Wednesday, 25 November 2015

Grémio Literário

«O  que  mais  o contrariava  era  deixar  aquele  arranjinho  da  rua  de  S.  Francisco.  Que  ferro! agora que aquilo ia tão bem, o gajo no Brasil, e ela ali, à mão, a dois passos do Grémio!...»

(QUEIROZ,  Eça de, Os Maias, 1888)


O Grémio Literário foi criado por carta régia de D. Maria II em 18 de Abril de 1846 — «considerando Eu que o fim dessa associação é a cultura das letras e que pela ilustração intelectual pode ela concorrer para o aperfeiçoamento moral».

Grémio Literário [c. 1910]
Rua Ivens, 37, antiga de S. Francisco (1885)
Joshua Benoliel, in AML

O Grémio teve entre os seus fundadores as duas principais figuras do Romantismo nacional, o historiador Alexandre Herculano (Sócio nº 1) e o poeta e dramaturgo Almeida Garrett, e ainda o romancista Rebelo da Silva, o dramaturgo Mendes Leal, e grandes personalidades da vida política do liberalismo, como Rodrigo da Fonseca (que redigiu os estatutos), Fontes Pereira de Melo, Rodrigues Sampaio, Sá da Bandeira, Anselmo Braancamp, o futuro Duque de Loulé, e da ciência, da economia e da velha e da nova aristocracia. Com sedes sucessivas sempre na zona do Chiado, «capital de Lisboa», e passando pelo célebre Palácio Farrobo, o Grémio Literário instalou-se finalmente, em 1875, no palacete do visconde de Loures, na rua então de S. Francisco. É um edifício exemplar da arquitectura romântica de Lisboa, preservado ao longo dos tempos, com o seu jardim de 1844, único nesta área histórica da cidade, tendo recebido em 1899 grandes obras de decoração de José de Queiroz, nas salas e na varanda aberta sobre o Tejo e o Castelo de S. Jorge.

Grémio Literário, jardim [Junho de 1910]
Semana de Armas Portuguesa, prova de esgrima com a presença do rei Dom Manuel II (1889-1932)
Fotógrafo não identificado, in AML

As suas salas, a biblioteca, o famoso gabinete de leitura de jornais foram frequentados por gerações sucessivas de sócios e menção do Grémio Literário encontra-se em muitas obras de autores célebres, como Teixeira de Queiroz, Abel Botelho, Ramalho Ortigão, Júlio de Castilho, G. Mattos Sequeira, e sobretudo Eça de Queiroz, que nele localizou várias cenas de Os Maias — sabendo-se que no prédio do lado habitava Maria Eduarda, a maior criação romanesca feminina do século XIX português.  
(in gremioliterario.p)

Grémio Literário [1962]
Rua Ivens, 37, de S. Francisco (1885)
Armando Serôdio, in AML

«O amigo que Carlos gostava de ver entrar era o Cruges — que vinha da rua de S. Francisco, trazia alguma coisa do ar que Maria Eduarda respirava. O maestro sabia que Carlos ia rodas as manhãs ao prédio ver a «miss inglesa»: e muitas vezes, inocentemente, ignorando o interesse de coração com que Carlos o escutava, dava-lhe as ultimas noticias da vizinha... 
 — A vizinha lá ficou agora a tocar Mendelhson... Tem execução, tem expressão, a vizinha... Há ali estofo... E entende o seu Chopin. 
Se ele não aparecia no Ramalhete, Carlos ia a casa busca-lo: entravam no Grémio, fumavam um charuto nalguma sala isolada, falando da vizinha:Cruges achava-lhe «um verdadeiro tipo de grande dame».
 (QUEIROZ,  Eça de, Os Maias, 1888)

No comments:

Post a Comment

Web Analytics