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Friday, 22 March 2024

Convento do Rego: antiga igreja do Hospital Curry Cabral

De acordo com o olisipógrafo Norberto de Araújo no sitio onde está actualmente o Hospital Curry Cabral «assentou o Convento das Convertidas de Nossa Senhora do Rosário, de religiosas franciscanas, fundado depois de 1768 por D. Margarida das Mercês de Maré, dama francesa e mais tarde chamado do Rosário e das Dores [...]. Deve-se a D. Maria I a ampliação do Real Recolhimento do Rego e a construção da Igreja, da qual aí tens apenas a fachada, cujo pórtico é sobrepujado pelas armas reais da «Piedosa».
Extintas as ordens religiosas e morta a última freira, o Recolhimento conventual na aparência e na missão, esteve muitos anos abandonado. (...) Em 1905 foi transformado (Hintze Ribeiro) em Hospital para doenças infecciosas [...]

Antiga capela do Hospital Curry Cabral |1944|
|Demolida na década de 1950|
Rua da Beneficência, antes Largo do Rego à Palma de Cima
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

A Igreja do antigo Convento, que em tempos serviu de depósito e, durante algum tempo, de casa mortuária, está desde há muito desmantelada; não possuiu, aliás, valor artístico. Desde 1935 foi cedida ao Patriarcado para depósito de imagens e acessórios que pertenceram à Igreja de S. Julião, substituída, como já to tenho dito, pela vizinha Igreja, nova, de N. Senhora de Fátima.==
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIV, pp. 58-59, 1939)

Igreja e Convento das Convertidas de Nossa Senhora do Rosário |1840|
Pereira, Luís Gonzaga, 1796-1868l, in Lisboa de Antigamente

N.B. Outras designações :Convento de Nossa Senhora das Dores de Lisboa; Convento de Nossa Senhora do Rosário das Dores; Convento do Rego; Recolhimento de Nossa Senhora das Dores e Santíssimo Rosário; Recolhimento das Convertidas do Rêgo; Recolhimento das Mulheres Perdidas do Rego; Recolhimento da Associação das Servitas de Nossa Senhora das Dores.

Thursday, 26 January 2017

Rua da Beneficência

Chegamos assim ao velho Largo do Rego, que a urbanização trivializou, junto do qual correu a pitoresca Rua das Cangalhas [actual Avenida Conde de Valbom] de que há meses restavam quatro paredes. Já agora enfiemos pela antiga Estrada do Rego, depois Rua de Sousa Holstein, modernamente Rua da Beneficência. 1

Rua da Beneficência [c. 1950]
Passagem de nível do Rego
Judah Benoliel, in Lisboa de Antigamente

A Rua da Beneficência foi atribuída por Edital de 18/12/1903 ao arruamento que vai ao Largo do Rego a Palma de Cima, em homenagem à Duquesa de Palmela, e às preocupações beneméritas que sempre teve ao longo da sua vida. 
Refere-se à 3ª Duquesa de Palmela, de seu nome D. Maria Luísa Domingas de Sales de Borja de Assis de Paula de Sousa Holstein (1841-11909) cuja filantropia lhe marcaram um lugar único, nomeadamente, na Assistência Nacional aos Tuberculosos, nos Socorros a Náufragos, em asilos, missões ultramarinas, institutos de protecção à infância e na fundação das Cozinhas Económicas, com sua prima Maria Isabel Saint-Lèger, tendo sido também a sua primeira presidente.
Foi também dama da Rainha D. Amélia e dedicou-se à escultura, havendo trabalhos seus no Museu do Chiado e na Sociedade de Geografia de Lisboa, assim como se interessou pela cerâmica e juntamente com a Condessa de Ficalho fundou a Fábrica do Ratinho no seu próprio palácio. Foi distinguida com a Ordem de Santiago, a Ordem de Santa Isabel, Ordem de Maria Luísa (Espanha) e Académica de Mérito da Academia Nacional de Belas-Artes. 2

Rua da Beneficência [c. 1950]
Passagem de nível do Rego
Judah Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
1 ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIV, p. 58, 1939.
2 cm-lisboa.pt.

Sunday, 20 October 2024

Bairro Santos, ao Rego

Para além da linha férrea e a poente — recorda Norberto de Araújo — , se edificou em 1930 o novo «Bairro da Bélgica», e a nascente um outro novo «Bairro Santos», tudo incluído na recentíssima urbanização de Lisboa.[...]
Chegamos assim ao velho Largo do Rego, que a urbanização trivializou, junto do qual correu a pitoresca Rua das Cangalhas de que há meses restavam quatro paredes. Já agora enfiemos pela antiga Estrada do Rego, depois Rua de Sousa Holstein, modernamente Rua da Beneficência.
(ARAÚJO, Norberto de,  Peregrinações em Lisboa, vol. XIV, p. 59, 1939)

Bairro Santos, ao Rego |1963-03-30|
Rua Cardeal Mercier (1926) com a Rua Portugal Durão
Seria por aqui perto o antigo Largo do Rego, antes do alinhamento deste e da abertura dos novos arruamentos e consequente urbanização. Inauguração do Mercado de levante. 
Armando Serôdio, in Lisboa de Antigamente

Sunday, 20 December 2015

Rua da Beneficência

 (Hospital Curry Cabral)


A homenageada é a 3ª Duquesa de Palmela — e às preocupações beneméritas que sempre teve ao longo da sua vida — , de seu nome Maria Luísa Domingas de Sales de Borja de Assis de Paula de Sousa Holstein (1841-1909) cuja filantropia lhe marcaram um lugar único, nomeadamente, na Assistência Nacional aos Tuberculosos, nos Socorros a Náufragos, em asilos, missões ultramarinas, institutos de protecção à infância e ainda, com sua prima Maria Isabel Saint-Lèger, na fundação das Cozinhas Económicas, de que foi a 1ª presidente. A primeira cozinha foi inaugurada em 1893, na Travessa do Forno (na antiga freguesia dos Prazeres) e surgiram depois as dependências do Regueirão dos Anjos (1894), Alcântara (1895) e de S. Bento (1896).

Rua da Beneficência, antes Largo do Rego à Palma de Cima [1945]
À esquerda a antiga capela do Hospital Curry Cabral, demolida na década de 1950, antigo «Convento das Convertidas de Nossa Senhora do Rosário»; à direita, o Instituto de Reumatologia e a Capela de N. Senhora de Conceição, do Rego. Ao fundo a Avenida de Berna

Judah Benoliel, in Lisboa de Antigamente





 
Maria Luísa Sousa Holstein foi também dama da Rainha D. Amélia, dedicou-se à escultura, havendo trabalhos seus no Museu do Chiado e na Sociedade de Geografia de Lisboa, assim como se interessou pela cerâmica e juntamente com a Condessa de Ficalho fundou a Fábrica do Ratinho no seu próprio palácio. Foi distinguida com a Ordem de Santiago, a Ordem de Santa Isabel, a Ordem de Maria Luísa (Espanha) e a Académica de Mérito da Academia Nacional de Belas-Artes. (cm-lisboa.pt)

Hospital Curry Cabral, demolição da capela [1956]
Cruzamento da Avenida de Berna com a Rua da Beneficência

Armando Serôdio, in Lisboa de Antigamente

De acordo com o olisipógrafo Norberto de Araújo no sitio onde está actualmente o Hospital Curry Cabral «assentou o Convento das Convertidas de Nossa Senhora do Rosário, de religiosas franciscanas, fundado depois de 1768 por D. Margarida das Mercês de Maré, dama francesa e mais tarde chamado do Rosário e das Dores (...) Deve-se a D. Maria I a ampliação do Real Recolhimento do Rêgo e a construção da Igreja, da qual aí tens apenas a fachada, cujo pórtico é sobrepujado pelas armas reais da «Piedosa».
Extintas as ordens religiosas e morta a última freira, o Recolhimento conventual na aparência e na missão, esteve muitos anos abandonado. Em 1905 foi transformado (Hintze Ribeiro) em Hospital para doenças infecciosas (tuberculose, principalmente), por diligências do prof. Curry Cabral.»
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIV, pp. 58-59, 1939)

Hospital Curry Cabral [191-]
Rua da Beneficência, antes Largo do Rego à Palma de Cima
Alberto Carlos Lima, in Lisboa de Antigamente

Friday, 3 October 2025

Rua Marquês de Sá da Bandeira

As chamadas Avenidas Novas são delimitadas pela Avenida Duque de Ávila, a sul, pela Rua do Arco do Cego, a oriente, pela linha férrea de cintura, a norte, e pela Rua Marquês Sá da Bandeira, a poente (..). Enfiemos agora por esta Travessa do Marquês de Sá da Bandeira, antiga e simpática estrada que levava da Rua das Cangalhas, ao Campo Pequeno.==
[ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIV, p. 63, 1939)

Antiga Estr. que principia na Barreira do Rego e termina no Largo do Rego a S. Sebastião da Pedreira. Por deliberação da C.M.L. de Belém em 20/10/1881, a Rua Marquês de Sá da Bandeira passou a terminar no Campo Pequeno. Por deliberação da CML de 24/11/1888, edital de 01/12/1888, foi integrada na Rua Marquês de Sá da Bandeira a via pública que fica no seu prolongamento denominada Estr. do Rego. [cm-lisboa]

Rua Marquês de Sá da Bandeira | 1964|
Militar e Politico 1795-1876
Muro de cantaria do ntigo Parque «de José Maria Eugénio [de Almeida]» — tradição oral mais pró­xima — ou Santa Gertrudes e actual Jardim da Fundação Calouste Gulbenkian.
Artur Goulart, in Lisboa de Antigamente

N.B. Bernardo de Sá Nogueira de Figueiredo, 1.º Barão, 1.º Visconde e 1.º Marquês de Sá da Bandeira, (1795-1876). Foi fidalgo da Casa Real, Par do Reino, Ministro de Estado, Marechal de campo, Director da Escola do Exército, entre outros cargos e actividades.
Destacou-se pela sua bravura no campo de batalha, primeiro durante as Invasões Napoleónicas e mais tarde durante as Guerras Liberais, onde tomou o partido dos liberais contra os miguelistas.

Rua Marquês Sá da Bandeira |c. 1940|
Chafariz, hoje demolido, localizado no actual Largo Azeredo Perdigão; ao fundo vê-se
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Wednesday, 7 February 2018

Café-Restaurante Royal

O «Café Royal» tem boa situação na Praça, entre tabacarias que se distinguem — tal as do Rossio — pela profusão de revistas e jornais estrangeiros; não tem história recuada. Foi fundado em 1906[1904] pelos donos do Cafe Central da Calçada do Carmo (...)

Era neste Café-Restaurante que costumava almoçar nos últimos anos da sua vida, sempre acompanhado de sua espôsa, o pintor Columbano.¹


O Café Royal — recorda M. Tavares Dias na sua Lisboa Desaparecida — constitui sozinho uma página importante da história do Cais do Sodré. Em estampas oitocentistas o gaveto nascente da Praça Duque da Terceira com a Rua do Alecrim é ainda morada do alfaiate Rego. Como de costume, inscrições do toldo e da fachada exibem publicidade em inglês: Rego Tailor.

 Café Royal |c. 1912|
Praça Duque da Terceira e Rua do Alecrim (Hotel Bragança); Rua Bernardino Costa (dir.)
Alberto Carlos Lima,  in Lisboa de Antigamente

O estabelecimento foi trespassado em 1902, adquirido por um brasileiro de torna-viagem que ali pretendia instalar um café elegante. Esmerou-se nas decorações exteriores, encomendando a J. Bonnadove desenhos vários, alusivos aos prazeres da gastronomia e da boémia. A partir deles foram estampados belos painéis de azulejo para enquadramento das portas e embelezamento das fachadas. Apeados inteiros na altura em que o café encerrou, esses azulejos versavam sete temas distintos, cujo levantamento aqui deixo a partir de fotografias e outros documentos da época.

Café Royal |1958|
Painel (central) de azulejos assinados

por J. Bonnadove
Armando Serôdio, in L.A.
Painel central sobre a praça: publicidade à Água Castello (figura feminina exibindo uma garrafa) [vd. 2ª foto]. Painel lateral nascente, sobre a praça: piquenique campestre com quatro convivas. Painel lateral poente sobre a praça: interior de café (três homens à mesa).  Painel poente tornejando para a Rua do Alecrim: cena de brinde com champanhe; várias figuras à mesa (uma delas, de cálice erguido, ocupava o friso vertical que constituía o gaveto do quarteirão) [vd. 3ª foto]. Painéis pequenos virados para a Rua do Alecrim: dois com motivos campestres e, ao centro, o «painel do caçador» (que teria sido inspirado pelo poeta Bulhão Pato).

A tempos espaçados estiveram inteiramente cobertos os dois painéis, à esquerda da entrada, pois desse lado instalara-se a tabacaria do café com as suas vitrinas repletas de estampas e de postais. Os desenhos acompanhavam quase toda a altura da fachada do café (piso térreo do edifício), começando a cerca de um metro do solo. Todos estavam enquadrados por molduras em relevo com motivos arte-nova, cuja policromia contrastava com o azul ferrete  dos motivos principais.
 
Café Royal |1958|
Painel de azulejos no gaveto do
quarteirão assinados por J. Bonnadove
Armando Serôdio, in L.A.
Os interiores também eram modern-style (mesas monogramadas e espelhos debruados a ouro), pelo que a casa inaugurou no pino da moda em artes decorativas. Nesse ano de 1904 o Café Royal adivinhava-se futuro centro de muitas e ilustres tertúlias. Alguns meses após a fundação já o proprietário inicial o tinha em praça para trespasse por preço disso condigno, encontrando imediatamente muitos colegas interessados. O café seria então — 1905 adquirido pela família Blanco, em cujas mãos se manteve até 1959, ano do encerramento. Entre estas duas datas um mundo de luzes cintilou em volta das suas mesas. Na lista dos clientes do Royal poder-se-ão apontar, entre muitos outros, Columbano e Raphael Bordallo Pinheiro, Camilo Pessanha, Mário de Sá-Carneiro. Fernando Pessoa. Almada Negreiros, António Botto, Gago Coutinho, Reinaldo Ferreira (Reporter X), Armando Portela, Rocha Martins, Cunha Leal, Lopes Graça. Luiz Pacheco, Helder Macedo, Virgílio Martinho. António José Forte, Ernesto Sampaio, Mário Cesariny e Mário Domingues.

Foi este último escritor, conhecedor do café desde a segunda década do século [XX], quem fez a elegia da casa num panfleto publicado pouco antes do encerramento: «Conheci naquele aconchegado café tantos tipos humanos, presenciei tanto drama, escutei tanta confidência. lidei com gente tão fraternal e, por vezes, com patifes. escroques internacionais, mal disfarçados espiões que se acotovelavam com ingleses gelados e rígidos por fora e sentimentais por dentro, holandeses saudáveis, americanos mal-educados mas good-fellows; impregnei-me de tanta humanidade, armei-me de tanta compreensão e tolerância que considero o Royal o maior tesouro espiritual da minha vida.» Estas palavras de homenagem reflectem bem as múltiplas faces do mundo que, entre as duas guerras, desaguava no Cais do Sodré, encaminhando os passos para o seu principal pólo de vida: as mesas do célebre café.²

 Café Royal |c. 1910|
Praça Duque da Terceira; Rua Bernardino Costa (dir.)
Joshua Benoliel,  in Lisboa de Antigamente

N.B.  No próximo artigo — e ainda a propósito deste curioso  café — contaremos uma história picaresca em que contracenam o freguês «exigente», o empregado de mesa — um tal de Chico —, um cozinheiro pouco zeloso e ainda... um  bife. A não perder.
___________________________________________
Bibliografia
¹ ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIII, p.39, 1939.
² DIAS, Marina T
avares, Lisboa Desaparecida, vol. 6, pp. 179-184, 1989.

Wednesday, 26 July 2017

Monumento ao Duque da Terceira

Se a Praça Duque da Terceira já não tem os famosos cafés do tempo de Eça de Queirós, toda a zona é rica de edifícios e monumentos do século XIX. No centro daquela praça foi erigido em 1877 o monumento ao general conde de Vila Flor, duque da Terceira que libertou Lisboa do governo absoluto em 1833, obra do escultor Simões de Almeida.


Sigamos o olisipógrafo Norberto de Araújo em mais uma Peregrinação e «enfiemos ao Cais do Sodré, que aí temos alguma cousa que ver e outras para lembrar.
A Praça do Duque da Terceira é do meado do século passado [séc. XIX], e assenta sabre chãos que eram praia há menos de um século. A Praça Duque da Terceira constitui uma parte do Cais do Sodré, e não logrou absorver a velha designação mesmo na limitada área em que a Praça, com sua estátua, rigorosamente se contém». Recorda-nos ainda o mesmo autor que na denominação municipal «Cais do Sodré é a larga zona que abrange o Jardim Roque Gameiro e vai desde a Estação da linha do Estoril-Cascais até ao Corpo Santo»,  e ainda que as «designações «Cais do Sodré» ou «Praça dos Remolares» foram comuns durante muito tempo, antes de se erguer a Estátua; «Remolares», perdeu-se na oralidade. Há no povo uma atracção particularíssima para os vocábulos sonantes. «Sodré» — canta».
No local onde hoje se ergue a estátua ao Duque da Terceira existiu até 1874  um relógio de sol conhecido como a «Merediana dos Remolares».

Praça Duque da Terceira |c. 1890|
Cais do Sodré, antiga Praça dos Remolares
Monumento ao Duque da Terceira
À direita vê-se parte do prédio onde existiu o famoso Hotel Central, imortalizado por Eça de Queiroz em «Os Maias»; no piso térreo, o «jacobino» Café do Grego (depois Café Londres); ao centro,  no  gaveto nascente  da Praça com a Rua do Alecrim vê-se o toldo do Alfaiate Rego (depois Café Royal). Como era costume naquela época, as inscrições do toldo e da fachada exibiam publicidade em inglês: Rego Tailor. O mesmo se pode constar do lado poente: Barbear Shaving
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

A primeira pedra deste monumento foi lançada em 24 de Julho de 1875; a inauguração solene realizou-se em 24 de Julho de 1877, no 44.° aniversário do desembarque do Duque da Terceira em Lisboa. A estátua é do cinzel de José Simões de Almeida, e o risco do monumento de José António Gaspar. 
 O monumento é simples, discreto de linhas, com as suas quatro inscrições: «Guerra Peninsular 1808 a 1814» — «Campanhas da Liberdade 1826 a 1834» — «24 de Julho de 1833» — «Ao Duque da Terceira 1877», esta na face principal, sul.

Praça Duque da Terceira |c. 1877|
Cais do Sodré, antiga Praça dos Remolares
Monumento ao Duque da Terceira; coreto
Observe-se a guia e gradil de protecção em redor das árvores com aspecto de terem sido 
plantadas recentemente
in Archivo Panoramico e Artístico

A estátua homenageia o Duque da Terceira, António José de Sousa Manuel Menezes Severim de Noronha, herói das guerras liberais, natural de Lisboa, Trata-se de uma estátua de bronze, com altura de 3,30m, onde a figura do duque é representada em traje militar, de rosto sóbrio e numa posição de chefia e comando. O plinto de pedra em forma de prisma tem uma base mais alargada com friso saliente junto ao chão de empedrado artístico de vidraço e friso duplo saliente no final desta parte. No pedestal foi colocada uma folha de palmeira e na parte superior deste plinto um brasão de armas coroado e ladeado por ramos de oliveira. Este conjunto, de estátua e plinto, tem a altura total de 9m.
A estátua ao Duque da Terceira sofreu recentemente uma intervenção de conservação e restauro, patrocinada pela Renault. O projecto, acompanhamento e fiscalização da obra, da responsabilidade da Divisão de Salvaguarda de Património Cultural/DPC/DMC da Câmara da Municipal de Lisboa, ficou concluída em Fevereiro de 2015.

Praça Duque da Terceira |post. 1877|
Cais do Sodré, antiga Praça dos Remolares
Monumento ao Duque da Terceira, face norte
No centro da Praça a estátua do duque olha a direito o rio.
Fotógrafo: não identificado,
in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
Monumentos e edifícios notáveis do distrito de Lisboa, vol. 5, Junta Distrital de Lisboa, p. 19, 1962.
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIII, pp. 37-40. 1939.

Sunday, 25 February 2024

Hotel Central

Estamos de volta ao velhinho Sitio dos Remolares, e ao afamado Hotel Central, desta vez na companhia de Marina T. Dias e de Eça de Queiroz.  Delineada pelos engenheiros do Marquês de Pombal, a futura Praça do Duque da Terceira permaneceu quase deserta até ao início do século XIX, constituindo então apenas parte dos vastos areais que delimitavam sul de Lisboa. Mesmo após a construção dos primeiros quarteirões a nascente e a poente, o rio chegava até ao extremo sul do largo, formando uma pequena praia no local onde mais tarde seria construída a estação de caminho de ferro da linha de Cascais. Contígua à praia, a Praça dos Remolares tinha já sido ampliada pelas obras de construção do Aterro, mantendo na tradição oral o nome do antigo cais: Sodré.
Falar do Cais do Sodré é também falar da Lisboa queirosiana — e do seu Hotel Central, Eça refere-o em Os Maias, A Capital, O Primo Basílio e A Correspondência de Fradique Mendes. A primeira hospedaria que ocupou o quarteirão com os números 20-27 do Largo (antigos números 3 a 11) chamava-se Estrella Branca (c. 1835). Em 1838 fora já trespassada à francesa Madame Lenglet que lhe deu o título de Hotel de France

(Grand) Hotel Central |c. 1875|
A oitocentista praça dos Remolares ainda sem a estátua do Duque da Terceira (1877) vendo-se ao fundo a primeira ponte de acesso aos barcos; no local onde se vê um candeeiro existiu, até 1874, um relógio de sol, conhecido por Meridiana dos Remolares. 
Rua Bernardino Costa antiga do Corpo Santo; à esq. nota-se a embocadura da Rua do Alecrim com o Alfaiate Rego (Rego Tailor) no gaveto leste.
J.. Laurent, in Lisboa de Antigamente

Sobre o rio, a tarde morria numa paz elísia. O peristilo do Hotel Central alargava-se, claro ainda. Um preto grisalho vinha, com uma cadelinha no colo. Uma mulher passava, alta, com uma carnação ebúrnea, bela como uma deusa, num casaco de veludo branco de Génova. O Craft dizia ao seu lado: Très chic. E ele sorria, no encanto que lhe davam estas imagens, tomando o relevo, a linha ondeante, e a coloração de coisas vivas.
(Eça de Queiroz, ln Os Maias, 1888)

Com uma sólida fama e um excelente serviço de mesa, o hotel recebeu hóspedes ilustres, entre eles o compositor Franz Liszt, na temporada de 1844-1845. Novamente trespassado (c. 1855), transforma-se no Hotel Central, supra-sumo da possível opulência lisboeta, com as suas ceias elegantes e as suas belas janelas então viradas para o Tejo.
O Central foi,  na Lisboa da segunda metade de Oitocentos, aquilo que o Avenida Palace viria a ser na Belle-Époque, ou o Aviz no tempo da Segunda Grande Guerra. Recebeu reis e diplomatas famosos, figuras mundanas e celebridades do universo das artes. Foi também num dos seus quartos que o próprio Eça de Queiroz terá pedido ao conde de Resende a mão da irmã deste, Emília de Castro Pamplona, sua futura mulher. O episódio é narrado por Luís Pastor de Macedo. 

Hotel Central |c. 1904|
Praça Duque da Terceira: Cais do Sodré. Ao fundo observa-se o extinto Arsenal de Marinha que deu lugar à Av. Ribeira das Naus.
Postal ilustrado, edição da Casa Gonçalves, in Lisboa de Antigamente
Hotel Central, depois das adaptações sofridas por volta de 1920 |c. 1936|
Praça Duque da Terceira
No gaveto norte deste edifício estiveram vários botequins célebres. À O primeiro foi o «jacobino» Café do Grego; o último foi o Café Londres, encerrado em 1935.
Mário Novais, in Lisboa de Antigamente

«Numa das suas vindas a Portugal, informado que o conde, vindo do Porto, se hospedara em Lisboa no Hotel Central, e apreciando em extremo a convivência daquele seu grande amigo, [Eça] mandou também as suas malas para o mesmo hotel e ali ficou durante largos dias.
Certa manhã, quando [...] se encontrava no quarto do seu amigo, justamente na ocasião em que este, de cara ensaboada, se dispunha, com a navalha na mão, a barbear-se, o criado, pedindo licença, entrou e entregou uma carta que viera pelo correio. 
   — Vê lá, menino, o que aí vem -—- diz o conde a Eça de Queiroz.
   — É uma cartada tua irmã.
   — Faze favor, abre-a e vê o que diz essa teimosa.
   O grande escritor obedeceu e ao terminar a sua leitura, depois de a dobrar vagarosamente, diz a Rezende:
   — Peço-te mão de tua irmão».
(Luís Pastor de Macedo notas em A Ribeira de Lisboa por Júlio de Castilho, vol. 4)

Hotel Central, depois das adaptações sofridas por volta de 1920 |c. 1936|
Praça Duque da Terceira; Cais do Sodré
Mário Novais, in Lisboa de Antigamente

O Hotel Central encerrou em 1919, após um breve período de crise económica, distantes que iam já os hábitos de convívio da Lisboa queirosiana. A Sociedade Estoril, nova arrendatária, mandou então proceder a obras de vulto na fachada e interiores do edifício, cujas características gerais pouco têm agora a ver com a da casa que albergou Eça, Ramalho ou Guerra Junqueiro. O próprio Cais do Sodré sofrera enormes alterações ao longo do meio século de existência do Hotel Central. Por volta de 1880 a praia chegava ainda sé ao larguinho posteriormente ajardinado (Jardim Rogue Gameiro, plantado entre 1912 e 1915), e alguns quartos do Central estavam, como era uso dizer-se, «sobre o no». Perderam esse privilégio em 1907, vendo erguer-se-lhes à frente o edifício da Administração do Porto de Lisboa (onde está o célebre relógio com a «Hora Legal»). O terreno era tão incerto (basicamente areia da praia, movimentada pelas marés) que foi necessário fazer assentar todas as paredes desse prédio sobre estacaria. Ao centro da praça esteve, até 1874,um relógio de sol muito célebre e muito troçado: a «Meridiana dos Remolares», apeada para que desse lugar ao monumento em homenagem ao Duque da Terceira.

Hotel Central, depois das adaptações sofridas por volta de 1920 |c. 1936|
Fachada S. sobre o Cais do Sodré e Travessa do Corpo Santo; Praça Duque da Terceira.
Mário Novais, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
MARINA, Tavares Dias, Lisboa Desaparecida, vol. 6, pp. 179-184, 1989.

Friday, 18 January 2019

Sete Rios

Como poderia haver sete «rios», que percorressem a curta zona compreendida entre o Jardim Zoológico (Estrada de Benfica) e a linha férrea (Campolide-Rego) ? Que «rios» foram ou eram estes? ¹


Lisboa possui dois casos do emprego toponímico do mesmo número redondo «sete»: Sete Rios, local onde, ao menos na época pluviosa, convergem vários cursos de água, e Alto dos Sete Moinhos, local onde se ergueram diversos moinhos de vento, de que ainda restam as ruinas.²

Sete Rios |196-|
Desvio das linhas dos eléctricos devido às obras do Metropolitano em Sete Rios; Estr. de Benfica.
Judah Benoliel, 
in Lisboa de Antigamente

O lugar de Sete Rios surge então — recorda o Guia de Portugal de 1924 —, na confluência de duas estradas, uma para O., chamada hoje Rua de Campolide, que leva à estação deste nome, e outra para E., que constitui a travessa das Laranjeiras. [...] O troço da esq. leva ao Palácio Farrobo com frente ao  Chafariz das Laranjeiras.
Uma linha eléctrica liga a Rotunda [actual Praça do Marquês de Pombal] com Benfica passando pela Avenida de António Augusto de Aguiar, Palhavã, Sete Rios, Laranjeiras, Cruz da Pedra e S. Domingos de Benfica.³
 
Estr. de Benfica vista da Rua de Campolide) |196-|
Antes do desvio das linhas dos eléctricos devido às obras do Metropolitano.
Judah Benoliel[?], 
in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
¹ Ocidente: Revista portuguesa de cultura, vol. 57, p. 2, 1959.
² O número redondo «sete» na toponímia lisboeta. Papeis de José Maria António Nogueira in Anais das Bibliotecas, Museus e Arquivo Historico Municipais, p. 107, 1931.
³ Guia de Portugal, 1924.

Sunday, 19 March 2017

Monumento a Dom Pedro IV

E lá está em cima, a 18 metros 27,5 metros de altura, no bronze «eterno», D. Pedro IV, em general, cobertos os ombros pelo «régio manto», cabeça coroada de louros.

Inaugurou-se em 13 de Abril de 1870, dia em que se comemorava o 44.° aniversário da outorga da Carta Constitucional. Ao Rossio foi dado o nome de Praça de D. Pedro, que não entrou em uso, pois sempre se adoptou a primeira designação.


Ergueram-se três pavilhões [3ª foto], destinados a família real, ao corpo diplomático, ministério e representação nacional e camarária e para a Corte. Eram todos forrados de pano azul e branco. Em plano levantado em anfiteatro colocaram-se algumas cadeiras. Flutuavam bandeiras. As tropas, comandadas pelo visconde de S. Tiago e brigadeiros Talaia e Rego, formavam nas ruas; a artilharia estava do lado do Amparo para o Rossio. As bandas regimentais tocaram o hino de D. Pedro IV. Cidadãos condecorados com a medalha da Liberdade ocupavam um recinto reservado. Os veteranos, que ostentavam a mesma honraria, formavam com as suas unidades. O soldado António José da Silva, que o imperador abraçara pouco antes do seu passamento, também ali estava e Saldanha quase que era aclamado. Era o herói a quem se devera, em grande parte, o triunfo da Causa Liberal.

Monumento a Dom Pedro IV [1869-70]
Construção do Monumento a Dom Pedro IV; Praça Dom Pedro IV (Rossio); Teatro D. Maria
Francesco Rocchini, in Lisboa de Antigamente

Pelas quatro da tarde, a família real tomou lugar no pavilhão. D. Luís vestia o uniforme de Caçadores 5 e a rainha D. Maria Pia, de azul claro e rendas brancas. O rei D. Fernando e o infante D. Augusto aguardavam-nos com a nobreza. O marquês Sá da Bandeira apresentou a el-rei os vogais da Comissão, o escultor Robert e o canteiro Germano Sales, que tratara da parte arquitectónica. O rei dirigiu-se para o monumento com seu pai e irmão, ministros, dignitários, e pôs-se a descoberto a obra que assinalava a glória do «Rei Soldado». Subiram girãndolas de foguetes, salvaram as fortalezas e navios de guerra. As bandas marciais tocaram o hino da Carta e assinou-se o auto, sendo oferecida ao rei a medalha comemorativa da cerimónia. Firmaram o documento alguns companheiros do imperador e outras pessoas pelos deveres do seu cargo. Depois do rei, da família real e do ministério, os nomes históricos da Causa Liberal dispersavam-se no documento, mas eram como luzes, aqui e ali, entre os quase anónimos. Brilhavam os nomes de Saldanha, Joaquim António de Aguiar, conde de Campanha, marqueses da Bemposta e Subserra, de Sá da Bandeira, da Fronteira e Ficalho e conde de Mafra, D. António José de Melo. Fontes Pereira de Melo figurava ao lado do marquês de Resende, o camarista e amigo de D. Pedro IV. Mais abaixo irmanava outro camarista, o visconde de Almeida. O povo aclamava muitos daqueles homens a quem devia a Liberdade. A noite iluminara-se o Rossio e as fachadas de todas as casas, ao que diziam os jornais. (...)

Construção do Monumento a Dom Pedro IV [1869-70]
Perspectiva tirada da Calçada do Carmo para a Praça Dom Pedro IV (Rossio)
Francesco Rocchini, in Lisboa de Antigamente

O monumento, nada famoso — observa Norberto de Araújo — , concepção dos franceses Elias Robert, escultor, e Jean Davioud, arquitecto, que venceram o concurso aberto, e no qual foram apresentados 87 projectos vindos de todos os pontos da Europa! A construção é de Germano José Sales.
O pedestal é de mármore de Montes Claros, e a coluna coríntia, canelada, foi arrancada de Pero Pinheiro; a base é de granito dos arredores do Pôrto. Essas figuras nos ângulos da base do pedestal representam a Justiça, a Prudência, a Moderação e a Fortaleza; quatro figuras, em baixo relevo, adornam a parte superior do fuste. O segundo envasamento é ornamentado com os escudos de dezasseis cidades do país.==

Inauguração do Monumento a Dom Pedro IV [1870]
A peça concebida para o antigo «Rocio» determina, à data, uma nova denominação toponímica, doravante Praça Dom Pedro IV.
Francesco Rocchini, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XII, pp. 67-68, 1939.
MARTINS, Rocha, Lisboa – História das Suas Glórias e Catástrofes, pp. 852-854, 1948.

Friday, 15 February 2019

Lojas de antanho: Ourivesaria do Socorro

Diz o olisipógrafo Luís Pastor de Macedo, em 1942, que esta Rua da Palma «[…] é antiquíssima, pelo menos do século XVI. Deve-se porém observar, que ela não tinha então o comprimento que hoje lhe conhecemos, mas só aquele que vai das trazeiras da Igreja de S. Domingos até ao antigo Largo de S. Vicente, à Guia [Rua Martim Moniz].[…]
Também não se julgue que ela, sendo tão estreita como actualmente é, era então tão larga. Nada disso. Ainda era mais acanhada: apenas um carreiro por onde cabia uma carruagem sem deixar espaço para outra, carreiro que chegou até ao último quartel do século XVII.»

Ourivesaria do Socorro |c. 1910|
Rua da Palma com a Rua de São Lázaro; Igreja do Socorro
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

O topónimo São Lázaro está ligado ao Hospital com o mesmo nome aqui situado. Este hospital era umas das mais antigas instituições públicas de assistência de Lisboa. O documento escrito mais antigo conhecido data de 1355. O hospital foi criado para nele serem recebidos os gafados e doentes do mal de São Lázaro e esteve ao cargo dos cavaleiros hospitalários de São Lázaro, ordem religioso-militar, cuja fundação em Jerusalém é do século XII. Os leprosos estiveram em São Lázaro até 1921 ano em que foram transferidos para o Hospital do Rego.

Ourivesaria do Socorro |c- 1908|
Rua da Palma com a Rua de São Lázaro; Igreja do Socorro
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
cm-lisboa.pt.

Sunday, 3 November 2024

Rua Filipe da Mata

Ao arruamento anteriormente designado por Rua Particular Neves Piedade (construtor civil que teve grande influência na construção do Bairro do Rego), com início na Rua da Beneficência e fim Estr. das Laranjeiras, foi atribuída a denominação de Rua Filipe da Mata, através do Edital de 6 de Agosto de 1927.
Luís Filipe da Mata (1853-1924) foi um político republicano, vereador da primeira Câmara Municipal de Lisboa republicana (1908) e deputado e senador no Congresso da República. Era membro da Maçonaria.

Rua Filipe da Mata com a Estr. das Laranjeiras |c. 1920|
Estr. das Laranjeiras vai da Avenida dos Combatentes até à Estr. da Luz tem o seu topónimo nascido da Quinta das Laranjeiras (Palácio Farrobo), onde, desde 1905, está instalado o Jardim Zoológico.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente
Nota(s): o local da foto não está identificado no arquivo.
Rua Filipe da Mata com a Rua Mário Castelhano |c. 1920|
Entre os dois renques de prédios (alguns ainda de pé) e paralela à R. Mário Castelhano, existe o viaduto da Avenida dos Combatentes - dístico de 1971 - e que tem início na Praça de Espanha e a Estr. das Laranjeiras e fim na Rua Prof. Egas Moniz.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente
Nota(s): o local da foto não está identificado no arquivo.

Mário Castelhano (1896–1940), que foi o último coordenador do secretariado da Confederação Geral do Trabalho e morreu em 1940 no Tarrafal, teve passados quase 39 anos, desde a publicação do Edital de 19/06/1979, uma artéria que o homenageia, na Freguesia das Avenidas Novas, no que era um troço da Avenida António Augusto de Aguiar entre as Ruas Dr. Álvaro de Castro e Cardeal Mercier, com a legenda «Sindicalista/1896–1940». [cm-lisboa.pt]

Sunday, 28 April 2019

Basílica dos Mártires

Estamos em face da Basílica dos Mártires, um dos templos de Lisboa de «categoria social» — que as igrejas também possuem por efeito de convenções ou da importância das suas irmandades. A Igreja dos Mártires, porém, vale pelo seu título, pela história da sua paroquial, pela sua ligação aos primeiros destinos de Lisboa.


A Igreja de Nossa Senhora dos Mártires, de tão ressonante nome olisiponense, é uma edificação integral do século XVIII, do risco do arquitecto Reinaldo Manuel dos Santos
A paróquia remonta ao ano da conquista de Lisboa; a sede principiou por ser uma pequena ermida dos Cruzados ingleses que auxiliaram D. Afonso Henriques na conquista de Lisboa, erecta no local — Monte Fragoso, que mais tarde foi o Alto de S. Francisco — onde aqueles cavaleiros tinham o cemitério dos seus «mártires», junto do acampamento situado a Poente da Lisboa sarracena.

Basílica dos Mártires |190-|
Rua Garrett
A Frontaria, constituída por dois corpos no sentido horizontal, cortados verticalmente por seis
pilastras da ordem dórica, das quais as extremas são duplas; e nela, ao cimo de alguns degraus;
 Frontão, em cujo tímpano se rasga um óculo iluminante.
Paulo Guedes, in Lisboa de Antigamente

O templo primitivo de Nossa Senhora dos Mártires foi várias vezes reedificado, ampliado e restaurado, nomeadamente em 1598-1602, 1629, 1686-1692, 1710, 1746-1750; assentava ao lado, sobre o rio, do convento de S. Francisco (no sitio ocupado pelo prédio que esquina da Rua Vítor Córdon para o Largo da Biblioteca [actual Largo da Academia Nacional de Belas Artes] e o Terramoto destruiu-o inteiramente. A paróquia estanciou depois por vários locais: numa barraca em Rilhafoles, na ermida dos Mártires, ao Rego, na de S. Pedro Gonçalves, ao Corpo Santo.
Em 1769, ou no ano seguinte, deu-se começo às obras do novo templo, situado na rua Direita das Portas de Santa Catarina, entre as ruas da Figueira e da Ametade (mas Garrett, Anchieta e Serpa Pinto actuais). Ainda por acabar foi benzida a nova sede paroquial em 18 de Março de 1774, mas só aberta ao culto em 5 de Agosto de 1786 (outros dizem em 1783). Só foi sagrada em 1866 (30 de Julho) após obras efectuadas nesse ano.

Basílica dos Mártires |1907|
Rua Garrett
O portal central, emoldurado de ombreiras trabalhadas na base do  capitel, e rematado, sobre a  verga, por  um  interes­sante baixo relevo, contido num medalhão, de mármore, obra de Francisco Leal  Gar­cia,  discípulo de  Machado de Castro, e que representa a dedicação do templo à Virgem, que a aceita de dois cavaleiros ajoelhados, um dos quais figura D. Afonso  Henriques, vendo-se ao fundo um trecho das muralhas ameiadas de Lisboa.  
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

A fachada, como vês, é simples e discreta (teve em tempos um adro fechado entre grades); as pilastras da parte inferior são de ordem dórica, aos de cima, sob o frontão, de ordem jónica. Com seus três pórticos, suas três janelas iluminantes, o seu óculo gradeado no tímpano — a frontaria dos Mártires parece-nos bem no semblante arquitectónico do Chiado.


Basílica dos Mártires |s-d.|
Perspectiva tirada do Largo de S. Carlos;
A torre sineira está colo­cada por detrás do edifício, sobre a Rua Serpa Pinto
Fotografia anónima



Basílica dos Mártires |195-|
Porta de ferro dourada que defende a capela baptismal
Mário de Oliveira
(clicar para ampliar)



A Basílica dos Mártires não é sumptuosa nem trivial. Impressiona bem sem deslumbrar. O tecto da igreja em pintura de Pedro Alexandrino com ornatos de Inácio de Oliveira, tem no centro a cena da dedicação do templo antigo a N. Senhora dos Mártires, e em volta os doutores da igreja.
O coro assenta sobre três arcos de pedra, sendo o do centro de volta abatida. Possui oito capelas por lado, e que vamos ver, a começar pelo lado esquerdo, logo a seguir à capela baptismal defendida por porta de ferro doirada com uma inscrição relativa ao primeiro baptismo realizado, em 1147 [vd. foto acima à dir. e NB.], no templo velho: de S. Brás, com painel de fundo deste santo, logo de Santo António, com painel de Santa Cecília, com painel representando a Santa de Joelhos, e a do Santíssimo; pela direita: de Santa Luísa com painel representando o sacrifício da Santa, de S. José, .cujo retábulo representa Cristo no Gólgota, de N. Senhora da Conceição, dando a pintura do fundo S. Miguel, e o de N. Senhora de Lourdes, com o Bom Pastor no retábulo. Todas as pinturas são de Pedro Alexandrino.

Basílica dos Mártires |195-|
Rua Garrett
O tecto em  abóbada de arco, em madeira, revestida de larga composição pictural, 
representando ao centro D. Afonso Henriques dedicando o templo à Virgem
acompanhado de um cavaleiro (Guilherme «da longa espada»), figurando-se ao alto Nossa Senhora,
 rodeada de  cruzados mártires e assistida por uma coroa de anjos, trabalho de  Pedro Alexandrino
 inspirado no desenho original do último tecto da anterior igreja, da autoria de  Vieira Lusitano.
Mário de Oliveira, iin Lisboa de Antigamente

N.B. O baptistério, defendido por uma porta de ferro, dourada, com inscrição repartida; no  batente esquerdo lê-se em maiúsculas: «NESTA PARÓQUIA/SE ADMINISTROU O/PRIMEIRO BAPTISMO», e no batente direito «DEPOIS DA TOMADA/DE LISBOA AOS MOU/ROS, NO ANO DE1147»; no  fundo do  baptistério vê-se  um quadro «O baptismo do Salvador por S. João» pintura atribuída a Pedro Alexan­drino.

Basílica dos Mártires |1973|
Rua Garrett
No Interior, de nave única, a Igreja reveste-se de nobreza de materiais; um nicho, sobre o  arco da capela-mor, no qual se situa, orientada para o  corpo da igreja, uma imagem setecentista do Senhor Jesus dos Perdões; Nos Mártires conservam-se algumas boas imagens setecentistas, entre as quais uma, escultura de J. J. Barros Laborão, que pertenceu a uma ermida que existiu no edifício do Tesouro Velho. 
Artur Pastor, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XII, pp. 96-97, 1939.
id., Inventário de Lisboa, 1956.
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