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sexta-feira, 10 de novembro de 2023

Avenida da República, 71 e 73 (actualizado)

Logo no dia 6 de Outubro de 1910, a Câmara Municipal de Lisboa inventava, nas avenidas novas, uma «Avenida da República» (sacrificando o nome do criador da Lisboa nova, Ressano Garcia) e outra «5 de Outubro» [antiga António Maria de Avelar], paralela. Paulatinamente, os nomes das ruas dessa zona da cidade, precisamente a zona onde vivia a burguesia, iriam formar uma espécie de «quem é quem» republicano. [Ramos: 2001]

Avenida da República, 73 |1966|
A moradia, ao centro, foi demolida por volta da década de 1970.; à dir., vê-se parcialmente o Palacete Leite, risco do arq.º Norte Júnior (vd. 3ª imagem).
João Goulart, in Lisboa de Antigamente

O edifício que se vê na 2ª imagem foi projectado por Norte Júnior, em 1933, para Manuel Ramos, este edifício  situado no topo da Avenida da República, 71 apresenta um desenho de gosto Art Déco, com um cuidado programa decorativo distribuído por inúmeros pormenores de ornamentação nas janelas, varandas e em torno da porta principal.
Destaque para os frisos em relevo que coroam a fachada do edifício, com composições mitológicas de delicado lavor. Imóvel de Interesse Público (1983).

Avenida da República, 71 |1970|
Edifício riscado pelo arq-º Norte Júnior em 1933.
Arnaldo Madureira, in Lisboa de Antigamente
Notas(s):Infelizmente a imagem é de baixa qualidade/resolução, graças ao paupérrimo trabalho de digitalização efectuado pelo Arquivo Municipal de Lisboa (AML) hoje completamente ao abandono.

N.B. O topónimo Avenida da República (antiga Ressano Garcia), juntamente com mais nove, faz parte do primeiro Edital da vereação republicana, datado de 5 de Novembro de 1910, ou seja, precisamente um mês após a implantação da República

Avenida da República |1967-09-25|
Enquadramento na avenida dos edifícios com os números de polícia 71 e 73 e do Palacete Leite que torneja para a Av. de Berna.
João Brito Geraldes, in Lisboa de Antigamente

sexta-feira, 26 de junho de 2015

Avenida da República, 60-62, antiga Ressano Garcia

Esta moradia apalaçada edificada em 1909 (à esq. da foto) estava localizada junto à Praça do Campo Pequeno, correspondendo, talvez, ao actual nº 60-62 da Avenida da República (vd. mapa). Sofreu alterações cerca de 1916 e  foi demolida na década de 1960.


Após a proclamação da República, em 1910, a Câmara de Lisboa alterou a toponímia, substituindo os nomes das figuras públicas comprometidas com a monarquia e os topónimos de cariz religioso por outros evocativos dos ideais republicanos e esta Avenida da República é disso um exemplo claro, substituindo o topónimo do criador das Avenidas Novas em 1904 (Avenida Ressano Garcia) pela própria República.
Refira-se ainda que esta longa artéria ainda antes de ser Avenida Ressano Garcia pelo edital de 3 de Maio de 1897 foi a Avenida das Picoas ao Campo Grande por referência à Quinta das Picoas que existia no local.

Avenida da República [1916]
Preparativos para o embarque das tropas do C.P.E. que vão combater na Primeira Guerra Mundial.

Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente 

Lisboeta de nascimento, ao serviço da Repartição Técnica da Câmara Municipal de Lisboa, Ressano Garcia desempenhou, a partir de 1874, um papel fundamental na transformação da fisionomia da Capital. Para além do Mercado da Ribeira Nova (24 de Julho) e da conclusão das obras nos Paços do Concelho, a figura do Engenheiro está intimamente associada à expansão sistemática da cidade para norte. Consignada no Plano Geral de Melhoramentos (Comissão de 1876-1881), traduziu-se no traçado de eixos viários, largos e rectilíneos – os modernos boulevards – a delimitar quarteirões ortogonais para loteamento, com rotundas, passeios, vegetação e mobiliário urbano, de que a Avenida da Liberdade, a Av. 24 de Julho (o Aterro) e a Avenida das Picoas ao Campo Grande (Av. República) e toda a planificação das ruas adjacentes, são os exemplos mais significativos.

Avenida da República, [ant. 1909]
Paulo Guedes, in Lisboa de Antigamente 

domingo, 23 de novembro de 2025

Avenida da República: viadutos ferroviários de Entrecampos (actualizado)

A Avenida — que em linha recta, é de 1.509 metros — é uma avenida moderna, macadamizada. Havia uma grande dificuldade a vencer — diz Pimentel na sua Lisboa — , quasi a meio trajecto dessa avenida, e que era a passagem de nível para a linha em frente do Mercado Geral de Gados, mas para essa faz-se um desvio, constrói-se um viaduto correspondente, e está vencida a dificuldade. O caminho de ferro de cintura virá a passar do lado da estrada de Entre Campos, onde actualmente passa; daí em diante é que começa a operar-se o desvio, cortando a linha a Avenida Ressano Garcia [hoje Av. da República] em terrenos que pertencem ainda ao Mercado Geral, em seguida esses terrenos, e logo depois a Avenida António Maria d'Avellar [hoje Av. Cinco de Outubro]. (Lisboa, Por Alberto Pimentel, 1903, p. 507)

Avenida da República |195-|
Viaduto ferroviário de Entrecampos inaugurado a 17 Novembro de 1950; Rua Visconde de Seabra.
Judah Benoliel, in Lisboa de Antigamente

N.B. O topónimo Rua Visconde de Seabra perpetua na toponímia de Lisboa o nome de António Luís de Seabra (1798-1895), 1º visconde de Seabra, com título atribuído em 25 de Abril de 1865, responsável pela organização do projecto de Código Civil que foi promulgado por Carta de Lei em 1 de Julho de 1867.
Formado em 1820, a sua carreira desenvolveu-se como deputado, membro da Câmara dos Pares, Ministro da Justiça (1852 e 1868), reitor da Universidade de Coimbra (1866-68) e juiz do Supremo Tribunal de Justiça. [cm-lisboa]

Viaduto ferroviário de Entrecampos, lado N. |1944|
 Em cima à esq., o antigo apeadeiro ferroviária; à dir. nota-se o edifício na Avenida da República, 97.
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Nota(s): Em 1956, dá-se uma alteração no esquema de circulação da Avenida da República. Em 1968/1969 novo desenho de circulação automóvel é introduzido na Avenida da República, devido ao aumento do tráfego automóvel, reprojectando-se um novo viaduto ferroviário para Entrecampos.

Viaduto ferroviário de Entrecampos, lado S. |1968|
Até 1970, do lado do Campo Pequeno e da Avenida Cinco de Outubro, o trânsito automóvel e pedonal, processava-se através de pequenos túneis sob a Avenida da República. Esta situação altera-se radicalmente com a construção de um novo tabuleiro ferroviário.
Artur Inácio Bastos, in Lisboa de Antigamente
Viaduto ferroviário de Entrecampos, lado S. |1967|
Ao fundo, na Avenida 5 de Outubro, 207-215,  nota-se a fachada lateral do edifício (2º prédio) que foi  Prémio Valmor de 1929.
João Brito Geraldes, in Lisboa de Antigamente

domingo, 28 de janeiro de 2024

Avenida da República: antigo Viaduto de Entrecampos

Segundo afirma Norberto de Araújo («Peregrinações em Lisboa, vol. XIV, pp. 63-64») «A linha férrea foi aqui assente em 1890, e inaugurada a 11 de Junho; este viaduto e o da Avenida Cinco de Outubro, são posteriores, e do nosso século. Devo dizer-te, porém, que já em 1873 (inaugurada em 1 de Outubro), corria aqui uma linha pelo sistema Larmanjat, que pouco tempo durou.»

Avenida da República |1934-04-19|
Antigo Viaduto de Entrecampos, lado N.; em cima, à esquerda, um apeadeiro(?) do lado do Campo Pequeno; à direita, o edifício da Avenida da República, 97-97C.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente
Avenida da República sob Linha Férrea de Cintura de Lisboa junto à Rua de Entrecampos |1926-06-17|
Ao fundo nota-se a antiga Estação ferroviário e a passagem de nível de Entrecampos.  Até 1950, do lado do Campo Pequeno e da Avenida Cinco de Outubro [vd. última imagem], o trânsito automóvel e pedonal, processava-se através de pequenos túneis sob a Avenida da República.
Legenda no arquivo: «As estações de caminhos-de-ferro tomadas militarmente durante o Golpe de Estado de 1926»
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Assim, em 17 de Novembro de 1950, foi inaugurada a passagem inferior da Av. da República, depois de removidas as terras do antigo aterro ferroviário, resolvendo deste modo um problema que se arrastava desde a construção da Av. Ressano Garcia (hoje Av. República) no início do século XX.
 
Avenida da República,  lado S. |1944-04|
Túneis sob o antigo Viaduto de Entrecampos.
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente
Avenida Cinco de Outubro,  lado S.  junto ao Mercado Geral de Gados depois Feira Popular |1944-04|
Túnel sob o antigo Viaduto de Entrecampos. Á dir. nota.se a torre da Igreja de N. S. de Fátima sita na Av. de Berna.
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Avenida da República, 77: Casa Mário de Artagão

Palacete de Mário de Artagão, na antiga Avenida Ressano Garcia, construído em 1906, da autoria do arqº Manuel Norte Júnior, demolido na década de 1950 para construção do edifício de habitação que se vê na última imagem.

A casa do sr. Mário de Artagão, é no seu género um interessante e inspirado trecho arquitectural —  escrevia Rosendo Carvalheira; o seu exterior agradável, ligeiro e gracioso, coaduna-se bem ao seu destino: a morada de um intelectual e um poeta de valor.
O sr. Mário de Artagão, escritor e poeta, natural desse prospero e admirável continente onde canta o sabiá [ave comum na América do Sul], não pode nem deve deixar de ser comparticipe do sucesso artístico da sua deliciosa vivenda.
O proprietário inteligente que coopera com o arquitecto apoiando-o nos seus voos artísticos, presta indubitavelmente um valioso serviço que não pode nem deve ser esquecido.

Avenida da República, 77A 77B: Casa Mário de Artagão [post. 1906]
Esquina com a Avenida de Berna, 2
Paulo Guedes, in Lisboa de Antigamente

Se a moradia pelo seu aspecto externo, deve como sentenceia o aforismo critico, traduzir a vida, a psicologia de quem a habita, o exemplar a que me refiro satisfaz por completo.
De todas as fachadas da habitação a mais harmónica equilibrada é a que defronta [vd. 2ª imagem] com a Avenida Ressano Garcia [desde 1910, da República]; a disparidade de motivos de decoração, desaparece perante o arranjo feliz e ponderado de todos eles na composição.
A coordenação das fachadas entre si, também manifestam qualidades de savoir faire pouco vulgares, resolvendo o problema laborioso dos espaços angulares, sempre exigente em cuidados, por forma a harmoniza-lo com o restante do edifício.
O sr. Norte Júnior, nos seus projectos, dá larga representação á pintura e escultura decorativas; tem tido a felicidade de encontrar nos proprietários a boa orientação de lhe aceitarem essa boa norma profissional, e no presente caso, essa circunstancia concorreu muito para o belo aspecto da edificação.
[in Architectura Portugueza. N.º2., p.5-7, Fev.1908]

Avenida da República, 77A 77B: Casa Mário de Artagão [post. 1906]
Esquina com a Avenida de Berna, 2
Paulo Guedes, in Lisboa de Antigamente

N.B. Ressano Garcia que enquanto engenheiro da C.M.L. foi responsável pela expansão de Lisboa para norte, a partir do eixo da Avenida da Liberdade com o projecto das Avenidas Novas integrou a toponímia de Lisboa ainda em vida, no ano de 1897, na artéria que hoje conhecemos como Avenida da República e, depois, no ano de 1929 regressou para uma Avenida no Bairro Azul.

Avenida da República, 77-A 77-B [1970] 
Esquina com a Avenida de Berna, 2
Fotógrafo não identificado, 
in Lisboa de Antigamente

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Viaduto ferroviário de Entrecampos

Até 1970 — a inauguração do novo viaduto ferroviário de Entrecampos deu-se a 17 Novembro de 1950 — o trânsito automóvel e pedonal na Avenida da República, processava-se através de pequenos túneis sob a Linha Férrea de Cintura de Lisboa. 

Obras no Viaduto ferroviário de Entrecampos [1950]
Avista-se o Mercado Geral de Gados datado de 1888 com risco do arquitecto Parente da Silva.

 Firmino Marques da Costa,
in Lisboa de Antigamente

Segundo afirma Norberto de Araújo («Peregrinações em Lisboa, vol. XIV, pp. 63-64») «A linha férrea foi aqui assente em 1890, e inaugurada a 11 de Junho; este viaduto e o da Avenida Cinco de Outubro, são posteriores, e do nosso século. Devo dizer-te, porém, que já em 1873 (inaugurada em 1 de Outubro), corria aqui uma linha pelo sistema Larmanjat, que pouco tempo durou.»

Viaduto ferroviário de Entrecampos [1950]
Avenida da República
Fernando Martinez Pozal, in Lisboa de Antigamente

Assim, em 17 de Novembro de 1950, foi inaugurada a passagem inferior da Av. da República, depois de removidas as terras do antigo aterro ferroviário, resolvendo deste modo um problema que se arrastava desde a construção da Av. Ressano Garcia (hoje Av. República) no início do século XX.
As principais remodelações do Viaduto de Entrecampos sobre a Avenida da República datam do período do Estado Novo (1944) e da década de setenta (1970) que se ligam directamente às necessidades de maior fluidez do tráfego automóvel na Avenida da República.

Viaduto ferroviário de Entrecampos [1973]
Avenida da República
Novo tabuleiro da autoria do engº. Edgar Cardoso.

Armando Serôdio, in Lisboa de Antigamente

O Larmanjat — de que fala Norberto Araújo — era um sistema de caminho de ferro monocarril, idealizado pelo francês J. Larmanjat, composto por um carril central ladeado de duas passadeiras de madeira.  A locomotiva, a vapor, e as carruagens tinham rodas centrais, que rodavam pelo carril, e rodas laterais que rodavam pela passadeira.
Explorada pela companhia inglesa «Companhia dos Tramways a Vapor», foi inaugurada a 4 de Setembro de 1873 a ligação Lisboa - Torres Vedras. Esta linha tinha as seguintes estações: Lisboa, Campo Pequeno, Lumias, Nova Cintra, Santo Adrião, Loures, Pinheiro de Loures, Lousa, Venda do Pinheiro, Malveira, Vila Franca do Rosário, Barras, Freixofeira, Turcifal e Torres Vedras.
Uma passagem entre Lisboa e Torres Vedras custava 900 réis em 1ª classe e 700 réis em 3ª classe, não havendo 2ª classe.

PARIS-TROCADERO-CH. FER ESSAI SYSTEM LARMANJAT-1871

A primeira viagem efectuada demorou 4h e 20m, tempo esse que representava um autentico 'record' se comparado com o tempo normal de uma viagem de diligência que rondava as 6h. No entanto este novo meio de transporte inaugurou um novo tipo de acidente: o descarrilamento. Este facto, que tudo indica seria frequente, aliado a sucessivas avarias mecânicas, fazia, com frequência, dilatar o tempo alcançado pela viagem inaugural e tornar a viagem de diligencia mais segura e, por vezes, mais rápida.
Este meio de transporte foi abandonado em 1877 por falência da empresa que o explorava.

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2025

Avenida da República, 65 no cruzamento com a Avenida Barbosa du Bocage, 59

Este grande xadrez regular das chamadas Avenidas Novas — edificações modernas com alguns palacetes de formoso aspecto — é delimitado pela Avenida Duque de Ávila, a sul, antiga Rua do Arco do Cego, a oriente, a linha férrea da Cintura, a norte, e a Avenida Marquês de Sá da Bandeira, a poente, ainda que as avenidas principais de orientação Norte-Sul — Cinco de Outubro e República — ultrapassem, em prolongamento, estes limites teóricos.

Avenida da República, 65 no cruzamento com a Avenida Barbosa du Bocage, 59 |1969|
Palacete construído na viragem do século XIX demolido em 1970.
Nas Avenidas Novas nasceu a Rua Barbosa du Bocage, por Edital de 11/12/1902, na via pública entre as Avenidas Marquês de Tomar e Rua do Arco do Cego. Passados quase 23 anos, o Edital de 08/06/1925 mudou a classificação da artéria para Avenida.
Nuno Roque da Silveira, in Lisboa de Antigamente


Não deixa de ser curioso designá-las, anotando que a urbanização desta área se está fazendo desde há trinta anos, sistematicamente, cada lustro com seu avanço, quási sem nós darmos por isso. 

Avenida da República, 65 no cruzamento com a Avenida Barbosa du Bocage, 59 |1969|
Palacete construído na viragem do século XIX demolido em 1970.
Nuno Roque da Silveira, in Lisboa de Antigamente

No sentido Norte-Sul correm as Avenidas de Sá da Bandeira (que não passa do Largo do Rego), Marquês de Tomar, Cinco de Outubro, da República (esta a artéria mater), dos Defensores de Chaves, e a Rua do Arco do Cego, que se chamará Avenida D. Filipa de Vilhena (parte dela). Transversalmente correm as Avenidas Duque de Ávila, João Crisóstomo, Miguel Bombarda, Visconde de Valmor, Elias Garcia, Barbosa du Bocage, Berna e António Serpa. [Araújo, XIV, 1939]

Avenida Barbosa du Bocage, 59 no cruzamento com a Avenida da República, 65  |1969|
Palacete construído na viragem do século XIX demolido em 1970.
Nuno Roque da Silveira, in Lisboa de Antigamente

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Praça do Duque de Saldanha

Com esta bela Praça do Duque de Saldanha, que data da última década do século passado [séc. XIX], se deu testa à grande artéria mãe das Avenidas Novas, em correspondência paisagista com a Praça Mouzinho de Albuquerque [actual Rotunda de Entrecampos]. Na Praça, em rotunda, estrela de cinco pontas, confluem as Avenidas Fontes Pereira de Melo, Casal Ribeiro, Praia da Vitória [dois ramos] — estas duas já deste século — e da República (...) ¹


A Praça do Duque de Saldanha — antigamente chamada Rotunda de Picoas — nasceu do plano das Avenidas Novas concebido, no fim do século XIX, por Frederico Ressano Garcia, engenheiro da Câmara Municipal de Lisboa. A Praça tinha uma fisionomia mais simples do que a que lhe conhecemos na actualidade. Tinha uma tipologia de rotunda; era circular, com acesso radial, trânsito de atravessamento e envolvente. 

Praça do Duque de Saldanha |c. 1940|
Antiga Praça Mouzinho de Albuquerque, antes Rotunda das Picoas
; Avenida da República
Amadeu Ferrari, in Lisboa de Antigamente

Para responder ao crescente aumento do trânsito automóvel nas décadas de 1950-60, é rasgado um novo arruamento na  Praça em 1969. Trata-se de quebrar a forma circular de rotunda da Praça, «o espaço molusco cuja viscosidade, espraiando-se fez perder a clareza da forma geométrica pura»2, para dar lugar a um novo desenho. Se se comparar a fotografia dos anos 40 com outra de finais da da década de 60, pode ver-se que a pavimentação concêntrica central foi cortada dos dois lados para favorecer o tráfego automóvel. Ficou uma faixa de betume ou “ilha” em forma de “banana” [vd. 2.ª imagem] que vem separar os dois sentidos de circulação, entre a Avenida da República e a Avenida Fontes Pereira de Melo. 3

Praça do Duque de Saldanha |1969|
Antiga Praça Mouzinho de Albuquerque, antes Rotunda das Picoas; Avenida da República

Artur Bastos, in Lisboa de Antigamente

A Avenida de Fontes Pereira de Melo termina na rotunda da Praça do Duque de Saldanha, cercada de heterogéneas edificações, e a meio da qual se ergue o Monumento ao Duque de Saldanha. A pedra fundamental do monumento, cuja parte escultural é de Tomás Costa e a arquitectónica de Ventura Terra, foi lançada em 1904, tendo-se inaugurado em 1909. A estátua, que representa o marechal de pé, com a mão direita apontando na direcção do S., assenta sobre um pedestal dórico de base quadrangular flanqueado de colunas com capitéis canelados. À frente da estátua, na base, a figura alegórica da Vitória, de bronze, nas outras faces panóplias ornamentais pendem da boca de leões, tudo de bronze. 4

Praça do Duque de Saldanha |c. 1950-60|
Antiga Praça Mouzinho de Albuquerque, antes Rotunda das Picoas; Avenida da República

Fotógrafo não identificado, postal Ed. Lifer [s.d.]

Bibliografia
1 ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIV, p. 79, 1939.
2 BESSA, J. P., Saldanha – Edifício MASP e Helena Rubinstein, Análise urbana da Praça do Saldanha, 1986.
3 FRÉTIGNÉ, Hélène, Uma Praça Adiada: Estudo de Fluxos Pedonais na Praça do Duque de Saldanha, vol. I, pp. 23-29, 2005.
4 PROENÇA, Raul, Guia de Portugal: Generalidades: Lisboa e arredores, vol. I, p. 434, 1924.

sexta-feira, 1 de novembro de 2019

Avenida da República

Este topónimo, juntamente com mais nove, faz parte do primeiro Edital da vereação republicana, datado de 5 de Novembro de 1910, ou seja, precisamente um mês após a implantação da República. Após a proclamação da República a Câmara de Lisboa alterou a toponímia, substituindo os nomes das figuras públicas comprometidas com a monarquia e os topónimos de cariz religioso por outros evocativos dos ideais republicanos e esta Avenida da República é disso um exemplo claro, substituindo o topónimo do criador das Avenidas Novas em 1904  —  Ressano Garcia — pela própria República.

Avenida da República |1926|
Junto ao Viaduto de Entrcampos; à esq., o antigo Mercado Geral de Gados, depois Feira Popular; à dir., a Rua Visconde de Seabra
Legenda no arquivo: «Exercícios da Polícia Cívica no Campo Grande»
Fotógrafo não identificado, 
in Lisboa de Antigamente

O topónimo «Visconde de Seabra» perpetua na toponímia de Lisboa o nome de António Luís de Seabra (1798-1895), 1º visconde de Seabra, com título atribuído em 25 de Abril de 1865, responsável pela organização do projecto de Código Civil que foi promulgado por Carta de Lei em 1 de Julho de 1867.
Formado em 1820, a sua carreira desenvolveu-se como deputado, membro da Câmara dos Pares, Ministro da Justiça (1852 e 1868), reitor da Universidade de Coimbra (1866-68) e juiz do Supremo Tribunal de Justiça. [cm-lisboa.pt]

Avenida da República |ant. 1934|
Junto ao Viaduto de Entrcampos; à dir., a Rua Visconde de Seabra
Legenda no arquivo: «
Volta a Portugal em carro»
Fotógrafo não identificado, 
in Lisboa de Antigamente

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Avenida da República, 87

O edifício à direita na foto (em detalhe na 2ª imagem) é típico das Avenidas Novas, e característico do estilo Arte Nova de finais do século XIX e início do XX, dentro das tipologias da habitação burguesa lisboeta. Com projecto de 1906, foi construído por J. Rodrigues Pietro, tal como o prédio vizinho, que ocupa os números 89 e 89-A da Avenida da República (antiga Ressano Garcia). Não sendo, nem um nem outro, exemplares particularmente destacáveis dentro da arquitectura da época e do seu estilo, formavam no entanto um conjunto muito interessante para a caracterização desta zona privilegiada de expansão da cidade oitocentista.

Corrida de bicicletas na Avenida da República [post. 1906]
O edifício Arte Nova (à direita), quase na esquina com a Av. Júlio Dinis, ainda lá está, orgulhosamente de pé, no nº 87 da Avenida da República. O palacete que se vê do lado esquerdo (nº 77) já foi demolido (vd. próximo artigo)
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Na sua globalidade, o edifício do n.º 87 é o mais harmonioso dos dois, tanto no que respeita às escala e composição, como a nível da ornamentação. A feição Arte Nova é particularmente visível nos estuques e cantarias da fachada, com o seu friso azulejar e o uso do ferro forjado, trabalhado em linhas sinuosas que se repetem na escadaria e no corrimão do interior. Destacam-se ainda as amplas janelas do segundo e terceiro pisos, coroadas respectivamente por um arco abatido e um arco de volta perfeita.
Apesar desta apreciação, o imóvel foi infelizmente muito desfigurado ao longo das últimas décadas. À ruína total do interior, reconstruido em 2000, seguiram-se diversas alterações de monta na fachada, incluindo a construção de uma pequena "torre" sobre o corpo da esquerda, e a substituição das caixilharias de madeira por outras em alumínio. Desta forma, considera-se que o actual edifício não faz jus às razões estéticas, formais e contextuais que ditaram a sua prévia classificação. (in igespar.pt)

Avenida da República, 87  [1909]
Edifício que se observa do lado direito na imagem anterior.
Paulo Guedes,
in Lisboa de Antigamente

sexta-feira, 26 de maio de 2023

Avenida da República, 50

Na esquina com a Avenida Barbosa du Bocage, um palacete do início do século XX, demolido em 1970.

As «Avenidas Novas» surgem no início deste século como resultado dos trabalhos e projectos do engenheiro Ressano Garcia e organizam-se em volta duma grande artéria chamada então «Avenida das Picoas». Esta ligava-se à Rotunda [actual Pç. Duque de Saldanha] pela Avenida do Campo Grande (mais tarde, de Fontes Pereira de Melo). [...] Para as suas avenidas (a das Picoas havia de se chamar Ressano Garcia e, só mais tarde, da República), o engenheiro camarário tinha previsto tudo, desde os passeios aos esgotos, passando pelo tipo de árvores que as ornamentariam. Todo este espaço era destinado a classes abastadas dentro da burguesia lisboeta e a rapidez da sua execução permitiu que um certo equilíbrio de formas fosse alcançado.

Avenida da República, |196-|
Antiga de Ressano Garcia, antes Avenida das Picoas
Do lado direito, na esquina da Avenida Barbosa du Bocage, um palacete do início do século XX, demolido em 1970.
Artur Inácio Bastos, in Lisboa de Antigamente

Nas Avenidas Novas nasceu a Rua Barbosa du Bocage, por Edital de 11/12/1902, na via pública entre as Avenidas Marquês de Tomar e Rua do Arco do Cego. Passados quase 23 anos, o Edital de 08/06/1925 mudou a classificação da artéria para Avenida.
José Vicente Barbosa Du Bocage, (1823-1907) Maçon. Bacharel formado em medicina pela Universidade de Coimbra, lente de zoologia na Escola Politécnica, do conselho de Sua Majestade, ministro de Estado, deputado, par do Reino, um dos fundadores da Sociedade de Geografia de Lisboa, sócio da Academia Real das Ciências, da Sociedade de Zoologia de Londres. 
Era primo em segundo grau do popular poeta Manuel Maria Barbosa du Bocage.

Avenida da República, 50 |1970|
Antiga de Ressano Garcia, antes Avenida das Picoas
Palacete já demolido que tornejava para a Avenida Barbosa du Bocage
Nuno Barros Roque da Silveira, in Lisboa de Antigamente
Nota(s): Infelizmente a imagem é de baixa qualidade/resolução, graças ao paupérrimo trabalho de digitalização efectuado pelo Arquivo Municipal de Lisboa (AML).

sexta-feira, 26 de abril de 2024

Avenida da República, 87-97

As Avenidas Novas representam o desenvolvimento urbano que causou a expansão de Lisboa para norte em finais do século XIX e ao longo da primeira metade do século XX.
Pela designação de Avenidas Novas entende-se uma série de avenidas e ruas largas e arejadas que se recortam entre as antigas estradas do Arco do Cego e S. Sebastião da Pedreira, e ao N. do Parque Eduardo VII [antigo Vale do Pereiro ], Andaluz e Praça José Fontana [antigo Largo do Matadouro].
Em 1910 a maior parte dos arruamentos estava concluída, compondo uma malha ortogonal de ruas e avenidas largas com passeios e praças arborizadas segundo os mais modernos conceitos urbanísticos, naturalmente destinadas às classes sociais mais abastadas. 

Avenida da República, 87-97 |1965|
O edifício localizado no número 93A-E situado no gaveto com a Av. António Serpa foi demolido.
Mário Novais, in Lisboa de Antigamente

Este novo percurso de ascensão da cidade, vindo da Baixa e desembocando no Campo Grande, foi desde logo habitado pela burguesia emergente, que aí começou a construir os seus palacetes e prédios elegantes, tão típicos Lisboa do primeiro quartel do século XX.

Avenida da República, 95-97 |1959|
Antiga Av. Ressano Garcia (1910)
Arnaldo Madureira, in Lisboa de Antigamente
Nota(s): imagem corrigida (invertida 
no abandalhado amL).

É disto exemplo o prédio situado na Avenida da República, 97-97-C. Este imóvel (ao fundo e à dir. na 2ª imagem), bem como os dois imediatamente anteriores, estavam em vias de classificação como conjunto desde 11/12/1981. Um deles foi entretanto demolido, e a classificação dos dois prédios restantes passou a correr de forma individual, de acordo com as distintas características de cada um.
(IGESPAR, IP, 2011)

Avenida da República, 87-97 |1962|
John F Bromley, in Lisboa de Antigamente

sábado, 25 de janeiro de 2020

Palacete da Praça do Duque de Saldanha, 28-30 com a Avenida da República, 1 e 1-A

Este edifício começou a ser construído em terrenos que eram propriedade de Maria Luiza Salazar Correia. Após o falecimento de seu marido, e estando o prédio ainda nos alicerces, foi comprado por Engrácio Supardo que, em 25 de Julho de 1906, apresentou novo projecto à Câmara Municipal de Lisboa, correspondendo à habitação unifamilar que hoje conhecemos. 
 
Palacete da Praça do Duque de Saldanha, 28-30 com a Avenida da República, 1-1-A |1926-10-05|
À esq. está o Monumento ao Duque de Saldanha (1909); legenda no arquivo: «Aspecto da parada militar comemorativa do 16º aniversário da implantação da República»
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente
Nota(s): o local da foto não está «identificado no arquivo.

Edificado entre 1907 e 1908, com risco atribuído ao arq.º José Luís Monteiro, trata-se de um edifício de gaveto, estruturado em dois pisos e águas furtadas, composto por um corpo central, dois laterais e outro de menores dimensões adossado ao lado esquerdo da construção, rematado superiormente por platibanda em balaustrada ritmada por plintos, interrompida por três frontões curvos esculpidos nos tímpanos. Em Vias de Classificação, traduz um exemplar de arquitectura residencial ecléctica, combinando elementos de inspiração classicizante, neo-renascentista, neo-maneirista e Arte Nova.

Palacete da Praça do Duque de Saldanha, 28-30 com a Avenida da República, 1-1-A |c. 1940|
Monumento ao Duque de Saldanha (1909)
Amadeu Ferrari, 
in Lisboa de Antigamente

Na sua fachada merecem destaque: os atlantes que suportam as varandas do segundo piso; o revestimento azulejar policromático e o trabalho de ferro forjado em malha sinuosa do corpo de menor dimensão; a porta principal, em arco de volta perfeita, com emolduramento em cantaria, ladeada por duas colunas rematadas por capitéis compósitos e encimada por frontão em arco abatido, decorado no tímpano com temática vegetalista; e o recurso ao festão como elemento decorativo do conjunto, localizado no piso superior e no vértice do edifício, composto por dois óculos e três janelas, que se abrem para varanda de planta semicircular e balaustrada. [cm-lisboa.pt]

Palacete da Praça do Duque de Saldanha, 28-30 com a Avenida da República, 1-1-A |c. 1909|
Monumento ao Duque de Saldanha (1909)
Chaves Cruz, 
in Lisboa de Antigamente


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