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sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Santa Justa

Rua de Santa Justa. Assim se denominará a sexta, e ultima das referidas travessas, e nella se alojaráõ os mercadores de lã, e seda, que naõ tiveram bastante accomodaçaõ na Rua Augusta.1


A remodelação paroquial de 1770 menciona esta artéria ora como Travessa ora como Rua, já que a descrição da Freguesia de Nª Srª da Conceição e a de Santa Justa a referem como «nova traveça de S. Justa» e nas plantas dessas mesmas freguesias surge como «Rua de S. Justa». E finalmente, o Edital municipal de 12 Novembro de 1892 retomou as nomenclaturas pombalinas e passou as Travessas de Santa Justa, da Assunção, de São Nicolau e da Vitória a Ruas.
Luís Pastor de Macedo sublinha ainda que «os nomes de S. Julião, da Conceição, de S. Nicolau, da Vitória e de Santa Justa, foram dados às ruas que mais perto passavam das igrejas e ermidas que com aquela invocação, segundo o plano estabelecido, se haviam de erguer ou se estavam já construindo.» 3

Rua de Santa Justa [c. 1906]
Ao fundo, O elevador de Santa Justa — ou do Carmo — inaugurado em 10 de Julho de 1902.

Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

De acordo com Norberto Araújo existiu aqui, à entrada das Escadinhas de Santa Justa na esquina da Rua dos Fanqueiros (vd. 2.ª imagem), a «paroquial de Santa Justa, uma das primeiras de Lisboa, fundada — crê-se — em 1166». Por sua vez, o Pe. João Baptista de Castro escreve, em 1870, que «Uma das tres freg«ezias primitivas, que formou, e instituiu n'esla cidade o bispo D. Gilberto, logo que o inclyto D. Afonso Henriques a conquistou aos mouros, foi a de Santa Justa: e segundo consta das nossas Historias correndo o anno de 1173, a primeira igreja, para onde foi conduzido o sagrado corpo do invicto martyr S. Vicente, assim que chegou do Promontório sacro do Algarve a este porto, foi para esta de Santa Justa, para cuja lembrança permanecia na porta principal da igreja um nicho de pedra da parte do Evangelho com a imagem do santo.» 2

Rua de Santa Justa [c. 1930]
Ao fundo, na Rua dos Fanqueiros — antiga Nova da Princesa — o prédio da «Companhia do Papel do Prado», mais tarde edifício da «Pollux», casa fundada em 1936
.
Paulo Guedes, in Lisboa de Antigamente

A igreja sofreu um incêndio aquando do Terramoto. Pensou-se em construir outra, precisamente onde se ergueu depois o prédio da «Companhia do Papel do Prado», mais tarde edifício da «Pollux» (casa fundada em 1936),  mas com a transição da paroquial para igreja de S. Domingos a ideia gorou-se. Ainda segundo Norberto de Araújo, o edifício «converteu-se em teatro, o «Teatro de D. Fernando», que existiu até 1860. Só depois se realizou a urbanização do local (1863-1864).» 4
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Bibliografia:
1 CASTRO, João Baptista, Mappa de Portugal antigo e moderno, 1870, Vol. 3, Parte V, p. 57.
2 idem, p. 182.
3 cm-lisboa.pt.
4 ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XII, pp. 40-41, 1939.

domingo, 26 de janeiro de 2025

O Hotel Francfort de «Santa Justa»

Ora, Dilecto, enfiemos pela esquerda da Rua de Santa Justa, onde, n.ºˢ 70-72, está o Hotel Francfort (de Santa Justa, chamado).
Este Hotel, mais antigo do que o seu irmão do Rossio, foi fundado em 1867, por D. Joaquim Silva, e coube em partilhas a um filho, João Narciso da Silva, já falecido, como o do Rossio coube a Artur Silva, outro irmão. Por morte, o ano passado (Setembro 1938) ) da viúva de João Narciso, a propriedade do Hotel transitou para herdeiros menores; o estabelecimento que desde 1932 está em regime de administração, consequência de uma crise comercial, é hoje dirigido por Vítor Marques Simões, representante dos credores, e parente das duas crianças, herdeiras.

O Hotel Francfort de «Santa Justa» |190-|
Rua de Santa Justa, 70-72 com a Rua Augusta
Situado no Centro da Cidade Instalações Modernas Recomendado para Grupos
e Excursões Preços desde Esc. 30$00 - 150 Quartos.
Paulo Guedes, in Lisboa de Antigamente

O Hotel foi muito ampliado e beneficiado em 1914, e ocupa dois prédios, ambos da Condessa de Casal Ribeiro, um com frente para a Rua de Santa Justa e laterais para as Ruas Augusta e do Arco Bandeira [actual dos Sapateiros], e outro nesta última rua. 
Nota(s): encerrou no final da década de 1970.

O Hotel Francfort de «Santa Justa» |1914|
Frentes sobre as ruas de Santa Justa e dos Sapateiros.
Pires Marinho, in Lisboa de Antigamente

 — Esse Sanches Lucena é um idiota! Ora que arranjo fará a esse homem, aos sessenta anos, ser deputado, passar meses em Lisboa no Francfort, abandonar as propriedades, deixar aquela linda quinta... E para quê? Para rosnar de vez em quando "apoiado"! Antes ele me cedesse a cadeira, a mim, que sou mais esperto, não possuo grandes terras, e gosto do Hotel Bragança. (Eça de Queiroz, ln A Ilustre Casa de Ramires, 1900)

O Hotel Francfortde «Santa Justa», salão de jantar e vestíbulo |1914|
E na Baixa, no «Francfort de Santa Justa, que arvorava, por então, a pequena fama de um hotel correcto (...), uma população heteróclita arrastava-se, lá ao fundo, na sala de pavimento de mosaico poligonado, abandonando-se nos cadeirões de couro negro , entre a exuberância dos ramos das aspidistras». [Cláudio: 1992]
Pires Marinho, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XII, p. 53 1939.
A Arquitectura portuguesa ; revista mensal da arte arquitectural antiga e moderna, 1914.

domingo, 13 de fevereiro de 2022

Lojas de Antanho: Casa Brazil

A Rua de Santa Justa foi um dos 14 topónimos da Portaria pombalina de 5 de Novembro de 1760, diploma do rei D. José com que foi inaugurada em Lisboa a prática de atribuição de nomes de ruas por decreto e, no qual se estabeleceu a denominação dos arruamentos localizados da Baixa lisboeta reconstruída, entre a Praça do Comércio e o Rossio, ao mesmo tempo que regularizava a distribuição dos ofícios e ramos do comércio pelos diferentes arruamentos, a saber: «Rua Nova d'El Rey, Rua Augusta, Rua Áurea, Rua Bella da Rainha, Rua Nova da Rainha, Rua dos Douradores, Rua dos Correeiros, Rua dos Sapateiros, Rua de S. Julião, Rua da Conceição, Rua de S. Nicolau, Rua da Victoria, Rua da Assumpção e Rua de Santa Justa». 

Casa Brazil, loja de modas |séc. XIX|
Rua de Santa Justa com a Rua Augusta
Em 1919, instalou-se neste local a afamada alfaiataria Nunes Corrêa.
Alberto Carlos Lima, in Lisboa de Antigamente
Casa Brazil, loja de modas |séc. XIX|
Rua de Santa Justa com a Rua Augusta
Em 1919, instalou-se neste local a afamada alfaiataria Nunes Corrêa.
Alberto Carlos Lima, 
in Lisboa de Antigamente

À luz do mesmo decreto régio, na Rua Augusta deviam alojar-se os mercadores da seda e da lã e, quinze anos depois, a 6 de Junho de 1775 foi colocada no enfiamento da artéria, na Praça do Comércio, a estátua equestre de D. José, feita por Machado de Castro. Quase um século mais tarde, em 1873, foi rematada a Rua Augusta com um Arco Triunfal, da autoria de Veríssimo José da Costa. [cm-lisboa.pt]

Casa Brazil, loja de modas |c. 191-|
Rua de Santa Justa com a Rua Augusta
Fachada depois das obras de remodelação.
Alberto Carlos Lima, in Lisboa de Antigamente

sexta-feira, 14 de abril de 2023

Escadinhas de Santa Justa

Aqui temos as Escadinhas de Santa Justa, que levam à Rua da Madalena, e em cuja esquina do lado de cima, se deu o pavoroso «incêndio da Madalena», na madrugada de 10 de Abril de 1907.
Existiu aqui, à entrada das Escadinhas — recorda o ilustre Norberto de Araújo — a paroquial de Santa Justa, uma das primeiras de Lisboa, fundada — crê-se — em 1166. A Igreja sofreu incêndio no dia seguinte ao do Terramoto. Pensou-se em construir outra neste local, precisamente onde se elevou depois esse prédio enorme, com os armazéns da Companhia do Papel do Prado [actual Pollux]; a paroquial instalou-se mal, numa parte logo edificada, mas as obras demoravam, veio o regime liberal (1833), e Santa Justa, paroquial, transitou para a Igreja de S. Domingos. Instalou-se então aqui um batalhão da Guarda Nacional de Lisboa, que durou até 1838; depois o edifício que, como igreja nunca se chegou a concluir, converteu-se em teatro, o «Teatro de D. Fernando», que existiu até 1860. Só depois se realizou a urbanização do local (1863-1864). 

Escadinhas da Rua de Santa Justa |c. 1945|
Escadinhas que ligam a Rua dos Fanqueiros à Rua da Madalena (ao cimo)
Fernando Pozal, in Lisboa de Antigamente

O que sobreviveu (até que a municipalidade se esforce em o apagar) — afirma, por seu lado, Mestre Castilho — é apenas o titulo do orago. O largo de Santa Justa, e as escadinhas ou travessa [Rua] de Santa Justa, são os últimos padrões que nos ficaram d'isso tudo!

Escadinhas da Rua de Santa Justa |1971|
Escadinhas que ligam a Rua da Madalena  à Rua dos Fanqueiros (ao fundo)
Armando Serôdio, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XII, pp. 40-41, 1939.
CASTILHO, Júlio de,  Lisboa antiga, vol. IV,  1885, 

sexta-feira, 10 de janeiro de 2025

Edifício central da companhia dos telefones de Lisboa

Edifício situado no gaveto da Rua Augusta, 254-262, com a Rua de Santa Justa, 54-60, que serviu, entre 1888 e 1905, de sede da Anglo-Portuguese Telephone Company em Portugal. A mansarda, cujo projecto indica ter sido acrescentada em 1888, surge em foto tirada do elevador de Santa Justa [vd. 2ª imagem], provavelmente da primeira década de 1900.

Rua Augusta com a Rua de Santa Justa |c. 189-|
Edifício central da companhia dos telefones de Lisboa 
A estrutura em madeira visível nesta foto era uma grande caixa sobre o telhado
do prédio que servia de central de cabelagem dos telefones. A central funcionou neste
edifício até 1905.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

O pedido de alteração do telhado mostra nas peças gráficas o desejo de substituir somente as águas-mestras por novo material, esclarece o material que revestia as águas-dobradas, e que se observa na 2ª imagem, reza assim:

No 4º andar e mansarda, onde se pretende faser estas obras, esteve installada a “Companhia dos Telephones” que mandou demolir algumas divisões interiores a fim de obter uma grande sala em cada um dos pavimentos, assim como fez construir o telhado em condições especiais para o seu serviço, e coberto com folha de ferro. Pretende agora o proprietario tornar estes dois pavimentos habitaveis, fasendo-lhes novas divisões e construindo novo telhado com inclinação regular e coberto de telha.
 Na actualidade, este edifício encontra-se revestido com telhas canudo, inseridas após 1980, o que não permite a observação in loco para levantar informações complementares. 

Rua de Santa Justa |c. 1903|
O edifício da Telephone Company (3º à esq.) após as alteração do telhado e mansarda.
Castelo de S. Jorge; elevador de Santa Justa
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Este modelo de cobertura surgiu em França e ganhou notoriedade através das obras de dois arquitectos do século XVII: François Mansart (1598-1666) e o seu sobrinho-neto Jules Hardouin-Mansart (1646-1708), cujos sobrenomes se tornaram na nomenclatura usada para o modelo arquitectónico (Machado e Moura, 2017).
Em Lisboa, a mansarda surge no léxico arquitetónico português no século XVIII, importada de modelos franceses. [Mateus: Cadernos do Arquivo Municipal, 2022]

Rua de Santa Justa |1960-70|
O edifício da Telephone Company é 2º à esq. com o desaparecido Hotel Francfort à frente.
Panorâmica sobre a encosta do Castelo, tirada a partir do topo do elevador de Santa Justa
Horácio Novais, in Lisboa de Antigamente

domingo, 4 de janeiro de 2026

Elevador de Santa Justa e a formidável audácia do seu construtor

Quando há tempos se celebrou o centenário do nascimento de Eiffel, o famoso realizador de tantas obras de engenharia que assombraram o Mundo, no último quartel do século XIX, houve quem lhe atribuísse também a construção do elevador de Santa Justa.
Não é verdade.

O popular ascensor instalado no centro da Baixa é obra de um engenheiro português que, se não alcançou a fama de Eiffel, nem por isso é menos digno de ser recordado com simpatia e admiração por todos os portugueses.
Chamava-se ele Raúl Mesnier Ponsard (1848-1914). A origem francesa do seu apelido não invalida a sua qualidade de português. Embora descendendo de pais franceses, nasceu em Portugal (Porto) e aqui realizou toda a sua obra que é notável e merece ser lembrada.
Raúl Mesnier nascera com decidida vocação para a engenharia. Feitos os seus cursos com raro brilho, dedicou-se a pequenos inventos e aplicações mecânicas, tendo publicado diversas obras e realizado alguns aperfeiçoamentos em armas de fogo.
Mas, na realidade, ele nascera para dar vida às construções audaciosas que dominam o espaço, e essa tendência em breve se deveria manifestar.
Animado de ardor juvenil, traçou planos extraordinários, ideou construções grandiosas, tudo destinado a vencer as distâncias, a galgar as alturas.
Portugal, país montanhoso, acidentado, de grandes depressões e vertiginosas alturas, e Lisboa, em especial, construída sobre sobranceiras colinas, eram o campo em que a sua actividade e os seus projectos melhor podiam encontrar aplicação.
De princípio a sua energia, a sua audácia e o seu enorme espírito de iniciativa esbarraram contra a rotina, destino a que raramente são poupados os grandes inovadores. Consideraram-no doido, visto as suas concepções excederem a esfera das ideias de então.

Corte vertical do Elevador de Santa Justa, segundo projecto inicial do eng. Raúl Mesnier Ponsard

Mais tarde, quando a sua reputação já estava firmada, Raul Mesnier comprazia-se em recordar que tendo nesses primeiros tempos solicitado o auxílio do então poderoso banqueiro Moura Borges pouco faltara para que este lhe batesse.
Mesnier soube, porém, persistir e venceu. Os capitais, vencida a primeira desconfiança, começaram a afluír seduzidos pela audácia e clareza dos seus projectos. Assim se formou a base material indispensável à realização dos seus arrojados planos.
Em 1880 foi encarregado de dirigir a construção do elevador do Bom Jesus do Monte, em Braga, que foi o primeiro que se construiu no nosso País. Dois anos depois, as obras estavam terminadas, e eram feitas as experiências que alcançaram o mais lisonjeiro êxito, assegurando assim o futuro do novel engenheiro.
A seguir, em 1884, foi construído, sob o seu projecto, o elevador da Calçada da Glória. A este seguiram-se os do Lavra, da Estrela-Camões da Bica, e do Largo do Município, também conhecido como elevador da Biblioteca ou elevador de S. Julião,
Finalmente, no princípio deste século, Raul Mesnier empreendia a realização do elevador de Santa Justa ao Carmo que pode ser considerado o capítulo mais notável desta prodigiosa actividade desenvolvida no espaço de vinte anos apenas.

Elevador de Santa Justa (ou do Carmo)
A Torre de Santa Justa, como soberbo Miradouro.
Postais ilustrados, post.1902, in Lisboa de Antigamente

De facto, a construção deste ascensor foi a que mais contribuiu para consagrar os inegáveis méritos deste ilustre engenheiro. Mais de trinta anos volvidos sobre a sua inauguração, a enorme construção metálica não manifestava o mais leve sinal de velhice. Ainda hoje, a sua enorme torre e o extenso viaduto que liga esta às ruínas do Carmo, suscitam de quem visita Lisboa um olhar de admiração pelas suas proporções grandiosas. Décadas de progressos mecânicos incessantes nada diminuíram ao ascensor a sua primitiva imponência.
Começaram as obras com a construção da enorme torre metálica que, partindo das Escadinhas de Santa Justa, junto à Rua Áurea, se havia de erguer até ao nível do Largo do Carmo, ou seja, a uma altura de 32 metros aproximadamente.
Realizada esta primeira parte da obra e de modo que honra a indústria portuguesa, uma outra não menos complexa restava fazer estabelecer a ligação entre o tabuleiro da torre e a faixa de terreno situado a par das ruínas do mosteiro do Carmo. Para tal, tornava-se necessário lançar entre os dois pontos um viaduto e essa operação fizera surgir uma série de incidentes que só o engenho e persistência de Raul Mesnier lograriam vencer.
Este viaduto, como é sabido, partindo do tabuleiro da torre, passa sobre a Rua do Carmo, mais adiante sobre um prédio que era ao tempo propriedade do conde de Tomar, e vai desembocar no terreno que contorna as ruínas do museu do Carmo e estabelece ligação com o largo do mesmo nome.
Ora o problema seria de solução relativamente fácil se sobre o prédio em questão se pudesse estabelecer um ponto de apoio para o viaduto.
Mas, ou por insuficiente resistência do edifício ou por oposição do proprietário, o certo é que essa ideia não pôde ser posta em prática. Necessário se tornou por isso construir os fortes pilares que se encontram situados ao começo das escadinhas, junto à Rua do Carmo.

Elevador de Santa Justa (ou do Carmo)
Na «enorme torre de metal pintado de cinzento, o grande elevador» que «tem qualquer coisa de impressionante, de juslesvernesca, um ar de máquina para visitar a lua»...
Postal ilustrado, post.1902, in Lisboa de Antigamente

Por outro lado, a Câmara Municipal opunha-se a que nas obras a realizar fossem empregados tapumes ou andaimes que prejudicassem o trânsito intenso das importantes artérias interessadas.
Nestas difíceis circunstâncias, Raul Mesnier lançou mão dum processo curioso, cuja extrema simplicidade mais põe ainda em evidência as admiráveis faculdades do ilustre engenheiro.
Fez em primeiro lugar construir os pilares sobre o local em que ainda hoje se encontram, mas montados sabre uma espécie de charneira provisória que, após as obras terminadas, desapareceu para dar lugar ao fundamento fixo que hoje têm.
Nesta altura, os pilares, repousando sobre o seu pedestal articulado, achavam-se inclinados sobre a Rua Áurea e apoiavam-se contra a torre metálica já construída.
No sentido da altura da torre e fixado pelo meio ao pilar foi então construído o viaduto ou ponte com 25 metros de comprimento e cerca de vinte toneladas de peso.
O lançamento do viaduto fazia-se então da forma mais fácil possível: os pilares, que como dissemos se achavam inclinados e apoiados à torre eram puxados do Largo do Carmo até atingirem a posição vertical. Ao mesmo tempo, o tabuleiro que se encontrava ligado pelo meio aos pilares no sentido vertical era puxado do alto da torre pela extremidade inferior o que o obrigava a descrever um arco de círculo até ficar na posição horizontal estabelecendo assim a ligação entre a torre e o Largo do Carmo.

Elevador de Santa Justa (ou do Carmo)
A ponte, com decoração neo-gótica, tem 25 metros de comprimento.
Postais ilustrados, post.1902 e 1950, respectivamente., in Lisboa de Antigamente

Fixou-se o dia 31 de Agosto de 1901 — um sábado para a realização da difícil manobra. Foi de sensação em Lisboa o acontecimento. A complexa operação teve início às duas horas da tarde, presenciada por uma multidão ansiosa que de todos os pontos da Baixa e sobre os telhados vizinhos seguiu atenta as diversas fases da manobra.
Tudo correu como o grande engenheiro previra, demonstrando-se, assim, a justeza dos seus cálculos.
Durante cerca de três horas e meia a pesada massa de ferro descreveu os movimentos previstos até que a ligação se fizesse.
Pouco passava das cinco horas e meia da tarde quando a comunicação se estabeleceu. Foi um operário de nome Luiz Pinto de Oliveira a primeira pessoa que atravessou o viaduto, calcorreado depois por algumas gerações de passageiros desejosos de se furtarem às fadigas duma subida a pé pelo Chiado.
Para que nada faltasse a este espectáculo, que teve a assisti-lo alguns milhares de curiosos, foi ele interrompido por um incidente que, sem ter consequências, produziu enorme emoção. Foi o caso que em determinada altura da trajectória da ponte se notou que um fio eléctrico interceptava a passagem desta, de tal modo que o movimento não poderia continuar sem quebrar o fio, o que não se faria sem riscos para os que assistiam à manobra.
Uma extraordinária cena teve então lugar ante o pasmo de quantos acompanhavam as diversas fases do lançamento do tabuleiro. Viu-se dois aprendizes de cerca de quinze anos de idade saltarem para o tabuleiro que oscilava no espaço e, apoiando-se nas réguas metálicas que o formavam, treparem em direcção à extremidade superior a fim de desembaraçarem a ponte do imprevisto obstáculo. O fio eléctrico, porém, ficava nesse momento sob a face inferior do tabuleiro e, portanto, fora do alcance dos audaciosos aprendizes.
Um deles retrocedeu com o fim de buscar ferramenta, mas o outro mais destemido, passou o cinto em volta duma das réguas da ponte e fazendo dele apoio, debruçou-se no espaço, colheu o fio com as mãos e fê-lo passar para o lado oposto do tabuleiro, deixando desimpedido o caminho à enorme massa metálica que em breve retomava o seu vagaroso movimento. Chamavam-se os dois heróis desta aventura Luiz Pinto e Luiz Burra, «dois luízes de bom quilate», como então dizia o Diário de Notícias comentando o facto. Bem possível é que ainda vivam e que se ufanem dessa temerária proeza que deixou suspensa de emoção durante alguns momentos quási toda a Lisboa de há trinta anos.

Elevador de Santa Justa (ou do Carmo)
O último piso ergue-se a uma altura de 41 mt.
Postal ilustrado, post.1902, in Lisboa de Antigamente

Uma única nota discordante se registou neste surpreendente espectáculo de que Lisboa inteira falou durante muito tempo. Foi o protesto dos lojistas da Rua Nova do Carmo contra a escolha da hora para a manobra que em seu entender deveria ter-se realizado durante a madrugada. A enorme afluência de curiosos fizera paralisar, por completo o trânsito nas imediações do ascensor, dificultando o comércio e justificando esta "aclamação" a que os jornais da época fizeram referência.
Como dissemos, o lançamento da ponte realizou-se, no meio de grande pompa, em Outubro de 1901, na presença de el-rei D. Carlos. Em Junho do ano de 1902, teve Raul Mesnier a alegria de ver inaugurar-se o elevador que de então para cá tantos serviços tem prestado. E a caranguejola, como ele se comprazia em chamar-lhe, funcionou sempre às mil maravilhas.

Elevador de Santa Justa (ou do Carmo) quando ainda funcionava a vapor
 Um dos mais interessantes atractivos de Lisboa, de onde se abrange uma panorâmica que foge à vista do observador.
Postais ilustrados, post.1902, in Lisboa de Antigamente

N.B. Raúl Mesnier Ponsard (1848-1914), o homem que mais elevadores construiu em Portugal, é uma figura curiosa que mereceu ser recordada e que tem jus à nossa admiração.
O sonho de toda a sua vida foi sempre construir esses engenhos destinados a vencer as alturas. E morreu levando consigo o projecto, admiravelmente utópico, de reunir as sete colinas da cidade por gigantescos transportadores aéreos que passeassem no espaço, entre uma e outra extremidade da capital, os que assim pretendessem deslocar-se...==

Elevador de Santa Justa (ou do Carmo)
Autoria do engenheiro Raoul Mesnier du Ponsard e do arquitecto Louis Reynaud, foi inaugurado na tarde de 10 de Julho de 1902, fazia a ligação entre as Rua do Ouro e de Santa Justa e o Largo do Carmo. 
Postal ilustrado, post.1902, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
Arquivo nacional, 1940. Gazeta dos Caminhos de Ferro, 1902.
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XII, 1939
JANEIRO, Maria João, Lisboa: histórias e memórias, 2006.
COSTA, Mário, O Chiado pitoresco e elegante, 1987
Guia de Portugal: 1924.

domingo, 9 de agosto de 2026

À roda da Magdalena: o Monete, o Bonete e o Rozendo

Magdalena (rua da) segunda á esquerda na rua nova d'Alfandega, indo da praça do Commercio e finda no poço do Borratem, freguezias da Magdalena 2 a 22, 32 a 146 ela 197, S. Christovão 148 a 186, Santa Justa 188 a 234, 199 a 291, Sé 24 a 30. [Velloso: 1869]

A Rua da Madalena nunca teve qualquer característica comercial ou industrial muito acentuada. Artéria de passagem, de ligação entre a Baixa e S. Cristóvão, S. Mamede e altos do Castelo e da Graça, e ainda à margem da zona principal do comércio citadino, nunca foi uma rua cujo nome lembrasse, ao pronunciá-lo, uma especialidade comercial que a dominasse. No entanto lá teve uma zona que era a das sapatarias e lá teve também as suas casas de venda de bixas (barbearias?).
Da indústria, alem da dos tamancos e das violas, só mais duas, na segunda metade do século passado se afeiçoaram à rua: a hoteleira, na parte que desce para o sul, e a das molherinhas de porta, no pitoresco dizer do quinhentista Miguel Leitão de Andrade ao referir-se às mulheres que se vendiam a si próprias, as quais, sorrateiramente, fugindo a vigilância por entre as sombras imprecisas projectadas pela mortiça luz de azeite, se foram acomodando, hoje uma, amanhã outra, depois várias, ao fim da rua, junto à Betesga, no enfiamento da Mouraria, foco principal. Foi esta a parte suja da rua. Foi ... e infelizmente ainda é, pelo menos à noite, na passagem obrigatória para as casas duvidosas do beco do Rosendo. Mas tirando esta parte — a que resvala das embocaduras das escadinhas de Santa Justa e da travessa da Madalena, antigo beco do Monete — a rua foi sempre uma artéria limpa, uma rua pacatamente habitada pela burguesia com alguma coisa de seu, circunstância que lhe emprestou noutros tempos um ar calmo, de intimidade, que nos confidenciava morarem ali as senhoras Silvas com o seu jogo de gamão, as suas fatias de pão de fôrma com manteiga, o seu chá, e os seus bolos do afamado Baltresqui ...==
[MACEDO, Luiz Pastor de, Tempos que passaram; um artista, uma rua e uma freguesia de Lisboa, 1940]

Rua da Madalena (S→N) |c. 1911|
A dir. lê-se o dístico municipal indicando o então Beco do Monete, que por edital de 1924, passou a denominar-se Tv. da Madalena. Ao funco fica o Poço do Borratém.
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente
Legenda no abandalhado amL:«Manietação popular»

O topónimo Rua da Madalena, como o próprio nome indica, deriva da proximidade à Igreja da Madalena, existente desde pelo menos 1164, mandada construir por D. Afonso Henriques junto à Cerca Moura, em terrenos onde outrora se erguia um templo romano dedicado a Cibeles, a deusa-mãe.
De acordo com o olisipógrafo Luíz Pastor de Macedo, esta artéria teria sido a Rua do Arco de N. S. da Consolação. Por seu lado, Norberto Araújo defendia que não correspondia a qualquer arruamento existente antes do terramoto de 1755. Em 1841, adianta, ainda nesta artéria não havia passeios empedrados.

 

Rua da Madalena em 1911 e 1901, respectivamente
A primeira transversal na imagem da esq. é a Rua de Santa Justa (escadinhas). 
Na imagem da dir. vê-se a embocadura das Escadinhas de São Cristóvão, sendo que, ao prédio com que estas faziam gaveto, foi acrescentado do lado poente
uma fiada com um arco que se abre sobre a antiga serventia.
Fotografias por Alberto Carlos Lima e Machado & Souza, in Lisboa de Antigamente

Monete (beco do) primeiro á esquerda nas escadinhas de S. Christovão, indo da rua da Magdale Magdalena, e finda na rua da Magdalena, não tem saída, freguezia de Santa Justa 2 a 50 e 1 a 9.

Monete (Beco do) Em 1551 «rua do Monturo do Bonete», assim como as Escadinhas de S. Cristóvão «rua da calçada do Monturo do Bonete», havendo também no sítio a «travessa do Monturo do Bonete».
Em 1715, a rua do Monturo do Bonete desceu já à categoria de «beco», e a sua denominação está reduzida a «Beco do Bonete». Em 1763, ainda o Padre Castro lhe chama igualmente «Beco do Bonete». Aparece, enfim, o beco do Bonete transformado em beco do Monete, no Itinerário de Inácio Paulino, edição de. edição de. 1804. É. provável. que. a. transformação. venha. da. aposição geral dos letreiros, mandada executar dois anos antes pela Administração Geral dos Correios.
É o segundo à esquerda, subindo pela rua da Madalena e termina nas escadinhas de S. Cristóvão, diz o Itinerário lisbonense de 1818. [Brito: 1935]

Beco do Rosendo |c. 1945|
Perpectiva tomada da Rua da Madalena.
Fernando Martinez Pozal, in Lisboa de Antigamente

Em Lisboa há um beco hoje chamado «do Rosendo» que pelos documentos antigos e pelo Tombo da Cidade, composto depois do terremoto de 1755, se vê ter tido a denominação de Resende. [O Archeólogo português: 1906]

domingo, 7 de junho de 2015

Elevador de Santa Justa — a todo o vapor

E aqui temos, da esplanada do ascensor de Santa Justa, um espectáculo de cor, de movimento, uma planificação agitada — um mapa ao vivo — da Lisboa pombalina, da Lisboa que ficou como no século XVII, e da Lisboa moderna. [...] 

Do alto do Carmo, na passarelle que serve o ascensor, « entende-se » melhor a Lisboa que nos rodeia Escancara-se; mostra-se como se usássemos uma lupa, aplicada sobre uma planta natural. [Araújo: 1938]


O elevador de Santa Justa — ou do Carmo — foi inaugurado no dia 10 Julho de 1902, sendo um dos dois ascensores verticais da cidade (o ouro era o elevador de S. Julião). O projecto é de Raoul Mesnier du Ponsard. Com 45 metros de altura e integralmente construído em ferro forjado, faz a ligação entre a Rua Áurea, vulgo «do Ouro» e o largo do Carmo. Apresenta-se em estilo neogótico, com decorações em filigrana e foi classificado como monumento nacional em 2002.

Elevador de Santa Justa, a todo o vapor [ant. 1907]
Rua de Santa Justa; Largo do Carmo
Paulo Guedes,in Lisboa de Antigamente

Movido inicialmente a vapor, passou a ser accionado por energia eléctrica, em 1907. O transporte dos passageiros é feito por duas cabines de madeira, cada uma com capacidade para 20 pessoas. A ascensão por estas cabines dá acesso a um passadiço de 25 metros, que leva os passageiros até ao Largo do Carmo.

Elevador de Santa Justa, a todo o vapor [entre 1902 e 1907]
Rua de Santa Justa; Largo do Carmo
Paulo Guedes, in Lisboa de Antigamente

sexta-feira, 31 de março de 2023

Ascensor de Santa Justa

Desabalado, atravesso o Rossio, desço a Rua do Ouro e meto-me no ascensor de Santa Justa. Viagem curta ao ritmo do choro tolhido de um miúdo agarrado ao xaile da mãe, gorda de miséria.
— Tenho medo, mãe! Tenho medo. (É estranho. Também eu).
A porta do elevador escancarou-se e agora os passageiros atropelam-se, açodados, aos encontrões no viaduto para o Largo do Carmo.
(FERREIRA, José Gomes, O Irreal Quotidiano: histórias e invenções, 1976)

Ascensor de Santa Justa |post. 1902|
Postal ilustrado não circulado, edição de F. A. Martins & Silva, in Lisboa de Antigamente

A Rua de Santa Justa foi um dos 14 topónimos da Portaria pombalina de 5 de Novembro de 1760, diploma do rei D. José com que foi inaugurada em Lisboa a prática de atribuição de nomes de ruas por decreto e, no qual se estabeleceu a denominação dos arruamentos localizados da Baixa lisboeta reconstruída, entre a Praça do Comércio e o Rossio.
O elevador de Santa Justa — ou do Carmo — foi inaugurado no dia 10 Julho de 1902, sendo um dos dois ascensores verticais da cidade (o ouro era o elevador de S. Julião). O projecto é de Raoul Mesnier du Ponsard.

Rua de Santa Justa, ascensor |post. 1902|
A primeira transversal é a Rua da Prata, antiga Bela da Rainha; seguem-se as Ruas dos Correeiros, Augusta [da Figura do Rei], Sapateiros e, por fim, a Rua Áurea.
Autor não identificado, in Lisboa de Antigamente

sexta-feira, 5 de setembro de 2025

Cruzamento da Rua Áurea com a Rua da Santa Justa: a «calçadinha do tijolo»

Tijolo (calçadinha do) denominação dada pelo vulgo á parte que vae da antiga rua nova do Carmo até á rua Aurea, na então travessa de Santa Justa. [Velloso, 1869]

A Senhora D. Alzira, uma querida e muito simpática idosa com os seus oitenta e oito anos, portuense de gema, criada no seio dos mais simples e desfavorecidos habitantes da Invicta, acompanhada pelo marido, o Senhor Alfredo, uns anos mais jovem, davam início a mais uma madrugada na venda de jornais, junto à montra da ourivesaria Torres [antiga Casa de chapéus e modas Jsyme Pinto, vd. 2ª imagem], no cruzamento da Rua de Santa Justa com a Rua Áurea, precisamente no local de acesso ao Elevador de Santa Justa.
(Alexandre Nunes, Antologia do presente, passado e futuro, 2015)

Cruzamento da Rua Áurea (vulgo do Ouro) com a Rua da Santa Justa |1922-08-18|
O Marco Postal que se observa na imagem — um dos primeiros a ser colocado
nas ruas da capital — é um modelo de 1895. 

Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

No tempo do Livro das Grandezas de Lisboa (1620) havia na cidade «40 calçadores de calçadas».
 
Este trecho entre as duas artérias era chamado, por volta de mil oitocentos e troca o passo, de «calçadinha do tijolo», devido ao pavimento ser de tijolo. No início da década de 1920, podia ver-se, a nordeste, a Tabacaria Mendes & Rodrigues (à esq. na 1º imagem e actualmente Perfumaria Vogue) e, a sudeste, a Relojoaria Batalha [v. aqui], que ainda actua no mesmo ramo, agora com o nome Relojoaria Suíça — qualquer delas já encerradas. [Dias: 1998]

Cruzamento da Rua Áurea (vulgo do Ouro) com a Rua da Santa Justa |1922-08-20|
A calçadinha do Tijolo, assim chamada, por ser toda ladrilhada; ha quarenta annos, ainda se notavam na calçadinha velhissimos tijolos postos a pino, que o progresso substituiu pelo macadame.» [O recreio: 1890]
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Rua da Conceição

Sobre a Rua da Conceição refere a Portaria pombalina de 5 de Novembro de 1760, diploma do rei D. José com que foi inaugurada em Lisboa a prática de atribuição de nomes de ruas por decreto e, no qual se estabelece a denominação dos arruamentos localizados da Baixa lisboeta reconstruída, entre a Praça do Comércio e o Rossio, ao mesmo tempo que regulariza a distribuição dos ofícios e ramos do comércio pelos diferentes arruamentos, a saber: Rua Nova d'El Rey, Rua Augusta, Rua Áurea, Rua Bella da Rainha, Rua Nova da Rainha, Rua dos Douradores, Rua dos Correeiros, Rua dos Sapateiros, Rua de S. Julião, Rua da Conceição, Rua de S. Nicolau, Rua da Victoria, Rua da Assumpção e Rua de Santa Justa.

Sobre a Rua da Conceição refere a Portaria que «Assim se denominará a segunda das referidas seis traveças, e nella se acommodorão os Mercadores de logens de retroz.»

A escolha do topónimo deriva da proximidade à Igreja da Conceição, aliás como o sublinha Luís Pastor de Macedo quando afirma que «os nomes de S. Julião, da Conceição, de S. Nicolau, da Vitória e de Santa Justa, foram dados às ruas que mais perto passavam das igrejas e ermidas que com aquela invocação, segundo o plano estabelecido, se haviam de erguer ou se estavam já construindo.»
(in cm-lisboa.pt)

Rua da Conceição vulgo dos Retroseiros [1909]
Retrosaria Fernandes & Cardoso onde existe uma lápide e um poço com acesso às galerias romanas.
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Depois do grande terramoto de 1755, quando, em 1770, se abriam caboucos para a construção de um prédio na esquina da Rua da Prata com a Rua dos Retroseiros (ou da Conceição) foram encontradas as ruínas de um complexo de galerias inicialmente identificadas como termas romanas. No local apareceu também uma grande lápide, de mármore dedicada a Esculápio, deus da Medicina que fora mandada gravar por dois augustais, ambos de origem grega e por eles oferecida ao município olisiponense que levou à identificação deste sítio como termas. Calcula-se que a sua construção date do tempo de Tibério (14-37 a.C.). (in arqueologia.patrimoniocultural.pt)

Base de estátua a Esculápio
Proveniência: Rua da Prata, Lisboa
Cronologia: Época romana. Ano (s) 14-37 d.C.
Tipologia: Base de estátua em mármore branco (lápide)
Dimensão: altura 73 cm largura 72 cm espessura 53 cm

Pedestal de estátua (lápide; na face superior está patente um orifício destinado ao respectivo encaixe; bloco alisado nas faces laterais e anterior; a peça encontra-se fracturada na face posterior. A paginação do texto segue sensivelmente o eixo de simetria. Os dedicantes apresentam antropónimos de cariz grecizante e identificam-se como augustais; são, evidentemente, libertos. Esta dedicatória a AESCVLAPIVS não está necessariamente associada ao culto imperial, apesar dos cargos religiosos nesse âmbito desempenhados por Marcus Afranius Euporio e por Lucius Fabius Daphnus. 

« SACRVM / AESCVLAPIO / M(arcus) . AFRANIVS . EVPORIO / ET / L(ucius) . FABIVS DAPHNVS / AVG(ustales) / MVNICIPIO . D(ono) . D(ederunt) //.»

Tradução: "Consagrado a Aesculapio. Marco Afranio Euporio e Lúcio Fábio Daphno, augustais do município, deram e dedicaram".

Planta e cortes verticais das galerias romanas consagradas a Esculápio,
descobertas no subsolo da Rua da Prata

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