Quando há tempos se celebrou o centenário do nascimento de Eiffel, o famoso realizador de tantas obras de engenharia que assombraram o Mundo, no último quartel do século XIX, houve quem lhe atribuísse também a construção do elevador de Santa Justa.
Não é verdade.
O popular ascensor instalado no centro da Baixa é obra de um engenheiro português que, se não alcançou a fama de Eiffel, nem por isso é menos digno de ser recordado com simpatia e admiração por todos os portugueses.Chamava-se ele Raúl Mesnier Ponsard (1848-1914). A origem francesa do seu apelido não invalida a sua qualidade de português. Embora descendendo de pais franceses, nasceu em Portugal (Porto) e aqui realizou toda a sua obra que é notável e merece ser lembrada.Raúl Mesnier nascera com decidida vocação para a engenharia. Feitos os seus cursos com raro brilho, dedicou-se a pequenos inventos e aplicações mecânicas, tendo publicado diversas obras e realizado alguns aperfeiçoamentos em armas de fogo.Mas, na realidade, ele nascera para dar vida às construções audaciosas que dominam o espaço, e essa tendência em breve se deveria manifestar.Animado de ardor juvenil, traçou planos extraordinários, ideou construções grandiosas, tudo destinado a vencer as distâncias, a galgar as alturas.Portugal, país montanhoso, acidentado, de grandes depressões e vertiginosas alturas, e Lisboa, em especial, construída sobre sobranceiras colinas, eram o campo em que a sua actividade e os seus projectos melhor podiam encontrar aplicação.De princípio a sua energia, a sua audácia e o seu enorme espírito de iniciativa esbarraram contra a rotina, destino a que raramente são poupados os grandes inovadores. Consideraram-no doido, visto as suas concepções excederem a esfera das ideias de então.
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| Corte vertical do Elevador de Santa Justa, segundo projecto inicial do eng. Raúl Mesnier Ponsard |
Mais tarde, quando a sua reputação já estava firmada, Raul Mesnier comprazia-se em recordar que tendo nesses primeiros tempos solicitado o auxílio do então poderoso banqueiro Moura Borges pouco faltara para que este lhe batesse.
Mesnier soube, porém, persistir e venceu. Os capitais, vencida a primeira desconfiança, começaram a afluír seduzidos pela audácia e clareza dos seus projectos. Assim se formou a base material indispensável à realização dos seus arrojados planos.
Em 1880 foi encarregado de dirigir a construção do elevador do Bom Jesus do Monte, em Braga, que foi o primeiro que se construiu no nosso País. Dois anos depois, as obras estavam terminadas, e eram feitas as experiências que alcançaram o mais lisonjeiro êxito, assegurando assim o futuro do novel engenheiro.
A seguir, em 1884, foi construído, sob o seu projecto, o elevador da Calçada da Glória. A este seguiram-se os do Lavra, da Estrela-Camões da Bica, e do Largo do Município, também conhecido como elevador da Biblioteca ou elevador de S. Julião,
Finalmente, no princípio deste século, Raul Mesnier empreendia a realização do elevador de Santa Justa ao Carmo que pode ser considerado o capítulo mais notável desta prodigiosa actividade desenvolvida no espaço de vinte anos apenas.
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Elevador de Santa Justa (ou do Carmo) Francfort Hotel (dir.) A Torre de Santa Justa, como soberbo Miradouro. Postais ilustrados, post.1902, in Lisboa de Antigamente |
De facto, a construção deste ascensor foi a que mais contribuiu para consagrar os inegáveis méritos deste ilustre engenheiro. Mais de trinta anos volvidos sobre a sua inauguração, a enorme construção metálica não manifestava o mais leve sinal de velhice. Ainda hoje, a sua enorme torre e o extenso viaduto que liga esta às ruínas do Carmo, suscitam de quem visita Lisboa um olhar de admiração pelas suas proporções grandiosas. Décadas de progressos mecânicos incessantes nada diminuíram ao ascensor a sua primitiva imponência.Começaram as obras com a construção da enorme torre metálica que, partindo das Escadinhas de Santa Justa, junto à Rua Áurea, se havia de erguer até ao nível do Largo do Carmo, ou seja, a uma altura de 32 metros aproximadamente.Realizada esta primeira parte da obra e de modo que honra a indústria portuguesa, uma outra não menos complexa restava fazer estabelecer a ligação entre o tabuleiro da torre e a faixa de terreno situado a par das ruínas do mosteiro do Carmo. Para tal, tornava-se necessário lançar entre os dois pontos um viaduto e essa operação fizera surgir uma série de incidentes que só o engenho e persistência de Raul Mesnier lograriam vencer.Este viaduto, como é sabido, partindo do tabuleiro da torre, passa sobre a Rua do Carmo, mais adiante sobre um prédio que era ao tempo propriedade do conde de Tomar, e vai desembocar no terreno que contorna as ruínas do museu do Carmo e estabelece ligação com o largo do mesmo nome.Ora o problema seria de solução relativamente fácil se sobre o prédio em questão se pudesse estabelecer um ponto de apoio para o viaduto.Mas, ou por insuficiente resistência do edifício ou por oposição do proprietário, o certo é que essa ideia não pôde ser posta em prática. Necessário se tornou por isso construir os fortes pilares que se encontram situados ao começo das escadinhas, junto à Rua do Carmo.
Por outro lado, a Câmara Municipal opunha-se a que nas obras a realizar fossem empregados tapumes ou andaimes que prejudicassem o trânsito intenso das importantes artérias interessadas.Nestas difíceis circunstâncias, Raul Mesnier lançou mão dum processo curioso, cuja extrema simplicidade mais põe ainda em evidência as admiráveis faculdades do ilustre engenheiro.Fez em primeiro lugar construir os pilares sobre o local em que ainda hoje se encontram, mas montados sabre uma espécie de charneira provisória que, após as obras terminadas, desapareceu para dar lugar ao fundamento fixo que hoje têm.Nesta altura, os pilares, repousando sobre o seu pedestal articulado, achavam-se inclinados sobre a Rua Áurea e apoiavam-se contra a torre metálica já construída.No sentido da altura da torre e fixado pelo meio ao pilar foi então construído o viaduto ou ponte com 25 metros de comprimento e cerca de vinte toneladas de peso.O lançamento do viaduto fazia-se então da forma mais fácil possível: os pilares, que como dissemos se achavam inclinados e apoiados à torre eram puxados do Largo do Carmo até atingirem a posição vertical. Ao mesmo tempo, o tabuleiro que se encontrava ligado pelo meio aos pilares no sentido vertical era puxado do alto da torre pela extremidade inferior o que o obrigava a descrever um arco de círculo até ficar na posição horizontal estabelecendo assim a ligação entre a torre e o Largo do Carmo.
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Elevador de Santa Justa (ou do Carmo) A ponte, com decoração neo-gótica, tem 25 metros de comprimento. Postais ilustrados, post.1902 e 1950, respectivamente., in Lisboa de Antigamente |
Fixou-se o dia 31 de Agosto de 1901 — um sábado para a realização da difícil manobra. Foi de sensação em Lisboa o acontecimento. A complexa operação teve início às duas horas da tarde, presenciada por uma multidão ansiosa que de todos os pontos da Baixa e sobre os telhados vizinhos seguiu atenta as diversas fases da manobra.Tudo correu como o grande engenheiro previra, demonstrando-se, assim, a justeza dos seus cálculos.Durante cerca de três horas e meia a pesada massa de ferro descreveu os movimentos previstos até que a ligação se fizesse.Pouco passava das cinco horas e meia da tarde quando a comunicação se estabeleceu. Foi um operário de nome Luiz Pinto de Oliveira a primeira pessoa que atravessou o viaduto, calcorreado depois por algumas gerações de passageiros desejosos de se furtarem às fadigas duma subida a pé pelo Chiado.Para que nada faltasse a este espectáculo, que teve a assisti-lo alguns milhares de curiosos, foi ele interrompido por um incidente que, sem ter consequências, produziu enorme emoção. Foi o caso que em determinada altura da trajectória da ponte se notou que um fio eléctrico interceptava a passagem desta, de tal modo que o movimento não poderia continuar sem quebrar o fio, o que não se faria sem riscos para os que assistiam à manobra.Uma extraordinária cena teve então lugar ante o pasmo de quantos acompanhavam as diversas fases do lançamento do tabuleiro. Viu-se dois aprendizes de cerca de quinze anos de idade saltarem para o tabuleiro que oscilava no espaço e, apoiando-se nas réguas metálicas que o formavam, treparem em direcção à extremidade superior a fim de desembaraçarem a ponte do imprevisto obstáculo. O fio eléctrico, porém, ficava nesse momento sob a face inferior do tabuleiro e, portanto, fora do alcance dos audaciosos aprendizes.Um deles retrocedeu com o fim de buscar ferramenta, mas o outro mais destemido, passou o cinto em volta duma das réguas da ponte e fazendo dele apoio, debruçou-se no espaço, colheu o fio com as mãos e fê-lo passar para o lado oposto do tabuleiro, deixando desimpedido o caminho à enorme massa metálica que em breve retomava o seu vagaroso movimento. Chamavam-se os dois heróis desta aventura Luiz Pinto e Luiz Burra, «dois luízes de bom quilate», como então dizia o Diário de Notícias comentando o facto. Bem possível é que ainda vivam e que se ufanem dessa temerária proeza que deixou suspensa de emoção durante alguns momentos quási toda a Lisboa de há trinta anos.
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Elevador de Santa Justa (ou do Carmo) O último piso erguue-se a uma altura de 41 mt. Postal ilustrado, post.1902, in Lisboa de Antigamente |
Uma única nota discordante se registou neste surpreendente espectáculo de que Lisboa inteira falou durante muito tempo. Foi o protesto dos lojistas da RuaNovado Carmo contra a escolha da hora para a manobra que em seu entender deveria ter-se realizado durante a madrugada. A enorme afluência de curiosos fizera paralisar, por completo o trânsito nas imediações do ascensor, dificultando o comércio e justificando esta "aclamação" a que os jornais da época fizeram referência.Como dissemos, o lançamento da ponte realizou-se, no meio de grande pompa, em Outubro de 1901, na presença de el-rei D. Carlos. Em Junho do ano de 1902, teve Raul Mesnier a alegria de ver inaugurar-se o elevador que de então para cá tantos serviços tem prestado. E a caranguejola, como ele se comprazia em chamar-lhe, funcionou sempre às mil maravilhas.
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Elevador de Santa Justa (ou do Carmo) quando ainda funcionava a vapor Um dos mais interessantes atractivos de Lisboa, de onde se abrange uma panorâmica que foge à vista do observador. Postais ilustrados, post.1902, in Lisboa de Antigamente |
N.B. Raúl Mesnier Ponsard (1848-1914), o homem que mais elevadores construiu em Portugal, é uma figura curiosa que mereceu ser recordada e que tem jus à nossa admiração.
O sonho de toda a sua vida foi sempre construir esses engenhos destinados a vencer as alturas. E morreu levando consigo o projecto, admiravelmente utópico, de reunir as sete colinas da cidade por gigantescos transportadores aéreos que passeassem no espaço, entre uma e outra extremidade da capital, os que assim pretendessem deslocar-se...==
Bibliografia
Arquivo nacional, 1940. Gazeta dos Caminhos de Ferro, 1902.
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XII, 1939
JANEIRO, Maria João, Lisboa: histórias e memórias, 2006.
COSTA, Mário, O Chiado pitoresco e elegante, 1987
Guia de Portugal: 1924.







Ufa! Longo mas muito interessante e curioso texto.
ReplyDeleteFascinante historial do ascensor em postais. Excelente trabalho.
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