas deixemo-nos de deuses e de cônsules; o muito interessante deste assunto (por aqui foram encontradas algumas dezenas de monumentos epigráficos romanos) excede os nossos planos. 

Prédio do Almada, lápides romanas, pormenor |194-|
Ad quatro lápides dedicadas aos deuses Mercúrio e Cibele. Classificadas como Monumento Nacional, desde 1910, foram descobertas aquando da construção do prédio, juntamente com imponentes ruínas romanas.
in Lisboa de Antigamente

Mas subamos: eis-nos na "Avenida" do sítio: a Rua das Pedras Negras, que abrange por um lado e outro três quarteirões , a ligarem a Rua da Madalena com a Sé .⁼⁼
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa», vol. II, p. 16, 1938)

sexta-feira, 1 de abril de 2022

Largo de São Cristóvão

Estamos diante de S. Cristóvão — na companhia de Mestre Araújo —, no Largo pequeno que tem a Sul, defronte do templo as Escadinhas que levam à Rua da Madalena. Encosta-te à cortina: observa-me essas minúsculas casitas, do principio do século passado, acumuladas, em capricho de intersecção, graciosas na suas escadas exteriores, e melancólicas no seu ar de condenadas perante um urbanismo racional
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. III, p. 52, 1938)

Largo de São Cristóvão |c.1900|
Confluência da Rua de São Francisco, Rua do Regedor e Calçada Marquês de Tancos; Igreja de de S. Cristóvão.
José A. Bárcia, in Lisboa de Antigamente

Este arruamento e os envolventes (Escadinhas e Rua de São Cristóvão) devem o seu nome à Igreja de São Cristóvão, de que são adjacentes. Segundo o Dicionário da História de Lisboa: "Onde assentou provavelmente a igreja de Santa Maria de Alcamim (talvez do séc XII), porquanto aparece ainda mencionada no 1º quartel do seguinte, ergue-se este templo de orago já usado no começo do séc. XIV. (...) É um dos poucos monumentos do séc. XVIII, da área central de Lisboa, que resistiu ao terramoto de 1755 (...)."

Escadinhas de São Cristóvão |1961|
O painel de azulejo foi substituído em 1969 por um baixo-relevo representando São Cristóvão; encimando as Escadinhas, o Largo e Igreja de São Cristóvão.
Artur Goulart, in Lisboa de Antigamente

quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

Profissões de antanho: o vendedor d'ostras

O pregão do homem das ostras é curto, sacudido, rijo como a concha do molusco. Vê-se que o vendedor d'ostras não pode perder tempo, por causa do que lhe gasta o abril-as:

 

— Quem quer ostras?

— Ostras, ostras!


Todas as tardes os homens das ostras as vinham vender, apregoando e cirandando por aí, quase sempre indivíduos de meia-idade para quem aquele fraco negócio ia dando para as necessidades da vida, então sem reforma. Normalmente eram homens que tinham sido do mar e junto deste, pela Margem Sul do Tejo, por Aldeia Galega (hoje Montijo) e proximidades, esgravatariam nos bancos de ostras os preciosos moluscos que vinham vender pelas ruas e aos restaurantes onde se cozinhavam bons pitéus.

Vendedores d'ostras |191-|
Rua da Misericórdia, antiga de S. Roque, esquina com a Tv. do Poço da Cidade. 
Alberto C. Lima, in Lisboa de Antigamente

No estrangeiro, sobretudo em Inglaterra e França, as nossas ostras foram sempre muito apreciadas, e neste último pais até apresentadas nos restaurantes com o aliciante letreiro: huítres portugaises.
A avolumar a fama das ostras portuguesas dizia-se que um navio que as levava para França naufragara perto da foz do Loire, e os moluscos, libertados dos caixotes, ter-se-iam fixado nos bancos daquele rio, cerca de Nantes, onde agora as exploram em viveiros, mas sempre com o cartaz de huítres portugaises!
É de lamentar que a poluição das águas do Tejo tenha acabado com as nossas ostras, o que não só fez desaparecer os vendedores que, melodiosamente embora em baixo tom, as apregoavam, como acabou um excelente petisco popular.

— Quem quer ostras?

— Ostras, ostras!

 

Marchand d'huitres |c. 1914|
Rua da Madalena, 271
Charles Chusseau-Flaviens, in Lisboa de Antigamente
Nota(s): o local da foto não está identificado no arquivo.
 
Bibliografia
DINIS, Calderon, Tipos e factos da Lisboa do meu tempo: 1970-1974, p. 290, 1986.

sexta-feira, 28 de junho de 2019

Rua dos Fanqueiros

A Rua dos Fanqueiros — diz Norberto de Araújo — é o primeiro produto que eu te mostro da imaginativa simétrica dos arquitectos de Pombal.
Destinada aos mercadores de fancaria, de lençaria e de quinquilharia — se para estes houvesse espaço — começou por chamar-se Rua Nova da Princesa (e ali tens o dístico no cunhal da Rua), e, por vezes, Rua Bela da Princesa por analogia cem a Rua Bela da Rainha (Rua da Prata), ou simplesmente Rua da Princesa. Vinte anos depois do Terramoto era Rua Nova dos Fanqueiros, e, depois, Rua dos Fanqueiros.

 

Rua dos Fanqueiros [1911]
 Rua de Santa Justa; Comemoração do 1.º aniversário da República.
António Novais, in Lisboa de Antigamente

A estrutura urbanística da cidade de Lisboa foi largamente determinada pelo terramoto extremamente intenso que destruiu grande parte do núcleo urbano em 1 de Novembro de 1755. O sismo e o vasto incêndio que se lhe lhe seguiu causaram cerca de 10 000 mortos e perdas materiais incalculáveis em edifícios e bens patrimoniais móveis. Na ausência do Rei D. José, que temia regressar à capital, o longo e complexo processo de reconstrução foi dirigido por Sebastião José de Carvalho e Melo, ministro do Reino e futuro Marquês de Pombal.

Rua dos Fanqueiros, 39-40 [c. 1910]
«Drogaria e perfumaria Dias»
Após a requalificação toponímica de 1950, este troço foi integrado na actual Praça da Figueira, 11.
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

A sua parte principal define-se entre o Terreiro do Paço e o Rossio, regularizando as duas praças tradicionais e criando, de uma para outra, uma rede de ruas longitudinais e transversais, cortando-se em ângulos rectos, com importância variada que é expressa pela largura dos seus leitos, passeios (e esgotos), inovação nos hábitos urbanos. Do terreiro ribeirinho partem três ruas «nobres»: Áurea, Augusta e Bela da Rainha (da Prata), das quais as duas primeiras desembocam no Rossio e a outra contra a fachada lateral do velho Hospital Real de Todos-os-Santos que daria sobre o Rossio mas que, não sendo reconstruido (passou ao Convento de Sant'Antão/S. José), abriu espaço para uma praça paralela a este, onde se instalou, primeiro provisória e depois definitivamente, um mercado (Praça da Figueira). Ainda duas ruas paralelas a estas, Nova da Princesa (dos Fanqueiros) e da Madalena, têm igual comprimento, enquanto outras três, na mesma direcção, se entremeiam, a partir da terceira das três grandes vias transversais a contar do Terreiro do Paço — a primeira das quais e a Rua Nova d'El-Rei (do Comércio) que adoptou, corrigindo-a geometricamente no alinhamento, a direcção da velha e famosa Rua Nova dos Ferros. Entre todas estas ruas definem-se também quarteirões longitudinais e transversais, num ritmo dinâmico que vitaliza a malha urbana, salvando-a da monotonia aparente.

Rua dos Fanqueiros, 152-160 [c. 1910]
Após a requalificação toponímica de 1950, estes prédios correspondem aos números de polícia 34-44, junto à Rua do Comércio.
Alberto Carlos Lima, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XII, p. 38, 1939.
FRANÇA, José-Augusto, Lisboa: Urbanismo e Arquitectura, pp. 45-46, 1980.

sábado, 29 de julho de 2017

Igreja dos Freires da Conceição Velha ou Conceição Velha (antiga da Misericórdia)

Ora bem, Dilecto — expressão com que habitualmente Norberto de Araújo interpela o leitor — mais tem que ver a Rua dos Bacalhoeiros, em 1755 designada Rua de Cima da Misericórdia, e depois, e até à dos Arameiros, aberta depois do Terramoto, chamada dos Confeiteiros.
E da Misericórdia, porquê? Porque no chão onde se eleva hoje um quarteirão de propriedades sólidas, entre as Ruas dos Bacalhoeiros e da Alfândega, se ergueu no começo do século de quinhentos a Igreja do Recolhimento da Misericórdia.
Pois metamos já por esta transversal da Rua dos Arameiros, e vamos ver o que resta desse templo manuelino, chamando, desde a segunda metade do século XVIII, da Conceição Velha. Quedemo-nos sob o majestoso pórtico. Duas breves notícias de história, que é simples, afinal.
   A instituição das Misericórdias foi obra, como já disse quando passámos pela Sé, e por S. Roque, da Rainha D. Leonor. A primeira Confraria, instalou-se na Capela de N. Senhora da Piedade, vulgo da Terra Sôlta no claustro ogival da Sé, em 15 de Agôsto de 1498.
   Prosperou a Confraria, ou seja a Misericórdia de Lisboa, reconhecendo-se pouco depois que a capela claustral da Sé era mesquinha para sede da instituição. D. Manuel, irmão da Rainha fundadora, viúva de D. João II, projectou, não se sabe ao certo o ano, mas seguramente depois de 1510, erguer neste chão — que era ocupado por vários edifícios públicos, como o Paço do Trigo, a Portagem, o Paço da Madeira — um majestoso templo e Casa para Misericórdia, a obra querida de sua irmã, inspirada por freire Miguel Contreiras.
   Era o tempo opulento da Índia e do Brasil, caracterizado pela sumptuosidade na arquitectura religiosa. A obra — templo, Recolhimento das Orfãs e Casas da Misericórdia — só se concluiu em 1534, tempo de D. João III, já havia falecido (1525) D. Leonor. A Igreja ostentava-se de três naves, sendo a abóbada apoiada ao centro por seis colunas monolíticas (de mármore?) e por mais catorze laterais, pilares de sustentação da cobertura; as casas anexas ocupavam quatro pavimentos.
   Obra notável era, de precioso recheio. Orientada no sentido poente-nascente, a porta principal com seu adro rasgava-se, de começo, para o Largo da Portagem, prolongamento, então da Rua da Padaria; a sua porta travessa, a sul, é hoje o portal desta Conceição Velha (já vou dizer, porque se chama Conceição Velha).

Igreja da Conceição Velha [ant. 1900]
À esquerda, a Rua dos Arameiros em direcção ao Campo das Cebolas
Rua da Alfândega, 112-114 
Augusto Bobone, in Lisboa de Antigamente

   Veio o Terramoto. Aluiu e incendiou tudo. Do templo escaparam este pórtico magnífico, a Capela do Espírito Santo, hoje Capela-mor, e uma ou outra imagem.
   D. José ordenou que se reedificasse a Igreja, mas a Misericórdia andou de empréstimo por aqui e por ali, até que ocupou a Casa dos Jesuítas de S. Roque.
   A nova igreja, já num estilo bastardo da arquitectura religiosa, cujo risco é de Francisco António Ferreira, o «Cangalhas», foi entregue aos freires de Cristo de Nossa Senhora da Conceição, cuja Casa e templo haviam ardido também.
   Aquela Igreja da Conceição [vd. gravura] que ocupava uma antiga sinagoga dos judeus, situava-se próximo à Madalena, caindo sobre a actual Rua dos Fanqueiros junto ao quarteirão cujas traseiras são a Rua dos Douradores; fora N. Senhora da Conceição dada aos freires de Cristo em troca da Ermida do Restelo, derrubada para se erguer os Jerónimos, e chamava-se, por oposição, «a Velha» (paroquial em 1568), porque em 1698 se construíra outra sede paroquial de N. S. da Conceição «Nova» — desaparecida também pelo, Terramoto — e que se localizava onde passa hoje a Rua da Prata, segundo quarteirão do sul, então Rua Nova dos Ferros.
   E como foram os freires da Conceição Velha que para a antiga Misericórdia vieram em 1770, esta Igreja que temos à vista se passou também a chamar da Conceição Velha.
   Falta dizer que nunca estes chãos foram de sinagoga e de judeus, (como anda escrito), ou sítio de uma Vila Nova de Gibraltar, que nunca existiu, versão esta que corre derivada de um dos raros erros do grande Herculano, e que mestre Vieira da Silva teve a felicidade de poder desfazer, sem deixar qualquer espécie de dúvida.
Ficaste sumariamente a par do que isto foi, e como e porque foi.

Vista de Lisboa [1598?-1610?]
(clicar para  ampliar)
Olissippo quae nunc Lisboa, civitas amplissima Lusitaniae ad Tagum, totius orientis... emporium nobilissimum
Autores: Georg Braun, gravador (1542-1622) e Franz Hogenberg, geógrafo (1535-1590)
Esta gravura, colorida à mão e gravada em cobre, faz parte da colecção "Civitates Orbis Terrarum" publicada entre 1572 e 1618. Representa  a cidade de Lisboa com Armas Reais e as Armas de Lisboa ladeando uma rosa dos ventos e com os edifícios e espaços públicos numerados correspondente a uma legenda na parte inferior e superior..

Assinalados no mapa: 
Antiga Igreja da Misericórdia, actual Conceição Velha
Primitiva Igreja da Conceição
Terreiro do Paço, actual Praça do Comércio
Sé Patriarcal de Lisboa

Agora contempla o Pórtico — antiga porta travessa lateral —, obra de peregrinos lavrantes da pedra: ali tens, sobre a porta geminada, dentro do arco, o quadro escultórico, pormenor largo historiado desta bela peça arquitectónica, e que representa N. Senhora da Misericórdia, de manto aberto [sustido por dois anjos], tendo de joelhos, a seus pés, de um lado D. Manuel, D. Leonor, e alguns príncipes, e do outro o Pontífice Leão X, freire Miguel Contreiras — o inspirador das Misericórdias —, e algumas figuras da Igreja. Este quadro admirável esteve retirado deste seu lugar, desde 1818 a 1880, substituído por uma grade iluminante da Igreja, e colocado numa capela da nave, então de N. Senhora das Mercês.

Igreja da Conceição Velha, aguarela [s.d.]
Pórtico de estilo manuelino
Rua da Alfândega, 112-114 
Autor desconhecido, in Lisboa de Antigamente

De cada um dos lados do Pórtico rasga-se uma formosa e decorativa janela, avolumando a beleza deste conjunto plástico, que o frontão alto de remate avilta até à mesquinhez.
Como observas, esta peça solta de arte, encravada entre prédios vulgares do século passado [XIX], é de puro estilo manuelino, do tipo dos pórticos dos Jerónimos, posto que menos grandioso e exuberante.
A-pesar-de, aparte o pórtico, a Conceição Velha não ser famosa, ela merecia mais dilatada visita; se deste templo mais quiseres saber recomendo-te o livro «A Igreja da Conceição Velha», de Filipe Nery de Faria e Silva (1900).

Igreja da Conceição Velha [c. 1940]
Capela de Nossa Senhora do Restelo ou do Parto, quadro
oferecido pelo Infante D. Henrique aos freires.
Rua da Alfândega, 112-114 
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Vejamos agora o templo no seu interior — prossegue o autor das Peregrinações — obra do final de setecentos, cuja torre sineira se encrava em propriedades particulares. (...)
À direita vemos a Capela de N. Senhora do Restelo  [vd. imagem acima], ou do Parto — pela circunstância de a Virgem, sentada numa cadeira (esta de madeira) ter o Menino Jesus nu sobre os joelhos. Esta imagem, em pedra pintada, é o venerando monumento dêste templo, relíquia da imaginária religiosa portuguesa; pertenceu à primitiva Ermida de N. Senhora do Restelo, doada em 1460 pelo Infante D. Henrique aos freires de Cristo, e adveio de Sagres onde o Infante teve sua Casa, sendo por consequência anterior à Ermida, podendo atribuír-se-lhe meio milhar de anos de idade (há receio de se lhe tocar por correr o perigo de se desfazer).
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Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. X, pp. 16-19, 1939.

quinta-feira, 2 de março de 2017

Igreja de S. Cristóvão

Estamos diante de S. Cristóvão, no Largo pequeno que tem a Sul, defronte do templo as Escadinhas que levam à Rua da Madalena. Encosta-te à cortina: observa-me essas minúsculas casitas, do principio do século passado, acumuladas, em capricho de intersecção, graciosas na suas escadas exteriores, e melancólicas no seu ar de condenadas perante um urbanismo racional. 

 
Não reparaste que apenas pelo enunciado — S. Cristóvão tem uma ressonância bairrista? Ora vejamos o templo, que do seu começo esteve isolado, e só mais tarde foi rodeado de casas e, por consequência, de betesgas, naquele amontoado indisciplinado que caracterizava os focos de população crescente nos séculos da primeira dinastia.

 

Igreja de São Cristóvão, fachada principal [c. 1900]
Largo de São Cristóvão
Machado & Souza, in Lisboa de Antigamente

A igreja primitiva remonta talvez a finais do século XII, denominada então Igreja de Santa Maria de Alcamim. Há notícia que durante o reinado de D. Manuel I a igreja sofreu um incêndio que a deixou totalmente destruída. Em 1610 é restaurada e em 1671-72 dá-se a conclusão das obras. No século XVIII, resistiu globalmente ao Terramoto de 1755, mantendo-se a fachada maneirista da igreja característica do século XVII. 

Igreja de São Cristóvão, fachada lateral [c. 1900]
Calçada Marquês Tancos
Machado & Souza, in Lisboa de Antigamente


O tecto da nave tem pintura ornamental exuberante, apresentando 15 quadrelas desenvolvendo-se em torno do painel central, composto por figuração de anjos ao redor de uma custódia barroca. Possui 44 telas de Bento Coelho da Silveira, de finais do século XVII. Sabe-se que «contam a história de S. Cristóvão, falam de S. Francisco, de Santo António, dos jesuítas S. Francisco Xavier e Santo Inácio de Loyola, falam sobre o Céu», mas estão quase ilegíveis, aliás, tudo está em risco devido à infiltração de água pelo telhado.

Igreja de São Cristóvão, traseiras [c. 1900]
Rua da Achada
Machado & Souza, in Lisboa de Antigamente

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Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. III, p. 52, 1938.
cm-lisboa.pt.
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