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quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Poço do Borratém

E "Borratém" porquê? — questiona Norberto de Araújo.  O enigma foi, porém, esclarecido pelo arabista, ilustre professor Dr. David Lopes: a palavra é árabe, formada por ber e atten, o que significa "poço da figueira". A atual Praça da Figueira (mercado) corrobora a explicação. O poço e a designação são antigos, eis o que é certo.
No meado do século passado [XIX] explorava a água uma companhia de aguadeiros, e, antes, em 1818, existia uma Irmandade de Santo André e das Almas que cobrava um tributo a quem aproveitava o líquido, fiado nas suas virtudes. [Araújo: 1938]

O Poço do Borratém, que deu o nome ao Largo onde está situado, era conhecido no tempo antigo, e teve até grande nomeada, confirmada por Curvo de Semedo na sua obra Polyanthea Medicinal.
Diz este autorizado autor das excelências comprovadas desta água em curar «achaques do fígado, impigens, bostelas e outros males cutâneos». Segundo as suas declarações, «Pedro Castilho, juiz do Terreiro,  Álvares Rocha, inquisidor, e a rainha D. Luísa de Gusmão, esposa de D. João IV, dela fizeram uso com satisfatório êxito em quenturas do fígado, costras e outras misérias ».

Poço do Borratém |194-|
António Castelo Branco, in Lisboa de Antigamente

Em Lisboa Ocidental, chegado às Casas do couto dos [Condes de Monsanto]  e Marquezes de Cascaes, está o grande poço do Borratem, muy abundante de agoa, de que bebe a mayor parte da sua vizinhança; a qual he comuummente reputada por boa para os que padecem achaques de calor, assim bebendoa, como tomando banhos nela, do que fez algumas observações o doutor João Curvo Semedo.══
(i
HENRIQUES, Francisco da Fonseca, (1665-1731), Aquilegio medicinal, 1876)

Poço do Borratém transformado em chafariz |ant. 1927|
Chafariz do Poço antes da última remodelação. Vê-se a bomba manual, 

entretanto desaparecida.
José Artur Leitão Bárcia, in Lisboa de Antigamente

Por volta de 1927, novas obras transformam o poço num chafariz — depósito  com três torneiras, enchido pela pressão da água, correndo o excesso a nível do chão para três bacias (estrutura que se conserva).
                                        «Muita água há no Borratém
                                         E no poço do tinhoso
»
                                       (Gil Vicente, «Pranto de Maria Parda»)
Poço do Borratém |1927|
O chafariz do Poço do Borratém ao ser reaberto ao público, depois das importantes modificações que sofreu-
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Em 1986 inicia-se a recuperação do espaço sobre orientação da arqueóloga Ana Rolo. Em 1996 o edifício é transformado no Hotel Lisboa–Tejo, que conserva anexo à recepção, o velho Poço do Borratém.

Poço do Borratém |1951|
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

sexta-feira, 7 de novembro de 2025

Casa do Poço do Borratém conhecida impropriamente por casa de João das Regras

Se o leitor alguma vez passar no largo actual do Borratém — diz Mestre Castilho, a quem vamos sempre seguindo — , há-de reparar num grande arco ogival de forte cantaria, que lá está, poucos metros desviado da esquina do beco dos Surradores. Havia, junto desse, outro, de diversa altura, muito característico; desapareceu na reconstrução do prédio em Fevereiro e Março de 1871. Felizmente copiei-os [vd. imagem abaixo] eu ambos, e conservo-os. [...]
Quanto a mim (salvo melhor juízo) a casa onde habitou João das Regras, a casa onde habitaram muitos dos seus sucessores, não é aquela.
(CASTILHO, Júli de o, Lisboa Antiga-Bairros Orientaes,Tomo.II, 1884)

Casa do Poço do Borratém conhecida impropriamente por casa de João das Regras |c. 1900|
Rua do Arco do Marquês de Alegrete. Procissão da Senhora da Saúde.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Esta casa, situada no Poço do Borratém, é tradicionalmente referida como a Casa de João das Regras, e embora não exista qualquer prova documental, é comum mencionar-se que o jurista português, apoiante de D. João I, viveu neste edifício.
Depois do terramoto de 1755, que destruiu grande parte do edifício primitivo, a casa foi reconstruída, mantendo-se apenas a arcada gótica do conjunto. Em 1851, um dos arcos foi demolido, subsistindo dois. Actualmente persiste apenas um arco ogival no piso térreo.

Casa do Poço do Borratém conhecida impropriamente por
casa de João das Regras 
Vêem-se os dois arcos do pavimento térreo, como ainda existiam em 1871; actualmente
apenas se conserva o do lado direito.
Desenho de Júlio de Castilho, in Lisboa Antiga-Bairros Orientais

De planta rectangular, a Casa de João das Regras destaca-se pela verticalidade da estrutura, dividida em quatro pisos acrescentados por águas-furtadas. No piso térreo, inscreve-se o grande arco de ogiva, que permite o acesso ao interior, emoldurando uma porta com montras e janela superior. Os três pisos superiores têm igual composição, com duas janelas de sacada e respectivo varandim de ferro em cada um. 
Nota(s): O espaço é hoje utilizado para diversos fins, estando sediada uma loja no andar térreo, e vários serviços administrativos nos andares superiores. [DGPC]

Casa do Poço do Borratém conhecida impropriamente por
casa de João das Regras |1923|

Barraca de venda de peixe (posto n.º 1) junto ao Beco dos Surradores.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

sexta-feira, 3 de julho de 2015

Rua dos Condes de Monsanto que foi da Bitesga

Por Edital de 28-08-1950 a Rua da Betesga ficou limitada pela Praça da Figueira e de Dom Pedro IV. Até então, a antiga Rua da Betesga — vulgo da Bitesga — , estendia-se desde a Praça Dom Pedro IV até ao Poço do Borratém. Este  troço da Rua da Betesga —  entre a Rua dos Fanqueiros e Poço do Borratém  — passou a denominar-se Rua dos Condes de Monsanto.

Pelo mesmo edital, a Rua dos Fanqueiros, antiga da Princesa antes Rua Nova da Princesa, que até 1950 se prolongava até à Rua da Palma, passou a terminar na actual Praça da Figueira. Confuso? Para melhor compreensão ver carta topográfica aqui.

Rua dos Condes de Monsanto, 5 de Outubro de 1910
Antigo troço da Rua da Betesga; ao fundo, o Poço do Borratém e a Rua da Madalena.
Artur Benarus, in Lisboa de Antigamente

Toda esta área — recorda-nos o ilustre Norberto de Araújo — hoje contida entre a Rua dos Álamos, o princípio da Velha Rua dos Canos, a Rua da Praça da Figueira toda até à Betesga e daí ao Poço do Borratém e Marquez do Alegrete (no encontro com os Áamos) pertencia, com excepção de alguns pedaços, à Casa dos Condes de Monsanto e Marqueses de Cascais descendentes e herdeiros de D. Leonor da Cunha, mulher do famoso jurisconsulto João das Regras; [...] [Araújo: 1938]

Rua dos Condes de Monsanto, 5 de Outubro de 1910
Antigo troço da Rua da Betesga com a Rua dos Fanqueiros [troço integrado, desde 1910, na actual Praça da Figueira; ao fundo, o Poço do Borratém e a Rua da Madalena.
Artur Benarus, in Lisboa de Antigamente

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Do Borratém, subindo pelo Beco dos Surradores até ao Largo dos Trigueiros

Do Poço do Borratém sobe-se pelas escadas do Beco dos Surradores (nada com feitio de beco) deixando à esquerda, logo de início, a Rua de S. Pedro Mártir, de onde saem mais escadas, em curioso dédalo, entroncando-se e conjugando-se, acabando por se reunir no Largo dos Trigueiros.

Beco dos Surradores [1902]
Ao fundo o Poço do Borratém.
(N.B. Surradores são aqueles que surram ou curtem as peles ou couros)
Machado & Souza, in Lisboa de Antigamente

É um capricho de construção de acaso, mas mais parece fantasia feliz de urbanistas antigos, que disfarçaram pitorescamente os declives da encosta.1

Beco dos Surradores [1945]
(Patrulha do Exército Português)
Fernando Martinez Pozal, in Lisboa de Antigamente

Na Gazeta de Lisboa — o principal periódico de informação política portuguesa entre 1715 e 1820 — pode ler este curioso anúncio, ou Aviso, como se dizia à época, publicado numa quarta-feira dia 22 de Setembro de 1813:

Agoa para tingir o cabello da eabeça, a melhor que se tem visto em LisЬоa, para tirar sardas e panno do rosto, para fazer a pelle fina e branca, e para conservar o semblante em boa cor , continúa a vender-se no beco dos Surradores, N.º 4, defronte dos Padres Camillos ao Posso do Burratem. Na mesma casa se lavaõ fios, e se tingem de preto, e de todas as côres, e se tiraõ nodoas de todas as qualidades, aínda que sejaõ de tinta dada a oleo, seja em seda ou lã.2

Largo dos Trigueiros [c. 1940]
Chafariz do Largo dos Trigueiros

Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
1 Norberto de Araújo, Peregrinações em Lisboa, vol. III, pp. 55-56, 1938.
2 Gazeta de Lisboa, N.º 22, 1813.

domingo, 9 de agosto de 2026

À roda da Magdalena: o Monete, o Bonete e o Rozendo

Magdalena (rua da) segunda á esquerda na rua nova d'Alfandega, indo da praça do Commercio e finda no poço do Borratem, freguezias da Magdalena 2 a 22, 32 a 146 ela 197, S. Christovão 148 a 186, Santa Justa 188 a 234, 199 a 291, Sé 24 a 30. [Velloso: 1869]

A Rua da Madalena nunca teve qualquer característica comercial ou industrial muito acentuada. Artéria de passagem, de ligação entre a Baixa e S. Cristóvão, S. Mamede e altos do Castelo e da Graça, e ainda à margem da zona principal do comércio citadino, nunca foi uma rua cujo nome lembrasse, ao pronunciá-lo, uma especialidade comercial que a dominasse. No entanto lá teve uma zona que era a das sapatarias e lá teve também as suas casas de venda de bixas (barbearias?).
Da indústria, alem da dos tamancos e das violas, só mais duas, na segunda metade do século passado se afeiçoaram à rua: a hoteleira, na parte que desce para o sul, e a das molherinhas de porta, no pitoresco dizer do quinhentista Miguel Leitão de Andrade ao referir-se às mulheres que se vendiam a si próprias, as quais, sorrateiramente, fugindo a vigilância por entre as sombras imprecisas projectadas pela mortiça luz de azeite, se foram acomodando, hoje uma, amanhã outra, depois várias, ao fim da rua, junto à Betesga, no enfiamento da Mouraria, foco principal. Foi esta a parte suja da rua. Foi ... e infelizmente ainda é, pelo menos à noite, na passagem obrigatória para as casas duvidosas do beco do Rosendo. Mas tirando esta parte — a que resvala das embocaduras das escadinhas de Santa Justa e da travessa da Madalena, antigo beco do Monete — a rua foi sempre uma artéria limpa, uma rua pacatamente habitada pela burguesia com alguma coisa de seu, circunstância que lhe emprestou noutros tempos um ar calmo, de intimidade, que nos confidenciava morarem ali as senhoras Silvas com o seu jogo de gamão, as suas fatias de pão de fôrma com manteiga, o seu chá, e os seus bolos do afamado Baltresqui ...==
[MACEDO, Luiz Pastor de, Tempos que passaram; um artista, uma rua e uma freguesia de Lisboa, 1940]

Rua da Madalena (S→N) |c. 1911|
A dir. lê-se o dístico municipal indicando o então Beco do Monete, que por edital de 1924, passou a denominar-se Tv. da Madalena. Ao funco fica o Poço do Borratém.
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente
Legenda no abandalhado amL:«Manietação popular»

O topónimo Rua da Madalena, como o próprio nome indica, deriva da proximidade à Igreja da Madalena, existente desde pelo menos 1164, mandada construir por D. Afonso Henriques junto à Cerca Moura, em terrenos onde outrora se erguia um templo romano dedicado a Cibeles, a deusa-mãe.
De acordo com o olisipógrafo Luíz Pastor de Macedo, esta artéria teria sido a Rua do Arco de N. S. da Consolação. Por seu lado, Norberto Araújo defendia que não correspondia a qualquer arruamento existente antes do terramoto de 1755. Em 1841, adianta, ainda nesta artéria não havia passeios empedrados.

 

Rua da Madalena em 1911 e 1901, respectivamente
A primeira transversal na imagem da esq. é a Rua de Santa Justa (escadinhas). 
Na imagem da dir. vê-se a embocadura das Escadinhas de São Cristóvão, sendo que, ao prédio com que estas faziam gaveto, foi acrescentado do lado poente
uma fiada com um arco que se abre sobre a antiga serventia.
Fotografias por Alberto Carlos Lima e Machado & Souza, in Lisboa de Antigamente

Monete (beco do) primeiro á esquerda nas escadinhas de S. Christovão, indo da rua da Magdale Magdalena, e finda na rua da Magdalena, não tem saída, freguezia de Santa Justa 2 a 50 e 1 a 9.

Monete (Beco do) Em 1551 «rua do Monturo do Bonete», assim como as Escadinhas de S. Cristóvão «rua da calçada do Monturo do Bonete», havendo também no sítio a «travessa do Monturo do Bonete».
Em 1715, a rua do Monturo do Bonete desceu já à categoria de «beco», e a sua denominação está reduzida a «Beco do Bonete». Em 1763, ainda o Padre Castro lhe chama igualmente «Beco do Bonete». Aparece, enfim, o beco do Bonete transformado em beco do Monete, no Itinerário de Inácio Paulino, edição de. edição de. 1804. É. provável. que. a. transformação. venha. da. aposição geral dos letreiros, mandada executar dois anos antes pela Administração Geral dos Correios.
É o segundo à esquerda, subindo pela rua da Madalena e termina nas escadinhas de S. Cristóvão, diz o Itinerário lisbonense de 1818. [Brito: 1935]

Beco do Rosendo |c. 1945|
Perpectiva tomada da Rua da Madalena.
Fernando Martinez Pozal, in Lisboa de Antigamente

Em Lisboa há um beco hoje chamado «do Rosendo» que pelos documentos antigos e pelo Tombo da Cidade, composto depois do terremoto de 1755, se vê ter tido a denominação de Resende. [O Archeólogo português: 1906]

domingo, 18 de junho de 2023

Rua da Betesga: vendedeiras ambulantes de manjericos

Já de dia circulavam pela cidade os vendedores de manjericos e alcachofras, atroando o ar com os seus pregões, ao mesmo tempo que a criançada, numa insistência escandalosa atormentava o transeunte com os seus constantes pedidos de «cinco reizinhos para a cera». [Cordeiro: 2019]

Betesga (Rua da) — De O Popular, de 4 de Junho de 1902, N. ° 2:191, transcrevemos o seguinte nosso artigo, agora refundido: RUA DA BETESGA — Mandou a actual administração municipal, pela repartição competente, reformar os reformar os dísticos desta rua, restituindo-os á sua verdadeira forma: «Betesga», e não «Bitesga».
Fez muito bem, e esperamos que não fique neste só dístico a reforma. 
Betesga é, diz Morais, uma ruazinha ou beco sem saída, que faz saco, ou fundo de saco; dai deriva o verbo embetesgar. Esta viela é antiga, e já se encontra nos escritores do seculo XVI. [Brito: 1935]

Rua da Betesga |c. 1930|
Venda ambulante de manjericos e flores defronte ao antigo Mercado da Figueira; ao fundo vê-se a colina do Carmo.
Ferreira da Cunha, in Lisboa de Antigamente
Nota(s): a data e o local da foto não estão identificados no abandalhado amL.

Por Edital de 28-08-1950 a Rua da Betesga ficou limitada pela Praça da Figueira e de Dom Pedro IV. Até então, a antiga Rua da Betesga — vulgo da Bitesga — , estendia-se desde a Praça Dom Pedro IV até ao Poço do Borratém.
Por ser, desde tempos antigos, ura ruela muito estreita, nasceu a expressão popular “Meter o Rossio na Rua da Betesga" – por alusão à extensão da Praça do Rossio e à estreiteza da Rua da Betesga.

Rua da Betesga |1942|
Vista sobre a Rua da Betesga quando esta ainda se compreendia entre o Poço do Borratém
e o Rossio (Praça Dom Pedro IV). A demolição do Mercado da Praça da Figueira permitiu
uma remodelação urbanística da zona e daí foi atribuído o topónimo Rua Condes de Monsanto,
que se observa em baixo, ao troço da velhinha Betesga entre o Borratém e a Rua dos
Fanqueiros (à esq.).
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

domingo, 12 de setembro de 2021

Hospital Real de Todos-os-Santos

O Rossio era uma praça, irregular, mas já muito espaçosa. o Hospital de Todos-os-Santos com a sua esplendida fachada; os arcos do Rossio, onde se acomodavam as mais luxuosas lojas, que vendiam as fazendas da moda, tornavam aquela praça a mais importante da capital.


Neste Rossio — diz Norberto de Araújo —  do lado nascente, à nossa direita, erguia-se até pouco antes do Terramoto o imponente Hospital de Todos-os-Santos, fundação de D. João II, e cuja primeira pedra foi lançada a 15 de Maio de 1492. Os terrenos eram dependentes dos frades de S. Domingos.
Possuía um formoso pórtico gótico , de dupla entrada , para o qual se subia por uma escadaria de vinte e um degraus, e de um lado e do outro, ao nível do chão, corriam magníficas arcadas, em maior extensão do lado norte, e em cujo número não acertam os eruditos nem velhas estampas, mas que andaria por trinta.

Rossio antes do terramoto de 1755
Legenda: A
 — Hospital de Todos-os-Santos;  B — Igreja de São Domingos e à esq. a Ermida da S.ª da Escada [hoje demolida];  C — Convento da Graça; D — Castelo de S. Jorge; E — Chafariz de Neptuno. À dir. observa-se um poste de forca com um homem preso pelos braços.
Água-tinta, desenho à pena a nanquim de Zuzarte, século XVIII (1787)
Rossio antes do terramoto de 1755
Legenda: A
 — Hospital de Todos-os-Santos;  B — Igreja de São Domingos e à esq. a Ermida da S.ª da Escada [hoje demolida];  C — Convento da Graça; D — Castelo de S. Jorge; E — Chafariz de Neptuno. À dir. observa-se um cortejo fúnebre e um poste de forca com um homem preso pelos braços.
Pintura a óleo sobre gravura de Zuzarte, autor desconhecido (1787)

Estas arcarias do Hospital de El-Rei — como de começo se chamou – e que davam abrigo a muitas dezenas de tendas e bazares — constituíam um dos encantos panorâmicos do Rossio. A Igreja continuava-se do prolongamento do pórtico, isto é: na direcção poente-nascente.
Junto deste Hospital — que foi uma das mais nobres instituições de Lisboa de todos os tempos, servindo os pobres — funcionava a «Roda dos Engeitados», do lado da Rua da Betesga.
O Hospital de Todos-os-Santos dependia da Santa Casa da Misericórdia. Sofreu um incêndio em 27 de Outubro de 1601, facilmente reparável em seus estragos, outro, horroroso, em 10 de Agosto de 1750, que o reduziu a cinzas, fazendo muitas vítimas, salvando-se, porém, 730 doentes e centenas de crianças que foram recolhidas pelas janelas e portas contíguas a S. Domingos.

Hospital Real de Todos-os-Santos no séc. XVIII
Igreja do Hospital Real de Todos-os-Santos, portal manuelino, admirado por toda a Europa, não só pelo seu trabalho de escultura, mas também pela sua imponência.
Gravura da autoria de Jaime Martins Barata, Museu de Lisboa

O Hospital tinha a sua frente obliquamente recuada em relação ao alinhamento oriental do Rossio que temos à vista, de modo que só pelas alturas onde hoje estão os Armazéns e a Loja do Povo [Praça de D. Pedro IV, 87-92] a linha antiga coincidia com a actual [vd. planta topográfica]. No interior da Retrosaria «Botões de Ouro», n. 86 [hoje sapataria], situada entre aqueles dois estabelecimentos existem ainda abóbadas e um lanço de arcaria de volta perfeita — resto vivo das arcadas do Rossio — , e até Julho de 1933 estava à vista um capitel de coluna, singelamente ornamentado, um meio metro acima do nível actual da Praça, único, venerando vestígio que foi entaipado por ocasião de umas obras de limpeza. Tenho tentado conseguir que ele seja, de novo, posto à vista; acredito na boa vontade dos donos do estabelecimento.


Sítio do Hospital de Todos-os-Santos, convento de S. Domingos e Poço do Borratém antes do terremoto de 1755 (a preto), e na actualidade (1937) (a vermelho) 
Planta topographica exacta do Sitio que comprehende a Ilha em que estava edificado o Hospital Real de Todos os Santos. Desenhos de J. de Castilho

Bibliografia
MESQUITA, Alfredo, Lisboa, 1903.
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. V, pp. 22-26, 1938.
CASTILHO, Júlio de,  Lisboa antiga, vol. IV,  1885, 

sexta-feira, 8 de abril de 2016

Rua do Arco do Marquês de Alegrete

Sigamos mestre Norberto de Araújo e «tomemos a Rua do Arco do Marquez do Alegrete. (...) Esta sim, na sua pobreza urbanista, tem qualquer coisa de pitoresco, vista em enfiamento, com o seu arco ao fundo, o estendal às janelas, e os estabelecimentos populares tão característicos. (...)
Ora aí temos o Arco do Marquez do Alegrete, no aspecto de 1674, ano em que foi transformada a velha porta de S. Vicente da Mouraria, assim chamada ainda em 1554. Intitula-se do Marquez do Alegrete, porque a êle se encostou o palácio construído pelo Conde de Vilar Maior, antecessor da Casa dos Alegretes, depois Penalvas e Taroucas (Teles da Sylva).»
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. III, pp. 78-79, 1938)

Rua do Arco do Marquês de Alegrete [Início séc. XX]
Em 1946 o palácio do Alegrete foi demolido para dar lugar à actual praça Martim Moniz.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

A Rua do Arco do Marquês de Alegrete, (só terá adquirido esta denominação depois de 1801), .entre o Poço do Borratém e a Praça Martim Moniz tem este nome devido ao proprietário do palácio, o 1º Marquês de Alegrete.
O Arco sobre o qual assentavam dois andares unia dois prédios pertencentes à mesma família, e, como refere o olisipógrafo Vieira da Silva, foi construído por volta de 1674, por proposta da Câmara para que «se rompesse a Torre das Portas da Mouraria, com um arco que tenha capacidade de passarem coches.»

[Rua do] Arco do Marquês do Alegrete
Em 1961 foi finalmente empreendida a controversa destruição do Arco do Marquês de Alegrete. 
Roque Gameiro, in Museu da Cidade

sábado, 25 de junho de 2016

Transportes de antanho

Lisboa, ao entrar o século XIX, continuava uma cidade mal equipada no domínio dos transportes populares onde nada se havia inovado ainda. Enquanto as classes mais abastadas, além dos coches, berlindas liteiras que lhe vinham do século anterior, passaram a dispor de novos modelos, mais funcionais, de origem francesa e inglesa, como o phaeton ou o coupé de ville, e a utilizar viaturas de aluguer, seges, traquitanas, trens e calèches, o povo continuaria, ainda por muito tempo, a percorrer diariamente, descalço ou mal calçado, as íngremes ruelas sujas e grosseiramente pavimentadas da capital.

Caleche Manton |1912|
Hipódromo de Belém; ao fundo a Capela de S. Jerónimo ou Ermida do Restelo.

Filmarte, in Lisboa de Antigamente
 Docker-Phaeton (faetonte) |Início séc. XX|
Praça do Comércio (Terreiro do Paço)
Alberto Carlos Lima, 
in Lisboa de Antigamente
 Trem de aluguer da empresa de Eduardo Augusto de Oliveira |c. 1910|
Largo da Graça

Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Para distâncias maiores serviam-se dos jumentos, próprios  ou alugados aos burriqueiros que tinham praça de aluguer de burros, no Campo de Sant'Ana e no Poço do Borratém.  Para cargas mais pesadas continuavam a utilizar, como já o faziam os seus antepassados longínquos, carroças de tipo arcaico, com rodas em D e eixo móvel, puxadas por muares; ou carros de bois, com quatro rodas, as populares galeras que transportavam lavadeiras e as suas trouxas de roupa suja.

Carro «chora» durante a greve dos eléctricos |1912|
Praça do Comércio (Terreiro do Paço)

Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente
Transporte de Belas para Lisboa |c. 1900|
Augusto Bobone, in Lisboa de Antigamente

São, efectivamente, posteriores ao triunfo do liberalismo em Portugal, os primeiros transportes colectivos urbanos que cruzaram as ruas de Lisboa. Data de 1803 o aparecimento do omnibus, puxado a muares, para a exploração dos quais se constituiu uma Empresa de Transportes com sede na Praça do Pelourinho. No entanto, incómodos, caros e raros, o povo miúdo pouco beneficiou com eles. Verdadeiramente populares e servindo já vastas zonas da cidade foram os seus sucessores, os carros americanos, inaugurados em Lisboa em 1874.

Carlos, no entanto, n’um degrau da tribuna, com a ideia de descobrir o Damaso, sondava de binoculo o recinto das carruagens. A gente, agora, ia dispersando pela collina. As senhoras tinham retomado a immobilidade melancolica, no fundo das caleches, de mãos no regaço. Aqui e além um dog-cart, mal arranjado, dava um trote curto pela relva. N’uma vittoria estavam as duas hespanholas do Eusebiosinho, a Concha e a Carmen, de sombrinhas escarlates. E sujeitos, de mãos atrás das costas, pasmavam para um char-à-bancs a quatro attrelado á Daumont onde, entre uma familia triste, uma ama de lenço de lavradeira dava de mamar a uma creança cheia de rendas. Dous garotos esganiçados passeavam bilhas d’agua fresca. (Eça de Queiroz, ln Os Maias, 1888)

 

Char-à-bancs do Salazar durante a greve dos eléctricos |1912|
Rua Augusta com a Rua da Betesga junto à Camisaria Confiança.
Fotografia anónima
Char-à-bancs do Jacintho durante a greve dos eléctricos |1912|
Rua 1º de Maio (Alcântara)

Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

O povo utilizava, de preferência, os carros mais baratos e também mais incómodos, como o Carro do Jacintho, o Chora da Empreza Eduardo Jorge ou o Lusitânia, enorme carroção, onde se apinhavam, como sardinha em canastra. Com eles carregavam gaiolas com pássaros, capoeiras de galináceos, trouxas de roupa, transformando os carros em folclóricas feiras ambulantes.

Carro «chora» da empresa Joaquim Simplício (Lisboa-Belas) durante a greve dos eléctricos |1912|
Largo de São Domingos

Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente
Carros «chora» a reabastecerem no chafariz do Intendente |ant. 1901|
Largo do Intendente

Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Os carros americanos primeiro, depois os eléctricos, e a inauguração do comboio de Cascais, permitindo um escoamento mais rápido de pessoas e mercadorias, levaram ao abandono progressivo deste meio de deslocação alfacinha.
A aplicação da tracção eléctrica aos carros americanos que leva ao aparecimento dos carros eléctricos, cuja primeira linha é inaugurada em Lisboa em 1901 e a aplicação do motor de explosão que levará à invenção do automóvel e do camião de carga, facilitando o transportes de passageiros e de cargas, vão introduzir uma verdadeira revolução nos transportes urbanos (...) 1

Carro «Americano» |séc. XIX|
Avenida 24 de Julho, antigo Aterro da Boa Vista

Chaves Cruz, in Lisboa de Antigamente
Carros «chora» e «americano» |1909|
Largo do Conde Barão; à esq., o Palácio Alvito.

Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

1 (in O Povo de Lisboa: tipos, ambiente, modos de vida, mercados e feiras, divertimentos, mentalidade, Câmara Municipal de Lisboa, p. XVIII, 1979)

domingo, 15 de novembro de 2015

Praça da Figueira: Monumento a Dom João I (actualizado)

Deriva do árabe «Bes attem» (Borratém) que significa Figueira e daí a origem dos topónimos Poço do Borratém e Praça da Figueira que identificam uma contiguidade de espaços que a urbanização alterou.
Este espaço correspondia ao local das ruínas do Hospital Real de Todos-os-Santos, ardido em 1750 e destruído no Terramoto. Aqui nasceu, em 1755, o mercado ao ar livre que teve vários nomes até ao definitivo: Horta do Hospital, Praça das Ervas e Praça Nova.

Praça da Figueira |1959|
Parque de estacionamento de automóveis, vendo-se ao fundo, à direita, as ruínas do Convento do Carmo.
Judah Benoliel, in Lisboa de Antigamente

De aterro cheio de bancadas diárias passou a verdadeira praça fixa, com barracas arrumadas e poço próprio. Foi arborizada e iluminada em 1834. Tornou-se logo um dos emblemas de Lisboa. Só em 1968 se assinaria o contrato para a construção da estátua equestre de D. João I.

Inauguração do Monumento a Dom João I |1971|
Praça da Figueira. Encimando a imagem
, altaneiro, observa-se o Castelo de S. Jorge.
Estúdio Horácio Novais, in Lisboa de Antigamente

O monumento — inauguração a 30 de Dezembro de 1971 — é de composição simples, encimado pela estátua equestre de D. João I, em bronze, da autoria de de Leopoldo de Almeida. D. João empunha o ceptro, símbolo da autoridade, e o cavalo tem a cabeça baixa, em sinal de obediência. As inscrições no pedestal, risco do arquitecto Jorge Segurado, reforçadas pela presença de dois medalhões representando Nuno Álvares Pereira e João das Regras, tornam também o monumento uma memória da revolução de 1385.
Ocupa o centro da Praça da Figueira, local onde se localizava o  antigo Mercado da Figueira. (cm-lisboa.pt)

Monumento a Dom João I |1972|
Praça da Figueira
Armando Serôdio, in Lisboa de Antigamente

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Rua do Amparo: Manteigaria União e Casa Suissa

Sucursal da antiga e popular Manteigaria União, sita na  Rua do Amparo,  interior datado 1900 e tecto pintado com querubins. Ao lado desta (à dir. na foto) ficava a pastelaria e salão de Chá «Casa Suissa», fundada por Isidro Lopes e Raul de Moura em 18 de Março de 1922, para exercer a actividade de «pastelaria, leitaria e seus derivados». Até então, funcionava neste local a «Casa Suissa», nome de 1910, mas aplicada um estabelecimento de fazendas e retrosaria.

Rua do Amparo [c. 1930]
Manteigaria União e Casa Suissa
Ferreira da Cunha, in Lisboa de Antigamente

N.B.  Até ao Edital da CML de 28/8/1950, a Rua do Amparo estendia-se da Praça D. Pedro IV (Rossio) à Rua do Arco do Marquês de Alegrete (Poço do Borratém); a partir desta data, este arruamento ficou limitado pelas Praças de D. Pedro e da Figueira. 

«Casa Suissa», antiga fachada
Rua do Amparo
A fachada actual da Pastelaria Suiça, de 1947, é da autoria de Francisco Tojal.

terça-feira, 14 de julho de 2015

Antiga Casa do Chocolateiro

Este troço da Rua dos Fanqueiros, antes Rua [Nova] da Princesa, está incluído, actualmente, na Praça da Figueira. O troço da Rua do Amparo, hoje Rua João das Regras, correspondia ao troço compreendido entre as Ruas dos Fanqueiros e do Arco do Marquês de Alegrete, actualmente Poço do Borratém.

Rua dos Fanqueiros, 366-370 [hoje Praça da Figueira] esquina com a Rua João das Regras [1930]
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Em 5 de Novembro de 1760, foi inaugurada em Lisboa a prática de atribuição de nomes de ruas por decreto. Neste diploma D. José estabelece a denominação dos arruamentos localizados entre a Praça do Comércio e o Rossio, ao mesmo tempo que regulariza a distribuição dos ofícios e ramos do comércio. Esta rua denominava-se Rua Nova da Princesa e nela ficaram arruados os «Mercadores de Lançaria ou Fancaria, destinando-se os sobejos della se os houver, às lojas de quinquilharia». [in cm-lisboa.pt]

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

Profissões de antanho: o limpa-chaminés

Ainda existem, por aí, empresas que se encarregam da limpeza das chaminés dos prédios¹. Uma vez por ano, na véspera do vasculho, os moradores eram, ou serão ainda, avisados de que na manhã seguinte se procederá à limpeza das chaminés.

As donas de casa sempre embirraram com tal serviço, pois lhes deixa as cozinhas numa sujidade, já que a fuligem preta, caindo lá de cima, tudo atapeta!


Rua da Ribeira Nova, junto ao Mercado da Ribeira [1912]
Ao fundo vê-se a Tv. São Paulo
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente
Nota(s): o local não se encontra identificado no amL.

Eram e serão sempre dois homens, vestidos de negro, sujos pela própria profissão, de lenço vermelho à volta do pescoço como os que usavam os maquinistas dos comboios quando estes eram a carvão. Um deles com uma comprida vara, no topo da qual fixava uma molhada de carqueja, acciona cá de baixo, metendo-a pela chaminé, enquanto o outro, empoleirado no telhado, faz descer pelas goelas sujas da chaminé uma grossa corda, na qual também amarrou um molho de carqueja puxando-a para baixo e para cima por forma a que, raspando as paredes, delas se despegue aquele «colesterol» que não só impede a tiragem do ar e do fumo, mas também, pela sua acumulação excessiva, pode ocasionar incêndios.



Limpa-chaminés [c. 1930] Ferreira da Cunha, in Lisboa de Antigamente



Retrato de dois limpa-chaminés. [c.190-]
Paulo Guedes, in Lisboa de Antigamente




É mais que evidente a vantagem de tal serviço, sobretudo nas chaminés dos velhos prédios dos bairros onde, na maioria, se cozinha ainda a carvão. Mas as donas de casa, ignorando as vantagens dessa vasculhada, ou fazendo por isso, pensando apenas nos transtornos que lhes provoca os limpa-chaminés, preferem dar-lhes uma gratificação — que eles agradecem dizendo que é para a ajuda do sabão — a suportar-lhes a presença incómoda e a sujidade das cozinhas...

¹ No Poço do Borratém existe uma dessas empresas, que teve início em 1861.

Limpa-chaminés [1971]
O local não se encontra identificado no arquivo
Eduardo Gageiro, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
DINIS, Calderon, Tipos e factos da Lisboa do meu tempo: 1970-1974, 1986.
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